Germano Mathias| O CATEDRÁTICO DO SAMBA Cantagalo, 1968

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Capa PEDRO SERTANEJO | Foto TONINHO MOREIRA
“Germano vadeia sambas-crônicas com sua divisão impecável aprendida nas rodas de engraxates das praças paulistanas — Clóvis, Sé e República — nos anos 1950. Adaptou o batuque da latinha de graxa por uma réplica cinzelada com agudez de frigideira. Em seu primeiro contrato profissional, na Rádio Tupi paulista, em 1955, acumulava as funções de “cantor e executante de instrumentos exóticos” (e ainda não se falava na cuíca de boca, herdada de Cavo Velho, nem no trombone, também bucal, capaz de duelar com um de válvulas, soprado por ninguém menos que Raul de Souza.
Uma espécie de Moreira da Silva paulista, malandro das malocas, de camisa listrada, chapeuzinho enterrado, sapato branco, Germano foi boxeador e bom de pernada, como demonstra no filme Quem roubou meu samba, de José Carlos Bule, no final dos anos 1950. Sua carreira longeva, pontilhada de sucessos (‘Minha nega na janela’, ‘A situação do escurinho’, ‘Falso rebolado’, ‘Guarde a sandália dela’, ‘História de um valente’) o credencia entre os grandes bambas do samba sincopado, salpicado pela picardia das ruas.”

Tárik de Souza

TIRAGENERICA

FAIXAS

DOUTOR NO SAMBA
Padeirinho da Mangueira
ESTÓRIA DE UM SAMBISTA
Elzo Augusto, Antônio Bruno
TERREIRO DE ITACURUÇÁ
Padeirinho da Mangueira
MUNDO CÃO
Jorge Costa, Sebastião Silveira
DEPOIS DA TEMPESTADE
Elzo Augusto
VOU FICAR DEVAGAR
Padeirinho da Mangueira, Nelson Pechincha
NÃO TENHO SORTE
Tóbis
PALAVRA SAUDADE
Elzo Augusto
BACHAREL DE GAFIEIRA
Conde
COZINHEIRO À FORÇA
Altamiro Carrilho, Ribeiro Valente
MINHA NÊGA, MINHA MÁQUINA
Carlos Imperial
REGENERADO
Zé Keti

FICHA TÉCNICA

Acompanhamento
ARLINDO E SEU REGIONAL

Germano Mathias

Você nasceu em 1934, no bairro do Pari, na zona leste paulistana. Morou lá até quando?

Até os oito ou nove anos de idade, aí mudei para o Belenzinho e depois para o Parque São Jorge, quando devia ter uns 14 ou 15 anos. Foi nessa época que eu me tornei corintiano, os craques eram Herculano, Neneco, mas o que determinou a escolha do time foi o fato de eu não ter carteirinha e o porteiro da sede do clube me deixar entrar mesmo assim e usar tudo o que tinha lá, de graça. Achei bacana o que ele fez comigo e me tornei corintiano. E depois, aquela âncora é muito maravilhosa. Você sabe que o Corinthians não é somente um time de futebol, é uma religião, e quem marca gol contra o time é pecador e vai para o inferno. [risos]

Como era a cidade de São Paulo naquela época?

Era muito boa. Quando passei da adolescência, comecei a frequentar as rodas de samba de engraxates que existiam na Praça João Mendes, na Praça Clóvis Bevilácqua e na Praça da Sé. Era um verdadeiro folclore, com uma batucada muito bem feita, e foi ali que eu aprendi a tocar. Na época, as escolas de samba usavam frigideira e os engraxates pegaram a tampa da lata de graxa e fizeram um ritmo diferente. Eu aprendi e adotei isso em minhas apresentações, ficou interessante. É um tempero que eu coloco no samba, um condimento, se não fica tudo igual.

 O que acontecia nessas rodas de samba?

