Sidney Magal | SIDNEY MAGAL | Polydor, 1977

Magal- a capa certa
Sidney Magalhães, carioca de1950, foi criado em berço artístico. Por pressão familiar, chegou a estudar canto operístico durante três anos, mas começou em boates. Descontente com o primeiro compacto, uma versão de “Love story”, sob o nome de Sidney Ross, aproveitou o convite de uma companhia de espetáculos e viajou para a Europa, em 1970. Ao fim do contrato, percorreu um circuito de bares e boates na Itália, Suiça, Áustria e Alemanha, já com o sobrenome encurtado para Magal (“tinham dificuldade com a pronúncia de Magalhães”). De volta, em 1973, atuou em “O Rio amanheceu cantando”, ao lado de Elizeth Cardoso, Quarteto em Cy e MPB-4, show que motivou o convite do produtor Jairo Pires para gravar na Polydor. O primeiro compacto, já dirigido para o padrão musical pop latino, “Se te agarro com outro te mato”, não emplacou. E aí o empresário argentino Roberto Livi entrou em cena.
 O próprio Livi escancarou seus métodos a O Globo, em 1978: “Temos que fazer este disco acontecer. Eu sabia que a música era agressiva, vista como de mau gosto, mas este tinha que ser o trunfo”. Estourado o compacto, chegou a vez do LP de estréia, de 1976, atulhado de versões, uma delas de Paulo Coelho (“No futuro, no presente”). “Queria ver as multidões gritando meu nome, me aclamando. Não me importo que os fãs me agarrem, rasguem minha roupa, me passem a unha. Eu quero é sucesso, assumo isso. Não vou ficar reclamando que fui usado, como muitos cantores que tem por aí”, defendeu o cantor.

Tárik de Souza

 

TRIPAMAGAL

FAIXAS

BELA SEM ALMA (BELLA SENZ’ANIMA)
Luberti, Casella, Cocciante, v. José Augusto
MEU SANGUE FERVE POR VOCÊ (MELANCOLIE)
C. Carrere, J. Arel, M. Pancol, v. Serafim Costa Almeida
LHE CHAMAM JESUS (LE LLAMAN JESUS)
P. Ortega, v. Livi
CHAU, CHAU ADEUS (CHAU CHAU ADIOS)
Raul Abramzon, v. José Augusto
A MOÇA (LA NIÑA)
Leon Fransen, Mandy v. Sebastião Ferreira da Silva
TE AMO, TE AMO (TE QUIERO, TE QUIERO)
A. Alguero, Rafael de León, v. Sebastião Ferreira da Silva
COMO ROMEU E JULIETA (COMO ROMEO Y JULIETA)
F. Espínola, v. Bentana
AMANTE LATINO (AMANTE LATINO)
Rabito, v. Antonio Carlos
RECORDO-ME (RECUERDAME DESDE EL PRIMAR MOMENTO)
Abel Montenegro, Rodolfo M. Regunaga, v. Clovis Melo
A VIDA É SEMPRE IGUAL (LA VIDA SIGUE IGUAL)
Anderle, Sandro, v. Lula
NO FUTURO, NO PRESENTE (CUANDO QUIERAS, DONDE QUIERAS)
C. D’Amico, v. Paulo Coelho
SE TE AGARRO COM OUTRO TE MATO (SI TE AGARRO CON OTRO TE MATO)
Cacho Castaña, v. Jean Pierre

FICHA TÉCNICA

Produção

ROBERTO LIVI

Sidney Magal

Na sua família, nós temos nomes de várias pessoas importantes. Algumas na música, outras no cinema. Vamos falar dessa moçada que, na verdade, são todos artistas.

Quase todos, porque, segundo minha avó, quando eu era criança, fazia questão de dizer que na nossa árvore genealógica constava Duque de Caxias. Então eu acho que Duque de Caxias não tinha uma veia artística. Mas, de qualquer maneira, vamos dizer que tenha sido assim, o único nome que eu vi da família mais austero, com uma outra personalidade, enfim, com uma outra função. Os demais, a grande maioria, sem dúvida com uma veia artística muito grande. E eu acho que comecei a cantar por causa disso. Porque eu tinha uma tia pianista, eu tinha um tio avô que foi o compositor de algumas músicas da Carmem Miranda, o Anibal Cruz. Minha tia pianista, que foi a maior incentivadora, porque eu ia pra casa dela e ficava cantando, fazendo gracinhas e ela me acompanhando no piano. Minha mãe, que sem dúvidas foi à grande responsável. Porque ela começou realmente pra despontar numa carreira. Ela começou fazendo um programa muito famoso no Rio de Janeiro, na rádio nacional, chamado Papel Carbono, do Renato Murce, um grande comunicador da época. E ela entrou num concurso e ganhou esse concurso como a melhor voz mexicana, que ela cantava muitos boleros e tal, em espanhol. E meu pai proibiu que ela continuasse com a carreira porque tinha que casar ou optar por uma carreira artística. Então, sem dúvida, minha mãe foi à maior incentivadora, foi à pessoa que chegou do meu lado e disse “olha, eu não fui artista de sucesso, mas você será”. E o mais famoso de todos, que eu me orgulho muito, Vinicius de Moraes, que é primo irmão de minha mãe. Quer dizer, a mãe dele é minha tia avó também. E Vinicius, apesar do contato restrito que nós tivemos, porque Vinicius era aquela pessoa brilhante, porém muito louco, morava um pouco aqui, um pouco ali. Largou muitas profissões pra poder ser o compositor que foi, e o poeta que foi. Então, de repente, convivi um pouco com ele. Um conselho dele foi muito importante pra mim. Quando eu cheguei pra ele e disse “Vinicius, você compôs uma música que eu acho que tem, assim, um pouquinho a ver comigo. Tem a ver com essa minha coisa de dançar, de me expressar, assim…”. Que era “Na Tonga da Mironga do Kabuletê”. “Será que você não quer me dar isso pra gravar?” Ele disse “Olha, primo. Deixa eu te dar um conselho? Você com essa figura, se eu tivesse esse visual, essa beleza física, essa jovialidade… Eu não ia querer saber de gravar “Na Tonga da Mironga do Kabuletê”. Você tem que ser um artista popular, de muito sucesso. Com um gênero popular. E tirar proveito disso, que você vai ficar milionário. Não entre na MPB.” Foi uma pessoa que me deu um conselho, na época eu achei estranho, achei que era conveniente a ele. Mas depois eu compreendi que realmente ele via que eu podia seguir num gênero mais popular e conseguir um sucesso maior. Então essas são as pessoas famosas e gostosas da minha vida, familiares muito interessantes.

Mas, Magal, se você não tivesse sido cantor, ator e etc., você teria sido o que? Antes da música aparecer na sua vida, quais eram os seus interesses?

Isso é muito interessante, porque eu comecei, realmente, a cantar e me dedicar à música com 13, 14 anos de idade. Já muito cedo. Antes disso, a única coisa que passou pela minha cabeça, quando eu tinha, eu acho que, uns dez anos de idade, é que eu deveria, de qualquer maneira, estudar arqueologia. Eu queria ser arqueólogo. Que tem a ver com arte, obviamente. Você tem aquela vontade de descobrir mundos novos. De apresentar uma arte antiga, uma coisa histórica. Olha só, uma criança de dez anos pensar em arqueologia é uma coisa meio pirante.

Mas algum livro te fez a cabeça, né?

Não exatamente. Era uma coisa de paixão pelas coisas e informações que eu tinha na época. Porque com dez anos de idade eu nem era muito de leitura e nem fui a vida inteira muito de leitura. Mas eu sempre fui muito de pegar muitas informações de toda parte que me vinha. E quando lia alguma coisa de arqueologia, ou quando via alguma foto, eu dizia “caramba, isso aí é interessante demais. Eu quero ser um arqueólogo.”. E era desestimulado porque os professores diziam que arqueologia no Brasil era muito pobre, era muito fraca e não me levava a lugar nenhum. Então eu desisti muito cedo e comecei a cantar muito cedo também.

Como é que foi esse contato com a música? E quando é que foi que você realmente sacou que “é isso aí que eu quero fazer”?

