Luiz Melodia | PÉROLA NEGRA | Philips, 1973

Pérola Negra
Capa e Foto RUBENS MAIA

Uma estreia de impacto, que desafiou as classificações da época. Morador do morro de São Carlos, filho de sambista, Luiz Melodia [Rio de Janeiro, 1951] trouxe em Pérola Negra veementes canções em todos os idiomas, do rock (“Objeto H”) ao baião (“Forró de janeiro”), além de clássicos instantâneos que transcendiam modelos, como “Magrelinha” e a canção que dá nome ao disco.  

Admirado e incentivado por tropicalistas como Wally Salomão, Torquato Neto e Helio Oiticica, Luiz Melodia já havia chamado a atenção quando Gal Costa, sua madrinha no começo de carreira, cantara “Pérola negra” no show Fa-tal (1971). Pérola negra apresentava uma voz rigorosamente original — na poética urbana e fragmentada e na maneira livre e vigorosa de misturar ritmos e influências. 

loluizmelodia

FAIXAS

ESTÁCIO, EU E VOCÊ
VALE QUANTO PESA
ESTÁCIO, HOLLY ESTÁCIO
PRA AQUIETAR
ABUNDANTEMENTE MORTE
PÉROLA NEGRA
MAGRELINHA
FARRAPO HUMANO
OBJETO H
FORRÓ DE JANEIRO
Todas as músicas de Luiz Melodia

FICHA TÉCNICA

Direção de produção
GUILHERME ARAÚJO
Direção musical
PERINHO ALBUQUERQUE
Direção de estúdio
SÉRGIO M. DE CARVALHO
Técnicos de gravação
LUIGI, LUIZ, PAULO YEDDO
Estúdio
PHONOGRAM/SOMIL
Arranjos
PERINHO ALBUQUERQUE e ARTHUR VEROCAI
Corte
JOAQUIM FIGUEIRA

O disco

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Wally Salomão gostava muito de estar no São Carlos, onde eu nasci e fui criado, meu morro de São Carlos, que Deus o tenha, nos anos 70. Como também gostavam Hélio Oiticica e Torquato Neto. Circulavam, gostavam de estar lá, era bacana, talvez pela simplicidade do local, da comunidade. Wally e os outros estavam sempre lá, fotografando ou papeando num desses encontros, numa dessas subidas, conheci Wally Salomão, tive a graça de conhecê-lo até por que eu já não sabia se queria fazer música ou se queria deixar isso como hobby. Foi um negocio serio porque meu pai era batista e implicava pra caramba, “não quero você metido com música” e aqueles papos de pai, de uma certa forma o cara zelando pelo garoto. Ele queria que eu fosse doutor. Mas Wally Salomão me incentivou bastante, e, quando ouviu minhas canções e minhas músicas, ficou encantado e nos tornamos muito amigos. Foi na época em que Wally estava dirigindo o Fa Tal, o show da Gal Costa. Era ali em Copacabana, o ponto de encontro da rapaziada, na Adega Pérola, em frente ao Shopping. Wally me apresentou Gal Costa e “Pérola negra”, a música. Primeiro a gente se encontrou com ela e falei do meu respeito. Ela queria me conhecer, e assim fui lá e mostrei. Ela ficou apaixonada pela música e disse que ia incluí-la no repertório do show. Eu fiquei maravilhado logicamente, porque foi a primeira música minha a ser cantada, e porque era Gal Costa. O privilégio de ver Gal Costa cantar sua música e gostar do seu trabalho foi assim um começo dos deuses.

Lembro do encontro. Eu tímido como sempre, muito tímido e aquela mulher maravilhosa, gostosa, bonita, baiana. Dali por diante ela tornou-se minha madrinha. “Luiz”, ela, muito à vontade, falou: “de agora em diante eu vou ser sua madrinha.” Ai falei “que maravilha!”. Depois de todo esse encontro e papo, fiquei frequentando a casa de Gal Costa. Mas emoção maior senti quando eu vi a primeira vez uma música minha sendo interpretada. Era “Pérola negra”. Eu caí em lágrimas, foi muitíssimo emocionante, fiquei assim pasmado — e não era pra ser diferente. Ficamos muito camaradas e foram acontecendo outras músicas como “Presente cotidiano”. Gal Costa cantava coisas minhas em shows, e até hoje canta. Acho que foi um grande barato na minha carreira esse começo, foi uma magia posso dizer.

