Marisa Monte | VERDE, ANIL, AMARELO, COR-DE-ROSA E CARVÃO | EMI 1994

marisamonte
Capa GLÓRIA E SULA DANOWISKI | Ilustração MARCOS MARTINS
Filha da classe média alta, com um pé no samba (o pai, Carlos Monte, foi diretor da escola de samba Portela), Marisa (de Azevedo) Monte, carioca de 1967, tinha tudo para seguir um roteiro, literalmente clássico. Aprendeu piano e teoria na infância e, adolescente, encarou o canto lírico na matriz, Itália, onde acabou atuando em barzinhos. Descoberta pelo produtor, compositor e jornalista Nelson Motta, foi lançada como nova diva, aos 20 anos, a bordo de um repertório que liquidificava Tim Maia, Luiz Gonzaga, Carmen Miranda, Candeia, o italiano Pino Danielle, Titãs, Kurt Weil, samba-enredo, Jovem Guarda, George & Ira Gershwin. Nascia a voga das cantoras ecléticas, no ano de 1989, em que apareceriam outras, como uma década antes. Mas esta onda não quebraria na praia de Marisa por muito tempo. Logo no disco seguinte, de 1991, Mais, surgiam suas primeiras assinaturas de sucesso, “Beija eu” (com Arnaldo Antunes e Arto Lindsay), “Ainda lembro” (Nando Reis), “Eu sei (na mira)”. 
 Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão, três anos depois, consolida a digital da cantora mais poderosa surgida desde os 1990, capaz de reinar mesmo no coletivo Os Tribalistas, um êxito de proporções raras num mercado em decadência. Carlinhos Brown é admitido na tribo (“Maria de verdade”, “Segue o seco”) e se une ao ainda titã Nando Reis (“Na estrada”), que escreve com ela “O céu”, “Enquanto isso” e, sozinho, “Ao meu redor”. E o ex-Titã Arnaldo Antunes, de “Alta noite”, “De mais ninguém” e “Bem leve” (as duas últimas com ela). Um pop com mistura de MPB baixos teores, que combinava sonoridades das décadas de 1970 e 1980. O produtor americano/pernambucano Arto Lindsay, da dupla Ambitious Lovers, frequentador da vanguarda nova-iorquina, importa deste ambiente Laurie Anderson (“Meanwhile”), esposa do ex-Velvet Underground seminal Lou Reed, evocado em “Pale Blue Eyes”. No(os) outro(s) extremo(s), a policromia de …Cor de rosa e carvão pigmenta o recheio no partido de raiz “Esta melodia” (Bubu da Portela/Jamelão), com a Velha Guarda da Portela (grupo que Marisa gravaria em seu selo). E mais o refinado samba de Paulinho da Viola (“Dança da solidão”) e o samba esquema novo do Jorge Ben da estreia, “Balança a pema”. Uma alquimia de dissonâncias cuja liga só Marisa Monte conhece. E domina.

Tárik de Souza

tripamarisa

FAIXAS

MARIA DE VERDADE
Carlinhos Brown
NA ESTRADA
Carlinhos Brown, Marisa Monte e Nando Reis
AO MEU REDOR
Nando Reis
SEGUE O SECO
Carlinhos Brown
DANÇA DA SOLIDÃO
Paulinho da Viola
DE MAIS NINGUÉM
Arnaldo Antunes e Marisa Monte
ALTA NOITE
Arnaldo Antunes
O CÉU
Marisa Monte e Nando Reis
BEM LEVE
Marisa Monte e Arnaldo Antunes
BALANÇA PEMA
Jorge Ben Jor
ENQUANTO ISSO
Marisa Monte e Nando Reis
ESTA MELODIA
Bubu da Portela e Jamelão

FICHA TÉCNICA

Produção
ARTO LINDSAY
Coprodução
MARISA MONTE
Gravação e mixagem
PATRICK DILLET
Direção executiva
LEONARDO NETTO
Coordenação de produção
CLÁUDIA PUGET (Rio de Janeiro), JEFF YOUNG (New York, A&R EMI), JOÃO ARAÚJO (Rio de Janeiro, Estúdio Nas Nuvens), SKYLINE (Nova York)
Assistente de estúdio
GUILHERME CALICCIO (Rio de Janeiro), MATT CURRY e RICK LAMB (Nova York, Roadie), ALEXANDRE SAIEG (Rio de Janeiro)
Transferência análogo-digital
MYTEK TECNOLOGIES, gravado em março, abril e maio de 1994.
Masterização
DENILSON CAMPOS (Rio de Janeiro, Promaster), SCOTT HULL (Nova York, Masterdisc)
Edições e projetos gráficos/versão prática das cifras
SÉRGIO BENEVENUTO
Coordenação gráfica
EMI/EGEU LAUS
Piano
ROBERTO ALVES
Bateria
EDU SZAJNBRUM

Marisa Monte

Queria que a gente falasse da sua formação cultural e musical; seu pai, Carlos Monte, é uma figura fundamental nesse processo, não?

Meu pai e minha mãe separaram e eu tinha uns 7 anos de idade, então na minha infância quem trazia a maioria dos discos para casa era ele. Muito da minha discografia veio por meio dele, que tinha aquela Coleção Abril Música Popular Brasileira, que vendia em banca de jornal. Era um “elepezinho” com todo mundo. Comecei as minhas pesquisas realmente em sebo, na Coleção Abril, nos discos da avó, do pai, da família, porque não tinha nas lojas Carmen Miranda e Pixinguinha, só as coisas contemporâneas, as coisas antigas saiam do catálogo e não eram recolocadas – era muito diferente de hoje em dia. Com internet, talvez a Coleção Abril não fosse tão fundamental agora, mas na época, era.

Lembro também algumas coisas que vinham de outro lado, não exatamente do meu pai, coisas que a gente ouvia na rádio, no dia a dia, na televisão. Então eu também adorava os Secos e Molhados, os Novos Baianos, o Roberto Carlos, artistas que faziam parte da vida da gente nos anos 1970. Essa minha formação básica foi muito de música brasileira, ao mesmo tempo, sempre escutei muita ópera, música clássica, jazz e depois fui ouvindo de tudo, mas acho que música brasileira foi no que eu me aprofundei mais.

E você acabou indo morar na Itália?
Foi bem mais tarde, quando eu fui estudar, quer dizer, já estudava aqui desde os 14 anos, sempre alguma coisa de música, alguns instrumentos, bateria, e quando terminei o colégio fui fazer testes em alguns lugares: Inglaterra, Alemanha e Itália. Acabei ficando na Itália, estudando uns oito meses em Roma. Eu começaria a faculdade em setembro. Cheguei lá em janeiro, fiquei me preparando, e quando veio a época de iniciar mesmo, as pessoas começaram a me chamar para cantar, fazer show em barzinho. Fiz amigos músicos, só ouvia música brasileira o tempo todo e percebi que não tinha como eu abrir mão dessa bagagem, da minha história. Achei que aquilo não era a minha mesmo, então resolvi voltar antes mesmo de começar. Ainda fiquei alguns meses lá porque um amigo me chamou para fazer uns shows em Veneza.
Cheguei aqui com 19 anos e no ano seguinte já era superconhecida. A coisa sempre foi muito acelerada para mim, desde o princípio, eu sempre tive um tempo próprio e talvez seja isso que você esteja querendo falar sobre a minha carreira. No mundo contemporâneo, é um desafio cada vez maior conseguir entender a própria velocidade, porque vivemos num mundo com tanta demanda e é natural que a gente se perca um pouco e se confunda. Talvez essa noção de tempo já tenha vindo comigo.

