Leila Pinheiro | BENÇÃO, BOSSA NOVA | Phillips, 1989

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Capa LIELZO AZAMBUJA e CECILE AZAMBUJA | Foto MARCELO FAUSTINI

L eila Pinheiro deixou o segundo ano de medicina em Belém do Pará, em 1981, e foi para o Rio de Janeiro atrás da música. Já em 1983 estreava em disco independente, com participações luxuoasas de Tom Jobim, João Donato, Ivan Lins, Francis Hime e Toninho Horta. Em 1985, convidada por César Camargo Mariano, levou o terceiro lugar do Festival dos Festivais com “Verde”, de Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto, o que levou ao contrato com a Polygram/Phillips para o primeiro disco, Olho nu (1986). 

Em 1989 Roberto Menescal a convidou para um projeto em que uma jovem cantora festejaria um movimento musical que completava 30 anos. Trinta canções de autores da Bossa e do pós bossa, como Carlos Lyra, Tom Jobim, Jorge Ben, Johnny Alf, Edu Lobo e João Donato, foram encadeadas em pot-pourris. O disco foi um sucesso no Japão, mercado para o qual foi produzido, e também alcançou 200 mil cópias no Brasil. Leila seguiria no gênero em discos como Coisas do Brasil (1993) e Isso é Bossa Nova (1994), misturado a outras vertentes da MPB.

TIRALEIRA

FAIXAS

LOBO BOBO
Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli
SAUDADE FEZ UM SAMBA
Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli
VOCÊ E EU
Carlos Lyra e Vinícius de Moraes
SE É TARDE, ME PERDOA
Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli
AMOR EM PAZ
Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes
MEDITAÇÃO
Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça
CORCOVADO
Antônio Carlos Jobim
ELA É CARIOCA
Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes
PRA DIZER ADEUS
Edu Lobo e Torquato Neto
CANDEIAS
Edu Lobo
EU PRECISO APRENDER A SER SÓ
Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle
SAMBA DE VERÃO
Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle
GENTE
Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle
BATIDA DIFERENTE
Durval Ferreira e Maurício Einhorn
MOÇA-FLOR
Durval Ferreira e Luiz Fernando Freire
TRISTEZA DE NÓS DOIS
Durval Ferreira e Maurício e Bebeto
QUE MARAVILHA
Jorge Ben
CHOVE CHUVA
Jorge Ben
MAS QUE NADA
Jorge Ben
ILUSÃO À TOA
Jonhy Alf
O QUE É AMAR
Jonhy Alf 
AH! SE EU PUDESSE
Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli
O BARQUINHO
Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli
VOCÊ
Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli
NÓS E O MAR
Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli
MENTIRAS
João Donato e Lysias Ênio
ATÉ QUEM SABE
João Donato e Lysias Ênio
PRA QUE CHORAR
Baden Powell e Vinicius de Moraes
TEM DÓ
Baden Powell e Vinicius de Moraes
SAMBA DA BÊNÇÃO
Baden Powell e Vinicius de Moraes

FICHA TÉCNICA

Produtor
ROBERTO MENESCAL
Produção executiva
MARIA HELENA
Técnico de gravação e Mixagem
MÁRCIO MENESCAL
Auxiliar de estúdio
MÁRCIO CARDOSO
Montagem
BARROSO
Corte
JOSÉ ANTÔNIO

Leila Pinheiro

Você desistiu da carreira de médica por causa da música. Como foi isso?
Talvez tenha sido a decisão mais fácil que eu tomei, porque, na verdade, já nasci num ambiente de música, meu pai tocava gaita de boca e cada um dos quatro filhos tinha a sua eletrola pequenininha, depois o seu cassete. Eu aprendi violão e depois piano, então, sem querer, estava indo por esse caminho, na direção da música.