Eu costumo dizer que o artista, pra ele ser verdadeiramente artista, ele não percebe as coisas que vão acontecendo ao longo da sua vida. As coisas simplesmente acontecem. O artista que é artista, ele não fica sentado programando “mês que vem, eu vou gravar um disco e tenho certeza que a música tal…” isso não existe, as coisas acontecem. E foram acontecendo mesmo. Essa minha tia que tocava piano encontrou uma vez um empresário, se eu não me engano… O sobrenome dele eu não vou lembrar agora, mas eu acho que era Werneck, alguma coisa Werneck. E eu era muito jovem e ele era um cara interessado em descobrir talentos e elas ligaram pra esse cara e convidaram pra que ele fosse à casa delas e me escutasse cantar. E aí ele escutou e disse “ah, tem chance. Vamos levar ele pra televisão”. E esse meu tio, Hugo Brando, que era ator de televisão também, disse “não, lógico. Eu vou apresentar ele em alguns programas. Vamos começar a fazer a carreira desse menino, porque ele canta direitinho, bonitinho e tal.”. E aí eu comecei a me empolgar. Eu digo “ah, eu vou. Lógico que eu vou. Vai ser legal”. “Você é muito bonito, você é muito alto”. Tudo isso pra criança, pra adolescente é muito interessante. E aí eles foram me incentivando e eu comecei a me apresentar nos programas da TV Excelsior, da TV Rio, o início da TV Globo, 1965. Eu comecei a me apresentar nos programas musicais de lá. Não conhecido como Sidney Magal. Mas foi daí que eu comecei a me apaixonar realmente pela música. A mãe por trás incentivando, e essas primeiras pessoas que me levaram aos primeiros programas de televisão. Eu acho que foi ali que eu comecei a sentir o gostinho do sucesso, vamos dizer assim

Já estava, praticamente, trabalhando nisso.

Já estava. Porque eu me dediquei a isso. Eu dizia “é isso que eu quero”.

Você acabou estudando canto muito tempo, né?

Muito tempo. Sete anos com Fernanda Gianetti, uma das maiores professoras de canto que o Rio de Janeiro teve. Ela era filha de um grande maestro, Gianetti. Maestro italiano, de uma orquestra de música clássica, italiana e tal. E foi muito interessante. E eu fiquei sete anos estudando canto, impostação, colocação de voz. Ia pra lá, fazia exercício. Quase me transformei num cantor lírico.Por isso que eu tenho esse vozeirão assim…

Isso, de certa forma, influenciou o que viria depois?

Com certeza. E essa própria professora disse “Sidney, só tome cuidado. Porque a música clássica ou a música lírica, a ópera no Brasil, não é das melhores coisas”. O Paulo Forte, que foi um grande cantor de ópera brasileiro, ele dizia “não siga adiante, você vai passar fome”. E aí eu comecei a partir pro popular e achar que podia, realmente, usar o meu vozeirão na música popular também. Me ajudou bastante, de uma certa forma.

Mas você parou [as aulas de canto] por alguma razão específica?

Não. Dona Fernanda ficou muito doente, ela começou a ficar muito doente, faleceu depois. E eu fui parando, parando, não queria ter aula com mais ninguém. Achei que não precisava, fiquei com medo de ficar com a voz muito lírica e me transformar num cantor de música popular. Quer dizer, no meio termo eu me segurei por ali. Eu acho que parei por isso.

Essas apresentações nos programas de televisão que você citou. Que programas eram esses e o que você cantava?

Eu cantava cada coisa! Olha, eu tenho algumas coisas muito interessantes. Por exemplo, existia um programa no Cassino da Urca, que era a TV Tupi, chamado “A grande parada”. Apresentado pelo Jerry Adriani e pelo Wanderley Cardoso. E eles não conseguiam levar grandes sucessos, ou seja, artistas de muito nome, sempre no programa. Então precisavam de alguém para cantar os sucessos desses artistas. Então eu me vi cantando na grande parada com, sei lá, 19 ou 18 anos de idade, cantando “Ponteio”, “Alegria, Alegria”, “Domingo no Parque”, “Esqueça”. Todas as músicas que entravam nessa parada, e que os representantes oficiais não podiam ir ao programa, eles colocavam um cantor pra fazer a música. E eu cantei muito nesse programa apresentado pelo Jerry Adriani e, às vezes, pelo Wanderley Cardoso. Cantei num programa na TV Excelsior, por exemplo, chamado “I Love Lucio”. Que era apresentado pelo Lucio Mauro e pela Arlete Sales, que eram casados na época, faziam esse programa e o meu tio me levou pra que eu cantasse uma música. E eu fui cantar uma música americana, “I’ve got you under my skin”. Não esqueço nunca mais do “The four seasons”. E aí colocaram corpo de baile e eu cantando “I’ve got you under my skin”. Felicíssimo da vida, garotão, já com a oportunidade de fazer essas coisas. Enfim, todos os programas que se apresentavam pra mim, esses foram muito importantes, sem dúvida. Todos eles.

Além dessas apresentações nesses programas de televisão, você também já começou a adquirir uma experiência cantando na noite carioca, não foi?

Cantei, cantei. Comecei muito cedo a cantar na noite. E esse repertório que era totalmente eclético. Eu tinha paixão, aliás, sempre tive, pela música italiana. Porque era uma música mais romântica na época. E a mesma influência que teve Jerry Adriani, que começou cantando música italiana também. E aí cantava música americana, cantava música francesa, cantava samba, cantava rock. Eu, na noite, cantava de tudo. E eu testava muito o público. Meu grande sucesso da noite, acredite você, principalmente nas churrascarias onde eu cantei era “Granada”. O pessoal levantava na churrascaria, jogava rosas no palco, era uma loucura. Então eu tinha, realmente, um repertório muito eclético. Eu não tinha me descoberto. Eu tava a procura de quem, na verdade, era eu. Cantava Bossa Nova, mais intimista, de uma forma mais suave.

Nessa época apareceu o convite pra você gravar um compacto, raríssimo na CBS.

Raríssimo. O artista se chamando Sidney Rossi. Era o meu nome artístico, não era Sidney Magal. E esse Rossi por quê? Por causa do Rossini Pinto, que era o diretor artístico e o produtor do meu disco. Então o Rossini foi praticamente quem me deu a oportunidade. A música era “História de Amor”, versão de “Love Story”, que foi um grande sucesso na época, com o Wanderley Cardoso. Eles queriam colocar na praça um outro artista, cantando de uma outra maneira. E que eu achei até deselegante. Tanto achei deselegante, e não achei de boa qualidade a gravação, que em seguida fui convidado pra ir embora pra Europa, com o grupo folclórico, e eu fui embora. E abandonei esse disco e nem considerei o disco o primeiro da minha carreira, porque pouca gente sabe da existência desse disco. Gravei, e fui pra Europa. Fiquei um ano e meio na Europa. E aí foi que nasceu o Magal, por vários motivos.

Você foi pra Europa fazer o que, exatamente?

Uma empresária italiana veio ao Brasil pra levar um grupo folclórico brasileiro, com bailarinos, bailarinas e tal, e um cantor pra cantar música popular brasileira. Em teatros e boates lá. Apesar da intenção dela ser outra, nós descobrimos só lá, que era levar as mulheres e mulatas brasileiras praticamente pra se venderem no exterior, essa era a verdade do que ela pretendia. Eu fui como cantor, então não corria esse risco. E chegando lá, comecei a cantar em boates, em shows onde ela produzia. Com o balé folclórico brasileiro, com cafezal, com maculele, macumba, enfim. E eu cantava só música popular brasileira. Quando nós brigamos com essa empresária, quando descobrimos a real intenção dela, nós nos afastamos e começamos, por conta própria a nos vender em certos locais na Europa. Itália, Áustria, Alemanha, Suíça, enfim. E aí, um empresário italiano, dono de uma boate, chegou pra mim e disse assim “mas, vem cá, Magalhães, na língua italiana, não é pronunciado. A gente fala Magalais e olhe lá! A gente não tem nem como pronunciar. É feio demais. Por que não corta o Magalhães no meio e deixa Magal, que até na China, na Índia vão pronunciar muito bem?” E eu disse “é, pode ser”. Topava qualquer coisa. E eu digo “ta ótimo. Magal é uma beleza”. E ali nasceu o nome Magal. E aí a minha característica de interpretação foi nascendo pela quantidade de gêneros que eu cantava. Cantava rock italiano, cantava opereta italiana. Fazia os meus shows pela noite, variadíssimo. Então eu fui começando a pegar os trejeitos, a interpretação excessiva, agressiva, enfim, a dança. Porque ninguém me conhecia. Era um público que não podia me criticar, só podia me elogiar “que cara estranho, brasileiro, diferente, né?” e ali nasceu Magal.

Quais foram as suas referências ali, Magal?