Lembro claramente do show. Foi no Tereza Rachel, eu e alguns amigos lá do São Carlos. Abria, parece, à capela. “Eu sou uma fruta gogoia”. Era um show muito pulsante, quando ela abria parece que iluminava a plateia, iluminava todo o local. Eram as palmas, aquela euforia, aquela juventude linda, rapaziada bronzeada de sol, até porque vinham da praia pra o show. Durou um tempo esse show da Gal Costa no Tereza Rachel, uma temporada longa. Era o acontecimento, e eu com “Pérola negra”. Quase todos os dias, pra não dizer todos os dias, eu estava presente no show.

Eu já tinha participado de alguns festivais, e tocado em bairros próximo do Estácio. Fazia shows enfim, até participei de alguns programas calourosna rádio. Na radio Mauá, por exemplo. Cantando musicas do Roberto Carlos, como “Rosita, Rosita, onde estás que não vens? Rosita…”. O morro todo ligado, foi um dos começos da minha carreira, mas eu não levava muita fé, achava que não ia dar certo. Foi exatamente nessa época que vim a conhecer o Wally Salomão. Impressionante, a coisa aconteceu quase que de imediato, acho que tinha de acontecer.

Éramos muito amigos, muito parceiros, de andar abraçados por Copacabana. Às vezes morava com Ali, às vezes ficava um tempo aqui, voltava ao morro, ficava uns 15 dias na zona norte, zona sul depois ia pra zona norte, para o Estácio. As pessoas, por conta dessa ligação que tinha com Wally Salomão achavam que eu era baiano inclusive às vezes saia em jornal ou matérias achando que eu era baiano isso durou muito tempo, engraçado. Guilherme Araújo ficava surpreso e falava “não, ele não é baiano. Ele é carioca do Estácio.” Mas mesmo assim as pessoas não acreditavam muito que eu era carioca, e carioca da gema né.

Pouco antes de eu começar a gravar e assinar contrato, depois que Gal Costa gravou “Pérola negra”, fiquei mais empolgado, mais a fim. Já estava em contato com a rapaziada, músicos na zona sul. Por exemplo, conheci o Oberdan [Magalhães], um excelente músico, muito camarada, a quem eu mostrava minhas composições. Ele já pensava em arranjos e achava admirável outras coisas mais, que ninguém sabia que eram composições, ainda estavam no no baú. Então nesse primeiro LP, eu fechei com vários craques. Por exemplo, o arranjador é o Perinho Albuquerque e o Guilherme Araújo fez a direção. A produção Sérgio Carvalho, a maioria dos arranjos foi do Perinho Albuquerque. Vários craques, como Marcio Montarroios, participaram, Luiz Carlos Batera, recém-falecido, um craque da sua área, Mauricio Einhorn tocando gaita tipo, uma turma bacana, um time da pesada. O flautista era o Altamiro Carrilho. Arthur Verocai também fez arranjos, uma turma bacana tocou nesse disco, Renato Piau. O público estava prestando atenção, como Jards Macalé, Suzana de Moraes, Caetano Veloso. Todo mundo estava sabendo que ia acontecer um Pérola negra, um LP, estavam sempre na espreita, porque o Torquato Neto falava muito do meu trabalho no “Geléia Geral”, no Última hora, uma coluna na qual ele falava a respeito do que estava acontecendo. Tudo isso foi acontecendo de maneira veloz, até por esse privilégio que eu tive, de Gal Costa ter gravado. Logo depois teve muitos artistas, muitas cantoras, querendo saber desse compositor, como Maria Bethania. Fui na casa de Bethania mostrar “Estácio, holly Estácio”, porque Caetano falou de mim pra ela. Então vieram Zizi Possi, Sandra de Sá, a coisa foi mudando. É até foi curioso, para um cara que não estava levando muita fé e, de repente, você cair na mão de um chão de estrelas como esses que interpretaram, gravaram coisas minhas.

