Sá e Guarabyra | PIRÃO DE PEIXE COM PIMENTA | Som Livre, 1977

piraodepeixe
Capa LULA LINDBERG

Luis Carlos Pereira Sá nasceu na Vila Isabel, Rio de Janeiro e Gutemberg Nery Guarabyra Filho veio de Barra, a beira do São Francisco, Bahia. Cada um construiu uma carreira de sucesso antes da dupla. Sá teve músicas gravadas por Pery Ribeiro e Aracy de Almeida, e músicas classificadas no I Festival Internacional da Canção (1966). Guarabyra iniciou sua carreira no Rio, e foi o vencedor do II FIC, parte nacional, com “Margarida”, a frente de Milton e Chico Buarque.
Em seguida dirigiu musicais para a TV e venceu o Festival de Juiz de Fora, 1969, com “Casaco marrom” (com Renato Correa e Danilo Caymmi). Em 1969 assinou contrato com a Odeon e formou um trio com Zé Rodrix e Sá, gravando dois LPs calcados no “rock rural” (expressão da música de Zé Rodrix, “Casa no campo”. Com a saída de Zé Rodrix surgiu a dupla Sá e Guarabyra no disco Nunca (1973) e, em 1975, Cadernos de viagem. O grande êxito vem com Pirão de peixe com pimenta, com “Espanhola” de Flavio Venturini e Guarabyra e “Sobradinho”, a mais conhecidas da dupla.

tirasaguara

FAIXAS

SOBRADINHO
Sá e Guarabyra
MARIMBONDO
Marlui Miranda e Xico Chaves
TREM DE PIRAPORA
Sá e Guarabyra
JOÃO SEM TERRA
Sá e Guarabyra
PIRÃO DE PEIXE COM PIMENTA
Sá e Guarabyra
CORAÇÃO DE MAÇÃ
Sá e Guarabyra
CIANAMONO
Sá e Guarabyra
ESPANHOLA
Flávio Venturini e Guarabyra
CANÇÃO DOS PIRATAS
Sá e Guarabyra
ÁGUA CORRENTE
Sá e Guarabyra

FICHA TÉCNICA

Direção de produção
Guto Graça Mello
Produção executiva e Direção de estúdio
Sergio Mello
Assistentes de produção
Yara Vidal, Astor Silva Filho e Lucio Milheiro
Arregimentação
João Pinheiro
Arranjos e regências
Eduardo Souto Neto, Rogério Duprat e Nelson Ângelo
Arranjos vocais
Sá e Guarabyra
Técnicos de gravação
Célio Martins, Braz, Edu, Audy, Don, Marcus Vinicius, Wilson Nani, Franjinha
Assistentes de estúdio
Guilherme Pires, João Quereca, Mario, Carlos Moleza, Franjinha
Direção de mixagem
Sergio Mello, Sá, Guarabyra
Técnicos de mixagem
Célio Martins, Edu, Don, Marcio Antonucci
Montagem
Ieddo Gouveia

Viola caipira
Guarabyra
Violão de aço
Sergio Cafa e Luisão
Piano acústico
Sergio Magrão e Pedro Jaguaribe
Baixo
Luis Moreno, Nonato e Fernando Leporace
Bateria
Chico Batera
Percussão
Quintininho de Pirapora
Bandolim
Paulo Guimarães, Danilo Caymmi, Paulinho Jobim, Franklin, Copinha
Flautas
Tavinho Burnier
Viola elétrica de 12 cordas
Cartier
Violão acústico
Gilson
Piano
Tuca
Piano acústico
Antonio Swab
Trompas
Iberê Gomes Grosso e Alceu
Violoncelos
Vidal, Ricardo, Carlos Eduardo, Wilson Aizik, Valter, Paulo e Bove
Violinos
Ed Maciel e Manoel Araújo
Trombones
Zenio
Tuba
Netinho
Clarineta
Ribeiro
Pratos
Lizzie, Rosana, Ismail, Betinho e Didito
Coro
Participação especial
Burnier e Cartier em “Espanhola”

Sá e Guarabyra

Vou começar aqui com o Gutemberg, como e quando você se interessou por música?

Gutemberg Bem, muito pequeno o meu pai era pastor batista e missionário no Vale do Rio São Francisco e minha mãe era organista da igreja. Então você já viu, né? Dirigia o coral da igreja e tudo. E o meu lugar predileto na casa, pra ouvir música, era no colo da minha mãe quando ela ensaiava em casa. Naquele tempo, lá as cidadezinhas ribeirinhas do São Francisco não tinham luz elétrica. Então era aquele harmônio, com pedal que você pedalava pra encher uma bolsa de ar. Era uma espécie de, vamos dizer, um acordeon vertical, né? E minha mãe ficava pedalando aquilo lá e tocando aqueles hinos. E o hinário batista é muito bonito, porque é a base dos espíritos aos americanos, o Mississipi e tal. Música do Mississipi, e o lugar ideal era ficar ali no colo, porque ela ficava embalando, por causa do movimento dos pés. E aquele som inteiro no meu ouvido. Eu comecei a me interessar por música antes de saber que estava interessado por ela própria, né?

Sá e como é que se deu o seu interesse por música? Como e quando?

Eu nasci em Vila Isabel, numa ruazinha bem residencial. Meu pai era escrevente de cartório durante o dia e boêmio durante a noite. Ele tocava violão, cantava e organizava saraus incríveis lá em casa. Nós morávamos assim, tinha aqueles prediozinhos antigos de dois andares, que morava o proprietário em baixo e os inquilinos em cima. A gente morava em cima e tinha uma varandinha. Meu pai chamava os amigos boêmios deles. Vila Isabel ainda respirava Noel Rosa. Noel morreu em 1937, eu nasci em 1945. Quer dizer, isso aí nós estamos falando de 1950, 49. E vinha aquele pessoal todo e ficava tocando ali na varanda. O pessoal da rua juntava lá em baixo e ouvia, e batia palma. Eu achava fantástico e comecei a cantar. Eu cantava umas vinte músicas de Noel. Eu adorava Noel, desde pequeno. E aí já viu, né? Caí no crime.

A pergunta é pros dois, já. Se não fosse música, qual seria a profissão de vocês dois? Passou pela cabeça ter uma outra profissão?

