Zeca Pagodinho| ZECA PAGODINHO

Faixas
S.P.C. Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz
Coração em desalinho Monarco, Ratinho
Jogo de caipira Nei Lopes, Sereno
Se eu for falar da tristeza Beto gago, Zeca Pagodinho
Quando eu contar (iaiá) Beto sem braço, Serginho Meriti
Cheiro de saudade Sereno, Mauro Diniz
Pot-pourri 1) Hei de guardar teu nome 2) Vou lhe deixar no sereno 3) Macumba da nega 1) Arlindo Cruz, Adilson Cruz 2) Beto sem braço, Jorginho Saberás 3) Domínio público
Casal sem vergonha Acyr Marques, Arlindo Cruz
Quintal do céu Wilson Moreira, Jorge Aragão
Cidade do pé junto Zeca Pagodinho, Beto sem braço
Judia de mim Zeca Pagodinho, Wilson Moreira
Brincadeira tem hora Zeca Pagodinho, Beto sem braço
Ficha técnica
RGE, 1986
Produção Milton Manhães
Arranjos Maestro Ivan Paulo, Mauro Diniz
Mixagem Loureiro, Fernando
Foto Oskar Sjostedt
Montagem e edição Wilson Medeiros

Entrevista com Zeca Pagodinho

Qual foi o seu primeiro contato com o samba, você admirava algum artista?

A vida já me trazia nesse caminho, eu me interessava por música, não só por samba; por exemplo, lembro quando morreu o Jackson do Pandeiro. Com 13, 14 anos, eu pegava as capas de discos do João Nogueira, da Clara Nunes, para ler os créditos, a ficha técnica – hoje, eu entro no estúdio e o Dino sete cordas, um cara que eu cansei de ler o nome na capa dos discos, vai tocar comigo! Também gostava de ficar no meio dos coroas e ver os malandros e bicheiros batendo com a caneta no bloquinho e versando um para o outro. Eu não sei por que fazia isso, era algo fora do meu tempo. Na adolescência, eu não ia aos bailes de black music, que eram moda, nem mesmo se as minhas namoradinhas quisessem ir, agora, se tivesse uma batucada, até macumba servia.

Quais os nomes da música brasileira que sempre te acompanharam?

Monarco, Paulinho da Viola, João Nogueira, Martinho da Vila, Beth Carvalho, Roberto Ribeiro, muita gente. No subúrbio era legal você ter os discos assim que lançavam, porque quem aprendesse a cantar era chamado para as festas e se tornava o artista do quarteirão. Era importante conhecer as músicas que estavam tocando, mexer com um violãozinho, um tamborim. Nós íamos a duas, três festas por noite, as pessoas convidavam com antecedência e nós chegávamos nos sentindo importantes.

Quando você descobriu que podia compor?

Já na adolescência eu gostava de fazer versinhos; quando nasceu uma vizinha, eu escrevi para ela. Era fã de Nei Lopes e Wilson Moreira, na época do “Mel, mamão com açúcar”, e lembro muito do samba-enredo “Independência ou Morte”, que tocava às seis horas da manhã numa rádio. Tenho rádio até hoje: na varanda, no meu quarto, estou sempre ligado na Tupi, na Globo, na MPB, gosto muito de AM também, de ouvir reportagem de madrugada. Quando estava montando o repertório de Vida da minha vida, queríamos uma música antiga que fosse boa, mas não tivesse pegado e ouvi “Poxa”, do Gilson de Souza, antes da Ave-Maria que é transmitida às seis da tarde, na AM. Antes da oração sempre toca uma música antiga ou alguma coisa que dá na telha, as vezes Almir Guineto, Elza Soares, até músicas do meu primeiro disco.

De onde veio a sua facilidade para fazer versos?

A minha onda é fazer versos.  Eu queria compor, não ser cantor ou o artista Zeca Pagodinho. Tanto que hoje eu componho bem menos, só de vez em quando, na época de fazer disco, aí me reúno com o Arlindo Cruz, o Dudu Nobre, ligo para o Jorge Aragão, mas as pessoas também somem muito, a gente sempre marca, mas no dia surgem coisas para fazer e quando eu ligo para dar uma desculpa, eles também já têm outra pronta. Quando cismo, ligo para o Arlindo e digo que estou passando lá. Aí sai um samba, mas depois preciso de dois dias para recuperar a alma, escutamos muitos discos, falamos para caramba, lembramos do Cacique de Ramos e da nossa história.

Que profissões você exerceu antes de se tornar cantor?

Quando eu era novo, precisava sempre esperar o fim de ano para pintar a casa, trocar um móvel, comprar uma cama ou um sofá. Por vezes, vi meu pai desempregado e triste. Teve uma vez que minha mãe estava pregando um estrado de uma cama que havia quebrado, então eu saí e fui até a Benafer, por sorte, estavam precisando de um office boy e comecei a trabalhar com 13 anos.

Depois trabalhei em vários lugares com carteira assinada, tenho uns oito anos de registro. Trabalhei também no jogo do bicho, que faz parte da nossa cultura carioca. Ali era tudo misturado: malandros, sambistas. O Monarco também já foi bicheiro, aliás, a maioria dos sambistas quando estava dura pegava um talãozinho e ia “escovar”. Fiquei uns três ou quatro anos no jogo e depois veio a música e com a gravação de “Camarão que dorme a onda leva” pela Beth Carvalho, em Suor no rosto, surgiu o Zeca Pagodinho.

Como você se envolveu com o universo da música?