Mas aos 16 anos, na hora de escolher qual vestibular fazer, como eu odiava matemática, física e gostava de biologia e química, namorava um cara que seria médico, também minha mãe gostaria de ter sido médica e um dos meus tios era médico, fiz essa opção. Acho que foi por exclusão e não escolha, com 16, 17 anos, a gente não sabe nada de coisa nenhuma, e naquela altura então, que não existia o Google… Fiz dois vestibulares, passei no segundo e fiz dois anos de faculdade, mas eu já levava o violão, junto ao livro de patologia, um tijolão, quando ia estudar na casa da Rosana, minha grande amiga. Até que o Guilherme Coutinho me fez a pergunta certa na hora certa: “você vai continuar nessa palhaçada de querer ser médica até quando?” – ele foi direto ao ponto. Acho que dois dias depois, durante uma aula de fisiologia, eu desci e fechei a matrícula na faculdade. Só avisei a minha mãe meses depois, quando ela me viu sair de jaleco e perguntou se eu estava indo para a faculdade e eu respondi que só estava matando a saudade de lá, aí foi um caos.

Como a sua mãe recebeu a notícia?
Como uma mãe receberia? Minha mãe tomou um susto danado: “o que essa menina vai fazer da vida, vai ser cantora, pianista?”. Eu era muito jovem, completei 20 anos no palco, minha estreia foi em 31 de outubro de 1980.

Depois de trancar a faculdade, decidi que queria morar no Rio de Janeiro e aí foi a segunda cacetada. Mas meu pai logo alugou um apartamento para mim em Ipanema, porque ele sabia qual era o lance, que era uma coisa que vinha dele e se eu iria mesmo embora e não havia como impedir, ele queria pelo menos cuidar para que fosse bom. Foi o que ele fez, me bancou de 1981 a 1984, até o Festival dos Festivais. Minha mãe ficou assustada, mas depois acabou comprando o pacote todo e me deu apoio total.

Seu pai é um sujeito espiritualmente evoluído, para ver a filha ir morar em outra cidade grande e dar todo esse apoio…
Ah, ele é um cara maravilhoso, meu grande amigo e é um cúmplice na minha música. Para ele, só eu existo como cantora, ninguém presta, é tudo horrível, ele é completamente parcial, mas há muitos anos eu consigo enxergar o limite disso. Ele é muito crítico, mas de uma forma muito interessante.

Ele faz críticas interessantes?
Mesmo sem nenhuma palavra eu consigo entender que algo o está emocionando profundamente. As vezes ele não entende muito o contexto, por exemplo, quando eu o convidei para colocar a gaita em “Valsa para Leila”, ele entrou em pânico: “como eu vou tocar no estúdio, no Rio de Janeiro, com você? Ah, eu vou pagar a minha passagem, porque se não der certo a gravadora vai ficar aborrecida com você…” E eu dizendo que seria maravilhoso, mas ele: “mas essa música é muito estranha” – ele só tinha a linha da melodia para fazer, do Guinga. E veio aqui para o Discovery, gravou em 20 minutos, arrebentou. Eu tenho o maior orgulho disso.

A minha musicalidade é totalmente dele. Todos os Pinheiros casaram com pessoas que são extremamente musicais, então a família inteira do meu pai — são seis filhos — têm famílias extremamente musicais, mas só eu que me profissionalizei.

Você trancou a faculdade e quis morar no Rio. Por que essa cidade?
Porque em São Paulo eu não conhecia ninguém e no Rio eu tinha alguns amigos, inclusive o tio Almir, que era quem mandava esses pacotes de discos ao meu pai, em Belém. Foi no prédio dele em que o meu pai alugou o apartamento para mim, porque sabia que tinha um amigo lá, para dar amparo à filha.

O tio Almir Pereira era um colecionador de vinis, ele morreu e eu nem sei com quem ficou tudo aquilo, Charles. Ele era um jazzófilo, um alucinado por música, e as escolhas dos pacotes que ele enviava eram só dele – não era meu pai quem pedia os discos. Quer dizer, a minha formação vem desse cara, que trabalhou com o papai muitos anos na gráfica, representante da Grafisa aqui no Rio.

Mas eu vim para cá porque o Rio era e continua sendo um pólo aglomerador do que há de melhor, praticamente outro planeta, em relação a Belém. Em 1981, a distância era maior, essa cidade era como se fosse outro mundo para mim. Vim procurar um monte de gente e claro que ninguém me recebeu. No começo foi muito difícil, porque em Belém eu era a Leila Pinheiro, filha do Altino e da Regina, e era muito bem acolhida, todo mundo me conhecia. Minha estreia lá, no Theatro da Paz, com o show Sinal de Partida, me mostrou isso: era um teatro de 800 lugares e lotado de pessoas que eu conhecia.

