Milionário e José Rico | ESTRADA DA VIDA | Chantecler Sertanejo, 1977

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Foto TONALIDADES | Capa Tuny & Simas
O pernambucano José Alves dos Santos (1940) adotou o nome “Rico” em homenagem à sua cidade de criação, Terra Rica, no Paraná. Em 1970, no “Hotel dos artistas” em São Paulo, onde aspirantes do interior se hospedavam sonhando em se apresentar no programa Silvio Santos, José Rico conheceu o mineiro Romeu Januário de Matos, que se autobatizou de “Milionário” para compor a dupla com o parceiro. Antecedendo em mais de uma década o boom da música sertaneja que vinha da periferia urbana, e não do sertão,  Milionário & José Rico estrearam com disco homônimo em 1973.
O terceiro “volume” da dupla, de 1977,  ganhou o título do megahit “Estrada da vida” (José Rico). Nos estertores do “Milagre Brasileiro”, com o rompante de urbanização no país, a canção disparou a venda de mais de 2 milhões de cópias e, em 1980, a produção do filme Na estrada da vida, de Nelson Pereira dos Santos, onde os próprios Milionário e José Rico atuam, recontando a trajetória da dupla. 

 

TRIPMILIONARIO

FAIXAS

ESTRADA DA VIDA
José Rico
BEBID NÃO CURA PAIXÃO
José Rico, Cristovam Rei
MEU SOFRIMENTO
José Rico
DESTINO CRUEL
Sargento Juarês Miranda, José Rico
SENTIMENTO SERTANEJO
José Béttio, José Fortuna
ADEUS
Cristovam Rei, José Rico
MIGALHAS DE AMOR
José Rico, Diná
DOCE ILUSÃO
José Rico
CONSELHO CANCIONEIRO
José Rico
CIUMENTO
Sargento Juarês Miranda, José Rico
SOLIDÃO
Cristovam Rei, José Rico
ESQUECIDO PARAENSE
José Rico

FICHA TÉCNICA

Direção de produção
DINO FRANCO
Direção musical
OSCAR NELSON CARIN SAFUAN GARCÍA
Estúdio
GRAVODISC
Técnico de som
CARLINOS E ORLANDO
Montagem e mixagem
ORLANDO RIBEIRO

Entrevista com Milionário e José Rico

Milionário, você trabalhou de pedreiro, garçom e pintor de parede. Como descobriu que queria cantar?

Milionário: Cheguei a São Paulo em 1962 e, como era difícil fazer carreira na música, fui trabalhar com algo que não precisava de muito estudo: servente de pedreiro na praça Clóvis Bevilacqua. Depois, fui garçom e trabalhei em cozinhas de restaurantes durante muitos anos, como o Lanche 80, na rua da Quitanda. Eu cantava de brincadeira, fazia pecinhas, e fui achando graça naquilo. Antes de conhecer o José Rico, cantei com sete parceiros. Começamos juntos em 1970 e eu percebi que para a carreira musical dar certo tínhamos que trabalhar num emprego nosso porque, se precisássemos sair no meio do expediente, o patrão não acharia ruim. Então partimos para a pintura de parede, junto à construção – nós pintávamos e cantávamos.

E como você ganhou a vida antes de começar a cantar, José Rico?
José Rico: Eu canto desde os sete anos de idade, meus pais sempre me incentivaram. Sou nordestino, nasci no sertão pernambucano, mas me criei num cantinho do Norte do Paraná, que foi onde a vida passou a melhorar um pouco para os meus pais. Mas eu nunca cantei sertanejo, era forró, samba de breque, coisas que não tinham nada a ver com sertanejo. Sempre acompanhei Nelson Gonçalves. Luiz Gonzaga era o meu ídolo e, depois dele, Roberto Carlos. Por exemplo, “Prece ao vento” minha mãe me ensinou ainda garoto e eu cantava. E dentro dessa caminhada, eu fui me adaptando na música.