Em Veneza você encontrou um parceiro, o Nelson Motta…

Não, foi antes de ir para a Itália. Minha mãe é amiga da irmã do Nelsinho Motta, a Cecília, e falava para mim que ele tinha morado em Roma e que eu precisava conversar com ele, porque ele tinha morado em Roma, conhecia todo mundo, adorava conversar com gente jovem – e eu, com meus 18 anos, superenvergonhada, falava que não conversaria com um cara que eu nem conhecia, que não iria incomodar; mas há uma semana da viagem, eu realmente não conhecia ninguém em Roma e achei melhor ir falar com ele.

Ele foi uma graça; me recebeu, eu levei minhas demos, as coisas que tinha gravado (eu já tinha feito algumas coisas). Depois, deu o telefone de alguns jornalistas, pessoas de música que ele conhecia e pessoas que eu conheço até hoje, graças a ele. Durante todo o tempo em que fiquei na Itália o Nelsinho estava no Brasil, até que esse meu amigo de Veneza, Roberto, um italiano que adora música brasileira, me chamou para fazer os shows e ficar na casa dele. Na véspera do tal show, o Nelsinho ligou dizendo que tinha chegado em Roma, que minha mãe passou meu telefone e ele queria saber se estava tudo bem comigo. Eu disse que estava tudo ótimo e o convidei para o show e, por coincidência, ele estaria em Veneza nesse dia, porque estava acontecendo a bienal e ele pretendia ir.

Quando voltei ao Brasil, não o encontrei por um tempo. Comecei a fazer uns shows de piano e voz num barzinho em Ipanema, todo domingo, com uma menina que tinha chegado de Berkley, Califórnia O Lula Buarque, que já era o namorado da minha irmã Letícia, falava que estava na hora de eu fazer o meu trabalho, para montarmos uma banda, começar a organizar a minha carreira. Então eu voltei no Nelsinho, falei que um amigo estava querendo produzir um show meu e ele perguntou o que eu gostava de cantar. Eu fui falando: “I Heard It Through the Grapevine”, “Speak Low”, “Negro gato”, ele foi escrevendo e disse que meu show estava ali, que ele dirigiria e faria com a gente. Então começamos a trabalhar juntos.

Esse show foi feito no Jazzmania?

O primeiro show foi feito no Jazzmania. Eu não era do meio, o Lula também não conhecia ninguém, mas o Nelsinho convidou jornalistas e outras pessoas, então já teve uma visibilidade.

Foram dois meses de ensaio, eu só tinha grana para pagar um músico e olhe lá. Ensaiei só com pianista, o Roberto Alves, que vinha na minha casa todo dia para tirarmos os tons, as formas, só no piano. A banda em si só chegou na última semana, mas já havia uma estrutura de tom, de forma, tudo preparado, então ensaiamos bem uma semana e fomos fazer o show.

A partir do primeiro, fizemos mais uma temporada no Jazz Mania, em outro teatro pequeno, e a partir daí os convites foram surgindo. Vieram muitos convites para gravar, mas eu falava que estava começando, sabia que se fosse gravar um disco iria me expor, porque eu era muito “verde”. Para mim, estava ótimo daquele jeito, eu não precisava de mais nada, só mais experiência, outras situações para aprender mais. Fizemos uma espécie de turnê, fomos a São Paulo, no Masp, no Aeroanta; fomos a Belo Horizonte, a vários lugares.

Passamos um ano fazendo show sem ter disco e estava ótimo. Eu tinha 19 anos, estava me divertindo, então estava tudo certo. Convite para gravar eu já tinha recebido, aos 16 anos, então sabia que em algum momento eu gravaria, e fui seguindo. Até que depois de um ano e pouco, senti que era hora, porque as pessoas falavam mais sobre mim do que podiam realmente ouvir – não era como hoje em dia, que todo mundo consegue gravar, por causa da internet – e pouca gente tinha me visto, a repercussão era maior do que o acesso ao trabalho.

O trabalho para gravar já existia, era aquele que tínhamos feito, mas o que precipitou a gravação foi um convite da TV Manchete para fazer um especial. Achei interessante a ideia de fazer um especial sem ter disco, mas como não tínhamos um centavo nem nada e precisaríamos gravar num teatro, em 24 canais de áudio, vimos que precisaríamos de um parceiro para o áudio. Assinamos com a EMI (acho que na época era EMI-Odeon). Eles seriam os responsáveis por fazer o registro em duas polegadas, em 24 canais, e caso a gente gostasse, ficaria sendo o meu primeiro disco; caso contrário, eu entraria no estúdio.

O Lula já fazia cinema na época e falou de gravarmos em película, registrar no formato de cinema. Tudo era muito inusitado, mas bancamos aquela situação de fazer um primeiro disco ao vivo de uma cantora desconhecida e com a apresentação ao público em audiovisual. Não sei como conseguimos, foi uma guerra mesmo. Quando saiu o especial, ele era diferente de tudo que passava na televisão, com um padrão diferente de imagem, então o grande público pode me ver nesse formato e, além disso, com um disco que tinha sido trabalhado durante um ano; foi uma trajetória bastante particular.

Engraçado… Eu me lembro de uma conversa com meu pai, quando comecei, em que ele falava para eu cuidar da minha memória, para não terminar com um baú e uma sandália. Eu passo dois anos buscando todas as minhas fitas de duas polegadas nos depósitos espalhados e tentando juntar tudo, digitalizando, duplicando, guardando em lugares separados… Dá o maior trabalho, custa muito caro. Hoje em dia, o backup faz parte do disco: consolidando, gravando, espelhando o HD, guardando em lugares diferentes, fazendo relatório, toda a documentação, para que qualquer marciano abra e encontre daqui a 50 anos.

O seu primeiro disco vendeu mais de 500 mil cópias, algumas músicas tocaram bastante no rádio. “Bem que se quis” foi um sucesso arrebatador, não?

“Bem que se quis” foi oferecida para novela. O diretor musical da TV Globo já era o Mariozinho Rocha, mas eles não quiseram. Mas a música deu uma volta, porque a atriz Lúcia Veríssimo pediu à Marina Lima uma música para a personagem dela e a Marina disse que não tinha e recomendou que falasse com o Nelson Motta, que estava com uma cantora nova. O Nelsinho mostrou “Bem que se quis” e a Lúcia foi direto no autor da novela – a música, que já tinha sido recusada, voltou para a novela. É assim: quando as coisas tem que ser…

Então a música entrou na novela e realmente foi um sucesso, mas acho que ela nem tinha começado a aparecer quando saiu o disco, e ele vendeu 100 mil cópias em uma semana. Isso porque ele já tinha sido trabalhado, existia uma expectativa grande no mercado, o que é raro – lançar um disco esperado de uma cantora que nunca teve disco nenhum.

Depois do primeiro disco, da turnê que fez sucesso, com música na novela, você foi para o Mais, seu segundo disco, gravado em Nova York, e com ele você iniciou uma série de mudanças artísticas. Vamos falar delas?

Quando terminamos o processo todo do disco e do vídeo, o Lula, que era o meu empresário nesse período, ganhou uma bolsa para estudar cinema em Nova York. O negócio dele não era ser empresário de música, era fazer cinema. Ele foi para lá, mas ficou muito ligado a mim e conheceu um cara que tinha feito o disco do Caetano, o Arto Lindsay, para quem ele me apresentou uma das vezes em que fui a Nova York.

Surgiu a possibilidade de fazer um disco com ele, que não era um gringo qualquer, mas um cara que morava em Nova York e conhecia muito de música brasileira, tinha uma compreensão do que ela era. Ele chegou a ver um dos últimos shows da turnê no Rio, eu o convidei junto com o Peter Scherer, eles formavam uma dupla na época, a Ambitious Lovers, para virem juntos. Eles tinham produzido Caetano Veloso em Estrangeiro.

