Quarteto em Cy | ANTOLOGIA DO SAMBA CANÇÃO | Phillips, 1975

antologia do samba
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Cyva, Cynara, Cybele e Cylene, vieram de Ibirataia, Bahia, para o Rio de Janeiro nos anos 1960 e seu caminho se cruzou com o de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, que batizaram o conjunto vocal de “Quarteto em Cy”. O primeiro registro foi a participação na trilha sonora do filme Sol sobre a lama, com trilha de Vinícius e Pixinguinha (1963) e no ano seguinte, após o circuito Beco das Garrafas, estrearam em vinil com Quarteto em Cy, com arranjos de Eumir Deodato, seguido de O som definitivo de 1965, mesmo ano em que dividiram o vocal dos Afro sambas, com o “Coro da Amizade”.   
Com novas formações (Regina Werneck no lugar de Cylene) o grupo fez turnês nos Estados Unidos (“The girls from Bahia”). Com uma terceira configuração, com Cyva, Cynara, Sonia e Dorinha Tapajós, o Quarteto em Cy foi relançado em disco homônimo de 1970 e, em 1975, recebeu convite de Roberto Menescal para gravar uma antologia com obras de Antonio Maria, Ary Barroso, Tito Madi e Lupiscínio, entre outros. O disco ganhou uma nota de agradecimento ilustre:  “Cyva, Cynara, Dorinha e Sonynha, que presente mais lindo vocês me deram com essa Antologia do samba-canção, a gente ouve, ouve, e não se cansa de ouvir. O Quarteto em Cy tem parte com os anjos, é a explicação que achei e que aumentou a minha alegria. Beijos para vocês quatro, com admiração carinhosa de Carlos Drummond de Andrade”.
TRIPCY

FAIXAS

POT-POURRI DE ANTONIO MARIA
“Ninguém me Ama”
(Antonio Maria-Fernando Lobo)
“Se eu Morresse Amanhã”
(Antonio Maria)
POT-POURRI DE ARY BARROSO
“Rancho Fundo”
(Ary Barroso-Lamartine Babo)
“Risque”
(Ary Barroso)
“Folha Morta”
(Ary Barroso)
POT-POURRI DE GAROTO
“Duas Contas”
(Garoto)
“Gente Humilde”
(Garoto-Chico Buarque-Vinicius de Moraes)
POT-POURRI DE TITO MADI
“Não Diga Não”
(Tito Madi-Georges Henri)
“Cansei de Ilusões”
(Tito Madi)
“Fracassos de Amor”
(Tito Madi-Milton Silva)
POT-POURRI DE JAIR AMORIM
“Ponto Final”
(José Maria de Abreu-Jair Amorim)
“Alguém Como Tu”
(José Maria de Abreu-Jair Amorim)
POT-POURRI DE LUPICÍNIO RODRIGUES
“Vingança”
(Lupicínio Rodrigues)
“Nunca”
(Lupicínio Rodrigues)
“Esses Moços” (Pobres Moços)
(Lupicínio Rodrigues)
POT-POURRI DE HERIVELTO MARTINS
“Caminhemos”
(Herivelto Martins)
“Segredo”
(Herivelto Martins-Marino Pinto)
POT-POURRI DE CARLOS LYRA
“Primavera”
(Carlos Lyra-Vinicius de Moraes)
“Minha Namorada”
(Carlos Lyra-Vinicius de Moraes)
POT-POURRI DE JOHNNY ALF
“Eu e a Brisa”
(Johny Alf)
“Ilusão à Toa”
(Johny Alf)
POT-POURRI DE DOLORES DURAN
“Por Causa de Você”
(Tom Jobim-Dolores Duran)
“Ternura Antiga”
(Ribamar-Dolores Duran)

FICHA TÉCNICA

POT-POURRI DE ANTONIO MARIA
Arranjo: Oscar Castro Neves
Violão: Oscar Castro Neves
Baixo: Luizão
POT-POURRI DE ARY BARROSO
Arranjo: Luiz Claudio Ramos
Violão: Luiz Claudio
Baixo: Gabriel
Bateria: Pascoal
Harp Strings: Dom Charles
POT-POURRI DE GAROTO
Arranjo: Luiz Claudio Ramos
Violão: Luiz Claudio
Baixo: Gabriel
Ritmo: Peninha
Bandolim: Zé Menezes
Piano: Antonio Adolfo
Bateria: Mamão
Harp Strings: Dom Charles
Sintetizador: Dom Charles
POT-POURRI DE TITO MADI
Violão: Oscar Castro Neves
Baixo: Luizão
POT-POURRI DE JAIR AMORIM
Arranjo: Luiz Claudio Ramos e Magro (MPB-4)
Participação Vocal: MPB-4
Pot-Pourri de Lupicínio Rodrigues:
Arranjo: Luiz Claudio Ramos
Violão: Luiz Claudio
Baixo: Luizão
Piano: Antonio Adolfo
Bateria: Paulinho
Ritmo: Hermes
POT-POURRI DE HERIVELTO MARTINS
Arranjo: Miltinho (MPB-4)
Violão: Luis Claudio
Baixo: Gabriel
Piano: Antonio Adolfo
Bateria: Mamão
Ritmo: Peninha
POT-POURRI DE JOHNNY ALF
Arranjo: Miltinho (MPB-4)
Violão: Luis Claudio
Baixo: Luizão
Piano: Marinho
Bateria: Pascoal
POT-POURRI DE DOLORES DURAN
Arranjo de Cordas: Luiz Claudio Ramos (Por Causa de Você)
Arranjo Vocal: Luiz Roberto (Por Causa de Você)
Arranjo vocal: Luiz Claudio Ramos (Ternura Antiga)
Cordas: Orquestra Phonogram
Violão: Luiz Claudio
Baixo: Alexandre
Piano: Antonio Adolfo
Bateria: Mamão
Ritmo: Peninha
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO
Paulinho Tapajós
TÉCNICOS DE GRAVAÇÃO
Luigi – Ary – João – Luiz Claudio
TÉCNICO DE MIXAGEM
Luigi
AUXILIARES DE GRAVAÇÃO
Paulo “Chocolate” Sergio – Zé Guilherme
ESTÚDIO
Phonogram
CORTE
Joaquim Figueira

Cynara

O que se pode dizer da marca extraordinária de 50 anos de carreira do Quarteto em Cy?

É uma marca bacana, um número redondo, pesa, por ser exatamente 50 – e a gente não sabia nem se chegaria aos 20, que dirá aos 50. Mas o que eu acho mais bacana é estarmos fazendo planos com 50 anos de carreira, isso que importa, isso é vida, enquanto estivermos planejando e fazendo as coisas, inventando e cantando, criando, estaremos bem.

 

Por essa trajetória tão especial de vocês há um amor muito grande pela música, que deve ter movido vocês nesse tempo todo. Onde começou esse amor pela música e pelo ato de cantar?