Milionário, antes de você vir pra São Paulo, no início dos anos 70, o que você ouvia no rádio?

Milionário: Eu sou mineiro, de Monte Sião, e quando era garoto, minha mãe me ensinou a cantar música sertaneja. O sucesso do momento era Torres e Florêncio, que cantavam “Cabocla Teresa”, depois surgiu Tonico e Tinoco (deles, no nosso repertório, hoje tem “Besta rainha”). Comecei a cantar nos bailinhos, nas festinhas. E eu também cantava desde criança, mas cantava por cantar.

Como vocês se conheceram aqui em São Paulo, foi obra do acaso?
José Rico: Foi por acaso, eu saí de Terra Rica, no Paraná, e vim procurar um amigo meu que estava aqui em São Paulo, porque queria que ele me indicasse alguém para formar uma dupla. Quando cheguei ao hotel Ideal da Luz, encontrei o Milionário ensaiando com a dupla dele. Fiquei mangueando, à vontade, só observando e quando ele terminou o ensaio, perguntou se eu cantava. Nós entramos com uma moda do Caçulo e Marinheiro, que era uma dupla de sucesso, chamada “Cantinho do Céu”.

Vocês perceberam logo de cara que tinham afinidade?
Milionário: Não, demorou.

José Rico: Demorou, porque antes disso eu tinha formado um trio lá no Paraná, chamado Os Bandeirantes – eu gosto muito dessas coisas de índio, então coloquei o nome de Carapó, Cambay e Andrezinho. Alguns anos antes do Milionário, entre 1967 e 1969, estive com eles pela Tupi, de São Paulo, também num programa que chamava “Patrulha do Sertão”, assim, eu já tinha rodado um pouco nesse meio, aprendido algumas coisas com duplas como Liu e Léo, Tonico e Tinoco, Zico e Zeca, Pedro Bento e Zé da Estrada, e com o próprio Tião Carreiro.

Os artistas iam até um hotel que havia em São Paulo para formar duplas, não? Falem um pouco desse ambiente.
José Rico: Próximo ao Hotel Ideal da Luz, onde nós nos conhecemos, tinha o Hotel Rio Preto, que era onde se hospedavam todos os artistas que vinham do interior para participar do programa “Alvorada cabocla”, da Rádio Nacional. Esse hotel foi muito importante na história da música sertaneja aqui em São Paulo, era um lugar no centro de São Paulo em que os artistas como Tião Carreiro, Brasão e Brasãosinho, Jacó e Jacózinho, Miltinho Rodrigues, estavam sempre.

Fora Tonico e Tinoco, quais eram as outras duplas que se destacavam no cenário musical sertanejo na época?
Milionário: Zilo e Zala, Sulino e Marroeiro, Zé Carreiro e Carreirinho, que foram os primeiros carreiros que surgiram, depois veio Tião Carreiro e Pardinho e o Peão Carreiro e Mulatinho.

Que diferença eles tinham na música deles, dentro do universo sertanejo?

José Rico: Era muito bom porque, porque era viola e violão, não tinha outro instrumento. A apresentação deles era simples, mas bem bonita, todos usavam o mesmo uniforme, o mesmo sapato, imitando o sertanejo, a camisa xadrez, o chapéu na cabeça e aquela linguagem diferente, do sertão. O sertanejo sempre tem uma história bonita para contar, mas é sacrificado, viu. É uma tragédia atrás da outra.