Comecei a procurar repertório com Arnaldo Antunes, Nando Reis, pessoas que eu amava e já tinha uma ligação de fã. Fiz umas musiquinhas, umas melodias, para ver se alguém fazia a letra, tentar parcerias. Tinha coisas minhas que já estavam bem adiantadas. O Arnaldo pediu e me deu música, o Nando me deu música, nós fizemos juntos. Havia algumas coisas que estavam nesse segundo momento do show, como “Ensaboa”, que já causava certa sensação, e eu achei legal gravar.

Fui formando esse repertório, mas no meio do caminho o Peter e o Arto receberam um convite para fazer o disco de outra pessoa e eles resolveram se separar para tratar dos dois, então o Arto ficou trabalhando comigo.

Havia a minha turma do Brasil, pessoas com quem eu já trabalhava, um pouco da minha banda, mas ele me apresentou à turma do Arto de Nova York: alguns brasileiros e estrangeiros; pessoas de Nova York, como John Zorn,Marc Ribot, o próprio Naná Vasconcelos, que morava lá na época, Cyro Baptista, fora o fato de Nova York oferecer varias possibilidades. Por exemplo, eu precisava de uma harpa, então aparecia uma harpista maravilhosa. O Ryuichi Sakamoto também tocou em “Rosa” e fez o arranjo. Bernie Worrell, tecladista do Funkadelics, gravou comigo – e gravou agora de novo no último disco; com ele eu não perdi o contato, é um queridão.

Vamos falar um pouco do repertório do Mais? Algumas músicas entraram para o show e talvez nunca mais saíram, não?

Tem “Beija eu”, música minha, que eu mandei a melodia para o Arnaldo. “Volte para o seu lar” o Arnaldo me deu, numa dessas visitas para levar fita e pedir música. “Ainda lembro”, que o Ed Motta gravou comigo, era uma música que eu tinha já bem adiantada, e o Nando me ajudou a terminar. Eu sempre tive esse ideia das duas vozes, um dueto clássico. Essa música já foi feita meio que pensando no Ed e em outra voz, porque eu já tinha trabalhado com ele antes. Sou muito amiga dele, gosto dele, e a gente tem um carinho muito grande um pelo outro porque somos quase amigos de infância – fiz um show com ele no Aeroanta, eu tinha 18 anos e ele, 16.
“De noite na cama” era uma música de que o Nando me falou, eu não conhecia a gravação original, porque quem gravou foi o Erasmo Carlos. Apesar de ser do Caetano, não sei se ele tinha gravado. “Rosa”, do Pixinguinha, vem da Coleção Abril ‒ é clássica e linda ‒ eu já queria cantar. “Borboleta” foi o Naná quem trouxe nesses encontros. É folclórica, uma canção tradicional do pastoril. Aqui no Rio essas coisas são meio perdidas, mas em Recife acho que as pessoas ainda cantam. Uma música curtinha, uma vinheta, que a gente fez quase só a gente e com o Robertinho de Recife também. “Ensaboa” vem da Coleção Abril e “Eu não sou da sua rua”, do Branco Mello e do Arnaldo, que veio a partir da convivência com vocês – um dia ele cantou a música e eu pedi. Eles tinham um repertório muito interessante, com muita coisa inédita.

A gente tinha um repertório paralelo.

“Diariamente” o Nando fez; é um mosaico, uma música linda. Era um desafio para mim, porque não tem refrão, não repete, tem uma letra extensa, extremamente difícil de cantar. A música tinha ainda mais estrofes, era maior, demos uma editada; eu sei porque um dia achei a letra. Ele queria justamente dar uma sensação de passagem de tempo com aquela extensão ‒ porque ela falava do tempo ‒, então a música tinha que ter todas essas estações, o dia, a noite, os sentimentos, a memória. “Eu sei” é a única música que é só minha, letra e música, que eu fiz naquela época. Minhas e do Nando são “Tudo pela minha metade” e “Mustapha”, sobre um amigo nosso que todo mundo conhece, que faz cinema também, um cara de Nova York. Na época, ele tinha tanta história para contar, falava tantas línguas, conhecia tanta gente e era um cara tão do mundo, que a gente fez essa música falando desse personagem planetário, que estava por dentro de tudo, falava português, árabe, francês sem sotaque; era vivido, tinha experiências muito ricas.

Quando você trouxe o disco pronto para nós, durante alguma turnê, não dava para ouvir no ônibus e a capa chamou muita atenção. Você está lindíssima na foto, elegante como sempre, e tem esses pequenos sinais de mais, que poderiam ser destacados, uma brincadeira criada por vocês. Deu muito trabalho para convencer a gravadora a fazer isso?

Existiam algumas capas de elepê na época fora do padrão, sempre existiram, e é claro que a gente queria fazer alguma coisa diferente. A ideia foi usar esse efeito visual de uma imagem por cima da outra, com transparência. O título era mais por conta do álbum anterior; esse era o momento seguinte. Era Mais no sentido de que não eram só mais músicas, mas coisas diferentes, mudanças. Ele traz mais em relação ao primeiro, então usamos esse símbolo, pequenino, atrás de mim. A capa é do Claudio Torres, o mesmo que fez o primeiro, meu parceirão até hoje, com quem eu tenho o prazer e a sorte de trabalhar, quase um irmão também, uma pessoa que dirigiu vários shows meus junto ao Leo Netto – estávamos essa semana gravando DVD juntos novamente.

Acho que eu sempre tive sorte de ter pessoas muito legais perto de mim, encontrar essas pessoas e construir parcerias, manter a renovação, mas conservar o que já existe. Mas isso tudo é tão intuitivo, não é algo que se pensa; vai acontecendo.

 

O disco

Falando em parcerias, no Verde anil amarelo cor de rosa e carvão você já estabelece uma nova parceria, muito importante para a sua carreira, com o Carlinhos Brown.

O Carlinhos surge entre o Mais e o Verde anil amarelo cor de rosa e carvão. Ele era uma espécie de revelação na banda do Caetano. Uma noite, nos encontramos na Bahia e fizemos três músicas, “Na estrada”, “E.C.T.”, que a Cássia Eller gravou, e “Seo Zé”, que o Brown gravou no disco dele e que tem um verso que é o título do meu disco: “O Brasil não é só verde, anil e amarelo, o Brasil também é cor de rosa e carvão.” Era uma alusão aos valores e ao que ouvimos sobre a bandeira representar as riquezas do Brasil, o ouro, as florestas, o mar, os rios; e o cor de rosa e o carvão seriam as pessoas. Onde estariam as pessoas como valor nesse país? A música falava disso, “patrimônio de Antonio/anônimo”, falava da valorização do ser humano brasileiro como uma riqueza. Um país rico é um país com um povo bravo, valoroso, educado, saudável. O disco, conceitualmente, era todo muito orgânico, muito artesanal. Ele soa assim, percussivo, tem muitas cordas é muito tocado, tem mão de obra. Era intencional que ele soasse assim, tivesse essa presença humana na música brasileira.

Ao conhecer Brown e o trabalho dele, ele me pediu para gravar “Segue o seco”, porque dizia que a música falava de um assunto importante, a seca, e eu tinha visibilidade. Ele achava que tinha que ser falado por alguém que já tivesse uma voz, que ecoasse e ressoasse. Então gravei “Maria de verdade” e “Segue o seco”, que eram dele, além de “Na estrada” que era minha, do Carlinhos e do Nando.