Começou na infância, nós éramos quatro irmãs, no interior da Bahia, meu pai sempre foi muito ligado em música, minha mãe também – ela tocava bandolim e ele gostava de cantar – e levavam as filhas para todas as festinhas, para mostrar, pai e mãe querendo mostrar as gracinhas dos filhos. Em Salvador, nós frequentamos a “Hora da Criança”, uma instituição sem fins lucrativos que educava por meio de Arte, onde fizemos aula de música, canto, ballet, radioteatro na Rádio Sociedade, da Bahia, com o professor Edvaldo Ribeiro Costa e o maestro Agenor Gomes, e daí cresceu esse amor pela Arte, a Música veio a reboque. Eu e a Cylene fizemos algumas coisas em Salvador, inclusive ganhamos um programa de televisão, “Escada para o sucesso”, por meio do Carlos Coqueiro Costa, um incentivador de talentos baianos. Fizemos duplas, Cyva e Cybele também cantavam e até formar o Quarteto, que aconteceu no Rio de Janeiro, foi um passo. Aí a coisa se deu por meio do Vinicius de Moraes, de 1963 para 1964, fomos participar da trilha sonora feita por Pixinguinha e Vinicius de Moraes para o filme “Sol sobre a lama”, de Alex Viany, e o Vinicius se apaixonou pelo som do grupo e propôs que a gente fizesse disso profissão. Costumo dizer que o Vinícius é a nossa pedra fundamental, se não fosse ele, não existiria o quarteto, existiria sim as irmãs cantando aqui e ali, amadoristicamente, mas ele deu aquele empurrão para nos profissionalizarmos.

 

O empurrão do Vinícius colocou o Quarteto em Cy nos palcos do Beco das Garrafas aqui no Rio de Janeiro, no princípio dos anos 1960. Esse cenário fervia na época, não?
Era o reduto da bossa-nova, havia três bares que faziam pocket-shows, Bottle’s, Bacará e o Little Club. Estreamos em 30 de junho de 1964 e ao mesmo tempo em que acontecia nosso show no Bottle’s, ao lado tinha um show da Elis Regina e do outro tinha show de Os Cariocas, Jorge Ben, tinha também o trio do Ronnie e Luiz Carlos Vinhas, então era um burburinho de música boa naquela região. Depois, nos profissionalizamos, teve o show do Zum Zum, com Vinicius e Caymmi, produção e direção de Aloysio de Oliveira, com o conjunto do Oscar Castro Neves e daí para frente foi correr para o abraço.
Lembrando do Beco das Garrafas, é um ambiente muito interessante para a gente tentar reconstituir: três clubes, com muita gente boa tocando ao mesmo tempo. Como vocês faziam, os grupos chegavam a competir?
Era um público bem específico, que gostava de ver tudo, muito ligado à bossa e à bossa-jazz. Então combinávamos para não fazer os shows na mesma hora, porque assim os outros artistas assistiam o nosso show e nós, os deles, e o público se dividia em todos. Era um barato, um pessoal muito amigo que se curtia muito.

 

Interessante também a gente lembrar que a história do Quarteto em Cy se mistura com a da própria bossa-nova, vocês são associadas a ela, não? Por que isso aconteceu?
Nós chegamos em 1964, no finalzinho da bossa-nova, um pouco depois de ela estar estourada. O marco da bossa-nova tinha acontecido em 1958, com o disco da Elizeth Cardoso, Canção do amor demais, com as músicas do Vinicius e do Tom Jobim, o violão do João Gilberto em algumas faixas. A gente bebeu dessa fonte. Eu não considero o Quarteto em Cy um grupo de bossa-nova, somos mais abrangentes, já pegamos a MPB. Tem um componente da bossa-nova porque convivemos com Tom, Vinicius, Edu Lobo, mas não é um grupo essencialmente bossa-novista, o que fazemos não é bossa-nova, porque acho que a bossa-nova tem a ver com o Menescal, o Bôscoli, e eu sinto que a gente tem pouca coisa deles – temos muito do Tom e do Vinicius, e daí já parte para o Edu, para o Francis Hime. Acho a bossa-nova maravilhosa, nós cantamos, mas não foi uma marca do Quarteto, nós não somos só isso, é ampliado.

 

Nesse ambiente tão fértil veio o convite para gravar o primeiro disco, pelo lendário selo Forma. Como aconteceu isso?
Foi por meio do Roberto Quartin, estávamos fazendo show no Beco das Garrafas e ele achou lindo, se apaixonou, e propôs um LP – aliás, nós fizemos três LPs para o Forma, o primeiro, Quarteto em Cy, com arranjos vocais de Carlos Castilho, arranjos instrumentais de Eumir Deodato, e músicos maravilhosos da época. Lembro que tinha um faixa que o Moacyr Santos tocou trombone, fizemos umas três faixas com o Bossa 3, aí sim, três músicas super bossa-nova, com aquele toque jazzístico deles. Esse disco foi um marco para a gente, com uma capa interessantíssima que não mostrava nossas caras, era um desenho e eu nem lembro o nome da pessoa que fez, era alguém ligado ao Roberto Quartin. A foto da gente gravando eu acho muito emblemática, parece que a gente está rezando e que tem um padre, parece uma oração, todo mundo meio contrito.
Qual é mais ou menos a idade de vocês nessa foto?
Em 1964, eu tinha 18 anos, Cylene tinha 16 e por aí vai… Melhor não falar muito não, somos todas do século passado.

 

Esse é um disco muito cultuado por quem gosta de bossa-nova e, na sequência, o Quarteto em Cy faria outro disco fantástico, Afirmativo, da onde veio a ideia desse título muito interessante?
Foi ideia do Roberto Quartin, diretor do selo, na época, o Quarteto era algo totalmente novo, quatro irmãs, com um timbre muito pessoal – eu acho que irmão já vem com timbre pronto, a voz, em família, vem casada, uma coisa muito parecida, de DNA mesmo. Inclusive, tem a tese de uma fonoaudióloga paulista, se não me engano, que fala sobre isso, que timbre de irmão é diferenciado, é fechado já. Isso não quer dizer que os outros timbres não sejam ótimos, mas esse já é timbrado de nascença. Esse disco é uma paixão para mim, porque os arranjos do Luiz Eça são o que há. Ele explorou os agudos e os graves, foi quase um tirano na preparação, porque era tão difícil tecnicamente, ele exigia demais da gente, falava grosso. A Cyva ele chamava de formiga e era engraçado, eu devia ter apelido também, porque sempre fui muito chata, então questionava as coisas dele, mesmo sem saber. Por exemplo, ele dava uma voz e eu dizia: “Ah, não, essa voz”, imagina eu, com aquela idade, peitando o Luiz Eça… Teve um dia que ele ficou tão danado da vida que partiu para cima de mim e me deu um tapinha, aí eu me situei, que não podia questionar esse cara que sabia tudo e eu era uma idiota. Me deu um corretivo maravilhosamente bem dado. Tem o “Apelo”, que era uma música que a gente cantava nas festinhas com o Vinicius (era dele e do Baden Powell e já começou aí uma paixão pelas coisas do Baden, que adoramos). Chamávamos a música de “DDC”, dor de cotovelo, porque era uma coisa meio assim mesmo. Fomos gravar e tivemos que ligar para ele para colocar o nome da música, que ficou “Apelo”.

 

Foi o Vinicius quem batizou vocês com esse nome. Da onde veio? Eu sei que parece óbvio, mas depois da ideia lançada, é fácil falar. Antes disso, vocês eram As Baianinhas?
Saíamos todo dia com o Vinicius para as festinhas, ele nos levava pra tudo quanto é canto e dizia: “olha aqui o som d’As Baianinhas”. Um dia ele disse que iríamos nos reunir para achar um nome pra gente, então fomos para a casa do Carlos Lyra e todo mundo ficou dando opinião: As meninas em Cy, As Baianinhas em Cy, As irmãs em Cy, aí o Carlinhos Lyra falou: Quarteto em Cy e o Vinicius sacramentou. Então os dois são os donos desse nome, apesar de a gente ter feito toda a trajetória musical ao lado do Vinicius, a gente ama o Carlinhos e sempre que ele nos encontra lembra que é o padrinho.