Vim para o Rio de Janeiro até para me distanciar disso, tentar dar certo em outro lugar, e foi dando, muito pela ajuda do meu pai, porque eu fiquei quatro anos morando muito bem bancada por ele, em Ipanema, ali na Alberto de Campos, dentro do morro de Cantagalo, na época não pacificado – é bem verdade que era um pouco aterrorizante, para uma filha criada dentro de um útero – mas foi muito bom, criei casca nesses quatro anos. Era mais difícil a solidão do que a batalha pela música, eu estava estudando canto e piano, mas estava sozinha. Por mais que a família viesse, amigos houvesse, eu estava só, não era ninguém. Vim atrás de saber quem eu era e eu não era nada, é duro você constatar isso. Mas aí construí esse caminho ano a ano, até ter a oportunidade do festival, em 1985. Foram quatro anos marcantes, eu fui com o Zimbo Trio para a Colômbia…

Muita coisa aconteceu nesses quatro anos, você arrumou trabalho…
É, fui trabalhar na manutenção da Som Livre, porque eu gostava tanto dessa coisa, tinha vontade de entender como saía o som e como funcionava a máquina de 24 canais (que era o que existia na época) que o Nolan Leve, supervisor técnico da Som Livre, me convidou para fazer um estágio. Eu era auxiliar de manutenção, mas ia para a técnica, ligava o estúdio, e vi muita gente gravando, por exemplo, a Simone, que estava no auge e foi quem me fez sair da manutenção, porque eu estava sozinha, entre cabos, microfones e fones, e um cara de repente bate no vidro e me pede dez fones para a gravação da Simone. Aí me deu um estalo: “o que eu estou fazendo aqui, eu sou cantora também, eu tenho que ir embora!” e eu subi, fui falar com o Nolan e disse que já tinha dado para mim, mas esse período foi bom, aprendi a soldar, a consertar cabos… A Simone naquela época estava arrebentando, eu não devia nem passar perto, só entregar os fones. Mas depois, eu gravei lá o primeiro disco, Leila Pinheiro, com o Carlão, Carlos Andrade, da Vison, e o Antonio Canazzi. Esse disco aqui parece que não sou eu, mas sou, queria tanto ser diferente que frisei o cabelo… Eu tinha tanto interesse que eu fui na Tapecar ver cortar esse disco, sempre fui muito curiosa.

Você acompanha o processo?
Tudo, tudo. Até demais, agora já estou me guardando um pouco, porque são muitas etapas e é cansativo.

Pensando nesse seu primeiro trabalho discográfico, em algum momento você entendeu que iria cantar e tocar piano, o que não é fácil de fazer ao mesmo tempo. Como isso aconteceu, foi naturalmente, a ficha caiu um dia ou você se mirou em alguém?
Eu tive mestres e ídolos até hoje, como o César Camargo Mariano, resultado das minhas audições infindáveis do trabalho da Elis. Mas o meu piano, de verdade, veio só nos anos 1990, a partir do Na ponta da língua, que é de 2000. Entre 1996, 1997, estudei um pouquinho com o Luizinho Eça, com o Tomás Improta.

Antes disso você não fazia piano?
Eu tocava, mas não em show, não havia gravado tocando. Comecei a fazer shows tocando a partir do Na ponta da língua, quando eu assumi o show do disco. Era na sala Villa-Lobos, eu sozinha no palco, com alguns convidados, como Paulo Sergio Santos, clarinetista, que entrava para fazer Cole Porter comigo, acho, Nelson Faria, Menescal, convidados pontuais.

Mas eu já tirava os tons das canções, idealizava os arranjos, muito influenciada pelo César, mais do que por qualquer outro músico, inclusive pelos próprios instrumentos que tenho, o CP70 e Fender Rhodes, que ele também tocava. Mas eu não sou pianista, eu sou uma cantora e toco piano para me acompanhar, não tenho nenhuma técnica, meu piano é intuitivo, vem de eu tocar muito, de conviver com os músicos, de exercitar. Hoje, posso até dizer que eu tenho um piano bastante maduro para uma cantora, porque eu sou uma intérprete que toca, com a coisa do molho, do suingue, o que é muito baseado no César, e no próprio Guilherme Coutinho, que tinha essa influência do César.