Como vocês faziam na época, gravavam a melodia num violão e mandavam para o Arnaldo?
Hoje em dia já não é mais assim, porque viramos amigos íntimos, mas na época era cerimonioso. O Arnaldo era o Arnaldo Antunes, vocês eram os Titãs. Eu estava ali, meio intimidada. Eu fazia a música e mandava. Era muita gente no grupo e vocês já tinham muita prática, muita história. Fazer música com o Arnaldo, naquela época, tinha um peso diferente; imagina, sugerir alguma coisa numa letra dele ou interferir. Hoje em dia não é assim, o Arnaldo é o poeta, mas ele faz melodia e eu faço letra. Na verdade, ele, o Carlinhos, a maioria dos meus parceiros, fazem tudo; por exemplo, “Um a um” é uma música do Arnaldo e fizemos a letra juntos. Às vezes acontece o contrário, mas não tem mais uma regra.

Quando fui fazer o disco, como eu tinha cantado “Balança pema” e “Dança da solidão” com o Gilberto Gil, na Alemanha, eu o convidei com a banda para gravarmos no estúdio. Acho que eles fizeram mais algumas músicas. O Gil foi muito generoso comigo, porque eu estava no meu terceiro disco e o Gil já era o Gil.

Paulinho da Viola me falou de “Esta melodia”, um samba de quadra da Portela, dizendo que se eu cantasse ficaria tão lindo… Então eu pensei, pensei, e sugeri de fazer com a Velha Guarda e ele disse: “aí vai ficar bonito!”

O Brown também veio gravar as percussões.

“Alta noite” eu tinha gravado no primeiro disco do Arnaldo. Era de um livro de poesia que vinha encartado, uns poemas musicados (é engraçado contar para você, Charles, você já sabe de tudo! Finge que você não sabe!). O Arnaldo falou para mim que estava fazendo esses poemas musicados que iam sair no disco dele – ele ainda era dos Titãs, ainda não tinha saído –, e eu gravei uma das músicas, que era com ele e o João Donato; linda a gravação. Uns meses depois ele saiu dos Titãs, e “Alta noite” ficou ali, dentro de um vídeo de arte, não foi uma coisa que podia ser ouvida por muita gente, e eu quis gravar de novo. Gravei a mesma música duas vezes.
“O céu” é minha e do Nando. “Bem leve”, é minha e do Arnaldo; eu mandei e ele fez a letra, superbonita. Para mim, pelo menos, a música fala sobre alma ecológica, alma das madeiras.

“Balança a pema”, foi algo que tinha acontecido a partir do show. “Enquanto isso” teve a participação de Laurie Anderson, lendo uma versão da letra em inglês; “Esta melodia”, do Bubu da Portela e do Jamelão, teve a Velha Guarda da Portela.

Verde anil amarelo cor de rosa e carvão é um disco que eu já assino como coprodutora, porque de fato eu tinha vivido tudo aquilo e já chegou pronto para o Arto. O Arto também contribuiu muito, com músicos inacreditáveis e a qualidade técnica que ele assegurava.

Tanto tempo que esse disco foi lançado e parece que foi ontem que a gente estava na turnê dele. O que a gente pode falar agora sobre ele que ainda não tenha sido dito?
Mais é um disco de ruptura, bem diferente, experimentei coisas que eu nunca havia feito. Verde anil amarelo cor de rosa e carvão é um disco mais de consolidação. Não era tanta novidade, eu já tinha um pouco mais de pegada, de domínio dos meios de produção, sabia como as coisas aconteciam e consolidei algumas parcerias, inclusive com o próprio Arto, com o Arnaldo, o Nando e o Brown, na primeira vez que trabalhamos em estúdio.

Foi o último disco que lancei em elepê. De vez em quando, pensamos até nessa possibilidade de fazer outro, mas hoje em dia o vinil se tornou um formato bem específico, de gente que ainda ouve o tape deck, gosta de ter o produto ali na mão para fazer remix. Tem mercado ainda para ele. Depois de cair, o mercado de elepê voltou a crescer e agora está num momento estável.

Marisa, quando penso em sua discografia e em todos os shows que vi você fazer ao longo dos anos, a primeira coisa que me vem à cabeça é a administração que a sua carreira teve e tem até hoje. Como você conseguiu isso?

Fazer o que a gente faz envolve talento para a música num primeiro plano, mas existem outras áreas de interesse que são necessárias para que a coisa evolua. Acho que sempre me interessei em fazer não só a música ser criativa, mas em como me relacionar com o mundo da música, para que eu me tornasse uma profissional. Sempre fui muito curiosa.

Continuo sendo assim e aprendendo muito. Tenho interesse pelo lado executivo, funcional, por contrato, pela maneira como a legislação está evoluindo, as questões que envolvem o mundo digital… Eu não fico passiva em relação a tudo que vai acontecendo. A voz é a base, é o meu princípio, mas eu fui compondo, produzindo e, na verdade, acho que não tem um jeito certo de fazer as coisas, mas tem um jeito próprio e eu sempre quis encontrar uma maneira minha. Esse é o grande desafio, porque não existe uma fórmula, nem uma maneira que seja boa para todo mundo, mas existe o jeito do Charles, o jeito da Marisa, e isso é uma coisa que tem que ser construída, tem que ser experimentada.

Você é muito amiga dos Titãs, acompanhamos de perto a sua trajetória, e nos nossos papos de estrada você acabou se tornando uma referência, porque era como se só fizesse o que você quer: shows de altíssima qualidade, discos na hora em que você quer, possibilidade de escolher os parceiros, o programa que quer fazer, o timing da carreira. Todo esse controle em cima de sua carreira se solidificou e se tornou um modelo de referência, porque muito pouca gente consegue isso. Se a gente parar para pensar, quais as outras pessoas que conseguiram fazer a carreira dessa forma?

Acho que não é um raciocínio sobre a carreira, mas sobre a vida, a carreira faz parte da vida, tem que caber na vida. Mas não acho que eu só faço o que eu quero, eu faço tudo o que eu preciso fazer para fazer o que eu quero, porque a vida é um pacotão também, ninguém faz só o que quer. Para cantar com esse conforto, eu tenho que fazer muitas coisas que eu poderia não querer fazer, preferia não fazer, mas que eu gosto porque isso me dá a possibilidade de ter mais controle talvez na hora de escolher o que eu quero fazer.

Isso talvez tenha sido possível para mim por se tratar de uma carreira solo, talvez para um grupo, como o de vocês, fosse muito mais difícil conseguir conciliar as vidas e os momentos de vida de todo mundo (oito momentos de vida diferentes) para que funcionasse nos tempos criativos e produtivos de todo mundo. Para mim também foi uma escola estar ali com os Titãs, porque vocês já tinham muito mais experiência do que eu e poder conviver com o método criativo de vocês foi uma coisa realmente impressionante. Foi muito importante poder entrar num núcleo de criação totalmente ativo, fértil e produtivo e observar como aquilo era feito, até porque quando eu comecei, não compunha tanto. Aquela convivência foi fundamental para o meu processo de me tornar compositora e começar a compor mais.

Acho que você explicou bem, porque, às vezes, para conseguir fazer o seu trabalho você tem que ceder bastante e às vezes você cede mais do que você gostaria. É interessante também, para quem está olhando a sua carreira, a sua trajetória, que você tem o seu tempo de fazer as coisas e isso não é mais importante do que nenhuma outra coisa, isso dá o tom de sua carreira.

Acho que transparece uma verdade, uma legitimidade, talvez é o que seja mais precioso: a verdade, a honestidade do trabalho. Tem muitos fãs que esperam três anos por uma nova turnê, mas, ao mesmo tempo, é o melhor que eu tenho para dar para eles e eles entendem.

Nem sempre o mercado está pronto para receber um artista com essa cabeça. No seu caso, você é assim e nunca abriu mão disso, o que eu acho incrível.