Eram rodas de samba dos engraxates e dos malandros da época, que frequentavam as gafieiras. Naquele tempo, o malandro tinha uma mentalidade diferente, digamos que a malandragem era romântica, o malandro era um bon-vivant, vivia de jogo, de mulher, de 171, mas ele não derrubava o sangue de ninguém. Quando ia em cana, saía logo, porque a bronca era pequena. Se o sujeito era um malandro que se tornava bandido (que nós chamávamos “da pesada”), ele era deixado à parte, porque os outros achavam que ele não tinha capacidade para ganhar dinheiro sem violência. O malandro só era violento quando o obrigavam, como no caso de disputas por mulheres ou para defender a sua moral, a sua integridade física. Hoje em dia não tem mais malandro, só bandido.

Você se considerava malandro?

Eu vivia na malandragem, mas não era malandro, porque eu nunca lesei meu semelhante, eu gostava é da farra. Antigamente você andava na cidade de madrugada e não era assaltado, porque os malandros que tomavam conta da cidade, protegiam os coroas e habitués das boates e dos taxi-dancings, já que eles levavam dinheiro para as mulheres. Todos os malandros tinham as suas “minas” e elas tinham o malandro para defendê-las.

Naquele tempo, o malandro, usava sapato – quem usava tênis era esportista ou um cara duro, pobre, sem dinheiro para comprar sapato. O malandro se vestia bem, usávamos aquela roupa como o personagem de O Amigo da Onça, do Péricles de Andrade Maranhão, era aquele ombro armado, a calça boca de churro, afunilada e com 18 cm de boca e o bico do sapato tinha o formato de uma ogiva nuclear – na gíria era “pisante” ou “breque”, a camisa, “mimosa”, o chapéu, “bombeta” e o relógio, “bobo”, porque trabalha de graça. [risos] Então a malandragem era muito gostosa, vivíamos nas gafieiras, as mulheres eram realmente espetaculares, tanto no Rio de Janeiro, quanto em São Paulo, foi uma época grandiosa.

Quando você se interessou pelo samba?

Desde criança, meus ídolos eram Jorge Veiga, Blecaute, Risadinha, Ary Cordovil, em São Paulo tinha o Vassourinha, e o Caco Velho, que é meu mestre, veio do Rio do Grande do Sul – um tremendo sambista e gaúcho, por incrível que pareça, o Rio Grande do Sul tem bons sambistas, como o Lupicínio Rodrigues.

Qual foi o primeiro samba que você cantou?

Chama “Minha nega na janela” e conta a história de um sujeito que está dentro do barracão e se manca que a nega na janela está “tirando linha”, dando bola para outro cara, então, além de xingá-la (mas só ela, não todas as negras), ele tira a navalha do bolso e vai brigar com o outro. Mas para evitar confusão eu não canto mais esse samba, porque ele ficou racista – desculpe a expressão, mas naquela época os crioulos não tinham frescura. O Caco Velho até gravou um samba que dizia assim: “aí eu levo a minha macaca na gafieira” e não era pejorativo.

Meu segundo sucesso foi “A situação do escurinho”, do meu querido colega e comadre Padeirinho da Mangueira. O formigão, Ciro Monteiro, grande sambista do Rio de Janeiro, tinha gravado “O escurinho”, do Geraldo Pereira, então o Padeirinho e o Aldacir Louro, outro compositor do Rio de Janeiro, fizeram a sequência desse samba e vieram a São Paulo para me mostrar. Eu estava jogando bilhar na rua Amador Bueno – naquele tempo, gostava da malandragem sadia, era um bon-vivant – e quando cantaram, eu, o Toninho Lopes e o José Sacomani achamos a música espetacular e pegamos. Esse samba foi a minha sorte, eu estourei. Quem me levou para a Polydor foi o Zé Roy, um compositor de São Paulo, que me apresentou ao diretor, o Enrico Simoneti, um italiano. Imagina, os estrangeiros é que me deram a chance! Ele disse que eu era diferente. Era no tempo do 78 rotações e cantei “Minha nega na janela” e “Minha pretinha”, do outro lado.