Gutemberg Na minha cabeça propriamente dita, não, porque como eu te falei, a gente começou ouvindo a velha tocando órgão, depois na igreja eu já comecei a me interessar em cantar algum hino. Então de calças curtas eu já me apresentava pra plateia da Igreja Batista, entende? Bem pequenininho mesmo, eu começava a cantar sem acompanhamento, sempre à capela, entende, cantando hinos. Ih, fazia um sucesso enorme, o pessoal gostava. E eu fui vivendo assim, fui levando. Eu nunca pensei me formar em alguma coisa, esse tipo de coisa. Eu vim conforme a vida foi me levando, eu fui cantando por aí. Até que um dia eu fiz uma montagem teatral bem pretensiosa aí, pelos meus dezesseis anos, em Bom Jesus da Lapa, que eu estava lá, no Vale do São Francisco, também. E eu peguei todos os colégios e resolvi caçar talentos ali entre os colégios. Juntei, fiz um coral num colégio, fiz um coral em outro. Fiz uma peça com texto do meu irmão, com coisa do Jorge Amado. Apresentei um grande show na cidade um final de semana inteiro. Mas por quê? Porque eu queria que as pessoas da cidade ouvissem uma coisa que eles tinham o maior preconceito. A classe média de lá tinha preconceito enorme contra o samba de caboclo, que era os batuques dos caboclos pescadores do rio São Francisco. Eles achavam que aquilo era uma coisa de pobre. Tinha um preconceito danado. E eu costumava frequentar esses batuques, eu ficava na praça, não tinha luz. Olha bem o clima. Não tinha luz elétrica, a luz acabava dez e meia da noite. Você ficava na praça sozinho e de repente o vento trazia e depois levava pra um batuque longe. Aí eu me levantava e ia, quando tinha lua era ótimo, quando não tinha era terrível. Ia pelas estradas de terra, tabuleiro de rio, sabe, caindo em riacho, até encontrar a casa onde estava acontecendo. Às vezes eu saía uma e chegava as duas e meia da manhã nessa casa. E as pessoas sempre diziam, “lá vem ele”, “chegou ele”, que sabia que eu ia chegar em alguma parte. Eu me aboletava numa janela daquelas e ficava ouvindo o pessoal. Os batuques eram fantásticos, as melodias maravilhosas. E eles tinham esse negócio de contra-canto e também uma coisa que depois adotei quando eu fiquei compositor. Eu gosto que uma melodia entra por cima da outra. Eu faço muita coisa. Todos os meus arranjos vocais que eu faço pros discos tem sempre isso acontecendo, também, entende? E eu consegui, então, alugar lá um teatro da cidade, que era o único da companhia do Vale do rio São Francisco e apresentei pra classe média na cara deles aquela beleza toda. Quando aqueles tambores entraram, cara, os caras não acreditaram no que estava acontecendo. Depois eu repeti essa experiência em Januária que era uma cidade e repeti essa experiência também em Pirapora, onde eu fiquei amigo do Marco Ribas, morei na casa dele e tudo. Marco também estava começando a carreira. Mas quando a gente fez, eu fiz esse movimento todo que a gente estreou na cidade, no teatro, chegou dois dias antes da nossa estreia um circo na cidade. A primeira vez que Pirapora via elefante. Estreou junto com a gente. Nós ficamos só com a plateia, ainda bem que tinha muita gente no coral e tinha muita família pra assistir também. Então ficamos só com aquela plateia, mas deu um prejuízo enorme, porque eu pegava tudo emprestado do comércio. Lâmpadas, panos pro cenário, cuidava direitinho e devolvia. Sendo que dessa vez a gente não pode cobrir os custos. E eu fiquei lá de refém, eu tinha que pagar aquelas coisas todas. Eu fiquei morando na casa do Marco Ribas, morando na casa da família do Marco Ribas primeiro no melhor quarto da casa e depois eu fui acabar na garagem, dois meses depois, com as roupas secando. Estava demorando demais. Até que um dia eu fugi, tive que fugir. A cidade mais próxima era Belo Horizonte. E depois meu irmão morava no Rio. Eu fui pro Rio de Janeiro pedindo socorro pra poder voltar pra Bahia. Aí meu irmão descobriu que eu tocava violão, acabei ficando no Rio tocando violão.

Sá, se não tivesse sido a música teria sido o quê, Sá?

Certamente jornalista. Eu tive uma vida efetiva de jornalista e muito rica. Na época da ditadura eu me desiludi de música, porque começava a fazer as músicas… Eu era compositor de protesto, aqueles compositores que faziam músicas de esquerda. Eu era sempre influenciado pelo Sérgio Ricardo, pelo Edu Lobo e fazia aquelas músicas inflamadas e coisa. Isso aí era tudo censurado, claro, ninguém gravava. Só a Nara Leão conseguiu gravar uma, que era “Menina de Hiroshima”. Quer dizer, então era um negócio meio disfarçado. Enfim, e aí eu ouvi falar de um curso de jornalismo que o Reinaldo Jardim, que foi o meu primeiro guru nessa área. Meu primeiro e grande guru nessa área de jornalismo. Infelizmente a gente perdeu o Reinaldo esse ano, recentemente há dois meses atrás. E entrei pra aquele curso no Sol. Era um suplemento do Jornal dos Sports de música, de artes e coisa e tal. E ali eu aprendi efetivamente com grandes. Nossos professores eram Nelson Rodrigues, Oto Maria Carposo, Emir Ventura, Washignton Novais, Suzana Arruda, eram pessoas barra pesada… melhor do que uma universidade. E eu me apaixonei pelo jornalismo ali e depois quando o Reinaldo Jardim foi pro Correio da Manhã, me chamou. Eu editei um caderno de música chamado Plug, né? Meus colaboradores eram Wally Salomão, Torquato Neto, Mariozinho Rocha. Quer dizer, tive uma vida jornalística muito rica. Até hoje eu escrevo uma coluna mensal na revista Backstage, uma revista especializada em áudio.

Sá fala pra gente um pouco do período da canção de protesto aqui no Brasil. Você teve músicas gravadas pela Lui, pelo Peri Ribeiro e Menina de Hiroshima, pela Nara Leão. Fala um pouco desse período.

As minhas mais ousadas nunca foram gravadas, a gente começa por aí.

Por quê?