Arto Lindsay

Nas primeiras vezes em que você ouviu a Marisa cantar, o que você achou?
Que ela cantava muito bem. Uma das coisas mais marcantes é que o canto dela parece ser tão fácil, como se ela abrisse a boca e saísse o som, sem esforço. Os trejeitos também são agradáveis. Naquela época, ela cantava mais soul, gostava mais de uma coisa mais dramática.

Ela lhe lembrou alguém?
A Gal também canta com uma facilidade que seduz, a própria facilidade é chamativa.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar com a Marisa?
Foi ela quem me chamou. O cunhado dela, Lula Buarque, e a irmã, Letícia, moravam em New York e acho que eu já a conhecia. O Beco Dranoff também estava envolvido nesse momento, mas eu não sei exatamente como. Foi o próprio Caetano Veloso quem me falou que tinha uma cantora nova, antes de eu vê-la. Depois eu comprei o primeiro disco e então ela me procurou.

Por que ela procurou você exatamente? O que vocês tinham em comum?
Acho que antes de trabalharmos juntos não sabíamos se existiam afinidades ou não, mas talvez ela me procurou porque gostou do trabalho que eu fiz com Peter Scherer, em Estrangeiro.

Mas você trouxe algumas novidades para as pessoas com que trabalhou no Brasil?
Várias novidades, principalmente na maneira de ouvir, que é isso o que um produtor oferece: ajudar o músico a criar aquilo que talvez ele mesmo não saiba que pode fazer. Promovi vários encontros e, por causa do momento, trouxe tecnologias, mas acredito que o principal tenha sido essa questão de ponto de vista mesmo do que o trabalho poderia ser.

Você foi chamado para trabalhar no disco Mais, o segundo da Marisa. Do que você se lembra no processo de produção?
O primeiro disco que ela fez foi o registro de um show, elaborado com o Nelson Motta. Eu não estava presente, não sei quem fez o quê, como foi a escolha de repertório. Mas ela ficou conhecida como uma cantora eclética, porque cantava o melhor de todos os estilos, um pouco de soul, um pouco de samba antigo, um pouco de samba moderno, rock, música nordestina, ela não tinha um estilo, escolhia o melhor de cada um para cantar.

Com esse segundo disco, ela quis se aproximar da geração dela – estava apaixonada pelos Titãs e pelos Paralamas do Sucesso. Depois, em Verde anil amarelo cor de rosa e carvão, ela se apaixonou pelo Brown. A Marisa queria achar a turma dela. Uma coisa importante é que ela compõe, não é só uma cantora, ela toca; e hoje em dia é uma ótima produtora dos discos dela e de outras pessoas, sem falar no show, em toda a carreira. Ela quer dominar tudo, controlar todos os meios de expressão.

Quando ela me chamou, o disco seria feito com o Peter, um ultramúsico, meu parceiro em Estrangeiro, que tocou metade dos instrumentos, mas ele não quis trabalhar no disco dela por alguma razão e resolvi fazer sozinho. Foi uma aventura para mim, aprendi muita coisa sobre como se faz um disco. Chamei o Robertinho do Recife para gravar com a gente, que naquele momento estava meio esquecido, não era considerado bacana, mas é um cara muito bom, que era da minha turma porque tinha tocado com ele na adolescência.

Eu me lembro só de besteira. Por exemplo, o Ed Motta veio gravar um dueto e dentro do estúdio ele não falava comigo em português, ele falava num falso inglês, uma coisa muito engraçada. O Naná também faz muita brincadeira no estúdio, é um gênio, não? Ele não gosta muito de estúdio, então chega, grava tudo e fala que vai ao banheiro e vai embora. No outro dia, vem alguém para buscar os instrumentos. Eu me lembro também dos músicos americanos que ficaram meio passados com a beleza da jovem Marisa. Os americanos babando porque ela, que diferentemente das cantoras americanas é muito solta, chega perto, abraça; os caras ficaram meios nervosos.

Por que gravar em Nova York?
Em primeiro lugar, por causa dos músicos; segundo, por causa da tecnologia da época. Naquela época, a gente trazia para o Brasil microfones, compressores e pré-amps porque os estúdios aqui não tinham. Também por conta do som dos anos 1980 (o disco foi no início dos anos 1990), ultralimpo, que acabou tirando um pouco da humanidade, da soltura do som, o que é normal, porque as modas mundiais de gravação vão e voltam; mas já estava voltando aquele calor, uma vontade de gravar as coisas de uma maneira mais quente.

 

O disco

Nesse segundo disco, Marisa ainda era jovem, mas já podemos perceber o empenho dela em entender as várias etapas de produção de um disco. Ela se aproximou de você para entender como funciona a produção, como se faz uma ideia acontecer?
Acho que no Mais nem tanto, porque ela estava focada em repertório, em começar a compor e também em gerir a carreira como um todo. Ela ainda estava amarrando parceria com o empresário, Leo Netto, que é bem forte. Foi mais no Verde anil amarelo cor de rosa e carvão que ela realmente começou a assumir mais essa responsabilidade sobre a gravação em si. Estou especulando, mas é assim que me lembro.
O Verde anil amarelo cor de rosa e carvão foi o encontro dela com algumas pessoas com quem ela queria trabalhar: o Brown, o Gil, o Paulinho da Viola e o Rafael Rabello, que não chegou a tocar, não ficou tanto com a gente, foi importante nesse disco e nos ajudou na gravação com a Velha Guarda da Portela. Porém, no Mais, eu aprendi muito a usar minha guitarra, gravando bastante com ela, barulho ritmado, estridência, paródia de música, acabei usando isso estruturalmente onde precisava, fiz coisas que não sabia que poderia fazer. Quando chegou o terceiro disco, depois do Verde anil amarelo cor de rosa e carvão a gente já conseguia imaginar mais o que fazer, para que lado levar.

Nessa etapa nova-iorquina da gravação de Mais você acabou chamando alguns músicos da cena de lá e eu queria que você falasse deles.
Arto – Só convidei pessoas com quem eu já tocava lá, pessoas que eu conhecia bem. Chamei o Marc Ribot, Dougie Bowne na bateria; o Calvin Gibbs, que tocou comigo há muitos anos; e o tecladista Bernie Worrell, que é famosíssimo, já tocou com todo mundo, Talking Heads, Bob Dylan, enfim, é difícil encontrar uma pessoa com quem ele não tenha gravado.

O que esses músicos acrescentam aos músicos brasileiros?
A maneira de tocar tem um sotaque diferente, eles sentem a batida forte num lugar diferente. Tem gente que gosta da ideia de misturar vários tipos de música para criar um estilo e achar um meio-termo, mas eu sempre gosto que o cara toque do jeito dele, junto a outro cara tocando do jeito dele, e a gente tente encaixar para que todo mundo toque de corpo inteiro. É uma coisa natural para mim, por conta da minha história, lá e cá, e acabei trabalhando assim. Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos são países que se autofolclorizam, gostamos do jeito que a gente faz, temos esse narcisismo musical bem desenvolvido.

Mais é um grande disco, um trabalho importante na carreira da Marisa e com canções que até hoje permanecem no repertório. Queria que a gente falasse de algumas delas.
Esse disco é um momento em que a Marisa queria achar a turma dela e se relacionar com essas pessoas, estava namorando um titã, tem várias músicas com o Nando Reis, com o Arnaldo Antunes, tem música com o Branco Mello também. Acho que ela deve muito ao Arnaldo e ao fato de ele ser poeta também e gostar de resumir as coisas.