Primeiro comecei a frequentar a Velha Guarda da Portela, onde só havia gente do samba. Conheci o Arlindo na cidade, onde um cara chamado Almir tinha uma salinha com todos os instrumentos que você possa imaginar: violão de seis e de sete cordas, cavaquinho, bandolim, sax, piston… Ele tinha um aparelho 3 em 1 que gravava e até fazia playback e prestava esse serviço de emprestar uma fita cassete, arranjar alguém para fazer o cavaco e gravar. Quando a Beth Carvalho estava para lançar um disco, todos os compositores iam lá porque não tinham nem dinheiro para a fita cassete, quanto mais para o gravador a pilha. Numa dessas ocasiões encontrei o Arlindo e deixei com ele a letra de “Dez mandamentos”, que foi a nossa primeira música, gravada por Walmir Lima, lá na Bahia. Depois surgiu o pagode do Arlindo e nos aproximamos mais. Nessa época já existia o Cacique de Ramos, mas lá a coisa era dos caras que já gravavam, como o Almir Guineto, o pessoal do Originais do Samba e o Fundo de Quintal, e nós ainda estávamos querendo ser alguém. Digamos que éramos escoteiros, o Cacique de Ramos era o exército e a Velha Guarda, os coronéis, generais. Quando o Arlindo me chamou para ir ao Cacique, não sabíamos se iam nos deixar cantar, mas falei para aproveitarmos se dessem um mole. Então, na primeira roda, nós ficávamos atrás, escutando, e quando eles levantavam para tomar uma água ou bebida, nós pedíamos para tocar algo. Eles reclamavam um pouco (aquele negócio de segurar direito o instrumento, não colocar no chão), mas logo começaram a perceber que havia outra geração bacana chegando.  Quando a Beth Carvalho gravou “Camarão que dorme a onda leva”, eles se renderam e conseguimos conquistar os mais velhos, o Beto sem Braço já estava fazendo samba conosco – o que nunca imaginamos, só um bom dia dele era um troféu –, o Almir também começou a fazer parcerias, me levou para São Paulo, aí deslanchou tudo.

Vocês notavam alguma diferença entre o que o som que o pessoal da diretoria do Cacique fazia e o de vocês?

O Cacique parecia mais com a gente, a Velha Guarda não. Lembro uma vez o Lenir foi tocar um tantan lá e o seu Aimar falou: “Não vem com esse negócio do Cacique de Ramos para cá”. Não era nem o instrumento, era a levada. A Velha Guarda fazia um samba bem lento, com introdução. Eu não tive dificuldade, porque como sempre todo mundo foi logo gostando de mim, o Arlindo também não, ele já frequentava a Velha Guarda com o pai, tinha tocado com o Candeia, mas outros parceirinhos passavam um sufoco com eles.

Mas tinha diferença nos instrumentos também? Por que um pessoal trocou o cavaco pelo banjo e o surdo pelo tantan?

A relação com os instrumentos era outra na Velha Guarda. O Seu Leitão, um pretinho velhinho, de uns oitenta e poucos anos, chegava na roda de samba, todo domingo na Doca, abria um negócio de couro, tirava o ganzá, um chocalho de escola de samba, passava uma flanela, depois disso que começava a tocar. O Nei Lopes até fez a música “O ganzá do seu Leitão”. Na Velha Guarda era com surdo, reco-reco, cavaquinho – banjo nem pensar. Quem inventou essa história foi o Almir Guineto, que deve ter encontrado o instrumento, afinado e saiu tocando. Mas o som dele era muito bom, estava em tudo que é disco na época. Tem alguns músicos que tem uma boa levada também, como o Arlindo, o neto da Dona Ivone Lara, André, o Fred Camacho, mas eu não sou fã de banjo, quando vou à casa do Arlindo peço para ele pegar o cavaquinho. Quando você chegava no Cacique de Ramos, de longe percebia a quantidade de instrumentos. Era muita gente tocando, mas mesmo assim você ouvia o cara cantar – hoje em dia, se você for a um samba e não tiver um microfone…

Que outras mudanças aconteceram?

Acelerou muito o tempo, a batida ficou mais forte e o samba passou a ser cantado mais rápido. Isso é algo que eu brigo: estou muito velho para cantar correndo! É preciso cantar samba devagar, para ouvir os violões. Não dá nem tempo de tocar direito, quanto mais brincar com a melodia.

O som que vocês estavam fazendo ganhou o nome de pagode?

Pagode, na realidade, é sinônimo de festa, mas como toda a festa que você faz sempre tem um samba, um violão, inverteram a coisa. Pagode não é um gênero musical.

Beth Carvalho é uma figura importante em sua carreira?

Na carreira de todo mundo, porque a Beth trouxe o samba para a mídia. Ninguém dava importância para samba, mas desde o momento que nós chegamos no pagode do Arlindo, na Tia Doca, já éramos conhecidos no meio. A Beth foi ao Cacique, viu aquela batucada e teve a sacada de dizer que aquilo era genial, fora do normal, um marcando o tempo com o outro na intuição. O Cacique tinha uma coisa diferente dos outros terreiros que já conhecíamos, é um caboclo forte da família do Bira que tem lá, aquela tamarineira tem segredo! Enquanto a roda estava rolando, sempre dois ou três estavam terminando um samba. A música nascia ali, era cantada e já emplacava – tínhamos as nossas pastoras: Marcia Black, Sueli, Marcia Pretinha, Nadia, Marília. Dali o samba também ia para outros bairros, porque os partideiros trocavam composições: eles ensinavam o samba deles e aprendiam o dos outros e cada um espalhava todas as músicas por onde passava. Às vezes você chegava a algum lugar e o seu samba já estava acontecendo por lá. Mas ninguém falava dessas músicas no rádio ou na televisão, até que “Camarão que dorme a onda leva” virou clipe no Fantástico e a minha vida decolou. Eu perdi a minha liberdade – já acordava com gente dentro da minha casa, fotógrafo, paparazzi – mas ganhei um espaço bacana e vários amigos que também trabalham comigo vieram junto.

Quando vocês faziam partido-alto no Cacique, muitos deles permaneciam e eram gravados depois, ou só aconteciam naquela hora e se perdiam?

Nós gravávamos. No refrão, por exemplo, tem muita coisa que já vinha de antes, coisas antigas que se cantavam sem saber de onde era. Os versos nunca gostei de repetir – aprendi isso com seu Aniceto. Até hoje, mesmo se for durante uma gravação, cada vez que gravar eu faço um verso novo.