Porque não dava, não passava na censura. Nessa época o meu grande guru, assim.. Eu já tive vários gurus na vida. Já falei do Reinaldo Jardim e vou falar agora do Nelson de Barros, que foi inclusive um poeta e letrista da pós bossa nova. Da época quando se levantou, pilotados por Sérgio Ricardo e Edu Lobo. Nossa geração foi atrás dessa contestação daquele país maravilhoso que a bossa nova pintava e a gente resolveu dizer que, não, que não era aquilo. E o Nelson de Barros que me apresentou ao Guarabyra, por sinal, juntava na casa dele uma série de jovens compositores: eu, Paulo Tiago, hoje cineasta, que era letrista. Sidney Muller, Luli, Guarabyra. Quem mais Gut era?

Gutemberg Marco Antônio que depois não foi adiante…

Marco Antônio Menezes que foi ser advogado e desistiu da música. Sidney Vaisman que era fotógrafo e também letrista. E a gente se reunia ali na casa do Nelson, nuns saraus, coisa e tal fantásticos. E a palavra de ordem era protestar, era música de protesto. Por essa época o Sérgio Cabral e o Moisés Ajhaenblat que eram sócios no teatro Casagrande, que foi fundado ali, o Max também, nos chamaram pra um show nas terça-feiras, eu, Guarabyra e o Sidney Muller começamos, acho que ali. Isso foi, então, em 66. Eu, ele e Sidney Muller fazíamos as  terças-feiras lá com música de protesto. Tem até um negócio muito engraçado. Eu era muito amigo de um casal, a minha namorada na época era afilhada daqueles que moravam aqui na Teixeira de Melo, que era um general e a esposa dele, que foram desavisadamente assistir ao nosso show. E eu cantei uma música chamada, “Dona Esperança”. Onde eu dizia que o exército era malvado, falava horrores…meio desinformado…

Você lembra?

(Canta) “… lutando com glória, herói de vitórias em terras da Itália..” O general levantou aos gritos: “Isso é uma mentira” e coisa e tal. E ele tinha razão até, porque a pensão dos pracinhas era muito boa até, pra época. E foi embora. E eu telefonando pro Berenque. – “Que isso, Berenque, não fica zangado comigo!” Eu gostava muito dele. Eu tinha um monte de general na família, também, e milhares de discussões. Enfim, tanto fui censurado que acabei me desiludindo com a música e fui fazer o jornalismo Correio da Manhã e fui ser programador da Rádio JB, também.

Guarabyra vem para o Rio de Janeiro. Como é que você conseguiu se inserir aqui, nesse contexto aqui nesse ambiente que o Sá acabou de falar pra gente?

Gutemberg Como eu te falei, eu cheguei no Rio de Janeiro fugido.

Foi pelo show?

Gutemberg É, depois daquele show lá. Então, o irmão que morava aqui no Rio de Janeiro, ele trabalhava no sindicato, que era de todos os frentistas do Estado do Rio. Trabalhador da indústria do petróleo e também os frentistas. E ele acabou sendo presidente desse sindicato e na época da barra pesada, na época da ditadura ser presidente de sindicato. Ele era do partido comunista, meus dois irmãos eram e eu só fui descobrir isso depois que estava abrigo por eles, aqui no subúrbio carioca. E sempre tinha gente escondida na minha casa, escondida da polícia. A polícia política, o DOPS, estava atrás de um monte de gente. Eu passei grande parte da minha adolescência, dividindo quarto com alguém que estava fugindo da polícia política, algum comunista. Fiquei amigo de diversos, eu conversava muito com eles. E nisso o Partido Comunista tinha uma aliança com a cultura da Zona Sul muito grande. Ferreira Gullar, Tereza Aragão, Paulinho Ponte, o pessoal do teatro Opinião, todo mundo. E o meu irmão participava, às vezes de reuniões políticas com esse pessoal. Mas ele não sabia que eu compunha, entende? Porque eu tinha meio vergonha, eu achava muito pretensioso dizer que eu era compositor e tudo. Mas tinha o violão dele lá em casa e quando ele saía pra trabalhar, eu comecei a estudar também, eu pegava o violão…Um dia ele voltou fora de hora, voltou mais cedo do trabalho, entrou não notei, e eu estava tocando as músicas. Ele: “de quem é essas músicas?” “São minhas e tal”. Ele: “pô, mas são legais, heim!” Começou a escutar. E disse: “vou te levar”. E me trouxe pra uma coisa que o Partido Comunista estava por trás, que era feira de Música do Teatro Jovem, aqui em Botafogo no teatro Jovem, que era uma apresentação de compositores novos, por compositores já consagrados. E todas as sextas-feiras havia essa coisa e muita gente, Nara Leão frequentava, Paulinho da Viola, tinha muita gente. Cleber Santos que apresentava. Eu acabei sendo escrito pra me apresentar lá. Meu irmão quebrou esse galho lá, com o pessoal e tal, e me colocou. Até que me inscrevi lá e me chamaram. Tinha uma fila de compositores novos pra se apresentar, até que uma sexta-feira eu cheguei. Nesse dia quem me apresentou, o primeiro foi o Paulinho da Viola. Era o Paulinho que estava sendo o patrono dos compositores novos naquele dia. E a plateia lotada, a Nara estava na primeira fila. E eu nervoso. Eu lembro que o Paulinho disse assim: “Bem, aqui temos um compositor”. E eu não tinha conversado com ele antes. Ele disse: “você é compositor o quê?” Então eu tive que me definir em dez segundos. Eu sou compositor o quê? Eu olhei pra cara dele. Eu fazia muita coisa do sertão e tudo. Aí eu virei pra cara dele e disse, “rural”. “Aqui temos um compositor rural!” e eu mandei ver. Fiz bastante sucesso…

Sozinho.

