Fernanda Takai | ONDE BRILHEM OS OLHOS SEUS | Deckdisk, 2012

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Fernanda Takai nasceu no Amapá, de ascendência nipônica- luso-brasileira. Estabeleceu-se em Belo Horizonte, e deixou uma fita demo na loja de instrumentos de John Ulhoa, que a convidou para ser vocalista do Pato Fu (e depois sua esposa). O grupo ganhou a cena musical brasileira a partir de 1993, com a mistura de pop rock eclético e psicodélico. A sugestão para Onde brilhem os olhos seus, veio de Nelson Motta, que apontou a semelhança entre o timbre suave de Fernanda com o de Nara Leão e comentou que havia uma geração que não conhecia a obra da cantora.

 Fernanda e John revisitaram o repertório de Nara, do samba da época do Teatro Opinião (“Diz que fui por aí”), ao tropicalista “Lindoneia”, à bossa “Insensatez”, ao inclassificável Robertinho de Recife em “Seja o meu céu” e aos resgatados Ernesto Nazareth de “Odeon”, Ary Barroso de “Canta, Maria” e Carmen Miranda de “Ta hi” (de Joubert de Carvalho) — sempre experimentando novas roupagens, como no pop rasgado na buarquiana “Com açúcar, com afeto”. Depois do estouro do CD independente, o trabalho tomou o caminho inverso da obra de Nara, quando a Deckdisk fez o convite para o lançamento em LP, que contou com extras como a versão em japonês d'”O barquinho” (Menescal e Bôscoli).

 

TIRATAKAI

FAIXAS

DIZ QUE FUI POR AÍ
Zé Keti e Hortênsio Rocha
LINDONEIA
Caetano Veloso e Gilberto Gil
COM AÇÚCAR, COM AFETO
Chico Buarque
LUZ NEGRA
Nelson Cavaquinho e Irani Barros
ODEON
Ernesto Nazareth, Hubaldo e Vinicius de Moraes
INSENSATEZ
Antônio Calos Jobim e Vinícius de Moraes
TREVO DE QUATRO FOLHAS (I’m looking over a four-leaf clover)
A Mort Dixon, H. Woods e Nilo Sérgio
DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS SEUS CABELOS
Roberto Carlos e Erasmo Carlos
ESTRADA DO SOL
Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran
SEJA O MEU CÉU
Robertinho de Recife e Capinam
DESCANSA CORAÇÃO (My foolish heart)
Vitor Young, Ned Washington e Nelson Motta
CANTA MARIA
Ary Barroso
TA-HI (Pra você gostar de mim)
Joubert Carvalho
KOBUNE (O barquinho)
Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e Ryosuke Itoh

FICHA TÉCNICA

Arranjos
JOHN ULHOA e LULU CAMARGO
Violão
ROBERTO MENESCAL (“Insensatez”)
Teclados, Guitarra e baixo
JOHN ULHOA
Piano e teclado
LULU CAMARGO

Produção
JOHN ULHOA

Formação e começo da carreira

FT2Fernanda Takai nasceu na Serra do Navio, no Amapá, tem ascendência de japoneses, portugueses, nordestinos, viveu uma parte da vida na Bahia e hoje mora em Belo Horizonte. Me fala um pouco da sua história. 

Minha história é bem misturada, como é o Brasil. Meus avós paternos são japoneses, vieram para cá ainda crianças. Meu pai nasceu em São Paulo e foi criado na cultura japonesa, porque a colônia era fechada e era praticamente obrigatório falar e escrever em japonês. As minhas tias mais velhas até hoje falam bem e algumas escrevem. Eu queria ter aprendido japonês quando era pequenininha, mas a minha geração perdeu um pouco isso, porque meus avós começaram a falar português. Mais velha, tive até que entrar na aula de japonês, porque fui ao Japão várias vezes, gravei em japonês. Se eu tivesse aprendido quando pequenininha teria sido mais natural. Mas eu sempre tive uma ligação muito forte com essa parte da minha família.

Já por parte de mãe, minha avó é alagoana e meu avô era um português que acabou ficando em Maceió, onde nasceu minha mãe. Tenho um irmão baiano, outro mineiro e sou amapaense. Minha família morou muito tempo em Goiás e se fixou em Belo Horizonte. Acho que minha família é um retrato do próprio país, que sofre influência de várias culturas diferentes, o que torna o nosso povo bem versátil.

 

Como você veio parar em Belo Horizonte?

Foi no final dos anos 70, depois de passar seis anos na Bahia. Meu pai trabalhou na ICOMI, era geólogo de superfície e dava início às pesquisas minerais, por isso a gente se mudou para alguns lugares onde havia exploração mineral. Quando eu nasci, no Amapá, era uma época de grande extração a céu aberto de manganês. Depois viemos para Minas Gerais, na exploração de mina de ouro, em várias cidades do interior. Minha família foi para Goiás e eu acabei ficando aqui, pois estava no último ano de faculdade, já tinha minha banda, que me acompanhou desde o tempo do colégio, e depois surgiu o Pato Fu, eu acabei me casando e hoje acho que não quero mais sair daqui. Depois de tantas mudanças e de ter experimentado viver por aí, Belo Horizonte é uma cidade que eu escolhi ficar pra sempre.
Você se formou em Relações Públicas. Esperava conseguir viver de música?
É surpreendente, porque a música apareceu para mim muito cedo. Pequena eu já gostava de música, fazia as minhas coleções de fita cassete, tinha aula de violão desde novinha e não tinha nenhuma tradição musical na família. Mas eu nunca pensei em viver de música, ela para mim era uma parte boa da vida, sempre que podia, eu ocupava meu tempo tocando e comecei a escrever minhas músicas. Entrei na faculdade de Comunicação, na época, para fazer Jornalismo, mas gostei muito das cadeiras de Relações Públicas, como Comunicação Empresarial, então me formei convicta do que eu tinha escolhido.