É possível dizer que havia uma corrente alternativa do samba, totalmente fora da cobertura da mídia?

Não sei, é complicado até hoje, o samba só entra na novela quando é um personagem que é 171 ou a cena se passa na favela. Para a abertura ou para o personagem bacana, pegam alguém da MPB. Mas também acho que o nosso lugar é nesse cantinho, cada um na sua e vamos seguindo a vida.

A sua participação em “Camarão que dorme a onda leva” chamou a atenção da indústria fonográfica?

Foi uma confusão que me arrumaram, porque eu falei para a Beth que não sabia cantar. Me mandaram assistir a gravação do disco mesmo assim e quando vi o Rildo Hora, já imaginei que ele me daria um esporro, porque eu não era cantor. Mas ele foi lá, com o jeito dele, me dizendo como era para fazer e saiu. Depois, teve um show da Beth Carvalho no Asa Branca, que era o top de linha na época, precisava ter bagagem para entrar lá. Foram me buscar em casa e eu estava estranhando tudo aquilo, disse que não subiria ao palco, mas me levaram para o camarim, deram uma camisa para eu vestir e quando percebi, já estavam abrindo a porta ao lado que dava no palco e anunciando o meu nome.  Na saída, briguei com uma namorada e fui parar na 5ª DP – o pessoal do Fundo de Quintal foi todo lá para me soltar. Que noite gloriosa, do palco do Asa Branca para o xadrez no 5º DP! [risos]

Como surgiu o nome “Zeca Pagodinho”?

Eu vivia em Irajá, na casa dos meus tios, que era um lugar muito musical, com bons sambistas. Havia o bloco Boêmios de Irajá e o meu primo, Beto Gago, tinha uma ala em que eu era mascote, quando tinha 13, 14 anos, chamada “Ala do Pagodinho”. Minha fantasia era costurada pela minha tia com o que sobrava da fantasia dos outros e eu saía no bloco com eles. Uma vez, meu irmão arranjou 50 pessoas de Del Castilho para sair no bloco, todo mundo na Ala do Pagodinho, e os caras ficaram nos chamando de pessoal do Pagodinho. Minha primeira música foi com o Claudio Camunguelo, um negão grande para caramba, que trabalhava no porto como estivador e era flautista. Nós concorremos no Fest Samba em 1982, na Portela, e estávamos à procura de um nome: Jessé Silva, Zeca Silva, Seca Silva – meu apelido em família é Seca, não Zeca. Um dia, estava indo para casa com ele, em Del Castilho, e quando descemos do ônibus um cara disse: “Fala, Pagodinho!”. O Camunguelo achou aquele nome bom e o colocou, mesmo contra a minha vontade.

“Bagaço da Laranja” foi gravada no disco Raça Brasileira, de 1985, e arrebentou. Qual a história dessa música?

Esse disco vendeu muito e por causa dele todo mundo foi fazer o próprio disco. A história aconteceu quando o Arlindo casou e fomos fazer a mudança para Marechal – o sogro do irmão dele trabalhava na companhia de água, então pegamos um caminhão da prefeitura. Chegando lá, estava prometida uma feijoada, mas quando acabou a mudança, vi um galão de lixo só com as laranjas chupadas e pensei que se nem a laranja tinha mais, imagina o feijão. Aí comecei a encarar o Arlindo, começamos a versar, e de uma brincadeira saiu a música.

Como apareceu o convite para gravar o disco?

Eu não sei de nada não, quando vi, já estava lá. Eles vinham me buscar na favela, num barraco qualquer, eu não me lembro dos detalhes, só de escolhermos o repertório. Foi o Milton Manhães quem escolheu a gente, foi na gravadora, fez a proposta do Raça Brasileira ao Bruno Coalho, que era da editora Sigem, ele aceitou e liberaram a grana. O Bruno me deu um trabalho danado, pois cismou que eu devia colocar “A Vaca” no disco, que o Almir Guineto tinha acabado de gravar. Eu fiz uma porrada de música no estúdio, como “Garrafeiro”, ele gostava, mas sempre mantinha “A Vaca”, que no final entrou mesmo, eu conversei com o Almir e ele falou para eu meter bronca.

Fala um pouco desse compositor importante que é o Beto sem Braço.

Ele era uma figura, mas já era bravo e tal. Na maioria dos sambas que fazia com os parceiros ele tirava onda: “Vou te dar uma primeira, hein?”. Nós fazíamos muitas músicas, mas também, não tinha outra coisa para fazer, ainda era aquela época de estar namorando, desmanchar noivado, aí cada acontecimento era um samba novo. A vida era um caô danado, as mulheres brigavam, pelo amor de Deus… mas se eu pudesse, voltava nesse tempo!

O disco foi lançado em 1986. Havia espaço para o samba na década de 1980? 

O lançamento foi uma porrada, vendemos 800 mil cópias. A partir desse disco eu saí do porão, mas gente para caramba trabalhou nele, então o mérito não é só meu. Não tinha espaço para o samba e nem hoje tem – gravo vários programas e quando passam os melhores do ano, o samba nunca está lá, nem nas chamadas de comercial. E se colocarem, pode apostar que o Ibope vai ser bacana.

O disco te proporcionou uma agenda de shows gigante?

Pois é, e eu não estava preparado para isso porque não tinha compromisso com nada, nem um gato para dar sardinha. Às vezes eu me perdia, não aparecia nos programas de televisão. Até hoje eu preciso de alguém que me lembre o que tenho que fazer, eu não abro agenda e nem sei ligar computador. De vez em quando eu sumo, mas agora eles já sabem que vou tomar uma cervejinha no Terreirão, uma comunidade que tem aqui mais pra cima. Acho que dou mais trabalho à Monica, minha mulher, do que todo mundo, porque ela também tem filho, tem neto.