Por conta das metáforas de certas composições minhas, por um grande tempo, recebi muitas criticas diante do que eu escrevia, mas depois me deixaram em paz. Até porque eu costumo dizer: “se você não entende então assovia a melodia”. Teve gente que nunca bateu de frente né, mas que escrevia críticas, que não me deixavam indignado. Até hoje eu sigo escrevendo. Eles não sacavam.

Também tinha essa outra novidade, um negro recém-chegando no mundo musical com um estilo com um estilo completamente pop, e misturando tudo:  rock, samba. Isso deixou confuso principalmente os mais tradicionais, conservadores. Teve criticas de jornalista que, recém-faleceu, prefiro nem comentar o nome dele aqui, que falava: “mas como esse Luiz Melodia desce o morro lá de cima, e a pele é negra e ele não faz samba. Qual e a dele?”. Coisas desse tipo, que entrava por um ouvido e saia pelo outro, logicamente. Acho que logicamente deve ter tido um preconceito diante da situação, porque contradizia aquela tradição. Você espera sempre o cara descer, e fazer disco com samba, autêntico, ou gravando composição do local ou coisa parecida. Mas minha revelação foi diferente, então imagino que deva ter causado alguma confusão.

A minha grande referência, meu grande encontro, foi o rádio. O rádio foi assim o que tinha de melhor até na favela. Porque ninguém tinha grana, ninguém tinha condições de comprar TV a cores, mas o rádio era inevitável, todo vizinho tinha um rádio. A favela toda tinha rádio, tanto que ao sábado e domingo, era aquele “auê” desde os alto falantes até o rádio. Nesse sábado e domingo é quando você não trabalhava, então as meninas tinham que dar aquele duro em casa, encerando as casas, deixando as casas mais bonitas, as casas humildes, mas sempre dando aquele trato. Então o rádio estava sempre presente, quando era o dia de folga, o melhor dia pra você arrumar, da um capricho na sua casa. Os rádios estavam sempre presentes, tocando de tudo, desde o bolero até programação de nordestina, jovem guarda, enfim. Como eu gostava de música, já que meus pais gostavam pra “caramba” — influência naturalmente do meu pai, que era violonista e compositor. Foi juntando tudo o rádio, meu pai compositor, o lugar onde nasci, o fato das pessoas serem mais viva, mais a fim de ter uma vida melhor. A música era um escape, essa alegria era presente sempre no morro e tal. Eu ouvia tudo isso no rádio e talvez tenha sido isso o motivo dos discos que até hoje gravo, sempre com variedade, desde o rock, o pop. Eu sempre tive essa malícia pra poder passar para os discos que eu componho

 

Realmente houve um respeito em relação ao que eu apresentei. Lembro que mostrava pro arranjador, que era o Perinho Albuquerque, e ele falou: “Luiz, eu só vou alterar algumas harmonias” logicamente, até porque eu não sou um músico. Assim tinha umas coisas que precisavam de umas alterações pra ficarem mais bonitas e tal, mas fora isso ele deixava tudo por conta do que tinha feito já. A mesma coisa com o Oberdan, ele fazia arranjos pra mim. [Ele me sacava musicalmente]. Até hoje tenho arranjadores que trabalham comigo, como Serginho Trombone, Marcio Montarroyos, Leo Gandelman, que já têm uma ligação, sempre tão presentes nos CDs que eu gravei.

Eu tocava, pegava o violão e apresentava ele, ele tirava harmonia ou alterava alguma coisa, depois punha a voz guia. Às vezes a voz guia ficava ótima, acabava ficando no disco, até porque pra mim era tudo novidade. Eu nem sabia que era voz guia, então deixa ela. Teve esses acontecimentos, rolou numa boa esse Pérola negra, o astral foi bem legal, foi bem bacana.