 

Como foi trabalhar com o Roberto Quartin e lançar discos pelo lendário selo Forma, um selo independente fortíssimo daquele ambiente da bossa-nova, que lançou discos antológicos, como Coisas, do Moacyr Santos, além de Eumir Deodato, Luiz Vinhas?
Roberto Quartin foi um cara maravilhoso, ele não interferiu na criação e acho importante falar isso, porque hoje em dia todo produtor quer botar a mão, quer dizer como tem que ser feito, e o artista, no fundo, sabe o que quer, ele pode e até deve ouvir as pessoas de fora e os pitacos. Mas o Roberto não interferia, ele era muito musical, apaixonado por Frank Sinatra, nos levava para a casa dele e colocava os últimos discos dele que saíam, então um cara que gostava desse tipo de música tínhamos que dar todo o crédito possível. Um cara que faz um selo e bota na rua esses LPs, que até hoje todo mundo briga para ter… O meu Coisas foi emprestado pelo Jards Macalé, que nunca mais me devolveu – isso é para dizer a ele que ele me devolva aquele disco! Foi lá em 1970, ele é um super amigo, adoro ele, mas me devolva esse disco e um outro do João Donato também. [risos] Depois desse período da Forma, vocês foram parar na Elenco e têm um trabalho muito importante com o selo do Aloysio de Oliveira. Vamos tentar resumir um pouco do Quarteto em Cy nesse outro lendário selo?
O Aloysio foi tudo, inclusive, o cara que colocou a gente no show do Vinicius e Caymmi, no Zum Zum. Inicialmente faríamos um show com o Caymmi, o Vinicius não estava, mas ele chegou de viagem e falou que gostaria de participar. O Aloysio era um cara que via longe, de uma musicalidade… A partir do momento em que você tem um produtor que já tinha sido de um conjunto vocal, aí você passa a ouvir muito mais. Ele levava a gente para a casa dele e abria um baú e começava a mostrar as coisas da Carmen Miranda, do conjunto dele, o Bando da Lua, e toda aquela turma dos anos 1940 e 1950. Aloysio foi cultura para a gente e estarmos na mão dele foi definitivo para o Quarteto – as produções dele e o fato de a gente ter gravado na Elenco, que é um selo que tem uma marca registrada de coisa boa, de bom gosto. Ele foi o cara perfeito para o Quarteto, amigo, nos levou para os Estados Unidos…

 

O show que vocês fizeram com o Caymmi e Vinicius na boate Zum Zum, deu origem a esse disco que tem o nome do show e foi gravado em estúdio.
Ao vivo no estúdio, como o Aloysio gostava, isso garantia o clima do show, com o Vinicius falando as coisas. O show era interessante porque tinha uma hora do papo, em que o Vinicius e o Caymmi batiam os papos mais bizarros que você pode imaginar. Então Vinicius falava de tudo o que estava acontecendo no país, principalmente no Rio de Janeiro, das pessoas que tinham ido ao show – as vezes diplomatas, Carlos Drummond esteve lá uma vez, grandes artistas –, comentava com o Caymmi sobre o casamento do Dori, pedia indicação de empregada… Nós temos todos esses papos gravados, porque na época quem gravava era o Humberto Contardi, o técnico de som do estúdio quando a gente fazia o disco, e esses cassetes caíram na mão da gente, passamos por CD e tenho tudo guardado em computador. É o maior barato.

 

Eu fico imaginando como deveriam ser divertidíssimos esses pocket-shows. Imagina o Vinicius e o Caymmi batendo papo com vocês ao lado!

Riamos demais durante o show, porque eles interagiam e nos chamavam para o papo. O público também adorava, porque era a hora de conversar com eles também, eles davam a chance de as pessoas falarem, perguntarem. O Vinicius sempre com aquele copinho e o Caymmi não bebia. Eles contavam casos engraçadíssimos. O Vinicius falava: “Caymmi, eu estou com uma dor no joelho, você acha que é o que?” e o Caymmi respondia “Excesso”, e o Vinicius: “Excesso do que?” e ele dizia ”Excesso de gelo”, porque o Vinicius ficava com o copinho. Eram as maiores brincadeiras entre eles e nós interagindo.

 

Depois dessa fase do Quarteto em Cy na Elenco, em que a gravadora acabaria sendo vendida para a Companhia Brasileira de Discos, mais tarde, Polygram, o selo Elenco continuou sendo usado e você fez um disco.
Eu fiz esse disco num sufoco total, porque a Cybele estava comigo na dupla, fizemos Carolina em 67, Sabiá, em 1968, e ela foi para os Estados Unidos porque a Sylvia chamou. Na segunda vez em que chamaram a gente para refazer o quarteto lá, eu fiquei aqui, estava grávida, e o João Mello me chamou para gravar um disco. Antigamente era muito fácil, as gravadoras queriam gravar disco, então eu fiz esse disco, produzido pelo Sidney Miller, tem Gutemberg Guarabyra, Renatinho, dos Golden Boys, é um barato. É um disco de passagem, estava sozinha, me convidaram e fui lá, batalhei para fazer. Tive influências, no caso, do Tropicalismo, do Caetano, Gil, porque era o momento em que eu estava passando e porque o Sidney Miller era um cara muito antenado no que estava acontecendo. Ele era meu compadre e a gente saía junto todo dia, eu adorava.

 

Depois da fase com a Elenco, vocês têm uma passagem rapidíssima pela Odeon, que rendeu um disco muito bacana também, e um pouco depois o convite para fazer parte de uma gravadora muito importante para a música brasileira também, a Phillips. Como o Quarteto em Cy acabou gravando Antologia do samba-canção?
Foi uma proposta do Roberto Menescal, que na época era diretor artístico da Philips – a Philips já passou por tantos nomes, Phonogram, Universal, CBD… Então o Menescal nos chamou, tínhamos gravado uns compactos simples e duplos na época, ele achou que íamos ficar bem cantando samba-canção e não deu outra. Esses dois LPs de antologia do samba canção foram os mais vendidos, tanto que fizemos o número dois, super lendário. Adoramos. Na época, tínhamos um contato grande com o Paulo Tapajós, pai da Dorinha, e ele quem fez a pesquisa dos grandes compositores desse gênero, porque era um radialista fantástico, da rádio Nacional. Ele achou que nos adaptaríamos bem a essas melodias e harmonias e não deu outra.  Tivemos os arranjos de Oscar Castro Neves, Luiz Claudio Ramos, alguns do Miltinho e do Magro, do MPB-4, que também participaram de faixas. Há uma faixa do Tom Jobim que ele também toca, só uma vinheta final. Foi um luxo total, ele foi ao estúdio só para fazer isso, maravilhoso.  Essa antologia também marca um aspecto interessante no Quarteto, como a tecnologia de hoje não existia, os arranjadores usavam aquela interposição de canais, então gravávamos um canal e depois, no outro, colocavam vocais atrás, era um som enorme. Era a primeira vez que a gente fazia isso, de usar coisas por baixo e por cima e depois ficar aquele som enorme. Por exemplo, o Oscar chegava no estúdio e dizia: “eu quero não sei quantos canais para os uníssonos”, nós gravávamos os uníssonos, as quatro, cantando juntas, a mesma voz, e em outros canais, a primeira e a segunda voz faziam outros vocais e a terceira e a quarta voz, faziam outro, juntávamos tudo e ficava um som fantástico. Foi a primeira vez que vi usar essa tecnologia. Viva esses arranjadores que souberam usar as vozes interpostas, para formar esse som!