Como você vê esse primeiro trabalho hoje?

Esse foi um disco de total liberdade, se a música era boa, entrava. Hoje é preciso ter mais cuidado, se preocupar com o hit – sempre tem duas ou três faixas que o Rildo chama de “coringão”, para não ficar um disco de uma música só. Graças a Deus, todos os anos meus discos vão acontecendo e todas as músicas vão sendo tocadas, assim eu me mantenho e também mantenho os compositores, porque eu quase não gravo mais música como autor, eu virei uma loteria para o compositor.

A história de S.P.C é verdadeira?

É um fato real, que aconteceu com uma namorada, a mesma com quem eu tinha brigado e sido preso no Asa Branca. Todo samba que eu ia, ela dava um jeito de aparecer, chegava e botava para quebrar. Eu falava que ela estava se metendo no meu trabalho, mas ela não acreditava nessa história, talvez porque nem a gente acreditasse – não fazíamos samba para ficar rico e fazer sucesso, mas porque gostávamos. Todo mundo trabalhava, o Arlindo tinha emprego na Caixa Econômica, eu vivia no meu mundinho, de vez em quando com trabalho, de vez em quando no jogo, o Ubirany é fisioterapeuta. Então eu disse que ia aparecer no banco em que ela trabalhava, chegar lá bêbado e falando um monte de palavrão, mas depois pensei que poderia ser preso de novo. Como ela não podia ter nome sujo, lembrei de umas roupas que ela tinha feito o crediário para mim, aí veio a ideia do samba. Na época ela disse: se eu chegar no samba e estiver tocando essa música, vou parar com tudo. Mas hoje ela é minha amiga e a gente até ri muito dessas histórias, no final eu paguei o crediário, só ameacei não pagar.

“Coração em desalinho”, do Mauro Diniz e do Ratinho, você toca em todos os shows até hoje?

Essa música na verdade é do Monarco e Ratinho, saiu com o nome do Mauro porque o Monarco já estava com uma conta muito alta na editora e o cara que pagava não queria dar o dinheiro a ele. Então ele colocou o nome do Mauro no disco e o Mauro deu o dinheiro ao pai.

Quando cheguei com o repertório do disco num gravador, em Irajá, minha tia, que gostava muito de música, estava lavando roupa e, ao ouvir “Coração em desalinho”, falou: “Sequinha, que música bonita!”.  Fui me arrumar para sair e quando voltei, ela já estava cantando a música, então eu falei que a gravaria no disco. Essa música era para o Martinho da Vila, pois eu estava só começando e se ele gravasse, o dinheiro seria maior. Mas aí o Monarco resolveu acreditar em mim e deu a música para que eu gravasse. Eu a guardava sempre como um trunfo.

Fala mais sobre o repertório.

“Jogo de Caipira” é justamente sobre o jogo que eu trabalhava e ninguém sabia – se minha mãe e meu pai soubessem, morriam do coração. Mas um dia, tocou no rádio “Depois do temporal”, gravada pelos Originais do Samba e o locutor me entregou, disse que eu estava trabalhando com jogo do bicho. Quando cheguei em casa, estava todo mundo bravo, mas eu expliquei que não estava roubando ninguém, aquela coisa, e aí surgiu a música. A letra fala das malandragens do jogo, traz vários ditados e os pregões que são cantados pelo banqueiro, como “Eu vou fechar, olha o peso no pano”, “Quem joga com os olhos só ganha remela”, “A repetida é que mata o doente”, “Cisco em olho de cego é remela”, “Dois patinhos da lagoa”.

Não posso esquecer de “Cheiro de saudade”, que é uma grande música do Sereno e do Mauro Diniz. Com ela fiz muita gente chorar, até hoje! O Mauro sempre faz arranjos nos meus discos, eu divido entre ele, o Paulão, o Rildo, assim não fica tudo igual e todo mundo ganha uma verbinha. Na época do disco, eu tinha que fazer duas sessões no Teatro Suam, a fila dava voltas. Eu fiquei morando lá e no Asa Branca, meu filho recém-nascido dormia no camarim.

Ao que você atribui a longevidade desse repertório?

Acredito que antes se compunha com mais carinho, agora o cara já pensa em virar artista, comprar um carro, não tem mais aquela coisa de fazer um samba porque brigou com a mulher. Eu canto 100 sambas-enredo da década de 1970 e não canto um do ano passado.

Como todo gênero que dá certo na indústria fonográfica, o pagode passou por uma fase comercial na década de 1990. O que você achou disso?

Eu não posso falar muito não, tem gente que também não gosta do samba que eu canto e preciso respeitar. Essa onda de pagode não nos preocupou porque estávamos acostumados a ficar no nosso cantinho, o samba é assim mesmo, uma hora ele vem, na outra, desaparece. Eu não ouvia e não conhecia as músicas, mas meus filhos cantavam e eu até achava legal, sempre respeitei todo mundo e se me chamassem para gravar com eles, iria sem problema. O importante é fazer música, que é assim que a gente dá emprego para muita gente: o cara que vai carregar a mala, o porteiro, o motorista do ônibus. Na minha banda são 42 pessoas e tenho que pensar nas famílias de todos eles.

Em 2006, você disse: “Tradição é fundamental; sem ela, o samba não seria o que é hoje. Não podemos esquecer de adubar a raiz, já que a tendência do moderno é deixar o passado de lado, a gente precisa manter a referência das gerações anteriores sempre por perto.” Como é isso?

No meu caso, por exemplo, o Rildo põe muito metal e teclado nos arranjos e não tem problema, dá até uma roupagem bacana para o samba, contanto que você não tire os violões de 7 cordas, o cavaquinho (até deixo botar um banjo, que é meu compadre Arlindo quem toca), a cuíca, o agogô. A pancada come firme no meu disco. Eu também sempre coloquei nos discos o pot-pourri da Velha Guarda, que o Monarco trazia.

Como você explica a sua longevidade como artista, já que é um dos grandes nomes da música brasileira nas últimas décadas?

