Alceu Valença | MOLHADO DE SUOR | Som Livre, 1974

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Primeiro disco solo de Alceu Valença — depois da estreia com Geraldo Azevedo em Quadrafônico em 1972, e da participação no filme e na trilha sonora de A noite do espantalho (1974) — Molhado de suor, de 1974 apresentou o artista ao grande público, e logo teria uma segunda tiragem editada para incluir a enérgica “Vou danado para Catende”, que fez sucesso no Festival Abertura, em 1975.

O LP cristaliza a ancestral influência de Alceu (“sou fruto da cultura de minha terra, das violas, dos cantadores, dos violeiros, dos pastoris lusitanos; dos frevos e blocos, do maracatu, negro; e da coisa moura”) e a moderniza para tratar de ecologia, repressão e paixão. “Meu lado mais doce, onde procuro  transparências. Um lado onde o poema é mais leve.  Molhados de Suor é assim. É o disco de paixão, de uma paixão vaporosa.”

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FAIXAS

BORBOLETA
Alceu Valença
PUNHAL DE PRATA
Alceu Valença
DIA BRANCO
Alceu Valença
CABELOS LONGOS
Alceu Valença
CHUTANDO PEDRAS
Alceu Valença
MOLHADO DE SUOR
Alceu Valença
MENSAGEIRA DOS ANJOS
Alceu Valença
PAPAGAIO DO FUTURO
Alceu Valença
DENTE DE OCIDENTE
Alceu Valença
PEDRAS DE SAL
Alceu Valença

FICHA TÉCNICA

Produção
EUSTÁQUIO SENA
Arranjos
ALCEU VALENÇA, GERALDO AZEVEDO, JOÃO CORTEZ
Arranjos de cordas
WALTEL BLANCO
Mixagem
CÉLIO
Viola e baixo elétrico
CÁSSIO
Viola e craviola
GERALDO AZEVEDO
Bandolim e craviola
PIRI
Tricórdio
LULA CÔRTES
 Bateria
JOÃO CORTEZ
Percussão
HERMES CONTESINI
Flauta
RONALDO

Formação e começo da carreira

Still frame

A minha infância foi dividida entre São Bento do Una, que era uma cidade que tinha 5 mil habitantes, não tinha uma estrada que fosse para lá. Uma aldeia perdida no tempo, com 5 mil pessoas, quase sempre meus parentes mesmo, cinco ou seis famílias. E na fazenda havia chão. É ali onde a minha formação vem dali. São Bento. Os aboiadores …
Gira o mundo, roda vida.. tudo é puro movimento. Corre o sol atrás da lua, o destino atrás do tempo. Roda o carrossel da vida, nas volta do catavento… ê, ê, ê… saudade!
E também tinha a voz do serviço de auto falante do Cine Rex, onde tudo o que é de música. Luiz Gonzaga: “Carolina foi pro samba, Carolina, pra dançar o chenhenhém…”; Silvio Caldas: “Há sempre um vulto de mulher sorrindo em desprezar nossa mágoa…” Orlando Silva: “Meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê…” Aí dentro da feira de São Bento eu via os emboladores, cantando de pandeiro. …Olha aí, pode gravar! [improvisa] “…E pode gravar se for pra televisão, não cobro nenhum tostão se o programa for pro ar.. essa moça…” Pronto, sai por aí. E um violeiro cantando: “…Hoje é dia de feira, na cidade de São Bento!” O outro: “Tem camelo e boi assado, colorau, cebola, coentro!” Essa coisa entrou na minha formação. No serviço de auto falante tinha esses artistas que vinham do rádio, que já era a voz do rádio, mas que não fazia muito minha cabeça, não. Lá de São Bento o que ficou mesmo com mais força foi essa coisa da música da terra. Isso que marcou, marcou minha obra com mais força. Se bem que a outra coisa também marcou, mas sobretudo isso. A coisa mais mourisca a música nordestina, vamos dizer assim.

Deve ser medieval. Aquilo é uma cultura medieval. Eu acho que deve ter vindo da Europa isso… [de cantar enquanto trabalha, do vaqueiro, do aboio]. Os cegos trovadores, também uma coisa medieval, vêm da Europa. Existe na nossa formação, que é sobretudo negra, africana na matéria do ritmo. Ela é europeia na matéria das melodias, ou moura, um pouco lá da Africa do Norte. E ela é indígena, está presente dentro das bandas de pife, aquelas coisas vêm dos índios. Mas sobretudo é europeia, é mora, é portuguesa. Essa mistura deu na música brasileira. Esse tipo de música só existe aqui no Brasil. Essa mistura deu um produto totalmente brazuca.

Meu avô Orestes tocava violão, sabia ler música. Tocava bombardino. Tocava viola e fazia versos. E ele era engraçado, com meu tio Lucilo, que tocava violão também. Mais serestas, mais músicas de Noel, coisa mais assim. Inventaram de fazer um folheto chamado “Patativa e Azulão”. Tiraram retrato como se fosse dois cantadores e fizeram lá um folheto. Gostavam de cantar. Claro, não era uma coisa profissional, mas tinha qualidade pra ser profissional. Muito bom. E os outros filhos, os meus tios, tocavam violão. E, por lado de minha mãe, tio Nô tocava violino e meu avô Adalberto, por parte de mãe, gostava muito de música. Ele era uma das poucas pessoas que tinha a tal da radiola dentro de casa. Mas ele tinha discoteca super variada. Ia do clássico a Luiz Gonzaga, Orlando Silva, tudo estava lá. Mas no sótão da casa de Tatão aí eu ouvia era:

“… ai, ai que saudade eu tenho da Bahia. Ai se eu escutasse o que mamãe dizia. Bem, não vai deixar a sua mãe aflita, a gente faz o que o coração dita, mas esse mundo é cheio de maldade, ilusão…”, “Ai… dom, dom, dom…”.