Gutemberg Sozinho. Eram permitido três músicas, eu acabei cantando quase dez, a plateia de pé. Foi apoteótico. Aí o Nelson Lins e Barros, que é esse que acabou nos apresentando estava na plateia, também, e resolveu me convidar pra ficar na casa dele em Copacabana pra que eu fosse apresentado aos outros compositores. E meu irmão ficou meio assim: “poxa, não, tem que voltar pra casa”. Acabou deixando que eu ficasse aqui, meu irmão mais velho, né? No dia seguinte a gente saiu, ele comprou uma camiseta, uma coisa assim, porque não tinha dado tempo de ir em casa e disse: “agora nós vamos visitar umas pessoas que eu quero que você conheça”. Eu digo: “tá legal”. E logo de cara, na manhã do dia seguinte dessa apresentação aí, ele me levou na casa do Edu Lobo. Eu quase morro, porque o Edu era um grande ídolo, cantava quase tudo dele. E cheguei na casa do Edu, o Edu de roupão, muito hollywoodiano, né? E eu muito tímido. Aí cantei pra ele, ele gostou de algumas coisas. E eu me lembro que ele cantou esse dia pra mim. Ele tinha acabado de fazer uma música com Torquato, aquela “… o cirandeiro, cirandeiro ó…” Ele tinha acabado de fazer, estava ainda corrigindo o negócio da letra. Eu nunca mais me esqueço disso, dessa cena. Conheci Chico Buarque. O Nelson me apresentou todo mundo. Depois fez uma reunião na casa dele pra apresentar os amigos mais íntimos dele, foi onde eu conheci o Sá.

Meio que na sequência tem o grupo Manifesto.

Gutemberg Isso.

Fala um pouco do grupo Manifesto.

Gutemberg Aí eu resolvi voltar pro Sertão. Não estava gostando de ficar por aqui, não, estava com muita saudade do Sertão, porque, olha bem a trajetória. Eu saí do Sertão, fui pra Pirapora fazer um showzinho, nunca mais voltei pra casa. Tinha um ano que eu não voltava em casa mesmo, que era lá em Bom Jesus da Lapa. Aí eu abandonei tudo, resolvi abandonar a música e fui embora. Nesse tempo eu frequentava um barzinho aqui no Leme, o bar do Careca, onde tinha uma fauna gostosa de músicos. Sueli Costa, Gracinha Leporace, Fernando Leporace, Guto Graça Melo, Mariozinho Rocha, né? Eu tinha feito uma música que era legal, o pessoal gostava de fazer vocais com ela e tudo. O Milton Nascimento chegou a ir nesse bar também, Egberto Gismonti, então era uma turminha. Era um bar bem legal. O perigo sempre era o Egberto. Egberto é um monstro, eu acho que é o maior músico que eu conheço tocando.

Por quê? Quando ele pegava o violão, estraçalhava…

Gutemberg Estraçalhava e não largava mais o violão. Era só um violão na casa. Então, todo mundo ficava, assim, tocando, quando o Egberto fazia assim, com a mão, você via dar pra outro amigo. Dava pro Mariozinho Rocha, dava pro Guto Graça Melo, dava pra Sueli Costa, até que ele pegava e pronto. Mas era brincadeira, porque na verdade era um absurdo! Eu não conheço músico maior. Eu não conheço. Ali era a raiz do manifesto. Mas eu voltei pra Bom Jesus da Lapa, lá pro rio São Francisco e larguei tudo. Mas pra voltar pra Bom Jesus da Lapa, eu não tinha dinheiro. Aí o pessoal disse: “olha, a gente paga sua passagem pra Bom Jesus da Lapa se você escrever suas música no festival”. Isso o pessoal do barzinho, lá, Gracinha… aí eu fiquei, porque eu não queria participar de nada mais de música, queria voltar e ter outra vida. Mas fui lá, gravamos…Mas aí eu voltei lá pra Lapa, mas as minhas músicas foram classificadas no festival, duas músicas foram classificadas no festival.

Que músicas foram?

Gutemberg Foi “Marinheiro Olê” e “Margarida”, que o Roupa Nova acabou regravando uns dois anos, três anos. O Roupa Nova regravou, ficou bacana, ficou legal. E começou a sair em jornais, ouvi no rádio, aquele tempo não tinha televisão ainda por lá, mas saía no rádio, a revista O Cruzeiro, classificados e tudo. Então eu voltei pro Rio, cheguei no boteco, o boteco estava mais animado ainda. Foi aí que nós fundamos o grupo Manifesto, pra defender a música no festival. Porque antes eu procurei alguém que defendesse a música no festival e ninguém quis defender a minha música no festival. Todo mundo dizia que quem ia ganhar era um sujeito qualquer importante e tal, que não tinha chance, não quis. Pra você imaginar o meu desespero, eu cheguei a pedir até o Agnaldo Timóteo pra defender minha música. Mas aí ele recusou. (ri)

Fala pra nós aqui o ano do festival, o nome do festival, fala também o ranking.

Gutemberg O Festival Internacional da Canção em 67. Havia uma fase nacional e uma fase internacional com a participação de trinta países concorrentes. Na fase nacional fiquei em primeiro, o Milton em segundo, o Chico em terceiro, Vinícius em quarto…

O Milton com “Travessia”…

Gutemberg Isso e o Chico com “Carolina” e Vinícius com a música estranha com Edir Krieger, “Fuga e Antifuga”, lembra? Pixinguinha em décimo, não é? Uma coisa desse tipo. Na fase internacional, Jimmy Fontana, da Itália ganhou, o Quincy Jones ficou em segundo lugar e eu em terceiro.

O grupo Manifesto chegou a gravar, né?

Gutemberg Gravamos dois discos.

Pela Elenco?

Gutemberg Pela Elenco. Dois discos com arranjos e produção de Oscar Castro Neves. Muito legal!

Sá, como surgiu o grupo Mensagem?