Milionário: Tinha uns que matavam o pai e o filho para colocar na música… [risos]

Vocês passaram muito tempo como pintores de parede até começarem a se apresentar?
José Rico: Nós nos conhecemos no começo de 1970 e no terceiro mês do ano já estávamos preparando o disco, porque tive ajuda de um amigo de Dourados (MS). Na época em que o Milionário chegou a São Paulo, em 1962, eu estava jogando futebol, porque sou um eterno apaixonado pelo esporte e tive passagens em alguns clubes sem expressão no Paraná, como o Industrial, depois fui para o Mato Grosso, joguei em Iviema, em Dourados, e lá tinha um amigo que disse que me ajudaria quando eu formasse uma boa dupla, pois eu gostava de cantar, era parceiro do filho dele no futebol e ele gostava muito de mim. Quando formei a dupla com o Milionário, nós ensaiamos muito pouco, nos adaptamos rápido no diapasão, na afinação, no dueto, e já mandei uma carta para ele depois de três meses.

O Milionário faz a terça e você faz a fundamental, quem faz o que?
José Rico: Eu faço a primeira e o Milionário a segunda. Nós intercalamos.

Como e quando foi que a dupla se apresentou pela primeira vez e qual era o nome?
Milionário: Era José Rico e Tubarão. A primeira apresentação foi no Clube Príncipe do Morro, no alto da Vila Maria. Éramos pobres e chegamos lá muito mal vestidos, começaram a dar risada de nós. Quando chegou a nossa vez, recebemos uma vaia… e ninguém nunca cantava música própria, aí o José Rico esperou que terminassem a vaia e anunciou que cantaríamos “De longe também se ama”, uma música de autoria dele. Para encurtar a conversa, nós saímos de lá carregados.

José Rico: Quando nós fomos contratados, em 1973, pela Chantecler, nós montamos o repertório e quando foi pra gente gravar o repertório, uma outra dupla nos antecedeu gravando nove músicas do nosso repertório. Quando a gravadora se comunicou com a gente, foi pra preparar a gente pra montar outro repertório porque aquele já havia sido gravado por outra dupla que já tinha tempo na empresa e que já tinha seis ou sete lançamentos, e então tivemos que preparar um novo repertório para gravar o nosso primeiro disco pela Chantecler. Foi uma judiação, mas tivemos que esperar um ano pra ver o que acontecia com o primeiro pra gente poder gravar. Foi o pai do meu amigo jogador de futebol quem pagou a gravação do primeiro disco, Matéria Paga – custou 2500 cruzeiros.

Que dupla foi essa que gravou parte do repertório que vocês escolheram?

José Rico: Chama Mensageiro e Mexicano. Foram nove músicas do nosso repertório.

De onde surgiu o nome Milionário?

Milionário: Depois do Tubarão, um dia, eu estava assistindo televisão e o Silvio Santos anunciou o “Carnê Milionário”. Eu gostei da ideia e perguntei ao José Rico o que achava de Milionário e José Rico ou vice-versa. Ele disse que tanto fazia a ordem e aí ficou assim. O Tubarão ficou esquecido, acho que ele voltou pro mar… [risos]

Ali então vocês viraram Milionário e José Rico…

José Rico: Quando gravamos o primeiro disco, ali, já era Milionário e José Rico.

As músicas que vocês fazem tem uma observação muito precisa do cotidiano. Essas histórias vocês tiraram de onde?
José Rico: Quando entrei no sertanejo, já tinha uma ideia dos temas, mas sempre gostei de observar a natureza e o mundo. Por exemplo, quando nós perdemos alguns de nossos companheiros, fiz uma canção que chama “Tributo aos amigos”, também fiz “Heroi da velocidade” quando perdemos o nosso grande ídolo, Ayrton Senna, e naquele episódio do 11 de setembro, nós fizemos uma canção que chama “O dono do mundo”.

Vocês tinham que soar diferente das outras duplas que já tinham feito sucesso, identifica isso pra gente…

José Rico: Instrumentação, por exemplo, já era uma das coisas. Porque aquele negócio de viola e violão, muito bonito é claro. Mas tem aquela coisa, aí foi ampliando, contrabaixo, bateria… porque a gente seguia as outras músicas, sucessos, aquelas coisas bonitas do Waldick Soriano, do Nelson Gonçalves. Então a gente foi se adaptando, principalmente na instrumentação. Teclado, contrabaixo, guitarra…

Milionário: Quando nós pusemos guitarra foi a maior crítica, sertanejo botando guitarra.