O meu pai, a família de meu pai é super musical. E meu pai não é, o meu pai era desafinado. Então o filho de Décio não podia ser afinado. Então eu ia naquelas serestas, pequenininho é claro, e tentava, mas não davam vez pra eu tocar. Tinha as minhas primas que eram um pouquinho mais velhas do que eu. Eram afinadíssimas e faziam vocais, vocalizavam o samba, as coisas todinhas e não dava pra mim, não sobrava pra mim. E o meu avô Orestes uma vez estava tocando lá com um pessoal e, de repente, tinha um tal de um melê. Melê é um bombo com uma feito com borracha de câmara de ar, tá certo? E vi aquilo, achei bacana, fui tocar. Aí eu, tuc, tuc, tuc… eles estavam tocando lá a música no ritmo. Eu batia: tim, tim, tim.. eu estava querendo ver como é que fazia aquilo, mas não estava muito interessado na música dele, estava interessado no melê. Aí meu avô olhou assim e disse: “Fulana! Chama Madalena aí pra tocar porque esse menino não tem compasso, tem ritmo, não”. Maior trauma musical da minha vida! Eu sei que tenho ritmo. Rapaz… quando penso no meu avô eu caio. Quando eu penso nessa história eu atravesso, eu saio do tempo. Ficou marcado isso. Foi sem querer, evidentemente, e eu realmente não tinha nada que estar ali tocando um negócio que não tinha nada a ver com a música.

Estou contando a minha história até onze anos. Aí fui para o Recife. Eu sempre fui meio estrangeiro. Em todo canto que eu sou, eu sou estrangeiro, nunca sou de tal canto. E atualmente ainda mais, que eu sou viajante, então eu sou estrangeiro em qualquer parte. Quando eu cheguei no Recife eu era tido como matuto, sertanejo, eu era tido como um cara do interior. Na música, naquele momento, Luiz Gonzaga estava em baixa, o rádio não tocava mais Luiz Gonzaga, estava na decadência. Depois ele subiu novamente. O que tocava na rádio era Nelson Gonçalves: “… boemia aqui me tens de regresso e suplicante eu lhe peço a minha nova inscrição…” Aí tinha aquela “… devolvi o cordão e a medalha de ouro e tudo…” . Era Núbia Lafayette, Cauby Peixoto, “… Conceição eu me lembro…”. Esse tipo de música não me interessava muito, porque eu gostaria de ouvir Luiz Gonzaga, minhas coisas. Mas na minha rua ficava meio proibido ouvir as minhas coisas. O Recife era a capital do frevo, lá adquiri muita coisa do frevo, do maracatu, dessas coisas populares, porque passavam na minha rua, a rua dos Palmares. Eu morava vizinho ao grande maestro Nelson Ferreira. E vizinho de Maria Parisi que era uma cantora lírica, e na frente o poeta Carlos Pena Filho. Essa rua era uma rua da arte! Mas essa arte não englobava arte interiorana. Pois bem, fiz amizade com um menino da rua chamado Edinho e com Bob. E esses meninos gostavam de fazer dublagem. E então na casa de Edinho tinha uma radiola. E eu proibido de fazer música. Meu não queria de jeito nenhum, porque ele achava que a gente ia virar cachaceiro com música, tinha aquele preconceito com músico e tal. E aí fui na casa de Edinho e fui apresentado ao Elvis Presley, ao primeiro disco de Elvis Presley. E eles faziam dublagem, e não me deixaram entrar no grupo de dublagem, eu ficava lá observando a história todinha. Eu não sabia inglês, eles já sabiam inglês, e como eles já sabiam inglês, eu era matuto. Ficava observando aquilo. Foram dois discos de Elvis Presley que entraram na minha cabeça. E eu comecei a fazer uma relação de Elvis Presley com o Luiz Gonzaga. Porque as duas músicas, a de Elvis Presley, que é a música negra americana, ambas vieram das cantigas de trabalho, como o blues também. São perguntas e resposta de trabalho. Por exemplo, tem o homem “…Juazeiro, juazeiro me arresponda por favor, juazeiro velho amigo, onde anda meu amor?” E as mulheres: “Ai, Juazeiro ela ainda não voltou, diz Juazeiro onde anda meu amor…” Elvis ou Ray Charles, “…I can’t stop loving you…” São toadas. Essa história começou, não tinha ritmo nenhum. Isso é música de cantiga de trabalho, chama-se cantiga de adjunto. Então na colheita de algodão, tanto no Mississipi e aqui no São Francisco, é tudo a mesma coisa. Aí começam a entrar os elementos rítmicos e depois a sanfona. Aliás, lá também foi a sanfona, mas depois vieram guitarras etc. Então essas duas coisas vêm de culturas básicas. Da americana vem, digamos, a religião, o piano, a europeia mais a coisa negra. Basicamente as duas coisas. Bem, quando eu vi isso então entrou em mim essa musicalidade do Elvis, dos dois primeiros discos dele. Depois eu achei uma coisa ridícula. Elvis Presley ficou ridículo. Em O cantor de Acapulco está um ser ridículo, com uma roupa ridícula e que não tem nada a ver com o início da carreira dele. Gosto das coisas do Blues. Não ouço muito, porque não sou chegado a disco, porque houve uma proibição lá em casa assim, velada, com medo da minha musicalidade. De eu querer ser artista. O outro é Ray Charles que eu acho uma coisa fantástica, maravilhoso.

A partir daí comecei a ver muito cinema, na época da Nouvelle Vague. Diziam que eu parecia com o Jean-Paul Belmondo, e eu era muito mais bonito que Jean-Paul Belmondo. Comecei a namorar todas as meninas do Recife, por causa de Jean-Paul Belmondo. Me chamavam de Jean-Paul, eu fiquei sendo Jean-Paul. Então o feio, que eu me achava muito feio, de um galã feio, fiquei sendo bonito. Então foi uma coisa maravilhosa. Daí passei a jogar basquetebol. Comecei jogando basquete e a música saiu da minha cabeça. Não quis mais saber de música. Só era jogar basquete, cheguei a ser seleção pernambucana. Aí parei, porque era muito pequeno, não dava. Fui jogar com os Globetrotters, eu passei por debaixo da perna de um deles. Aí veio a faculdade. Na faculdade aí era política, sobretudo política, me interessando por política.

Eu fui preso uma vez, para intimidação. Estávamos comemorando a eleição do diretório fomos para um bar, bebemos muito. O bar ia fechar. Umas pessoas que tinha carro foram para outro bar e um amigo meu, Jones Melo, poeta e ator, inventou de botar uma cadeira na cabeça pra passar a chuva. Que estava chovendo e ele queria ir pra outro bar, que ficava longe. E no meio ele inventou de declamar as “Catilinárias”. Então fiquei agarrado aqui no ombro, quatro pessoas levando o cara de madrugada, no centro do Recife. Isso aí terminou caindo no departamento, no Dops. A gente tinha falado pro dono do bar que ia levar essa cadeira para o diretório em comemoração a nossa vitória e ao mesmo tempo pra poder passar a chuva. Papo de bêbado. E quando chegamos lá prenderam a gente. Levaram pro Dops e a gente passou a noite lá em cana.