Qualidade. Embora não pareça, eu sou enjoado com as coisas, quero saber quem está tocando, quero escutar os tamborins. Sei que o Rildo faz tudo perfeito, mas às vezes eu faço alguns pedidos a ele.

Você acorda cedo?

Na Barra não, porque não tem nada para fazer aqui, mas em Xerém eu gosto de acordar cedo, ver o dia e os passarinhos. A não ser quando a gente cai numa folia mais forte, aí fica complicado no outro dia. Mas em Xerém, geralmente, é muita comida, muito papo furado, quase nada de música, só na escolinha com as crianças. Em casa, às vezes boto Jackson do Pandeiro ou Luiz Gonzaga, para animar as cabras e os cabritos.

Entrevista com Mauro Diniz

Como você conheceu o Zeca Pagodinho?

Foi em 1978, fui morar coincidentemente perto da casa dele, que era em Del Castilho, Cachambi. Antes, conhecia o Meco, irmão dele, que tinha um tantan e gostava de tocar. Comecei a ter contato com o Zeca na época do Cacique de Ramos, quando o pagode foi uma grande explosão e o grupo Fundo de Quintal gravou um samba meu. Naquela época, a gente se encontrava muito nos pagodes: eu, o Zeca, o Arlindo Cruz. Eu tinha um pagode em Oswaldo Cruz, aos sábados, chamado pagode da Beira do Rio e o Zeca era um freqüentador assíduo, ali fomos formando uma amizade. Depois eu voltei para o Oswaldo Cruz e, de vez em quando, o Zeca aparecia lá na minha casa. Assim a nossa amizade foi crescendo.

O que te chama mais atenção o compositor, o cantor ou o versador Zeca Pagodinho?

Tudo o que o Zeca faz é bom. Ele compõe bem, é um excelente letrista, versa bem, é um personagem hilário, tem um carisma muito grande, tem um coração magnífico. Entre os parâmetros da música e do samba, o Zeca conseguiu se sair bem em todos e qualquer posição que você o coloque, ele vai se sair bem, com certeza.

Quais afinidades musicais vocês tinham e que culminaram na parceria de vocês?

O Zeca era fã do papai, ele morava perto da rua Suburbana, onde passavam as conduções, e o papai pegava justamente um ônibus ali. Quando o Zeca via o papai, ele entrava no ônibus e ficava o alugando para que cantasse os sambas que gostava. Uma vez o papai até me perguntou quem era o magricela que sentava e pedia para ele cantar. O Zeca é fã da Velha Guarda da Portela e a ela está presente em todos os seus discos. Como eu sou portelense desde pequeno, isso também nos uniu. Quando a gente se encontrava nos pagodes, de repente ele vinha com uma música começada, ou eu vinha e lhe mostrava, e assim nos tornamos parceiros. Devo ter uns quatro ou cinco sambas com ele. No disco Raça brasileira temos dois sambas, eu comecei e o Zeca fez quase tudo, porque naquela época ele estava num período fértil, você dava um pedacinho e ele saía destrinchando tudo em cinco minutos. Uma vez, estávamos em São Paulo, e chegou o Pedrinho da Flor, parceiro nosso, que estava com uma primeira. Lembro de estar fazendo a melodia, daqui a pouco, o Zeca começou a colocar a letra em “Menor abandonado”. Foi um dos sambas mais rápidos que a gente fez, em cinco minutos. Mas o Zeca é meio elétrico, eu já sou um pouco mais calmo. Eu já não vou muito nos pagodes, ele também não, pela figura que é. Nossos sambas foram bem aceitos na época e somos parceiros até hoje, pelo menos em pensamento, no coração. De vez em quando a gente se fala por telefone, ele é padrinho da minha filha, Juliana Diniz.

Você participou do primeiro disco dele, fazendo os arranjos e é co-autor em uma das faixas. Você também opinou no repertório?

Não. Costumo falar que o Zeca veio na contramão, ele não ligava muito para isso e não imaginava o sucesso que iria fazer.  O Raça Brasileira, produzido pelo nosso querido Milton Manhães, tinha a Jovelina Pérola Negra, a Elaine Machado, o Pedrinho da Flor, o Zeca e eu – era aquele famoso pau-de-sebo – mas o disco foi muito bem aceito e cada um que participou ficou de fazer um disco solo. Como as faixas que o Zeca gravou se sobressaíram, ele seria o primeiro, também produzido pelo Milton Manhães. Eu morava na Cabeça de Porco, uma ruazinha em Oswaldo Cruz, naqueles quartos para rapaz solteiro e o Zeca sempre ia lá. Fomos escolher o repertório e tirar os tons e o próprio Zeca colocou várias músicas no disco, teve o “S.P.C”, que é dele e do Arlindo Cruz, além de Serginho Meriti, “Coração em Desalinho”. Tinha “Cheiro de saudade”, que eu fiz com o Sereno, o único samba romântico que ele gravou com a Ana Clara, que cantava muito. Como era na época do vinil, dividi os arranjos com meu mestre Ivan Paulo, fiz seis faixas, e o disco foi um sucesso, todas as músicas tocaram, ele vendeu mais de 1 milhão de cópias. O lançamento foi no clube Minerva, no rio Comprido, se não me engano, e o trânsito parou, foi uma loucura, a gente não entendia muito bem o que estava acontecendo na época.

Como era o seu relacionamento com o Milton Manhães?

Foi bom e até hoje é, apesar de ele estar um pouco afastado do mercado. Ele foi um dos grandes responsáveis por muita gente, já produziu quase todos os grandes artistas da época: Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, grupo Fundo de Quintal, Almir Guineto, o primeiro disco do Arlindo Cruz, se não me engano. Idealizou muitos projetos bons e, se o samba está no nível que está, devemos agradecer ao Milton Manhães, que nem sempre é lembrado como deveria. O nosso relacionamento é muito legal, é de irmão, é que o Zeca teve que seguir a carreira dele e teve outros produtores, como o Jorge Cardoso, e parou na mão do nosso grande mestre Rildo Hora, que dispensa qualquer comentário.