Obviamente que eu me inspirava e sempre foi uma grande paixão, a música italiana. E ainda mais estando lá na Itália, então eu pegava o repertório de Mina, de Lucio Battisti, enfim. E eu fui tendo muito essa influência. E eu acho que quanto a expressão corporal, e mais no subconsciente do que propriamente querendo ser, Tom Jones era o meu ídolo.

Tom Jones?

É. Era e é o meu ídolo. Então quando as pessoas dizem assim “ah, você tem uma coisa do Elvis, de mexer a pélvis e etc”. Eu dizia “não, gente. Não é. É o Tom Jones, é o inglês Tom Jones que faz a minha cabeça. Porque ele tem um vozeirão muito bonito e tem uma masculinidade, talvez até maior do que a do Elvis. Nas suas apresentações aquilo me atraía muito. Então eu acho que eu fiquei muito levado pelo Tom Jones na minha expressão.

Magal, depois que esse empresário italiano, que chama-se Navarro te batizou, praticamente, você curtiu o batismo.

Curti, né?! Eu achei que ele tinha razão, principalmente naquele momento ali. E que poderia ser usado depois, pro resto da minha carreira. Quando eu voltei ao Brasil como Magal, foi facílimo.

Você acabou voltando pro Brasil. Acabou essa temporada.

É, acabou. Fiquei um ano e meio e algumas, obviamente, decepções. Porque você tava ali pra ganhar dinheiro, pra fazer alguma coisa muito melhor. Foram muitos problemas. Primeiro o bailarino do grupo se acidentou, teve um acidente muito feio. Teve que voltar correndo pro Brasil. As meninas dispersaram, algumas arrumaram namorados italianos e etc. E eu fiquei meio que abandonado, sem saber o que fazer. Quando eu ingressei numa banda chamada “I Romantici” com músicos italianos, excelentes músicos, são meus amigos até hoje, graças a Deus. E eles me disseram “vem cantar com a gente? Vem ganhar um troco aqui. Vem cantar com a gente”. E eu fiquei cantando com eles mais alguns meses até voltar pro Brasil. E voltei pro Brasil para recomeçar a carreira.

Você chegou no Brasil, já era Sidney Magal. Como é que você recomeçou a vida?

No Rio de Janeiro. Acho que foi mais fácil. Porque você sabe como é que nós, brasileiros, somos né? Os empresários, donos de casas noturnas, eles chegavam e diziam “internacional Sidney Magal”. Eu tinha estado um ano e meio na Europa. O internacional Sidney Magal, eu cantei, obviamente, pra um público muito pequeno, um público muito restrito. E não tão importante pra voltar com essa fama toda. Mas o “internacional Sidney Magal” cantando músicas americanas, italianas e tal se apresenta na churrascaria tal, na boate tal. E assim foi. Aí eu comecei, imediatamente, a fazer muito sucesso na noite. E fui muito elogiado pela imprensa na época. Simplesmente dividia a noite com Emílio Santiago, com Alcione, com pessoas da maior competência e maior importância, justamente porque a gente tinha chão. A gente tinha escola pra poder se apresentar, pra poder fazer alguma coisa. E foi uma época maravilhosa, porque foi na noite que eu comecei, realmente, a ter as grandes oportunidades. E ser elogiado pelos jornalistas da época, que diziam “existe um cara, muito jovem, que canta muito bem”. E aí eu passei por Carlos Machado…

Foi nesse momento que o pessoal da Phonogram, Jairo Pires, te viu? 

Não foi exatamente isso. É que muitas coisas se falaram na época. E às vezes não davam nome aos bois exatamente como deveria ser dado. Eu fui descoberto, sim, por um inimigo meu. Olha que loucura. Eu cantava numa casa noturna, não vou dizer o nome, nem precisa também, já nem existe mais, e esse rapaz era um cantor de samba. E eu digo inimigo porque ele tinha um certo despeito de eu ter aparecido, voltado da Europa, cantado na casa onde ele cantava como cantor internacional e ele não gostava muito de mim, ele tinha meio que um ciúme, era uma coisa meio assim. E, através dele, eu recebi um comunicado um dia tipo “Magal, eu estive na Poligram, na Phonogram Philips, e eles estão precisando de um cantor boa pinta, que cante legal. E eu falei do teu nome, falei que te conhecia”. Mas ele falou num tom meio assim, sabe? “estou te dando oportunidade”. E eu disse “legal, bicho!”. Porque, graças a Deus, eu sempre tive humildade pra essas coisas. Então eu disse “Caramba, que legal! Posso ir lá”. “Pode! Eu vou perguntar se eles querem que você apareça lá, pra fazer um teste de gravação”. E eu digo “com certeza, faço! Gravo quantas músicas forem necessárias”. E aí fui levado ao pessoal, Jairo Pires, enfim, Roberto Menescal, que também era da gravadora. Fui levado até essa gente que disse “olha, nós temos uma proposta. Mas você está vindo de um show “O Rio amanheceu cantando”, ao lado de Elizete, MPB4, Quarteto em Si, não sabemos qual é a sua intenção. Mas temos uma música aqui chamada “Si te agarro con otro te mato” em espanhol, que tem uma versão “Se te agarro com outro te mato” e que é uma coisa muito popular. Não sei se você vai se adaptar. Quer gravar?”. Eu digo “quero, eu quero testar tudo, quero ver quem está com a razão”. Eles disseram “então vamos pro estúdio fazer uma gravação de teste ‘Oh Very young’ do Cat Stevens. Você vai gravar a versão “O Velho Sonho” e nós vamos fazer esse teste pra ver se vai ser aprovado”. Aí eu esperei o tempo que tinha que esperar, até quando eles vieram com a notícia. “Olha, vamos te contratar porque você cantou muito bem no teste.” Eu acho que fui bem, porque eles pegaram o teste e colocaram no lado B do compacto. Colocaram “Se te agarro com outro te mato” de um lado e “Oh Very Young” do outro. Então eu fiquei muito feliz, porque digo “aquele teste foi muito bem, né?”. Porque eles não pediram nem regravação do teste. Achei isso maravilhoso. E foi o meu primeiro compacto, “Se te agarro com outro te mato” e “O velho sonho”.

Essa gravação é a que já está nesse LP aqui ou você regravou?

O “Se te agarro” foi aproveitado, realmente e “O velho sonho” foi descartado depois.

Você foi pra fazer um teste na Phonogram. E esse teste virou compacto. Você não voltou lá pra concluir a produção. Foi de prima?

O “Se te agarro” eu realmente já coloquei voz. Eles já tinham a intenção de transformar essa música num “hit”, ou tentar, pelo menos, transformar num “hit”. Agora, “O Velho Sonho” foi, realmente, o teste que eu fiz que ficou. Eles talvez não tinham uma opção melhor na época e disseram “olha, vai essa música mesmo. Vamos ver, porque a forte é o ‘Se te agarro com outro te mato’”. E o “Se te agarro” não funcionou como compacto simples. Eu comecei a ter os primeiros problemas. Porque era uma música muito cafona, segundo todos os críticos, e diretores e produtores de televisão. A TV Globo, inclusive, foi a primeira a dizer “Deus me livre!” Walter Lacet, me lembro muito bem disso, “Ih, não dá pra apresentar isso não. Isso é muito cafona. estou fora!”. E começaram a dizer não, não, não pra gravadora. A gravadora foi desanimando. Até surgir na gravadora Robert Livi, que aí é a pessoa que tem uma importância magistral na minha carreira.

Vamos falar dele. Ele é um empresário argentino. Como foi que ele chegou em você? Como foi que ele te conheceu?