É verdade que no primeiro disco tem um piano acústico, em “Todo amor que houver nessa vida”, mas é muito pouco, só uma faixa, é diferente de fazer um disco tocando. Até hoje eu não tenho um disco de piano solo.

Outro momento muito importante na sua carreira foi quando você participou do Festival dos festivais. Essa passagem é marcante em sua vida?
Isso foi um sonho, foi o verdadeiro começo. Chegando ao Rio, tive que me ocupar de descobrir quem eu era, aprender a morar só e ficava pensando se eu voltaria, se daria certo ou não, porque levou um tempo. Recebi o convite do Zimbo Trio para ir à Colômbia e quando voltei, no final de 1984, já quase 1985, veio o convite do César.

Eu estava sentada no Mistura Fina da Lagoa, toca o telefone e me chamam dizendo que era o César Camargo Mariano para mim. Achei que era conversa – por que ele me ligaria ali? Fui atender e era ele mesmo, pedindo o endereço da minha casa e dizendo que queria falar comigo, porque aconteceria o festival e ele queria que eu fosse a intérprete de uma canção. Eu já havia me inscrito no festival com uma canção chamada “Becos”, que gravei no primeiro disco, mas a música não passou e não era mesmo uma música boa para aquela circunstância, porque eu estava começando a compor (a letra da Liana Soares é boa). Acho que eu esperei três meses para saber que a música que ele queria que eu cantasse na primeira eliminatória era o “Verde”, do Eduardo Gudin e do Costa Netto – na verdade, pode ter demorado uma semana só, mas a minha ansiedade era tanta…

Eu já tinha gravado disco na época e o César foi atrás de mim porque eu tinha feito um show num lugar chamado Beco da Pimenta, na Real Grandeza, um sobrado em Botafogo. Era com o Roger Henri, que hoje faz trilhas para a Globo, na guitarra, e eu, no violão. A Claudia de Miranda estava trabalhando no festival e comentou com o César sobre uma menina que ela tinha acabado de assistir num show, falou para ele pedir meu material, eu enviei uma cassete cantando “O ribeirinho” do Guinga e Paulo César Pinheiro, “Podres Poderes”, do Caetano Veloso, e o César pirou em mim e me procurou.

Sabiamente, ele me deu “Verde”, porque pensa, ele podia ter me dado “Escrito nas Estrelas”, o que iria me arrebentar e eu perderia aquela vitrine. Eu cantei três vezes no Maracanãzinho, para 20 mil pessoas, com 25 anos, quase morri. Esse já foi um começo de choque e o melhor de tudo foi que a música ficou em terceiro lugar, mas hoje posso dizer que foi praticamente o primeiro lugar, porque, do festival, essa foi a canção que ficou, tornou-se até hino de Palmeiras… Dois dias depois do festival eu encontrei o Menescal, que me levou para a Polygram.

Era essa a minha próxima pergunta: como aconteceu o convite para você fazer parte do cast de uma gravadora multinacional, que era o que todo mundo queria naquela época?
Foi porque o Aloysio de Oliveira, da Elenco, disse para o Menescal prestar atenção na menina que cantaria naquela noite na televisão – ele havia visto uma das eliminatórias e queria que o Menescal prestasse atenção em mim. No dia seguinte, o Menescal me procurou para jantar. Ele tinha outra opção na época, que era a CBS, a gravadora do Roberto Carlos, ali no Flamengo, que era maior na época. Mas na verdade, eu fui para o Menescal, não para a Polygram.

Mas a proposta da CBS não era boa?
Não, eu tinha que pintar o cabelo de loiro, botar Y no meu nome… Eu saí correndo.

Dá até medo de perguntar quem te pediu isso…
Não, melhor não, deixa para lá, todos nós conhecemos, mas eu não pintei o cabelo de loiro, continuei Leila com i e deu tudo certo. Fui para o Menescal e fiz o Olho nu.

Produção do João Augusto, que trabalharia com você em Catavento e girassol, anos mais tarde…
E no Alma.

O que a gente pode destacar de Olho nu [Phillips, 1986]?
Acho que ele é a cara de um primeiro disco, é imaturo…

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É o segundo disco, mas, de certa forma, você o considera o primeiro?
É, mas ele é o primeiro. Antes eu não sabia nada de coisa nenhuma, aqui eu continuei sem saber, mas soube um pouquinho mais. Acho que é um disco muito bonito, como história musical.