Nossa, Charles, você vai fundo. O grupo Mensagem foi armado pelo grupo Opinião. O grupo Opinião fez um show depois do enorme sucesso da Nara e da Maria Bethânia, depois que substituiu a Nara no Opinião, no show que chamava Opinião. O grupo Opinião quis fazer um outro musical com a mesma força. Então o que que eles fizeram? Fizeram um musical chamado Samba Pede Passagem, que percorreria desde a velha guarda das escolas de sambas, dos compositores tradicionais como Silas de Oliveira, Ismael Silva até a novíssima geração que seria a nossa. Então através do Nelson Lins e Barros eles chegaram a … Eu, Sidney Miller, Luli, a Soninha que depois integrou o Quarteto em Cy, o Marco Antônio Menezes e o Paulo Tiago. Esse era o grupo Mensagem. O Tiago era letrista. E o Tiago era empolgado, cantava as músicas também, teatralmente. Não é à toa que depois ele se tornou diretor de cinema. A Soninha foi integrar o Quarteto em Cy anos depois, o Marco Antônio partiu pro direito mesmo, o Sidney fez história como compositor e eu acabei também caindo no crime, como eu falei. Mas o Mensagem, na realidade, foi formado ali na garagem da Luli, também. Na rua Clóvis Bevilacqua, na Tijuca, que fazia saraus fantásticos, também. Só que a Luli, a família da Luli era muito tradicional, então a Luli não pode subir no palco, aquilo era vedado a ela. E ela como uma das grandes mentoras do grupo acabou não subindo no palco, mas um ano depois ela gravou várias músicas minhas, do Sidney num disco antológico de tudo que ela cavou e descobriu. Mas, enfim, fizemos esse show no Opinião que foi um show inesquecível pra todos nós. Porque imagina, você chega no camarim e está o Baden Powell, como aconteceu comigo. Eu cheguei, o Baden chegava virado, às vezes tinha tomado todas e coisa tal. E uma coisa fantástica. O Armando Costa botava ele num banco. O teatro Opinião tinha quatro cantos, em cada um eles faziam um evento e quando chegava a hora do Baden, o Baden estava dormindo assim, em cima do violão. O Armando Costa arranjou um vasculho daquele de teto muito comprido e cutucava o Baden. Ele acordava e saía tocando “Jesus Alegria dos Homens” sem errar uma nota, Charles, não errava uma nota. E um belo dia eu cheguei lá e o Baden me chamou no camarim dele: “vem cá, eu vou ensinar uma música nova pra vocês e coisa tal”. Acabei de fazer com o Vinícius e nós vamos cantar isso aqui hoje”. Eu disse: “Baden, que isso!” E ele ensinou pra nós o “Canto de Ossanha” “… o homem que diz dou não dá, porque quem dá mesmo não diz…” E eu aprendendo aquela harmonia ali na hora. E juntou MPB 4, juntou até Ismael Silva cantou o “Canto de Ossanha” e coisa e tal, foi um negócio apoteótico e ele tinha esse poder de agregar e acreditar naquilo que ele estava fazendo, apesar dos tropeços vitais que ele estava vivendo naquela época. E isso pra mim foi indescritível.

O nome mensagem é…

Foi o Armando Costa que inventou.

Por que mensagem?

Acho que era um negócio bem da época, também, daquela esquerda idealista.

Seguia essa linha?

É, eu cantava uma música chamava “Rei do Quilombo”, que era uma música que a gente, pra escapar da censura, a gente substituía o pobre, o operário, o oprimido pelo negro. A gente cantava músicas… isso tudo em cima daquele negócio do Zumbi, do Edu Lobo, do Rui Guerra, do Gianfrancesco Guarnieri coisa e tal, naquela linha. (canta) “… rei nagô, rei campina, rei malê, mas a terra do quilombo subi, bate palma, bate com pé… babalo…”

Gutemberg  Mas esse Mensagem era uma palavra tão usada, que acabou que o Mariozinho fez o grupo Manifesto, com a espécie de hino, né? Que é: “… minha música não tem mensagem…” Pra responder esse pessoal todo, lembra? (risos) Sei que era uma palavra bem usada.

Agora vamos dar um pequeno salto. Então a pergunta é pra Sá e pra Guarabyra. Como é que se formou o trio, Sá, Rodrix e Guarabyra?

Gutemberg Há controvérsias…

Temos duas versões?

Gutemberg Não.

O principal evento da formação desse trio, na realidade foi o final do meu primeiro casamento. Eu morava aqui no Leblon, ali no Jardim de Alah, acabou o meu casamento. Obviamente eu saí de casa, minha ex-mulher ficou. Mas tudo que eu consegui ficar do casamento foi o meu buggy. Eu tinha um Gurgel e uma cama comprida, bem fininha, que era cama de empregada, mas era a única coisa que cabia no buggy. Então eu botei a cama atrás do buggy e saí com uma mala, completamente desarvorado. Parei ali na praça Nossa Senhora da Paz, estacionei o buggy ali e fiquei pensando o que eu ia fazer da vida naquela altura. E eu ouvi um chamado dos céus, assim: Sá, Sá coisa e tal. Quando eu olhei era o Guarabyra passando na pracinha, ali. A gente era amigo já, uns dois anos, por aí, uns três anos. Eu disse: “cara, separei agora, to aqui perdido”. “Não, não, vai morar lá em casa”, ele me convidou. E eu levei minha caminha que cabia em qualquer quarto e fui morar na casa dele. E morávamos eu e ele num quarto, nos outros quartos o Zé Trajano, cronista de futebol e diretor da ESPN, e o Tuninho Neves também, um outro jornalista, nosso amigo até hoje, também. E eu tinha uma dupla com o Zé Rodrix, nós compúnhamos e já estavávamos sendo gravados por muita gente. E o Zé tinha acabado de fazer o “Casa no campo” e tinha acabado de ganhar o festival de Juiz de Fora e estava indo pra concorrer no Festival Internacional, com “Casa no campo”. Porque quem ganhava o festival de Juiz de Fora concorria automaticamente.

Gutemberg Aí eu parei. Assim, depois que eu ganhei aquele festival e tudo, eu resolvi, então, partir para aquele negócio que eu gostava de teatro mesmo. Abandonei a música e fui dirigir televisão. Então eu fui diretor da TV Tupi, diretor da Globo, ainda com 21 anos. Acho que fui o diretor da Globo mais jovem, até hoje. E esse festival que ele está falando, festival de Juiz de Fora, eu dirigi esse festival e fiz essa ligação do Festival de Juiz de Fora com o festival internacional que eu dirigia, também. Acabei dirigindo o próprio Festival Internacional da Canção.

Guarabyra foi nessa época que você também mexeu os seus pauzinhos pra aliviar a censura? Foi nesse período? A censura pegava muito forte nas letras, as pessoas não podiam cantar. Sabe-se que você trabalhou nos bastidores pra passar muita música pela censura…

Gutemberg Foi nessa época, também. Justamente essa época eu estava desempregado por causa desse movimento que eu fiz contra a censura, que eu tive que cair fora, tive que fugir uns tempinhos. E depois já mais quieto, desempregado ainda nessa época, ficava muito em casa e acabava assistindo os ensaios dele.