Lembro que teve essa coisa especial, essa intenção [de preservar o que eu trazia]. “Deixa o cara relax”, ninguém me incomodou em nada, no sentido de que “troca isso, troca aquilo”, nada. Sempre que havia ualquer coisa que tivesse que ser alterada me perguntavam, “Luiz quer que mude isso, é possível? Não, você não quer?”

[Sobre o Blues,] acho que sempre tem um ranço negro, sempre tem uma mistura com o negro americano, enfim, dos negros e até chegar à África. Essência você vai seguindo. Também gostava de ouvir jazz, lembro de tios que gostavam de Miles Davis, não me interessava diretamente, mas sabia. Ray Charles, por exemplo, fazia sucesso na época. Até o Elvis Presley, você sempre vai captando, e o timbre de voz que tenho acho que também contribuiu bastante para ter essa colagem musical. Uma vez vi minha mulher conversando com meu filho, “você já viu seu pai cantando Blues? É genial!” Eu falei “Jane, nunca ouvi você falar isso” Acho que as pessoas curtem, então tem muito Blues em meus discos, sempre gravo blues. Esse incentivo, as pessoas gostando, acho que faz com que eu fique mais ligado.

Guilherme Araujo foi meu primeiro empresário assim que desci a favela, o São Carlos. Guilherme cuidava das minhas coisas, e foi muito gentil durante o tempo que trabalhou comigo. Pouco tenho a reclamar, de qualquer forma foi pela participação o fato de eu estar aqui.

O Damião Experiência foi uma ideia que tive, de levar pra o set da gravação do forró. Ele fazia um lance meio hermético, eu achava interessante assim falei: “vou te levar pra participar”, e o Damião morava ali na no baixo meretrício, ali no Mangue, posso dizer assim, e a gente era amigo. Vira e volta ele estava no morro e estávamos sempre juntos, temos parcerias de músicas. Assim me veio  a ideia de pôr ele nessa gravação e ele curtiu, soltei ele lá ele saiu mandando.

[Quando o disco saiu,] eu acredito que, de vendagem, de imediato, não foi tanto, mas acho que, com o passar do tempo, tenha sido o disco meu que mais vendeu. Acredito que foi o disco assim mais comentado, o disco mais elogiado, quase que todos os anos tem alguma pesquisa, sempre como um “clássico dos clássicos”. Acho que isso pra mim foi mais interessante do que se ele tivesse vendido muito, pra mim é muito mais bacana, muito mais genial a forma com Gosto da capa, que é do Rubens Maia. Eu dei ideia de alguns detalhes, a capa é dele. Toda vez que alguém fez um trabalho de capa pra mim, eu participei logicamente, com umas ideias. O trabalho dele é um trabalho bacana, eu respeito como fotografo, uma capa legal, uma capa para sempre. E tem as fotos aqui, várias, tem do presídio, tem a Suzana de Moraes, uma quantidade de pessoas aqui, o Wally Salomão.

No CD é impossível ver. Eu adorava esses LPs, dava pra você trabalhar, as ideias ficavam bem mais amplas. Esses CDs agora são muito pequenos, mas esse aqui é genial, você vê que tem inúmeras fotos aqui, é um registro bacana: meu barbeiro aqui, minhas irmãs aqui ainda muito pequenas, alguns amigos que já se foram, não estão mais na terra..

Acho que ele tem um caminho melódico bem consistente, nessa variedade de gêneros como o rock, o pop; tem uma consistência. Eu não digo nem de qualidade de som, que até acho um pouco precária, mas pelo fato de ter essa consistência torna-se mais fácil de ouvir então concordo que é um disco  moderno.