 

Quando você descreve esse processo de gravação utilizado na Antologia do samba canção eu fico imaginando que se trata da procura de um som, de uma sonoridade para vocês. Esse foi sempre o objetivo do Quarteto em Cy e também a grande virtude de vocês?
A gente deve isso, realmente, aos arranjadores, porque na época éramos muito imaturas, até em termos de conhecer música. Hoje em dia, já sabemos exatamente onde vai o som, que tipo de som queremos, mas antigamente, os arranjadores ouviam como se fossemos quatro instrumentos e nos usavam como se fossemos flautas, violinos e violas, era um quarteto de câmara. Estávamos na mão dos arranjadores, mas não significa que já não sentíssemos tudo isso que eles propunham e acho que a maior parte do que gravamos e cantamos foi muito na intuição – temos um vocal dentro de nós quatro e todas as pessoas que foram do Quarteto em Cy trazem isso. O Quarteto inspirava isso desde o começo, cantávamos muito em casa, juntas, e foi-se criando um som, por exemplo, uma de nós cantava uma música e a outra, automaticamente, entrava numa segunda voz, a outra numa terceira, mas tudo muito intuitivo, e os arranjadores sacaram essa intuição musical da gente e faziam os arranjos aproveitando essa sonoridade particular. Então devemos muito ao Oscar, ao Moises, ao Luiz Claudio Ramos, a Bia Paes Leme, a Celia Vaz, ao Magro, todas essas pessoas são as pessoas mais importantes da nossa carreira musical. Devemos demais a esses caras e aos músicos que estiveram nesses discos conosco. Um quarteto vocal não sobreviveria sozinho se não tivesse um arranjador dando sua voz e tendo paciência com a gente e esses músicos que acompanham, então nós fazemos parte de uma turma.

 

A gente não vê na história da música popular brasileira um quarteto vocal feminino que se aproxima do que vocês fizeram. Aliás, a gente não tem quartetos vocais. Por que só existem vocês como quarteto vocal nesse formato?
Ultimamente, temos ouvido falar de alguns conjuntos femininos sendo lançados, talvez até inspirados pelo Quarteto, e damos a maior força. Aqui no Rio tem Mulheres de Hollanda, que faz uma música só sobre Chico Buarque, tem o Arirê, em São Paulo, alguns grupos até no Nordeste, Norte, Sul, não me lembro de todos, tem o Amaranto, em Minas, tem o Vésper, que é um quinteto ou sexteto. Acho que existe uma inspiração em cima do Quarteto, mas já com voos próprios, e isso é muito bacana, porque todos esses grupos femininos quando falam em vocal citam o Quarteto em Cy como inspiração e por isso já valeu a pena, é maravilhoso e a gente agradece por ter podido inspirar essas mulheres.

 

Para fazermos essa entrevista para “O Som do Vinil” a Cynara trouxe um presente, um bilhete que Carlos Drummond de Andrade enviou para elas quando recebeu os discos. Cynara, você pode ler essa dedicatória incrível?
“Cyva, Cynara, Dorinha e Sonynha, que presente mais lindo vocês me deram com essa Antologia do samba-canção, a gente ouve, ouve, e não se cansa de ouvir. O Quarteto em Cy tem parte com os anjos, é a explicação que achei e que aumentou a minha alegria. Beijos para vocês quatro, com admiração carinhosa de Carlos Drummond de Andrade”. É um luxo total! “Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1975.”

Cyva e Sonya

O que vocês podem falar sobre os 50 anos de carreira do Quarteto em Cy?
Cyva: Eu nunca pensei que pudéssemos chegar nem aos três anos… Quando o Vinicius disse que precisávamos arranjar um nome porque ficaríamos mais velhas e seria esquisito nos chamarmos As Baianinhas, pensei que ele estivesse viajando, porque não era possível que a gente ficasse velha cantando. Mas se passaram muitos anos, tivemos uma trajetória que nos permitiu conhecer tanta gente maravilhosa, compositores, músicos, poetas, gente inesquecível na nossa vida e que nos deu força para continuarmos cantando.

Sonya: Eu, que a partir de 1968 passei a fazer parte dessa irmandade musical, me reunindo com as quatro irmãs, posso atestar tudo que a Cyva está falando, esse amor e essa emoção de cantar em vocal e ter compartilhado momentos com figuras maravilhosas da nossa música.

Uma trajetória vitoriosa como a de vocês deve ter tido um início bacana. Faz um resuminho para a gente, Cyva?
Cyva
: Nós conhecemos o Vinicius e ele foi realmente o responsável por nossa profissionalização, porque até então cantávamos como amadoras, na “Hora da Criança”, na Bahia, como duas duplas. Somente quando chegamos ao Rio que o Quarteto em Cy se formou, antes, nem pensávamos em nos profissionalizar, mas o Vinicius nos incentivou e nós devemos a ele essa vontade de continuar cantando profissionalmente.

Vocês são baianas de Ibirataia, como vieram morar no Rio?
Cyva
: Nós estudávamos em Salvador, embora morássemos em Ibirataia. Depois que me formei na faculdade de Filosofia, em Salvador, resolvi morar no Rio, que era o El Dorado. Eu amava a cidade, tanto que cheguei aqui, olhava o Cristo e as lágrimas desciam, era uma felicidade insuportável. Vendo um show do Tamba Trio tive a ideia de chamar as minhas irmãs para cantarmos juntas, porque achei tão bonito o vocal que eles faziam. Depois elas vieram realmente e foi assim que tudo começou – e mal sabia eu que o segundo LP gravaria com o Tamba Trio! Nós gravamos os três primeiros discos, pela Forma, nesse quarteto original das irmãs: Cyva, Cybele, Cynara e Cylene, então o Quarteto em Cy é meio carioca, porque nasceu aqui. A Cylene logo deixou o conjunto, porque queria morar em São Paulo, se casou com um médico e foi embora. E nós tivemos que substituí-la para continuar.

Sonya: Eu também nem pensava em ser cantora, era normalista, estava me preparando para o vestibular e estudava piano, no conservatório. Em 1965, o teatro Opinião estava passando a peça “Liberdade, liberdade”, com Odete Lara e Paulo Autran, e promoveu um concurso de música sobre o tema Liberdade, para estudantes. Um colega do conservatório escreveu uma música e pediu para eu cantar, a música foi primeiro lugar e de uma hora para outra passei a cantar, fazer show no teatro Opinião, e lá eu conheci o Quarteto, que eu já era fã, acompanhava, ia a todos os shows e achava maravilhoso. Em 1968, na segunda ida do conjunto aos Estados Unidos, a Cynara e Cybele ficaram para fazer um festival e eu entrei. Nós ficamos fazendo o “Samba do Criolo Doido”, do Sérgio Porte, um grande sucesso, e eu passei a fazer parte da irmandade.