O Livi, quando entrou pra gravadora, como produtor de discos, produtor musical, ele foi convidado a conhecer o casting, enfim. Apresentaram todas as gravações feitas, inclusive “Se te Agarro com Outro te Mato” e Peninha. Enfim, todos os cantores que tinham sido contratados naquela época. E o Livi começou a selecionar. Ele escolheu Peninha e cruzando comigo no corredor ele disse “Caramba, você é o cantor de ‘Se te Agarro com Outro te Mato’?” Porque ele tinha escutado na reunião o CD. Eu disse “sou”. Ele disse “caramba, mas peraí. Não tinham me explicado tudo direito. A sua imagem é uma monstruosidade. A música pode não ser grandes coisas, mas a imagem é fantástica. Vamos aproveitar você, de qualquer maneira, pra estourar esse disco”. E a gravadora “não, mas o disco não deu certo. Ninguém quer, ninguém aceita, é muito cafona, é muito brega, é muito…”. Daí ele disse “não, mas a imagem do cara é desconhecida. Tem que ser conhecida. Porque ele vai ser sucesso através da imagem, muito mais do que da música”. E aí foi que eles começaram a partir pra um outro caminho, ou seja, SBT, Silvio Santos, Raul Gil, que eram os comunicadores mais populares. E aí quando eu comecei a me apresentar no programa do Raul Gil, praticamente foi o primeiro. Aí o Walter Lacet ligou e disse “bicho, vocês não explicaram que o cara é esse. A música é ruim, mas o cara é muito bom. Vamos trazer ele pra fazer o Globo de Ouro aqui, porque o negócio tá muito legal”. E quando eu fui fazer o Globo de Ouro, a imprensa, o jornal O Globo tava presente. E eu me lembro perfeitamente da manchete, que foi uma das coisas que me impulsionou, dizendo “Quem é ele? É um pássaro? É um avião? É o super homem? Não! É Sidney Magal, que surgiu sabe Deus de onde e colocou em alvoroço toda a platéia do Globo de Ouro. Quem é esse cara?”. E aí eu comecei a me sentir, verdadeiramente, um vencedor. Porque, a partir dalí, eu estava em todos os programas Globo de Ouro, comecei a fazer todos os Chacrinhas, tudo. Enfim, minha história virou outra a partir da insistência do Livi em se insistir no “Se te agarro com outro te mato”.

Como é que você formatou essa figura, figuraça, na verdade, que chegou na televisão e provocou até essa manchete do O Globo, que você está falando. Foi trabalhado? 

Não, não pensei. E, inclusive, lembra que eu te disse ainda a pouco que toda essa minha característica, toda essa minha performance na Europa nascida. Depois começaram a dizer que eu tinha sido fabricado, que era toda a equipe de marketing, inclusive incluíram Paulo Coelho nessa história. “Paulo Coelho foi um dos que ajudou a criar a imagem do Magal”. Isso tudo não é verdadeiro. Paulo Coelho fez várias versões de músicas que eu gravei. Teve uma importância muito grande na minha carreira. Porque escreveu, inclusive, o roteiro do filme “Amante Latino”, que eu vim a fazer depois. E então foi uma pessoa muito importante pra mim, dentro da gravadora. Mas nem ele nem o Livi tiveram participação nenhuma na formação do Sidney Magal. Eu me descobri uma pessoa com essas características. Quando eu comecei a fazer “Se te agarro com outro te mato” com todos os trejeitos virou uma explosão, uma loucura nacional, enfim. E deu certo, casou, foi uma intuição, vamos dizer assim.

As histórias são incríveis, Magal. Porque esse empresário argentino, o Robert Livi, enxergou em você um potencial que outras pessoas não estavam enxergando.

Ele chegou e ele definiu o repertório. Porque existiu um cantor, que faleceu há pouco tempo, e que eu tenho o maior respeito, apesar de nunca ter conhecido pessoalmente essa pessoa extraordinária, chamado Sandro, que exatamente é o autor e o interprete de “Tenho” e “Quero abraçar-me a teus pés”, “Sandra Rosa”, várias músicas que eu gravei. Então o Livi, como era argentino, e conhecia o sucesso desse cantor argentino, e viu características muito parecidas na interpretação em mim. Daí vem à confusão “ah, o Livi trouxe a imagem do Sandro e colocou no Magal”. Não! Ele viu em mim uma coisa muito parecida com o que ele já tinha visto. E aí começou a pegar o repertório desse cantor e de vários outros cantores argentinos, espanhóis e tal, e fazer versões. Tanto é que os meus primeiros discos eram 90% versões, em cada disco, porque ele pegava o gênero onde as pessoas tinham as mesmas características de interpretação. E o Sandro, realmente, foi o cara que me deu esses presentes todos. Quer dizer, eu gravei músicas dele aqui que foram grandes sucessos. E o Livi é o compositor de “Sandra Rosa Madalena”, além de tudo. Meu produtor musical e o compositor da música. Então ele sabia exatamente quem ele tinha nas mãos e como usar essa pessoa, esse artista.

Esse trabalho de imagem só foi possível por conta da televisão.

Exatamente.

Quem cuidava da imagem, do seu guarda-roupa? Era fundamental. Todo mundo lembra.

Eu me lembro perfeitamente que já na noite eu já era um pouco extravagante. Porque tinha vindo da Europa com tudo isso, trouxe uns sapatos coloridos, salto sete e meio, enfim, já com um metro e 90. Imagina a loucura. Roupas muito bufantes, coloridas e tal. E comecei a encontrar pessoas que vinham pra mim e diziam “bicho, eu tenho uma idéia de roupas”. Silvinho, cabeleireiro, já falecido, cansou de fazer roupas pra mim. Porque ele tinha o tipo físico muito parecido, cabelão, altura e tal. E ele disse “olha, eu tenho umas roupas transparentes, coloridas, uma coisa meio cigana”. E eu acabei aceitando a sugestão dessas pessoas, que foram descobrindo quem era esse Sidney Magal. Quando o Livi começou a trabalhar comigo, o que ele fez foi selecionar o que estava acontecendo pra que a coisa ficasse mais comercial. Então ele dizia “Olha, essa roupa você pode usar, essa roupa você não pode. Essa roupa no vídeo fica mal. Quando você vai ao Chacrinha, que já tem muita informação, as tuas roupas tem que ser mais neutras, mais negras, mais brancas”. E esse foi o cara que realmente teve as sacadas do que seria legal pra que eu desse continuidade ao meu sucesso.

Agora, além do guarda-roupa, também tinha uma coreografia forte.

Minha. Quando as pessoas dizem “o bailarino”, eu digo “gente, não fala isso. Porque eu não tenho a menor noção de dança. Tanto é que, quando veio a lambada, já muito na frente, muitos anos depois, que eu tive que fazer coreografia com bailarinas, pra mim foi um problema sério, porque eu não gosto de ser cronometrado, controlado, passinho pra cá, passinho pra lá, faça assim… eu nunca gostei disso. Então essa minha performance nasceu espontaneamente, ficou uma característica forte minha, fiquei usando pra sempre. Tanto é que ela foi muito repetitiva durante muitos anos. Assim como eu digo Ney Matogrosso, que é um grande ídolo meu também. O Ney tem uma forma de se apresentar que é dele. Cada vez que ele bota uma roupa estranha no corpo e se expressa, é o Ney Matogrosso. Não tem jeito. Com quem ele aprendeu? Quem ensinou isso pra ele? Ninguém! Porque a gente descobre essas coisas. Então eu nunca fui um grande bailarino. As coreografias não foram ensinadas, a roupa não foi produzida e o repertório surgiu também de uma forma natural. Só que eu me adaptei a essas coisas.

Sucesso nacional, “Se te agarro com outro te mato”. Que quê mudou na sua vida, Magal?

Graças à insistência do Livi, porque você imagina uma música que era a cafona, a que ninguém queria, que a TV Globo disse não. E ele disse “não posso fazer um sucesso em cima de um fracasso. Não posso pegar um artista que todo mundo já disse não, gravar uma nova música e tentar fazer um sucesso. Nós temos que fazer dessa um sucesso”. E aí usando toda aquela história do visual do Magal, que era muito importante pra televisão, nós conseguimos explodir com essa música de uma maneira que me pegou de surpresa. Eu digo “finalmente encontrei um gênero musical onde eu posso usar tudo que eu quiser em termos de interpretação, em termos de energia e tal”. E ai mudou mesmo, minha vida toda. Porque essa pessoa, inclusive, o Robert Livi, ele quando entrou na minha vida me fez encarar muito profissionalmente toda a minha carreira. Ele era até exageradíssimo, me lembro perfeitamente nos shows que nós fazíamos por aí, shows aonde vários colegas participavam. E eu era sempre aquele que entrava e era colocado numa sala a parte, com todo o cuidado de que a imprensa só falasse na hora que podia, que só fotografasse na hora que pudesse. E o brasileiro sempre foi muito descontraído, as pessoas sempre diziam “que frescura, que bobagem. Tem que estar todo mundo aqui junto”. Só que o fotógrafo vinha, te fotografava comendo um sanduíche, palitando o dente. E ele já tinha essa visão, na época. Então foi uma cara que resguardou muito, protegeu muito a minha imagem. Eu tenho histórias extraordinárias, que eu não esqueço, de lugares que eu me apresentei, que ele fez derrubar as paredes. Existe um clube chamado, não sei se ainda existe, no Rio de Janeiro, Carioca da Gávea, Carioca Esporte Clube ou Carioca, que o palco ficava, exatamente, no fim do salão. E eles colocavam cinco ou seis mil pessoas e o artista tinha que passar pelo meio do público. Ele disse “o meu artista não vai passar pelo meio do público ou então não vai ter show” “Ah, mas só tem essa entrada” “Que que tem lá atrás?” “Ah, lá atrás é um terreno, que fica do lado da ABB”. Da Associação, de ABBR, não ABB que é do Banco do Brasil, mas ABBR “e se pedir autorização, pode ser que eles deixem derrubar a parede, desde que construa uma outra”. E foi o que ele fez. Nosso carro entrou pela ABBR, nós fomos lá pra trás, e vieram várias pessoas com picareta, com britadeira, arrombaram a parede e eu entrei no palco definitivamente.