Isso é interessante. Porque vocês e outras duplas adotaram essa mudança no som mesmo, de eletrificar essa música. Quem mais tava nessa?

José Rico: Léo Canhoto e Robertinho, colocaram bateria, guitarra, teclado, aquela coisa. Mas nós introduzimos muito porque nós pegamos metais, flauta, aquela coisa toda, aí veio a influência da música latina e nós fomos incorporando aquilo e foi ficando uma coisa diferente e bonita. Chegou em um ponto, por exemplo, onde o maestro ia pro estúdio gravar e aí as outras empresas contratavam o meu maestro e diziam “você tem que fazer isso que você fez pro Milionário e José Rico”. Muitas vezes eu ouvia uma música no rádio, aí achava que era som do Milionário e José Rico, mas entrava outra dupla cantando. Tinha uma pegada que era nossa ali, mas era exigência da empresa pra encaixar em algo que tava dando certo ali.

Quem da Chantecler encontrou vocês? Como é que aconteceu esse convite pro primeiro disco?

José Rico: Nós estávamos em Londrina, no Paraná, fazendo uns programas de rádio, surgiu um empresário e disse que arrumaria uma gravadora em São Paulo. Ele nos levou na Odeon e não deu certo, pois ela só gravava música popular, tinha o Agnaldo Timóteo, o Altemar Dutra. Fomos procurar outra gravadora, mas na RCA-Victor nem nos receberam. De repente, fomos até a Chantecler, que era a pioneira da música sertaneja, e não deu outra, perguntaram se a gente era caipira mesmo e quando dissemos que sim, deu certo. Eles só não entendiam quando chegávamos lá com contrabaixo e bateria.

Milionário: Essa pessoa tinha dito para irmos lá, que estava tudo arrumadinho, e podíamos falar com o Brás Biaggio Baccarin. Na Chantecler, estavam os grandes nomes da música sertaneja e no ônibus para São Paulo vim pensando se eles nos receberiam mesmo, enquanto o José Rico dormia. Chegando lá, eu falei para o Zé: “Você fica aqui desse lado da rua, eu vou lá. Se eu fizer o sinal positivo, você atravessa a rua e entra”. Na recepção tinha uma japonesinha que disse que o Brás Biaggio Baccarin estava no Rio de Janeiro, então eu saí, fiz sinal negativo para o José Rico, e voltei lá par explicar que éramos o Milionário e José Rico, uma dupla que tinha vindo do Paraná. Quando falei o nome, ela apertou um botãozinho e chamou o nome do homem que estava no Rio de Janeiro [risos], aí eu saí e fiz o sinal de novo, para o Zé entrar. Na mesa da sala dele estava o primeiro disco, logo veio a secretária servir cafezinho, e ele nos disse que o andar todo tinha parado para ouvir o nosso disco.

Qual foi o sucesso desse primeiro disco?
[cantam] “Águas da saudade”

Vocês fizeram sucesso logo de cara com o primeiro disco pela Chantecler ou demorou?
José Rico: Demorou. Nós gravamos o primeiro disco e, na realidade, como tinham muitos artistas de nome e sucesso, no início vendemos 1500 cópias – com 2 mil teríamos o direito de fazer o segundo disco. Fomos para a lista de corte. Quando eu observei aquilo, eu pedi uma chance. Ficamos dois anos sem gravar. Era complicado, porque a gravadora só tinha medalhões. Em 1975, fizemos o segundo disco pela Chantecler, Ilusão perdida. Foi muito difícil, mas valeu a pena o sacrifício, porque as doze músicas foram sucessos absoluto e na história do sertanejo nunca tinha acontecido aquilo. Hoje em dia, nos temos a facilidade da mídia e quando aparece uma música é uma dádiva, mas antigamente o programador tocava no rádio aquilo que gostava, ele mostrava o disco inteiro e dizia para os ouvintes mandarem as cartas pedindo as músicas.

