O Terço | CRIATURAS DA NOITE | Copacabana, 1975

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Capa ANTONIO PETICOV

O Terço surgiu em 1968, pioneiros da cena roqueira, com Jorge Amiden, Vinícius Cantuária e Sergio Hinds. Com a saída de Jorge e a entrada de Cezar de Mercês, e, após uma turnê com Marcos Valle, o grupo lançou o segundo disco, O Terço (1972), calcado no rock progressivo, com uma suíte de 6 temas. Já no terceiro disco, Criaturas da noite, a formação era  Hinds, Sérgio Magrão, Luiz Moreno e um tecladista indicado por Milton Nascimento, Flávio Venturini.
Cézar de Mercês havia se afastado, mas continuava como compositor. O disco misturava o rock “Hey amigo”, sucesso nos shows da banda, com rock rural (resultado da colaboração com Sá e Guarabira), principalmente nas faixas “Queimada” e “Jogo das Pedras”. O lado progressivo, ou, antes, a mistura de todas as influências está na suíte que encerra o disco, “1974”. Com capa de Antonio Peticov e arranjo (na faixa título), o disco tornou-se objeto de culto, no Brasil e no exterior.

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FAIXAS

HEY AMIGO
Cezar de Mercês
QUEIMADA
Flávio Venturini e Cezar de Mercês
PANO DE FUNDO
Sergio Magrão e Cezar de Mercês
PONTO FINAL
Luiz Moreno
VOLTE NA PRÓXIMA SEMANA
Sérgio Hinds
CRIATURAS DA NOITE
Flávio Venturini e Luiz Carlos Sá
JOGO DAS PEDRAS
Flávio Venturini e Cezar de Mercês
1974
Flávio Venturini

FICHA TÉCNICA

Arranjo
O TERÇO (instrumentos) e ROGÉRIO DUPRAT (orquestra)
Vocais
SÉRGIO MAGRÃO, SÉRGIO HINDS, LUIZ MORENO, FLÁVIO VENTURINI, CEZAR DE MERCÊS (“Pano de fundo” e “Ponto final”) e MARISA FOSSA (“Ponto Final”)
Baixo
SÉRGIO MAGRÃO
Direção artística
PAULO ROCCO
Violão e viola
SÉRGIO HINDS
Percussão
LUIZ MORENO e CEZAR DE MERCÊS
Piano, Órgão, Sintetizador, Viola
FLÁVIO VENTURINI

Formação

Flavio Venturini Bem, desde garoto gostava de música. Minha mãe tinha uma pensão onde tinha um pianista que, segundo ela, me pegava dormindo na porta do quarto dele ouvindo ele tocar piano. E eu me lembro muito de alguns discos de vinil que tinham na minha casa. Disco do Luiz Gonzaga, era uma espécie de compacto duplo, que tinham cactos com pôr do sol na capa, e me lembro de discos de música clássica, Chopin, alguns discos grandões de vinil, tinha uma radiola na minha casa, e depois de 10, 12 anos, começando a ouvir muito rádio. Porque o que se ouvia na época era rádio. Então eu me lembro também de discos de orquestras americanas, me lembro da primeira música de Bossa Nova que eu ouvi foi “Lobo Bobo”, depois “Wave”, foram duas músicas que eu falei “nossa, diferentes”. E da coisa mineira, me lembro muito de valsas, de modinhas, Minas tinha muito essa coisa de serenata, me lembro de ver o povo tocar violão, tocar aquelas modas. Minas tem a coisa barroca também da harmonia, agora realmente acho que a porrada foram Os Beatles, aí eu acordei pra música. Aí talvez eu tenha tido a primeira vontade de cantar, de ser músico, quando eu ouvi “I Want to Hold Your Hand” e daí quando eu comecei realmente a estudar, meu primeiro instrumento foi o acordeon, depois veio o piano, meu pai tinha um restaurante que tinha um piano, eu comecei a tocar ali de ouvido e, na verdade, hoje vejo que eu já compunha, às vezes não tinha tanta informação, inventava pra tocar alguma coisa. E de rock mesmo, comecei a tocar em conjuntos de baile, aí você tinha informação de tudo, porque ali você tocava de tudo. Você tinha que ouvir de tudo, isso foi escola também. Depois entrei em escola de música, Fundação de Educação Artística aqui em Minas Gerais, onde já tinha Toninho Horta, tinham alguns artistas ali, mas com os festivais eu conheci todos, quase que ao mesmo tempo, nas peladas na casa do Toninho Horta, onde estavam Beto Guedes, Lô Borges chegando no Rio, Tavinho Moura, vários artistas que foram também me interessando muito pela música, porque tava todo mundo compondo muito bem pra época, era impressionante. Teve um festival aqui em 1972 onde o Milton concorria com o “Clube da Esquina”. Toninho Horta, Lô Borges e Beto Guedes cantando “Equatorial”, então aquilo lá pra mim se abriu o mundo com aquela harmonia mineira rica, já influenciada pelo pop, pelos Beatles, e aí vieram os anos 70 com o rock progressivo, que realmente foi outra porrada conhecer aquela música mais intricada, harmonia rebuscada, e mineiro gosta dessa coisa de harmonia… Tudo isso me influenciou e eu comecei a compor.

Sergio Hinds  [No início da carreira] cheguei a trabalhar numa tal de Kombinado, alugava a kombi [ri], trabalhava com a kombi, transporte de kombi, aí fim de semana fazia show. Então essa história da kombi é engraçada porque depois fomos tocar no Mato Grosso, depois eu trouxe a kombi pra vender aqui e a kombi tem um monte de história.

Flavio Venturini A gente fez [jingles]. Eu fui pra São Paulo pra gravar o disco Nunca, do Sá e Guarabyra. Só que o Sá e o Guarabyra trabalhavam num estúdio chamado Pauta, do Rogerio Duprat, no centro de São Paulo. E para que eu entrasse no grupo O Terço, porque eles me convidaram [ri], naquele reencontro foi muito legal… “Pô a gente está aí precisando de um tecladista, você quer entrar na banda?” Rolou aquele reencontro e admiração mútua pelo trabalho e “a gente está trabalhando aqui com Rogério Duprat, gravando jingle também, quer entrar nessa também?” “vamos nessa”. Era um salário pra viver em São Paulo [ri]. E a banda não existia ainda, não fazia muitos shows. O Terço tava numa fase ainda paradona. Mas quando a gente sentiu um novo som acontecendo, um repertório novo, vamos fazer show, saímos fazendo show. Então eu fiquei ali, trabalhando [risos].

 

Sergio Hinds O Terço começou com Jorge Amiden e Vinícius Cantuária. Depois é que teve essa versão com o Cesinha [Cezar de Mercês]. Já foi no segundo disco. Então Jorge Amiden, morava aqui no Flamengo, a gente morava no Flamengo, o Magrão do 14 Bis foi nosso técnico de som, Magrão do Terço foi nosso técnico de som e depois foi virando músico, entrou pra banda. Então começou assim, a gente gravou o primeiro disco e produção do Paulinho Tapajós. O Jorge Amiden tocava guitarra de 12 cordas, eu era baixista, o Vinicius Cantuária era baterista e os três cantavam. Então a formação que começou foi essa. Aí no segundo disco, Jorge Amiden tinha saído, entrou o Cezar de Mercês, foi de novo um trio, um disco pela Continental e aí foi o segundo disco. Depois é que veio o Criaturas da Noite, que foi a formação que eu considero mais importante, que teve uma química maior, que foi realmente bacana e durou um tempo maior e a gente gravou dois discos, que foi o Criaturas da Noite e o Casa Encantada. E a presença do Flavio Venturini foi muito importante, porque ele chegou com uma bagagem de Minas de composições. Você imagina, compositor mineiro, ficava todo dia compondo… Quando ele entrou pra banda, praticamente quase todas as músicas eram dele. Rendeu demais. Ele estava com uma bagagem de composição, a gente estava na estrada… Porque quando você está na estrada você acaba compondo menos. E mesmo assim ele é um compositor mesmo, ele tem essa função, essa coisa de compor bastante. Então a entrada dele foi muito importante, muito importante pra história do Terço. E a marca dele está nesse disco. […]

Sergio Magrão Eu entrei pro Terço, na realidade, foi em 1971, 72, porque a gente havia ido pra São Paulo pra trabalhar com o Rogério Duprat num estúdio gravando jingles junto com Sá, Rodrix e Guarabyra, depois veio o Flavio Venturini mais tarde e lá foi uma oportunidade de trabalho grande, ir pra São Paulo, porque a gente morava no Rio, todo mundo aqui, e eu já tocava junto com o Moreno, foi fazer parte do Terço futuramente, mais tarde. A gente tocava com o Sá, Rodrix e Guarabyra, e aí surgiu esse convite, para a gente além de fazer os shows deles, também trabalhar na Pauta, que era esse estúdio que se gravava jingles. A partir daí surgiu o Sergio Hinds, vindo de outras formações do Terço — você sabe que o Terço teve n formações — e convidou o Moreno também pra participar disso, pra gente tentar conciliar junto os trabalhos da pauta mais os trabalhos do Sá, Rodrix e Guarabyra, começar a montar a banda. Nisso vem o Flavio, também de Belo Horizonte, também pra tocar com Sá, Rodrix e Guarabyra e também se juntar à gente pra gravar jingle. A gente começou a ensaiar e a coisa começou a crescer, enfim, a oportunidade de gravar também esse primeiro, com essa formação, o Criaturas da Noite, e a gente se fixou em São Paulo e começou a fazer show. Enquanto deu para conciliar com o Sá, Rodrix e Guarabyra, tentamos até juntar os dois, mas chegou uma hora que as agendas começaram a bater e a gente seguiu com o Terço. O [Zé Rodrix] ainda estava. Depois é que ele saiu. Aí nós prosseguimos, virou Sá e Guarabyra. A gente continuou, gravamos alguns outros LPs com eles na época e fizemos shows.

 

 

Bom, aí o Cezar continuou como parceiro, como um colega, como um companheiro, mas saiu da banda e o Vinícius também foi fazer outra coisa. Você ficou com o nome.

Sergio Hinds: Na verdade eu fiquei com o nome [da banda] desde a saída do Jorge Amiden. Esse foi um estresse, é estresse de banda, ele saiu do ensaio assim “ah, o Terço é meu, vou registrar o nome…” Saiu correndo. Sério… Engraçado [ri] contar essa história… Já contei pra várias pessoas, mas nunca numa entrevista, agora vou contar numa entrevista. Só que, veja bem, eu trabalhei aos 14 anos, meu pai é descendente de inglês e ele falou “14 anos, daqui pra frente não te dou mais um tostão, você vai trabalhar, vou te arrumar um emprego” e fui trabalhar com 14 anos. Então eu sabia me virar muito bem em tudo, comecei na luta desde os 14 anos. Resultado: na hora que ele falou “vou registrar”, ele, lógico, foi procurar o pai dele, que foi procurar especialista… Eu não, eu saí dali e fui direto pro INPI e registrei. Então foi isso, negócio simples. Foi uma briga de banda… Em 72, 71, por aí.

Muito bem, ótima. Mas quem batizou? Foi você que batizou?

Sergio Hinds Foi uma amiga do Paulinho Tapajós. Porque foi assim: começou com Os Libertos, a Dona Solange negou. Depois Santíssima Trindade, ideia do Paulinho Tapajós, censura vetou. E aí ele pediu pra uma amiga publicitária sugerir,  porque naquela época éramos cabeludos, barbudos, e tinha um lance meio parecido com os apóstolos, uma coisa assim, ele queria linkar isso daí, e aí ela sugeriu o Terço, porque era um símbolo de união, porque era uma banda super unida, e o Terço na religião católica as famílias rezam juntas, então a gente usou esse símbolo durante algum tempo, tem até na capa do primeiro disco. Aí pegou. E fácil, e todo mundo tem a sensação de que já ouviu. É um nome legal. Mas, enfim, durante muito tempo, muita gente foi no camarim falar “pô, mas vocês são uma banda evangélica? Religiosa? Gospel e tal?” [ri]

Como é que esse grupo de formou? Como é que vocês se agruparam?

Sergio Hinds Sempre fui muito amigo do Magrão, gostava muito dele. E o Moreno, também, os dois ótimos músicos, então já existia uma empatia, eu ia assistir os shows direto do Sá, Rodrix e Guarabyra, e gostava de ver eles tocando, a gente conversava muito, então já existia um envolvimento. Com o Magrão, principalmente, porque ele chegou a ser técnico do Terço. Aí foi um negócio que foi meio que acontecendo, aquela decisão, aquela oportunidade de se mudar para São Paulo, porque no Rio, eu enfrentava, sinceramente, muita dificuldade em ensaiar a banda, eu tinha que catar um na praia, o outro tava dormindo, eu tinha uma kombi, era difícil a coisa.

Já tinha uma relação muito grande. O Magrão já tocava com Sá, Rodrix e Guarabyra, e o Moreno também. Então eles tinham essa coisa. E acabou mudando todo mundo pra São Paulo e trabalhando no estúdio do Rogério Duprat, que era uma gravadora. E nessas, a gente se unindo, eu estava sem baterista no Terço, o Vinicius Cantuária tinha partido pra outra, ia tocar com o Caetano, tinha outros projetos, e aí eu fui meio que remontando o Terço com o Magrão e com o Moreno. Aí faltava um tecladista. E o Sá e o Guarabyra, porque eles já tinha separado do Zé Rodrix, estavam precisando também de um tecladista pra acompanhar o show deles. E aí nessas, o Terço também entrou na história de acompanhar o Sá e o Guarabyra, porque era uma trupe que morava junto, todo mundo no Brooklin, moravam em casas perto um do outro. Aliás, quando a gente mudou pra São Paulo todo mundo delirou com aquele negócio, que casa no Rio é difícil de achar, ou é Santa Teresa ou é no subúrbio, e a gente chegou no bairro do Brooklin, milhões de casinhas maravilhosas para alugar… Aí, putz, é aqui mesmo. Então ficou todo mundo assim, próximo, morando ali, e Sá e Guarabyra e tal, então a gente ficou uma equipe unida, o Rogério Duprat, todo mundo morava perto. E a gente trabalhava no mesmo estúdio e tal.  O Vice-versa, que ainda não chamava Vice-versa, chamava Pauta. Chegou a ser depois, a Trama alugou. Isso é recente.

Sergio Magrão Isso tudo começou, como a gente teve essa coisa de estar em São Paulo todos juntos, e já estava desenvolvendo esse trabalho, tinha um estúdio que era muito interessante, Pauta, onde a gente tava gravando, tinha vezes que a gente gravava oito temas, jingles, trilhas. Enfim, tudo isso. Aproximou bastante a gente quando a gente começou a querer fazer. Primeiro que todos gostavam de uma mesma coisa, música progressiva. Talvez o Moreno um pouco menos, porque o Moreno aqui ele já tocava um outro tipo de som, mas também gostava. O Flavio veio de Minas também carregado… Adorava Emerson, Lake & Palmer, Yes, Genesis, enfim, uma série de coisas, e eu também, e Sergio idem, então foi bacana isso porque a gente começou, na realidade, fazendo a coisa mais instrumental do que outra coisa. Aqueles temas instrumentais, e a coisa foi crescendo e a gente foi sentindo que estava rolando uma história bacana, que aquilo tinha futuro. E aí, o Flavio, obviamente, é uma pessoa extremamente criativa, ele faz música em qualquer lugar, ele está sempre com o violão ou o piano. Aí ele começou a desenvolver uma outra coisa, esse povo todo, a gente sempre curtiu muito isso, e a gente viu “a gente está com duas coisas que a gente gosta de fazer, que a gente tem competência pra fazer, e que pode dar certo.” Que é exatamente essa parte do instrumental que é a coisa do progressivo, e mais um acústico com vocal também. E quando a gente começou a fazer, começou a pintar uma música ou outra, que a gente começou a sentir que a coisa ia evoluir. E também o Terço já trazia com o Sergio já da última formação, mais pra esse lado da formação com o Vinicius Cantuária e o Cezar de Mercês e Sergio Hinds, quando saiu o Jorge Amíden, que que eles fizeram um LP que tem um tema gigante também, instrumental, bem legal. Então o Sergio já trazia essa bagagem com ele. Aí foi só juntar a fome com a vontade de comer, e tudo certo.

Flavio Venturini Bem, pra contar a história da minha entrada no Terço eu vou voltar um pouquinho no tempo. Quando comecei a compor, aqui em Minas, participando de pequenos eventos, festivais e tudo, aconteceu um festival aqui chamado Festival Estudantil, e eu e o Vermelho, que depois fundou mais tarde o  14 Bis comigo, a gente estava começando a compor, fizemos uma música, e era um festival meio que patrocinado pela gravadora, na época, Polygram, que cedeu alguns artistas. E tinha uma coisa que os artistas escolheriam a música, os intérpretes que a Polygram estaria cedendo escolheriam uma música. E O Terço escolheu a minha música. O Terço que, na época, estava na sua primeira formação, Sérgio Hinds, Vinicius Cantuária e Jorge Amiden. E assim eu conheci o pessoal do Terço, eles vieram, defenderam a minha música, com arranjos de orquestra, do Laércio Flavio, e ficamos em segundo lugar. Tudo bem. Terminou, eles foram embora, ficamos amigos e tudo e nunca mais vi. Anos mais tarde, em 74, eu recebo um telefonema do Guarabyra dizendo que trabalhava num disco, Sá e o Guarabyra, eles tinham se separado do Rodrix, e que eu havia sido indicado pelo Milton Nascimento, que eu nem conhecia pessoalmente ainda na época. A minha formação com o Clube da Esquina não incluía na época o Milton, que já estava no Rio. Era muito mais Lô [Borges], Beto [Guedes], Toninho [Horta], o pessoal daqui. E mesmo assim ele já começou a influenciar minha carreira aí. E tudo bem, fui pra São Paulo, quando eu entro no estúdio, quem está acompanhando o Sá e Guarabyra? O grupo O Terço. Já numa nova formação. Com Sergio Hinds, que ainda permanecia, Sergio Magrão e Luiz Moreno, baterista. E aí foi a minha entrada, a gente trabalhava, começamos a trabalhar no estúdio do Rogerio Duprat, que era um estúdio no centro de São Paulo e dessa gravação desse disco com o Sá e Guarabyra, eu entrei pra banda. Em 1974, começo de 74.

Sergio Hinds Aí nessa de precisamos de um tecladista… Eu, sinceramente, não me lembro quem foi que ligou pro Milton Nascimento pedindo a recomendação. Alguém ligou pro Milton Nascimento e aí pedimos pra ele recomendar um tecladista e ele falou “ah, o Flavio Venturini é muito bom”, só que a gente não lembrava mais, porque a gente já tinha defendido a música dele anos antes, não lembrávamos. Aí um belo dia chega o Flavinho com a maletinha dele, mineirinho, entra no estúdio, a gente gravando, ele senta num cantinho com a mala… E a gente falou “ô, tudo bem, espera um pouquinho, estamos gravando…”, a gente gravando o vocal. Aí acabamos de gravar, vamos lá. Aí, começamos a bater papo, era o cara que a gente tinha defendido a música. E aí foi a maior festa, bacana, aí deu tudo certo. Aí ele entrou pro Terço e também gravamos um disco do Sá e Guarabyra, todo mundo.

Você tocou com o Moreno muito tempo, né? Vamos falar um pouquinho do Moreno aqui, aproveitar. Defina o estilo dele tocar, as contribuições artísticas que ele fazia, cantava bem também, cantava muito bem, compunha…

Sergio Magrão: Eu gostava do Moreno, a raça do Moreno tocando na bateria, não é super técnica, não é nada disso, mas ele tinha um raça, que ele era movido a uma coisa fantástica, então você via o cara tocando com vontade mesmo. A vontade dele de tocar, o gosto dele pela música, e uma pessoa maravilhosa. Um grande amigo, uma pessoa bacana, super talentosa, tocava violão também, compunha também no violão, cantava super bem, acredito até que fez pouco isso no Terço, ele podia ter sido até mais aproveitado, acho até porque pelo próprio instrumento… Enfim, mas sempre colaborou muito na parte vocal, toda vez que ele solava tinha uma voz bem colocada, muito legal. Foi uma pessoa maravilhosa, foi muito legal. […] Ele tinha garra! Raça pra tocar! Muito legal. Então nessa que ele ia, você sentia que ele ia fazer… Não era uma questão de uma super técnica, nada disso não. Era raça mesmo pra tocar. Na hora de mandar mesmo o suingue ele vinha com tudo mesmo, tocava muito. […] Ele tocava violão. Ele compunha no violão. E piano também, arranhava no piano.

Sergio Hinds [O Moreno) tinha um suingue enorme mesmo… Nas horas que entrava no suingue, aquele molho que ele dava, era muito legal. Então ele contribuiu muito com isso também. Você vê, eu mantive ali, eu levantei a bandeira do Terço, continuei com o Terço até hoje, e tiveram várias formações, mas a química que rolava com a gente nessa formação, eu nunca consegui. E toquei com músicos excelentes, “n” vezes melhores, de professores do instrumento e tal, mas essa química aí…

Sergio Hinds A primeira apresentação do Terço foi em um festival de Juiz de Fora. Na época, Festival de Juiz de Fora era considerado um festival muito importante para o cenário artístico, e a gente subiu no palco, como Terço, e ganhou o festival. Então a gente virou meio pé quente de festival. Aí todo mundo convidava. A gente chegou a defender uma música do Flavio Venturini e do Vermelho, num festival de Belo Horizonte, e a gente tirou o segundo lugar. Então essa coisa dos festivais rolou muito, a gente participou… E a gente tinha um lado criativo de instrumentos, então teve um festival internacional que eu toquei um violoncelo elétrico, que depois o Rogério Duprat comprou de mim, que ele achou demais, e eu toquei esse violoncelo elétrico, que ele era violoncelo e contra-baixo, ele usava um encordoamento, duas cordas de contra-baixo, duas cordas de cielo, e ele fazia as duas funções, ele tinha a parte eletrônica, um varitone, que cumpria essa função. E o Jorge Amiden tocava uma guitarra de três braços, cujo último braço era um violino, que ele tocava com arco. Isso daí tem no Youtube, essa apresentação da gente.

Sergio Magrão Ah, a plateia delirava, viajava. Porque a gente tocava geralmente em ginásio, em lugares grandes, ao ar livre, aqueles festivais. Iacanga, por exemplo, foi um festival maravilhoso que nós fizemos, que era para milhares de pessoas, e a moçada gostava muito, curtia muito, quando acabava o show ia no camarim conversar com a gente, falar, conversar, querer saber das coisas. Tudo estava começando, então todo mundo queria montar uma banda, todo mundo queria ser músico, porque via aquele negócio começando a crescer, um lado bacana que ainda não tinha pintado ainda no Brasil, então todo mundo queria. Então a receptividade sempre foi muito boa, muito boa. Tanto é que a gente continuou até onde deu.

 

Desde a primeira formação, do primeiro disco, pela Forma. Porque a Forma, exatamente, ficou conhecida por gravar artistas de Bossa Nova, gravou Moacyr Santos, gravou gente muito importante, e vocês foram os únicos que gravaram um som totalmente diferente do resto do casting de artistas. O que que o pessoal da Forma viu nessa primeira formação do Terço, o que você acha?

Sergio Hinds Eu acho que isso foi uma ideia do Paulinho Tapajós, dentro da Polygram, de resgatar o selo, porque a gente era uma inovação dentro da MPB. Porque, na verdade, o que a gente fazia era MPB, não era rock’n’roll, e era uma MPB com uma mistura de música jovem e tal. Era considera MPB, tanto é que a gente participou dos festivais internacionais da canção, mas éramos chamados para tudo que era festival.

 

Flavio Venturini Quando as pessoas me perguntam sobre a dificuldade do artista iniciante, eu falo muito sobre isso, que eu tive sorte. Que eu acho que foi uma sorte, eu entrei numa banda que já logo se tornou grande, a gente tinha um trabalho e tinha também um estúdio pra compor, pra curtir, e logo no primeiro disco conseguimos esse contrato, então realmente não teve essa leva de pré-produção, e a gravadora abriu as portas pra que a gente gravasse da maneira que a gente queria. Tinha as coberturas, mas era sempre a banda tocando junto. A base era sempre a banda inteira tocando, o que eu acho uma coisa legal, mais legal. Acho que passa mais uma energia de estar tocando junto, claro que tinha cobertura às vezes de vocal, de um outro solo, mas a base era sempre a banda ali tocando. Era um estúdio grande que tinha espaço, isolamento suficiente pra isso.

Agora pra você especificamente, pergunta do Tarik: qual a relevância de sua participação no Terço pra formação do 14 Bis?

Flavio Venturini: [sobre a participação no Terço para a formação do 14 Bis) Eu acho que foi legal porque me amadureceu. Esse sonho do 14 Bis isso veio dos Beatles, “ah, quero fazer uma banda”, então acho que, por exemplo, no Terço eu comecei a cantar. Era muito tímido pra cantar na época. E o Terço já tinha a coisa do vocal e isso foi uma escola. Estar ali com o Sá e Guarabyra, eles que já faziam vocal no Terço, participou de festivais internacionais a canção se destacando como um grupo vocal. Então isso me desenvolveu, e logo pra daí começar a solar no Terço. Já solei músicas cantando. Era muito tímido nessa coisa, meu negócio era muito mais compor. Como instrumentista também acho que me desenvolveu bastante com essa linguagem, de pôr isso em prática. E a minha saída do Terço foi uma coisa que eu já não sei explicar muito, porque o Terço estava quase que no auge, mas eu tinha uma grande paixão pela música mineira e como tenho, uma coisa eterna, essa minha ligação com a música mineira. Então o trabalho do Beto Guedes me fascinava muito, porque eu acho o Beto um gênio, um grande compositor, um cara que me ensinou muito. Todos me influenciaram, o Beto, Milton… O Milton eu conheci um pouco mais tarde. Eu participei, na verdade, do Clube da Esquina, disco do segundo Clube da Esquina. Quando a música de trabalho do Clube da Esquina 2 foi Nascente. Música de trabalho entre aspas, essa coisa de música que sai puxando o disco. Mas era muito importante pra mim o trabalho com o Beto e com o Vermelho. O Vermelho foi meu parceirão, o primeiro cara com quem eu compus e então quando eu fui pro Terço eu meio que abandonei um pouco essa história de Minas e, aos poucos, eu fui sentindo a necessidade de terminar, tinha alguma coisa a fazer aqui. E acabei saindo. Realmente foi muita pena porque sempre fui muito amigo deles, todos foram amigos queridos. Musicalmente eu estava feliz ali, mas acreditei numa coisa que eu acho que tinha que ser feita, que era o trabalho com o Beto e com o Vermelho, que seria uma banda, que acabou não acontecendo na época. O disco A página do relâmpago elétrico eu acho um disco histórico também, é quase um disco de banda, com arranjos de todo mundo, as composições são do Beto [Guedes], mas já tem “Nascente” ali, a primeira gravação de “Nascente”, e acho que o Beto fez muito bem o trabalho dele, mas a gente ficou ali faltando alguma coisa. “E a banda que a gente vai fazer?” E aí fizemos o 14 Bis. Então O Terço com certeza foi muito importante.

Sergio Magrão [Com Sá e Guarabyra] Eu gravei o Pirão de peixe com pimenta. O primeiro é o Passado, presente, futuro, e gravei o Terra. Esse que eu queria lembrar, esse foi o primeiro que eu gravei. Ainda tinha o nome de Sergio Magrelo [risos], daí surgiu o Magrão, acho que foi crescendo [risos]. E aí a gente fez show com esse, depois veio Pirão de Peixe, aí fiz algumas participações em alguns, de uma, duas faixas, mas de ter gravado o trabalho todo foi o Terra.

O ambiente

E qual era a dificuldade, voltando lá atrás, de fazer rock no Brasil nos anos 70? Ainda mais rock  progressivo.

Flavio Venturini A dificuldade é que você não tinha tanto o apoio dos meios de comunicação. Era uma coisa bem underground mesmo. Mas havia um grande público, porque acho que é uma época em que talvez pelo momento político que o Brasil vivia, era uma válvula de escape você ir a um concerto e a juventude ali ter uma liberdade de curtir aquele som maluco que estava acontecendo no mundo. Então isso acontecia com grande público, embora a gente não tivesse programas de televisão, tocar em rádio, não tinha muito essa coisa. E eu me lembro que o Terço lotava todos os shows, fazia turnês pelo Brasil, foi a banda mais importante naquele momento. E, claro, eu tinha como ídolo Os Mutantes. E chegamos a fazer, depois a gente pode falar, um encontro histórico com os Mutantes, e também eu fiquei amigo da Rita Lee, de pessoas que vinham já com uma coisa rock naquele momento.

Havia uma [marginalização]. Eu acho que o primeiro momento que eu acho que o mercado começou a se interessar pelo rock foi quando aconteceu o Hollywood Rock, primeiro Hollywood Rock, que foi no campo do Botafogo, no Rio de Janeiro, acho que foi o primeiro show patrocinado por uma empresa.

Sergio Magrão Tudo isso acontecia, era bem underground. Mas era uma coisa underground que tinha um público muito grande, então era bacana. Agora eu acredito que na época todo mundo, gravadora, empresários, achavam que éramos loucos que faziam música, que estavam ali e quem ia assistir também eram outros loucos. Mas, na realidade, eram loucos criativos que estavam a fim de fazer uma música bacana, ou seja, influência que a gente vinha recebendo desde cedo, então era uma coisa que a gente lutou muito, mas ficava sempre marginalizado. Ficou muito. Até que chegou uma hora que a coisa aconteceu, Criaturas vendeu 100 mil, mais de 100 mil cópias, aí começou a tomar um outro formato, o negócio. A gente veio pro Rio, aí começou a pintar Hollywood Rock, mais uma série de eventos grandes, e aí a coisa começou a ficar legal. E as outras dificuldades eram, acredito, são dificuldades que até começaram a ser sanadas há bem pouco tempo atrás, que é aquela coisa de equipamento. A gente tinha que sair com uma caravana. Não tinha esse negócio “manda o rider e o cara lá compra o rider”. Não existia isso. Então se você não levasse o teu som todo bacaninha, pra que você tivesse um resultado legal, esperado, não rolava. Então isso era uma dificuldade, porque encarecia muito e não era, na época, como hoje, que você cobra x, aí vem todo aquele aparato pra você e você faz, então era uma guerrinha legal. Mas acho que a gente conseguiu curtir muito.

Sergio Hinds Se você não tivesse o seu [equipamento], esquece, não dava pra fazer rock no resto do Brasil, não dava pra viajar. A gente viajava com uma carreta, um monte de equipamento. A gente era patrocinado pela Gianinni, a Gianinni importava os alto-falantes italianos, montava essa linha univox, com alto-falantes importados, mas os amplificadores todos eram valvulados, e cada viagem voltava, trocava tudo que era válvula… Era muito caro, a despesa, se não tivesse o patrocínio era impossível. E também teve uma época, no auge do sucesso, que a nossa produção era tão cara que a gente lotava o ginásio e não sobrava dinheiro, não pagava. Porque a equipe era enorme, duas jamantas carregando equipamentos, mas não sei o que, não sei quantos iluminadores, quando você ia ver não sobrava grana, estava empatando. E foi uma época difícil. Teve uma época que começou, deu aquele boom “pô, agora vamos ter um monte de patrocinador”, foi a época que a Rita Lee foi presa [1976], ela estava sendo patrocinada pela Lee, aí ela foi presa. Cara, aquilo derrubou o mercado do rock’n’roll, queimou geral, aí “agora não, patrocinar rock’n’roll é alusão às drogas” e que realmente era, né [risos]. Eu me lembro de uma situação engraçadíssima: fomos fazer um show em Florianópolis, no ginásio, passar o som. Aí tinha um monte de candeeiro, aquele fogãozinho de ferro, braseiro de ferro, um monte de braseiro e aí, legal, os caras vão queimar incenso, de noite, bacana. Chegamos à noite, lotado de policial em volta do ginásio, o ginásio lotado, aí entramos no camarim. Na hora que a gente subiu no palco era um cheiro de maconha… Eles queimaram, literalmente, maconha em todos aqueles braseiros, cara. Então, era uma fumaça no ginásio inteiro. Então, realmente foi uma fase muito louca de droga [risos]. Realmente, na época, o rock’n’roll era alusão a drogas. [… Mas nunca] tivemos problema. Inclusive, nesse próprio show, a polícia não entrou, se limitou a ficar ali fora para se tivesse alguma confusão. E não teve.

Sergio Magrão Todas as letras foram parar lá em Brasília e foram analisadas, voltavam com algumas coisas. Mas em show a repressão talvez fosse mais por causa de drogas, com certeza. Aí tinha aquela famosa geral na saída. […] Vou citar um exemplo que aconteceu com o Moreno, duas vezes. Em Belo Horizonte nós tocamos no Francisco Nunes uma vez e já tinha acabado tudo. Quando acabava você olhava e era só camburão na porta. Todo mundo que ia saindo eles davam geral em todo mundo. Aí acabou tudo, saiu a banda. Aí saímos eu e Moreno porque o hotel era em frente. No que a gente saiu que o cara olhou pro Moreno, já veio direto nele. E o Moreno assim “estava trabalhando”. E o Moreno já tinha tomado uma cervejinha, não estava com a paciência muito… Meu amigo, o cara tirou quase a roupa do Moreno ali na porta, que era o artista que tinha acabado de tocar. Aí o Moreno já pau da vida, pegou a bolsa dele, abriu a bolsa e fez assim, caiu assim, sei lá, umas 200 coisas. E o cara não gostou muito. Aí o cara começou a ficar agressivo. A sorte da gente é que junto estava saindo o produtor “o que está acontecendo?”. E essa mesma história com o Moreno aconteceu num lugar pior ainda, porque você não está no seu país, porque quando nós tocamos na Argentina, em Buenos Aires, estava no auge, neguinho matando todo mundo, aquela história toda. E a gente saía, aí que era pior, cabeludo e barbudo lá era muito pior que no Brasil. Nós tomamos duas gerais de botar no chão, deitado de barriga no chão, e os caras com pé em cima, e não quer nem saber. E aí você não tem nem o que falar, tem que ficar quietinho. Como não tinha nada, enfim. Mas isso aconteceu muito aqui. Mas mais nessa história. Porque era uma época que a loucura fervia. Então, com certeza era um momento que, polícia, no geral, ficava só dando geral na moçada. O Som Nosso de Cada Dia tem um exemplo, que eles tocaram em Belo Horizonte também, e levaram quase a plateia toda, tinha mais de 10 camburões, foram presos, sei lá, mais de 100 pessoas, num teatro que cabiam umas 300.

Mario Bonfiglio Bom, o mercado de rock existia no rock importado. Não tinha. Nós não tínhamos grandes nomes. Tinha uma molecada aqui, outra molecada lá, mas nada de expressão. Mas lógico, temos os Mutantes. Que era hors concours na época. Por causa daquele esquema do Gil, então era o que tinha de primeiro. E na sequência vinha o Terço. Mas o Terço não tinha o nome que o Mutantes teve. Então devagarzinho… Chegamos a fazer shows do Terço no Teatro Bandeirantes, de dar no mesmo dia duas sessões por tanta gente que tinha lá pra assistir ao show dos meninos. Era uma loucura. O que eu fazia: quando eu via que o esquema era fácil, e vamos cobrar, vamos dizer 30 reais no dinheiro da época, eu cobrava 10, 15. Isso que eu estou te falando, não se ganhava dinheiro, mas eu lotava a casa. Esse que era o esquema. O pessoal vendo a casa lotada, eles não se interessavam pelo dinheiro. Lógico, todo mundo se interessa por dinheiro, mas eles não se interessavam. Fazia falta pra todo mundo? Fazia falta pra todo mundo. Mas a casa estava cheia. Sabe que num sábado fazia uma sessão às 10h ou às 9h? Depois à meia-noite? Foi uma loucura! Como deu certo esse show, eu falei “vamos fazer outros shows à meia-noite” e montamos show de rock à meia-noite. Onde eu levava outros artistas também. Outros grupos menos expressivos, mas fazia textinho baratinho, conseguia lotar, fazia uma onda, e o movimento do rock no Brasil começou a crescer. Começou a crescer de uma maneira, lógico, não muito forte, era tímido ainda, mas subsistia, vamos dizer assim. Ele vivia pelas próprias pernas. Caminhando de uma forma manca, mas caminhava.

Sergio Magrão Existiam muitas bandas. Mas poucas tinham esse lance de ser respeitado, de se impor mesmo tendo todo esse povo de fora grande mesmo, eu acho que a gente conquistou isso, Mutantes, o Som Nosso de Cada Dia, o Vímana durante um tempo. Agora, existia muitas outras bandas que a coisa era séria, porque o cara tentava, tentava… É o que você falou: tinha que ter uma infra legal, tinha que ter um bom som pra época, tanto é que a gente quando vê essas fitas, o som mixado no João Caetano aqui no Rio numa mesa de 12 canais, nem lembro de quantos, pra um cassete, o som é maravilhoso pra época… Então você fala “nossa, isso está maravilhoso”, você tinha que ter um bom equipamento de luz, que não existia nada que existe hoje, era aqueles spotzinhos mesmo e a retroprojeção que ajudava a gente porque você projetava naquela tela, escurecia tudo e ficava um tema… Mas isso tudo custava dinheiro, então não era qualquer banda que podia ter essa infra. Eu lembro que Mutantes carregava aquelas caixas gigantes, mas gigantes de ter oito caras para botar uma caixa de grave, subwoofer, que hoje em dia se faz com coisinhas pequenininhas, então tudo isso tinha que ter com certeza uma grana legal para poder bancar. Era difícil. Então, graças a Deus tinha isso na época. Eram poucos que tinham essa infra.

 

Sergio Hinds: Ah, [o pessoal ligado à MPB falava] que não era uma música séria, que era uma música simplista… Então o rock progressivo veio meio que quebrando isso, porque a gente misturava o erudito, então quando eles começaram a ver os shows… Porque não tocava no rádio, e muito menos essas músicas. Tipo 1974, jamais tocava na rádio. Tocava na Rádio USP, sei lá.

Sergio Magrão: A coisa do espaço na rádio, isso não rolava. A não ser nas rádios segmentadas, ou então programas alternativos, que lidavam com esse tipo de música, isso sim. E com certeza era visto meio estranho. Mas como tinha uma galera muito grande que gostava e acompanhava, todo mundo tinha que ficar quietinho e aceitar porque não tinha jeito. Tanto é que nós ficamos anos tocando, viajamos bastante, tocamos o Brasil todo, rodamos muito, mas sempre com essa história de você não ter espaço, de que outras pessoas que estavam na mídia, na época, não é que não respeitasse, mas te olhava meio ET. […] Diziam que era uma coisa muito influenciada pela coisa lá de fora. Mas, para mim, música não tem fronteira. Música para mim ou é boa ou não é boa, então é óbvio que você tem que cantar aqui no teu idioma. Se você quer se comunicar com as pessoas, não vai cantar em inglês. Agora a influência musical da questão da música, todo mundo sofreu. A gente não sofreu só influências lá de fora, a gente sofreu daqui também. Então acho que o resultado do trabalho acaba sendo exatamente o que você ouviu de fora que foi bacana e que te influenciou, mas as coisas brasileiras, lógico. Eu ouvi muito na minha infância, eu fui criado com Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, com Jackson do Pandeiro, tudo isso, de alguma forma, me influenciou. Então acho que mesmo eles fazendo cara feia pra gente, a gente tocou o barco e deu super certo. Foi uma coisa bem bacana.

Sergio Hinds A gente já fez show no Bandeirantes, isso aí é uma foto do Teatro Bandeirantes, um show que toda hora a gente lotava o Bandeirantes, […] que foi um teatro que ficou muito famoso na época, Elis Regina fez aquele Falso Brilhante, ficou um ano, dois anos em cartaz, com Falso Brilhante. Então, esse colorido aqui [da foto), era um túnel colorido que era uma retroprojeção, que era como se criasse um buraco e a banda tivesse entrando nesse túnel do tempo, parece um túnel do tempo, então eu acho que foi uma produção difícil de realizar na época e que eu guardo com muito carinho até hoje, acho que foi muito bacana. […]

A gente tinha essa pegada de trabalhar o visual, porque como a gente fazia umas músicas instrumentais, a gente achava que tinha um visual, aí linkava com Pink Floyd, via que os caras se preocupavam com isso na época, então a gente sempre trabalhou muito. Teve um época em que a gente tinha 8 iluminadores, porque cada um operava um aparelho. Hoje vai um cara com um computador, ele faz não só a luz frontal como faz a retro-projeção, tudo ali programadinho… Um cara só.

Flavio Venturini  Essa foto no Teatro Bandeirantes se tornou meio um templo do Terço, A gente fazia temporadas de semanas esgotadas, com filas em volta, eu me lembro que quem fazia isso na época era Elis Regina, eram grandes nomes da MPB e o Terço era a única banda que tinha esse status, e a gente tinha esse visual maravilhoso, um som incrível, e foi aí que começaram os grandes shows, o Terço começou a correr o Brasil. Vinha muito pra Belo Horizonte, tocava no Rio, no Teatro João Caetano, Teresa Raquel, que era meio uma meca do rock no Rio de Janeiro, e viajava pelo Brasil. Concha Acústica em Salvador, já na época em que se fazia show na Concha Acústica em Salvador. Lotado na época. E viagens pelo Brasil, ia muito pro sul do Brasil, o Terço tocava no Gigantinho, em Porto Alegre, lotado, festivais de rock, festivais de Iacanga, considerado o Woodstock brasileiro com grandes bandas, festivais em Florianópolis e também no litoral do Espírito Santo. Verão aconteciam os festivais, os grandes festivais de rock.

Eu me lembro das meninas correndo atrás do Sergio Hinds, que era um loiro com o cabelo, assim uma coisa meio nórdica [risos]. E tinha tietagem, tinha fã clube… E um público muito jovem que frequentava os shows do Terço.

Flavio Venturini A gente tinha uma relação legal [com artistas de outros segmentos), com o pessoal da MPB, inclusive. Tinha admiração. Várias pessoas iam aos shows e hoje quando encontro com muita gente, músicos, falam, “pô, o Terço era demais, adorava, ia a todos os shows” [risos]. Acho que tinha uma coisa assim. Não tão próxima, mas havia uma admiração pelo que a gente fazia.

Sergio Magrão Existiam muitas bandas na época que estavam surgindo nesse underground que eu te falei, que tinha O Som Nosso de Cada Dia, Os Mutantes, Terço, tinha Vímana, tinha O Peso… E a gente de sorte, porque a gente teve músicas, além desses temas instrumentais, música que podia, na época, se tocar. O Hey Amigo foi uma que tocou muito. Queimada, a gente fez clipe pra Fantástico, na época, fez uma série de coisas. Então o Criaturas da Noite teve uma divulgação bacana e vendeu muito pra época. A gente chegou a vender 100 mil cópias do Criaturas da Noite. Acho que depois essa coisa do independente, até me lembro que o Boca Livre lançou Bicicleta, que também alcançou as 100 mil cópias, e também era uma produção independente. Naquela época era independente mesmo. Você está totalmente por sua conta. Hoje em dia está diferente, hoje em dia a história é outra, mudou muito. Então era uma batalha muito grande, mas a gente teve a sorte de ter essas duas músicas que tocaram bastante, foram bem divulgadas tanto em televisão quanto em rádio. O Hey Amigo foi o carro-chefe na época do lançamento e aí vem o resto, né? Porque o público a gente já tinha conquistado. Então o público, como a gente fazia muito show, estava rodando, foi fácil da gente divulgar nesse aspecto. Mas a gente precisava desse meio de comunicação.

Sergio Hinds [Na rádio] Eldorado chegou a tocar. Então, eram programas específicos que o cara tocava, aquele tema de 15 minutos. Então eu acho que isso daí veio a quebrar um pouco… Eu acho que o pessoal da MPB sempre foi muito preconceituoso, e eu considero hoje, o jovem de hoje totalmente liberado de preconceito, eles escutam de tudo, eu vejo pelos meus filhos. Escutam forró, sertanejo, Metallica, é uma mistura que você fala “pô, mas não é possível”, eles escutam de tudo e escolhem o que acham bacana em cada estilo. Eu aprendi um pouco com eles isso, a escutar e ser aberto a tudo o que rola e procurar a qualidade em todos os níveis e todas as culturas e todas as formas de música. Porque, na verdade, a música é um negócio universal. E é uma criação super livre e bacana e cada estilo de música tem o seu momento. Você não vai ouvir um progressivo numa casa de dançar, não dá. Você vai ouvir um Dance. Então cada música tem a sua função, tem a música romântica, tem a música instrumental pra você ouvir no rádio, então eu acho que cada música tem a sua função e cada estilo tem o bom e o ruim.

Mario Bonfiglio Não havia descrédito [de rock brasileiro]. Eles achavam, o pessoal de clube, especialmente, que o pessoal ia ver os shows e iam quebrar todo o palco, iam quebrar. Porque eles viam os clipes americanos e o que acontecia, um quebrava guitarra, outro quebrava o piano, outros punha fogo, quer dizer, clipes americanos na época era uma loucura também, eram alucinógenos [risos].Então eles ficavam com receio. Então não havia descrédito. Na realidade, o que havia era um certo receio, eu concordo com você. Tanto que num clube de Sorocaba, se não me engano, eu tive que assinar um papel que se quebrasse alguma coisa eu tinha que pagar. E eu assinei porque sabia que não ia acontecer nada. E não aconteceu nada.

Quem mais ou menos tava junto com vocês naquela época em São Paulo? Qual era a cena rock’n’roll de São Paulo? 

Sergio Hinds Som Nosso de Cada Dia. Som Nosso de Cada Dia era uma banda bem interessante, Veludo, Mutantes — tinha saído a Rita Lee, se bem que a gente chegou a fazer programas de televisão e shows e tal com a Rita Lee ainda —, mas nessa época mesmo do Criaturas da Noite já era o Mutantes sem a Rita Lee e bem progressivo com o Serginho arrepiando num formato bem Yes…

 

E as outras bandas, como Mutantes, ou o Vímana lá no Rio também, progressivo. Eles eram rivais ou era tudo amigo, companheiro?

Marcio Bonfiglio Quando eles se encontravam fora do palco eram amigos extraordinários. Igual jogador de futebol. São amigos até entrar no tapete verde, entrou no tapete verde, amigo, cada um por si, Deus por todos. Mas era um grupo bastante eclético, o grupo era todo eclético e eram pessoas que se interessavam pela música, não queriam saber de mais nada, essa que era a grande vantagem dos músicos da época. Você não vê isso hoje. Alguns grupos têm isso. Mas é muito pouco. Muito pouco, realmente. E outra coisa: os grupos de hoje ainda precisam começar a saber cantar. Eles não sabem cantar. A dicção deles é horrível, não é legal. Então o dia que chegarem a essa perfeição, as coisas podem melhorar. Não estou criticando, estou justificando que eu tento ouvir um disco e às vezes é complicado de você entender o que eles estão falando, a não ser que você tenha a letra na mão.

Sergio Hinds Ah, a competição entre as bandas [o Terço e Made in Brazil] existia, natural, que nem atleta… Era competitivo. O homem é competitivo… Você vai tocar com outra banda, você discute que horas você vai entrar, você vai entrar na melhor hora, você quer uma condição legal, não quer uma condição nunca inferior à outra banda. Teve épocas da gente estressar de ter que abrir bandas de fora e mó guerra pra ter a mesma condição, porque os gringos vêm de lá achando que banda de abertura é banda de abertura, metade som e metade da luz e ponto final. Mas só que os técnicos eram todos daqui e eles falavam “olha, moçada, eles estão loucos, esses caras estão loucos” e, enfim, é isso. Essa cena eram essas bandas, Mutantes chegamos a fazer show no Municipal juntos, excursionar com esse show.

Sergio Magrão Pra mim, na minha cabeça, a partir do momento que você está cantando em português, já se tornou uma música brasileira, na boa, independente do estilo ser rock, ou ser toada, ou ser qualquer outra coisa. Tendo uma letra em português que você está se comunicando com as pessoas, o que você está fazendo em termos de música, tudo bem, já é música brasileira. Mesmo com essa influência, com a pegada de rock, seja lá o que for, pra mim você já tá cantando em português, já está tudo certo. Já está bacana, está se comunicando da mesma forma.

Sergio Hinds O ideal era de quebrar os conceitos mesmo, que começou com Beatles, os cabeludos do Beatles que hoje a gente olha o cabelo grande dos Beatles dá risada, porque não é cabelo grande aquilo, mas é um cabelo feito no cabeleireiro, um chanelzinho… [risos] Na época, aquilo era uma revolução! O cabelo dos Beatles, “pô, os cabeludos de Liverpool!” Então, eu acho que realmente o jovem queria chocar, queria discutir tudo, a gente queria discutir o que neguinho estava querendo proibir, porque estava proibindo, então a função do rock’n’roll era essa, era de falar na lata… Só que a gente enfrentou na época uma censura muito crivada, então, eu não considero que as nossas letras têm grandes letras revolucionárias, nada disso, são letras leves, porque a gente não conseguia aprovar nenhuma que tivesse uma mensagem mais. Nem em sonho. Tinha uma mensagem um pouquinho mais pesada, cortavam. Então a gente tinha que quebrar os conceitos na atitude, no jeito de se vestir, no som, na porrada, na bateria, e no que a gente falava no show. Era meio que por aí.

A Jovem Guarda ajudou ou atrapalhou a formação do público do rock’n’roll brasileiro, na sua opinião?

Mario Bonfiglio: Eram distintos [os públicos da Jovem Guarda e do Terço]. O pessoal do Roberto, que por sinal eu vendi muito shows do Roberto, que me pediam eu vendia, do Roberto, do Erasmo. O Erasmo era o único que estava mais enturmado com a gente, mas não participava. E era um grupo, eram paralelos, digamos assim. O nosso pessoal andava por aqui e Jovem Guarda por ali. Porque a Jovem Guarda era mais fru-fru, desculpe o termo, mas era mais água com açúcar, a não ser algumas peripécias que faziam de vez em quando, mas era água com açúcar. Enquanto o rock era uma coisa mais musical. Se você vê o pessoal daquele tempo da Jovem Guarda, não quero menosprezar ninguém. Porque era primo do cunhado não sei de quem, porque realmente tinha uma turma muito fraca. Tirava o Roberto, o Erasmo e a Wanderléa, de cantar relativamente, razoavelmente, eles conseguiram levar avante o projeto, mas era muito difícil. Foi quando surgiu até disputa de um pequeno príncipe na época, o Ronnie von, que aliás eu empresariei ele depois, e o pessoal do Roberto Carlos. O que que eu fiz: eu peguei o Ronnie e coloquei na TV, e fiz um programa “Assim caminha a humanidade”, eu produzia e dirigia. E foi bom, durante algum tempo foi interessante, deu pra trabalhar bem, era ele, o “Meu Carro é Vermelho”, lembra do “Meu Carro é Vermelho”? Eduardo Araújo com a Silvinha, inclusive eles estavam casando naquela época. Então houve toda uma intenção, se couber o termo, desse pessoal com o Roni, pra fazer shows diferenciados, com o pessoal  do Roberto. E também diferenciado dos meus grupos de rock. Então você vê, eram três direções completamente paralelas uma da outra, porém com o mesmo objetivo, ganhar público. E era uma guerra. Era uma guerra mesmo. Por exemplo: quem ia no programa do Roberto não ia no nosso. Quem fazia show comigo não fazia no outro.  Era assim mesmo que funcionava.

Eram segmentos diferentes. Lógico, de vez em quando aparecia um pessoal que gostava da Jovem Guarda e ia ver o show de rock, talvez o contrário também. Porque o Roberto tava numa fase extraordinária naquela época. O Roberto não, toda a Jovem Guarda.

 

Sergio Hinds Não lembro do casting [da Copacabana], só lembro do Adiel, que era o dono, que ficou, inclusive, com os masters e negociou com EMI e o Rosvaldo, que era o sócio dele. Não chamava Osvaldo, chamava Rosvaldo.

Flávio Venturini Mas esse ano foi um ano em que eu também, chegando de Minas pra São Paulo, não sei se eu me assustei um pouco com a cidade grande, logo fui morar num sítio, só eu morava lá e o pessoal do Terço ia lá só ensaiar. A gente fez um disco lá que foi o disco seguinte, que foi o Casa Encantada [1976], mas eu já comecei a morar lá logo. Então algumas coisas eu posso ter composto ali. Eu não me lembro exatamente. Mas muitas das coisas com certeza foram compostas dentro do estúdio em outros momentos e em casa. Tem uma parte desse disco que é a acústica, compunha muito em violão e tinha essa coisa de piano também. Era essa coisa de ir pro campo e lá a gente tocava muito, o pessoal ia lá e passava uns dias, e foi muito bom. Tanto que o segundo disco se chamou Casa Encantada, que é como a gente chamava essa casa. [risos]

Sergio Magrão […] a gente tinha um sítio próximo a São Paulo, a uns 30, 40 km de São Paulo, que era a Casa Encantada, inclusive. Tinha uma piscininha bacana. E ali a gente ficava, ali a gente fazia uma coisa que hoje não dá mais pra fazer. Praticamente moravam ali todos. Tinham quatro quartos, cada um no seu quarto, quem era casado com a esposa, quem não era, eu tinha uma casa também em São Paulo, ficava indo e vindo. Mas era legal porque na sala todo o equipamento montado. Cada um tinha sua privacidade no seu quarto, piscina, tinha lago, tinha fonte, mas ficava ali. Então a gente tocava praticamente o dia todo. “vamos agora, vamos agora. Acabou de almoçar, dá uma cochilada, vamos tocar”. Isso foi muito bacana pra gente, porque hoje em dia… […]”Agora vamos dar uma paradinha”, ia pra piscina. “Vamos voltar lá, vamos terminar aquela música que a gente começou”. Era maravilhoso. Era o famoso “fazer um som”, “vamos fazer um som”. Isso rolava muito. Era muito bacana.

Sergio Hinds O negócio é o seguinte, a gente tinha um sítio que a gente ensaiava, no km 48 da BR 116, e a gente ficava lá uma semana inteira, às vezes, e ficava tipo compondo, ensaiando, e normalmente o Flavio acordava de manhã, mais cedo, ia pro piano e já começava a tocar. Só que tava tudo montado na sala, eu não desmontava nada. Era como um estúdio. Essa fase foi muito criativa. E muito especial porque a relação de amizade era muito grande e tínhamos quatro suítes, que a gente tinha um monte de namorada, então era uma festa aquilo lá [risos]. Era uma festa. […] A gente acordava de manhã, pegava a guitarra às vezes antes de tomar café e já saía tocando. Então era um sonho. Hoje isso é um negócio praticamente impossível. Muito difícil uma banda ter essa condição hoje. E não é que era uma condição assim milionária, nada disso, mas era a condição que a gente tinha na época e era muito bacana. Tinha uma piscina com água natural, água de nascente do próprio sítio. E esse sítio era muito barato, a gente pagava um aluguel irrisório, mas ele dava uma condição muito bacana pra gente. […] Aquela foto da casa, do Casa Encantada [1976], a casa encantada é o sítio. E aquela história do Sá, aquilo é uma historinha que ele inventou do sítio, ele inventa uns personagens ali, tem a Dona não sei o que… Ele criou uma história e escreveu sobre o sítio. Você tem que ler, na capa do Casa Encantada tem um negócio lá. Tem um texto lá do Sá interessante. É engraçado.

Sergio Hinds Nunca tivemos nenhuma opinião nos vocais. O vocal foi um negócio mesmo da gente sentar com o violão, sentar na varanda do sítio e ficar batendo violão e bolando os vocais. E a gente gostava mesmo de vocal, sempre, mas isso desde a estrada do início do Terço, a gente sempre gostou de vocais. E o Jorge Amíden tinha uma voz agudíssima, como a do Flavio na época, então essa coisa do agudo… Que hoje pra mim é um sofrimento. […] hoje em dia pra mim é muito difícil. Tem notas que se eu não estiver com a voz superaquecida, não chega lá. Se falar assim: “dá aquela nota agora”, mas nem em sonho, não rola… Impossível [risos].

Flavio Venturini Não era o estilo da gravadora [Copacabana], eu me lembro que era uma gravadora bem popular na época, mas acho que foi uma coisa do Mario Bonfiglio mesmo convencer que ali tinha alguma coisa, talvez eles tenham visto a gente ao vivo, eu não lembro como foi, mas foi um apoio legal, inclusive até o segundo disco.

O disco e as faixas

Rogerio Duprat

Flavio Venturini Bem, eu já tinha conhecido o Rogério Duprat nos festivais de inverno de Ouro Preto. Eu me lembro que na primeira aula ele colocou Yes,  pra você ver a cabeça do cara, isso no começo dos anos 70. E acho gênio o Rogério Duprat, tanto que ele foi responsável por grande parte do sucesso da Tropicália, na coisa dos arranjos, da estética, da loucura. Era um cara com a cabeça muito na frente do tempo dele, um maestro sensacional e naquela convivência com o Rogério Duprat a gente ficou amigo. E ele sempre ali dando os toques, e acabou participando com arranjos desse vinil do Terço. A gente sempre mostrava pra ele porque efetivo, vamos dizer, ele fez o arranjo do Criaturas da Noite, mas ele passava sempre pela opinião, conselhos e dicas, e indicava músicos pra participar e tal. A gente ia fazer um projeto, um terceiro disco, que acabou não sendo feito, com o Duprat, que se chamaria Projeto Sinfônico, que seria uma coisa do Terço e Orquestra. Mais tarde o Sergio Hinds chegou até a gravar um disco do Terço com a orquestra, mas não foi esse projeto. E essa música ficou inédita, acho que chama “Suíte” e a gente gravou num DVD que o Terço fez num retorno recente agora.

Se por um lado tinha esse pessoal que ficava falando esse tipo de coisa, que rock não era música brasileira, tinham outras pessoas como Rogerio Duprat que, exatamente, já era esse tipo de “não, me interessa”, não tem um tipo de música, tem música que eu gosto e que eu não gosto. E o Rogerio, de certa forma, foi trabalhar com vocês. 

Sergio Hinds (O Rogéio Duprat) Foi trabalhar com a gente. O Rogério sempre gostou do nosso trabalho, do trabalho do Sá e Guarabyra, e ele falava, ele mostrava pra gente umas fitas dele e ele falava “pô, estudava 12 horas por dia, olha aqui o que eu fiz: é uma merda, isso aqui é uma merda, é uma confusão de nota, pô, isso vai tocar a quem? ao cara que tá estudando música e só, então música não é isso. Eu cheguei à conclusão de que isso não é música. Eu estudei à toa, tudo bem, não estudei à toa porque faço arranjo e tal”, mas esse tipo de composição, esse tipo de complicar a coisa, não faz sentido pra música. Mesmo quando você vê um erudito, quais são os eruditos que ficam, que marcam, que você vê a sinfônica e toca num Parque do Ibirapuera e todo mundo sai cantando a melodia? São as músicas que têm melodia, que têm uma harmonia simples, que as pessoas saem curtindo, saem cantarolando, então pode ter um rebusquê ali no arranjo, mas é simples. […] Como a gente tinha uma relação muito estreita de dia-a-dia, ele já conhecia a música (“Criaturas da Noite”), a gente convidou ele pra fazer o arranjo, e ele fez esse arranjo em casa. O que mais me espantou no Rogério Duprat, que eu considero até recente, que é um show que a gente fez uma sinfônica de 70 músicos e com a regência do Julio Medaglia. E o Rogério fez 11 arranjos totalmente surdo. Ele já estava totalmente surdo e ele fez 11 arranjos. Então isso vê o talento que ele tinha. Ou seja, ele tinha todas as notas na cabeça. Então ele partia pra escrever, ele sabia como ia soar aquilo, e ele fez 11 arranjos totalmente surdo. Isso daí é um negócio de louco.

Sergio Magrão  Nossa, [Rogério Duprat] foi tudo de bom. Foi uma pessoa que a gente conheceu lá, uma pessoa que ajudou muito a gente com todo o conhecimento musical dele, enfim, a experiência dele. Era uma pessoa fantástica, fez muito arranjo pra gente, tocou com a gente, chegou a participar de alguns shows tocando cielo, enfim, e foi um amigão, um grande amigo. Infelizmente a gente perdeu o Rogério no ano passado, e no dia do meu aniversário. Por incrível que pareça ele partiu no dia 26 de outubro, e foi uma perda muito grande, porque ele foi a grande pessoa que ajudou muito a gente em todos os sentidos, em São Paulo. Em todos. Tanto musical, como de experiência, de grana, de tudo. A gente foi pra lá com uma mão na frente e a outra atrás, foi pra batalhar, e ele foi uma pessoa que acolheu a gente de uma forma fantástica.

Flavio Venturini A gente começou a trabalhar num estúdio do Rogério Duprat, no centro de São Paulo. E ele e mais o pessoal, o Sá, o Guarabyra e mais um sócio, abriram um estúdio que foi talvez o maior estúdio do Brasil na época. Foi o segundo estúdio do Brasil em 16 canais. Eu me lembro que a Rádio El Dourado tinha um estúdio de 16 canais, foi o primeiro, e logo eles abriram o estúdio da Vice-Versa, hoje o estúdio da Trama. E com a mais alta tecnologia pra época. E o Terço foi a cobaia desse estúdio. A gente entrou no estúdio virgem pra estrear aquele equipamento. E os ensaios do Criaturas da Noite e a gravação foram lá. Eu me lembro, era um estúdio de dois andares, a técnica em cima, o estúdio embaixo, e a gente tinha todo o tempo do mundo. Porque como a gente também trabalhava pro pessoal, o Terço gravava também comerciais, um grupo, aliás, com Sá e Guarabyra, mas era o Terço, ali. E acabava o trabalho e a gente ia curtir, ia compor, e aí aconteceu a gravação.

Eu não sei te dizer exatamente (quanto tempo durou a gravação). Eu me lembro que, ah, uns três a quatro meses, foi uma coisa extensa, e feita com a maior calma. A mixagem também foi feita, foi refeita, eu me lembro que tinha essa coisa de achar o som do estúdio, de adequar aquele novo som.

Sergio Magrão [A gravação] foi lá em São Paulo, na Alvares Guimarães, na Vice-versa. E foi a primeira gravação em estúdio. Na realidade, a gente fez esse trabalho aqui, porque esse trabalho não tinha apoio de gravadora, não tinha nada, depois é que foi vendido, a Copacabana na época que abraçou a ideia, enfim, lançou, foi super legal, então era uma produção independente mesmo. Então era aquela coisa. Aí o que aconteceu? O Rogério Duprat falou “nós estamos inaugurando o estúdio e vocês não querem…” meio cobaia, né? Mas cobaia no bom sentido, porque tinham grandes técnicos, todos muito amigos da gente, que gravavam sempre com a gente lá. Porque depois a Pauta era um estúdio menor quando a gente foi pra São Paulo, e a partir dali, depois de um trabalho grande do Duprat, do Sá, do Guarabyra, da gente, cresceu, sugiram outros trabalhos, e a empresa cresceu. Aí precisava de um estúdio maior. Aí compraram essa casa, que vinha a ser a Vice-Versa, e montaram o estúdio. E nós fomos os primeiros a gravar lá. Então, na realidade, foi meio um teste para o estúdio, mas ele já estava todo arrumadinho, já tava tudo ok, tanto é que o resultado foi muito bom. Foi super bacana. E pra gente ajudou bastante. Você faz aqui, tá aqui, vende lá, depois a gente conversa.

Mario Bonfiglio De repente você vê que eles [da gravadora Copacabana] se interessaram de tal maneira… Quem daria, em sã consciência, um adiantamento por um disco que vai lançar? É porque acreditavam. Porque acreditavam no que eu falei. E vendeu bem. Para eles foi um sucesso! Se fosse hoje era disco de ouro, disco não sei do que. Naquele tempo era um pouquinho maior a vendagem para ganhar disco de ouro. Realmente venda, porque hoje eles faziam tumulto para poder ganhar disco de ouro nos programas dominicais, entendeu? Isso não é legal, eu não gosto disso. […]Eu acompanhei várias sessões (da gravação do disco). Mas eles, voltando no tema do perfeccionismo,ficavam horas e horas naquela música, até chegar no ponto que eles achavam que era o certo. Eles varavam a noite tocando a mesma música 10, 15, 20, 30 vezes. “Corta! Volta!, Vem! Vai!”. Eu ficava louco lá. O que eu fazia de vez em quando? Ia buscar pizza embaixo na pizzaria porque saía do estúdio 4, 5 horas da manhã. E nós entrávamos 7 horas da noite. Porque eles faziam, esses malucos [risos], eles faziam comerciais. Então o estúdio ficava à disposição, entendeu? [risos] Era como eles queriam. Esse foi o grande lance do Terço também. Esse foi o grande lance. Eu sempre gostei do Terço, como eu sempre gostei do Mutantes por causa da outra linha.

Sergio Hinds O disco estava pronto, era esse disco, a gente só entrou no estúdio e gravou, no Vice-versa, porque já existia o Vice-versa, a gente já trabalhava lá, aí só gravamos e fizemos o disco. E daí é uma tremenda duma mistura. Viola caipira… O “1974” que é uma, o “Criaturas da Noite” é uma valsa, né…

Sergio Hinds Tivemos grandes dificuldades no Vice-versa. Porque eles quando construíram o estúdio, tinha um engenheiro de som que era sócio, ele pensou na acústica do estúdio. No estúdio acústico. De matar todo e qualquer rebatimento. Esse era o conceito na época. Só que isso tornava o som irreal. Nós tivemos que dobrar todas as vozes na época e depois ele teve que construir uns rebatedores de madeira, porque a voz ficava desse tamaninho. Por que?  Porque no momento que você vai tirando os rebatimentos acústicos do ambiente, tua voz vai ficando pequenininha. Vai entrando, é como se você botasse o microfone aqui na corda vocal. E que fica uma merda. Porque vai tirando a caixa daqui, vai tirando o rebatimento daqui, isso vai entrando. Então é isso que acontecia. E tivemos vários problemas com bateria. Imagina? Nós gravamos a bateria desse disco no meio do estúdio, com um monte de rebatedor de madeira, o caramba. Pra criar alguma vida e peso. Porque se botasse na casinha de bateria, esquece. […] Por isso que eu acho que o melhor som de bateria pra mim é ao vivo. Aquela sobra, a bateria fica gigante, eu acho demais esse som de batera. […] esses técnicos que trabalhavam com a gente lá (na Vice-Versa), eles já estavam ligados nesse tipo de som, eles escutavam rock’n’roll, eles eram caras jovens, muito ligados nesse tipo de som. Então eles iam caçar o som junto com a gente. Eles enfrentaram a mesma dificuldade que a gente pra chegar no som por causa da forma como foi montado o estúdio. O estúdio, a parede dele era um negócio assim, daqui ali. E é de vidro, um negócio louco… E plano. E acabava com plano.

Sergio Magrão Na época a gente começou a gente tocando todo mundo junto [na gravação]. Depois, acho que um tempo depois, a gente começou a adotar esse sistema [separado]. Na realidade tocou tudo junto para fazer a base, e você acaba aproveitando a bateria, você tem que aproveitar, se o trem não estiver certinho nem adianta, que você tem que refazer tudo. Aí sim, a gente refazia depois de estar a base pronta, tinha base de baixo e batera, algum teclado de base, aí sim ia colocando as coisas em cima. E naquela época gostava-se de colocar muita coisa, às vezes até pecava pelo excesso. Porque teclado, ah, tem uma frase, e quando você via tinha não sei quantos canais, naquela época não tinha tantos canais assim, também. Aqui foram 16.

Flavio Venturini Eu acho que a gente ajustou os arranjos, as músicas chegaram prontas. Porque como a gente trabalhava ali, eu devo até ter composto alguma coisa ali, tinha um piano acústico, um Steinway, onde eu adorava ficar tocando e tinha meu órgão, eu ficava muito ali tocando também.

 

A capa

Antonio Peticov Eu tenho um irmão que é muito ligado com o pessoal da música. O André é pintor também. E enquanto eu estava no exterior, ele continuou aqui, começou contato, relação com muitas bandas. Ele fez a capa do primeiro disco da Rita Lee, Rita Lee Tutti Frutti, e era amigo do pessoal do Terço. Fiquei cinco anos sem vir ao Brasil, de 1970 a 75. Quando eu cheguei aqui ele me apresentou pro pessoal e disse: Queremos uma capa tua. E eu disse “já tenho a capa pronta”. Aí mostrei a foto e eles quiseram e foi daí que saiu esse trabalho, fiquei amigo deles, depois do Terço, o 14 Bis, que eu fiz inclusive também uma capa pro 14 Bis.

Como é que surgiu a ideia disso aí? Dessa pintura?

Essa paisagem aí debaixo, eu ganhei de um amigo em Milão um poster que era uma foto de 360º dos Alpes. Que foi minha primeira experiência em pintura hiperrealista. E quis contrapor uma situação, isso aqui é Amazônia, está de cabeça pra baixo, então era uma questão da dialética. A Itália é uma maravilha: tem uma primavera e um verão que são inigualáveis, mas tem um inverninho muito chato. Como todo país europeu, no inverno é muito chato. E aquela coisa fechada, tudo, me dava cada vez mais o impulso de valorizar as minhas origens, o Brasil, e um pouco antes de fazer esse disco, em 1972, pela primeira vez eu li um artigo onde tinha a palavra “Ecologia”. E já se falava sobre aquecimento global. 1973. E já se falava sobre as queimadas na Amazônia. Então foi uma puta condição. E o Universo. Sempre que eu uso no meu trabalho as coisas espectro, eu estou me referindo ao processo criativo. Nós estamos aqui conversando, gravando, luz, nós estamos nos comunicando, porque as 7 cores do espectro estão funcionando no nosso cérebro, estão em união, para transmitir toda a linguagem visual. O aparelho visual do ser humano consegue detectar essas 7 cores no espectro, que é gigantesco. Então, se como em todas as esculturas as sete cores têm um significado filosófico semelhante, o vermelho é a cor mais próxima da fonte luminosa, mais longe, então é ligada à matéria, à carne, e o roxo, que é a cor mais próxima, é ligada ao espírito. Da carne ao espírito ou vice-versa, uma obra de arte que te leva e te traz à realidade.

[Esse quadro] já estava feito. 1974. Depois eu trouxe pra cá e hoje ele faz parte de uma coleção em São Paulo.
[O Terço gostou da capa] Na hora. Eu tenho acho que umas 32 capas feitas. Quando o artista me pede uma capa, primeiro eu mostro o meu trabalho. E geralmente tem algo que eles vêm que eles se identificam e eu faço. Inclusive eu lancei um livro há cinco anos e o livro tem uma parte do meu trabalho só ligado à música e o texto que acompanha é o texto de um crítico de arte, de música italiana que um dia, num sábado, sem ter o que fazer, começou a ver capa de discos de jazz. Então quando ele viu aquela capa, ele se interessou por essa coisa musical e foi me pesquisar na internet. E o texto dele é muito interessante, então foi o caminho inverso, como que a capa de um disco me trouxe uma pessoa que entendeu sobre o meu trabalho.Flavio Venturini Eu acho que o Yes foi o grande referencial de capa na época, porque era uma coisa muito diferente, muito bonita. E eu me lembro que a gente já conhecia o Antonio Peticov, a gente era muito amigo do André Peticov, que é irmão, que também é artista plástico. Mas o artista que já estava acontecendo lá fora do Brasil, inclusive, ele morava em Nova York, ficava uns tempos em São Paulo, e tinha um trabalho maravilhoso em cima das sete cores, uma coisa já com uma cabeça na frente do tempo dele, então eu não me lembro quem deu a ideia, realmente, mas quando alguém sugeriu todo mundo foi, unânime, de aceitar e acho que ele foi muito feliz de escolher esse quadro. Eu cheguei a ver numa exposição… E é uma capa dupla, que não acontecia muito na época não. Lembro que o primeiro que eu vi foi o Sargeant Pepper’s [risos].

Sergio Magrão Com certeza, isso aqui, a capa, isso aqui era um trabalho do Antonio Peticov. Essa frente era um trabalho do Peticov que depois ele vendeu pra escola Panamericana, era um trabalho enorme, uma tela gigante que ele tinha, que a gente ficava encantado por causa desses planos que tem aqui, que tem tudo a ver com a época também. Que era essa coisa psicodélica. As fotos foram feitas pelo Jean Pierre, que era um fotógrafo que depois se tornou um grande publicitário, ele fez com a gente essa foto de dentro que não tem aqui, mas que aquela foto redonda, aquilo tem uma história engraçada, aquilo foi feito umas três horas da manhã, depois de um show, e a gente ia viajar, não tinha outro horário, e a gente estava com a cara qualquer coisa, e não tinha esse negócio de “vamos lá pro estúdio, vamos fazer”… E saiu super legal, uma foto que eu gosto muito. Na verdade, todo o design da capa foi do Antonio Peticov. Ele que fez. E as fotos foram o Jean Pierre. E a gente conseguiu, acredito que até a própria Copacabana gostou, porque era um trabalho, tudo bem, caro, mas que fazia parte de um trabalho totalmente diferenciado do que a Copacabana vendia, lançava. Então acho que eles acreditaram a partir daí. E conheciam também já o trabalho da gente antes de ter um disco, em show. O cara foi lá assistir, viu que tinha uma plateia enorme, não era um aventureiro, era um pessoal que já tinha um trabalho sério e estava querendo colocar isso na bolacha, no LP.

Sergio Hinds Ele retrata bem a viagem da época e de um artista que na época morava em Milão, Antonio Peticov, ficou famoso pelos pôsteres que ele vendia pelo mundo inteiro, fez exposição em Nova York, tem ateliê em Nova York, encontrei com ele em São Paulo recentemente e ele fica um pouco em São Paulo, fica um pouco pela Europa, pelos Estados Unidos. Um artista de sucesso. E na época realmente aquele negócio que a gente estava comentando da Copacabana, você imagina, a gente fazendo um disco capa dupla com uma pintura de um artista que morava em Milão, então foi um fato realmente inusitado. E a foto de dentro também é super interessante.

Sergio Magrão O Peticov fez [a capa] porque já era nosso amigo, o André, super amigo da gente, o Toninho também, o Antonio Peticov, então eles queriam participar disso. O Peticov morou na Itália, morou próximo do pessoal do Premiata [Forneria Marconi], fez alguns trabalhos com Premiata na Itália, então tinha essa coisa de gostar muito do progressivo, o André também, também pintava, fazia muitas coisas. Mas a capa foi uma guerra, porque a Copacabana, você sabe o que a Copacabana lançava, era bem assim, era coisa bem popular. Eram duplas, era aquela música bem popular. Então pra eles, isso aqui pra convencer foi difícil, mas ao mesmo tempo eles sentiram que era exatamente o oposto do que eles tinham. Então eles tinham que investir em alguma coisa que pudesse dar retorno, porque eles queriam saber da grana, queriam ver aquele dinheiro que foi investido de volta. Então, foi difícil e não foi. E aí entrou também a lábia do Mario Bonfiglio, que convenceu. Não só convenceu como conseguiu uma grana pra gente comprar o equipamento.

 

Faixas

 

“Queimada”

Flavio Venturini O Cezar [de Mercês] era um cara super importante no Terço, acho que ele sempre permeou, parece que o Cezar era amigo do pessoal desde o começo da primeira formação, ele não fez parte da primeira formação, fez parte da segunda. Quando eu entrei ele tinha acabado de sair, começou a fazer um trabalho solo que eu acho muito bom, acho o Cezar de Mercês um grande compositor, e foi um cara que eu conheci, fiquei amigo na época da gravação do Criaturas da Noite, mesmo do Casa Encantada [1976]. Eu tinha muito contato com os letristas mineiros, Murilo Antunes, Marcio Borges, Ronaldo Bastos, mais tarde Fernando Brant, e o Cezar foi, talvez, fora desse âmbito mineiro, o primeiro poeta, letrista, com o qual eu compus. Então a gente fez algumas músicas que eu considero também legais. “Queimada”, uma música acústica.

Sergio Hinds Essa música tem até uma história interessante, porque eu estou fazendo um projeto ecológico, que é muito complexo, não dá pra contar porque é muito longo, mas o Queimada era realmente uma mensagem contra a queimada das matas, desde essa época a gente tinha essa preocupação e tal. E essa música foi escolhida pelo Fantástico pra gente apresentar um quadro musical no Fantástico. Rapaz, a produção… Televisão é uma loucura, né? A Globo estava numa época, então, uma equipe de 10 viaturas pra uma fazenda distante 70 km do Rio de Janeiro e, imagina, a gente cantando uma música contra as queimadas e os caras desmataram o morro e jogaram as árvores nos vales, e a gente tinha que cantar em cima do morro com aquilo pegando fogo dos dois lados do vale. Isso era uma cena. A outra cena eles construíram uma casa sem teto e tacaram fogo na casa com a gente tocando dentro, a gente teve que sair correndo no meio da música, eles só pegaram um trechinho porque começou a esquentar demais. Depois eles construíram uma plateia de madeira com os bonecos e a gente estava tocando na frente da plateia e eles tacavam fogo na plateia. Então, assim, o engraçado é a incoerência do negócio… […]Não entendeu a mensagem! [risos] E a gente “putz, tão difícil entrar no Fantástico, vamos assim mesmo, né… A mensagem nós vamos passar, agora o pessoal não sabe que foi desmatado aqui, e que os caras estão tacando fogo na floresta” Enfim, né… Uma viagem do diretor, de misturar a queimada…

Flavio Venturini Eu me lembro que [compus e] depois mostrei pro Cezar de Mercês e ele fez a letra. Foi nossa primeira composição. Foi quando a gente se aproximou mais.

Sergio Magrão A gente sempre trabalhou com letrista. Eu acho que a gente continua trabalhando com letrista. Na verdade eu acho que a gente faça melhor música. Tanto é que no 14 Bis também funciona assim. E é muito parecido porque a gente, hoje, trabalha com letrista que trabalhou na época. O Sá, por exemplo, é um deles. Trabalhou com o Flavio, tem algumas músicas, o Cezar de Mercês, também super importante. Ele tem participação em várias letras, então. Fazia as letras e músicas também (Cezar de Mercês). O “Hey Amigo” é música e letra dele. O “Queimada”  já é em parceria. Então teve outras, “Foi quando eu vi a lua passar”, também. Têm várias que são música e letra dele, mas ele com a gente trabalhava mais como letrista. Tem algumas, no caso do “Hey Amigo”, que ele fez as duas coisas, mas na realidade ele trabalhava mais fazendo letra com a gente. E tem o Sá também que fez várias letras. Trabalhava com várias pessoas. A gente nunca se arriscou a fazer nenhuma letra, na época, que eu me lembre, acredito que não. Como tinha muita música instrumental, então essa parte ficava um pouco reduzida, dividia o trabalho todo. Eu acho que o Cezar e, não sei se estou esquecendo de outros parceiros, mas o Cezar e o Sá foram os parceiros mais constantes.

“Queimada” falava sobre aquela coisa do violão em volta da fogueira, que ela é muito da garotada da época. Fumava um baseado e ia pra beira da fogueira tocar um violão, tinha muito essa coisa na época. E acho que falava disso. Talvez essa coisa acústica [tenha um pouco de influência do rock rural]. Dos vocais, porque eles [Sá e Guarabyra] foram, na verdade, um dos primeiros caras a fazerem essa coisa acústica, com vocal, com sabor mais da terra no Brasil. Acho muito importante o trabalho que eles fizeram chamado Rock Rural. E com certeza eles foram influência e como amigos sensacionais, eu morei com o Sá, eu morei com o Guarabyra, a gente era uma família que curtia as noites de São Paulo, pra mim foi sensacional chegar em São Paulo já com uma turma, com uma galera muito legal.

Sergio Magrão “Queimada” exatamente aquela do acústico, do vocal. Então essa tinha tudo a ver. Essa, a primeira vez que foi mostrada pra gente, a gente já ficou encantado com ela. […] A gente tinha acabado de tocar do Sá, Rodrix e Guarabyra, isso aí com certeza! Com certeza tem muito disso, que é uma música que foi bacana. Até hoje todo mundo curte muito. Tem esse lado também. Claro que a experiência da gente com Sá, Rodrix e Guarabyra trouxe muita coisa boa pra gente com a música. Com certeza influenciou muito.

 

“Criaturas da noite”

Sergio Hinds Eu acho que essa música e a letra definem um pouco a mensagem que a gente queria levar, que é essa coisa de você se soltar, sair do urbano pra coisa da natureza, de sair um pouco da repressão pra se dedicar a um outro mundo, e também porque nós éramos criaturas da noite, porque a gente só tocava à noite, dificilmente tinha um show diurno. E quando você saía pra passear, pra encontrar os amigos, também é nas baladas noturnas. Então nós éramos também Criaturas da Noite. Então eu acho que foi por isso que a gente acabou achando que essa música e esse nome tinha mais a ver com o trabalho da banda inteira.

Flavio Venturini: A letra é do Luiz Carlos Sá, acho que ele falava das nossas noitadas em São Paulo, que a gente curtia muito a noite. Sair, sair pra beber, pra conversar, curtir pela noite paulista. São Paulo era muito interessante naquela época dos anos 70. E acho que o Sá falou disso, da solidão também, da noite…

Sergio Hinds Letra do Sá. E aí também a gente faz um uníssono, os quatro cantando. E a gente faz isso até hoje. Eu me rasgo inteiro, porque é difícil. Eu só consigo fazer na hora ela, porque é muito difícil esse tom, é muito alto, e a gente vai envelhecendo, vai abaixando o tom. […] O Criaturas é uma imagem bonita e “Criaturas da Noite” é aquela coisa mesmo, negócio do sítio, de ter esse contato com a natureza, as Criaturas da Noite eram os mosquitos, os besouros, e a letra do Sá também totalmente ligada a essa coisa do rock rural. Ele acabou fazendo uma letra viajando dessa forma, linkando essa fuga que você se refere a fugir pra natureza, buscar na natureza uma fuga pra todos os problemas que existiam na sociedade, nos preconceitos da sociedade.

Sergio Magrão “Criaturas da Noite” eu acredito que, do trabalho do Terço, até hoje acontece direto. Flavio toca ainda nos shows dele, música lindíssima, o Sá arrasou nessa letra, ele fez uma letra muito linda, deu a oportunidade de a gente fazer arranjo de orquestra com ela, um vocal também. Usar e abusar tanto do vocal quanto da coisa mais orquestral.

 

“1974”

Flavio Venturini A música tem 13 minutos. É, realmente, do rock progressivo eu acho que a banda que eu mais ouvia na época era o Genesis, na verdade. Minha grande paixão, minha, do Beto Guedes, do Vermelho, era o Genesis. E gostava do Yes também, e Emerson, Lake and Palmer, acho que são as três bandas que me influenciaram na estética.

Sergio Hinds Ela tem mais de 10 minutos. E é complexa. A distância da repetição do eco era a distância da cabeça, porque era mecânico, você movia a distância entre as cabeças e você dava tempo do delay. Aumentava ou diminuía o tempo do delay com a distância das cabeças. Muito louco, muito complexo. […] Eu acho que o 1974 pelos preciosistas do progressivo ele é um hino, um tema que virou um hino do rock progressivo nacional, o “1974”. […] É uma composição muito bem elaborada, principalmente que o Flavio veio com a harmonia toda pronta e eu comecei a solar em cima e porque eu acabei definindo… Algumas ele tinha de cabeça e acho que ficou um tema que tem toda uma história musical, ele muda por vários momento diferentes, de ritmo, de viagem e tal e que retrata bem o rock progressivo, que tem os temas importantes do Pink Floyd, do Yes, que são lembrados e tal e isso no caso do rock progressivo brasileiro acho que esse tema ficou muito na cabeça das pessoas, eu tenho essa referência por conversas com as pessoas que são fanáticas por rock progressivo.

Flavio Venturini “1974” tomou a metade do disco do lado B [risos].

Sergio Magrão Essa foi um tema que a gente ficou tocando muito tempo. Na realidade, como é uma música muito longa, a gente acabou fazendo arranjo por partes. Então nos intervalos de gravação de jingle, a gente sempre aproveitava, o Flavio estava fazendo a música, acho que tem 12 minutos, não sei quanto tempo. Era muito grande. E cada vez ela crescia mais. Então quando terminou era um negócio de ficar arrepiado, porque ela tem um lado sinfônico muito legal que te pega porque tem um crescendo, são várias partes, cada uma com um movimento, mas no final ela vai crescendo de uma forma… E todo mundo ficava “mas 12 minutos… 12 minutos não tem jeito… música progressiva é isso mesmo, o tema progressivo é longo, né? [risos]“.

Flavio Venturini Eu acho o Criaturas da Noite insuperável pelo momento. Tinha até uma coisa que o Sergio Hinds falava na época, que a gente até hoje meio que sacaneia ele, porque todo show o Sergio Hinds chegava no começo e falava “porque esse ano de 1974 o rock vai acontecer”. Eu nem sei se aconteceu tanto, foi acontecer nos anos 80 no Brasil, na verdade, com maior aceitação, grande mídia, grande vendagem, tudo. Mas havia alguma coisa no ar. Acho que era isso que o Sergio sentia. Tanto que a música que eu considero, fora a música “Criaturas da Noite”, que deu nome ao disco, a música instrumental que fechava o disco, eu pus o nome de “1974” em homenagem a isso, a esse momento. A gente sentia que era um momento legal que estava acontecendo ali.

Sergio Magrão Acho que são quatro [músicas instrumentais]. É “Suíte”, tem o “1974″, “Ponto Final” e “Guitarras”. Não é isso? São quatro, se não me engano. […] É isso mesmo. “Ponto Final”, “Guitarras” e “1974”. Não, aqui não tem o “Suíte”, tem no DVD. Mas aqui tem três, exatamente. Era muito legal. A gente fazia muito isso, que era uma coisa que todo mundo ficava pensando, não é uma parada muito comercial, mas é um lance que tem um público maravilhoso e que gosta muito, e que não tem muito acesso, porque eu acho que as pessoas têm um certo medo, por exemplo, exatamente por esse lado comercial, de colocar, aí não vai, sei lá, e não. Poxa, você tem o teu trabalho. Músicas legais, que são músicas instrumentais. Tem mais é que rolar. Tem mais é que acontecer.

 

Hey Amigo”

Flavio Venturini Um dos grandes sucessos do Criaturas da Noite foi a música “Hey Amigo”, talvez a música que mais tenha tocado no rádio pra época, que era uma música do Cezar, e que foi um sucesso do Terço. Eu só queria salientar, não criticando o Cezar, ele deve ter seus motivos, que embora o Cezar tenha sido tão importante, eu lamentei que ele não tenha autorizado o Terço gravar as músicas dele no DVD que a gente acabou de fazer. Eu continuo amigo dele, mas lamentei muito porque acho que isso tá acima, a história da banda tá acima de qualquer coisa pessoal, né? [risos]

Sergio Hinds Era uma convocação… Era isso. E também funcionava muito porque era a última música do show, então a gente convocava todo mundo a cantar junto, nessa unidade final, do prazer de ter feito aquilo juntos, com a participação de todo mundo e tal. Então além dessa mensagem que a gente tinha também de passar, de querer unir, como o rock’n’roll, de unir as pessoas, com paz e amor e etc, de união das pessoas e de união também naquele momento. Então tinha essas duas funções essa música. […] Tem um solo básico de rock’n’roll, mas é o tal negócio, como eu priorizo a melodia, ele acabou ficando com a melodia marcante, aí não dá… Pros solos todos que eu faço eu acabo tendo que sempre repeti-los, porque como eles formam uma melodia, as pessoas guardam, se eu fizer diferente, nêgo acha que eu errei… Não vai ter o efeito. Então virou um estilo, dificilmente tem uma música que eu realmente posso improvisar livremente. Porque o improviso vira uma melodia. [risos] Aí ferrou, porque eu vou ter que usar aquela melodia porque ficou bacana. […] “Hey Amigo” chegou a tocar bem. Então, mas nessa época, como tocava muito pouco, as rádios que tocavam, tocavam indiscriminadamente, e não existia essa preocupação: “aquela é a música de trabalho, aquela é a que é sucesso”, tocava tudo, todo mundo conhecia todas as músicas do disco.

Sergio Magrão “Hey Amigo”, a princípio, a gente achava até que ia destoar um pouquinho do trabalho, da base do trabalho, que era muito calcado no progressivo. E “Hey Amigo” não tem nada com progressivo, “Hey Amigo” é o rockão, mas ela tinha um apelo tão grande, a gente ficou tão fascinado com a música, que a gente falou “isso aí a moçada vai meter o pau, a gente toca ‘Criaturas da Noite’, que é um outro lado, mais sinfônico, mais uma coisa orquestrada, tem o ‘1974’, que também é uma instrumental longa, esse ‘Hey Amigo’ tá meio…” Mas não era nada disso, na realidade o “Hey Amigo” acabou chamando um outro público talvez que gostasse mais desse lado da música pra conhecer, exatamente, o resto do trabalho. Então acho que foi de muita importância. Pena que não está no DVD, mas, enfim, fazer o que? [risos]

 

Jogo das Pedras”

 Flavio Venturini “Jogo das pedras” é uma outra música que a gente fez (com Cezar de Mercês), a gente fez umas turnês pelo sul do Brasil… O Terço ia muito pro sul, pra Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba… Desse disco só essas duas músicas (essa e “Queimada”), mas eu fiz outras músicas com o Cezar, que também estão no Casa Encantada.

 

Ponto Final”

Sergio Magrão Como a gente tocou várias vezes, e de repente ainda não existia um espaço ali, foi por acaso. Por acaso eu comecei a fazer umas frases, e a gente falou “olha, vamos botar um solo nesse pedaço, que cabe legal nesse pedacinho.” E ficou super legal, porque na realidade, a passagem para aquela parte mais pesada, então ficou bem bacana.

O que eu queria te perguntar sobre música instrumental, algum instrumento acaba desempenhando o papel da voz, acaba contando uma história, fazendo um tema, é o caso dessa faixa, Ponto Final. Você assumiu o lugar do vocal.

Sergio Magrão faz o solo e fica a cama, fica ali uma base, e faz legal. Porque, na realidade, o que geralmente faz, a melodia é a guitarra ou algum instrumento de solo, um violino, que seja, um teclado, com certeza, então é bacana, porque é uma oportunidade. É claro que o baixo não dá pra ficar fazendo isso o tempo todo, o Stanley Clarke até faz de vez em quando, mas chega uma hora também que cansa. […]É uma música do Moreno que ele mostrou pra gente, super legal, que deu essa oportunidade também de eu fazer um solo de baixo, então foi bem bacana.

 

Pano de fundo”

Sergio Magrão Foi a primeira música que eu fiz, “Pano de fundo”. E eu faço música, eu levo um tempo pra mostrar, porque tem uma coisa que eu sempre acho que está parecendo com outra música [risos], não sei o que é, é um negócio muito chato. Eu fiz “Caçador de mim”, eu levei um ano e meio pra mostrar “Caçador de mim”, porque eu cismava “ih, mas não tá”, até que o Sá falou assim: “eu vou fazer a letra dessa música”. Aí fez e, enfim, virou o que virou. Então eu tenho isso. E “Pano de fundo” pra mim tem uma influência muito de Santana, que era uma coisa que eu ouvia muito, essa coisa meio latina. Tem aquele timbales, então tem muito essa influência. E rolou. Rolou, eu curti, mas eu estava muito verde ainda, nessa parte de composição, essas coisas, acho que foi o que me colocou a me interessar mais em compor. A partir daí.

 

Volte na próxima semana”

Sergio Magrão Nossa, essa aí era terrível para tocar em show. Porque era uma que você acabava de tocar e tinha que vir uma lentinha, porque era exatamente isso, esse é o rock pauleira do disco, que foi o Sergio Hinds que fez, é tudo muito rápido pra cantar, é difícil até de você entender um pouquinho da letra. Mas rolou e a galera louca adorava essa aí, porque essa sacudia mesmo a moçada.

 

Agora a última pergunta pra gente encerrar. O que você acha do disco hoje? A gente acabou de ouvir picado mas ouvir. Deu pra lembrar. O que você acha? Acha que ele resistiu bem ao tempo?

Sergio Hinds Eu acho que sim. Eu acho que tem muitos artistas que renegam o trabalho feito há um tempo, eu de jeito nenhum, eu valorizo demais esse trabalho aqui, acho que ele foi um marco no rock brasileiro e pra nós, do Terço, eu acho que esse disco o mais importante da carreira do Terço. E, lógico, a gente em vários outros discos reproduziu algumas músicas desse disco, assim como esse DVD ao vivo que a gente está lançando agora. Mas isso é um momento histórico, não adianta você falar “mas agora o som está muito melhor, isso aqui está melhor, tem mais pegada…” Mas, ele foi feito em 1973, final de 1973, foi lançado em 74. Com os recursos que tinha, eu acho o som muito bom, acho a execução legal, sem muitas críticas nem muitos defeitos, e acho, nem falando de época, eu não posso falar de época, o que a gente pode falar de mal do som dos Beatles, né? Que gravavam em 4 canais, um puta som, um vocal maravilhoso, tudo lindo, então acho às vezes se você tem uma relação muito grande com o teu computador, com a tua bateria, tua bateria não é a melhor dom mundo, mas você já consegue tirar um puta som nela, ninguém vai tirar aquele som, aquele som é teu, único. Eu acho que aqui tem sons únicos de músicos que criaram um estilo, um formato, um jeito de tocar, um jeito de cantar, e às vezes vejo a molecada estudando 12 horas por dia, tocando tudo muito mais do que eu, muito mais do que muita gente, mas você pega o mesmo moleque que toca tudo perfeito e bota o mesmo amplificador que eu toco, a mesma guitarra, a mesma pedaleira, e ele não vai tirar o mesmo som. Ele vai tirar o som dele, então eu acho assim, e todo músico tem essa característica, de criar o seu som, de escolher o seu timbre, dois pontos que você muda no médio do amplificador já muda a timbragem toda. Então cada músico acaba criando seu próprio som, seu próprio estilo. Então eu acredito que esse disco foi um marco pra gente e importante, sempre vou guardar com carinho.

Flavio Venturini Eu acho que resistiu [ao tempo). Eu me surpreendi quando eu vi esse disco em CD. Eu acho que ele resistiu ao tempo. Claro, tudo vai mudando muito, mas, tiradas as devidas proporções, eu acho que é um disco bem gravado na época. Eu acho que o disco Casa Encantada talvez tenha um som um pouco melhor, talvez pelo maior trato com estúdio, e o estúdio já estava a mil quando a gente gravou o Casa Encantada, então eles já sabiam talvez tirar o melhor som. Mas eu acho que pelo repertório, pelo momento, é mais importante o Criaturas da Noite, sem dúvida.

Sergio Magrão Olha, eu gosto muito [do Criaturas da Noite]. E, engraçado, por incrível que pareça, eu ainda escuto ele e é difícil de eu sentir falta de alguma coisa, como hoje a gente é muito mais exigente. Hoje eu pego coisas do 14 Bis e falo “ih não”, o DVD da gente fiquei grilado porque foram masterizar e o baixo saltou, mas não saltou a ponto de incomodar o cara que compra, mas pra mim incomoda, porque, de repente, a cabeça da gente, estamos falando de 30 anos depois, muita coisa surgiu, você vai mudando, obviamente, a forma de você ouvir, o próprio nível de exigência sua começa a mudar. Mas eu ouço tanto o Criaturas da Noite quanto o Casa Encantada com bons ouvidos e curto muito. Eu gosto ainda. Eu podia falar “ah não, não sei o que está…” Mas eu curto.

Sergio Hinds Foi uma época especial, foi um momento histórico, não dá pra negar que existiu um momento muito diferente do que rola hoje, a gente fazia shows em que as pessoas iam às 9h da manhã, em volta do ginásio, acampavam pra assistir um show que ia acontecer às 9h da noite. Então o nível de importância que o público dava, aquilo dali era quase que um movimento, uma religião. O rockeiro era meio que uma religião, né? E também não existiam as bandas referências que o cara tinha, que era o Pink Floyd, que era o Yes, não vinham pro Brasil. Não era ilusão de que essas bandas viessem, então Terço, Mutantes, Som Nosso, e outras bandas pra eles era tudo, porque cumpria aquela função daquela vontade de escutar aquele tipo de som que eles curtiam, que a juventude curtia naquela época, e eles não escutavam na rádio, não viam na televisão, então era só indo no show mesmo, então a diferença hoje é essa. Porque todas as bandas de rock de sucesso tocam no rádio, você aparece na televisão a todo instante, aparece nos grandes eventos. Tem um show do Titãs, mas tem do Skank. Aí o cara fica “não sei se vou no Skank, vou no Titãs… não, hoje eu vou no Titãs porque o Skank vai tocar aqui de novo tal dia”. Naquela época não tinha isso. Era uma banda só que ia tocar aquele dia e todos os rockeiros iam. Entendeu? Então quando tocava o Terço aqui, Mutantes estava tocando numa outra cidade, lá no Nordeste, não existia essa competição de no mesmo dia, na mesma cidade, em locais diferentes.

Sergio Magrão Eu acho que o Terço teve uma carreira longa. E a gente sabe que esses cinco anos que a gente teve o Criaturas da Noite e o Casa Encantada, foi a melhor fase, eu acredito, e todo mundo fala. Sou suspeito em falar. Não querendo desmerecer as outras fases que foram tão importantes quanto, porque chegou nessa. Se não tivesse existido as outras, com certeza, desde o Jorge Amiden, nos tempos de festivais, que era bem bacana, mas essa aqui, não sei porque, talvez por ter sido lançado numa época que tudo isso estava fervendo. E eu acredito também que as décadas de 70 e de 80 foram as décadas mais criativas. Eu não consigo imaginar que a década de 90, ou agora, o que a gente está vivendo, tenha sido tão criativa quanto as de 70 e de 80, você sabe disso, os intérpretes mais interessantes que estão aí até hoje, eu me preocupo muito quando eu vejo que ninguém está vindo aí pra substituir de repente um Milton Nascimento, um Djavan, um Caetano, um Gil, sabe? A coisa está meio complicada, porque a música está partindo para um lado que sabe Deus onde vai parar. Então, eu acredito que parte foi sorte da gente estar naquele momento e ter feito um trabalho também tão bacana, tão inspirado, tão criativo. Acho que é isso. Isso é muito difícil de explicar, o porquê de ter acontecido. E veio o Casa Encantada, que também foi uma continuação disso aqui. Tenho certeza porque a gente já estava mais afinado entre a gente, a gente já estava tocando há bastante tempo, então a gente estava mais entrosado, acho que é um lance mais ou menos por aí. Mas esse como foi o primeiro, obviamente vai ter um mérito maior.

Flavio Venturini Agora em abril está fazendo três anos que a gente gravou, fizemos uma reunião do Terço, perdemos o nosso querido baterista, Luiz Moreno, que faleceu. A gente convidou o Sergio Melo, um baterista também sensacional, e fizemos essa reunião com participação do Ruriá Duprat, sobrinho do Rogério Duprat, que na época era um garoto fã do Terço, e hoje se tornou um grande maestro. E convidamos ele, o Ruriá pra participar, a Edinéia, mulher do Moreno, e fizemos três shows: fizemos um show no Canecão, um show no Directv, em São Paulo, e um show aqui no Chevrolet Hall, em Belo Horizonte. Foi de uma emoção só. O primeiro show, então, foi uma comoção, a plateia, muito a plateia da época [risos], só barbudos e cabeludos, o reencontro com a plateia foi muito legal, os shows foram todos lotados, o som foi sensacional, e eu acho que poderíamos ter gravado de repente o terceiro show porque no primeiro a emoção era tanta que talvez tenha atrapalhado, mas a gente também não refez muita coisa em estúdio não, só o essencial. Tá ali, na íntegra, eu acho que foi um registro importante que o Terço precisava ter. E dessa reunião tem essa vontade de não sei se voltar a banda, mas fazer alguns shows. Curtir isso por mais um tempo. Mostrar pra garotada de hoje o que foi e talvez fazer um disco de inéditas, se a gente tivesse esse empenho. Mas eu tô empenhado a compor e fazer coisas no estilo já híbrido, com a coisa da época com a informação que a gente tem hoje.

Mario Bonfiglio Esse disco se fosse relançado hoje eu acho que eu não teria o mesmo interesse. Por exemplo: eu não sei se eu pegaria o papaizinho de hoje, que era o menino de ontem, para comprar o disco. Mas que ia fazer alguma coisa, podia acontecer. Porém, em menor intensidade. Mas, poderia acontecer alguma coisa. E é um disco perfeito. Se você colocar esse disco na vitrola e ficar ouvindo ele completo, você sai extasiado, sabe? Sai extasiado. É mágico.

Trinta anos depois, 35 anos depois, você acha que esse disco, na época, poderia ter sido trabalhado mais? Ou alguma coisa que você se arrepende? Poderia ter feito melhor..

Mario Bonfiglio Não! O que nós conseguimos foi o máximo na época! Sabe quando você ganha o jogo de 5 a 0 e você quer marcar mais um gol e não marca? Então não tem jeito, a gente chega num patamar… Eu calculava o seguinte: bom, se nós vendemos 200 mil discos, 300, não lembro agora o número exato, é porque esse é o patamar, esse é o ponto máximo que nós podemos chegar. Talvez se esse disco fosse lançado hoje, ele venderia 20 mil. É o mesmo esquema do Caetano, como era antigamente. O Caetano, o Gil. Não vende disco. A não ser que tenha uma música muito forte que puxe o disco, não é verdade? Se não, não vende. Não tem jeito. E esse aqui tem as músicas extraordinárias. Mas não sei se teria força para puxar uma venda grande. Pode ser até que tenha, pensando naquele homem que assistiu quando era jovenzinho, está com vontade de ouvir o disco de novo. Agora com uma técnica nova, mexendo direitinho, quem sabe? Mas não acredito. Numa boa, não acredito. É um disco praquela época. Tem sua época. A música tem sua época. Não vamos inventar muito. Porque se for inventar, amigo, estamos fritos. Esses caras de gravadora gostam de inventar, você não faz ideia.