Esse sucesso estrondoso, Magal, fez com que você rumasse pra gravação do seu primeiro LP, que está aqui na minha mão. Foi em 1977. Demorou muito tempo pra chegar aqui? Porque essa gravação durou muito tempo no rádio.

Não, foi rápido. Eles já tinham nas mãos o trunfo, que era o “Se te agarro com outro te mato”. Aí começaram a pensar “Meu sangue ferve” é uma versão. “Amante Latino” é versão. Como eu disse, quase 80% do disco é de versões. E foi fácil, não o sucesso do LP, era uma incógnita como até hoje, pra todos nós, é uma incógnita, mas eles tinham nas mãos uma imagem que era muito requerida, que era muito pedida e que as pessoas faziam questão de levar nos programas de televisão. E aí gravamos esse primeiro LP, que foi uma explosão total. Porque veio uma das músicas mais apaixonantes da minha carreira, que é o “Meu sangue ferve por você”. Cultivada por gerações e gerações e gerações, graças a Deus.

Essa então foi um sucesso maior ainda que “Se te agarro com outro”.

Foi e principalmente em vendagem, por incrível que pareça, “Meu sangue ferve” vendeu muito mais que “Sandra Rosa Madalena”. E “Sandra Rosa Madalena” fez um sucesso muito maior que “Meu sangue ferve”. Pela imagem, pelo clipe fantástico que foi produzido na época pelo Milton Travesso, que fez uma coisa num acampamento cigano, Sidney Magal bem cigano, saltando numa fogueira, enfim. Uma imagem que está muito presente pras pessoas, porque o Vídeo Show toda hora reprisa também. E aí a “Sandra Rosa” se transformou na primeira música da minha carreira. Mas “Meu sangue ferve” vendeu muito mais discos que “Sandra Rosa”.

E você tinha uma dança sexy, era provocativo, era sensual. Como é que você administrava isso? Não havia um conflito aí?

Não, pra mim não. Porque eu sempre confiei muito na minha intenção, em como eu me colocava como artista. Primeiro porque o artista pode se dar ao direito de alguns excessos, e isso as pessoas tem que compreender, tem que realmente entender. E segundo que era tão autentico, era tão verdadeiro, era feito de uma forma tão minha, tão espontânea que eu dizia “não é possível que, mesmo que uma parte da imprensa critique ou fale ‘olha ele era um pouco imoral ou ele é um pouco gay, ele é um pouco o que for’, não é possível que as pessoas não percebam que é artístico o que eu faço. Então as pessoas vão ter que entender pela veracidade da minha postura” E eu consegui isso. Quer dizer, eu não tinha essa preocupação “ah, será que eu estou assim? Será que eu estou assado? Será que vão falar isso ou aquilo?” Eu simplesmente colocava pra fora o que era meu, o que era verdadeiro, que era sentido. E aquela paixão toda que eu colocava no “Se te agarro”, no “Meu sangue ferve”, aquilo ia mesmo e atingia as pessoas.

As mamães gostavam de ver o Sidney Magal no vídeo, mas e os papais implicavam? Ficavam enciumados?

É uma boa pergunta, porque lógico que havia, não só dos papais, mas os namorados, os noivos. Eu conheço histórias deliciosas que as pessoas vêm me contar até hoje, tipo assim: “ai, meu pai quase se separou da minha mãe por tua causa”. Eu dizia “gente, ainda bem que não”. Já teve gente dizendo  “meu pai se separou da minha mãe por tua causa. Ainda bem porque ele maltratava muito a minha mãe”. Eu digo que tem o lado bom, sempre, da história e o lado ruim. Agora os namorados, eu vi alianças sendo tiradas na frente do palco e jogadas na cara do noivo. Porque o noivo dizia que era uma “bichona” “isso aí é uma ‘bichona’, rebolando desse jeito. Vocês estão gritando por causa dessa ‘bichona’”. E as pessoas ficavam revoltadas, as mulheres ficavam revoltadas. E aí veio, não pensando nisso, porque naquela época a gente não pensava muito em como fazer pra faturar. Era uma coisa de “vamos ver o que quê rola”, né?! E aí veio a idéia do amante latino, da música “Amante Latino”: “sou como você já sabe, o amante latino. Eu gosto das mulheres da noite e do vinho” que, por incrível que pareça, fez com que os homens ficassem mais suaves com relação à minha participação nos programas, e nos shows, principalmente. Acalmou um pouco os homens, eles começaram a se demonstrar mais fãs. “Ah, eu gosto de você, hein. Quando fala ‘eu gosto das mulheres, da noite e do vinho’”. Coisa de machão brasileiro e tal. Eles achavam muito legal e começaram a entender melhor as mulheres. E eu comecei a abraçar um público masculino também maior. Essa música foi importante. O “Amante Latino” foi importante pra isso.

Magal, tem uma declaração sua aqui, da época, que eu vou ler e eu queria que você comentasse. “Sempre cantei por gostar, para me afirmar, é meu ego sim. Queria ver as multidões gritando meu nome, me aclamando. Queria me dar cada vez mais. Porque assim eu sabia que receberia cada vez mais. Não em dinheiro, mas em satisfação. Não me importo que as fãs me agarrem, rasguem minha roupa, me passem a unha. Tenho marcas que as fãs fizeram. Tudo isso eu adoro. Acho que vou adorar sempre. Não importa quanto tempo eu vou ter que trabalhar desse jeito. Eu quero é sucesso, assumo isso.”.

Declaração da época. E declaração de hoje, e declaração de amanhã. Porque sempre me entristecia quando eu pegava alguns artistas, de repente era da personalidade deles, do pensamento deles. Quando alguns artistas iam “não não, na verdade isso é o meu trabalho. A minha arte tem que ser admirada. Mas essa coisa toda da fama me incomoda. Isso deixa a gente sem privacidade, deixa a gente incomodado sempre. Tendo que dar satisfações, tendo que… ”. Gente, eu não consigo. Sinceramente, nunca consegui naquela época, ver um artista, se ele não fizer esses sacrifícios. Porque são sacrifícios para ter o retorno da energia, do aplauso, do sucesso. E, obviamente, do dinheiro depois disso tudo, que vem como compensação do teu trabalho, então eu já via isso. E eu dizia “gente, eu quero, eu preciso”. E isso era muito recriminado nos anos 70. Porque nós tínhamos artistas mais tranqüilos, mais calmos. E a própria MPB, a chamada MPB, que era do violãozinho, da coisa mais Bossa Nova, da coisa mais do Rio de Janeiro, era uma coisa muito desligada disso. Não era a fama pessoal. As pessoas compunham, as pessoas faziam um trabalho pra serem admirados como um trabalho. E os artistas, Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, que já partiram pra uma área muito mais popular tava na cara que o que eles queriam era o aplauso. Eles queriam era o grito, eram as multidões atrás de você. Pedindo, pelo amor de Deus, que você volte. Pedindo bis no final do show. Pra mim, artista sem isso não precisava ser artista. Podia ficar compondo, podia ficar fazendo alguma coisa com talento. No momento que você se exibe, você tem o compromisso de se exibir bem, se vestir bem, olhar bem, dizer bem, falar coisas coerentes e, inclusive, concordar com o que você ta falando anos e anos depois. Eu não era uma figura fabricada e mentirosa. O que eu sempre senti, eu sempre disse. Lógico que tinha algumas restrições, algumas coisas da época que hoje eu posso falar muito mais abertamente. Mas, no fundo, eu adoro o aplauso, eu adoro ser agarrado, adoro ser arranhado, adoro ser descabelado. Eu entrava nos programas de rádio e as fãs cortavam os cachos do meu cabelo com tesoura. E eu dizia “olha, cuidado só com a orelha, hein. Que orelha eu só tenho essa. Cabelo cresce”. Mas eu adorava aquilo, eu sorteava, rifava as minhas roupas. Adoraria ter um museu do Sidney Magal o dia que eu morrer. Gente, senão não tem o menor sentido eu ter me dedicado tanto, se não for pra ter tudo isso, pra preencher o meu ego. Que no fundo é o ego do artista que tem que ser preenchido. Então concordo plenamente com o que eu falei.