Um detalhe: eu também estava desempregado, que eu tinha largado o jornal e a rádio, que eu resolvi ser músico de vez. E a gente vivia às custas do que tinha restado do dinheiro da Globo com o Guarabyra. E o Tuninho e o Trajano também, que estavam empregados, né? Comia quando tinha comida em casa, que os meus amigos providenciavam. Eu só tinha o meu buggy e minha cama. Mas enfim, o Guarabyra começou a cantar com a gente também e entre os frequentadores desse apartamento estava o Mariozinho Rocha e o Júlio Hungria, que era crítico do Jornal do Brasil, uma figura de proa da crítica na época. Nós três, por um acaso, éramos contratados da Odeon. E íamos gravar, eu cheguei a gravar um compacto, como se dizia um single, naquela época. O Guarabyra tinha acabado de gravar “Casaco marrom”, também…

Gutemberg Eu gravei um compacto, também.

Já tinha gravado “Casaco marrom” muito tempo, ia gravar o segundo disco. E o Zé também, já ia atacar solo. E o Mariozinho chegou e falou: “Mas vocês são um trio, vocês cantam juntos, vocês vocalizam, vocês compõem juntos. Porque vocês vão fazer um…”

Gutemberg Aí que a história não é bem assim. Na realidade, a gente combinou de um de nós ir falar pro Mariozinho que a gente estava a fim de fazer um trio.

Isso foi depois na dupla.

Gutemberg Não, não…

A gente combinou que um de nós ia lá pra falar que a gente ia continuar em dupla.

Gutemberg Não…

Há controvérsias.

Gutemberg Eu tenho certeza. Aí eu fui falar com o Mariozinho. Aí, o Mariozinho foi lá em casa escutar a gente. Aí foi que começou a coisa.

Há controvérsias. E aí acabou que a gente gravou Passado, Presente e Futuro, Sá, Rodrix e Guarabyra. Deu tudo certo, o disco explodiu, a gente tocava de um lado a outro com o fator São Francisco que o Guarabyra nos trouxe. Aquela coisa roqueira do Zé, saido do som imaginário, ainda imerso, também em mineiridade, coisa e tal. E a minha urbanidade interiorana, porque eu me interessava muito por essa coisas, viola, coisa e tal. Então o que é que eu fiz? Eu peguei uma viola da Del Vecchio que tinha e mandei aqueles negócios, feito um captador, um cristal que chamava, né? E tocava aquela viola elétrica como essa aqui, afinada. Como eu não sabia tocar o cebolão e não podia, não sabia fazer todos os acordes que eu tinha no violão, no cebolão, eu afinava que nem violão, privado do bordão, é claro. E saía tocando e o som da gente partiu daí, o teclado com aquela pegada de blues e country do Zé, o interiorano, sertanejo brasileiro da época do Vale do São Francisco o Guarabyra trouxe. E a minha viola meio roqueira, meio urbano, meio bossa nova…

É um encontro interessante. Tem uma entrevista da época que o Guarabyra fala. Nessa entrevista o Guarabyra fala uma coisa mais ou menos assim: “Não é o Sul, é o Sudeste, não é o Nordeste, é um lugar que ninguém sabe exatamente, ninguém conhece muito bem”. Que é o lugar de onde você veio. Você falou isso numa entrevista. Só não me lembro bem a época. Fala um pouco desse lugar que você veio.

Gutemberg É porque o Vale do São Francisco oficialmente, ele fica uma parte na Bahia e o médio São Francisco, né? E uma parte em Minas. Depois lá pra cima, pra outros estados do Nordeste: Pernambuco, Alagoas, Sergipe. Mas o médio São Francisco, na verdade, ele tem uma cultura própria, entende, naquele tempo então em que o isolamento era muito mais severo, era bem severo. Pra você ter uma ideia eu só fui conhecer a capital do meu estado que era Salvador, depois de ter ganho esse festival, depois disso tudo. Porque o contato da gente com os lugares maiores e tudo era através do rio.

Está mais próximo do eixo, né? 

Gutemberg Isso. Então era outra via, não tinha nada que ver com Bahia. Tanto que a cultura do São Francisco não é nem baiana, não é nem mineira. E paraibana e piauiense, também, que faziam parte, encostado no outro lado, também. Quando a gente morava em Xique-Xique, meu pai tinha um pouco de gado no Piauí, que ele ia a cavalo de Xique-Xique até Corrente no Piauí, pra ver o gado, que nunca o rebanho crescia, porque deixava lá nas mãos do vaqueiro, então sempre uma onça matava diversos. O rebanho não ia crescer, ele desistiu de ser fazendeiro.

De onde veio esse nome rock rural? como é que pegou esse nome?

Eu acredito que foi por causa da “Casa no Campo” do Zé, né? (canta) “… onde eu possa compor muitos rocks rurais… e tenha somente a certeza…” A gente era um pedaço do country rock americano, do James Taylor, dos Almo Brothers. E isso tudo misturado com essas raízes todas daí que eu te falei. Então a princípio o Junior Hungria chamou de progressive caipira. Que também era um nome apropriado. Mas é claro que não pegou, né, porque é muito complicado: progressive caipira.

Rock rural é muito bom. O som já é bom, o gênero já é bom. 

Uma coisa só que eu tenho contra esse negócio do nome, é porque limita. Então as pessoas sempre acham que a gente faz o rock rural. E não é isso. Às vezes não é nem rural, nem rock. Rock rural é aquilo que a gente faz. Qualquer coisa que a gente fizer vira rock rural.

Gutemberg É, mas em termos de rock não é muito bom e ninguém acharia um melhor.

O Trio lançou dois discos depois que o Zé Rodrix saiu. O que que aconteceu?

Eu acho que aquela altura dos acontecimentos, quando o Zé saiu, a bem da verdade, do Som Imaginário, ele saiu pra fazer uma carreira solo, mas ele trombou na gente. E aquilo ficou muito conveniente, porque estava dando tudo certo e a gente se entendia muito bem. Eu e Zé, por exemplo, a gente fazia música em quinze minutos. Quando eu dizia A, ele já dizia B e coisa e tal, era uma interação imediata. Ele já era parceiro do Guarabyra antes de compor comigo. Eu, na realidade, só vim a ser parceiro do Gut, apesar de sermos amigos há muito tempo, depois que a gente já estava naquela casa. E aí, chegou uma certa altura, que sob o peso do estrelato e da estrada, que a gente ficou meio perdido. Nessa época o Rogério Duprat chamou a gente pra entrar no negócio da propaganda. E ao mesmo que a propaganda era um negócio interessante em termos de criação, e principalmente eu acho que nós fomos pra São Paulo, nessa época, mudamos pra São Paulo pra trabalhar com o Rogério. O que na realidade atraiu a gente foi o nosso guru. Quer dizer, pelo menos o meu guru e acho que o guro do Gut, também, né, o Rogério Duprat era uma figura ímpar.