Era uma intimidação, porque fazíamos parte de um grupo de esquerda que ganhou o diretório. Estavam a fim de um motivo. Então eles pegaram a gente, levaram pro Dops, foi uma loucura. Era simplesmente uma intimidação. Usaram o argumento da mesa, eles diziam que a nós tínhamos roubado uma mesa. E diziam: “universitário tá todo metido a merda. Vocês roubaram, vocês são ladrões. Então vão ficar com os ladrões.” Foi essa história. Era só intimidação. Porque o fato não era político. E foi engraçado, porque tinha um cara perto de mim, Chico de Assis, que foi preso com a gente, que estava na clandestinidade. Mas ele passou, não o pegaram ele, não descobriram. Foi a única vez, mas muitos amigos meus foram presos. Muita gente mesmo. Morte que só uma loucura.

 

Fui fazer Direito, por obrigação de fazer, de me formar para meu pai. Meu pai queria de qualquer jeito que eu me formasse. E eu não tinha muito condições pra ser nada, também. Terminei fazendo vestibular e comecei a seguir Direito. Era época da ditadura, então vinha a política. Nessa época começam os festivais universitários, e eu comecei a fazer música. Teve uma hora que eu tinha cinco músicas no festival. Cinco músicas para a final, minhas. E cada uma era uma coisa. Umas tinham influência dos meus tios de lá… “… a minha amada…” ou seja, chorinho. Outra música era mais desafio. “… a tristeza que se aguente, lindo é o dia que virá…”, já para o lado de Luiz Gonzaga. Várias coisas iam saindo daí. Continuei na faculdade de Direito, naquele ambiente de medo terrível, mas fui trabalhar em jornal. Fui trabalhar no JB e consegui colocar 3 músicas no balaio do Festival Internacional da Canção. E eu vim pra o Rio para o festival, em 1967, 68. Eu vim, mas nunca tinha cantado. Eu não sabia que existia tempo em música. Ou seja, sabia que existia os compassos de espera. Eu não entendia o que era que era isso. Sim, eu ganhei um violão de minha mãe, mas ninguém me deu professor. Eu aprendi por mim mesmo, meu violão é limitado por causa disso. E eu me acompanhava sabendo, ia atrás… Eu estava cantando, então podia cantar uma música no tempo que eu quisesse. Essa questão de você dividir uma música em dois, em três, isso é uma questão que eu acho que foi feita para que as pessoas toquem junto. Porque eu posso estar cantando, por exemplo: “… a seca fez eu desertar da minha terra, mas felizmente Deus agora se alembrou… de mandar chuva…”, entendeu? Fazer no tempo que eu quiser.

Lá no Recife quem fez o arranjo de uma música foi Duda. Era uma mercês, acalanto. “… minha amada só na tarde veste rosa ou amarelo. Uma rosa no cabelo e seu porte tão singelo. Passeando nas calçadas, leva a dor do meu sorriso…” [“Acalanto para Isabela”] Mas eu cantava aquilo de uma maneira tão livre, eu não estava acostumado a cantar com ninguém. Duda e Cláudio Pereira diziam: olha, você pode ir que a gente vai acompanhando, entendeu? Faça o compasso que você quiser. Então não tinha ritmo, era só cordas. E aí eu ia e pronto. E eles iam me acompanhando, pra onde eu fosse eles iam.

A primeira música que fiz, foi uma versão de Roberto Carlos. Apesar de ele ser um grande cantor, nunca fui fã da Jovem Guarda. Era interessante, mas eu preferia o programa da Boa Saudade, preferia ouvir Jobim nessa época. Os sambas eram uma das coisas que mais me atraíam. Mas foi justamente com uma música de Roberto Carlos, não é dele a música, parece que é uma música americana [“Susie”]. Fiz uma versão para uma namorada que me deu um fora.

“… o time que eu treinava tinha um broto encantador. A primeira vez que a vi pensei logo em amor. Olhei muito pra menina, mas de nada adiantou. É um broto tão difícil, nem deu bolas, nem ligou. Mesmo assim continuei insistindo na jogada, porque dela eu era apenas um grande camarada. Seu nome é Fátima e é um amor, pra ela sou apenas um bom treinador. E iê, iê, iê! Já fiz tudo que podia pra lhe chamar a atenção… Já fiz tudo que podia para despertar sua atenção. Já acertei um arremesso de fora do garrafão. Já entrei numa bandeja com uma pose extravagante e comprei por três mil pratas uma calça, um elefante. Ensaiei devagarinho, não dirijo, ando a pé. Me encontrar com um brotinho na porta do São José. Foi aí que a esperança começou em mim nascer, quando no estádio do Sesc vi o brotinho aparecer. Parei… tum, tum, tum, tum, me aproximei, conversei, resultado: me atrapalhei. Foi o fora mais bonito que até hoje já levei…”

Foi a primeira, mas eu to descrevendo o fora que eu levei. Eu devia ter uns 16 anos, 17, 16 anos. Ela deve ter a minha idade, cinquenta e tanto, um pouquinho mais nova. Então ela pela primeira vez vai ouvir a música que eu fiz pra ela, mas que nunca mostrei.

Antes de fazer música, na faculdade comecei a escrever poemas, comecei a publicar poemas nos domingos. Meu tio Rinaldo voltou de Brasília, onde estava trabalhando. Eu o adorava e adoro. Ele tocava violão, chegou com um chorinho chamado “Candango Sofredor”. Quando ele me mostrou, peguei um papel e fui botando o choro. Porque o choro era pequeno, bem pequenininho.

“No meu chorinho vou cantar toda ternura e a desventura de um amor que foi tão grande e não passou. Pra se encantar peço ao amigo um cavaquinho, estou sozinho e peço pelo amor. Já possuindo meu chorinho amizade, sei que é maldade lhe contar do meu tormento. Choro no quadro, choros encorpados na limitação do tempo da canção.”

Escrevi para a música dele. Daí em diante eu comecei a escrever para as minhas próprias músicas.

Quando eu comecei a fazer poema já estava lendo Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos. Fernando Pessoa. Poetas da terra, Carlos Pena Filho, meu vizinho. Manuel Bandeira. Ascenso Ferreira. A primeira noção que eu tive foi com meu tio Geraldo Valença, um grande poeta. Eu não sabia o que era poeta, fui passear com minha mãe no Recife, estava com 11 anos, mas não sabia muito o que era poeta. Aí vi um cara, bem grande, com um chapelão na cabeça, engraxando sapatos. Perguntei: mamãe quem é aquele cara maluco ali? E ela falou: é o poeta Ascenso Ferreira. Aí eu fiquei pensando que pra ser poeta tinha que ter paletó, engraxar sapato e usar chapelão. A noção de poeta pra mim foi isso, era uma figura que tinha que andar mais ou menos desse jeito. O Carlos Pena ainda não tinha se mudado pra frente da minha casa. Depois eu já sabia que um poeta podia usar um terno branco, ser uma pessoa mais normal como era Carlos Pena Filho.