No Verde anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão a Marisa está creditada como coprodutora e você é o produtor. Em que essa Marisa é diferente da do Mais?
Ela entendia muito mais do processo de gravação e meteu a mão, ela já escolhia qual palavra de cada take gostava mais, que eu confesso que é um processo que me cansa muito numa gravação, mas tem que fazer – pode ser prazeroso, mas também é muito cansativo – e ela adora.

Mas o disco não é só a parte técnica, tem todo um processo artístico intenso de criação. Como vocês escolheram o repertório juntos?

Lembro mais do final, quando ela vinha com muitas canções e eu tentava jogar algumas fora, lutava para tirar canções e ela resistia. No início, eu sugeri algumas coisas, acho que no Verde anil amarelo cor de rosa e carvão ela compunha muito com os caras, então a gente mexia um pouco com a composição para ela ficar boa para o disco. O Nando também fez muitas composições com ela e ele é muito bom. O Brown chegou nesse disco e essa época dele foi incrível, porque a vida toda ele sonhou em ser compositor, músico, estrela, então vinha com uma vontade… A vida toda dele estava resumida nessas músicas, nas músicas do primeiro disco dele e nessa leva que ele fez, da qual a Marisa pegou várias pérolas. Era uma fase diferente, uma fase épica do Brown, tem “Segue o seco” e músicas grandiosas.

“Dança da Solidão”, do Paulinho da Viola; “Balança a pema”, de Jorge Ben Jor; e a música do Jamelão e do Bubu da Portela são as únicas três que não são da turma dela, escolhidas para representar uma ideia de Brasil, tanto que o nome do disco é de uma frase do Brown, que faz referência às cores da bandeira e às pessoas.

No Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão a Marisa tem alguns convidados ilustres participando das gravações, como o Gilberto Gil, que veio com a sua banda…
Gil e banda gravaram quatro faixas, acho que a cozinha da banda dele gravou mais. Foi uma experiência incrível: o chamamos para gravar uma música e ele acabou gravando mais, não tenho certeza, talvez foi para a música do Paulinho. Obviamente, isso foi muito importante para o disco, não só pela importância do Gil para a música brasileira, mas pelo extraordinário nível técnico dele e da banda. E o Arthurzinho Maia e o Jorginho Gomes, baixista e baterista incríveis.

 

Do Mais para o Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão a Marisa apresenta uma evolução?
De certa forma, você pode ver no Mais a Marisa como uma artista que estava se procurando ou procurando seu estilo, seu jeito, e ela avançou nessa procura.

Você acha que Verde anil amarelo cor de rosa e carvão continua sendo um disco importante na carreira da Marisa até hoje?
Modéstia à parte sim, acho que esse é um grande disco, muito bom. Ela foi aprendendo e conseguiu chegar ao lugar que queria, talvez seja o primeiro disco em que ela estava em plena possessão dos poderes.

Certamente, a Marisa é uma das poucas pessoas dentro do painel da música brasileira que faz só o que ela quer, tem controle absoluto da sua música, da sua carreira, do seu trabalho. Como ela conseguiu chegar nessa condição?
Foi passo a passo, ela não cedeu e isso não quer dizer que ela se mantém acima do processo de divulgação e venda da sua música, muito pelo contrário, ela se envolve muito. É muito simples, ela apresenta um grande show, que você pode até achar que é grande demais e que a esconda um pouco, mas dá para ver que ela quer oferecer alguma coisa ao público.

Ela tem humildade também, quer se envolver em todos os detalhes, e tem muita gente que quer ser estrela, cantar e ir embora. Não é que ela queira controlar apenas, ela quer fazer. Ela é mulher, e não é fácil ser mulher em várias áreas da vida, mas conseguir fazer o que ela fez sendo mulher é incrível e superimportante.

Nelson Motta

Quando penso na discografia e nos shows da Marisa, a primeira coisa que passa pela minha cabeça é sua forma de administrar a carreira – não conheço ninguém aqui no Brasil que tenha um gerenciamento de carreira parecido. Como ela conseguiu isso?
Acho que ela conseguiu isso com sorte e muita inteligência nas escolhas e no comportamento. Quando Marisa começou a carreira de palco e durante o ano em que trabalhei com ela preparando o disco até hoje, ela desenvolveu uma carreira que quase não tem paralelo no Brasil, assim como o controle que tem de toda a obra.

O contrato com a EMI envolvia três discos e depois ficava apenas como distribuidora. Mais tarde, para renovar a distribuição, pegou de volta o master. Ela tem editora, um excelente empresário desde o início (Leonardo Netto), que é muito afinado com ela, então a Marisa pode priorizar a liberdade, a independência e a criação artística. Hoje, a EMI presta serviços à gravadora da Marisa

Ela faz show quando quer, do jeito que quer. Pode se dar ao luxo de ter um filho e não trabalhar por seis anos que não muda nada; quando volta a fazer show é como se estivesse no auge da carreira, porque ela construiu uma base de fãs tão sólida, que talvez, a meu ver, se assemelhe só à Maria Bethânia.

Todo mundo conhece a Marisa e sabe que ela é uma pessoa muito discreta e reservada, ela queria manter sua vida particular e ao mesmo tempo criar uma estrutura que permitisse ter controle absoluto sobre todos os movimentos da carreira. Agora, em plena crise dos discos, ela diz que vai lançar dois álbuns porque ficou parada durante cinco anos. E vende 300 mil cópias de cada. A carreira da Marisa é um case de sucesso de universidade: mostra como virar uma estrela e viver uma boa vida também, sem estresse.

Marisa faz turnês mundiais, o lançamento de seus discos passou a ser nacional e internacional. Nas primeiras vezes em que foi a New York, cantou em salas de 300 lugares, agora, há anos canta no Beacon Theatre, com 4 mil lugares, faz o House of Blues, em Los Angeles, ou seja, lugares grandes, com públicos locais. Ela está com a vida que pediu a Deus e o público dela também, porque a Marisa se doa muito, faz turnês, e quando tem show, quando tem assunto e trabalho para mostrar, vai para a televisão e dá entrevista, depois termina e volta para casa.

Foi sua irmã quem apresentou Marisa a você?
Marisa é filha da Silvia Azevedo Marques, amiga de minha irmã Cecília, que sempre falava que a filha da amiga dela era cantora, que eu precisava escutá-la porque eu estava morando em Roma e a menina queria ser cantora lírica e eu poderia indicar uma academia de canto lírico. Para fazer uma gentileza, concordei. Para mim, a despacharia em 15 minutinhos, mas fiquei muito impressionado com a Marisa, aos 19 anos, conversamos sobre música. Eu pensava: como essa garota sabe tanta coisa de Vicente Celestino, de Chiquinha Gonzaga, de João Gilberto? Ela conhecia muita coisa de MPB e também de Renato Russo, de Titãs, coisas da geração dela. Cantarolou algumas coisas e eu a achei inteligente, interessada e séria.

Marisa foi para a Itália e nos seis meses que ficou em Roma não nos vimos, mas um dia ela me ligou dizendo que tinha desistido de ópera porque seria muito chato ter que morar fora do país, o ambiente era muito competitivo e careta. Ela estava pronta para voltar ao Brasil, mas antes passaria em Veneza para fazer um pequeno show com uns amigos, e me convidou. Veneza não é uma má ideia nunca e eu estava de férias, então fui para lá ver o tal show da Marisa com esse violonista italiano num barzinho de um calçadão no canal de Veneza.

Foi um show de barzinho bem vagabundo, com Milton Nascimento, Djavan, aquelas músicas de barzinho, um violonista amador, mas a garota era tão impressionante e foi tão incrível que, de 50 pessoas que estavam lá no começo, no final eram cerca de 300, e não dava para passar em frente. Fiquei muito impressionado, brinquei muito com a Marisa, e ficamos amigos ali – fui testemunha do primeiro cachê dela, uns 50 dólares, que ela ganhou aos 19 anos em Veneza.