Por que o Caco Velho se tornou seu mestre?

Por causa do estilo, é um tipo de samba como se fosse um coco, um forró.

De que maneira um sambista paulista como você conseguiu chegar ao Rio de Janeiro?
Porque eu cantava e gravava os sambas que também eram executados no Rio de Janeiro, ou seja, o samba-sincopado, o samba de gafieira, de nomes como Jorge Veiga, Blecaute, Risadinha, Aracy de Almeida, Heleninha Costa. Eu fui aceito pela comunidade do samba de lá, inclusive, saí na Mangueira uma vez tocando cuíca com o Padeirinho da Mangueira – me arrumaram uma fantasia. Para não ficar igual, optei pela irreverência. Gosto de ganhar meu dinheiro como artista honestamente, então aonde vou faço de tudo para agradar ao público. Trabalho com o Osvaldinho da Cuíca, o melhor cuiqueiro do Brasil, porque ele faz melodia na cuíca. Só conheci outro que fazia isso no Rio de Janeiro, o Boca de Ouro, que era carioca e branco – imagina que coisa engraçada, os grandes cuiqueiros são brancos, deveriam ser crioulos, né? No show, eu imito cuíca, trombone, saio correndo e sento no colo de uma velha, faço de tudo… [risos] Tenho muita pantomima, muito mise-en-scène, faço coisas inusitadas e com essa indumentária que uso, fico diferente, porque se ficar igual aos outros sambistas, vai parecer um caminhão cheio de chinês – tudo igual! Resolvi optar pela irreverência, então faço ritmo na tampa de lata de graxa, conto piada, digo no pé e sambo à minha moda. O samba que eu canto tem cinco denominações: sambão, samba de raiz, samba-tradição, samba-sincopado e samba de gafieira. Eu me dou muito bem porque estou sozinho nessa parada, sou o último dos moicanos que interpreta esse tipo de samba. O samba agora é diferente, mas eu gosto mais deste samba que eu interpreto, porque acho que tem mais sabor, a batida dele não intercala, não é uma batida de samba que atrasa, ele é certinho, é sincronizado.

O que é o samba gafieira?

É o samba sincopado, este que eu interpreto. A divisão é sincronizada e o surdo é sempre na frente, ele não atrasa. No pagode, a batida do acompanhamento é atrasada, o sambista canta de um jeito e o cara toca de outro. No meu estilo não, tem que ser certinho, caso contrário, não se pode sincopar.

O que você fazia antes de cantar samba?

Eu estudava, fiz até o segundo ginasial, mas sou autodidata, leio muito, sou completamente o oposto do que aparento, essa irreverência e maluquice. Não tomo uma gota de álcool, não fumo, não jogo, não tomo droga, os meus hobbies são fazer palavras cruzadas e ler literatura metafísica, budismo, espiritismo, kardecismo, tudo que acaba com “ismo”, menos comunismo. [risos] Eu creio na lei do Karma, da causa e efeito: não há efeito sem causa e causa sem efeito; nós somos hoje o que fizemos no passado e seremos no futuro o que fizermos no presente; quem semeia vento, colhe tempestade; a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Apesar de existir um limite sobre essas explicações todas sobre a reencarnação, pois o maior segredo da divindade é a natureza íntima da alma e há determinadas coisas que o Criador permite que aconteçam e a gente não entende. Eu não tenho medo de homem, eu tenho medo de Deus, até me pelo de ser castigado, então faço tudo direitinho, desde que acordo, até a hora em que vou dormir, mas você sabe que ando fora de época, agora é tudo errado, né?

Você recebeu um diploma de catedrático do samba pela X-9? 