Vim pro festival no Rio de Janeiro, cantei. Não aconteceu nada. Voltei pro Recife e terminei meu curso de Direito. Eu estava trabalhando na sucursal do JB, já estava pra ser admitido, mas aí veio a lei de regulamentação da profissão de jornalista. Eu não tinha cinco anos de trabalho e nem estava cursando a faculdade. Não pude ser aproveitado, fiquei na rua da amargura. Terminei o curso e, de repente, já estava com a música. E resolvi fazer um show, um show em Recife, uma loucura tão grande o meu show. Meu primeiro show, “Erosão, a cor e o tempo”, que, aliás, foi dividido com um paulista chamado Ibanez. Esse camarada passou lá em Olinda e a gente fez esse show junto. Show junto, não, a gente dividiu o palco, ele fazia o show dele e eu fazia o meu. O show era tão maluco que meus amigos da faculdade já não me reconheciam. Achavam que eu era doido e aí o doido não podia mais ficar na cidade. E aí eu resolvi vir para o Rio tentar minha carreira de artista, aqui, de músico. Mas ainda vim com carta de apresentação pra poder arranjar emprego aqui , e não consegui emprego. Mas aqui, na casa de um grande amigo meu, Wilson Lira, encontrei Geraldo Azevedo. E eu era muito tímido com relação as minhas composições, com relação a minha musicalidade, mesmo porque eu tinha uns traumas. E aí Geraldinho adorou minha música. Eu era fã de Geraldinho, Geraldinho já era músico lá no Recife. Eu o ouvia num programa de televisão e era fã dele. E aí Geraldinho: “rapaz, eu gostei das tuas músicas, você canta bem e tal”. Eu: “como é que é rapaz?” Eu pensei: “se Geraldinho gostou dá pra ir tentando”. Terminou eu ficando parceiro de Geraldo Azevedo e de um outro rapaz que morreu, Paulo Guimarães. Todos pernambucanos. A gente começou a fazer música juntos, e terminou eu fazendo um disco em parceria com Geraldo Azevedo. Um disco quase uma dupla. Não é uma dupla mesmo, porque a gente canta poucas músicas juntos. Mas era uma oportunidade que surgiu pra gente e a gente mostrou os dois trabalhos e pronto.

Quadrafônico, Festivais, Rock, Forró

Papagaio do futuro

Eu tinha participado dos festivais do Recife universitário. Eu tinha participado do Festival Internacional da Canção em 68. Eu depois, quando eu vim pro Rio, participei de um festival Universitário de São Paulo, onde não me deixaram cantar. Participei de um festival Universitário no Rio e Lúcio Alves falou: “você não vai cantar”. Eu disse: “Por quê?” “Porque não dá.” Disse: “Como é que não dá? Rapaz, eu deixei Direito, deixei Jornalismo pra ser cantor. Meu amigo eu vou é cantar a minha música. Deu uma confusão da gota, terminou eu cantando uma música. Lúcio Alves botou Os Lobos para cantar uma música minha, era um bom conjunto, e botou uma outra com outro grupo que eu não me lembro. Eu só sei que eu fui ver a apresentação de Os Lobos, que era um bom conjunto, mas o cantor se esqueceu da letra. Ele esqueceu na hora da letra e começou a imitar aquele cara da “BR 3”. O cantor começou a inventar uma outra música que não era, porque ele esqueceu da letra. Aí eu falei: eu não quero mais participar de festival.

Participei também, de forma traumática, do Festival Internacional da Canção, com a música “Papagaio do Futuro”, com Jackson do Pandeiro. Éramos eu, Geraldo, Jackson e o conjunto Borborema, que o acompanhava. Quando chegamos pra gravar, ensaiar Jackson disse: “olhe, a gente está atravessando daqui, estamos atravessando porque está longe. Aí um tal de Faya, que era o rapaz que cuidava do som da Globo chegou e falou: chama o Hans. Aí vem Hans. Um técnico da Alemanha. Aí traduziram. O Hans dizia: que dava para ouvir, porque o som era assim e assado. E Jackson disse: “olhe, diga pra esse galego que é o seguinte: o som da sanfona está longe da gente. Quando começar o show a gente não vai ouvir isso aqui. Agora, se eu tivesse plugado o som da sanfona, aí eu ia ouvir através dessa caixa. Mas se não está plugado não dá, se tivesse plugado diga a ele que podia ouvir da Alemanha na mesma hora, mas vai atravessar.” Foi dito e feito, na mesma hora que a música, que começava em dois e depois passava para três. “… estou montado no futuro indicativo, já não corro mais perigo…” Então: “… quem sabe, sabe, quem não sabe sobra…” Quando a gente chegou na segunda parte a banda estava tocando ainda a primeira. Deu tudo errado. A gente cantava uma parte e eles tocavam outra, ninguém ouvia nada. Isso deu também problema com várias pessoas. Inclusive com Sérgio Sampaio. Mas eu era muito tímido e fiquei na minha. Não gostava muito de brigar, só com o Lúcio Alves naquele momento. Porque quando eu fico com raiva, eu me transformo. Fiquei na minha. E Jackson disse: “eu quero falar com a imprensa”. Aí vem a imprensa e Jackson dizia: “olhe, eu quero dizer que eu não atravessei. João Gilberto, se vocês querem saber, já disse que eu sou o maior ritmo do Brasil. E eu não atravessei. Foi culpa do Hans! Foi culpa desse alemão! “ E nesse momento passou Sérgio Sampaio também correndo atrás da história dele pra poder dizer que ele não tinha atravessado, também. Eu não reclamei nada. Rogério Duprat votou e disse que a única coisa que prestava no festival era aquela música, uns três ou quatro ainda votaram em mim. Aí quando eu vou saindo lá vem Simonal e eu fui dar a mão a ele. Só que Simonal ficou pensando que eu ia reclamar. E disse: “olha, o negócio é o seguinte: nem me venha a reclamar, o nosso júri é o mais honesto e popular que existe”. Eu digo: “eu não tô reclamando!” Ele disse: “eu não quero papo!” Quando ele disse assim, a minha mulher, que ia chegando olhou pra ele e disse: “mas, rapaz, você é muito pretensioso. Olhe, sabe o que vai acontecer? Você está falando desse jeito com essa rispidez com esse ele, porque ele não é sucesso e você está nos píncaros da glória. Sabe o que vai acontecer? Ele vai subir para os píncaros e você vai descer.” Rapaz, parece que foi uma boca de praga, que logo depois inventaram que Simonal era dedo duro e ele dançou. Então eu já estava traumatizado de festival.