Ela voltou ao Brasil pouco tempo depois (eu também), e me procurou dizendo que queria ser cantora pop e que estava se apresentando em um show. Fui assistir ao show e disse que queria fazer o disco e dirigi-la. Diante daquele talento, pensei que poderia fazer tudo o que sempre quis como produtor, usando o que tinha aprendido em anos e anos de crítica musical, discos produzidos e marketing de gravadora, enfim, em todas as coisas que eu tinha trabalhado – eu tinha 42 anos na época. Pensei: agora vou escrever uma tese universitária sobre como fazer um trabalho bem feito com uma artista nova e de talento. Ela era uma garota de classe média que morava com a mãe, não tinha problema de subsistência, sempre se virou, tinha um negócio de artesanato de bolsa, não queria ser rica e famosa, mar ser uma estrela de palco (o ídolo musical dela era a Maria Callas).

Então começamos um trabalho sem pressa, sem data, sem urgência nenhuma. Primeiro fomos selecionar o repertório criteriosamente, escolher as canções adequadas, depois chamamos só um pianista para ela se ambientar com as músicas. Fizemos a segunda seleção para chegar à base do repertório. Chamamos um baixista e aquilo foi ganhando corpo. Entrou um baterista, e já mudaram os arranjos. E ela ensaiava todo esse tempo.

Quando ficou pronto, ela se apresentou para 200 pessoas no Jazz Mania por duas noites, e gerou comoção no Rio de Janeiro, manchete no Jornal do Brasil, “Nasce uma estrela”, até matéria na Veja. Marisa, com 20 anos, era um fenômeno. Passou um tempo e fizemos outro show, na Casa de Cultura Laura Alvim, um teatro um pouco maior, que estava superlotado. E Marisa começou a chamar a atenção de pessoas como Walter Salles, Gerald Thomas, Monique Gardenberg e críticos de música, porque o primeiro show foi um escândalo.

Marisa foi para o Teatro Ipanema, que era um pouco maior. Não dava entrevistas, fazia o antimarketing, só no boca a boca. Foi a São Paulo, no teatro do Masp, e lotou, com 300 lugares. Em Minas, no Cabaré Mineiro, 600 lugares. A menina não tocava em rádio, não saía no jornal, não estava na televisão! E assim foi durante nove meses, com as gravadoras voando em cima porque Marisa já era cult e elas ofereciam propostas mirabolantes.

Marisa não queria ganhar mais dinheiro e acabamos escolhendo a proposta mais interessante, a da EMI, que garantia um especial de uma hora em formato de cinema para TV. Contrariando todas as expectativas, Marisa foi uma cantora que não tinha nem disco gravado e teve um especial de fim de ano na TV Manchete, que foi visto por milhões de pessoas! Que emissora transmitiria um especial de uma cantora inédita em rede nacional? Walter Salles e eu fomos lá mostrar quem era a garota e o Jayme Monjardim, que era o diretor artístico da TV Manchete, aceitou a proposta e se deu bem.

O disco também saiu contrariando todas as regras do mercado – as quais Marisa ignorava e que eu contestava. Ele saiu em janeiro, sendo que as gravadoras entendem que disco não pode ser lançado nessa época, porque não vende, está todo mundo em férias. Os lançamentos são geralmente direcionados para o mês de dezembro, quando então compete com Roberto Carlos, o que eu sempre achei uma estupidez. O disco foi lançado sozinho em janeiro, teve uma atenção da imprensa muito maior do que se tivesse saído no fim do ano entre os grandes sucessos, teve clipe no Fantástico e tudo o que tinha direito.

O disco, como produto, contrariava vários tabus da indústria fonográfica: era um disco de estreia ao vivo de uma intérprete, o que não costuma acontecer, porque a gravadora quer cercar os artistas novos de todos os cuidados e usa o estúdio para controlar, para não sair daquela fórmula – ao vivo é um risco enorme. Existem discos ao vivo que são praticamente refeitos em estúdio, mas o da Marisa é ao vivo mesmo: tivemos duas ou três pequenas coisas que ela mexeu na voz, refez uma frase, o resto ficou intacto! Alterou-se bastante o backing vocal, a própria Marisa os reforçou, e muita coisa de bateria foi feita, porque foi gravado ao vivo, num teatro, então foram ajustes mais técnicos.

Outro aspecto é que se trata de um disco de uma cantora nova todo feito de covers e versões de música estrangeira, isto é, as coisas mais depreciadas no mercado. Eu fiz a letra de uma música do Pino Danielle, que a Marisa conhecia do tempo em que morou na Itália, e ela estourou na novela Salvador da Pátria. Em três meses, se vendeu 400 mil discos, até hoje já passa de 1 milhão.

Foi um disco sem nenhuma concessão, nós fomos de uma intolerância radical, não fizemos concessão nem ao público. Nosso único objetivo era ter as melhores músicas e que a Marisa pudesse fazer da melhor forma. O repertório inicial tinha músicas de Philip Glass, Waldick Soriano, Peninha, tinha jazz, Billie Holiday e ela fez bem essas escolhas, assim como as que dizem respeito à maneira de realizar os shows.

Marisa é uma pessoa que não tem pressa, ela não queimou etapas, foi fazendo shows em lugares maiores aos poucos. Vi show da Marisa em Paris, New York, Miami, em tantos lugares, e não me lembro de um que não estivesse superlotado. Uma das primeiras pessoas a ver o show dela foi o Paulo Coelho, porque tinha “Cartão postal”, uma música dele e da Rita Lee, um blues, uma grande música mesmo, que ficou meio perdida entre os discos da Rita. O cover da Marisa ficou muito melhor do que o original, e o Paulo ficou maravilhado, fazendo previsões místicas sobe a carreira dela – o mago estava certo.

Como vocês conseguiram convencer uma gravadora a começar dessa forma, com disco ao vivo, covers incomuns, uma série de coisas diferentes?
Acho que foi pela qualidade e pela paciência também, porque poucos meses depois de a Marisa começar a fazer show, já se espalhou o boca a boca, e as gravadoras, vários diretores, músicos, acharam aquela garota sensacional, pronta. Eles vinham falar comigo e eu dizia que ela nem queria falar de disco, e foi assim durante quase um ano; os caras das gravadoras ficando loucos e, com isso, a Marisa crescendo cada vez mais.

Nós estamos falando de uma época que foram os anos dourados das gravadoras, com discos vendendo 1, 2 milhões de cópias – era a indústria milionária do disco, sempre à procura da estrela de amanhã. Havia pelo menos três propostas ótimas para contrato de três anos, diziam que dariam toda a liberdade a ela, mas sabemos que isso é relativo. Eu acumulara 20 anos nesse mercado e não era nessa altura da vida, quando estava fazendo um disco por amor, pela música, que iam me enrolar. Eu não estava mais trabalhando como produtor, eu estava fechando com chave de ouro e queria fazer um trabalho legal, sem concessões, como deveria ser feito no mundo ideal, sem qualquer forma de pressão, objetivo final, nada disso, só a qualidade.

Quantos e quantos discos estavam sendo gravado enquanto as músicas eram compostas durante as gravações; quantas vezes eu vi cantores gravando e lendo a letra… Depois de um ano de turnê, o cara está cantando dez vezes melhor que no álbum, eles percebem que agora sim ele está pronto para ser gravado e então fazem um ao vivo. Por que não sair já com a coisa boa? Para preparar um bom disco, o melhor método que eu conheço é cantar as músicas durante um ano, isso acontece de dez em dez anos no Brasil.