Foi o Muniz Junior, relações-públicas da escola de samba X-9 de Santos, quem resolveu me dar esse diploma. Foi uma festa maravilhosa, naquele tempo eu tinha cartaz – não posso me queixar, já tive meus dias de glória. Então está escrito que o Grêmio Recreativo Escola de Samba X-9 de Santos me concedeu o grau de bacharel do samba. Eu mandei colocar o diploma numa moldura e, quando fui buscar, o Randal Juliano, apresentador da TV Record, me perguntou o que era aquilo. Quando mostrei, ele disse que se eu era bacharel, então possuía cátedra e ele me anunciaria como “o catedrático do samba” no programa. Eu peguei o slogan, mas nem sei se mereço esse diploma.

O disco O catedrático do samba é de 1968, você se lembra da gravação?

O Pedro Sertanejo era dono da gravadora Cantagalo e cismou que eu tinha que gravar “Acorda Maria bonita”, um sucesso que o Ary Cordovil estava fazendo no Rio de Janeiro, porque nós tínhamos o mesmo diapasão, a mesma maneira de cantar. Eu gravei e comigo a música também vendeu, então ele ficou animado para fazer um LP comigo, disse para escolher as músicas. Eu fui gravar no Rio de Janeiro, com o Arlindo e seu Regional, o cavaquinho era o Tuco Preto, um crioulo que dava as coordenadas. Gravei “Doutor no samba”, do Padeirinho da Mangueira – nós dois tínhamos um respeito muito grande um pelo outro, ele dizia que se eu tivesse nascido carioca, estaria no apogeu. Este samba é a história de um médico-cirurgião que morava em Copacabana, trabalhava até sexta-feira e no final de semana ele se transformava, ia para a Mangueira, botava uma roupa qualquer, se misturava com o pessoal, dormia num barraco e ainda pegava as negas. Era como aquela história do médico e o monstro.

“Estória de um sambista” é do Elzo Augusto, o único compositor do meu estilo que ainda está vivo, porque já morreram Jorge Costa, Toninho Lopes, Ernani Silva, Jair Gonçalves.

Já “Palavra saudade” é linda, muito bem feita: “saudade é palavra bonita para quem acredita que alguém vai voltar…”. Eu reputo o Elzo como o Chico Buarque de São Paulo.  “Depois da tempestade” ele fez para a esposa, depois de uma época em que brigaram muito.

O Tóbis, de “Não tenho sorte”, foi o melhor peso leve do mundo, ele era pugilista e fez uma luta que o deixou cego de um olho. Coitado, ele dizia que não dava sorte na vida, amava uma nega, que o abandonou no barraco em que morava, então fez esse samba.

Gravei também Carlos Imperial, que conheci na época em que morei no Rio de Janeiro, no edifício Safira, em frente à galeria Alasca. Ele frequentava o lugar com aquela turma do rock e eu me dava com os roqueiros. Um dia, ele me disse que fazia samba também e mostrou “Minha nega, minha máquina”, um samba muito engraçado. Ele gostava de tudo, era eclético.

“Mundo cão”, o Jorge Costa fez porque já naquela época as coisas não andavam bem, tudo ficou muito atrapalhado e hoje então, está pior. Se não me engano, esse samba foi feito na época do iê-iê-iê, quando o samba ficou muito para baixo. Ele quis falar a respeito.

“Vou ficar devagar” é samba de malandro. “Bacharel de gafieira” é do Conde, um sambista paulista. Gravei Zé Kéti também, ô carioca bom que ele era! Esse também me dava valor, fiz sucesso com “Nega Dina”, um grande samba dele. Nesse LP, o samba que gravei foi “Regenerado”.

Como se gravava naquela época?

Colocavam tapumes no estúdio, por exemplo, o acompanhamento ficava dentro de um tapume, eu ficava em outro lugar e o ritmo também num outro tapume, somente colocavam um plástico para que enxergássemos o técnico de som, nós botávamos o fone de ouvido e a gravação era direta.