[Ele foi gravado em quatro camadas.] Você ia espremendo, gravava um pouco aqui, um pouco ali, e a voz deixava para o final, ou, como eu disse, às vezes as guias ficavam legais. Sempre dá-se um jeito, não é porque você não tem a tecnologia que você não vai fazer, até porque o brasileiro é criativo, tinha-se a vontade de fazer um trabalho legal, ainda mais quando se curtia o trabalho do artista. Acredito que os caras trabalhavam com vontade.

Meu pai andava com o disco debaixo do braço dia e noite, dia e noite. Eu tinha que conseguir alguns pra deixar com ele, pra ele dar aos amigos. Era um prazer pra ele falar do disco do filho, era um prazer dizer que o filho dele estava gravando pela Polygram até porque era uma gravadora cheia de gente importante, e isso pra ele era maravilhoso. Foi quando foi mudando o papel, aquele pai que não queria que eu me enveredasse no caminho da música, mudou totalmente, virou assim um “puxa-saco” no bom sentido, o meu maior fã. Meu filho Mahal também gosta. Não só gosta como tem algumas canções aqui que ele já sampleou, porque ele é do hip hop. Desde os 13 anos ele faz hip hop, já nessa idade, curioso, ele já pegava os meus CDs para samplear. Recriando.

 

[Fui a pedido da gravadora apresentar músicas à Censura.] Toquei para os caras. Como foi o desenrolar do coisa eu não sou preciso, até porque não era uma coisa que me interessava. Logicamente eu ficava chateado. Porque você não quer ver sua obra censurada, e tive algumas. “Farrapo humano”, por exemplo, “Pra aquietar”. “Presente cotidiano” foi uma música que Gal Costa me pediu, e eles censuraram.

Guilherme Araújo tinha uma manha que eu não sei qual era, e não procurava nem saber. Quando minha música passava, Guilherme dizia “Luiz, olha está tudo liberado.” Eu achava o máximo, mas não sei qual o jeitinho que ele dava. “Presente cotidiano”, por exemplo, foi uma. “Tá tudo solto na plataforma do ar, tá tudo aí, tá tudo aí, quem vai querer comprar […] vou caminhar um pouco mais atrás da lua, mas tudo voa por aí na asa do avião…”. É isso que eles queriam cortar, “mas tudo voa por aí na asa de um avião”. Eu não entendia o porquê, não sei se eles entraram numa de que era sobre drogas, só sei que o Guilherme conseguiu que a música fosse liberada. E “Farrapo humano” também foi uma com as quais eles implicaram, mas sei que também foi uma que o Guilherme também conseguiu fazer passar. Outras canções que tive censuradas, que tenho de rever no meu baú, são canções que nem toco mais.  Tem uma chamada “Feto, poeta do morro”, uma música que não gravei em disco nenhum. Não aconteceu, ela foi censurada, mas não lembro assim a letra exatamente, mas é uma letra bem mais pesada. É acho que só lembro dessas, de umas três. Era difícil essa relação para quem compunha e achava que tinha uma liberdade de expressão, difícil.

[O produtor Sergio Couto teve a ideia de levar você à censura para tocar violão e mostrar as músicas]. O Sérgio Sampaio também fez isso. Foi lá e tocou para eles. Lembro que Sérgio Sampaio era muito meu camarada, a gente vivia juntos. Na época de gravação de disco, o Sérgio estava com uma música que tinha um problema de censura. Ele foi lá tocar, eu fiquei esperando ele lá embaixo, falei: “vou ficar no meu carro te esperando”. Ele conseguiu.

Lembro bastante do “Farrapo humano” que era uma com as quais os caras tinham implicado seriamente nesse LP.

Então eu freqüentava, nós estávamos sempre juntos. [Wally e eu, nas Duna de Ipanema. Era um ambiente estimulante,] eu sempre tocando meu violão, porque sempre pediam. Na casa da Suzana de Moraes, ou quando me encontrava com Wally Salomão, na casa do Hélio Oiticica, ou quando todos estávmos reunidos no São Carlos. Sempre tocando, sempre apresentando canções novas, ou nos passeios pela noite carioca como no Luna’s Bar ou o Pier. Às vezes estava na casa de Gal Costa, depois que ficamos amigos.