Fala um pouquinho dos arranjos que você fez para as músicas desse disco.

Penso que ao fazer arranjo, você se torna parceiro. Sempre gostei de estudar, na época tinha feito vários cursos com o Ian Guest, também executava, tocava cavaquinho em quase todas as gravações. Era engraçado porque, até então, o músico que tocava cavaquinho e era sambista não sabia ler música, nem as técnicas usadas para se fazer arranjo, mas eu persisti e consegui fazer um trabalho que foi do agrado das pessoas, tanto que continuei fazendo arranjo até hoje. Fiz arranjo de todos os discos do Zeca, da Jovelina também. Arranjo é você analisar a melodia, harmonizar, contrapontear, vestir essa melodia com uma introdução, um meio de música e um final. Tudo com bom gosto e a benção de Deus, porque Deus abençoa a gente nessas horas e eu sou uma pessoa muito temente a Ele, então todas as coisas que faço, em todos os segmentos da minha vida, primeiro peço a ajuda de Deus para que me ilumine e eu faça um bom trabalho.

Como foi a estreia no disco do Zeca?

Foi sem compromisso algum, porque nem o Zeca tinha compromisso com nada. Foi feito bem à vontade, como se estivéssemos na roda de pagode. O Zeca, nem se fala, porque eu não lembro se ele tinha ido à praia e dormido lá, mas nós ficamos procurando e ele estava dormindo enrolado num tapete – até hoje ele é assim, não gosta nem de fazer voz-guia, prefere que o compositor vá e faça. Ele continua a mesma pessoa, a única coisa que mudou é que não pode estar em determinados lugares que antigamente frequentava. Ele até vai, porque encara, mas não gosta muito da abordagem dos fãs. Mas é a mesma pessoa – você encontra o Zeca na praia, conversando com aqueles cachacinhas que ficam ali. Ele foi para Xerém e lá todo mundo gosta dele. Enfim, ele é um artista singular e tudo vai dando certo para ele, graças a Deus, e que continue dando certo para a eternidade, porque ele merece. Foi um disco feito com o coração e eu digo que um disco tem alma, desde que você deixe o músico tocar com as próprias características, não se pode tolher muito, porque se não vai se perdendo a criatividade. O que dá vida ao disco, a alma, se caracteriza ao deixar o músico colocar sua arte para fora, fazer alguma coisa que não estava nem escrita. O disco ultrapassou 1 milhão de cópias, foi um sucesso de crítica, público, vendagem – foi “o” disco. Nas rádios, só se ouvia Zeca Pagodinho, nos pagodes então, o disco inteiro era tocado. Nós, que acreditamos nele, principalmente o papai, com “Coração em desalinho”, ganhamos um dinheirinho legal. Naquela época, todo mundo dependia exclusivamente de edição de música. O Zeca também não queria nem saber, pedia uma grana para assinar e depois que gravasse, o restante já ficava com a gravadora.

Qual a importância desse disco e da figura do Zeca para o pagode?

Foi fundamental para o pagode, porque o Zeca era um amigo nosso, que estava sempre conosco e levou muita gente com ele, principalmente eu, minha família – ele gravou muitas músicas do meu pai. Essa casa aqui, a criação da minha filha, eu devo a ele. Costumo dizer que o Zeca carregou e ainda carrega muita gente nas costas, no bom sentido.

Com esse disco e com o pagode de raiz aconteceu uma espécie de renascimento do samba?

O disco é um divisor. Quando comecei a tocar, ia para o Teatro Opinião com papai e via Cartola, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Candeia, Padeirinho, enfim, os grandes sambistas, que se reuniam ali às segundas-feiras. Depois dessa geração, mais ou menos perto, veio o Wilson Moreira, Nei Lopes, e na seqüência veio a nossa geração, com Almir Guineto, Jorge Aragão – eu ainda sou de depois. A garotada chegou fazendo um samba legal, bonito, de qualidade, tanto que as pessoas não questionavam, teciam os melhores comentários, na realidade, a levada era um pouquinho diferente daquele samba antigo, que era o samba de terreiro. O samba de terreiro é o samba que se tocava e cantava no terreiro das escolas de samba, como “Isolado do mundo”, que as pastoras aprendiam e cantavam. Quando chegamos, aconteceu mais ou menos isso também, porque íamos para o Cacique de Ramos e se eu fizesse um samba novo, mostrava para as pessoas, que aprendiam, as pastoras cantavam e se formava aquela roda, sem microfone, sem nada. No pagode da Beira do Rio nós também fazíamos nossos sambas, que iam tomando conta da cidade, como um que eu fiz,  “Parabéns pra você”, e vários artistas frequentavam esses pagodes, como a Beth Carvalho, o Zeca, que não tinha gravado na época, a Jovelina, o Jorge Aragão. Tudo isso foi tendo uma sustentabilidade muito grande, não se tratava de um samba de raiz autêntico, que nem o papai fazia e os compositores cantavam, mas é um samba que se perpetuou também pela qualidade da letra, da melodia, da música. Há diferença na levada também, os sambas mais antigos, como “Tive sim”, do Cartola, ou “Sentimento”, do Mijinha, “Tudo menos amor”, do papai, são sambas criados dentro do terreiro. Os nossos foram criados dentro de um bloco, que era o Cacique de Ramos – a proposta era a mesma, mas a levada um pouco diferente, porque era uma coisa mais romântica, tinha o Sombrinha também, grande compositor, que fazia uns partidos-altos maravilhosos. Mas nós conseguimos algo muito importante, que ainda não se deram conta, que foi fazer com que as pessoas não sentissem tanta falta daqueles grandes compositores. Obviamente, ninguém vai substituir um Cartola ou Nelson Cavaquinho, mas nós chegamos do nosso jeito, com aquilo que sabíamos fazer, demos nosso recado e fomos bem aceitos.