Quando eu parei de trabalhar com Comunicação, já tinha gravado três discos com o Pato Fu. Eu mantinha as duas carreiras, mas teve uma hora em que música ocupou tanto meu tempo que eu pensei em pedir um afastamento de seis meses na agência em que trabalhava, porque comecei a viajar bastante. Eu tinha o expediente normal de agência, que começa às 9h e não tem hora para acabar, e no fim de semana tinha a banda pra tocar, viajava, era uma coisa insana até. Mas eu sempre pensei que a música era uma coisa boa na minha vida e eu tinha o meu outro trabalho, a música era um hobby organizado, uma coisa que me dava muita felicidade, mas a felicidade completa vem quando você começa a dedicar todo o seu tempo àquilo que você faz com naturalidade. Eu notei que a música estava ali o tempo todo comigo e sempre pensei nela sem querer nada em troca. Eu não tinha ligado um cronômetro para a música dar certo na minha vida e isso aconteceu de uma forma muito boa, naturalmente. A música me esperou.
Como apareceu o convite para fazer parte do Pato Fu?
Eu deixei uma fita cassete numa loja de instrumentos musicais que o John tinha, porque eu era uma cliente bem econômica – passava muito tempo na loja, mas só comprava coisas baratinhas: palheta, corda de violão. Eu ficava conversando com ele e com o Ricardo, o baixista do Pato Fu que na época era vendedor da loja, sobre música, sobre coisas que a gente gostava. O John ouviu, achou minha voz bonita e me chamou para dizer que estava montando uma banda, meio diferente, um trio eletrônico em que todo mundo iria tocar e cantar ao mesmo tempo. Eu ouvi a fita demo e morri de dar risada, pensando: “nossa, esse negócio é muito engraçado, é psicodélico até”.

Eu tinha uma banda que estava acabando, mas era bem pop, eu tocava as minhas músicas, Sade Adu, Eurythmics, era bem cool e completamente diferente. Como eu me diverti bastante com aquele embrião do Pato Fu que eu ouvi, começamos a fazer show. Os shows eram tão legais! Tinha um retorno das pessoas que não víamos mesmo com o Sexo Explícito, a outra banda do John, que era muito cultuada. A plateia ficava louca e naquela época era tudo à lenha: fita cassete, zines em fotocópia, tudo pelo boca a boca. Foi muito impressionante o que o Pato Fu experimentou, de participar das calouradas da cidade e de virar assunto em todas as publicações de música.

O Pato Fu foi ganhando forma e também mais o meu jeito, porque com o passar do tempo comecei a mostrar as minhas composições. Depois entrou o Xande Tamietti, que é o nosso baterista, e fomos construindo essa carreira que já tem 18 anos.

 

O Pato Fu saiu em uma importante gravadora independente de Belo Horizonte, a Cogumelo Records, mas que praticamente só gravava heavy metal. Se eu não me engano, o Pato Fu foi um dos poucos trabalhos pop que a Cogumelo topou lançar.

Foi engraçado, porque o nosso disco estava disponível na Cogumelo, que tinha um público muito específico, do metal, então estávamos com receio, porque quem entrava na loja nunca ia querer comprar o nosso disco e quem quisesse comprar também não encontraria em outros lugares. Mas acho que o João Eduardo de Faria Filho, que era o mentor da Cogumelo, enxergou no Pato Fu essa coisa meio híbrida que a gente tinha – no nosso show tinha metaleiro, como tinha bancário, menininha arrumadinha. Acho que ele acreditou que a gente poderia romper a barreira do segmento muito fechadinho. O que aconteceu foi que as pessoas chegaram até o nosso disco e logo em seguida tivemos que sair da Cogumelo, pois precisamos lançar por um selo maior, a Plug, da BMG.
Vocês sempre foram muito bons em dar nome de disco. Todos os nomes dos discos do Pato Fu têm uma sacada, uma brincadeira ou uma ironia, basta você dizer alguns discos aqui.

O primeiro LP foi o Rotomusic de liquidificapum, que saiu em vinil. A faixa título é a primeira coisa insana que fizemos, pois é muito difícil de ser tocada, tem várias partes e é uma diversão completa. Recentemente voltamos a tocar no show e a plateia não acredita – nem a gente acredita que consegue tocar isso direitinho.
Em seguida lançamos o Gol de Quem?, que tem  “Sobre o tempo”, a música que apresentou o Pato Fu para a maior parte das pessoas. Na época da gravação do disco, quando ouvimos mixado, o Carlos Savalla, que produziu, dizia que a música era tiro certo e que todo mundo ia gostar do Pato Fu por causa dela. Isso de fato aconteceu, se você não tocar essa canção nos shows, o pessoal pede o ingresso de volta.

Esse disco faltou nas lojas, muita gente reclamava para gente que queria comprar e não conseguia e a gravadora dizia que ele ia chegar, mas pensamos que quando chegasse o outro disco já teria sido lançado. Então o próximo nós demos o nome de Tem mais acabou, para o pessoal da nossa gravadora prestar mais atenção nisso.

Aí teve Televisão de Cachorro, que é a do frango assado na padaria e tem “Canção pra você viver mais”, uma faixa que é muito importante para a história da banda. A história real por trás é que eu quis fazer para o meu pai, na época em que ele ficou doente, mas ele morreu e eu nunca consegui concluir essa canção. O John fez a música e me deu de presente a música que eu queria ter dado para o meu pai. Essa música tocou em rádios completamente diferentes e trouxe muita gente para o nosso lado. É uma canção muito emocionante e as pessoas se identificam com ela, por ser uma canção que fala de um amor que extrapola tudo.

Depois veio Isopor, com os quatro integrantes com a bochecha rosada e vestidos de branco na capa. Nessa turnê parecia que éramos da equipe da enfermagem…


Tem um outro disco também que tem um título muito bom e, de certo tempo, à frente de sua época, que é
Daqui pro futuro…

É um álbum feito em nosso estúdio. De todos, tem uma sonoridade mais uniforme, menos máquina. Durante muito tempo o Pato Fu foi bem conhecido pelas experimentações eletrônicas, por usar bastante coisa diferente, sintética, e esse disco tem uma sonoridade bem mais orgânica, de banda, de timbres, do jeito como foram construídas as camadas do som. Eu gosto desse resultado, “cozido em fogo em lento”. Tem uma música que eu gosto bastante que é “A hora da estrela”, em que a gente junta um pouco de literatura. O John compôs no piano e tocou na gravação, é uma música muito bonita, uma balada.