Antes da estreia na gravadora Forma, vocês tiveram que ser vistas na noite carioca. Como foi esse começo pré-gravadora, lembrando que nesse momento o Beco das Garrafas fervia de gente boa?
Cyva
: Nós fizemos um show no Bottle’s Bar, no Beco das Garrafas, com a Rosinha de Valença e o Copa Trio (Dom Salvador, Dom Romão e Gusmão) e foi muito bom, todo mundo gostava. O Miele tinha um programa chamado “Rio Rei”, na TV Excelsior, e nos convidou para cantar – a Beth Faria apresentava e lembro que o cenário eram uns ovos grandes e, de repente, abriam a extremidade do ovo e as cabecinhas saiam; literalmente saímos da casca! Antes de fecharmos com a Forma, vinham recados que a RCA, a Phillips e a Odeon estavam querendo gravar com a gente, mas não dávamos bola. Chegamos a cantar para um produtor da RCA e ele ficou interessadíssimo, mas foi lá em casa um produtor de um selo novo e disse: “Olha, todas as gravadoras vão oferecer 3% a vocês, mas nós estamos oferecendo 10%”, nós não entendíamos nada, mas o olho cresceu e então assinamos. Depois que gravamos, a mesma pessoa foi lá em casa e disse que não era nada daquilo, que já tinham revisado o dinheiro que eles tinham e só podiam pagar 3%.

Como era o ambiente do Beco das Garrafas e como foi esse show que vocês fizeram com o Copa Trio, uma das entidades mais cultuadas nesse universo da bossa-nova e do samba-jazz, mas que gravou muito pouco?
Cyva
: Havia um número de pessoas que a casa precisava ter para que o show acontecesse, por conta do couvert, mas não estávamos nem aí para isso, queríamos cantar. Todos os arranjos eram do Carlinhos Castilho, que também tocava, irmão do Bebeto, do Tamba Trio, ele que organizou a tessitura para as quatro irmãs (quem fazia a primeira, a quarta voz…), foram muitas brigas nessa época, ciumeira entre todo mundo. Uma vez o Carlinhos ficou injuriado e disse que deixaria o show, mas aí nós fomos para a casa da Rosinha de Valença e ela ensaiou todo o repertório e fizemos o show com ela daí em diante.

Sonya, como é montado o arranjo do Quarteto em Cy, como vocês armam quem vai fazer o que? Isso já está estabelecido ou vocês trocam de lugar?
Sonya
: Na época das quatro irmãs era bem estabelecido: Cybele, primeira, Cyva, segunda, Cynara, terceira, e Cylene, quarta voz. Eu entrei, em 1968, para substituir a Cybele, nunca tinha cantado em vocal, então ensaiávamos muito, com o Oscar Castro Neves, o Luiz Eça. Atualmente, ainda faço alguma coisa com a Cyva em primeira, mas trocamos também, porque a voz já diminuiu, a tessitura baixa um pouquinho. A Cybele, que na época fazia a primeira, faz a quarta, às vezes, eu faço a terceira que era a voz de Cynara, hoje em dia nós trocamos muito, é a Cynara quem organiza os arranjos e ela conhece bem cada uma. Já temos isso de todas fazerem a mesma voz, que foi muito utilizado na gravação da Antologia do samba canção, todo mundo explorando os timbres. Já temos essa capacidade de adaptar, de descobrir dentro de uma melodia a nossa voz.

Vocês batalharam muito para chegar ao som do Quarteto em Cy, cheio de nuances?
Cyva
: Não batalhamos não, foi muito natural, porque a voz da Cylene era a mais grave, então ela fazia a quarta voz, a da Cynara era a terceira, eu e a Cybele fazíamos as duas primeiras. Então o Carlinhos logo percebeu isso, porque a voz da Cybele era a mais aguda, tanto que no Som definitivo, o Luiz Eça, que fez os arranjos, pôs um som lá em cima para ela cantar. Até a dublagem da música da Branca de Neve, da Disney, o Luiz pegou a Cybele para cantar, porque era muito aguda.

Esse primeiro disco de 1964 é histórico, gravado pelo também histórico selo Forma, do Roberto Quartin. Vamos falar sobre ele, Cyva?
Cyva
: Nós entramos no estúdio para gravar e já tínhamos os arranjos todos prontos. Gravamos sete faixas no primeiro dia e hoje é inacreditável ter feito isso, porque não existiam outros canais, eram só dois, um da orquestra e outro de vozes, e nós cantávamos naturalmente, gravávamos ao vivo, a orquestra tocava e escutávamos direto num monitor, não havia nem fone, tanto que, depois, a primeira vez em que cantamos com headphone estranhamos muitíssimo. Em outras gravações, nós dobramos as vozes, nesse LP eram as quatro vozes só e ponto final. Estávamos muito ensaiadas. Em “Caminho de pedra”, a Cybele começava fazendo um solo e entrava todo mundo depois, certinho, numa boa, sem nunca ter cantado com arranjo de orquestra. Eu não sei como é que a gente fazia isso, era todo mundo muito novinho, e também era um autocontrole, uma coisa de irmãs. Lembro também que tínhamos duas músicas do Sérgio Ricardo, “Barravento” e “Enquanto a tristeza não vem”, ele estava lá e corrigiu um trecho da letra que cantávamos errado.

Esse disco de vocês continua inédito em CD, infelizmente, só saiu pela Forma em 1964 e nunca mais foi reeditado. Além do grande Sérgio Ricardo, que outros compositores vocês gravaram?
Cyva
: Vinicius de Moraes, Moacyr Santos, Carlinhos Castilho, que era nosso arranjador, Zé Keti, Edu Lobo…

Com esse álbum, a Forma lançou um pacote de discos históricos. Quais os discos que saíram junto a ele?
Cyva
: A trilha de Deus e o Diabo na terra do Sol, Coisas, do Moacyr Santos…

Depois, vamos para essa maravilha de 1966, que era justamente o sonho que a Cyva tinha de trabalhar com o Tamba Trio.
Cyva: Nos ensaios, íamos para a casa do Luizinho Eça, por volta de meio-dia, uma hora, e ainda precisávamos acordá-lo, porque ele estava dormindo. Às vezes, tínhamos que cozinhar, então uma cortava a cebola, a outra a carne, porque ele fazia um strognoff que era uma delícia. Até hoje a Cybele sabe a receita, mas eu sou uma negação na cozinha. Decorávamos os arranjos que ele tocava no piano, ele não escrevia nada. Agora a Cynara lê um pouco de música e a Sonya também, porque estudou, mas éramos analfabetas em música. Depois fizemos aula com a Wilma Graça, mas para ler a partitura tem que ter um treinamento muito grande e nós não líamos, nós decorávamos tudo.

Mas para entender o que o Luizinho estava tocando no piano era preciso ter um tremendo ouvido e garganta…
Cyva
: Muito tempo depois ele dizia: “como eu maltratei vocês”, mas não maltratou nada, porque eu adorava, ele fazia as vozes e ia descobrindo coisas da gente e por isso o LP chamou Som definitivo.

Por que esse disco tem esse título?
Cyva
: Quem inventou foi o Roberto Quartin, nós só soubemos do nome quando o disco ficou pronto. Hoje sentimos que é mesmo um som definitivo, porque é com o Tamba Trio e tem os arranjos mais incríveis que o Quarteto já cantou. Para hoje, esse é um disco considerado difícil vocalmente.

Se os ensaios que vocês faziam na casa do Luiz Eça eram regados a muitos eventos culinários, como foi no estúdio?
Cyva: No estúdio nós gravamos tudo junto, com o Tamba Trio ao vivo e nós cantando, porque já estava muito ensaiadinho. Fizemos poucas paradas para consertar alguma voz, eles também cantaram algumas faixas conosco e foi a primeira gravação do “Apelo”, que a gente não sabia qual era o nome e chamávamos DDC, ou seja, dor de cotovelo. Ligamos para o Vinicius do estúdio perguntando qual seria o nome e ele falou para colocar “Apelo”. Mas ela não apareceu muito com a nossa gravação, porque depois a Elizeth Cardoso fez uma gravação antológica, à capela, que ficou linda, muito diferente, com um arranjo difícil.