Quais dessas faixas você destacaria?

De cara, “Coração em desalinho”, porque é um samba que está aí até hoje, é cantado por todos. Outro samba que eu gosto é “Quintal do céu”, do Wilson Moreira com o Jorge Aragão. Também destaco o “S.P.C”, do Arlindinho, e o “Cheiro de saudade”, que é o único samba dolente gravado nesse disco, tem o “Quando eu contar (Iaiá)”, do Serginho Meriti. Na realidade, se formos falar desse disco, não terminamos hoje, todas as músicas são boas, tocaram e tocam até hoje – você chega nos pagodes e tem que tocar essas músicas,  que fazem parte do currículo dos pagodes do Rio de Janeiro e do Brasil.

Você acompanhou de perto a criação de “Coração em desalinho”?

Essa música foi um samba-enredo que o papai tinha feito para o Jacarezinho, mas que tirou de disputa, porque achava que o outro samba era melhor – o dele era meio triste, com uma melodia melancólica. Mas, segundo ele, a melodia o ficou perseguindo, não saía da cabeça e uma vez falou para o Ratinho, que estava dirigindo para uma editora. O papai solfejou e chegando lá, dedilhou, começou a cantar a música e assim surgiu essa samba antológico, o samba do século, que todo mundo conhece, desde as crianças, os adultos, as pessoas de idade. Eles foram muito felizes e o Zeca também, pois, na realidade, esse samba era para o Martinho da Vila, porque o Zeca era estreante e não sabíamos se ia vender, mas o Manhães pediu a música e eles deram e faz sucesso até hoje.

Conta alguma das histórias engraçadas que envolviam o Zeca.

O Zeca é o artista que mais tem história para contar e continua armazenando histórias até hoje. A nossa vida era uma coisa muito natural, o próprio Zeca não tinha dimensão da potencialidade dele como artista, compositor e intérprete. Apesar de ter uma voz pequena como Paulinho ou Cartola, ele divide o samba como ninguém, pega a música e coloca no jeito. A gente não tinha carro e, uma vez, eu estava no quartinho onde morava, ele apareceu pedindo para tomar um banho, mudar de camisa, e nós fizemos um samba naquele dia. Saímos cantarolando, mostrando para a Tia Doca, para a Jane. Era o sábado do desfile das campeãs, mas ainda não tinha o Terreirão do Samba, eles chamavam de barraca da Mangueira, então fomos para lá cantar o samba. Pegamos um ônibus e fomos conversando para não esquecer o samba, o Zeca colocou o pé no capô do ônibus – era proibido e o motorista pediu para ele tirar, mal sabia que estava falando com o futuro superstar Zeca Pagodinho.

Entrevista com Ubirany

Como funcionava o pagode no Cacique de Ramos? 

O pagode começou com uma pelada que jogávamos às quartas-feiras. Depois do jogo, minha falecida mãe, dona Conceição, mandava sempre servir um prato que o pessoal já comia tomando uma cervejinha e a gente cantava, brincava, mexia com um e com o outro, versava um partido-alto. Éramos um grupo de amigos tão fechado que consumíamos a bebida e íamos colocando as garrafas dentro da caixa vazia, para só no final, quando acabasse o pagode, fazer a conta e dividir entre nós. Aí a coisa começou a crescer e surgiram uns malandros que curtiam o pagode, comiam, bebiam e na hora de fechar a conta não estavam mais lá, e tivemos que mudar esse esquema, colocar uma pessoa pra vender, porque senão era bater palma para maluco sorrir. O pagode foi crescendo, crescendo, e se tornou tradicional. Aquele lugar inicialmente nosso se transformou num reduto de sambistas, porque as escolas de samba estavam numa fase das disputas de samba-enredo e não se cantava mais samba de quadra, então os compositores ficaram sem um lugar para mostrar os sambas novos. O Cacique passou a ser o lugar em que o compositor podia mostrar o seu samba e a Beth Carvalho e outros artistas, como Martinho da Vila, Alcione, estavam lá, escutando esses sambas todos.

E o bloco, como era? 

O bloco é a coisa mais linda, a nossa paixão. Nós fundamos o Cacique de Ramos em 1961, numa brincadeira que virou coisa séria. Eram três grupos de rapazes que saíam pelo carnaval e o bloco foi a união das famílias Félix do Nascimento (Bira, Ubirany e Ubiraci), Oliveira (Walter, Chiquita, Sereno, Alomar, Jorginho e Mauro) e família Espírito Santo (Aymoré e Conceição). A Chiquita e a Betinha sugeriram “Cacique de Ramos” por conta de todos os nomes indígenas.

E como vocês se tornaram o grupo Fundo de Quintal? 

Foi por conta dessas brincadeiras que aconteciam às quartas-feiras e pelos pagodes de fundo de quintal nos nossos amigos, as festinhas aqui e acolá. Inclusive, no dia em que surgiu a ideia do nome, estávamos montando um pagode de fundo de quintal na casa da Elza Soares, que morava ali em Jacarepaguá, para os lados da Freguesia. O Valdomiro, produtor da Tapecar, uma gravadora antiga com sede em Bonsucesso, sugeriu Fundo de Quintal, já que estávamos tocando em todos os quintais dos amigos, e o nome soou muito bem em nossos ouvidos.

Quem estava na formação original? 

Bira presidente, Ubirany, Sereno, Neoci, Jorge Aragão, Almir Guineto e Sombrinha.

Vocês já tinham consciência de que estavam fazendo algo novo, diferente do que era feito no samba? 

