Fausto Fawcett | FAUSTO FAWCETT E OS ROBÔS EFÊMEROS | WEA, 1987

FaustoFawcett
Capa JORGE BARRÃO, LUIZ SERBINE e BARBARA SZANIECKI (logo)
Em 1986 o carioca Fausto Borel Cardoso (que adotou o sobrenome da musa e obsessão Farrah Fawcett) apresentou a performance “Juliette, ninfeta Boticelli, a filha bastarda da seleção holandesa”, chamando a atenção de quem estava no Mistura Fina. Entre eles, estava o cineasta Cacá Diegues, que passou a dica para André Midani, o mítico diretor da Phillips que procurava casting para a Warner.  
 Seu primeiro disco era costurado pelas obsessões de Fausto: louras, pastiches, overdose pop e o caos Copacabanense. A mistura era pouco mercadológica, mas entre as faixas estava o petardo “Katia Flávia”, escrita com seu parceiro Carlos Laufer, um rap crônica potente, com um refrão catártico para aqueles anos pós-ditadura e recessão: “Calcinha!” que entrou em trilha de novela e bombou nas rádios. 

 

tirafausto

FAIXAS

GUEIXA VADIA
Carlos Laufer e Fausto Fawcett
TANIA MIRIAM
Carlos Laufer e Fausto Fawcett
DROPS DE ISTAMBUL
Carlos Laufer e Fausto Fawcett
O RAP D’ANNE STARK
Carlos Laufer e Fausto Fawcett
KATIA FLÁVIA
Carlos Laufer e Fausto Fawcett
CHINESA VIDEOMAKER
Carlos Laufer e Fausto Fawcett
ESTRELAS VIGIADAS
Fausto Fawcett e Marcelo de Alexandre
JULIETTE
Carlos Laufer e Fausto Fawcett

FICHA TÉCNICA

Vocal
FAUSTO FAWCETT, SORAYA JARLICHT, MARÍLIA VAN BOEKEL, NELSON MEIRELLES, SERGIO MEKLER e FERNANDA ABREU
Backing vocal, baixo, bateria eletrônica e guitarra
LIMINHA
Backing vocal, baixo
MARCOS LOBATO
Bateria, backing vocal
MARCELO LOBATO
Guitarra, backing vocal
CARLOS LAUFER, PEDRO LEÃO
Teclados
IURI e MARCELO DE ALEXANDRE
Produção
LIMINHA
Coprodução
ADRIAN HUDSON
Mixagem
IRAI CAMPOS, VITOR FARIAS
Técnico
ANTOINE MIDANI, MAURO BIANCHI, SERGIO CHATAIGNIER

Fausto Fawcett

Fausto Fawcett, quando e por que você adotou o sobrenome Fawcett?

Bom, isso aí é tranquilo, ali aos idos de 1977 eu era como a maioria dos brasileiros ligados ao horário nobre, cheio de seriados, etc… E estreou um chamado As Panteras, tinha a Farrah Fawcett e gostei do nome Fawcett, Fausto com Fawcett, achei bacana juntar as duas coisas. E Fausto tinha aquele, digamos, que tem um peso literário e Fawcett aquela torneirinha né e pop, achei bom então deu uma liga boa.

Mas por que você escolheu a loira de As Panteras e não uma das outras. Já tinha uma fixação pela loura assim ou não? 

Isso já tenho. Desde os cinco anos de idade.

É?

Morava no Leblon e ai teve um bailinho de carnaval, as pessoas fantasiadas e etc, e de repente eu vi uma figura de olhos azuis, cabelo amarelo, vestida de chinesa, ai pronto fiquei com essa fixação, essa preferência digamos assim.

Fixou né…

Aquilo dali fixou; tava todo mundo meio pardo e tal e ai aparece aquela aparição, então foi isso, então por isso… A Farrah.

Como é que você definiria seu trabalho?