Vou danado pra Catende

Aí chegou um amigo meu de São Paulo, compositor de “Banho de cheiro”, Carlos Fernando, e estava fazendo uma gravação com Geraldo Azevedo. Eu fui lá, quando eles terminaram a gravação, toquei por tocar e gravei uma música minha lá e fui embora. Voltei pra casa. Não é que a minha música passou. Eu disse: eu vou fazer a minha banda do Recife. Porque no Recife eu vou ter tempo de ensaio, eu sei onde é que eu posso ensaiar. Bem, aí eu fui pra lá, peguei Lula Côrtes que já era meu amigo, já tinha feito a capa do meu disco e tinha participado do meu disco Molhado de Suor. Peguei Zé Ramalho, que namorava com a irmã da minha namorada. Icinho era um baterista que tinha vindo para o Rio comigo na primeira vez, pra tocar bateria. Icinho, aliás. E aí chamei Robertinho do Recife. Robertinho não pôde. Eu botei aquele menino que eu tinha encontrado na igreja, que tocava baixo. Aí veio mais Zé da Flauta e vieram três ou quatro componentes do Ave sangria, que eram meus amigos e tal. E aí a gente fez sete dias de ensaio na casa de Lula Côrtes, que era uma maravilha. Era uma doidice, chegava, era uma coisa fantástica. Um tempo que era um tempo fora do tempo, mas que era um tempo fora do tempo; então era temporal e ao mesmo tempo… eu sei lá o que era aquilo. Aquilo era uma festa total! Aí quando a gente chegou lá, para a apresentação, bicho, foi uma… a imagem ficou muito marcada. Quem fez o figurino da gente foi Cátia Mezel, a mulher, na época de Lula Côrtes. Parecia um bando de maluco, coisa de louco. E eu estava totalmente… eu tenho uma capacidade de introspecção de viver um personagem. Talvez um pouco o reflexo do personagem que eu fiz na Noite do espantalho. Que Sérgio Ricardo pedia pra ser doido do jeito que eu era mesmo. Então, apareceu aquilo. A música até hoje é comentada e nunca tocou no rádio. Ela é comentada pelas pessoas que viram à época, tá entendendo? E agora eu to te dizendo, pode entrar na Internet que está lá. E está também num DVD meu chamado Alceu Valença em todos os cantos.

Quadrafônico

quadrafonico

Geraldo José tinha uma abertura na Copacabana, porque ele usava o estúdio. Era sonoplasta em cinema, pegava todos os ruídos, o cinema não tinha som. Ele nos apresentou à gravadora Copacabana e nós acertamos um contrato. Só que a gente passou quase um ano indo e voltando de São Paulo. Em São Paulo levava um bacolejo, da polícia, da ditadura cruel. A polícia às vezes pegava o camarada, às vezes meio bêbado, não estava fazendo política porra nenhuma, estava na rua. E era cada baculejo que a gente levava lá… Aí chegava lá os caras diziam: não, o contrato está no Rio. A gente voltava pro Rio. Chegava no Rio e diziam: não, esse negócio tem que ir pra São Paulo. Voltava pra São Paulo. Nessas idas e vindas passaram mais de 6 vezes. Uma vez estava presente na sala, Benito de Paula e aí a gente tocou, estava tocando pra ele umas músicas e ele achando bacana. Quando lá apareceu um cara chamado, Cesare Benvenuti, que fazia música, era produtor. Produzia muita música em inglês, Morris Albert… E ele gostou demais do trabalho da gente, e gostou das pessoas, eu e Geraldinho. Assim ficamos no apartamento dele, embaixo do apartamento da mãe dele na rua Pamplona e ele resolveu gravar o disco da gente. Um disco meio limitado em questão de tempo, mas tinha o nosso técnico, um cara chamado Índio. O Índio deixava, um dos caras botava uma chave do estúdio lá e a gente subia, e tinha algumas horas extras, de madrugada, que a gente ia gravando. A gente queria fazer os arranjos do disco com Hermeto Pascoal, que teve que viajar, e a gente conheceu o Rogério Duprat, e terminou os arranjos sendo feitos por Duprat, uma pessoa sensacional, maravilhosa e competente. Desse disco (Quadrafônico) destaco “Planetário” e “Talismã”. Eu e Geraldo Azevedo.

Em “Planetário”, a questão do rock, que eu não tenho nada contra ele, sou a favor. Mas é o seguinte, o rock está muito mais a intenção. A melodia não é, a harmonia não é, e o ritmo não é. É a maneira como eu canto e a questão da guitarra, que às vezes faz um rife, muitas vezes para o lado de cá e algumas vezes com uma influência de blues. Uma pegada. E ali tinha uma coisa meio árabe. Agora a questão que eu estou te falando, do rock, veio dali desse rock primal. Esse rock do Elvis Presley. Os Beatles, por exemplo, que eu acho maravilhoso. Na época dos Beatles, eu não estava interessado em música. Perdi tempo, estava interessado em política. Beatles, Rolling Stones. Aí eu fui assitir o Woodstock. Foi a única coisa, na minha casa não tinha som. Então eu não adquiri a coisa dos Beatles, é en passant. Acho que tudo o que você ouve entra na sua formação. Mas se você ouve com frequência uma coisa, ela vai entrar muito mais na sua formação, do que uma coisa que é escutada en passant. Essa coisa aí, ela vai se diluir em dezenas e dezenas de informações. Informei-me depois através da televisão. Através de um clip que eu estou fazendo e vejo. Por exemplo, o Rod Stewart. Eu não sabia quem era Rod Stewart. Eu vim a ver e adorei no Rock in Rio, em 1985. Eu não sabia que existia, eu toquei nesse Rock in Rio, a gente tocou com bandas que só depois é que eu vim a saber. Eu não conhecia ninguém ali. Vieram falar comigo o All Jarreau, e o outro, um negro americano que toca bonito, faz em cima das notas. O mais famoso aí do blues hoje em dia, George Benson. Mas eu não sabia quem era ele, não sabia quem era ninguém.