 

Tem uma pergunta que eu preciso fazer e você já deve ter respondido milhares de vezes. A associação do Pato Fu com Os Mutantes aconteceu naturalmente, ela realmente existe ou vocês passaram a prestar atenção nisso depois que a banda já existia?
Ser comparado a Os Mutantes no começo de carreira é uma coisa ótima, eles foram uma banda muito interessante. Confesso que eu quando eu era mais nova ouvi muito mais a Rita, já na carreira solo, mas o John ouviu bastante Os Mutantes. Acho que a diferença de idade entre nós fez com que ele tomasse mais conhecimento da banda do que eu. Eu peguei a Rita solo e num momento “mega star”. O primeiro grande show que eu vi na vida, que minha mãe me deixou assistir, no Mineirinho, foi a Rita Lee na turnê Saúde. Eu tinha 11 ou 12 anos, no máximo, e fiquei muito impressionada, com aquelas 30 mil pessoas. Nessa época, a Rita estava em todo lugar e ela é uma pessoa ótima, então de formação musical eu tenho mais isso de ter ouvido a Rita, mas conhecia Os Mutantes.

O que eu acho que fez com que as pessoas falassem muito que Pato Fu e Os Mutantes tinham a ver foi a formação da banda (um trio com vocal feminino) e o fato de Os Mutantes também não terem muito pudor em transitar por gêneros completamente diferentes. Também acho que a gente tinha gostos em comum: Beatles, The Mamas and the Papas, uns grupos vocais que eu ouvi por causa dos meus pais. Essas coisas que eles ouviram quando eram bem novinhos, eu também ouvi.

Talvez tenhamos mais coincidências do que influências diretas, mas o melhor dessa história é que fomos nos aproximando deles, da Rita, do Arnaldo, e o John produziu um disco do Arnaldo. Por conta disso, nos encontramos e fizemos shows juntos, eles gravaram música nossa e nós regravamos deles – a gente tinha feito uma única regravação de “Qualquer bobagem”, que era Tom Zé e Os Mutantes, e depois surgiu um convite para regravarmos “Ando meio desligado” para abertura de uma novela, porque achavam que éramos a banda que melhor poderia traduzir aquele espírito. Então eu só posso ficar contente por essas coincidências e referências todas terem dado nisso.

 

Talvez isso tenha acontecido porque nós não temos muitas vozes femininas no rock brasileiro. Por que isso acontece, é uma coisa naturalmente masculina?

Que engraçado, tem pouca mesmo, nos outros segmentos a gente está até que bem servido. Quando eu comecei tinha a Paula Toller, que influenciava as meninas que estavam começando a cantar e é uma figura muito forte até hoje. Não sei, acho que tem muito homem fazendo música e é uma peneira tão cruel que ficam cinco homens e meia mulher. Mas espero que quem passar na peneira fique por muito tempo.

 

Voltando a Os Mutantes, você vê semelhança no seu timbre de voz com a Rita, lá no tempo da banda e no início da carreira solo?
Hoje a Rita canta bem diferente, em relação ao que ela já cantou. Eu escuto algumas músicas e vejo algumas semelhanças, como a suavidade ao cantar, mas também muitas diferenças, principalmente na divisão. Às vezes a gente canta a mesma música e é completamente diferente. Eu não sei se ela vai ficar brava, mas talvez ela seja mais Rolling Stones e eu seja mais Beatles. Ou então eu gosto mais do Paul e ela do John. Mas a Rita é craque, ela canta muito bem bossa-nova, músicas calminhas, ela é muito versátil, então mesmo cantando suave, samba ou rock mais pesado é uma vocalista e tanto, admirável. 

joaoulhoa1Faça uma retrospectiva da sua trajetória artística e profissional antes do Pato Fu.

As pessoas não sabem, mas tem bastante coisa antes do Pato Fu. Eu comecei a tocar porque andava de skate e, no final dos anos 1970, skate era algo que ainda estava sendo inventado, assim como a música associada a ele. Nós ouvíamos muito Devo – era um negócio incrível, eles usavam aquelas joelheiras nos shows. Alguns dos meus amigos skatistas compraram guitarra e começaram a tocar e eu fui nessa também. Na época, eles passaram a ficar mais tempo na música do que no skate, o que eu achei um erro estratégico tremendo, mas aos poucos aconteceu comigo também. Em 1982, com 16 anos, montei a minha primeira banda, o Sexo Explícito, que durou dez anos, praticamente. Nós lançamos dois discos em vinil, dificílimos de serem achados hoje em dia. Era uma banda muito legal e foi a minha escola de criatividade, porque tínhamos uma aversão ao clichê radical, o que explica parte do nosso não-sucesso.

 

Quando a banda acabou eu voltei para Belo Horizonte, pois tinha me mudado para São Paulo com ela, e montei a Guitar Shop, loja de instrumentos musicais. A loja existe até hoje, mas depois que o Pato Fu deslanchou, eu deixei aos cuidados do meu irmão. Nessa época eu tinha resolvido ter um emprego, alguma coisa perto da música, até imaginava que se eu não conseguia ganhar dinheiro com música, ganharia dinheiro dos músicos. Pensei em ter um emprego e ficar com as minhas bandas nas horas vagas. Uma das que já existia, em paralelo ao Sexo Explícito, era o Sustados por um gesto, que tinha esse nome porque nós dizíamos que não ensaiávamos direito, então para terminar a música dependíamos de alguém que fizesse um gesto brusco. Eu tocava bateria, depois fui tocar baixo e essa banda virou o meu projeto principal. Com algumas mudanças, entre elas a saída de algumas pessoas e entrada da Fernanda [Takai] e do Ricardo [Koctus], a banda virou o Pato Fu, que é, na verdade, a continuação de um projeto dos anos 1980.

 

Vamos falar do processo artístico e da pegada do Pato Fu, que é bem diferente das outras bandas do começo dos anos 90, muito mais despojada, divertida.