Vou roubar uma expressão que não sei se o Caetano que cunhou, mas pelo menos isso foi o nome de um filme dele e eu gosto de colocar desta forma, como se fosse um cinema falado, uma fala com esse cunho cinematográfico. Acontece assim: você me perguntou sobre a Farrah Fawcett, na verdade, vou fazer essa digressão aqui, eu entrei pra PUC em 1976 e entrei pra fazer jornalismo, que era o que me interessava. O curso de comunicação, nessa época, ele tinha um certo punho, uma certa mitologia de ser. Você pensar o que está acontecendo contemporaneamente, filosoficamente através do jornalismo e da publicidade, mas entrei lá pra isso. Eu sai em 1977, voltei em 1979. Mas então já era interessado no que se costuma chamar de universo pop. O que o jornalismo, o que a publicidade ofereciam eram montanhas de lendas digamos, fatos transformados em lendas jornalísticas. Uma das minhas primeiras inspirações pra chegar e escrever e me ligar no que acontece foi o rádio. Quando se fala Rap você vai direto pra uma certa rapaziada, negra dos Estados Unidos, de Nova York, eu penso em Rap vou direto pra locutores esportivos, narradores de futebol. Então essa coisa do rádio e do jornalismo em geral eram muito importante, eu gostava disso; Misturado com literatura. Então isso tudo num primeiro momento ali foi, foi a grande mistura pra mim, entendeu? Em relação a ficar bolando histórias pra ficar imitando. Depois eu fui pra Copacabana a partir de 1974, foi aquela enxurrada de realidade, entendeu? Praia, um lugar onde a rua onde eu morava era repleta de boates, então a gente era uma boemia bacana, a gente ia jogar bola oito horas da manhã e tinha as meninas saindo das boates. Então toda essa mistura, to dando esse resumo pra dizer que essa vontade de chegar, de ficar observando, anotando, falando, entendeu? Quando eu voltei pra faculdade em 1979 eu passei a aproveitar dos equipamentos do curso de comunicação pra fazer rádio novela, pra qualquer trabalho que era pedido seja de que matéria fosse, antropologia, economia, qualquer coisa, eu resolvia fazer um mini espetáculo. O começo de tudo, o embrião de tudo que eu faço deste cinema falado, é, encarando o mundo na verdade de uma forma convulsiva e caótica, uma visão peculiar. Isso tudo começou na infância, foi aperfeiçoado ali na PUC, esse tesão por todos esses assuntos e por esse universo pop e ai a partir de 1981, 1982 quando eu encontrei o Laufer, encontrei o Serginho. Então vem daí, cinema falado, depois obviamente você vai no aspecto musical mesmo, e fonográfico, etc… Das histórias, dos camaradas, além das músicas e dos três minutos vão falando…

E fala muito…

Exatamente e a dinâmica é uma espécie de senso épico, então isso eu gostava. Fiz isso com o Zé Tomás, com o Marcelo de Alexandre, que foi outro companheiro nosso e principalmente com o Sérgio Mekler, com Nelson Meireles e com o Laufer, que praticamente a gente inventou uma parceria de levada de groove, o batidão característico dele. Então isso foi uma chave e é o que eu gosto e sei fazer.

Como eram esses trabalhos que você fez na PUC com o Mekler, com o Laufer, descreve um pouco, vocês não alugavam fitas VHS e faziam seus próprios vídeos?

Isso, isso. Porque era parte fundamental. Então botava-se só a televisão num primeiro momento, não era nem com o Laufer, nem com o Sérgio, quando eles entraram, quando a gente começou a fazer as coisas falei: “pô vamos pegar, já que o pensamento e as histórias são colagens de notícias com outros elementos literários e musicais. Se é colagem, o que a gente faz é o ritmo da fala, o ritmo das epopéias, a gente tem que dar uma sublinhada nisso, tem que fazer com que as imagens sejam um acontecimento paralelo àquilo”. Aí na PUC a gente já pegava documentários, etc. Não se podia cortar obviamente o cara da Globo, mas na medida do possível a gente fazia uma superposição, uma colagem. Mas ai, com VHS, a gente começou a poder fazer, pegava dois aparelhos e começava a fazer umas edições, uma colagem. O Sérgio acabou virando um super editor e o Laufer também passou a trabalhar digitalmente com colagem de música. Então era dessa forma, esse tipo de colagem visual, e o Serginho mexe nisso, pegando pequenos segundos, frames e etc. e isso foi, isso na verdade chegou até num auge no nosso segundo álbum Império do Sentido, e as colagens dele tinham, enfim, várias dinâmicas, mas chegou numa delas que era muito, muito, muito, muito exigente assim pro olho, tinha que prestar atenção. Então foi mais ou menos isso, era necessário.