Estamos falando de um processo de gravação de disco que é bem diferente da época em que vivemos, vocês iam à casa da pessoa, existia um convívio no dia a dia, cozinhavam juntos… Isso era normal na época?
Sonya
: Ah sim, com o Vinicius também, nos ensaios ele ia para a cozinha e fazia um franguinho ao mel, sempre tinha uma receita, né? Eles eram ligados à culinária. Não tinha essa de mandar pedir pizza, todo mundo ia para a cozinha e fazia tudo por lá. A primeira vez que tive contato com o Luiz Eça, num disco da Odeon, fiquei muito emocionada quando ele foi passar as vozes e comecei a chorar. Ao mesmo tempo, fiquei envergonhada, mas ele veio tão carinhosamente dizer que eu tinha que chorar mesmo…

A passagem pela Elenco tem discos fantásticos e a entrada da Sonya…
Sonya: Esse disco foi a minha primeira gravação com o Quarteto em Cy, que estava formado pela Cymíramis, Cyva e a Regina Werneck, que tinha substituído a Cylene. Foi quando nós lançamos o “Samba do Criolo Doido”, com o Sergio Porto, fazíamos o show dirigidas por Aloysio de Oliveira, produção dele também. O lançamento desse disco foi muito interessante, no Bateau Mouche, barco que era moda naquela época, em plena Baía de Guanabara…

Cyva: Lembro que eu enjoei o tempo todo…

Sonya: Nós fomos de garçonete e servimos o coquetel aos convidados, só a Cyva que não foi, porque ela enjoou muito. A ideia foi do Fernando Lobo, pai do Edu Lobo, que sempre acompanhou o Quarteto em Cy.

Por que aqui temos outra formação de novo?
Cyva: Porque na época a Cynara e a Cybele ficaram no Brasil e nós tínhamos contrato lá nos Estados Unidos, precisávamos viajar, então entraram a Sonya, a Cymíramis e a Regina Werneck.

Sonya: Eu já conhecia o Quarteto dos teatros, dos clubes e shows, via as meninas com aquela roupa de Pedro Pedreira, achava lindo. Também acompanhava muito a Wanda Sá. Então um dia, estava chegando de uniforme e me disseram que o produtor Aloysio de Oliveira havia ligado, querendo conversar. A partir daí, fui convidada para entrar no Quarteto.

O Aloysio de Oliveira é um produtor histórico, que trabalhava na Elenco, inclusive aqui no Canal Brasil já fizemos uma série só sobre essa gravadora. Como foi trabalhar com uma pessoa tão experiente?
Sonya
: Muito experiente e de muito bom gosto, muito elegante, não só no seu modo de vestir, mas no trato com as pessoas, com os músicos. A lembrança que eu tenho dele é essa. Ele  viveu aquela época da Carmen Miranda com Walt Disney, começou a produzir esses pocket shows no Zum Zum, lançou MPB-4, Elza Soares, Sylvinha Telles, Maysa… João Gilberto foi lançado pelo Aloysio, ele tinha que ser mais reconhecido! Uma pessoa com grande conhecimento, de palco, de tudo, nós nos sentimos à vontade nas mãos dele, pelo seu conhecimento, seu bom gosto e sua atitude – nunca vi Aloysio levantar a voz com ninguém, uma pessoa maravilhosa.

Terminada a fase na Elenco vocês acabariam sendo contratadas pela Philips. Como foi essa transição para um selo que tinha boa parte das estrelas da música popular brasileira naquele momento?
Cyva
: Eles tinham a filosofia de que mulher não vendia disco, então quiseram fazer uma experiência conosco e sugeriram gravar dois compactos duplos de sucessos do momento, como Antônio Carlos e Jocafê, Tim Maia, que gravamos e venderam muito bem. Então eles se animaram e como o Menescal estava fazendo essa série de antologias, do samba, da marchinha, sugeriram que gravássemos a do samba-canção. Nós adoramos, o grande problema durante as gravações foi que ficávamos muito emocionadas quando ouvíamos os arranjos e começávamos a chorar, tínhamos que parar para nos recompor.

Sonya: O Oscar Castro Neves explorou nossos timbres e nos colocou cantando todas lá no agudo ou todas no grave, essa coisa da primeira e de segunda, ele adorava o choque, uma voz se juntando à outra. É uma coisa fantástica o trabalho vocal que o Oscar Castro Neves fez com o Quarteto naquela época.

Cyva: E muito tempo depois, as antologias saíram no Japão e o Sean Lennon, filho do John Lennon, comprou 80 CDs para distribuir para os amigos no Natal. Quando ele chegou ao Brasil disse que queria conhecer o Quarteto em Cy…

Sonya: A gente ficou brincando: “o que será que o Sean Lennon quer com essas tias velhas?”

Cyva: Ele pediu para gravar alguma coisa conosco e no estúdio, antes de começar, disse que colocaria a faixa de um disco que ele tinha adorado, como inspiração, e colocou a faixa do Antônio Maria.

A choradeira que acontecia no estúdio tem a ver com o próprio tema do disco, porque samba-canção é para chorar, não?
Sonya: São letras e arranjos maravilhosos, foi um resgate muito grande, porque tem Johnny Alf, Dolores Duran, Tito Madi, Ary Barroso, Herivelto Martins, Lupcínio Rodrigues, Antônio Maria, Jair Amorim, Carlos Lyra, Garoto, um repertório muito forte.

Cyva: Foram pot-porris porque não queríamos deixar nada fora. Em cima de “Ninguém me ama” e “Se eu morresse amanhã”, por exemplo, o Oscar criou a base de um pot-porri que parece uma música só. Inclusive outro dia ouvi não sei quem cantando como nós fazíamos na antologia, como se fosse uma música apenas.

Sonya: O Oscar colocou só o Luizão Maia no contrabaixo, o violão e as vozes, e ainda criou uma quinta voz, que nós gravávamos depois. Ele realmente inovou. O senhor Paulo Tapajós, que fez toda essa pesquisa sobre essas antologias, nos ajudou muito com os compositores daquela época áurea da Rádio Nacional. Ele foi uma figura muito importante nessas duas antologias.

Deu tão certo que aconteceu o segundo volume logo no ano seguinte?
Sonya: E a emoção continuou, foram as lágrimas todas aí. Até hoje acho que são músicas que as pessoas ouvem e choram.

Como a gente pode traduzir para as pessoas mais novas, que estão nos assistindo, esse espírito do samba-canção, um momento pré-bossa-nova, em que as pessoas se rasgavam, morriam de amor?
Sonya
: Tem uma letra do Antônio Maria que diz: “Ninguém me ama, ninguém me quer / Ninguém me chama de meu amor” e aí fazíamos a junção com a outra música: “Se eu morresse amanhã, não faria falta a ninguém / Eu seria um enterro qualquer / Sem saudade, sem luto também”. Isso vai lá no fundo e você tem que cantar de um jeito também profundo.

A gente pode entender esses dois álbuns como um projeto só, importante na discografia de vocês?
Cyva: Considero tanto as antologias, quanto o Som definitivo, muito importantes, porque nesses discos a tessitura da gente foi bastante elaborada e demos o máximo como cantoras. A emoção também ficou a flor da pele, o tempo todo.