Não, nós brincávamos, ninguém tinha noção do que estava acontecendo, de que se tratava de um movimento, algo diferenciado dentro do samba. Estávamos acostumados a ver grupos de samba com a formação percussiva de surdo, agogô, reco-reco, e, de repente, chegamos com o tantan fazendo o tempo da marcação, o repique de mão suingando, e o banjo, instrumento de música country, adaptado para o samba pelo Almir Guineto. Se você tocar o repique de mão com o surdo vai ficar bom, mas legal mesmo é com o tantan, porque o tempo forte do tantan tem um casamento legal com o repique de mão. Mesmo se juntar os três instrumentos, precisa ter o tantan ali no meio. Foi uma coisa muito gostosa e muito instintiva, porque nenhum de nós estudou música. Fizemos aquilo sem perceber e era uma grande inovação, tanto que agora os grupos são formados a partir dessa estrutura, o que é marcante, é a nossa maior gratificação.

Como o Zeca Pagodinho apareceu no Cacique de Ramos? 

O Zeca é uma figura, aquele cara que aparece do nada e de repente está do seu lado, curtindo com todo mundo. Assim como o Luiz Carlos da Vila, ele chegou brincando e versando numa daquelas rodas de partido-alto. O gozado do Zeca é que ele é moleque, brincalhão, está sempre fazendo bagunça, mas por incrível que pareça, os versos dele na hora do partido-alto eram todos com poesia, não era com gozação de ninguém.  Foi por volta de 1983, já que ele participou do disco da Beth, Suor no rosto, com “Camarão que dorme a onda leva”. Ele teve muita facilidade de entrosamento com o pessoal do Cacique, começou a compor, fazer parcerias – não era muito de desfilar no bloco, curtia mais o pagode, então onde tivesse um bom pagode você encontrava o Zeca.

O Zeca impressionou com o disco de 1986, Zeca Pagodinho, em que, da primeira à última música, todas foram sucesso, tocaram nas rádios e foram cantadas nos pagodes. Desculpe a falta de modéstia, mas nessa época você só ouvia tocar Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho. Foi um boom mesmo, inclusive, nesse ano o Fundo de Quintal ganhou o primeiro disco de platina, com Mapa da Mina. Já como profissional, me lembro dele chegando ao Cacique uma vez em que teria que fazer uma viagem: a roupa estava numa sacola de papelão, ele tomou todas com a gente e quase perdeu a viagem. Coisas de Zeca Pagodinho! Mas é um parceirão mesmo, uma das grandes figuras do nosso meio.

Como era a capacidade de improviso do Zeca versando? 

Era impressionante. É que ele nunca levou a sério, brincava um pouco e já saía, porque poderia ter sido um dos grandes partideiros. As improvisações eram lindas.

Como era a relação dele com o Fundo de Quintal? 

Muito legal, ele sempre se relacionou bem com todo mundo, aliás, eu nunca vi o Zeca bater de frente com ninguém, apesar de ele adorar fazer tipo. Ele é um cara amigo, parceiro de todo momento, sempre disposto a ajudar quem está com problema.

Como surgiu a ligação do Zeca Pagodinho com a Beth? 

Também aconteceu no Cacique, com a convivência, até que ela o convidou a participar desse disco, em 1983. Ali começou a grande amizade entre os dois, nós somos uma família.

Já imaginava que o disco do Zeca fosse estourar? 

No estúdio foi uma emoção só. Assim como o Fundo de Quintal, o Zeca faz a festa no estúdio: a gente comia, bebia (eu sempre gostei de tomar um quentinho e ele trazia para mim), cada faixa que terminávamos a base era uma alegria, porque tudo estava acontecendo de verdade. Parece que essa alegria, o espírito de confraternização, a energia no momento da gravação passam para o disco.

O Zeca deu trabalho para gravar? 

Ele dava trabalho. Já vi o Zeca faltar em compromisso com a Globo para ficar no aniversário do Beto sem Braço, em Curicica – uma festa daquelas, com muita comida e bebida, pagode rolando, tudo acontecendo. Hoje em dia, até me impressiona, porque se você marcar um horário no estúdio, meia hora antes ele estará lá, sem atrasar. É outro Zeca. Agora é uma pessoa pontual, séria, chefe de família, vovô. [risos]

Quais músicas desse disco você gosta? 

Gosto do repertório todinho, não tem uma música só, são todas, de cabo a rabo. Elas foram muito bem gravadas e aceitas e eu fui um dos que aceitei de coração aberto as 12 faixas. Esse disco foi bom para o samba e bom para nós. O Zeca tornou o samba mais respeitado, ele arrasou, do ponto de vista musical, e todos nós, sambistas, somos muito gratos a ele pelo o que ele e esse disco significaram. Foi mesmo um momento mágico para o samba.

O sucesso do disco foi importante para a trajetória do pagode e o sucesso de vocês? 

Foi importante para a decolagem do samba. Eu não gosto de situar o pagode como um gênero musical, pagode para mim é uma reunião de pessoas para cantar samba e o Paulinho da Viola já dava essa aula em “No pagode do Vavá”: “Domingo, lá na casa do Vavá, teve um tremendo pagode que você não pode imaginar…” Mas é normal que chamem assim, no boom do Fundo de Quintal começaram a dizer: “eu vou num fundo de quintal” e muitas vezes isso deu problema, pois não éramos nós que estávamos lá, era um fundo de quintal qualquer que aconteceria e o grupo não estaria lá.

Eu sei que todo mundo está cantando samba, cada um com seu jeito, e que isso é legal, mas o Zeca Pagodinho, a Beth Carvalho, nós, do grupo Fundo de Quintal, não vamos abrir mão do nosso estilo de cantar samba. Se pegar uma música que fez sucesso há três anos, as pessoas nem vão lembrar, porque era música de trabalho, cantada e massificada na cabeça. Quando subimos ao palco, cantamos “Prazer da Serrinha”, “Boca sem dente”, músicas do primeiro disco, que todo mundo vem junto assim que você faz a introdução, isso não é gostoso? Tem a ver com a qualidade da música, a música boa fica. Um dos nossos grandes orgulhos é ver que as músicas dos nossos primeiros discos são cantadas até hoje. No show fazemos sempre um pot-pourri com a nossa história musical e isso é muito gratificante.