Milionário: Nesse tempo, íamos fazer show no interior do Paraná, naqueles circos, e oito, dez rádios estavam tocando Ilusão perdida.

Qual foi o maior hit desse disco?
José Rico: É “Ilusão perdida”, música minha e do Milionário.

[cantam “Ilusão perdida”]

Como eram esses shows que vocês faziam nos circos? Teve algum episódio interessante?
Milionário: Até hoje temos muito respeito pela arte circense. Toda a cidade em que eu passo e vejo um circo, faço questão de ir lá, tomar um café com eles. Os circos foram fundamentais para todos os artistas sertanejos e populares.

Não era curioso se apresentar, sei lá, no meio de uma zebra…?

José Rico: Na hora do show, o palhaço dava uma força para nós. O circo podia ter tudo, mas a atração eram as duplas sertanejas, como Jacó e Jacozinho, Zico e Zeca, o próprio Odair José chegou a viajar para se apresentar em circo. O show sertanejo era uma soma ao espetáculo do circo.

Milionário: Terminava o espetáculo e entrava a dupla. A única coisa que eu tinha medo era de circo de touro. Nós cantávamos no picadeiro com a bota cheia de estrume de vaca e ficávamos de olho no lugar onde saía o boi, porque se escapasse… Uma vez escapou um boi no circo Asa Branca, eu trepei na arquibancada e o violão ficou lá. Duro foi para o sanfoneiro, que não podia nem correr. Em Londrina, uma vez, eu estava na barraca afinando o violão e um cara aparece gritando que tinha escapado um bicho do circo. Eu pensei logo no leão, mas era um pônei. [risos]

Qual a relação que vocês têm com a cidade de Aparecida do Norte?
José Rico: Sou devoto de Nossa Senhora Aparecida e, graças a Deus, tudo o que eu reivindiquei junto à minha padroeira, fui atendido. Nossa Senhora Aparecida é minha protetora, minha chefe, nós viajamos o tempo todo pedindo proteção a Ela e nunca tivemos dificuldades. Desde o primeiro álbum, sempre mandei um disco para a sala dos milagres na Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Quem visitar o local vai presenciar a história musical do Milionário e José Rico.

Mas é verdade que quando você enviou o primeiro disco o padre não entendeu, mandou para o para a rádio e lá eles tocaram o disco?
José Rico: Sim, foi o começo. Quando levamos o primeiro disco, deixamos em cima do altar, logo pegaram, levaram embora e ele começou a tocar. É o que eu disse, estamos sempre reivindicando as coisas ao Pai e à nossa mãe e elas estão sempre acontecendo.

Vamos falar um pouco do Estrada da Vida, quinto disco pela Chantecler. A consagração de vocês veio com Estrada da Vida?
José Rico: Sem dúvida. Sim, foi uma surpresa para a gente. Estrada da vida foi a definição de tudo. Em 1986, fomos convidados até para ir para a China levar a nossa mensagem musical, de alegria.

Mas como vocês foram parar na China? Por que?

José Rico: A música “Estrada da Vida”, quando surgiu a ideia de fazer o filme, Nelson Pereira dos Santos foi fundamental, porque nós não entendíamos coisa alguma de filme, mas deu certo com a ajuda dele. Nelson conhecedor e dando instrução pra gente.

Foi a letra da música que inspirou o Nelson a fazer um filme sobre vocês?

José Rico: Ele fez um apanhado das coisas, foi a história da música e a nossa história de luta. O Chico de Assis fez o roteiro, eu ajudei, e, de repente, formamos esse grupo que deu certo. Mas também, diretor ótimo, o roteiro foi maravilhoso, os atores então nem se falam… [risos]

Qual foi a vendagem desse LP?
José Rico: Nós não temos, porque a gravadora não informou. Tenho conhecimento que passou de 30 milhões de cópias, não sei se é verdade.