Você foi do Leblon e se mudou pra Copacabana. Sem querer rotular muito, mas qual a diferença básica, social e culturalmente falando, entre quem mora no Leblon e quem mora em Copacabana?

Pra quem não mora aqui e não sabe é, a diferença na verdade não é para o Leblon, é uma diferença pra todos os outros bairros. Porque Copacabana, é  historicamente o começo da classe média, começo de zona sul. Então tem todo um arsenal de históricos ou relativa à história do Brasil, a história da república e de movimentos sociais, jovem guarda, tinha a TV Rio ali no final do posto seis etc. Então tem esse lado. Eu gosto de dizer que Copacabana é meio capital humana do Rio de Janeiro por causa da mistura, sempre gosto de repetir que o vale do Jequitinhonha dá beijo na Suécia, porque você tem uma abertura aqui  pro turismo, você tem uma frequência de gente de todo o canto do Brasil e estrangeiros. Então você tem uma exuberância imobiliária e consequentemente demográfica, cultural, histórica, porque hoje em dia você diz que um bairro é um local que está na moda, porque ele tem os seus points e esses points geralmente são juvenis, ligados a uma certa Broadway, vamos colocar dessa forma, musical e artística. Exemplo: a Lapa, foi erguida de uma certa decadência…

Ressuscitaram a Lapa.

Ressuscitaram, digamos assim, e eu to botando a Lapa porque Copacabana acabou sendo tachada de um bairro decadente. Eu costumo dizer que essa decadência na verdade é uma camuflagem, porque ela é um grande point urbano. Você tem Copacabana como um ponto nervoso, urbano do Rio de Janeiro, com características muito próprias e continua sendo um bairro que dá o que pensar. O Rio de Janeiro, Copacabana principalmente, tem uma grande concentração de idosos, então uma das características do nosso tempo é que ninguém ta vivendo mais 70, 80 anos, e consequentemente você tem problemas fisiológicos, físicos, que não tinham tanto antigamente. Então eu to falando que existe uma certa coisa de vanguarda, não é bem a palavra, mas em Copacabana ta relacionada no mínimo a isso. Copacabana tem uma responsabilidade, uma coisa histórica, de ser quase que um guia dentro da zona sul e tem essa diferença, você vai pro Leblon, você vai pra Ipanema, todos tem obviamente as suas características, mas Copacabana é um bairro heterodoxo.

Que lugares você acha que se assemelham a Copacabana? Até você cita isso em algumas canções.

É, exatamente. Porque esse assunto de urbanismo e megas cidades, de aglomeração, de promiscuidade, é uma coisa que me interessa muito e você tem sete bilhões de bonecos na terra, tem gente a beça e tem essas concentrações e os intervalos dentro dessas concentrações que já estão sendo ocupados. O Rio de Janeiro e São Paulo, uma coisa só, através da Via Dutra e do Vale do Paraíba. Claro que em São Paulo isso já ta acontecendo ali, tem o que eles chamam de conurbação, enfim, esse tipo de concentração humana e concentração urbana sempre me interessou e Copacabana definitivamente é um laboratório aberto pra isso. Então acho que esse é o principal.

Quando e como você percebeu que as criações que habitam seu imaginário, que é muito fértil, ganhariam forma, assim, seja como poesia, como manifesto, como rapper, você é um percursor dele no Brasil, como que isso aconteceu?

Você me perguntou primeiro da Farrah Fawcett, eu peguei justamente porque virou um mito avassalador. Me interessava assim como tinha todas as mitologias ligadas como eu falei, mitologias de contos de fadas, mitologias de radiofônicas, etc. então vamos partir pra mitologias televisivas, mitologias digamos rasas, mas que fazem companhia na nossa cabeça todas as mitologias gregas e religiosas. Então parti dali pra falar desse universo das comunicações e isso acabou no final das contas virando a minha monografia, isso foi em 83. Então fui fazendo em quatro, cinco anos esse mesmo texto. Então ao mesmo tempo tinha uma postura, uma visão filosófica do que tava acontecendo e essa imaginação excêntrica de chegar e observar um fato e aumentar e aumentar e perverter, colocar de outra forma, transformar numa história e de preferência acompanhada por música, pra ter uma dinâmica, e por imagem. Enfim, é um ganho e é uma coisa, uma utilidade que ele tem que eu acho legal.