Teve algum problema sério com alguma fã ou alguma outra pessoa que foi atrás dos shows e queria estar com você, te conhecer?

Tive tantos… Tantos. Assim como tem um lado maravilhoso, que eu também descobri nos anos 70. De pessoas doentes, de pessoas que estavam pra morrer, de pessoas com problemas “seríssimos” na família e que através da tua energia, e da tua força, e do que elas pensavam e sonhavam. Com você, elas ou se curavam, ou morriam muito mais em paz, ou se corrigiam. Eu, sinceramente, não só eu, mas todos os meus colegas, vimos pessoas com problemas físicos, às vezes até andarem no palco pra te abraçar e te beijar. E te abraçarem e caírem logo em seguida, porque não tinham força nas pernas e tinham problemas nas pernas. Então você sabe que isso é o que você transmite. Você transmite vida, você transmite amor, você transmite energia. E as pessoas são capazes de tudo. São capazes de coisas ruins também, ou engraçadas. Como uma história que eu conto eternamente, que é pra simplificar tudo isso. Que eu tenho 500 mil histórias, de uma menina, que depois de um show que eu fiz no Cine Show Madureira, também no Rio de Janeiro, contando uma parte da minha história musical, com slides da minha vida, de filho nascendo e tal. Um show muito bonito que eu fiz. Uma menina que estava enlouquecida na platéia, pediu pra entrar no camarim junto pra, obviamente, ser beijada e ter um autógrafo. E quando ela entrou, ela tava tão descontrolada que ela se abraçou, trançou as pernas na minha perna, fechou os olhos e começou a ter uma relação sexual com a minha perna. Na presença da minha mulher e  ela agarrada na minha perna, como aquele famoso cachorrinho do vizinho, quando você entra, estica a perna e ele vem. Ela fez exatamente a mesma coisa comigo.  E começou a ter um orgasmo, aonde só ela existia ali e a minha perna. E eu sem saber o que fazer, porque minha mulher estava presente e era uma fã, e a imprensa estava ali. E ela teve o orgasmo e eu disse “gente, deixa. Porque depois do orgasmo ela desmaia e a gente tira ela daqui. Nesse momento é impossível”. E ela ficou, realmente, ali até revirar os olhos e cair desmaiada. E aí retiraram ela do camarim. E o mais engraçado dessa história, pra concluir, foi semanas depois fui fazer um programa na TV Globo, no Teatro Fênix. E eu tava atrasadíssimo pra pegar um avião, pra viajar pra uma cidade, pra fazer um show. E quando eu ia entrando no carro vem esta mesma pessoa, fácil de ser identificada, e veio gritando e correndo. Minha mulher disse “meu amor, por favor, hoje não vai dar tempo de gozar. Deixa pra próxima, ta?”. E entramos no carro e fomos embora. Essa é uma das poucas histórias engraçadas que eu tive na minha carreira.

Certo setor do nosso meio, da parte da produção musical, dos músicos e compositores, que tem problema com essa coisa meio cafona. Como é que você lidou com isso? Porque você, por outro lado, fez esse sucesso tão grande, mas deve também ter recebido muita crítica.

Muito. A imprensa era muito dividida. Eu me lembro perfeitamente da dificuldade que nós tínhamos de sermos executados em rádios, que eram chamadas rádios de MPB. E que eram as rádios FM, até então. O artista popular só tocava em rádio AM. Pra entrar na FM era um sacrifício. “Vamos visitar a rádio? Vamos ver se ele dá oportunidade? Tocar uma musiquinha, pelo menos, da gente?” Coisa que eu era até contra, porque eu dizia “gente, não vamos lá fazer a cabeça de ninguém. Eles têm a filosofia deles. E, infelizmente, nós não fazemos parte dessa filosofia. Um dia, quem sabe…” E isso eu dizia desde o início da carreira “…o Brasil vai assumir que é um país brega. Quem sabe, não é?! Pode ser que lá na frente às pessoas entendam que, não só isso é arte, como também nós somos um país muito popular.” E entenderam, tanto é que as rádios FM assumiram todos os gêneros musicais. E você tem hoje os grandes sucessos sertanejos, que até então eram bregas, pagodeiros, que até então eram bregas, e axé music, que também, de uma certa forma, é uma expressão muito popular de música. Havia aquela “não, não pode deixar entrar na sala da gente o cantor da cozinha”. Tinha muito essa história. Então era um preconceito social, que era passado pra música. E eu dizia “caramba, não pode existir isso. Música é música. É pra alegrar, é pra divertir” E hoje em dia,  você vê a madame da alta sociedade dançando um pagode, tomando sua cervejinha na beira da piscina. Então música é isso, é momento. E, graças a Deus, o Brasil se assumiu. E hoje em dia Punk, Emo, qualquer tipo de pessoa que curte outro gênero musical, tem respeito e aceita o trabalho que eu faço. Então eu acho que era uma bobagem da época mesmo. Que eu tive que passar por isso e superar isso, de uma certa maneira.

Após o sucesso estrondoso desse primeiro LP, o Sidney Magal passou para o segundo LP. Que também tem clássicos, que são reconhecidos até hoje. Vamos falar dessa gravação e dessas músicas.

Pois é, algumas eu tenho até que me lembrar através do próprio disco. Porque a “Sandra Rosa Madalena” ta aqui, o “Tenho” ta aqui. As outras, talvez, não foram um sucesso tão grande. Mas nem precisavam, aqui entre nós. “Quero abraçar-me em teus pés”, “Antes das dez”, foram músicas muito executadas na época, mas que não se perpetuaram como “Sandra Rosa Madalena” e como “Tenho”, por exemplo. “Tenho” há pouco tempo foi resgatado, num novo arranjo, uma nova roupagem, virou um clipe maravilhoso. Adorei fazer, com a Débora Falabella, que deu uma modernizada extraordinária. Fui concorrer ao melhor clipe na MTV. Até então, nenhum trabalho meu tinha entrado na MTV. “Sandra Rosa Madalena” eu não preciso nem dizer nada sobre essa música, porque eu costumo brincar que ela é um ponto de macumba. Eu digo “olha ‘Sandra Rosa Madalena’ é um ponto de macumba que um dia pegaram e transformaram numa música”. Porque ela contagia de tal maneira, ela transforma as pessoas de tal maneira, que eu devo dar um passe nas pessoas quando eu to cantando. Porque eu fico impressionado. São 33 anos pra você chegar e dizer “caramba, não é possível, criança de cinco anos cantando ‘Sandra Rosa Madalena’ até hoje”. Isso me impressiona muito, muito.

O que você acha que tem nessa composição que trás isso pras pessoas? 

Eu acho que tem, primeiro, a magia de se falar do povo cigano, que é um povo que sempre atraiu muito a atenção das pessoas pela forma irreverente de viver, a maneira de ser, o visual que tinha muito a ver comigo. Cabelo encaracolado, brinco, roupa colorida, enfim. Isso é uma das forças, sem dúvida nenhuma, e foi idéia do Livi. Ele pegou três nomes muito comuns no Brasil, Sandra, Rosa e Madalena e juntou numa cigana. Transformou numa cigana. Numa grande cigana, que virou um personagem do meu filme “Amante Latino” depois, em 79, interpretado por Angelina Muniz. E aí eu acho que a Sandra Rosa é esse mistério do povo cigano. E mais a minha interpretação, a minha forma de me vestir pra interpretar essa música. O clipe ajudou muito, o clipe do Milton Travesso. Foi de muito bom gosto, muito bonito na época. E a música ficou marcada como o Sidney Magal. O Sidney Magal me chamam às vezes “o Sandra Rosa”. Eu nem gosto muito, confesso. Me chama de Magal, mas não me chama de Sandra Rosa, porque pega mal. Parece que eu sou uma bichona, cansada, com muitos anos de carreira. Mas o pessoal tomou “Sandra Rosa Madalena” como o grande sucesso da minha carreira, e é verdade. É o maior sucesso da minha carreira.

Tem várias composições, de grandes compositores da música latino-americana.

Com certeza e eu tive muita gente assim que fez. Tem de tudo, assim nos meus discos. Os compositores eram excelentes, só gente muito competente mesmo. Além dos arranjadores e músicos.