Ela morava aqui em Ipanema, esqueci o nome da rua. Estava então sempre lá, às vezes comia um pouco lá. A Mariá [mãe de Gal Costa] me dava sempre um rango. Às vezes eu ficava na rua de bobeira e não tinha onde comer, aí passava na casa de Gal Costa e sempre era bem vindo, fazia um rango, batia um papo, saltava, ia para a praia, ou ia encontrar Wally Salomão ou Luís Otavio ou Torquato Neto, na Adega Pérola. O Torquato Neto vinha com alguma novidade de letras pra mim, para eu musicar. Era muito genial, era muito bacana o nosso cotidiano carioca.

[No São Carlos] a reação foi muito positiva, até porque você é cria do lugar. E gravar um LP, não era como agora, quando todo mundo grava. Quando eu gravei o LP, foi uma festa, uma festa de alegria geral, principalmente meus parentes, meus tios, tias. Uma festa de astral e beijinhos pra lá, abraços. Eu ali naquele meio, mais feliz do que nunca. Dali por diante eu era o Luiz Melodia.

O [nome] Luiz Melodia veio do Osvaldo Melodia, meu pai já tinha esse apelido, porque ele tocava, compunha. Eu nunca perguntei a ele porque o “Melodia”, acabou que o meu pai faleceu e eu nunca perguntei. Mas, quando garoto, me chamavam “Alô Melodia”, lembro que minhas irmãs odiavam e retrucavam: “o nome dele não é Melodia. Ele tem nome, é Luis Carlos dos Santos”. Minhas irmãs não gostavam e, quando tem alguém que não gosta, você sabe o que acontece… vira realmente um apelido né, não tem jeito, quanto mais elas ficavam indignadas, mais a coisa fervia. Ficou.

Meu pai era autodidata, tocava viola de quatro cordas, nem era violão. Foi onde eu aprendi os primeiros acordes. Eu pegava a viola dele, até que um dia eu quebrei. Aí minha mãe teve que me acudir porque se não eu ia levar porrada. Ele tinha um carinho imenso e, sabe como é, eu, garoto, adolescência… Ele vinha do trabalho, e eu naquela correria pra esconder a viola, acabou que ela caiu de bico e quebrou as cravelhas. Enfim: espatifou-se. Tomei esporro. “Você tem que parar com esse negócio de música; não sei o que você esta vendo que não vai acontecer nada cara; é melhor você arranjar um trabalho e tal porque é o seguinte; é três irmãs e família e só eu trabalhando…”, aqueles papos… Mas eu tava impregnado por ele, ele tocava, era compositor. Como eu iria me afastar àquela altura? Não dava.

[Fui aprendendo vendo ele tocar], e escrevendo as primeiras letras, bem infantis, bobagem. Era só para poder ter uma noção. Às vezes eu canto, brinco em casa toco alguma delas a Jane ri se diverte. Bem não sei se foi a primeira, lembro que fiz um pedaço, depois não lembrava mais, não sabia como fazer a segunda parte, que era “fico manso e amanso a dor, Holiday é uma dia de paz…”. Um dia, na rua, me brilhou, me veio, corri para casa, peguei o violão. Nessa época eu já fazia alguns acordes no violão, aprendi com os amigos, abandonei a viola do meu pai então já fiz no violão e já fiz essa outra parte “fico manso e amanso a dor, Hollyday…”. “Estácio, holly Estácio” foi à música que realmente eu me senti “agora vai!”

[Quanto estou compondo e] tento fazer outra parte da melodia, ou algo ficar melhor, se não acontece nenhuma dessas coisas, paro e espero que ela venha naturalmente. Sempre acontece de vir naturalmente, não tem jeito, porque minha cabeça fica martelando. Eu fico dirigindo, ou estou em casa, fazendo outra coisa sempre fica um resquiciozinho daquilo que está pra acontecer,  vai acontecer a qualquer momento. Não cessa esse processo, ele continua. Você vai almoçar, viver, fica ali.