Não era o disco que deveria ficar pronto, era a Marisa quem tinha de estar pronta. Então falei para se acalmarem e eles começaram a ficar ambiciosos, diziam que dariam não sei quantos milhões adiantados para ela, mas não era essa a questão. Queríamos que bancassem um especial de uma hora na televisão, o que não era nenhum absurdo e, por contrato, entregaríamos o disco pronto, com capa e tudo, e eles não poderiam fazer nada, a gravadora venderia a artista, faria as ações de marketing, investiria grana, faria promoções e ajudaria na turnê. E essa parte de marketing ele fizeram muito bem, com a nossa supervisão, e continuam fazendo até hoje, só que agora como empregados da Marisa.

Esse planejamento todo foi feito por meio da sua experiência e anos de vivência em gravadora e televisão, mas certamente com o aval da Marisa. Como uma pessoa tão nova tinha essa noção de que era legal ir por esse caminho e não por outro?
Isso é o que faz uma diferença muito grande na Marisa, ela é muito inteligente, o que não é uma a característica das cantoras em geral – seria pedir muito até, uma cantora maravilhosa, uma mulher honesta, bacana e ainda superinteligente –, mas ela é realmente muito inteligente e preparad:, ela estudou, aprendeu, é uma pessoa extremamente honesta com ela mesma. As escolhas da Marisa são feitas com a cabeça e com o coração, ela jamais toma uma decisão por dinheiro, popularidade ou populismo. Hoje em dia, acredito que ela pense as mesmas coisas e tenha os mesmos princípios éticos orientando as escolhas das músicas, dos shows, dos lugares de quando ela estava com 19, 20 anos.

Essa bagagem que a Marisa apresentou desde o começo veio da onde?
Carlos, pai da Marisa, é um homem do samba, economista, mas que ama samba, sempre foi ligado à Portela. Marisa sempre gostou de música, estudava canto lírico desde os 14 anos de idade; gostava de ópera, de samba, também ouvia as coisas da geração dela, mas sempre foi muito curiosa, fato comprovado por aquelas coleções de música que a Abril lançava. Ela fez um curso inteiro de MPB com Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, leu os fascículos…

Depois do sucesso desse primeiro disco, Marisa seguiu em frente e vocês não trabalharam mais juntos. Como foi essa sequência?
Marisa sempre teve uma ambição de se aperfeiçoar musicalmente, os covers e as versões do primeiro disco foi o que pudemos fazer naquele momento, mas ela sempre pensou em escrever música. Logo que terminou esse primeiro disco, já começou a estudar violão para começar a fazer música também.

Depois que eu terminei o disco, acabou aquela aventura para mim. Foi um grande prazer, mas eu não queria mais fazer carreira de produtor, quis fazer aquele disco, e como nunca fui empresário de artista nenhum, nem tenho vocação para isso, o empresário improvisado dela durante os shows era o Lula Buarque, que hoje é diretor de cinema, cunhado dela. Foi algo bem familiar, bem precário. Com o disco lançado, precisava ter um empresário de verdade e eu indiquei meu amigo Leonardo Netto, que trabalhava comigo há dez anos, fez o Dancin’ Days, da Gávea, e as Noites Cariocas no morro da Urca comigo. Ele tocava o negócio. Era inteligente, muito experiente em show business. Foi o maior presente que eu lhe dei na vida, pois ela já veio pronta, foi só voar, e ele fez fantasticamente o trabalho dele, tanto que se dão bem esse tempo todo, estão juntos e só fazem coisas boas, sem desavença. Foi uma sorte ter uma pessoa como o Leo e ela ter tido a inteligência de fazer essa escolha.

A inteligência das escolhas da Marisa se destaca, além da sorte de ter essas pessoas disponíveis, topando trabalhar com ela em diversas épocas e circunstâncias. Ela sempre se cercou muito bem das pessoas. Para uma garota de 19 anos, foi ótimo ter um produtor como eu, na época com 42 anos de idade, sendo 20 deles na indústria fonográfica, para fazer o primeiro trabalho. Depois, com o Arto Lindsay, um produtor excepcional, incrível, criativo, fizeram o disco em New York e Marisa começou a ficar cosmopolita, internacional. As primeiras músicas feitas com o Arnaldo Antunes, um cara de alto nível, como “Beija eu”, e com o Nando Reis… Ela sempre soube se cercar muito bem de parceiros e de produtores, o que é fundamental.

Hoje ela é uma ótima produtora, porque Marisa é um general. Com toda doçura, delicadeza, educação, que são as suas grandes armas, ela é firme no que quer e comanda tudo o que esta à volta dela. Ela sabe quanto custa, quanto tempo vai levar, quem são as pessoas e ela gosta disso.

Em Mais, Marisa acabou se firmando como compositora. O que você acha do disco?
Para mim, Mais foi uma maravilhosa surpresa. Eu não sabia de nada, fui ouvir o disco já pronto. Foi a revelação da Marisa como compositora, com “Beija eu”, que trouxe um arranjo exótico do Marc Ribot, guitarrista norte-americano, a produção do Arto Lindsay, uma coisa internacional que foi um grande avanço. O disco traz a música com o Nando, “Diariamente”, incrível. Essa capa alucinada do Claudio Torres, que você vai picotando, é sensacional. Adorei “Ainda lembro”, dueto com o Ed Motta; ela gravou também “Rosa”, do Pixinguinha, que é um dos grandes clássicos da música brasileira, gravou Cartola, em “Ensaboa”, para a qual ela fez um arranjo meio world music, bem diferente; coisas de soul, funk norte-americano.

Ela é uma das melhores compositoras da sua geração, e faz música, letra, tudo o que foi aprendendo. Como ela tem uma cultura musical muito grande, é uma autocrítica rigorosa, porque já ouviu muita coisa boa, que compara com o que está fazendo.

Seria um dos méritos dela juntar tradição e modernidade, como nesse e no próximo disco, Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão

Esse é um traço da Marisa. Ela tem um pé firme na tradição do samba, da música brasileira, em Chiquinha Gonzaga, em Vicente Celestino. Ela era uma artista de 20 anos quando gravou Pixinguinha, mas gravou “Rosa” com arranjo do Ryuichi Sakamoto, um músico japonês supermoderno. Isso é Marisa.

Certamente, quando Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão foi lançado, você prestou atenção e também ouviu. O que você achou?
Eu adorei todos os discos da Marisa e todos me surpreenderam de uma forma ou de outra. Esse é um grande disco, um dos melhores mesmo, que tem o encontro dela com o Carlinhos Brown, uma pessoa muito importante na trajetória autoral dela. O equilíbrio, o bom senso e o bom gosto dela se integraram muito bem à loucura do Carlinhos Brown, essa exuberância do Brown, tanto que com a racionalidade e a maestria do Arnaldo Antunes eles fizeram um trio perfeito, os Tribalistas. Em Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão tem duas músicas com o Nando, mas eu não sei se evoluíram muito essas parcerias com o Arnaldo e com o Nando nesse disco; a grande característica mesmo é a presença do Carlinhos Brown como parceiro, também no som que está em volta. Disco também produzido pelo Arto Lindsay.

Como podemos definir a importância da Marisa no cenário da música brasileira?
Marisa conquistou muito jovem um lugar de honra entre as cantoras brasileiras e já tinha se transformado na principal influência de muitas novas cantoras. Nenhuma cantora que veio depois da Marisa pode ignorá-la, muitas até acabam se perdendo, de tão fascinadas que ficam pela luz dela. Porque ela faz música, faz letra, canta, só faz o que quer, é um ideal de cantora. Acho que isso acaba passando também pela forma como a carreira foi administrada: ela poderia fazer palestras de autoajuda em universidades sobre como administrar bem uma carreira artística e levar uma boa vida.