Vocês receberam por todas essas cópias?
Milionário: Quase… [risos]

José Rico: A verdade é que nós não tínhamos controle. O vinil foi uma grande coisa para o artista, porque a pirataria era mais difícil – ele é feito de petróleo, não é brincadeira – mas foi preciso acompanhar a evolução da indústria fonográfica.

Qual outra música vocês destacam nesse disco?
José Rico: “Solidão” [cantam a música]

Nessa época, se colocava ao lado das faixas o gênero ou o ritmo. “Solidão” é um balanço. Quem nomeava isso?
José Rico: Eu já montava e levava para a gravadora. O ritmo é a levada: guarânia, bolero, rancheiro, polca, balanço, carrilhão, huapango e daí por diante. Eu fazia questão de mostrar, até o compositor eu botava na ficha. Procurávamos identificar para que as pessoas pudessem ter um conhecimento maior.

Dá para identificar esses ritmos que estão aqui?
[tocam Rancheira – Bolero – Polca – Huapango – Rasqueado – Corrido]

Temos a impressão de que os ritmos brasileiros incorporam muito pouco da música latina, mas dentro da música sertaneja isso não é verdade.
José Rico: Exatamente. A música caipira foi formada de bairro em bairro, para poder chegar nos grandes centros e ser conhecida como música sertaneja. Essa pegada de sertanejo veio depois. Eu, que não tenho tanto conhecimento da música, sei que a origem, de modo geral, é árabe. Depois vieram as rancheiras, que são mexicanas, e trouxeram também os boleros. Essa fusão musical bonita foi formando a música sertaneja, que é aquela música romântica.

Tem algum tempero árabe que vocês possam mostrar para a gente?
José Rico: De vez em quando fazemos uma fusão de instrumentos e aproveitamos o som que veio da música árabe.

Milionário: O José Rico canta um pouco em Guarani… [canta em Guarani]

José Rico: Na realidade, eu sou um apaixonado pelo Miguel Aceves e a canção mexicana. Sempre segui a fusão de instrumentos e a levada, como de “La Malagueña” e “Cuatro caminos”.

Como foi a repercussão do filme e essa turnê que vocês fizeram pela China?
José Rico: Em 1981, foi realizado o Festival de Cinema de Brasília, em que participaram 120 filmes e nós, com “Estrada da Vida”, do Nelson Pereira dos Santos. Nós ganhamos o melhor filme segundo o júri popular e o filme foi vendido para 16 países, sendo que a China foi o primeiro a comprar. O Nelson Pereira dos Santos quase ficou louco com tantas traduções. Na história do cinema nunca tinha acontecido isso, foi impressionante. A história da música “Estrada da Vida” ia ao encontro do que estava acontecendo na China, que na época era um país pobre e vinha se recompondo. Como era um sofrimento danado, a história do Milionário e José Rico encontrou sintonia no dia a dia dos chineses. Sobrevoando Pequim, parecia que estávamos chegando ao Brasil, avistávamos a lavoura, o milho, o arroz, enfim, muitas coisas em comum.

Milionário: Eu sou um caboclo criado na roça, na enxada, e quando entrei dentro daquele avião para ir para a China, parecia que eu estava entrando no mundo. Nunca vou esquecer aquilo, pensar que o Primeiro Ministro chinês tinha nos convidado e eu estava saindo daqui para um país do outro lado do mundo. O dono do hotel colocou os empregados todos em fila, desde o hotel até o asfalto, puseram um tapete vermelho para a gente descer e entramos com o aplauso deles. Lá na China, os teatros lotavam às seis da tarde, e eles cantavam conosco, só que era traduzido.

José Rico: Na época, eram quatro músicos, com acordeão, contrabaixo, dois violões e a bateria.