Sonya: A emoção podia ter continuado em outros volumes, mas esses dois álbuns concentraram bem o repertório, que reuniu o que havia de importante dos compositores pesquisados. Foi a conta certa em termos de criação, de arranjo, de arranjo vocal. Acho que mais um volume de antologia seria demais.   

Paulinho Tapajós

Paulinho, como e quando você conheceu o Quarteto em Cy?
Acho que eu conheci por meio do MPB-4, principalmente pelo Ruy Faria e pela Cynara, que eram casados na época. Já era fã do Quarteto em Cy, mas não sei precisar exatamente quando e qual foi o encontro que gerou mais intimidade entre nós, já nos conhecíamos e nos falávamos, por conta do meu irmão, Maurício Tapajós. Acho que deve ter sido entre 1967 e 1968, se bem que em 1968 a Cynara e a Cybele ganharam com “Sabiá” em um festival que eu estava também, com “Andança”, que ficou em terceiro lugar. Não sei precisar exatamente o nosso contato, mas ele aumentou com a entrada da minha irmã, Dorinha Tapajós, no Quarteto, quando ela substituiu a Cylene ou a Cybele. Também não sei se foi por mim que o Luiz Claudio Ramos passou a ser o arranjador delas, então a amizade ficou mais estreita.

Antes de você produzir a Antologia do samba canção com o Quarteto em Cy, você fez alguns trabalhos com as meninas, logo na entrada delas na Philips?
Sim, elas cantaram em discos meus também e em coros de vários discos que produzi. Antes das antologias, que são de 1975 e 1976, já tínhamos uma relação profissional por conta dos vocais que elas faziam no estúdio para outros artistas que eu produzia também, inclusive Jorge Ben Jor.  A minha primeira produção com elas foi em 1972, num compacto duplo que tinha “Cavalo de ferro”, se não me engano, um disco que fez bastante sucesso.


Por que o Quarteto em Cy atuava muito nos discos de outros artistas e era frequentemente chamado para gravar?
Porque era fácil, gravar com elas era uma moleza, não tinha problema nenhum e já vinha tudo pronto. Elas tinham muita facilidade para aprender, a afinação era perfeita, era tudo equilibradinho, elas eram muito ensaiadas e existia também uma afinidade de vozes que se encaixava. A sonoridade era perfeita.

 

Por que você foi escolhido para esse projeto, Antologia do samba canção?
Essas antologias foram um projeto que a companhia criou coletivamente, de todos os gêneros, baião, samba-canção, chorinho. Talvez fui escolhido por ser mais ligado a esse repertório, muito por conta do meu pai, que sempre foi da Rádio Nacional (era diretor musical), e obrigou a mim, ao meu irmão e à minha irmã a ficarmos escutando esse repertório de música brasileira, então a gente tinha um conhecimento muito grande. E eu passei a ter uma afinidade muito grande com o Quarteto em Cy por conta da minha irmã. Esses discos que eu produzi foram quando a Dora estava na formação, a Sonynha já estava substituindo a Cylene ou a Cybele e depois veio a Dorinha também.

Como ela entrou no grupo?
Eu não sei te dizer especificamente porque ela foi chamada, talvez porque já tivéssemos muita intimidade, até familiar. O pessoal do MPB-4 também era muito amigo da família, do papai e do meu irmão, porque gravaram muita coisa do Maurício. Elas também gravaram coisas dele e minhas também, então acho que dessa amizade surgiu o convite para a Dorinha, que tinha participado de festivais que elas também participaram. Eu não sei precisar exatamente quem convidou e onde foi, mas sei que faltava uma quarta voz, que era a voz que a Dorinha fazia.

E por que o Quarteto em Cy foi escolhido para gravar Antologia do samba canção?
Foi uma escolha coletiva, tínhamos reuniões entre o André Midani, que era o gerente geral, os produtores e as pessoas do comercial, em que estabelecíamos mais ou menos as metas, as direções do que ia ser feito e escolhíamos os artistas também. O Quarteto em Cy era quem possuía o perfil mais próximo ao projeto, principalmente porque os sambas-canções propiciavam grandes arranjos vocais, por causa das harmonias, então a escolha foi feita dentro desse critério.

Nessa época, o samba-canção era um gênero meio esquecido?
Ele já tinha começado a ser mais valorizado, acho que a Maria Bethânia começou a gravar Lupicínio Rodrigues, o Caetano Veloso acho que também gravou algumas coisas, mas até a época anterior, o gênero era meio ridicularizado, principalmente na época da bossa-nova, porque as letras eram muito dramáticas. Porém existiam sambas-canções muito bem feitos, muito bonitos, principalmente de Tom Jobim, de Vinicius de Moraes, e muitas outras coisas que tinham sido feitas e que foram pesquisadas e valorizadas também nesse álbum. Eu, particularmente, gosto muito, acho que o samba-canção tem uma riqueza harmônica e melódica muito grande.

Ouvindo o disco hoje, reparando na performance do Quarteto em Cy, nos arranjos, nos músicos que foram selecionados para esse trabalho, podemos dizer que foi uma tentativa de modernizar o samba-canção?
Com certeza podemos dizer que foi uma tentativa de modernizar o gênero. Só tinha fera, os músicos maravilhosos têm um crédito muito grande: Antonio Adolfo, Luiz Claudio, que fez os violões todos, na bateria Mamão, Paulinho Braga, Pascoal, tinha Luizão, Dino, Neco, Abel Ferreira, Tom Jobim…

Como foi possível modernizar um som que criado na década de 1950?
No caso, o mérito é mais do arranjador, que busca criar harmonias novas, porque na época não se gravava samba-canção com a harmonia que foi criada posteriormente. Na Antologia do samba canção é feita uma busca de harmonização dos vocais e instrumentais mais moderna, é por aí que vem o caminho da modernidade do disco, que até hoje soa como novo, como um som novo.

Essa ideia de colocar textos na capa e fotos de compositores surgiu da onde? Porque é genial e nunca mais foi usada…
Aí tem que dar crédito ao departamento gráfico, tenho a impressão que era o Aldo Luiz, na época, chefe do departamento gráfico, pelo menos, a diagramação foi ele quem fez. Os textos são do meu pai. Mas eu não sei de quem partiu a ideia de colocar esses compositores na capa.

Falando do repertório, as faixas são arranjadas em pot-pourri, que não é uma coisa fácil de fazer, de soar natural. Por que isso aconteceu, de quem foi essa ideia?
Taí outra coisa que eu não tenho memória para te dizer de quem foi a ideia. Eu tenho impressão de que foi muito mais pela quantidade de músicas que queríamos gravar, não cabia fazer 12 músicas só, não era um formato normal de LP, seis de um lado e seis do outro, então esses pot-pourri acabaram sendo feitas pela quantidade do repertório.

É algo difícil de ser feito não?
Muito, tem que fazer modulações muito bem feitas para não dar aquele impacto, tem o andamento, o ritmo. É um trabalho que deve ser creditado aos arranjadores, no caso, o Luiz Claudio Ramos, o Magro, o Oscar Castro Neves, que fizeram a maior quantidade de arranjos.

Nos arranjos, há alguma semelhança com a bossa-nova?
Muita, o samba-canção acabou sendo levado para aquela harmonia nova que o Tom Jobim e o João Gilberto faziam. A bossa-nova ficou sendo quase um samba-canção mais acelerado, então tem uma semelhança muito grande entre o samba-canção e a bossa-nova. É natural, porque no tempo em que se gravava samba-canção, a instrumentação era mais regional, quando você coloca multivozes, cordas, aí já soa meio bossa-nova, principalmente se você colocar muita dissonância, por exemplo, às vezes tinha uma segunda menor, que não se aceitava muito, mas que fica bonito. Muita coisa foi inovada em relação a como se gravava o samba-canção.