Acho que o nosso ponto principal, o momento em que o nosso som foi criado, foi quando resolvemos fazer música usando base sequenciada, porque não tinha bateria no começo do Pato Fu. Eu tive a ideia de fazer uma banda assim quando fui numa convenção de tecnologia e tinha um workshop da Roland em que um moço estava explicando como era uma sequência. Quando eu vi, pensei que dava para fazer coisas muito legais, porque esse era um instrumento muito usado apenas para fazer Disco Music ou música muito comercial, mas poderia ser algo muito interessante para fazer mudanças de andamento bem rápidas, mudanças de timbre, coisas bem radicais com o som.

 

Depois de ter ficado tanto tempo com o Sexo Explícito eu queria uma banda que, independentemente de ter hits no rádio, tivesse um show muito divertido. Porque com hits é muito fácil, você toca a música no show e as pessoas reconhecem, por mais que o som não esteja muito bom. Agora eu tinha uma banda sem nenhum hit, como eu faria para o show ser bem divertido? Então investimos muito em um som cheio de contrastes: uma hora muito pesado, na outra, leve, eletrônico ou então mais caipira, de um jeito que as pessoas não conseguiam ficar alheias. Os shows eram muito divertidos, as pessoas saiam felizes, e tinha também um truque dos covers inusitados, porque não fazia nenhum sentido fazermos o cover clássico, por exemplo, dos Titãs ou dos Paralamas, que é um negócio que deixa o show mais divertido, mas tira a sua personalidade – as pessoas gostam daquele momento, mas depois esquecem o nome da banda. Fazíamos cover do Sítio do Picapau Amarelo, da música dos Flintstones, que é algo que funciona do mesmo jeito, porque as pessoas se lembram daquilo, ao mesmo tempo em que tem uma personalidade. Tudo isso fez com os shows no começo fossem sensacionais. Tem no YouTube um clipe com cenas desses shows de 1992, antes de o primeiro disco ser lançado, e dá para ver claramente que os shows eram muito legais e com muita energia boa.

 

Mas para montar o Pato Fu você precisava de alguém para cantar. Como aconteceu o convite para a Fernanda Takai fazer parte da banda?

Sinceramente, eu nunca confiei muito nas minhas habilidades vocais. Quando se quer montar uma banda, uma pergunta que você tem que fazer e responder sinceramente é se deve cantar as próprias músicas. Acho que até tinha jeito para cantar um tipo de música, mais melódica, mas em outros casos não funcionava.

 

A Fernanda frequentava a loja de instrumentos musicais, me deixou uma fita cassete e era muito legal. Já tinha esse timbre, essa coisa de cantar baixinho, mas o que destaca é que ela tem o que é mais precioso na música pop: um timbre reconhecível e agradável, que você ouve duas notas e sabe que é ela quem está cantando, aí eu a chamei para a banda.

 

No começo do Pato Fu as músicas dela não se adaptavam muito, mas depois, conforme fomos criando uma veia mais harmônica, mais melódica, começamos a reaproveitá-las. Algumas delas, como “Antes que seja tarde”, que se tornou um sucesso, ela tinha feito com 15, 16 anos. Quando notamos que precisávamos de músicas assim, fomos atrás do que ela tinha e demos só uma atualizada na letra. São músicas muito boas e naturalmente boas para ela cantar. Eu aprendi muito sobre o que eu tinha que fazer para ter algumas músicas bacanas para ela ouvindo essas canções.

 

As comparações do Pato Fu com Os Mutantes são pertinentes? Você acha que tem a ver ou só depois vocês começaram a prestar atenção neles?

De todos os integrantes, acho que eu era o único que tinha algum material deles – não como um colecionador, tinha duas fitas cassete, talvez. É uma banda sensacional e acho que as comparações são pertinentes em vários aspectos, tem muita coincidência para as pessoas não comentarem, como o fato de ser um trio com os dois caras meio engraçados e uma menina, mas algumas coisas não têm nada a ver. Não acho a voz da Fernanda parecida com a da Rita, eles são uma banda muito mais rock’n roll, no sentido dos Stones, uma banda de rock no estilo clássico, com aquela psicodelia e tudo mais, e nós somos uma banda pós-punk, com menos acordes.

Talvez a gente tenha aturado essas comparações um pouco mais do que as bandas normalmente aturam, porque as pessoas falavam dos Paralamas em relação ao Police, do Ira! com o Pearl Jam, e por aí vai. No nosso caso, as pessoas continuam insistindo até hoje, não me incomoda, mas soa muito caduco. Depois de certo tempo, percebemos que quem estava falando isso ainda era porque não tinha entendido nada ou ouviu o galo cantar em algum lugar e estava só repetindo o que falaram. Tivemos algumas situações engraçadas no começo, quando isso era o básico para se falar do Pato Fu e íamos para algum lugar distante, dar entrevista naquelas rádios AM do interior – e rádios AM são muito legais, mas os caras realmente pegam os realeses e leem.

 

Você pode citar alguns momentos importantes do Pato Fu que dizem respeito à discografia da banda? 

Hoje, eu escuto o primeiro disco com muito orgulho. Ele foi feito com 500 dólares, no estúdio do Haroldo Ferretti, que fez a produção comigo e é o baterista do Skank. Já tinha a base sequenciada e o curioso é que se tratava de um estúdio de 8 canais, na época. A base tocava junto da fita, de modo que se hoje em dia você for procurar, a master desse disco não tem a parte eletrônica, porque ela era mixada ao vivo, para ganhar canal. Tinha um som tosco, muita energia, mas uma “vontade de matar” que é muito bom. Às vezes o Rotomusic de Liquidificapum me causa certo constrangimento por causa das vozes, cantando esganiçadamente, mas a vida é mesmo assim.

Em Gol de quem?, um elemento importante foi a produção do [Carlos] Savalla, que nos colocou em contato com um acabamento que não imaginávamos. A cena de BH nos anos 80 era fraca nesse sentido, estávamos um pouco distantes do centro produtor de música e eu tinha certo trauma de fazer disco com som ruim. Aí pudemos contar com o Savalla, que trabalhava com os Paralamas, sabia fazer um som de violão legal e tudo mais. Ele chamou músicos – nós gravávamos tudo com a nossa base eletrônica – e foi muito bom.