Rock e forró

Eu queria colocar é que eu gosto sempre da verdade. Por exemplo: existem dois tipos de forró. Um que é chamado forró eletrônico, que é o falso, e o outro que é o forró verdadeiro, o forró que tem uma genealogia. Ele vem de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, etc e tal, esse aqui é o forró. Bem, por uma questão de marca pegaram um grupo que faz música, eu não sou contra a música que os caras fazem. Aí pegaram a nomenclatura “forró” e botaram ali. Porque o forró tinha conteúdo. Então daí em diante, hoje, ninguém sabe qual é o forró que você está ouvindo. Ou seja, você vai ouvir uma coisa que não é forró e dizendo que é forró. Bem, a questão minha com relação a isso é quando dizem “você é um roqueiro”? Para o bem da verdade eu digo que a minha atitude é uma atitude rock. E eu gosto de rock. Agora, eu não sei fazer rock, porque eu não ouvi rock, não ouvi o suficiente para me considerar um roqueiro. Eu ouvi dois discos de Elvis Presley, está entendendo? Claro, agora, quanto à minha postura, o que acontece? O rock tem uma postura rebelde. Eu também tenho uma postura rebelde. Eu vi as pessoas de rock e eu acho muito mais interessante o cara que sabe se movimentar num palco, do que o que fica num cantinho e um violão, ta certo? Agora eu conheço muito mais as músicas do cantinho e violão, do que de rock. Eu admiro e vejo, não sou um bom ouvinte, mas eu vou ver show de rock, eu gosto de assistir. Não gosto muito. Isso aliás eu não gosto de ouvir nada, ouço muito pouco. Agora, eu fui ver o show dos Rolling Stones na Apoteose. Adoro os Rolling Stones. Fui ver e adoro. Eu não tenho um disco dos Rolling Stones. Eu nunca, aliás, ouvi um disco de Rolling Stones. Por exemplo, em 1985 eu estava cantando, “Agalopado”: “…quando eu canto seu coração se abala…” Isso é martelo agalopado, são dos violeiros, é um tipo de cantoria dos violeiros. Agora, se eu pego isso e coloco com guitarra elétrica, com distorção, a sonoridade, a impressão que causa no ouvido da pessoa é justamente isso. Então, no fundo eu sou um roqueiro mentiroso. Mas sempre participei de vários festivais de rock e isso é visto pela plateia como uma coisa natural, normal… Eu faço quatro tipos de show. Um é o show de violão, entendeu, com um cello. Tem um show que eu faço maracatus, frevos. E o show de meio de ano que vai pra esse lado do rock. Eu acho que as influências no mundo deveriam ser pra tudo que é lado. Daqui pra lá, de lá pra cá. Eu gostaria até de uma música mais hibrida. Eu tento isso. Agora, por causa da minha formação isso foi natural. Por exemplo, tenho uma música chamada “Íris”. “Iris, olhando as penas coloridas dos concrizes. Dos sabiás, dos rouxinóis e das perdizes lembrei de ti, ó…” Parece que eu estou na Arábia! Agora, de onde vem isso? Isso aqui vem da cultura do Nordeste. Ou seja, na nossa formação nós tivemos “n” influências.? Eu não gosto é dessa hegemonia americana. E aliás, o rock parece que é até contra, é rebelde até contra os Estados Unidos. Então eu acho bacana. Agora, a coisa pop descartável eu acho chato. Não aguento, o pop descartável pra mim não tem densidade nenhuma. É uma música imposta, entendeu? Fico meio revoltado com isso, mas não adianta, porque é uma questão, como dizia minha mãe, de comércio. Minha mãe é engraçada, me criou assim. Lá vinha o Natal e íamos comprar os presentes. Mamãe falava: “meu filho, não se preocupe com isso, não, que isso é coisa do comércio”. Lá vem o dia das mães. “Mamãe vou comprar um presente pra senhora.” “Não, meu filho, é também invenção do comércio.” Sei que dessa batalha aí o comércio ganhou. Ganhou o pop. O rock ficou um pouco por debaixo. Então a coisa visceral, a coisa da atitude, do cara ser aquilo mesmo. Ou seja, o sistema foi corroendo, foi comendo pelas beiradas. Então é por isso que eu acho que eu fiquei com as coisas mais do passado. Acredito nesses doidões aí.

O disco e as faixas

O disco

Eu tinha participado do filme de Sérgio Ricardo, A noite do espantalho. Eu fazia o narrador do filme, era o espantalho. Foi muito bom pra mim, porque aí perdi toda e qualquer inibição. Convivi muito ali com o pessoal de cinema que estava lá , foi uma das coisas fundamentais. E foi muito bom porque estava morando já no Rio e retornei a minha região agrestina, em Nova Jerusalém. Terminado o filme eu fiquei dando um tempo no Recife, porque eu tinha feito um disco com Geraldo Azevedo e não tinha acontecido nada. Eu voltei para o Recife e embarquei numa “viagem” ainda existiam os hippies lá. Fiquei numa viagem das cores lá do Recife, das praias. Sei lá. E isso tudo veio se refletir nesse disco, ele é transparente. Era a minha visão da transparência da minha cidade e de Olinda, também. E aí eu resolvi fazer um show.