Foi um movimento muito generoso do Gilberto Gil dar essa canção chamada “Olho nu” para mim, uma ilustre desconhecida que ligou e pediu uma música.

Mas você foi conquistando admiradores também, Leila…
Não, ele não sabia de nada, assim como o Pat Metheny, que toca o fundo, foi o Ricardo Silveira, que fazia parte da gig e perguntou se podia buscar o Pat para assistir a gravação. Quando ele chegou lá de calção de banho, porque tinha vindo da praia, ouviu e perguntou se podia tocar e voltou para pegar as guitarras. Ele trouxe o equipamento e parou a Polygram, eu fiquei louca, o estúdio inteiro da Polygram baixou para ver e ele deixou 800 takes.

João Donato também me deu “Um samba”, inédito na época, eu gravei o “Becos”, que inscrevi no festival dos festivais, com a Liana Soares, fui a primeira pessoa a gravar “O mar no Maracanã”, do Moacyr Luz e Aldir Blanc, fui para o piano tocar “Todo amor que houver nessa vida” e gravamos “Verde”, claro, que tinha que estar nesse disco, com arranjo original do Wilson Nunes.

Eu acho um disco muito coerente. Tem a assinatura do João Augusto e a supervisão total do Menescal, que era o diretor artístico.

O repertório foi você quem escolheu?
Eu sempre escolhi, quando eu tive que parar de escolher o próprio repertório, saí das gravadoras.

Eu acho muito bacana o disco, mas não consegui ouvir mais, é tudo muito esquisito, é o começo de tudo. Esse disco é de 1986, eu tinha 26 anos.

 

Leila, antes de a gente falar de Benção, bossa nova eu queria falar um pouquinho do disco anterior, que é Alma, seu segundo disco na Polygram, com repertório bastante eclético, o que é uma marca registrada da sua obra. Você mistura bastante o cancioneiro de MPB, pop, bossa nova, clássico…
Esse disco seguiu um pouco o caminho que eu trilhei nesses 32 anos de carreira, que é, na verdade, a minha liberdade como intérprete. Ele não é um projeto fechado, temático, como seria o Benção, bossa nova, que eu faria depois. Era eu me descobrindo como intérprete, descobrindo as coisas que eu gostava e como elas podiam ficar na minha voz.

Foi meu encontro com o Renato Russo, quando eu fui na Ilha do Governador, convidá-lo para escrever na contracapa do meu disco e dizer que eu gostaria de gravar “Tempo perdido”. As nossas fotos do Meu segredo mais sincero e que estão hoje na parede do meu estúdio foram tiradas, pela Ana Regina Nogueira, quando eu fui ao estúdio da EMI fazer uma audição de “Tempo perdido” para ele.

Mas nesse disco também tem Raphael Rabello tocando em “Pra iluminar”, uma música que o Eduardo Gudin fez para mim depois do festival, tem Guilherme Arantes, “Besame”, um carro-chefe do meu trabalho, Flávio Venturini, “Anima”, essa canção belíssima, parceria inusitada do Zé Renato com o Milton Nascimento, “Voz de mulher”, que a Sueli Costa me deu, àquela altura, uma canção inédita, “Estrela do norte”, do Gudin com letra do Costa Netto, “Abandono”, do Chico Buarque e do Edu Lobo, que foi feito para o projeto “A Lenda do João de Barro” para o Balé Guaíra de Curitiba, e o “Meia-noite dupla”, segunda música minha, parceria com o Costa Netto, em que volto a botar a asinha de fora como compositora.

Aquele primeiro disco eu estava de cabelo frisado e nesse aparece a minha cara mesmo, mas eu estou de cabeça para baixo, porque depois que acabou a gravação tinha uma piscina na casa, eu fui molhar só a cabeça para não tirar a maquiagem e a fotógrafa bateu a foto. A gravadora queria morrer e questionava como iria vender um disco com a artista de cabeça para baixo, dizia que não dava nem para me reconhecer e colocaram uma foto minha na contracapa só para dar uma amenizada. O disco vendeu para caramba. Eu sempre fui uma boa vendedora de discos, espontaneamente, por isso permaneci nas gravadoras, né?