Essa proximidade da bossa-nova com o samba-canção explica, por exemplo, a presença de Carlos Lyra e Johnny Alf nesse repertório?
Acho que sim, é por aí justamente. O Johnny Alf já começou na época do samba-canção, mas o Carlos Lyra é mais filho da bossa-nova, mas se você pegar algumas coisas dele, são quase um samba-canção. No que diz respeito ao repertório, tem que se dar mérito ao Quarteto, pois por mais que se opinasse, a escolha era do artista – o artista tem que gostar do que vai cantar, não adianta chegar e querer que ele cante o que não gosta. Acho que o papai também teve influência, diante da pesquisa que fizeram, então o mérito do repertório cabe mais ao Quarteto em Cy.

E neste repertório, além de Carlos Lyra e Johnny Alf, temos nomes muito importantes do cancioneiro popular da música brasileira. Vamos comentar alguns nomes que fazem parte desse projeto, por exemplo, Herivelto Martins, Ary Barroso, Garoto, Tito Madi, Jair Amorim, Dolores Duran. Vamos fazer um passeio por esses autores?
Antônio Maria foi um mestre, 1952 foi o ano que ele fez mais sucesso com “Ninguém me ama”, e teve o sucesso “Se eu morresse amanhã”, gravada pela Dolores Duran, alma gêmea de arte e de boemia. Ary Barroso é Ary Barroso, autor de “Aquarela do Brasil” e não precisamos falar mais nada. Bom, tem uma história de “No rancho fundo”, uma música feita para uma peça “Na grota funda”. Lamartine Babo, quando foi assistir a peça, se apaixonou pela música e quis fazer outros versos, criando “No rancho fundo”. Por causa disso até o J. Carlos brigou com o Ary Barroso.Tem nesse disco os sucessos de “Folha Morta” e “Risque”. O Garoto foi um gênio instrumentista, acho que aquele violão moderno que ele tocava acabou sendo a base para um monte de gente tocar, a base da bossa-nova. O nome dele era Aníbal Augusto Sardinha e “Duas contas” é principal música. A primeira vez que eu ouvi “Duas contas” foi na varanda lá de casa, em Botafogo, me lembro bem que eu falei: “pai, não tem uma rima nessa música, como se faz uma música assim?”. No repertório tem “Gente humilde” também, que era do Garoto e depois Vinicius de Moraes e o Chico Buarque colocaram letra – quer dizer, até o Chico está entrando aqui no samba-canção. “Não diga não” foi o primeiro sucesso de Tito Madi, depois veio “Fracassos de amor” e “Cansei de ilusões”, que é muito bonita. Jair Amorim foi um dos maiores poetas, maiores letristas, era locutor de rádio e tornou-se parceiro de Zequinha de Abreu (José Maria de Abreu). “Ponto final” e “Alguém como tu” são as músicas que estão aqui presentes. Tem Lupicínio Rodrigues, que é fantástico. Aos oito anos ele cantou para Noel Rosa lá em Porto Alegre, onde nasceu, quando Noel voltou ao Rio avisou aos amigos que um moço chamado Lupicínio faria muito sucesso um dia e acertou em cheio, mesmo porque há um pouco de drama de muita gente nas canções magoadas “Vingança”, “Nunca”, “Esses moços”. Herivelto Martins e Francisco Sena formavam a dupla Preto e Branco, Sena morreu e veio Nilo Chagas. Depois veio Dalva de Oliveira e surgiu o Trio de Ouro, Dalva e Herivelto casaram, houve a separação e isso gerou várias musicas, e quando chegou em 1947, fez “Caminhemos” e “Segredo”, que marcou uma das melhores fases criativas de Herivelto. “Primavera”, de Carlos Lyra, é o dueto de amor dos personagens centrais de “Pobre menina rica”, aquela peça, comédia musical dele e do Vinicius de Moraes, deles ainda é a obra-prima, “Minha namorada”, são músicas bem próximas ao samba-canção. Ele é um compositor que ajudou a rejuvenescer a música brasileira participando ativamente da bossa-nova. Johnny Alf gravou “Ilusão à toa” em 1961, mais tarde um amigo pediu uma composição para o seu casamento, mas o cerimonial não deixou que ela fosse tocada, em 1967, ele lembrou da música, tirou da gaveta e inscreveu no festival e deu um título e uma letra bonita “Eu e a brisa”. Dolores Duran revelou-se como cantora de música brasileira e internacional, depois, poetisa, escrevendo versos com jeitão de conversa íntima. Um dia mostrou que também era capaz de compor melodias, ampliando suas perspectivas de criação. “Por causa de você” e “Ternura de você” são obras- primas.

Queria que você comentasse um pouco esse tipo de trabalho que resgata obras importantes do cancioneiro da música popular brasileira, reformula, deixa o som mais moderno, para que novas gerações tenham acesso, conheçam e possam apreciar.
A memória da gente não pode ser esquecida e jogada fora, e como a vida muda o tempo todo, as coisas se modernizam, se a música não for acompanhada de modernidade e dos recursos da época, também não vai chegar ao ouvido das novas gerações. É essencial que se faça as coisas com a leitura do que está acontecendo na época, isso valoriza tudo o que já tem valor. Não tem música pior ou melhor, tem música boa e ruim. Não dá para dizer que a música do passado era melhor que a do presente – não, a boa música do presente é melhor do que a música ruim do passado. Aquilo que é bom, que é bem feito, fica. E tem muitos segredos ali dentro, que a pessoa, a primeira vista não consegue assimilar, então sempre se encontra alguma novidade para o ouvinte. Eu acho fantástico e dou meus parabéns a todos aqueles que se interessam em renovar as coisas boas que foram feitas, em investir, em mostrar. Você é um exemplo e tenho o maior respeito pelo seu trabalho. Isso tem que continuar sempre assim.

Antologia do samba-canção deu tão certo que acabou acontecendo um segundo volume. Por que vendeu tanto: pelo repertório, pelo som, pelo talento do Quarteto em Cy, ou na época (estamos falando de 1975, 1976) havia carência desse tipo de música?
Na época, o mercado estava muito bom, mas tem tudo isso de fator em comum para o sucesso que foi. Se bem que o sucesso dessas coisas que são muito bem elaboradas são sucessos contínuos, são sucessos muito homeopáticos, não são coisas que vendem de uma vez e acabou. Então esse é um disco que ainda é consumido em outras compilações, CDs, etc. porque tem muita riqueza, muita coisa que fica soando como novo.

Qual a diferença entre o volume 1 e 2?
Eu não vejo muita diferença para falar a verdade.

Funciona como um álbum duplo?
Até poderia, porque a instrumentação é muito semelhante, os músicos que tocaram e o arranjador principal, que é o Luiz Claudio Ramos, é o mesmo, a sonoridade é parecidíssima. Eu não vejo grandes diferenças. O volume 2 é até um pouco mais moderno no sentido do repertório, que já traz alguns autores da bossa-nova, o primeiro, eu tenho a impressão que são autores mais antigos, mais tradicionais.

Qual a importância desse disco na carreira do Quarteto em Cy?
Foi um impulso muito grande, como os vocais também foram muito modernizados, trouxe algo novo para elas também.Foi ali que houve a primeira junção de MPB-4 e Quarteto em Cy, que depois se tornou um show.