 

O Savalla me mostrou a importância da produção, de cuidar do repertório, mas acho que desde os anos 80 eu já estava interessado nisso. Quando alguém tinha uma banda e comprava uma bateria eletrônica, eu era o cara que aprendia a programar, eu tenho fama de ler manual.

Até hoje, Gol de quem? é o nosso disco que consideram mais importante, justamente porque é o primeiro com músicas tocadas na rádio, as pessoas conheceram o Pato Fu por meio dele e isso gera uma impressão que é mais forte do que com qualquer outro disco. Outro aspecto muito importante também foi o contato com gravadora, porque antes, nos anos 80, o Sexo Explícito tinha algum contato, mas levava isso de longe, a gente não tinha chegado a mexer nesse vespeiro com força total.

 

Como é esse processo para dar nome aos discos?

Em Rotomusic de Liquidificapum queríamos um nome que definisse o estilo da banda, mais ou menos, porque obviamente as músicas eram muito diferentes uma das outras, então inventei esse nome fantasia. Eu imaginava que se algum locutor de rádio ou TV tivesse que falar isso ao vivo, ia se embolar e seria divertido. Gol de Quem? é uma expressão que significa que a pessoa não entendeu muita coisa. Era um pouco mais dessa ideia de que o som que a gente fazia provocava uma interrogação nas pessoas. Tem mais acabou é uma espécie de protesto contra a falta de discos na época do Natal, quando estávamos tocando no rádio e não tinha o disco para compar. Fizemos esse protesto  em relação ao disco anterior, mas não adiantou nada. Televisão de cachorro é aquele frango de padaria que fica rodando. É um pouco como se a gente se sente como artista, quando estamos dando a cara à tapa e as pessoas opinando sobre o que fazemos. A música que dá nome ao disco eu fiz de um jeito meio mediúnico, ela veio inteira, lembro de estar dirigindo e  cantando os versos, e as minhas músicas não são assim, levam um tempão para fazer, fico revendo a letra… Queríamos fazer um disco super pop e ele tem um capa toda colorida, uma cara de banda de rock inglesa. Achamos que o nome tinha a ver e era um bom motivo para capa.

 

Vocês também sempre foram muito bons em clipes. Os clipes do Pato Fu são históricos e muito divertidos. Vocês nunca tiveram medo do ridículo? 

Felizmente não, acho que hoje em dia temos mais medo do ridículo. O humor em nossa carreira era um elemento e aos poucos aprendemos a utilizá-lo, antes colocávamos pitadas de humor em qualquer coisa, mesmo numa música triste, de cortar os pulsos, se aparecesse uma piada, íamos embora. Em algum momento percebemos que isso não era muito legal, não funcionava bem assim.

Somos uma banda que adora clipes. Quando eu gosto de uma banda, geralmente gosto do kit todo: dos clipes, das capas dos discos, do som, então quero fazer a mesma coisa com a minha banda. Alguns momentos marcantes de minha vida como fã foram por meio de clipes, eu lembro um do Devo em que eles tocavam “Satisfaction” e não dava para ser melhor. Quero que a minha banda faça coisas como essas!

Cite um clipe do Pato Fu que você se orgulha de ter feito e que resume bem o trabalho da banda.

A música e o clipe de “Made in Japan” resumem várias coisas. É uma música feita em japonês, que escolhemos para abrir o disco com a ideia de que as pessoas iam colocar o disco na loja, ouvir em japonês e pensar que tinha um disco errado ali dentro. Mas aí, o diabo da música tocou no rádio, e isso é o maior motivo de orgulho pra gente.

Desde o começo já fazíamos músicas em outros idiomas e eu sempre dizia que um dia tínhamos que fazer em japonês, mas era muito difícil, até que fizemos a letra com um amigo nosso que sabia japonês. A Fernanda tem a ascendência, falava japonês, então tinha a tudo a ver. O som é uma influência explícita do Pizzicato Five, uma das bandas que mais gostamos. Fazemos muito essas colagens de sons, mas com o nosso jeito de tocar e fomos bem sucedidos ao colocar esses elementos, o clipe é muito legal e ainda por cima foi um sucesso.

 

O cuidado com os clipes, o fato de usar sequenciadores desde o começo, o estúdio que montou em casa, você sempre teve uma atração por tecnologia de ponta?

Desde as minhas bandas antigas, eu era o cara que estava mais afeito a essa coisa dos equipamentos, também tive uma loja de instrumentos, mas a tecnologia começou a ficar mais divertida quando se tornou mais fácil e barata – com poucas coisas era possível criar grandes efeitos. Tentávamos aplicar isso no som, nos clipes, em tudo o que fazíamos, mesmo em nossa associação com outros artistas. O “Made in Japan” foi dirigido pelo Jarbas Agnelli, um cara que eu sempre via por aí fazendo comerciais com aqueles efeitos. Por incrível que pareça, os orçamentos para videoclipes no Brasil são infinitamente menores do que para comerciais e quem faz videoclipe de ponta é porque está a fim, porque gosta e chega mais perto de um trabalho autoral, então todo mundo faz algo sensacional com o coração e com o mínimo de verba possível. Hoje em dia, o uso da tecnologia de ponta está se invertendo, pois estão usando câmeras muito pequenininhas, baratinhas, para fazer clipes caseiros. O conteúdo está ficando mais importante do que o efeito espetacular e a gente está nessa também.

 

Como é mesmo o nome do seu estúdio?

128 japs. No começo do Pato Fu, dizíamos que éramos dois cretinos, uma bela donzela e 128 japoneses. Tem um sequência da Roland, um MC50, que está escrito “128 parts” e daí que eu tirei esse número, que é muito usado em coisas binárias também.

 

Como foi que você se deu conta de que curtia produzir e fazia isso bem?

Acho que fui fazendo isso aos poucos. Sempre era quem ficava mais afeito ao aspecto técnico, da mesa de som, de entender para que serve cada botão, mas não só o aprendizado, como também o equipamento eu fui juntando aos poucos. Aí viemos para essa casa que tinha um barracão de caseiro e transformamos num estúdio, que não tem nem uma cara de estúdio comercial.