Um convite quase que irrecusável.

Irrecusável. O negócio era o sonho, era o nosso sonho de consumo. Então o Rogério chamou e a gente foi imediatamente pra São Paulo. Mudei pra São Paulo, Guarabyra também. E nós fomos pro Broklin e levamos com a gente a nossa banda da época: Sérgio Magrão, hoje do 14 Bis, Sérgio Hinds, na guitarra, Flávio Venturini que o Milton Nascimento indicou pra integrar nossa banda. Cezar de Mercês, Luis Moreno. Levamos todo mundo pra São Paulo e fizemos uma colônia carioca no Broklin. Nessa época o Zé estava casado com a Edir de Castro, que depois se tornou Frenética, coisa e tal. E como o Zé estava recém-casado, a vida dele era um pouco diferente da nossa. Eles mudaram pra Brigadeiro Luís Antônio. A gente ficou distante. São Paulo, né, era um negócio que a gente não estava acostumado e que não era que nem o Rio, onde a gente se encontrava todo dia. E a gente foi se distanciando, foi se distanciando. Quando a gente fez uma excursão pro Sul, pra Porto Alegre, em Santa Catarina que aconteceu uma série de contratempos, né? Chegamos em Porto Alegre e o contratante local tinha tomado um ácido e delirou, e a gente teve que acampar, porque não tinha hotel, não tinha nada. Era aquelas aventuras de estrada daquela época. Nós estamos falando aí de 73, depois do Terra. Aí o Zé se estourou de vez e voltou pra cá e já começou a fazer um disco na Odeon solo. E eu me invoquei com ele, porque ele estava abandonando o barco numa hora imprópria, e a gente discutiu e coisa e tal. E deu aquelas neuras de grupo de sucesso recém-formado, isso e aquilo. A gente partiu cada um pra um lado. Fui eu gravar um disco de novo na Odeon, fiz outro single. Meu destino é single. Eu não tenho um disco inteiro, só tenho single. Aí fui fazer um single e o Zé gravando o disco dele. E a gente se encontrou no corredor. Eu abri pro Som Nosso de Cada Dia, Pedrão Baldanza que hoje é nosso baixista, aí eu abrindo esse show lá com Som Nosso e com a banda de músicos ótimos; Sérgio Cafa, Tuca. E a gente fez sucesso e o Guarabyra foi lá me atrapalhar. Foi lá botar areia na minha carreira solo. Quando eu saí do show ele disse: “pô, vamos fazer, vamos voltar a dupla e tal”. Acho que ele ficou com ciúmes.

Gutemberg E eu continuava bebendo, depois do show ele veio beber comigo. Aí nós saímos do bar, nós já éramos dupla de novo.

E chegamos na Odeon com essa novidade, eles adoraram, a gente gravou o Nunca, que foi nosso primeiro disco de dupla em 74, com arranjo do Rogério do Prado, Eduardinho Souto Neto, produzido pelo Mariozinho ainda, né? Não me lembro mais se era o Mariozinho ou Renato Correia. Acho que era o Renato.

nunca

Gutemberg Acho que foi o Renato Correia.

E aí ficamos 26 anos juntos, até a volta do Zé em 2001. O Zé sempre dizia pra mim que a coisa ele mais se arrependia era de ter largado o trio.

Gutemberg Mas ele participou de diversos discos nossos, também de dupla, como arranjador…

É, nesse entretempo ele ainda fez muita coisa com a gente. E acabou que, em 2001, o pessoal do Rock in Rio III chamou a gente pra fazer uma homenagem ao rock rural, a gente chamou o Zé e disse: “vamos fazer o trio, né?” Aí fizemos o show lá na tenda Brasil, foi um puta sucesso e a gente saiu de lá já contratado pela Som Livre pra fazer um DVD e CD ao vivo e aí ficamos juntos até o inesperado acontecer que foi a morte dele em 2009, né? Um choque total pra nós. É, mas a história, enfim é essa.

Flávio Venturini

Como conheceu o Sá e o Guarabyra, eles já eram uma dupla ou eram um trio, com o Zé?

Eu já gostava de Sá e Guarabyra, Sá, Rodrix e Guarabyra. Eles fizeram dois discos importantes no começo desse trio. Eu lembro que eu curtia demais assim. Jamais ia pensar que um dia ia tocar com eles. Até que um dia eu recebi um telegrama do Guarabyra me chamando pra participar de um disco com eles. Ele tinha perguntado ao Milton, se o Milton conhecia algum tecladista em Minas, porque Minas tinha essa fama de ter tecladistas, por causa do Wagner Tiso, do Elvis Vilela. E aí o Milton falou: “ah, o Beto Guedes me fala de um cara lá de Belo Horizonte”. O Milton nem me conhecia, ainda. “É o Flávio”. E aí ele sem me conhecer me mandou um telegrama já me chamando pra gravar. Como o timing era outro naquela época. Aí eu fui conhecê-los no Rio de Janeiro e daí fomos pra São Paulo. E quando eu entrei no estúdio pra gravar e conhecer o pessoal. Quem estava gravando era o pessoal do grupo O Terço, que já tinha defendido uma música minha no festival. Daí foi um grande encontro. Eu já entrei pra banda e fiquei muito amigo deles. Morei com o Sá, eles trabalhavam no estúdio do Rogério Duprat fazendo publicidade. A gente também entrou nessa. Foi uma grande amizade. E a gente se divertia muito nessa época, porque eles são muito engraçados. Acho que o Zé Rodrix já era muito engraçado e muito inteligente. Então era piada o tempo inteiro, era um sacaneando o outro e as noites paulistas. Foram amigos que eu considero, que me deram a maior força na minha carreira. Logo a gente começou a compor juntos e fazer músicas. E é uma amizade para sempre mesmo.