Tenho a impressão que se gravava com mais clima, porque os músicos estavam todos ali na mesma hora e nos esforçávamos ao máximo para não voltar muitas vezes, quer dizer, gravar logo de cara na primeira ou na segunda vez.

Hoje em dia, o disco fica mais frio, apesar de eu não me preocupar muito, porque me dou bem com playback também. Não posso me queixar de nada, faço muitos shows no Sesc, nas prefeituras, só não vou muito ao Rio de Janeiro porque (não sei se devo falar isso) existe uma discriminação com o sambista de São Paulo. Está certo que o Rio de Janeiro é a capital do samba, mas São Paulo é a principal cidade do país, basta perguntar para qualquer artista carioca aonde ele ganha dinheiro e é valorizado sobremaneira. São Paulo é o estado que mais gosta de samba, nós temos um bairro todinho com várias casas de samba, que é a Vila Madalena. O samba em São Paulo é muito bem quisto, pode perguntar para a Beth Carvalho, para o Jorge Aragão e o Zeca Pagodinho. Eles são aceitos de braços abertos aqui, o que não acontece com os paulistanos no Rio de Janeiro.

 Você se considera mais um sambista paulista com influências do meio rural, como o Geraldo Filme, ou mais moldado pelo sincopado do Geraldo Pereira e do Ciro Monteiro?

Eu sou mais carioca, inclusive, gravei muitos sambas de compositores cariocas. O único ponto que os cariocas me criticam é no sotaque, que eles dizem ser de italiano, apesar de eu achar que não.

 Você teve alguma ligação com choro?

Nunca gravei choro, eu gosto de samba de pegada, nunca gostei de samba muito lento – dá a impressão que é o velório do sambista. A única coisa que eu gravei foi um samba-canção do Jorge Costa, “Chão”.

Compare o seu estilo de cantar com o do Jair Rodrigues.

É diferente, o Jair canta um samba mais liso. Ele é um bom cantor, um intérprete excelente e, assim como o Silvio Santos, tem sorte na vida – e se tem, é porque merece. Damo-nos muito bem, participei como convidado no CD Jair Rodrigues em Branco e Preto, cantando uma música do Jorge Costa, “Baiano capoeira”.

Há alguns anos atrás, fiz uma sacanagem com ele, coitado. Procurei o Jair e pedi emprestado 3 mil cruzeiros. O empresário disse que queria uma garantia e pediu um cheque, que eu assinei com a data de 30 de fevereiro, eles ficaram loucos, quando perceberam. Mas hoje o Jair brinca, diz que guardou o cheque de lembrança.

O Jair é uma mescla de estilos, interpreta tanto samba carioca, como paulista, ele é versátil, canta até sertanejo. Também ajuda muito o fato de ele ser animado, ter sempre um sorriso nos lábios,

ele não é daqueles que cantam sérios, parecendo que estão com ódio do mundo. Um cantor tem que sorrir e procurar divertir o público.

Costumam ver semelhanças na sua música com a do Moreira da Silva, você concorda?

O Moreira era samba-de-breque e os meus sambas são mais parecidos com os do Ciro Monteiro, Hervé Cordovil, Jorge Veiga e os sambas do meu mestre, Caco Velho.

Como você aprendeu a cantar desse jeito, com essa noção de tempo e divisão?

Como dizia o meu avô, quem é bom já nasce feito. Isso é nato, já veio comigo, ligava o rádio e tudo quanto era sambista eu gostava. Não é só de música brasileira, sou de família portuguesa, então também gosto muito de fado. Apesar de ter pinta de alemão – e realmente, se eu tirar o chapéu é ficar de óculos, pareço um diplomata húngaro, um embaixador austríaco – sou português por parte de mãe e carioca por parte de pai. Então eu coloco o chapéu para dar um pouco de pinta de sambista da velha-guarda e brinco dizendo que sou português por parte de mãe, carioca por parte de pai e crioulo por parte do vizinho do meu pai.