Quando comecei a trabalhar com o Dudu Marote foi que passei a levar isso mais a sério. Ele tem um jeito de produzir que me influenciou muito até hoje. Nos programas que uso, nas coisas que aprendi a fazer, tem muito a ver com ele e também com o fato de a tecnologia se tornar acessível – antigamente, quem tinha um estúdio caseiro era o Paul Mccartney e o Stevie Wonder, com aquelas mesas gigantes, aquelas geladeiras gigantes de equipamentos.

Esse estúdio aqui fica entre um home studio e um estúdio mais comercial mesmo, mas hoje em dia, com um computador e com um pouco de equipamento você faz um som com qualidade industrial. Quando essa tecnologia passou a existir é que produzir começou a ter graça para mim, porque ficar fazendo aquelas fitinhas demo nos gravadorzinhos de quatro canais eu não curtia muito não. É isso aqui é diversão para o resto da vida.

O disco

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Depois de tantos discos com o Pato Fu, uma das bandas mais importantes da sua geração, veio a ideia de fazer um disco solo. Por que agora e por que essa ideia?
Eu pensava em fazer um disco solo quando o Pato Fu não quisesse mais gravar e viajar. Porque a música foi tão legal até aqui e seria cruel acabar com a minha carreira se a banda parasse. Mas eu pensava nisso de uma forma distante, porque o Pato Fu é a banda em que eu quero estar, até hoje. O tempo foi passando e quando completamos 15 anos de banda eu comecei a pensar que se o Pato Fu continuasse para sempre, eu nunca iria gravar – e a tendência mesmo é que a gente fique juntos, pois temos uma relação muito boa, gostamos de fazer música, de tocar e fazer shows.

Foi o Nelson Motta quem insistiu na ideia do disco solo. Eu conhecia os livros, as músicas e toda a história dele que é tão ampla, mas não o conhecia pessoalmente. Ele me escreveu um e-mail dizendo que tinha um desejo de me ouvir dando outra cara para o repertório da Nara Leão. Então eu respondi que eu adorava a Nara, mas que tinha a banda e não podia gravar o disco agora, se não achariam que o Pato Fu tinha acabado. Mas ele insistiu, dizendo que a ideia era boa e eu deveria fazer para depois decidir se lançava ou não, e que ele me ajudaria no que eu precisasse, mas à distância, porque não tinha mais paciência para estúdio. Nós começamos a trabalhar assim e ele foi fundamental na seleção do repertório. Depois eu fui ao Rio conhecê-lo e a gente conversou um tempão, porque eu ainda não tinha certeza se queria fazer o disco.

Você foi naquele apartamento dele com uma vista espetacular para o mar, aí ele te convenceu…

Pois é! Ficamos conversando sobre a Nara, sobre música. Ele disse que todas as versões de outros artistas que o Pato Fu tinha feito eram completamente diferentes, com uma personalidade muito forte, e ele sempre se lembrava da Nara quando me ouvia cantar ou falar, só que não sabia que eu gostava dela, porque meu pai gostava muito, então os discos dela que eu tenho foram do meu pai.

Como a Nara partiu muito cedo, o Nelson achava que uma geração não conhecia a amplitude do repertório gravado e ficava sempre com a ideia de que ela foi cantora de bossa-nova, mas ela gravou samba de morro, chorinho, Roberto e Erasmo, um monte de coisa interessante. Eu nunca pensei em fazer um disco dedicado a ela, mas ouvindo as músicas e conhecendo o repertório – que é impecável, uma aula de música brasileira – começamos a pensar que o disco ia ficar muito bom e, se soubéssemos escolher direitinho, iria fazer com que as pessoas tivessem curiosidade para saber um pouco mais da história da Nara. Por outro lado, o público que gosta da Nara, que não me conhecia ou que me conhecia mas não tinha me escutado, porque o Pato Fu não era o tipo de música que ouvia, o Nelson tinha certeza de que iria gostar. E ele estava totalmente certo, porque teve uma quantidade muito grande de gente que veio ao meu show e disse que era a primeira vez que estava ali, por causa do disco solo, então foi bom para o Pato Fu, porque muitas pessoas ficaram curiosas para conhecer as músicas que eu escrevo e o trabalho com a banda. O Nelson tem uma intuição musical muito forte.

Na verdade, o trabalho do Nelson é algo faz muita falta hoje em dia na indústria fonográfica, que é o papel de diretor artístico.
Sim. E quando as pessoas olham a capa e veem “direção artística: Nelson Motta” e “direção musical: John Ulhoa”, perguntam a diferença. O Nelson foi quem deu a ideia, cuidou do repertório comigo e quem tem essa percepção do que é bom na música. Porque tem gente que nem escuta música direito e, de repente, está trabalhando na indústria da música e não olha com carinho pra isso que é o mais importante.

Vocês decidiram fazer o disco na sua casa, com o seu esposo. Fala um pouco das decisões técnicas e artísticas que envolveram a produção desse disco.
Esse disco foi feito nos intervalos do Daqui pro Futuro e de uma maneira muito lenta, quando tínhamos uma folguinha trabalhávamos nele. A primeira música que fizemos foi “Descansa coração”, só eu e John (o Lulu não estava nessa época). Quando mandamos o MP3 para o Nelson, ele chorou de emoção e falou: “nossa, eu estava certo, olha só o que vocês fizeram com essa música!” e era uma versão dele para “My foolish heart”. Nesse instante ele falou que tinha certeza de que deveríamos fazer o disco e fomos fazendo, aos pouquinhos. O repertório não foi escolhido de uma vez, foi pouco a pouco.

Como você escolheu o repertório? Foi pensando que a música ia ficar boa na sua voz ou você se identificava com a letra?  Porque sempre tem aquilo de o vocalista se identificar com o texto. No Titãs tinha cinco caras cantando e sempre esse papo de não querer cantar por falta de identificação. 
Parece que é frescura, mas é engraçado, é tão subjetivo! No Pato Fu, o John fala que as músicas que eu não quero cantar quem tem que cantar é ele. Quando me pedem para deixá-lo cantar mais, eu digo que é ele fazer mais músicas que eu não gosto! [risos] Mas é difícil explicar o motivo, tem o texto da canção, o jeito da música. Só nos últimos cinco anos compondo para mim que o John entendeu o tipo de coisa que eu gosto mesmo de cantar, que eu não vou fazer nenhum adendo, riscar alguma palavra ou encrencar com algo. Um monte de gente me manda música dizendo que é a minha cara, que eu tenho que gravar e que só escuta a minha voz cantando. Quando eu escuto, é uma música boa, mas não o tipo de música que eu escolheria gravar. Talvez seja uma frase ou para onde foi a melodia, é empatia musical mesmo.