A partir do meu primeiro show no Recife, A erosão, que fiz no Recife, as pessoas, colegas de classe, já achavam que eu tinha virado maluco. Essa coisa do palco já veio dentro de mim. Acho que veio muito mais dos circos que passavam em São Bento. E porque dentro da cultura nordestina existe sempre uma coisa teatral. Dentro do bumba meu boi, dentro do cavalo marinho. Então esse movimento estava dentro de mim. As caras, a maneira de encarnar personagens. Teve discos meus que eu comecei a assumir personagem, já não sou eu. Nesse disco aí, não. Esse é o disco que tem uma transparência. É um disco que, talvez seja um disco meu surreal nas letras. Sei lá, na luz, entendeu? Eu acho que é por aí.
Fiz o show e um diretor da Globo foi ver e adorou o show, chamava-se Wilson Emanoel e então indicou a Som Livre. Então eu vim pra Som Livre, viajei para o Rio, onde assinei contrato para fazer o disco Molhado de Suor.
Lembro tudo da gravação. Lembro quando cheguei e encontrei Eustáquio Sena, um sujeito maravilhoso, simpaticíssimo. Absolutamente competente e muito musical, embora não lesse música. Ele me foi apresentado como meu produtor e comecei me dando muito bem com ele. E então ele sugeriu Waltel Blanco para os arranjos de corda. E me dei muito bem com o Waltel. Passei o que eu queria, a sonoridade, o fraseado para Waltel. Cheguei a compor com Waltel, ele tocando violão e ia escrevendo em quarto de hotéis. Essa produção foi fantástica, foi ótima. A gente teve condições de fazer um disco, com tudo que tinha direito. Só o final é que foi um pouco traumático, porque o Eustáquio ficou doente e teve que voltar pra Minas Gerais. Fiquei com o Celinho fazendo a mixagem do meu disco. Então no primeiro disco eu já participei na mixagem, fui eu quem fiz. Tem uma hora que tem uma agogô muito alta aí, a culpa é minha.
[Eu já tinha ideia do que queria]. Eu queria essas cordas, queria o timbre novo, diferente. Trouxe Lula Côrtes, que, com seu tricórdio me daria um lado meio mourisco que eu gosto. E aqui eu encontrei, na gravação de Noite do Espantalho, Piri, que tocava bandolim e também tinha um sotaque arabesco. Aí eu fui formando a coisa com Geraldinho Azevedo que tocou comigo viola. Eu queria esse disco de transparências, com mais violas, com as cordas. Que elas soassem. E aí um bom guitarrista, o menino de Os Lobos, chamado Cássio, entendeu, tocou comigo. O baterista, João Cortez. Depois as coisas foram somando. Aí mandei chamar Lula, que já tinha participado da Noite do Espantalho. E eu já o conhecia do Recife. E lá a gente conviveu muito em Nova Jerusalém, a gente tocava nas noites em que não estava filmando. Nesse disco tem música de pastoreio, nesse disco tem música de violeiro. Agora, tudo com uma outra roupagem. Eu sempre quis fazer as minhas coisas, ter a liberdade de eu fazer da minha maneira. Sobretudo nos timbres. É a procura de timbres novos, de coisas, de junção de elementos, de instrumentos. É aí onde está o meu mistério. E as pessoas, às vezes ficam impressionadas: ah, esse é o novo! Não existe novo. Na minha cabeça o novo é o velho reinventado.

Encontrei Zé Ramalho mais ou menos depois que eu tinha feito esse disco. Eu namorava com uma menina lá no Recife e Zé Ramalho, paquerava ou namorava, com a irmã dela. Então chegou um cara uma vez lá na casa dessa menina, Angela. Chegou com um gorro e tal e coisa, uma viola. Começou a tocar, eu gostei, achei bacana. E ele era mais próximo do rock até do que eu. A gente começou a tocar junto, assim, brincar junto de tocar. Esse disco (Molhado de suor) já tinha saído, e eu coloquei uma música no Festival Internacional da Canção. A música era “Vou danado pra Catende”. Convidei uns amigos pra tocar lá. Zé Ramalho, era Lula Côrtes tocando tricórdio e Icinho, um baterista amigo meu que já tocava numas bandas. E alguns elementos de um conjunto chamado Ave Sangria. A música não tinha nada a ver com o conjunto Ave Sangria, eram elementos da Ave Sangria, estavam tocando a música mais com a minha feição. Sabe quanto tempo a gente ensaiou? Quinze dias a mesma música. Uns quinze dias a mesma música. Eu sei o arranjo todinho, porque eu ia passando as melodias. Tem umas coisas interessantes. Os guitarristas não conheciam as músicas do Nordeste naquele momento, determinados tipos, a música modal. O cara era capaz de fazer um riff dificílimo, de Jimmy Hendrix, mas quando ele chegava na música, eles empacavam, quando chegava nessa nota, o cara pulava… Foi uma grande junção, porque tinha um tricórdio, remetia à música do Marrocos. Zé Ramalho tocando viola. Uma guitarra. Tinha hora que a guitarra fazia uma coisa pro lado do rock, também. Bateria, percussão, flauta. E às vezes a guitarra, ela fazia um duo com uma flauta, como se fosse um duo de pífanos. Por sinal, Luiz Gonzaga foi olhar o meu show meu em Juazeiro. Quando me dei conta, eu tocando com uma formação de rock, pensei: capaz de Luiz Gonzaga não gostar. Olhei pro lado e não fiquei certo de que era ele, estava sem chapéu, tinha a testa maior do que a minha. Mas era ele mesmo. “Oi, senhor Luiz, o senhor por aqui?” Ele disse: “vim ver o seu show”. Eu digo: “e aí, gostou?”, “Gostei muito”. Eu digo: “e a formação da minha banda?” Ele disse: “menino, sabe o que você está fazendo? Você tem uma banda de pife elétrica!” Eu achei a melhor definição.

Eu tenho uns discos, que são irmãos dos outros. Esse disco aí é irmão de um disco meu chamado, Estação da Luz. Como outros são irmãos de outros, né? Esse disco é o meu lado mais lírico. Estação da Luz e um disco chamado Sete desejos. Eles são uma trilogia. De vez em quando eu me volto pra esse meu lado. É um lado mais doce, é um lado onde eu procuro as transparências. Um lado aonde o poema é mais leve. É assim que o disco Molhados de Suor é assim. É o disco de paixão. É o disco, mas é um disco de uma paixão vaporosa.

 

Borboleta

Inspirei-me num filme que Cátia Mezel fez, um Super-8, com uma menina com quem depois eu namorei, uma bailarina. Nesse filme ela estava vestida de borboleta. Usei a música de domínio público, que vem dos pastoris. E aí dei um ar meio lusitano e contei uma história.

Punhal de prata

Foi a primeira música que eu gravei do disco. E aí eu começo. Gravei de violão e depois fui a Waltel Blanco e comecei a passar as frases que eu queria, ele foi apresentando também as coisas dele ali. Tem um solo de tricórdio bonito no meio da música que é de Lula Côrtes. Muito bonito o solo que ele faz.

Dia branco

Lembro-me das noitadas de Olinda, fantásticas, incríveis. Onde as pessoas andavam fantasiadas nos Quatro Cantos. Me lembro de uma holandesa, que chamávamos de Ana de Amsterdã, totalmente maluca. As pessoas dançavam na rua. Existia um fim de movimento hippie. Essa coisa foi me influenciando. É como um fotógrafo. Esse disco é um disco de fotógrafo. Sou mais um cronista, mas digamos, eu olho… eu sou mais um fotógrafo no caso. Porque eu vou enquadrando as coisas e eu vou me lembrando das cenas que vão passando. E isso sai em forma de música. “Dia branco” foi uma sena que eu vi.