Que tipo de identificação musical rolou além da empatia pessoal e a musical entre você, o Sá, o Guarabyra pra que seguissem fazendo música?

É, acho que a gente já se encontrou, foi um encontro nessa coisa. Eu tinha essa coisa de compor em violão e vocal, que eles tinham muito desde o Zé Rodrix e Guarabyra. E a música deles essencialmente quase um folk, de violões e vocal. Daí deu super certo da gente tocar juntos e cantar juntos. Até que a gente começou a compor. Teve a história do “Espanhola”, né? É uma história engraçada. Porque essa música, na verdade, é antiga. Essa música quando eu estava me preparando pra fazer um disco com o Beto Guedes. A gente já tocava essa música e eu me lembro que eu dei essa música pro Guarabyra e ele demorou, sumiu com a música. E eu morava com o Sá. Eu e o Magrão morávamos na casa do Sá, no Brooklin, em São Paulo. E um dia eu estava dormindo, já madrugada e aí adentra ao quarto o Guarabyra, depois de tomar umas e outras com a letra do “Espanhola”, que foi uma música emblemática na minha carreira, importante na carreira deles e na minha, também.

E essa música você achou emblemática, porque ela virou trilha de novela?…

É, eu posso até dizer que essa música é o meu maior sucesso. Eu tenho algumas músicas que fizeram bastante sucesso. É a música mais pedida nos meus shows. Às vezes eu tento não cantar, porque às vezes a gente cansa de cantar a mesma música tantos anos. E aí a plateia não deixa ou reclama. Aí eu venho no bis e canto. Pra eles também é uma música que eles não podem deixar de cantar nos shows.

Fala um pouco desse projeto que você fez com eles. Os primeiros até chegar nesse disco, Pirão.

Eu participei do disco Nunca. Eu cheguei a gravar no disco Pirão de Peixe com Pimenta, mas a gente continuava juntos ali. Eles deram uma força pro Terço, também. Eu tenho músicas com o Sá, também no grupo O Terço na minha carreira solo. E foi mais essa convivência musical e pessoal. A gente não fez, também, muitos discos, muitos projetos, assim, mas foi mais uma grande amizade pessoal e musical.

Foi uma convivência de algum tempo, né? Vocês, o Terço com Sá e o Guarabyra.

É, foi até que eu fizesse o 14 Bis. Eu comecei com o Grupo Terço em 74. Foi esse ano que eles gravaram “Nunca” e me convidaram. E em 79 eu fundei o 14 Bis, mas nesse meio tempo muita água rolou debaixo dessa ponte, porque eu toquei com eles, toquei com o Beto Guedes, o lançamento do A página do relâmpago elétrico, toquei com o Milton no Clube da Esquina 2 e aí fundei o 14 Bis. Foi uns quatro, cinco anos muito intensos na minha carreira.

Qual sua opinião sobre esse rock chamado, rock rural?

Eu acho que não se tinha, assim, um rótulo. Porque na época era assim, sertanejo era um estilo muito puro, muito só do interior, não é o que é hoje que é uma música comercial e de grandes públicos e plateias. E eles vieram com uma coisa nova. Ninguém fazia aquele tipo de som no Brasil, porque só a gente fazia. E acho que a crítica quis dar um rótulo. Então, rock rural, porque eles tinham também um lado roqueiro, sempre tiveram e era bem o folk, o country.

Você acha que ele tem afinidades com o progressivo mineiro do 14 Bis? Você acha que o som deles se aproxima do 14 Bis? 

Eu acho que o 14 Bis foi influenciado por Sá e Guarabyra, com certeza. Porque como eu falei, eu ouvia muito Sá, Rodrix e Guarabyra. Foi um som que já me mostrou ali uma maneira de se fazer música de violão. Claro que eu ouvi todos os grandes caras do country. E eu já tinha essa coisa do violão mais pro folk, mas eles foram importantes com essa coisa do vocal e de uma cara brasileira pra esse tipo de som. Com certeza eles influenciaram o nosso trabalho.

Você se lembra desse disco agora, assim?

Do Pirão de Peixe com Pimenta?

O que que você acha dos arranjos? Você que pode falar sobre ele? 

Eu acho que é um disco em que quando eles ficaram em dupla, que eles perderam o Zé Rodrix que era uma pessoa muito importante, também. Então eu acho que eles fizeram um bom disco, mas acho que eles se acertaram no disco Pirão de Peixe com Pimenta, que foi um sucesso comercial e um disco muito bem feito. As músicas realmente, eles voltaram, talvez a força que eles tinham nos dois primeiros discos.

Você esperava que, evidentemente que não, mas que “Espanhola se tornasse” um clássico de violão? Todo mundo canta essa música.

Não, eu não esperava que ela se tornasse um clássico que ela se tornou. Mas tem uma coisa na minha carreira que é interessante. As minhas músicas que fizeram sucesso, eu tinha alguma intuição de que elas iam fazer, que elas iam se tornar conhecidas. Parece que tem um algo mais, eu tenho mais de trezentas composições, sei lá quantas. A gente nem conta isso, mas essas músicas são especiais mesmo. Não só por que fizeram sucesso. Eu acho que elas… foi quando eu fiz “Noite com sol” eu falei: “pô, essa música é diferente, sabe?” A gente sente alguma coisa diferente quando a música é forte.

Qual a sua opinião hoje sobre esse disco, Pirão de Peixe, você acabou de falar, mas reafirma isso. Pirão de Peixe com Pimenta pra vida do Sá e Guarabyra e pra discografia nacional?

Eu acho que é um disco importante dentro desse formato. Mostrou, como eu já falei num outro momento, uma nova maneira de se fazer uma música de boa qualidade, de bom gosto nas letras, nos arranjos, nos vocais. Eu acho que eles criaram um estilo ali. Então esse disco é importante por isso. Eu acho que foi um momento, um disco que fez sucesso, também foi sucesso popular e musicalmente é muito bem feito.

Sucesso comercial, né? Ainda pode ser classificado como rock rural ou marcou na MPB? 

Eu acho que é um disco de MPB. Eu acho que rock rural, como eu falei, foi um rótulo que eles arrumaram na época e você não pode dizer hoje que o sertanejo é um rock rural. Tá mais pra urbano que rural, né?