Aqui tem Ari Mendes também, Raphael Rabello, Eduardo Souto Neto, disco produzido pelo meu querido Renato Corrêa, dos Golden Boys, que eu escutei a vida inteira, tem o Ubirajara, pai do Taiguara, tocando bandoneon, Grupo Pau Brasil, com Nelson Ayres e Paulo Bellinatti, pô, é um discaço. Um disco lindo. Eu gosto imensamente desse trabalho. A partir dele começa a se formatar a minha carreira como intérprete e eu estava me preparando para fazer o próximo disco quando o Menescal, lá mesmo na Polygram, recebeu a encomenda de Benção, bossa nova.

Havia acabado de gravar com o Menescal um quadro interessante para o Fantástico – que ainda tinha música de qualidade naquela altura do campeonato –, em que várias gerações cantavam a bossa nova: Elizeth Cardozo, Carmen Costa, Maria Creuza, aquela menina do Balão Mágico, Gabriela. A minha música era “O barquinho” e sugeri ao Menescal fazer uma versão cool, lá embaixo, dois tons abaixo do que eu cantaria normalmente – não me lembro se eu toquei ou não – e gravamos a voz bem pequenininha mesmo, no Level, que é o estúdio em que a Som Livre gravava as vinhetas, os comerciais e onde eu gravei coro muitas vezes, porque antes de gravar meu disco eu também fazia couro.

Saindo dali, eu perguntei ao Menescal o que ele achava de eu fazer um disco cantando as músicas da bossa nova, porque eu tinha nascido em 1960 e conhecia todo repertório de trás pra frente. Deixei aquilo no ar e depois de poucos dias ele me liga dizendo que eu seria a intérprete do disco que ele faria para Nippon Phonogram, do Japão, por conta dos 30 anos da bossa nova, que não tinha volta, já perguntando quando nos encontraríamos. Eu fiquei apavorada, disse que estava preparando um disco de inéditas, que ninguém ouviria uma artista nova como eu cantando bossa nova, mas ele insistiu, disse que seria o arranjador.

Acho que nós fizemos o disco em uma semana, estilo de produção japonesa. Eram medleys, eu fiz uma lista e o Menescal outra, batemos as escolhas e talvez 16 músicas eram iguais, com 10 compositores: os melhores compositores e as canções mais significativas.

Depois fomos para a estrada e aí fui entender o que era ser artista… O Menescal diz que quando me conheceu eu usava a roupa abotoada até em cima, um blazer e não dava uma palavra, era um bicho do mato. Então comecei a botar esse bicho do mato no palco, até que num momento eu estava cantando com uma blusa frente única e olhando de trás, vendo as minhas costas nuas, o Menescal tomou um susto. Eu fui desabrochando com ele, no palco.

Ali eu surgi como artista para o grande público, muito mais do que na época do Festival dos festivais, porque era um show e não só uma música. Fizemos mais de 200 shows pelo Brasil inteiro e vendemos mais de 200 mil cópias, até que eu pedi para parar, botar a bola no chão e ver o que aconteceria. Mas até hoje eu toco esses medleys todos, como eles foram escritos.

Para que a gente possa entender o sucesso de Benção, bossa nova, sua performance comercial e artística, é preciso lembrar que ele foi lançado em 1989 e a década de 1980 é considerada a década do rock brasileiro, em que as prioridades das gravadoras e rádios apontavam para o rock.  Como o Menescal e você conseguiram encaixar um disco de bossa nova naquela época, sendo que desde 1980 a indústria já dizia que bossa nova não vendia?
O Menescal conta uma história em que para convencer a Polygram a lançar o disco ele apostou a casa dele. Ele é um cara muito sensível para o mercado e a história dele como produtor e diretor artístico prova isso, ele teve essa visão de que daria certo. Ele apostou a casa no lançamento do disco no Brasil, porque no Japão sairia e lá vendeu espetacularmente bem.

O disco vendeu mais de 200 mil cópias, eu tenho disco de ouro na parede e ele mesmo diz que foi um marco chegar nessa vendagem, nesse patamar, para um disco de bossa nova. Mas o meu disco de bossa-nova mesmo é o Isso é bossa nova, gravado em 1994, na EMI.