Cabelos longos

Quando comecei a usar cabelo grande, cabelo longo, foi na faculdade, ou na época do basquete. Então me chamavam de Cabeleira, de Capitão, Lampião. E depois começou gente a usar cabeleira, quando eu vim pro Rio em 70. No bar que a gente frequentava, o Degrau, tinha uns caras, uns agentes do SNI. Às vezes, eles usavam umas cabeleiras grandes e uma barba pra entrar na turma, entendeu? E fazer o serviço deles, de espionagem. Então é essa a questão. É o medo que eu tinha.

“Eu desconfio dos cabelos longos que você deixou crescer. De um ano pra cá. Eu desconfio dos cabelos longos. Eu desconfio de sua cabeça. Eu desconfio dos cabelos longos. Eu desconfio. Do diabo a quatro.”

Ou seja, era um momento em que você estava desconfiado de qualquer pessoa que tivesse perto de você, se você não tivesse uma referência muito clara dela.

Chutando pedras

Essa música é linda. Eu adoro essa música. Eu compus essa canção, e era uma das que eu mais gostava do disco, mas de repente a Som Livre, sem me pedir (e esse foi o único erro da Som Livre com relação a minha pessoa). Tudo lá era muito claro. Botaram a música do festival e tiraram essa música, daí sem me consultar.

Molhado de suor

É uma música de um cara apaixonado pela cidade, apaixonado por uma gata, apaixonado pelo seu tempo. E vendo, voltando a sua cidade… Quando eu vim pra cá, era difícil voltar. Pensava que nunca mais eu voltaria ao Recife. Então eu voltei com certo problema: não tinha acontecido nada com a minha carreira depois de 3 anos. E aí eu redescobri uma minha cidade e vi a minha cidade de uma outra maneira. Eu to falando, sobretudo, com uma luz difusa que eu via naquela época. E com uma namorada linda. Aí tudo fica muito bacana. E isso influencia a arte do cara, também. Isso aí aconteceu. O ambiente em que eu estava vivendo.
Estou falando de uma pessoa molhado de suor. Quando a pessoa fica molhado de suor quando? Quando está fazendo amor, né? Achava bonito o nome Molhado de suor [para o disco].

Mensageira dos anjos

Olinda tem um tom místico. As igrejas, o ambiente mesmo da velha cidade e tal. Eu gostava de ir namorar em Olinda. Então estava no Recife, morando na casa da minha mãe, passando esse tempo e ia sempre pra Olinda, de tarde. E numa tarde vi um cara bem cabeludo andando na rua das Ninfas. No outro dia de noite estava com a minha namorada da época e sentei na varanda da igreja da Misericórdia e aí comecei a olhar aquilo ali e a escrever uma uma letra. E de repente olho pro lado, tem outro pessoal curtindo a noite, vi o cara de de tarde que estava tocando violão. Disse: vem, cá velho, vamos tocar um pouquinho. Sabe quem é esse cara? Paulo Rafael, que toca comigo até hoje. Então essa música foi feita num tom de um certo misticismo.

Papagaio do futuro

Foi a questão de depois dessa prisão por uma farra inconsequente, entendeu, e que fomos intimidados por uma polícia de ditadura. Na hora perguntaram: “você tem algo a declarar? Depois eu inventei essa história:

“Tô montado no futuro indicativo já não corro mais perigo, nada tenho a declarar. Terno de vidro costurado a parafuso. Papagaio do futuro num para-raio ao luar. Eu fumo e tusso, fumaça de gasolina. Olha que eu fumo e tusso, fumaça de gasolina.”

É claro que nesse momento eu já estava misturando com minha preocupação ecológica. Uma doidice falando sobre a poluição dos carros, sobre que o homem passaria a não ter mais palavra, a ser um boneco que o sistema comandaria, se continuasse do jeito que estava. Acho que, de outra maneira, o homem está virando isso. Um boneco sem grande liberdade de escolha. Você diante da televisão, o tempo todo solicitado a fazer aquilo, a comprar um carro, a comprar, sei lá, um perfume, uma coisa. Então a gente vai perdendo a capacidade do querer. Estão nos impondo muito. E eu nunca gostei disso.

Dente de ocidente

Sempre tive uma preocupação ecológica, porque o meu pai era um ecologista antes de existir esse nome. O meu pai era proprietário de uma fazenda, com 250 hectares que ele preservou, e que estão preservados até hoje. E dentro dessa fazenda não se cortava nenhuma árvore e não se matava nenhum passarinho. Os caçadores iam nas outras propriedades ali e matavam, mas papai proibia, era um bicho com relação a isso. E eu quando era pequeno, nem entendia por que não se prendia passarinho. Quando eu tentava botar um alçapão pra poder prender um passarinho, meu pai dizia “não é tão bonito ele cantando lá em cima?” Ele odiava os caçadores. Tinha logo escrito aqui não entra caçador. Pois bem, então essa região, eu via que ela sofria. Ali a gente sentia isso. Quando eu vi a grande cidade me deu medo. E essa música já é falando sobre isso, sobre poluição.

“Essa espuma sobre a praia. É um dente de ocidente. É um dente, um osso, um dente.  Vomitado pelo mar. Vem em ondas poluídas. Vem em nome da moral. Vem na crista dessa onda. A cultural ocidental.”

Pedras de sal

É uma música quase medieval, com uma sonoridade, uma melodia, quase medieval. Está presente também na cultura do Nordeste. Ou seja, sou fruto da cultura de minha terra, das violas, dos cantadores, dos violeiros, dos pastoris lusitanos; dos frevos e blocos, que também é lusitano, dos maracatus, do que é negro e da coisa moura. Isso aqui já está dentro dos meus discos, dos dois primeiros discos já existia isso. De uma maneira absolutamente natural, ninguém me mandou fazer dessa maneira.

Vou danado pra Catende

Eu falava sobre a cidade grande. Eu falava quando eu fui em São Paulo. Aliás eu voltei pra São Paulo pra falar sobre isso. Nessas idas e vindas, que eu fiz com Geraldo Azevedo num tempo anterior, 1970, 71, 72 lá em São Paulo, eu via uma agonia muito grande. O Recife não tinha crescido tanto. Olinda era uma cidade como ainda é, pacata. Eu via era as motocicletas passando, entendeu, as pessoas, servindo nos restaurantes. Então aquilo, foi isso:

“Ouça esta carta que eu não escrevi. Por aqui vai tudo bem, mas eu só penso um dia em voltar. Tudo corre tão depressa, se você tropeça não vai levantar. Tudo corre tão depressa, as motocicletas se movimentando, os dedos da moça datilografando, uma engrenagem de pernas pro ar. Eu quero um trem, eu preciso de um trem…”

Pra poder voltar, né? Aí uso o poema de Ascenso Ferreira: “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar”, numa citação.