Por que você acha que em alguns momentos o samba ficou desacreditado na música brasileira?

Por causa do iê-iê-iê, só dava o Roberto Carlos e ninguém tocava mais samba. É claro que ele tem seu valor extraordinário, mas acontece que o iê-iê-iê se generalizou e o sambista pastava, precisava se submeter a cachês irrisórios para sobreviver.

Certa vez, estava devendo uma nota para um agiota e não conseguia pagá-lo, um dia ele telefonou me cobrando, dizendo que eu era artista, sambista, e perguntando se eu cantava de graça. Eu fiquei tão chateado, chorei, porque ninguém me dava valor, mas com o tempo isso foi passando, as coisas melhoraram, então fiz o documentário “O catedrático do samba”, depois gravei 14 sambas do Elzo Augusto, com o patrocínio dele e da gravadora.

Outros filmes que eu já tinha feito são “O preço da vitória” e “Quem roubou meu samba?”. No primeiro, eu canto “Um figurão”, samba meu e do Doca, e no segundo, a cena veio de encontro à latinha que eu usava, canto o samba “Lata de Graxa”, do Geraldo Brota e Mario Vieira, e procuramos retratar uma cena de batucada de engraxates, fizemos também uma roda de tiririca.

 Muita gente te considera o melhor sambista de São Paulo. Você acha que hoje em dia tem o reconhecimento que merece pela sua obra?

Eu quero dividir essa posição de melhor com o Osvaldinho da Cuíca, que é um grande sambista, toca todos os instrumentos e me acompanha nos meus shows. Tem também o Royce do Cavaco, o Quinteto em Branco e Preto, que é um conjunto espetacular de paulistas “da gema” e que não deve nada para Fundo de Quintal e nem ninguém – eles assimilam o samba de uma maneira única, tocam de um jeito muito gostoso, com uma harmonia espetacular.

Eu poderia ter tido um reconhecimento maior, mas desconfio que seja por causa da minha maneira irreverente. As pessoas não gostam de coisas muito diferentes e tenho a impressão que não me deixam aparecer porque eu sou paulista e, de repente, eu vou agradar.

Quando eu estava com dois CDs recém-lançados, muitos produtores de televisão não reconheciam o meu valor. Mas aonde eu vou, eu volto, tem sempre público, sou aplaudido e todo mundo gosta da minha apresentação, porque eu faço com vontade, quero agradar, mas ninguém fala sobre isso. Sou bem quisto na mídia escrita, já me deram uma página inteira no Estadão e no Diário de S.Paulo, mas na televisão, apenas a TV Gazeta, o SBT e a TV Cultura me dão valor; para o restante, sou um lixo.

Diante de tantas fases que o mercado fonográfico atravessou e que a música brasileira sempre tem, como você se manteve para continuar cantando samba por tanto tempo e como você está hoje?

Eu sempre me cuidei muito, tenho uma alimentação totalmente diferente, não como pimenta, não bebo nada de álcool, nem droga, porque pelo amor de Deus, isso é a maior ignorância que existe – o drogado é um ser que não domina a própria matéria.

Tenho a minha companheira, Ivone, desde 1974, e o meu netinho mora comigo, o Juquinha. Eu estava despejado no apartamento em que eu morava na avenida Ipiranga com a Cásper Libero e para arrumar outro lugar precisava de fiador, renda fixa, essas coisas que quem é cantor não tem. Então me telefonaram perguntando se eu queria fazer um show para reverter dinheiro, lá na rua Guaicurus, organizado por dona Ilka Fleury. Como sabia que estavam para inaugurar apartamentos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), pedi à dona Ilka, dizendo que eu devia um favor para uma senhora – na verdade, a minha mulher [risos] –, eles arranjaram, eu botei no nome dela e é onde estou morando até hoje, um lugar bom, apesar de ser longe.