No caso do repertório da Nara, que era muito grande, fizemos uma pré-seleção. Eu fiz uma lista e o Nelson fez outra, com cerca de 40 músicas, vimos o que tinha em comum e fomos escolhendo. Mas ele mesmo disse que chegaria uma hora em que eu teria que decidir qual cantaria e ele não falaria nada, porque já tinha trabalhado com muita gente e sabia que não adiantava dizer que tal música era melhor, porque não era ele quem se sentiria bem ou não cantando a música.

Tentamos criar categorias, por exemplo, tinha que ter uma música do Chico Buarque, porque a Nara gravou muita música dele, do Roberto e do Erasmo também, a mesma coisa com samba de morro, com os compositores nordestinos e “Odeon”, que foi um pedido da Nara para o Vinícius. Pensando no que cada música simbolizava naquela época e ainda hoje chegamos a esse repertório, mas poderia ter sido um álbum duplo ou triplo. Tanto que uma das músicas que entrou no vinil foi o bônus para o disco japonês, o “Kobune”, uma versão de “O barquinho”, do Menescal e Bôscoli, porque na categoria bossa-nova, tinhamos “Insesatez” e Dolores Duran com Tom Jobim, mas que era já na transição das cantoras de rádio para o movimento da bossa-nova.

Então fomos procurando esses encaixes, pouco a pouco. Historicamente, todas as músicas têm uma importância dentro da história da Nara. Para mim, como intérprete, são as que eu fico mais à vontade, gosto de cantar e acho que caem bem na minha voz.

Fernanda, por que o disco tem esse título?
Pensando no título, como a gente sempre faz nas coisas do Pato Fu, eu não queria fazer um disco simplesmente “Fernanda canta Nara Leão” ou “Tributo à Nara Leão”. A Nara sempre foi uma artista elegante e inteligente e eu queria algo bem poético, porque um disco dedicado à Nara tinha que ter alguma coisa bonita no título também. Ouvindo “Seja o meu céu” encontrei a frase “onde brilhem os olhos seus” e achei linda. Então a ideia é essa, onde brilhem os olhos da Nara, de quem gosta da Nara e onde brilhem os olhos de quem gosta de música boa. Muita gente até erra o título, mas eu gosto de pensar que ele tem esse capricho de ser um título poético.

Depois que esse projeto feito com tanto cuidado, aos poucos, em casa, estava concluído, como foi o lançamento? Tem uma história do desfile de moda do Ronaldo Fraga, não?
O desfile foi antes do lançamento. Esse disco era uma segredinho meu, do Nelson, do John e do Lulu [Camargo], mas o Ronaldo ama Nara Leão e numa festa, depois de umas taças de vinho a mais, eu contei que estava fazendo um disco com as músicas dela. Ele se empolgou falou que tinha um desfile pensado em homenagem à Nara, que pretendia fazer em 2009, quando se completavam 20 anos da morte, mas que adiantaria para fazermos alguma coisa juntos.

Na São Paulo Fashion Week de 2007, com apenas metade das músicas prontas, eu cantei ao vivo, apenas com as bases, essas versões completamente diferentes e foi um choque. Me apresentar num desfile de moda, com aquela plateia super crítica, fora de um esquema de banda e guitarra, sem estar cantando as minhas músicas, foi a coisa mais difícil que eu já fiz artisticamente, mas foi muito ousado e emocionante. Conforme o desfile ia acontecendo, eu via as pessoas na plateia levantando os óculos escuros e começando a chorar, e no final, todo mundo de pé, se abraçando, chorando, batendo palma. Eu nunca tinha visto isso, acho que foi um dos desfiles mais comentados de todas as épocas da São Paulo Fashion Week.

Então todo mundo ficou me perguntando quando o disco ia sair e eu dizia que só tinha aquelas músicas e nem sabia se lançaria, porque não tinha patrocínio, nem gravadora, era um projeto que estávamos fazendo totalmente sozinhos, em casa. Mas isso serviu para criar uma grande expectativa e me estimulou a finalizar e lançar. No final de 2007, quatro meses depois do Pato Fu lançar Daqui pro futuro, o disco saiu.

E como foi esse lançamento? Porque, normalmente, quando um integrante de uma banda lança um disco solo, todo mundo acha que a banda está com problema…
Eu tentei deixar claro em todas as entrevistas que eu não estava abandonando a banda e a turnê do Daqui pro futuro estava em circulação. Eu nem imaginava que fosse entrar em turnê com Onde brilhem os olhos seus, mas os convites começaram a aparecer e eu montei uma banda que era metade do Pato Fu, basicamente, eu tive que fazer as turnês juntas – tinha final de semana que era eu na sexta-feira e o Pato Fu no sábado, aí só tirava o salto alto, mudava o figurino, pendurava a guitarra e ia. Mas eu achei legal dessa forma, pois é muito difícil mesmo o vocalista fazer um trabalho solo e ficar claro que isso não vai afetar a saúde da banda.

Como foi a surpresa de o disco ser lançado de forma independente e começar a vender muito bem?
Eu fiz uma tiragem inicial de cinco mil cópias, do meu bolso, com a capa rodada em gráfica, um projeto gráfico caprichado, corte especial e, em uma semana, vendemos tudo em São Paulo. Para o mercado brasileiro, em crise, foi um absurdo. Era época de Natal e o disco ficou em falta quase um mês, fizemos mais cópias e rapidamente vendemos 20 mil, em um mês e meio ou dois meses. Logo que isso aconteceu, o João Augusto, da Deckdisc, me chamou e disse que os vendedores dele estavam sendo procurados pelos lojistas, querendo comprar o meu disco. Ele me fez um convite e comprou a master do disco.