Como vocês se saíram no cinema, como atores?
José Rico: Nos saímos bem. O Nelson nos instruiu, então foi mais fácil. Começamos o filme em 1979 e em 1981 foi o lançamento e o festival.

 

O título “Estrada da vida” é muito significativo para todos os músicos estradeiros. O rock também vive de estrada. De estradeiro, para estradeiro, como fica a saudade de casa quando você está fora?
Milionário: Todo mundo pensa que o artista tem uma vida bela, mas não é isso. Tem horas que nos sentimos sozinhos – nós vivemos muito sozinhos. Vamos para o show com escolta de polícia, voltamos para o hotel com escolta de segurança, entramos no quarto e ficamos sozinhos. Nesses 41 anos, meus filhos cresceram e eu não vi. A arte cobra muito caro da gente.

José Rico: É difícil, mas tem que manter a compostura. Há momentos em que você gostaria de estar em casa, com a família, mas na realidade, precisa trabalhar. Quantas vezes, saindo da minha casa para ir para o show, no carro ou no avião, eu compus… A música é um dom de Deus, uma dádiva.

Você lembra de alguma música que foi composta nessa situação de quarto de hotel?
José Rico: Tenho várias, uma delas chama “Entrevista”.

Com Estrada da vida, vocês se tornaram uma das duplas sertanejas mais importantes da música brasileira?
José Rico: A simplicidade e a maneira que conduzimos a carreira foram muito bacanas, porque tem artista que faz sucesso e de repente vira estrela, exige mundos e fundos, e não é nada disso. Nós temos que fazer por merecer, tudo na vida é assim. É importante ter simplicidade, humildade, trabalhar de maneira honesta.

O sucesso nunca subiu à cabeça de vocês?
José Rico: Não, absolutamente. Pelo contrário, nós fazemos tudo que é possível e eu não abro mão de oferecer o que há de melhor, isso é pela música. Nós temos duplas novas despontando, como Vitor e Léo, sem falar de tanta gente boa, como Cezar e Paulinho, Bruno e Marrone, Zezé di Camargo e Luciano, Chico Rey e Paraná. Não conheço nenhum deles sendo estrela ou abusivo. Com o Chitãozinho, por exemplo, é como se fossemos irmãos, é um pelo outro.

Milionário: A arte é muito diferente do artista. O artista vai e a arte fica. Esses dias, fizemos um show em Fama (MG) e quando já estávamos saindo com a van um rapaz veio correndo, pedindo para tirar foto. Eu fiz o motorista parar e tirei a foto, ele estava chorando, um homem grande já, aquilo me tocou muito. É preciso ter humildade e saber respeitar um fã. Eu já fui fã de muitos artistas e eu sei o quanto é gostoso ser recebido por eles.

Na capa de Estrada da Vida o figurino é interessante, quem mora no campo não usa essas roupas. Isso é roupa de dupla sertaneja? Se vocês me permitem, parece que estão mais para roqueiros do que para sertanejos.

José Rico: [risos] E quem falou que eu não gosto de rock? Eu curto muito o Erasmo [Carlos]. Quantas vezes eu fui criticado por causa dessa costeleta, que eu sempre usei? Isso aqui para mim é Elvis Presley, eu sempre fui fã de Elvis, aquela ginga, a dança. Eu queria pentear o meu cabelo igual ao dele, só que o meu cabelo não dá jeito. A influência é muito grande.

Milionário: Nessa época aí, achávamos que estávamos bem vestidos e bonitos. [risos] Nós surgimos mais urbanos. Sempre falei que tínhamos que procurar um estilo diferente, porque as músicas que todas as outras duplas cantavam já tinham feito sucesso.

Esse disco hoje, é definitivo na carreira de vocês? É um dos discos mais importantes? Como vocês vêem Estrada da Vida hoje?

José Rico: Sem dúvida foi a definição de tudo.