Já nasceu assim?

Foi cara, eu pegava esse manifesto e levava pra salas de aula, etc. e é coisa de decorar, que na verdade ta tendo muita utilidade, porque a idade vai passando e to decorando. Então eu ficava decorando os textos, longas letras, longas histórias, mas começou justamente com um manifesto. Falando dessas mitologias todas porque resumindo eu gosto disso, gosto dos mitos que são jogados pra gente… Da Grécia até o Rebolation, né, vamos usar tudo.

Dito isto, quais eram os seus autores prediletos? Que livros você leu e que discou você ouviu nesse momento?

Henry Miller, Clarice Lispector, Paulo Leminski. Catatau que eu acho sensacional e que vale um parêntezinho, sempre. Claro, um escritor tem que escrever de forma clara e isso contra as experimentações e etc. Bom eu acho que 95, 99% é claro nisso não precisa ficar falando que o cara tem, mas eu sempre tive fascinação pelas burilações, pela coisa plástica e da coisa a palavra como uma coisa mesmo, então isso ai era um negócio que me interessava. As situações do James Joyce, eu achava maravilhosa, não fazia o menor sentido, mas é como você vendo assim as coisas formatando e você imaginando coisas ali. Então isso pra mim, um cara que na verdade gosta de ler, gosta da poesia, ele tem um pouco da patologia né, sofre de “palavrismo”, não tem problema, ele vai e se entrega àquilo ali que vai além do sentido, você ter uma coisa de sabedoria, uma coisa de imagem e uma coisa do jogo das palavras.

Vocês são do mesmo time, né?

É, essa que é a verdade. Definitivamente tinha isso. Então tem o Augusto dos Anjos, entendeu? Então tem uma variedade muito grande, mas principalmente esses caras eu li muito, né, Baudelaire também. Então esses caras todos foram minha base pra eu decolar nas coisas que eu escrevo.

Mas paralelamente havia música também, o que quê você ouvia?

Bom, Rolling Stones, digamos a partir dos 15 anos, mas teve Roberto Carlos, Jovem Guarda, tem uma porção de gente. Mas voltando pro negócio novamente usando a palavra mitologia, então isso lá com 15, 16 anos você se entregava àquelas fantasias, aquele teatro, aquele cinema dos grupos de rock, principalmente no meu caso. Então ouvi Rolling Stones, David Bowie, aquela turma de 72. No caso dos brasileiros os Novos Baianos, o Chico, Caetano… essa turma de 72.

Turma de 72 (Risos)

Até hoje, enfim, acompanho lá, apesar de já virarem o “Frank Sinatra” do rock, os Rolling Stones. Isso ai vai direto também até hoje e testando muito James Brown, Soul, etc. que obviamente essa coisa da batida e da falação é com eles, né.

Batida funk favorece?

Exatamente

Você citou grandes contadores de histórias. A maioria dos discos que esses caras fizeram são discos que tem um conceito. “Cê” se vê nesse time também, de certa forma?

Não totalmente. Esses caras são mestres nisso né? Às vezes são histórias, mas tem rasgos filosóficos no meio, comentários jornalísticos. Então essa colagem dentro da fala que eu acho que é bacana. Toda vez que eu vou pensar no espetáculo, ele é meio temático. Por mais pop que seja ele tem um tema, eu quero falar de certas coisas, então é sempre assim. Este disco, ele é um disco que pegando Copacabana como base, ele fala da urbanidade em geral, no que acontece, quer dizer, no que acontecia, mas acontece ainda. Porque  você ouvindo o disco tem detalhes engraçados, tem informações que são datados, mas o principio ativo é o caos, o urbanismo, a loucura da informação e das comunicações, e ele só aumentou, com internet, etc. Então isso só vai aumentar, tá ganhando outras formas. