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Foto THIAGO BARROS

O músico Charles Gavin começou a pesquisar a música brasileira quando deu-se conta de que discos importantes que estavam fora de catálogo no mercado nacional eram pirateados no exterior. Sua primeira proposta foi o relançamento do material dos Secos & Molhados, em CDs remixados, seguida de resgate do acervo de gravadoras, como a série “Odeon 100 anos”. Seu trabalho de pesquisa rendeu um convite do Canal Brasil para conduzir um programa sobre os “Discos Clássicos Brasileiros”. O projeto estreou como “Som do Vinil” em 2007 e, desde então vem mostrando a música brasileira em sua riqueza e variedade.
 Trocando de papel, Charles Gavin passou de entrevistador a entrevistado, falando da força da da música em unir as pessoas, promover trocas e estimular novas criações. Ele nos conta também a história do programa, enfocando alguns dos episódios mais significativos e revela a motivação para o projeto Som do Vinil em site e livros: preservar, divulgar e tornar público. Dos quase 200 programas gravados, uma parte já não estava guardada e corríamos o risco de perder o extenso material colhido — para cada 20 minutos de programa havia 5 horas de entrevistas que não iam ao ar. Com apoio da Oi e da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, estamos organizando, arquivando, transcrevendo na íntegra, e as tornando públicas — na internet e em uma série de livros. Para que a música brasileira continue nos inspirando e transformando. 

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Um programa

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Concepção
André Saddy, Charles Gavin, Darcy Burger e Paulo Mendonça

 

[Temporadas 2007, 2008, 2009 e 2010]
Apresentação, direção e pesquisa Charles Gavin
Direção Darcy Burger
Assistentes de direção Juliana Schmitz, Helena Machado,
Barbara Lito, Rebecca Ramos
Editores Mariana Katona, Raphael Fontenelle, Tauana Carlier e Pablo Nery
Pesquisa e pauta Tarik de Souza
Coordenação de produção Crica Bressan e Guilherme Lajes
Produção executiva André Braga
Produção Bravo Produções

 

[Temporadas 2011, 2012 e 2013]
Apresentação, direção e pesquisa Charles Gavin
Direção Gabriela Gastal
Assistentes de direção Maitê Gurzoni, Liza Scavone, Henrique Landulfo
Editores Tauana Carlier, Thiago Arruda, Raphael Fontenelli, Rita Carvana
Pesquisa e pauta Tarik de Souza
Coordenação de produção Henrique Landulfo
Produção executiva Gabriela Figueiredo
Produção Samba Filmes
Equipe  Canal Brasil
Direção geral Paulo Mendonça
Gerente de marketing e projetos André Saddy
Gerente de produção Carlos Wanderley
Gerente de programação e aquisição Alexandre Cunha
Gerente financeiro Luiz Bertolo

 

Você vinha de uma carreira de sucesso como músico, na qual você continua, por sinal, mas de repente o seu nome começou a ser associado ao de pesquisador de música, que lidava com acervos e trazia material das gravadoras. Como você se envolveu nisso? E como esse trabalho levou até O Som do Vinil?

CHARLES GAVIN O trabalho de pesquisa e o meu envolvimento com reedições de discos é anterior ao Som do Vinil. No ambiente em que eu me criei, no anos 1970, era absolutamente comum compartilhar música. Eu me eduquei desta forma, com amigos, mais jovens ou mais velhos, quando o hábito era ir para a casa de alguém ou ele vir na sua, e todo mundo ouvia música junto. Esses encontros geravam discussões. A gente falava sobre as faixas, usava critérios pessoais, onde o que valia mesmo era a intuição. Amizades se criavam dessa forma – fiz amigos só por ouvirmos discos juntos. É claro que eu não tinha a menor ideia de quanto isso seria importante em minha vida.

Foi nesse ambiente que acabei me tornando baterista. A minha primeira escola de música foi os discos que eu podia ouvir, que pegava emprestado e compartilhava. E como sou autodidata – esse foi o meu start, porque não havia outra maneira de começar, sabia que se tudo isso foi importante para mim, poderia ser também para outras pessoas.

Anos e anos mais tarde, depois de formar uma boa coleção de discos, de viajar bastante, de frequentar lojas da Inglaterra e na França, tomei consciência de uma situação muito estranha, a de que muitos discos de música brasileira, que estavam fora de catálogo, eram relançados em outros mercados, principalmente no Japão e na Europa.

Eu voltava dessas viagens com todos os discos brasileiros que encontrava. Constatei que o mercado fonográfico japonês havia investido bastante nessa área, montando um catálogo de música popular brasileira muito diversificado e especializado, diferente do que acontecia no Brasil. A partir dos anos 90 a indústria fonográfica nacional foi modificando sua política — cada vez mais passou a se concentrar em resultados imediatos, investindo cada vez menos em trabalhos que são vendidos a longo prazo, para outros públicos que não fosse o jovem entre 14 e 25 anos. Seus acervos foram ficando de lado e isso colaborou para a  aparecimento de alguns fenômenos, como um tipo de pirataria segmentada, que nesse caso era até benéfica, porque recolocava no mercado discos que muita gente queria ter. Eu comprei várias cópias piratas de LPs raros de música brasileira em Londres. Outra situação curiosa é que na finada Modern Sound, uma loja do Rio de Janeiro, a gente ficava esperando os discos importados do Japão chegarem, serem liberados da alfândega, e sorte de quem ficasse sabendo primeiro que já estavam à venda.

Já me incomodava o fato de eu ter uma discoteca de música brasileira, com discos que outras pessoas, músicos e amigos meus, sequer conheciam ou sabiam da existência. Entendi como isso era perigoso, pois parte da memória da música brasileira não estava perdida, mas também não estava disponível entre nós, e senti um grande desconforto como ouvinte e como artista.

 Foi você quem propôs à gravadora resgatar o material de acervo ou você foi procurado por ela?

Eu procurei a gravadora. Eu havia comprado algumas reedições The Who, que é uma banda que eu amo, e nelas dois produtores ingleses tinham remixado essas gravações dos anos 1970. Eles obtiveram resultados muito bons por conta da tecnologia que temos hoje. Eu gostei desse projeto — a Grã-Bretanha e o Japão são os mercados que melhor exploram e trabalham com catálogo, reeditam discos, pesquisam, injetam elementos extras no produto que fazem você comprar de novo.

Achei que poderia fazer alguma coisa semelhante. Na época, minha gravadora era a Warner, dona do acervo da Continental. Pensei em sugerir a remixagem de um disco de algum artista. Achei que poderia funcionar com uma boa ação de marketing, que atrairia mídia e agregaria valor àquela obra; ou então poderia simplesmente selecionar títulos e fazer projetos de relançamentos em CD. Com o argumento de que alguns discos eram importantes, preciosos e procurados em outros mercados, falei que deveríamos fazer um projeto recuperando o acervo de bossa nova da Continental. Naquele período, mais ou menos 1998, a bossa estava totalmente abandonada pelas companhias de disco.

É claro que eu levei uma buzinada, do tipo: “você está maluco? Bossa nova!?”.

Não houve um estranhamento da gravadora ou da mídia, por você ser um artista pop-rock, interessado no resgate de música dos anos 1960, como bossa nova?

Houve por parte da mídia, não da gravadora, porque ela conhecia bem as atividades paralelas de cada um dos Titãs. Sabia da minha paixão por pesquisa, do meu envolvimento com esse assunto – os discos. Partir para um projeto dessa natureza era natural para uma pessoa com o meu perfil. Então quando sugeri, eles estranharam que eu quisesse fazer com bossa nova, mas não estranharam o fato de eu querer mexer com o catálogo.

Mas projeto de bossa não vingou, eu não recebi autorização da diretoria para fazer. Mas quando disse que gostaria de remixar os dois discos do Secos & Molhados, do catálogo da Continental, as coisas mudaram. Todos na Warner consideraram um projeto viável. Um desses discos do Secos & Molhados, o de 1974, nunca havia sido relançado em CD – aliás, não foi até hoje, saiu apenas nesse projeto que fiz. Eu fui atrás das fitas, as masters em multitrack, que estavam em excelente estado, e comecei o projeto. Acho que fiz a remixagem com os melhores critérios técnicos que poderia fazer naquele momento, para ser lançado em 2000 ou 2001; mas o som hoje já seria diferente.

Este foi o meu projeto, que mais vendeu até hoje. No último extrato que recebi estava em 70 mil cópias. E por ter vendido bem, me deu moral naquele momento. Saíram inúmeras matérias em que a manchete era sempre algo como “O roqueiro dos Titãs resgata o som dos Secos & Molhados” – me senti desconfortável no inicio, como se estivesse surfando na onda de outra pessoa, pegando uma carona em cima do trabalho de outro artista. Mas depois ficou claro pra todo mundo que eu simplesmente era um facilitador, um divulgador daquela obra.

Nesse primeiro projeto, você já teve que se envolver com a história do disco e ter contato com os compositores e músicos? Foi um trabalho que começou a ultrapassar a questão do acervo e do catálogo?

Isso se impôs, porque achei que seria correto ligar e contar o que estava fazendo e como estava fazendo. Liguei para os três integrantes dos Secos & Molhados e todos concordaram. Acho que foi bom pra todo mundo porque o principal é que os discos dos Secos & Molhados voltaram para toda uma geração que não sabia, que não conhecia.

Você considera que quando você passou da fronteira técnica, da remixagem, para o convívio com as pessoas, ao levantar o histórico do disco, já era a semente do Som do Vinil?

Eu sempre fui ligado à História. Tive ímpeto de fazer este trabalho porque, perto dos meus 40 anos, estava muito grato por todas as conquistas que alcancei em minha profissão. Vi muitos músicos bons, que tocavam muito, que compunham bem, não conseguirem viver disso. Por uma série de fatores, a sorte inclusive, os Titãs vingaram e a gente conseguiu ter uma carreira. Eu vivi 25 anos de tocar bateria, de uma coisa que eu amo fazer, o que foi incrível. E vivi bem, conheci o Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste, viajando muito.

Mais tarde senti uma vontade de retribuir tudo o que a música me trouxe e entendi que a maneira de fazer isso era compartilhando o que eu achava relevante na música brasileira. Tive energia para ir atrás de gravadora, batalhar por projetos, simplesmente para apresentar aquela música a qualquer pessoa que estivesse interessada. Foi dando certo, eu fui gostando e me especializando, fazendo projetos cada vez maiores, com catálogos importantes. Uma série para a EMI, outra para a Som Livre, outra ainda para a finada BMG; uma pequena para a Universal e uma coleção grande para a Warner.

Nos trabalhos com o acervo das gravadoras, de vez em quando você pegava pérolas de um artista que não estava em voga, de quem poucos lembravam. Como era o processo de escolher o que seria relançado? Você já conhecia o artista, descobria durante o processo ou era alguma coisa que fora do país já fazia sucesso?

Era tudo isso. As informações chegavam das mais variadas formas. Na verdade, estamos falando de um trabalho de curadoria, de escolha de repertório. Aliás, acho que a peça fundamental da indústria fonográfica no que diz respeito a um disco é o repertorio, é onde começa tudo.

As opções e sugestões para o repertório de uma coleção chegavam de amigos, de colecionadores de quem eu recebia e-mails mas que nunca conheci pessoalmente, e também, como já disse, dos discos piratas que eram reeditados no mercado europeu — se eram lançados ilegalmente e vendiam, imagina se fossem lançados em CD com preço acessível? Mas boa parte dos títulos selecionados saía das minhas pesquisas, de discos que eu já conhecia há muitos anos. Também fiz parcerias com pessoas especializadas, meus consultores em rock brasileiro, MPB, samba, bossa nova porque, obviamente, muita gente sabia muito mais do que eu. Criei uma rede de colaboradores com o simples objetivo de resgatar pérolas da música brasileira que estavam esquecidas, abandonadas que, em alguns casos, as gravadoras nem sabiam que existiam.

Alguns dos discos relançados não venderam bem na época em que foram gravados. Já outros fizeram sucesso, mas também não se mantiveram em catálogo. O mercado é cruel e muitas vezes suicida, porque aquilo que faz do disco um sucesso, na verdade, é um grande mistério. Ele pode não vender hoje, pode não fazer sucesso hoje, mas pode fazer depois, como aconteceu com Tom Zé. Existem muitos trabalhos que estavam à frente de sua época e que não emplacaram comercialmente naquele momento, o que absolutamente não tira a sua relevância artística. Nossa mentalidade é a de resultados imediatos, espera que as coisas aconteçam sempre no momento presente. Acho que a indústria fonográfica deveria ter uma postura diferente em relação a isso. Mas sei que é bem difícil. Mas existem várias formas de se obterem resultados, no curto ou no longo prazo.

Lembro de uma história que Egberto Gismonti me contou. Ele estava numa reunião, na sala da direção da EMI Odeon, conversando com um diretor, quando Agnaldo Timóteo entrou de repente, dizendo que sustentava ele e a todos os outros artistas da gravadora. De certa forma, a indústria fonográfica funcionava dessa forma naquele época, um sucesso arrebatador que vendia pra caramba possibilitava a produção de trabalhos mais arrojados,  artisticamente. E isso era muito importante. O que enfraqueceu a indústria fonográfica, décadas mais tarde, foi justamente a ausência desse tipo de mentalidade, porque hoje ela só enxerga o sucesso imediato, não investe mais como investia numa obra intelectual que possa trazer algum tipo de ganho para a companhia que não seja o dinheiro vivo. Antes, por mais que o Egberto Gismonti não vendesse tanto quanto o Agnaldo Timóteo, era importante para a gravadora ter um artista como ele. O mesmo acontecia em outras gravadoras, na Universal, por exemplo – o Caetano não era um grande vendedor como o Odair José, mas, do ponto de vista artístico e intelectual, a obra do Caetano era extremamente imprescindível para a companhia – ela tinha lastro cultural, agregava valores, poderia ser regravada por artistas de seu próprio cast. Sem falar que uma gravadora precisa ter e lançar discos que seus funcionários tenham orgulho de vender e que gostem de ouvir.

Acredito que faltou um “pensamento ecológico” dentro da indústria fonográfica, foi como se ela cortasse todas as árvores de que dispunha apenas porque precisava vender mais e mais, sem pensar nas consequências. O fato é que Caetano nunca deixou de vender, muito pelo contrario: sua obra hoje possui um potencial infinito, que venderá para sempre. Mas ele é o único nome da música brasileira que está na mesma gravadora desde que começou. Bom, diante dessa  “lógica de vendas”, qualquer um pode ficar fora da curva de resultados, certo? Chico Buarque, Edu Lobo etc – o que é um absurdo. Ainda dentro dessa lógica, há o caso de Tom Zé. Quando fez o Estudando o samba, um disco que na época foi bem recebido pela imprensa, mas que não vendeu bem, Tom Zé foi atirado num ostracismo comercial que quase tomou acabou com sua carreira, e por pouco não fez com que largasse tudo. Felizmente houve o resgate de sua obra em 1990 e ele seguiu em frente, sem nunca deixar de ser o artista extraordinário que é até hoje. Mas por uma situação mercadológica, ele poderia ter abandonado a música.

Eu sempre levei em conta minha própria experiência de consumidor e tentei fazer produtos competitivos, não só para o mercado brasileiro, mas o internacional também, sempre com uma preocupação com a parte gráfica e histórica. Sabia que os projetos reverberariam fora do país de alguma forma. Tive essa certeza quando uma pessoa me disse ter visto em Cingapura o CD do Edison Machado, da coleção Columbia Raridades, que fiz para a Sony em 2000. Eu esperava que fosse acontecer, até tinha conseguido alguns parceiros no exterior, gerentes de lojas, consultores que eu entrava em contato para avisar o que seria lançado, explicar em qual projeto estava trabalhando, e eles não só davam sugestões, como já compravam a coleção. Isso aconteceu em lojas dos Estados Unidos, com a Dusty Groove, e no Japão. Basicamente, o que eu estava fazendo era uma pré-venda. A partir de um determinado momento, passei a enviar as minhas listas para muitas pessoas. Recebi críticas muito boas, opiniões sobre o que vingaria ou não. Eu avaliava, às vezes ia em frente, às vezes alterava.

O Som do Vinil foi um caminho natural do seu trabalho, mas como ele surgiu, foi um convite, uma proposta?

Ele é uma consequência do meu trabalho. Recebi um convite do Canal Brasil para fazer um programa. O Paulo Mendonça (diretor presidente e o André Saddy (diretor de marketing) do Canal Brasil, e o Darcy Burger, produtor e diretor, me chamaram para conversar, dizendo que queriam fazer uma série e tinham como referencia o Classic Albums, programa que existe até hoje nos Estados Unidos. Eu não era apresentador e a minha única experiência com televisão vinha das entrevistas que dei como membro dos Titãs. No começo fiquei muito reticente em ir para a frente da câmera, mas disse que a gente poderia tentar, que eu teria que aprender como fazer. Eles me escolheram porque eu era um cara envolvido com a memória da música brasileira — além dos projetos de reedições, eu já havia produzido dois livros: um sobre a história das capas do LPs da bossa nova, junto com um grande amigo meu que já se foi, Caetano Rodrigues, e outro sobre uma proposta de discoteca básica, chamado 300 Discos Importantes da Música Brasileira com textos de Tarik de Souza, Carlos Calado e Arthur Dapieve, ambos em parceria com a Petrobras, que deu supercerto. O Som do Vinil começou, nem fizemos piloto, partimos direto para gravação – foram oito episódios no inicio. O primeiro foi com Raul Seixas, sobre o disco Krig-ha, Bandolo!, um programa difícil porque seu “protagonista” não estava mais aqui… A entrevista foi feita com a Kika Seixas e com pessoas que trabalharam com Raul. Também fizemos Secos & Molhados, com seu primeiro disco de 1973; Luiz Melodia com Pérola negra, Novos Baianos com Acabou chorare e o Clube da Esquina, De Milton Nascimento e Lô Borges, que acabou virando um programa duplo.

Foi um inicio bem diversificado, que incluiu desde discos de artistas que já não estavam mais vivos, como Raul Seixas, ou de grupos que tinham se desfeito, como Secos & Molhados, passando por um grupo como os Novos Baianos, composto por artistas que tiveram fortes carreiras individuais em seguida. Encontramos os mineiros ao fazer o programa do Clube da Esquina, e o trabalho único do Luiz Melodia em Pérola Negra.

Qual foi o balanço dessas experiências, os sufocos que vocês passaram e onde você acha que acertou mais?

O sufoco inicial foi aprender a trabalhar com televisão, que tem um timing bem diferente da indústria fonográfica. Um disco, você entrega quando termina de fazer, mas na televisão é preciso entregar nos prazos, de acordo com o que foi estabelecido. Percebemos que precisávamos de mais tempo para a edição quando nos deparamos com a dificuldade de produzir e editar as entrevistas, que eram longas – eu sempre fiz questão de conversar muito, haja vista o material que temos na internet e no livro a partir de agora. Nesses primeiros oito episódios, a produtora pensava que seria jogo rápido, uma entrevista de 20 minutos para cada convidado e já teríamos o programa. Só que eu não sou esse cara, não abordo os assuntos dessa forma, com pressa. Tive que explicar que era muita responsabilidade, pois eu estava falando da obra de pessoas, que eu admirava e era fã. O Canal Brasil compreendeu e disse que poderíamos ter todo tempo necessário para fazer o projeto. O primeiro episódio, do Raul Seixas, ficou muito bom, modéstia à parte. Apesar de só me tornar diretor do programa muito tempo depois, comecei a participar do processo de edição desde o início, por saber o que deveria permanecer e o poderia ser cortado.

O Canal Brasil gostou e pediu para fazermos mais episódios. Gravamos uns 30 programas, entre eles, Egberto Gismonti, João Donato e Paulinho da Viola — muita gente já nessa primeira fornada. O Som Do Vinil foi bem recebido pela crítica e emplacou na grade do Canal Brasil, tanto é que começou a ser apresentado às quintas-feiras e já na segunda temporada mudou para sextas, às 21h30, que é o filé mignon da programação.

Vamos aproveitar e dizer quem são essas pessoas que realizaram o programa?

Vamos lá. Paulo Mendonça, André Saddy, Darcy Burger e eu trabalhamos nesse formato inicialmente. Queríamos nos distanciar daquele programa, o Classic Albums, que foi a inspiração inicial. O repertório do Som do Vinil era discutido em reuniões no Canal Brasil e é feito dessa forma até hoje, quando escolhemos os discos que vão entrar e os convidados que vamos entrevistar.

Vocês tem retorno dos programas que geraram mais comoção?

Alguns programas realmente tocaram o coração das pessoas. Lembro que o do disco Os Mutantes e seus Cometas no país do Baurets, foi muito comentado. É uma banda cultuada e que quase não dá entrevista. Tentamos falar com o Arnaldo Baptista e sua assessora não permitiu, infelizmente. Mas tudo deu certo e o programa ficou bacana. Tivemos o Sérgio Dias, o Dinho e o Liminha contando como fizeram essa obra prima do rock brasileiro. Os do Clube da Esquina e Tropicália também tiveram ótima repercussão. Na verdade, o espaço que a música brasileira tem na televisão hoje em dia é pouco se levarmos em consideração sua relevância dentro da nossa cultura. Então programas como esse, que tratam do assunto com respeito, profundidade, curiosidade, se destacam.

Como a própria música brasileira, o programa é bem eclético. Acaba-se encontrando conexão entre personalidades musicais que nem se fazia ideia, entre o samba, o rock, o punk, a bossa nova. Para escolher um programa, quais são os critérios básicos? Obviamente ele tem que ter sido lançado em LP…

Sim claro, tem de ter sido lançado em vinil. No começo o critério era trabalhar com álbuns essenciais, clássicos. Ma depois da terceira temporada, sem perdemos esse critério de vista, passamos a escolher primeiro pessoas, bons contadores de histórias, e depois os discos. Dessa forma o programa melhorou muito, porque não necessariamente um disco importante dá um documentário interessante.

A pegada do programa é a diversidade de nossa música, não colocamos apenas o que gostamos, escolhemos pessoas importantes na cultura brasileira, sem julgamentos. Quando entrevistei o Odair José, que contou uma história de vida espetacular, não conseguimos agendar ninguém para falar sobre ele. A mesma coisa aconteceu quando fizemos um programa com José Rico e Milionário.

Uma das razões para o Som do Vinil estar aqui até hoje e possibilitar a produção deste projeto (o livro e o site) é que fizemos programas sobre Egberto Gismonti, Edu Lobo, Hermeto Pascoal, Moacir Santos, Tom Zé, Sidney Miller, Renato Borghetti, Uakti, passando por Claudio Santoro, Dori Caymmi e chegando até José Rico e Milionário, Sidney Magal e Odair José. A música brasileira é isso, é tudo isso.

Programas com discos, digamos, fora do cânone do bom gosto, rendem programas surpreendentes?

Sim, veja por exemplo o episodio com José Rico e Milionário. Na minha opinião é um programa para poderia ser apresentado até em escola, porque a história de vida deles é extraordinária e bastante educativa. A forma como eles aconteceram na música, a visão comercial que eles tiveram do mercado de disco, é sem dúvida uma tese de pós-graduação em marketing.

Na verdade a entrevista do José Rico e Milionário poderia ser exibida na íntegra. Quando gravamos, a entrevista é bem mais longa do que vemos na televisão, muita coisa boa fica de fora. O episodio é exibido, mas e depois? Acabou? Vai para o arquivo? Isso me sempre me incomodou.

Além de cobrir uma história fundamental para nossa cultura, ainda aconteceu de o programa registrar as últimas entrevistas na vida de alguns criadores.

Vou usar um termo da religião afrobrasileira: o entrevistador é uma espécie de “cavalo”. Quando estou entrevistando, incorporo a história da pessoa, acontece comigo toda vez em que sento ali para bater papo. Foram vários episódios em que eu quase fui às lágrimas por conta de que foi contado, como a do Odair José, que veio de Goiás sem nenhum dinheiro no bolso, desceu no centro do Rio de Janeiro, tentou mostrar suas músicas nas gravadoras, foi mal recebido e como não tinha onde ir, foi dormir na porta do Theatro Municipal. Quando acordou, tinham levado seu violão. O Zé Ramalho também veio sem nenhum dinheiro para o Rio de Janeiro e acabou dormindo na praia algumas vezes, comeu o pão que o diabo amassou para chegar onde chegou.

Já na entrevista que fiz com o Egberto Gismonti, o nível da conversa foi tão intenso que era quase como se eu estivesse fazendo um mestrado em administração de carreira. A visão dele do negócio, sem nunca de desvencilhar da arte em si, era muito instrutiva, interessante, o que tornava mais especial ainda sua postura como artista. Uma frase dele me marcou, eu repito sempre nos eventos que me chamam para falar: “o músico antes de aprender a tocar o instrumento tem que saber tocar a vida”. Ela resume bem as questões de nossa profissão. Não adianta o cara  ficar só, tocando seu instrumento em casa. Ele tem que aprender o que deve fazer para viabilizar sua carreira.

Voltando a sua pergunta, na temporada 2013, a primeira entrevista feita foi com o Emílio Santiago. A gente não se conhecia pessoalmente. Quando ele chegou, percebi que estava um tanto reservado. Mas ao longo da conversa, ele foi se soltando e nós falamos durante duas horas, foi uma entrevista fantástica. Quinze dias depois ele teve o AVC e veio a falecer mais à frente, exatamente no dia em que estávamos na ilha de edição, finalizando seu episódio, uma situação muito difícil. Fiquei muito emocionado.

E tem uma coisa que ajuda muito também, que é o fato de eu não ser jornalista, mas músico. Isso me aproxima, faz com que eu já parta de um ponto comum com quem estou falando. Problemas que o artista passou com sua gravadora ou com o empresário, disco que não vende e música que não toca no radio – são situações que eu vivi durante 25 anos nos Titãs, é um universo que conheço bem. Então quando sentamos para conversar, não dá para perceber que é entrevista, é um bate-papo entre amigos.

Como você acha que o Som do Vinil vem cumprindo esse papel de resgatar acervos e garantir a preservação da memória da música brasileira? Qual é a sua perspectiva nesse momento, o que você acha mais urgente ser registrado no programa?

A seleção dos discos da cada temporada é feita por uma espécie de conselho formado por mim, Paulo Mendonça e André Saddy do Canal Brasil, e a Gabriela Gastal (da Samba Filmes, que divide a direção do Som do Vinil comigo). A gente se reúne meses antes do inicio da produção dos programas, cada um vem com suas sugestões, preferências. O processo de seleção é democrático. Mas depois depois de escolhermos uns quarenta discos mais ou menos, fechamos a lista, o trabalho segue sem nenhuma interferência por parte do Cana Brasil. Temos liberdade artística total.

E por mais que você pense que já falou com muita gente, que está chegando perto do fim, lembramos desse e daquele disco que ainda não falamos. É sempre assim. Fica evidente que a música brasileira é um manancial de cultura inesgotável. Quanto mais abrimos o nosso leque de possibilidades, mais encontramos gente com histórias interessantes para contar e que, por uma série de razões, até hoje só se tangenciou essas histórias. O objetivo do programa é exatamente esse, aprofundar as questões.

Esse acervo que está sendo formado ao longo de anos tem que ser compartilhado, disponibilizado. Uma das coisas que a gente sempre fala e que não sei se vai acontecer, é que talvez um dia a gente faça um filme com o acervo do Som do Vinil, um longa metragem, em formato de documentário, refletindo sobre a música brasileira e discutindo todas essas questões que são abordadas.

O programa Som do Vinil e seu acervo pertencem ao Canal Brasil. Acho que seu papel, sem dúvida nenhuma, está sendo cumprido. O Paulo Mendonça costuma dizer que o Canal Brasil é o canal dos artistas. Se ele acredita na sua ideia, acredita que ela vai ser bem realizada conforme o combinado, o projeto será do seu jeito, terá a sua cara. Existe uma relação de confiança entre todos nós. Ele sempre diz que estamos que mapeando a música brasileira. Acho que é isso que é o que estamos fazendo mesmo, mas é uma missão que não terá fim.

Da onde surgiu essa necessidade de dar novos registros ao Som do Vinil, que tragam mais alcance e também mais profundidade ao material das gravações? O que você pretende com a publicação no site?

A minha necessidade de compartilhar música e tudo que existe ao redor dela vem lá de trás, já existia no primeiro projeto que fiz, nas reedições dos discos. Fizemos entrevistas fantásticas ao longo desses anos, com a colaboração de todas as pessoas que passaram pelo Som do Vinil. Mas do que adianta termos esse imenso acervo, se ele está guardado? O Som Do Vinil não só sobre música, mas sobre tudo, sobre a história do Brasil… Sempre  falamos nas nossas reuniões que aqui a história da música brasileira é contada por quem a fez.

Basta lembrar um programa que fizemos sobre o disco O banquete dos mendigos. Nesse episodio temos os incríveis Jards Macalé e Jorge Mautner. Mas tivemos tambem o Bruce Henry, que gravou o show, o Ivan Junqueira, que leu no palco a Declaração Universal dos Direitos Humanos e Ferreira Gullar — a entrevista com o Ferreira Gullar, foi muito especial pra mim. Foi diferente do que sempre faço que é conversar com companheiros de profissão, pessoas que eu amo e admiro. Mas com o Ferreira Gullar foi diferente – estava entrevistando um dos maiores  nomes da língua portuguesa. Além de falar sobre o disco O banquete dos mendigos, ele nos contou suas lembranças do golpe de 64 e também sobre o periodo que veio depois disso, o da ditadura militar. Foi um depoimento histórico.

Eu sei que esse conhecimento todo precisa ser compartilhado, merece estar ao alcance de qualquer pessoa. Eu acho que este projeto é oportuno porque vai resgatar uma boa parte do acervo do Som do Vinil, transformando as entrevistas em texto, gerando num grande banco de dados que vai para internet. Uma parte dessas entrevistas está saindo em livro –  foi uma idéia genial do Geneton Moraes Neto, que, num bate papo numa esquina do Leblon, sugeriu que eu fizesse um livro com este conteúdo, porque, segundo ele, quando se faz em livro, fica para sempre. Concordei imediatamente, percebi que teria que ser assim. Mas fiquei pensando que também seria interessante se pudéssemos ter outra ramificação no projeto e a ideia de produzir um site veio naturalmente.

Ao ser lançado em livro e na internet, o projeto também eterniza o trabalho de toda equipe que trabalhou e que trabalha no Som do Vinil. Na primeira fase o programa foi produzido pela Bravo, com o Darcy Burger, que é quem começou a dirigir, e André Braga, o produtor-executivo. Não me lembro bem, mas entre a segunda e terceira temporada eu já estava solicitando o crédito de diretor do programa, porque já estava exercendo essa função. Cinco anos depois, achei que era o momento de revigorar a produção do Som do Vinil e o programa passou a ser feito na Samba Filmes. Hoje ele é dirigido por mim e pela Gabriela Gastal, e a produtora executiva é a Gabriela Figueiredo. Nosso homem-pauta, o jornalista com todas as informações da música brasileira, nosso Google, é o Tárik de Souza.

Estamos num primeiro momento do projeto e espero conseguir chegar numa segunda fase, para colocar mais entrevistas no site. Isso vai ficar lá para quem quiser pesquisar ou simplesmente ler e se divertir. É como já disse, o projeto tornará o acervo do programa acessível.

No Som do Vinil, você teve a oportunidade de entrar em contato com artistas que te marcaram desde aquela época? A experiência de compartilhar LPs, que você viveu durante a adolescência, será ampliada agora com os recursos da internet?

Não é a toa que o vinil sobreviveu no meio dessa revolução digital –  é um objeto muito mais interessante que o CD e o MP3, obviamente.

Quando eu estudava no colégio, em São Paulo, dava para gente identificar a que tribo fulano pertencia pelos discos que ele carregava. O LP era uma forma de você se mostrar, de se exibir, era um cartaz, um outdoor de si mesmo. E assim a gente ia criando nossas referências e heróis.

No meio desse ambiente, comecei a me interessar por música de uma forma mais séria, em duas vias. A primeira era a do rock nacional, com o primeiro LP dos Secos & Molhados — em 1973 qualquer garoto que se prezava tinha que ter esse disco. A segunda via era a do rock britânico, muito forte em São Paulo na época. Ouviamos rock progressivo, hard, heavy, psicodélico e por aí vai, eu nem tocava bateria ainda. E assim fomos criando um grupo de amigos, de gente que compartilhava seus LPs, que se reunia para ouvir e analisar faixa por faixa, escutando um lado inteiro direto, sem parar. Essa era nossa diversão nos finais de semana.

Eu me lembro que vi o disco Academia de danças na mão de um dos caras mais velhos do colégio, que já estava se formando, e gostei muito da capa. Tomei a atitude de ir falar com ele porque já o conhecia do futebol. Perguntei que tipo de música era aquela e ele respondeu que eu tinha que ouvir pra entender, que era algo que eu precisava ter.

Não consegui que emprestassem aquele disco, mas um tempo depois consegui comprar o LP num sebo – essa foi a minha entrada num outro universo, que anos mais tarde me levaria ao jazz, à MPB, ao samba, à bossa nova. Se não fosse esse disco, o Academia de danças, eu poderia ter ficado só no rock, vai saber… Ele abriu minha cabeça, definitivamente. Comecei a gostar de jazz. E de lá eu fui para a música clássica e bem mais tarde para o samba-jazz e depois ainda para a bossa nova – e bossa nova e rock são gêneros que “supostamente” não convivem em harmonia, mas essa é uma dos grandes qualidades de ser brasileiro, a gente convive com tudo, mistura tudo. O músico brasileiro é fruto disso.

Mas voltando ao assunto – esse ambiente de compartilhamento da música, com todo mundo ouvindo junto, no mesmo espaço, discutindo, trocando ali os discos que haviam sido recém comprados na loja (espaço indispensavel na minha geração) está descartado hoje. O baterista da banda The Roots, Questlove, afirmou que precisamos aceitar o fato de que a internet hoje é o lugar onde tudo acontece, que aqueles tempos em que você ia numa loja de discos com os amigos vão existir somente em nossa memória. E navegar na internet é como estar num oceano sem bússola. Para sabermos onde podemos ir, é precisamos de curadoria. Esse músico norte-americano defende isso, que diante da imensidade da internet, a curadoria nunca foi tão importante quanto é hoje. O que estamos fazendo com o Som do Vinil, bem ou mal, é isso.

Projetos como o este, que vêm nessa direção, vão mostrar como é possível, hoje, o compartilhamento.