O mais louco é pensar que eu fui até onde podia como artista independente, mas quando você é um sucesso, em um país como o Brasil, não consegue abastecer o mercado de maneira independente.

E aí, um ano depois, o João Augusto reativou a Polisom e teve essa ideia genial de fazer esse disco em vinil?
Eu não esperava mais lançar vinil, com toda a dificuldade que existe. Por parte da Deck, foi um carinho explícito com esse disco, que teve um alcance tão grande dentro e fora do Brasil (porque foi licenciado para outros lugares do mundo).

Eles tiveram um cuidado muito grande com a tradução do que a gente já tinha, que era um projeto consagrado, tanto graficamente, quanto de som, e eu achei incrível. O João falou que o disco deu muito trabalho, porque ele é cheio de delicadezas e sutilezas e ele não podia fazer um corte qualquer. Ele conseguiu o que as pessoas esperam do vinil, mas preservou toda a nossa ideia de timbragem, de sonoridade, dos graves, de algumas mixagens que fizemos e da ousadia que esse disco tem.

Muita gente me mandou e-mail comemorando que havia saído em vinil e poderia ter o álbum na coleção. Um lançamento tão querido foi algo inacreditável.

Tem uma pequena retomada do vinil no Brasil e um disco só é lançado ou relançado em vinil quando ele é realmente um clássico. O seu é um disco feito há pouco tempo, já é um clássico?

Se eu disser que sim, vão me matar [risos], mas pelo o que me falavam, inclusive o próprio João, esse era um disco que tinha que ser lançado em vinil. Eu fiquei muito feliz.

As pessoas estão muito interessadas nesse assunto, entre meus fãs jovens o vinil é um objeto de desejo instantâneo e quem sempre ouviu vinil, tem as suas coleções antigas e esse hábito de escutar música assim, vai querer ter também. Existe um mercado para vinil e as pessoas estão trabalhando com muito critério para que a gente tenha esse tipo de produto aqui no Brasil.

Por que você acha que o disco deu certo tão rápido, do ponto de vista artístico e comercial?
Foi rápido e não foi, porque fizemos devagar, e já faz um tempo que ele foi lançado e ainda rende muitas coisas boas. A questão do repertório foi a chave, pois ele é muito bom. Hoje vemos as coisas sendo lançadas de qualquer jeito, dizem para pensar só em três músicas, que o resto não precisa, mas acho que quando um disco preenche todo o espaço que ele tem com músicas boas a tendência é cativar mais, inclusive diferentes ouvintes, e ganhar consistência com o que você lançou.

O que eu experimentei com esse trabalho foi diferente do que experimento no mundo pop, em que tudo passa rápido, de repente. Um disco de pop-rock envelhece rápido, as rádios perdem o interesse, o público assiste ao show e não quer mais. O show de Onde brilhem os olhos seus eu faço há dois anos e meio e as pessoas vão, querem ver de novo, depois querem o DVD. Então essa consistência toda, os arranjos e a maneira como a minha carreira solo aconteceu, com a banda ainda em atividade, jogou o projeto para cima.

Como a gente diz aqui em Minas, eu fiquei satisfeita além da conta com esse disco. Fora o reconhecimento do público e os prêmios da crítica, é um trabalho que me deu uma satisfação pessoal que está relacionada com o fato de chegar alguém e falar: “nossa, você tem 18 anos de carreira e é a primeira vez que eu estou aqui no seu show”. A gente tem a possibilidade de estar sempre fazendo coisas interessantes e trabalhando forte. Não dá para achar que já fizemos tudo, tem sempre espaço para conquistar. 

charlesejohn

Como apareceu o convite de fazer o disco da Fernanda como produtor?

Quando isso aconteceu, eu já tinha produzido dois discos do Pato Fu sozinho e de outros artistas também (Erika Machado, Monkavision, o Let it bed, do Arnaldo Baptista). Onde brilhem os olhos seus foi feito de uma maneira muito prazerosa, lentamente, porque não tinha gravadora. Fomos escolhendo o repertório vagarosamente, nos intervalos da turnê e do final de outro disco do Pato Fu.

É um disco tranquilo, feito com poucos músicos, justamente porque não tínhamos muito compromisso, nem orçamento. Eu convidei o Lulu Camargo, que é tecladista do Pato Fu e mais músico do que eu – e de vez em quando a gente precisa de um músico! [risos] Esse repertório sem um músico por perto fica difícil, porque é mais complexo em termos de harmonia do que a música pop, que é a nossa especialidade. O Lulu tem a manha, é um músico de muito bom gosto. Então o disco foi feito assim, ele vinha para cá, fazíamos arranjos, mas mesmo com ele em São Paulo, ele tem um sistema que é parecido com o meu, então fazia a base, mandava para ele e depois ele me devolvia.

É um disco feito por mim, pela Fernanda, pelo Lulu, não tem baterista, é tudo com timbres de base de bateria, mas muito diferente do que era no começo do Pato Fu, porque soa orgânico. A única participação especial é a do Roberto Menescal, que é a mais correta possível.

 

O que você achou da ideia do João Augusto de lançar o disco da Fernanda em vinil?

Demais. Vinil é um negócio incrível, pra começar, só a capa, só o jeito que a gente segura… É a primeira vez que eu tenho essa comparação tão direta do CD e do vinil, porque eu conheço muito bem o som, todas as faixas. Gosto mais do som no CD, o vinil tem um filtro que você pode curtir ou não, mais macio, mas o que é mais legal nele é a maneira de se ouvir, que vem de uma velha escola de escutar música que ninguém mais faz e que envolve pegar o disco, colocar para tocar e ficar cuidando dele, escolher a faixa que deseja ouvir, ter que virar o disco. É um negócio que você aprecia a música muito mais. Do surgimento do CD em diante, as pessoas escutam a música muito mais de lado e eu acho que eu tenho essa “doença” de ouvir música olhando para as caixas de som, prestando atenção. O vinil te obriga a isso e a capa é tão grande que você não faz outra coisa a não ser mexer nela, enquanto escuta as músicas. Nesse sentido, é claro que o vinil vai soar melhor.