Magal, o disco acabou sendo um marco na sua carreira, não acabou? Um representativo…

Com certeza, com certeza. A competência do Livi, é por isso que até hoje eu faço questão de dizer pra todo mundo. Se eu não tivesse tido Robert Livi na minha vida, na minha carreira, absolutamente as coisas teriam acontecido dessa maneira. Primeiro porque reunia uma pessoa que vinha da Argentina com toda a bagagem e conhecimento de músicas da Espanha, músicas argentinas e mexicanas, etc., que acabou sendo o grande barato da minha carreira. Com a capacidade de compositor, de criar letras legais, com temas que ele pensava. Quer dizer, ele era realmente um idealizador de muitas coisas pra minha carreira. E com conhecimento como produtor musical. Então ele tinha capacidade de trazer grandes músicos, permitir grandes arranjos, saber como minha voz entraria, o que as pessoas esperavam de mim. Então esse foi o cara que disse “olha, ta aí. Você não sabia o que fazer da sua carreira? Eu sei. Daí pra frente é com você mesmo”. Então esse disco marcou definitivamente. Esse disco é, sem dúvida, é o grande barato da minha carreira. O mais importante.

O filme acabou acontecendo por causa desse disco?

Por causa desse disco. Eu me lembro do Carlos Pedro Rovai, diretor de cinema, que procurou o Livi e disse “Robert Livi, você é o empresário do Sidney Magal? Eu to impressionado! Porque eu fui numa cidade chamada Penedo, às margens do Rio São Francisco…” isso nos anos 70, “e quando desci com minha equipe pra atravessar o rio, nós íamos filmar do outro lado da cidade, enfim… Tinha uma birosca, caindo aos pedaços, com uma mesinha de sinuca e umas garrafas de cachaça na prateleira e um pôster enorme do Sidney Magal. Porque ele já tinha passado por ali. Já tinha feito um show na cidade. E aquilo me impressionou. Porque eu digo, não pode, eu vim fazer um filme aqui em Penedo, uma cidade muito pequenininha, às margens do rio São Francisco, e o Sidney Magal, aqui é ídolo, é endeusado, é amado, idolatrado. Eu preciso fazer um filme com esse cara.”. E aí o Pedro Carlos Rovai procurou o Livi e o Bruni, grande produtor de cinema e dono de cinemas na época e propôs a produção, enfim, desse filme. Procuramos o Paulo Coelho pra fazer o roteiro todo do filme, pra escrever a história do filme, misturando realidade e ficção da minha vida. A coisa dos ciganos, acampamento cigano, de eu ter nascido cigano e tal, que não é verdade, e com isso o filme aconteceu e virou também um sucesso em todos os cinemas do Brasil.

Paulo César Araújo

Eu queria que você me falasse um pouco o que é esse universo cafona, ou brega.

Primeiro dizer que é um estilo musical, não é um gênero. Então, a chamada música brega, é toda aquela produção musical, feita no Brasil, que não se enquadra nem na tradição, nem na modernidade. Isso pelas elites culturais, foi um termo usado, e usado de forma forte, permanente,  principalmente a partir dos anos 80. Nos anos 70 era cafona. E a partir dos anos 80, brega. Um exemplo. Por que que Zeca Pagodinho não é considerado brega? Embora seja um cantor popular, com rimas fáceis, canções assobiáveis. Porque aquilo que Zeca Pagodinho faz está identificado à tradição do samba, à malandragem, ao Rio de Janeiro. Por que que Lenine não é considerado brega? Porque aquilo que Lenine faz está identificado a uma modernidade, às influências da Tropicália, do Jazz. Agora, aquele artista que não é identificado nem as raízes, nem a tradição, nem a modernidade, exemplo Agnaldo Timóteo, o Sidney Magal, Waldick Soriano, o Amado Batista, essa produção musical é chamada de brega ou cafona. Porque não se enquadra nem na tradição, nem na modernidade.

E como se situa Sidney Magal dentro desse universo cafona, que você descreveu em seu livro. Quem são seus antecessores?

Eu situo o Sidney Magal na terceira geração dos cantores cafonas, hoje chamados brega. Há uma primeira geração, que surge ali no final dos anos 50 início dos anos 60. É a geração de Anísio Silva, Silvinho, Orlando Dias. Foi assim a primeira geração, quase em oposição a aquilo que era o mais chique, moderno, que era a Bossa Nova. Uma segunda geração dos cantores bregas surge no final dos anos 60. E em 68, virada dos anos 60 pra 70, é que eu chamo a geração do AI5, a geração dos anos de chumbo. Que é a geração dos cantores que foram proibidos, censurados. O Aldair José, Nelson Ned, Paulo Sérgio, Agnaldo Timóteo. E uma terceira geração, aí sim, desponta com Sidney Magal. Exatamente no final dos anos 70, virada pro 80. Que é a geração de Magal, Giliard, Amado Batista, Jane e Herondy. Então ele está situado exatamente nessa terceira geração dos cantores bregas. Uma geração que chegou com força também. E no caso do Magal, ele ocupa o lugar que era exatamente de Aldair José na gravadora Polygram. Não é a toa que ele vai estourar exatamente ali de 77 pra 78. Ou seja, a Polygram pega o Sidney Magal pra ser exatamente esse principal nome desse selo, que eles tinham na época. A Polygram, a hoje Universal Polygram, tinha dois selos. O selo azul, Phillips, e o selo vermelho, Polidoor. No selo azul, era o elenco da elite da música brasileira. Dos cantores que gravavam focalizando e fitando o público mais intelectual. Ou seja, Chico, Caetano, Elis, Gal gravavam no selo azul, Phillips. O selo vermelho, Polidoor, era o elenco mais popular, os chamados cantores do povão. Que era Aldair José, Evaldo Braga, Marcos Peter, todos eles na Polygram. E o Sidney Magal, quando é contratado pela Polygram, exatamente ele vai gravar nesse selo vermelho, Polidoor. Que era o selo de maior faturamento, era esse selo vermelho, Polidoor, que dava todo o respaldo financeiro para a gravadora investir nas ousadias musicais do selo azul. Com certeza, pra Caetano gravar Araçá Azul em 72, com toda a liberdade que ele teve para gravar um disco experimental, ele só pôde gravar esse disco, no selo azul, Phillips, porque os artistas do selo vermelho davam o respaldo financeiro. A gravadora tinha recursos pra isso. Então, de certa forma, eu costumo dizer que os artistas bregas bancavam as ousadias musicais dos artistas da MPB clássica.

O Sidney, sendo primo de Vinícius de Moraes, inicialmente, como croner, que chegou a cantar na MPB. Ele seria de fato brega?

É… Porque o que ele faz é isso. Quer dizer, aí a origem dele não é o determinante. O determinante é o que ele produz. Quer dizer, mesmo sendo primo em segundo grau de Vinícius de Moraes, começou cantando na noite como croner. Mas ele se destaca e se projeta como um cantor de música cafona, identificado ao segmento popular. E a sua imagem foi cristalizada nisso

Ele investiu nessa figura do amante latino que ele tem. Dizem que o produtor, Roberto Livi, foi quem vestiu ele dessa maneira. Você acha que ele acabou vestindo esse modelo, moldado pelo produtor, chamado de cafona de laboratório? Ou ele realmente pertence a esse universo ou pertenceria também se não fosse essa “forçação”?

Muitos falam assim, até a Rita Lee numa música fala “Sidney Magal o cigano de araque fabricado até o pescoço”, colocando o Sidney Magal como um cantor fabricado. Eu discordo um pouco disso. Eu acho que nenhum artista é fabricado. Eu acho que o que a indústria fabrica é xampu, tinta, chocolate. Você tem um artista produzido, no sentido de produção artística mesmo. E o Sidney Magal se enquadra nesse grupo de artistas, um grupo de artistas que foi produzido, e muito bem produzido pelo Roberto Livi, que era o produtor dele na época, que tinha uma experiência. E ele quando viu o Sidney Magal, aquele homem de 1,90m, ali pelos corredores da gravadora Polygram, ele vislumbrou pra Sidney Magal aquela imagem. Fazer nele aquela produção. E claro, o Sidney Magal aceitou. E encaixou perfeitamente. E nesse sentido ele trás até uma novidade pra música popular da época, especialmente a música brega. Porque a sensualidade já estava presente na música, na temática. Então as canções de Aldair José, por exemplo, falavam de sexo, de pílula, de cama. As canções de Roberto Carlos, as chamadas canções de motel. A sensualidade tava nas canções, já estava. Agora, faltava um cantor que encarnasse isso na imagem. Essa representação da sensualidade. No jeito do corpo, forma de cantar, de dançar. Então Sidney Magal, talvez a grande novidade dele, tenha sido, exatamente, não tanto musical, mas em termos de imagem. Ser um latin lover, um sexy-appeal, sensualidade na forma de cantar, de se apresentar. E eu acho que ele representou, e nesse sentido ele foi bem produzido pra fazer isso, encarnou bem. E acho que há uma verdade nisso. Se não tivesse, talvez não fizesse o sucesso que fez, com certeza.

Esse disco que a gente ta tratando, que é o Sidney Magal 1978, que música que você acha que é mais significativa nesse disco e por quê?

O disco de Sidney Magal de 78 é o segundo LP dele. O primeiro LP tinha “O Meu Sangue Ferve por Você”, “Amante Latino”, quer dizer, foi o disco da explosão. Esse disco de 78 é o disco da consolidação de Sidney Magal como grande cantor popular. E a música que marcou uma época, exatamente nesse período, foi “Sandra Rosa Madalena”. Foi o maior sucesso dele, naquele momento, e acho que acabou se firmando como o grande sucesso dele em todos os tempos. Eu vi alguns shows do Sidney Magal e é a música, assim, da apoteose, do encerramento do show. Então eu acho que foi a música representativa disso, dessa consolidação da imagem. Porque o segundo disco de um artista é muito importante. Porque, às vezes, no primeiro disco o cara acontece, mas muitas vezes ele fracassa no segundo, já vai fraco pro terceiro. Mas não, o sucesso do segundo disco é ainda maior do que o do primeiro. E consolidou a imagem dele no cenário brasileiro, mesmo ele não tendo conseguido um sucesso tão forte depois, em disco. Acho que esses dois primeiros discos, especialmente esse de 78, foi suficiente pra marcar ele, definitivamente, no imaginário popular. Como eu disse, Sidney Magal, mais do que um cantor, é uma imagem na música brasileira. E essa imagem foi cristalizada com esse segundo disco, com “Sandra Rosa Madalena”.

Até hoje! Qualquer festinha de réveillon toca “Sandra Rosa Madalena”. É uma coisa!

A música é forte também. E na época ele fez um clipe assim, com a cigana. O cenário todo foi muito bem produzido. A composição do Livi. E no show, que ele é muito bom de palco, que é uma coisa importante. Claro, eu já conhecia Sidney Magal do disco e do rádio. Mas quando eu fui em um show do Sidney Magal eu falei “que força que ele tem no palco”. Quer dizer, ele cresce, ele fica maior ainda no palco. Especialmente no momento dessa música. Eu até assisti um show coletivo, eram vários artistas se apresentando, mas quando entrou Sidney Magal, eu não vi mais ninguém. E essa música foi a que ele se apresentou nesse show coletivo.

A grande quantidade de versões e covers enfraquece seu legado musical?

Eu acho que sim. Nesse sentido, hoje houve, em relação ao disco do Sidney Magal. Por isso que eu digo que o mais importante dele foi até a imagem, do que a música. No início dos anos 60, especificamente, até meados dos anos 60 havia muitas versões. Vários cantores gravavam versões. Era a época ainda dos cantores. Então nessa época dos cantores, quem não tinha um compositor pra fazer música pra ele, gravava versões. E vários cantores faziam isso. E na música brasileira, até porque os sucessos internacionais não chegavam aqui com a mesma rapidez. Então havia um tempo até gravar e tal. Nos anos 70, isso já era um dado do passado. Porque, a maioria dos cantores, ou tinha um compositor pra fazer a música pra ele, ou havia se tornado também cantor compositor. Essa figura do cantor compositor já havia se institucionalizado na música brasileira. Inclusive na música brega. Todos os cantores bregas eram cantores compositores. Waldick Soriano, Paulo Sérgio, Nelson Ned. Enfim, o Magal vem fazendo versões, ou seja, como se fosse um cantor fora do seu tempo. Especialmente no primeiro disco, que é basicamente todo ele de versão. Nesse disco, ele já arrisca algumas composições. Então é um disco mesclado. Tem versões ainda, mas tem também composições próprias. Inclusive uma faixa antes da dez, que é uma faixa romântica, que é uma composição dele com outro parceiro. Então, é um disco mesclado. Mas eu acredito que se não tivesse tantas versões, se ele tivesse investido mais em composições próprias, ou em lançar sucessos feitos por outros, com certeza, talvez, tivesse um legado maior desses álbuns gravados por ele nos anos 70.

Qual é a marca que o disco deixa na carreira dele e no universo do brega romântico em geral?

Bom, como eu disse anteriormente, é o disco que consolida Sidney Magal como um grande cantor popular. É o disco que firma o nome e a imagem dele. E basicamente por causa desse sucesso “Sandra Rosa Madalena” e é importante lembrar que ele surgiu gravando canções de amor num tom mais passional. Nesse sentido também um pouco mais antigo. E isso era uma temática mais dos anos 50. Quando ele surgiu gravando, por exemplo,  “Se te agarro com outro te mato” é uma temática que, naquele período, já não estavam mais sendo gravados dessa forma os cantores. Então ele resgata isso um pouco. Mas nesse disco, de 78, isso já foi um pouco minimizado. Então ele estava mais romântico, menos dramático e passional, como nas primeiras gravações dele na própria gravadora Polygram. Então já foi uma mescla de canções românticas com canções mais dançantes, no caso “Sandra Rosa Madalena”.

Você acha que há seguidores da arte de Magal?

Eu acho que sim. Você tem vários cantores aí que, direta ou indiretamente, foram influenciados por ele. Acho que ele deu uma liberdade maior. Ele deu um exemplo de que era possível ousar mais no palco. Dançando de forma mais sensual. E com a música mais dançante. Porque a música cafona, a música brega ela era muito mais romântica, muito mais sentimental. Nesse sentido de uma música mais pra você ouvir. E o Magal com o seu jeito de cantar, com as suas canções de influência latina, até porque ele gravava muitas versões de músicas da Colômbia, da Argentina. Então ele deu um caminho possível pra esse repertório popular, que nós vemos hoje até no tecnobrega, que é um brega mais dançante. De certa forma, toda essa geração que surgiu depois foi, de alguma forma, influenciada por Sidney Magal.

Você acha que um artista como ele tem um tempo de duração? Um artista como ele, um artista desse universo brega tem tempo de duração?

Se você falar em tempo de duração de parada de sucesso, sim! Aliás, não só do universo brega, de qualquer universo da música popular. De uma maneira geral, os artistas fazem sucesso num período, mais ou menos, entre sete e dez anos. Assim, período de evidência, de estar nas paradas, com as exceções dos grandes clássicos, que você pode contar nos dedos: um Caetano Veloso, um Chico Buarque, um Roberto Carlos,  outro que foi Tom Jobim, um João Gilberto, são os grandes artistas do Brasil, por quê? Por que eles permanecem em evidência ao longo de várias décadas. Mas isso não é a regra, isso é a exceção. A regra é Sidney Magal, que teve um grande período de sucesso, entre 77 e 82,83. E depois passou o tempo regravando, cantando seus clássicos, um ou outro sucesso eventual mais a frente. Isso é também Carlos Lira. Você vai a um show de Carlos Lira, que é um dos ícones da Bossa Nova, o que é que ele canta no show? Ele canta “Minha Namorada”, “Primavera”. Aquelas canções que ele gravou naquele período de 59, 60 até 64. Você vai a um show de Belchior, que é outro ícone da MPB, o que quê você escuta num show de Belchior? “Velha Roupa Colorida”, “Apenas um Rapaz Latino-americano”, “Como Nossos Pais”. Aqueles clássicos que ele compôs e gravou entre 73, 80, aquele período de sete anos. Isso é a regra pra todos eles. Então isso tem um tempo, que é esse tempo. Agora, aqueles artistas que firmaram sua imagem, que fizeram grande sucesso nesse período, aí sim eles se tornam clássicos. E passa toda a sua trajetória artística revisitando, cantando e sendo reconhecido por esse sucesso do seu período áureo. É o caso de Sidney Magal. Então, nesse sentido, ele teve um período de sucesso de mídia e hoje é mais um clássico desse repertório popular. Ele continua em evidência porque ele faz televisão, é ator, faz filme, que isso é uma forma também de se virar. Aliás, não só ele. Outros fazem também. Chico Buarque escreve livro, Gilberto Gil vai pra política. Quer dizer, viver exclusivamente de música, ser um músico, isso é muito difícil e continuar em evidência.