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Benção, bossa nova é um disco solar, como diz o Tárik de Souza, em que eu tirei a bossa do Beco das Garrafas e fui para a praia de Ipanema ou para a praia da Barra, porque são sambas, ele não tem uma pegada de bossa, não é cool, é um disco elétrico. Quem faria esse disco era a Nara, que era a musa da bossa nova no Brasil e no mundo, porque a bossa nova nasceu na casa dela e no Leme e tal, mas ela tinha morrido. Assim que o trabalho foi lançado e começou a ir pra rua, no Jazz Mania, que hoje é Espaço RJ, eu disse ao Menescal que ninguém ouviria, mas ele disse que ouviriam sim e foi uma loucura. Só para lembrar, fizemos dois teatros Carlos Gomes, dois Sesc Pompeia, eram mil pessoas dentro e mil pessoas fora, e isso aconteceu porque fora da cena da bossa nova a Nara não tinha identificação com o público mais jovem, que por outro lado já se identificava comigo, que tinha 29 anos.

Isso existe de fato?
Existe. Isso é Marketing. Eu, cheia de vida, com o vigor louco dos 30 anos, querendo que o público viesse, atraí aquelas pessoas. E também devido à “fórmula” do Menescal, que é a de música acessível, que é ouvir em 3 minutos e meio 4 canções lindas, muito bem escritas, arranjadas e tocadas e, modestamente, bem cantadas. Era um golpe de mestre naquele momento.

Porém a bossa tal como feita, com o banquinho e o violão, o baixo de pau e a bateria aparece apenas no Isso é bossa nova, na EMI, porque assim que eu entrei na gravadora o João Augusto disse que queria um disco e o que existia era somente o que não havia sido gravado no Benção, bossa nova e que estava debaixo da língua. Mas resolvi gravar de outro jeito, voltar para o Beco das Garrafas, gravar a bossa de verdade, como havia sido feita. Pedi ao J. Moraes, meu mestre, meu grande parceiro, para pegar os arranjos originais e não colocar, sétima, nona, décima terceira, mas pegar exatamente o que o Tom havia escrito. Eu queria gravar a coisa original mesma, que é linda, deslumbrante.

O Menescal havia pegado e virado tudo do avesso, fez grandes sambas, grandes canções ensolaradas, e acho que é o motivo de tanto sucesso nesse trabalho. Como eu gravei 45 músicas de bossa nova, acabei me tornando conhecida como cantora de bossa nova – agora mesmo eu saí na Imperatriz Leopoldinense, cantando o meu Pará, e para o público eu era isso.

Mas na sequência eu fiz o Outras caras, exatamente para dizer que não era só isso, que eu não era uma cantora só de bossa nova. Mas o Benção, bossa nova é um grande trabalho, é uma referência para mim, é como se tudo o que eu ouvia antes de vir para o Rio de Janeiro viesse parar nesse trabalho.

Uma sacada genial do Menescal que você esta chamando a atenção é o tratamento dado ao som. Quando a gente ouve o disco, os timbres, os instrumentos, a sonoridade é totalmente compatível ao que se fazia na época do lançamento.
Não teve nada de voltar ao passado…

Não teve nenhum saudosismo ao fazer o disco.
Não, o Menescal não é assim. Ele é um dos caras da geração dele que vê mais longe. Por exemplo, as vezes eu lamento que não existe mais máquina de 24 canais e ele diz que não e que agora está tudo digital e o som é melhor. Pô, eu fico saudosista e ele não! É muito bacana e ele é um grande parceiro.

 

Fazendo um passeio pelo repertório do Benção bossa-nova, tem algumas surpresas muito interessantes, como Edu Lobo, que é geração pós-bossa nova, Jorge Ben, que talvez seja tudo. É um repertório eclético de novo, em sintonia com a sua obra, como já foi dito aqui, e é um projeto muito bem costurado, difícil de fazer, porque as músicas estão em formato de medleys ou pot-pourri. Como você encarou isso?
Eu quase morri quando ele me falou que seriam medleys, porque existe um preconceito com esse formato. Eu não tenho nenhum, mas sabia que isso era esquisito naquela altura. Para homenagear os 30 anos da bossa nova, como escolher 30 canções? Eu falei para o Menescal dar um jeito e quando ele me apresentou os medleys, algo tão natural, porque entrava e saía das canções de forma bem costurada e bem arranjada, percebi que era possível cantar como se fosse uma só canção, ainda mais porque eram músicas dos mesmos compositores e parceiros.

Na verdade, foi um disco muito natural, foi um passeio delicioso que eu fiz. Talvez, foi dos meus discos mais fáceis de fazer – o outro de bossa nova foi muito mais difícil, muito mais conceitual. No palco, ele também pegava fogo, tinha “Feliz Ano Novo”, aquela da Iemanjá da Silva, que é dele com o Aldir Blanc, tinha canção em inglês, que cantávamos juntos, enfim, esse disco virou uma coisa bastante ampla. Imagina um show em que eu cantava mais de 30 canções – porque eram medleys – e a gente fazia tudo. Foi espetacular.

O Menescal sempre foi um parceiro, um conselheiro. Agora, na viagem ao Japão, perguntei o que fazer e ele me disse o que talvez já havia dito há cinco anos, com a certeza de que eu deveria gravar aquilo porque era o que as pessoas querem ouvir. Então é isso, o Benção, bossa nova é o que as pessoas queriam ouvir, era para a geração que não conhecia a bossa nova e conheceu por mim – o “Lobo bobo” foi um grande sucesso para as crianças. A geração da bossa nova não tinha nada naquele momento, ninguém estava fazendo bossa nova…

A bossa estava completamente esquecida e abandonada pela indústria fonográfica…
E aí o Tim Maia gravou um disco, a Rita Lee gravou o Bossa ‘n Roll, o João Gilberto voltou a gravar, quer dizer, teve um resgate que foi absolutamente espontâneo, porque a gente nem fez esse disco para sair aqui, foi feito para fora. É muito louco! Mas também é muito louco só agora poder ir para o Japão com o meu trabalho, só em 2012 fazer o show com o Menescal, porque eu fiz apenas um show em 1986, quando fomos para um festival de música, em Yamaha, e outra apresentação antes, mas o Benção, bossa nova, só agora. É muito bacana.

Do repertório que está aqui no Benção, bossa nova, algumas versões ficaram para sempre e você toca até hoje no seu show, não? Quais?
Toco grande parte, Tom Jobim, Carlinhos Lyra, Menescal. O medley do Menesca é arrasador: “Ah, se eu pudesse”, “O barquinho”, “Você”, “Nós e o mar”. É difícil eu fazer um show com repertório aberto, não temático, que eu não cante Tom Jobim: “Amor e paz”, “Meditação”, “Corcovado”, “Ela é carioca”. Não tem por onde fugir.

Eu gosto de todo o disco, mas esses três compositores especialmente. Do Lyra, é “Lobo bobo”, “Saudade fez um samba”, “Você e eu”, “Se é tarde me perdoa”. É mortal, um tiro, a pessoa já fica sem ar quando escuta. O disco é tão certeiro e ao mesmo tempo contemplou todas as frentes, é um painel amplo, fiel, da bossa, em sua máxima qualidade. Tem Johnny Alf, com “Ilusão à toa” e “O que é amar”, tem Marcos Valle – agora que fizemos o Agarradinhos, chamei o Marcos Valle para tocar comigo no show e ele fez não só “Viola enluarada”, mas também o medley dele, que tem “Samba de verão”, “Gente”, “Eu preciso aprender a ser só” Pense que medley é esse? É um trabalho que eu adoro!

É sempre muito bom vir ao seu estúdio, é um lugar muito gostoso e abençoado, mas para encerrar nosso papo, Benção, bossa nova é um trabalho importante para sua discografia até hoje, não?
Complementamente, é um referencial para a vida inteira, matriz de muita coisa que eu fiz, um disco muito afetivo para mim, também pela presença do Menescal, pela visão que ele teve, pela oportunidade que ele me deu de abrir mercados no mundo com a bossa-nova. Acho que é também um coroamento da minha história antes de ser artista, porque esse repertório foi o que eu ouvi a vida inteira antes de sair de Belém, então eu tinha que fazer um trabalho nessa direção.

Eu continuo fazendo a bossa nova, por meio de outros artistas e compositores, mas com essa ideia própria de um disco temático é um presente para qualquer artista e para mim foi fundamental. Abriu todas as portas da minha carreira, sem dúvida nenhuma.

Você não é só bossa-nova, mas é também bossa nova.
Com muito orgulho.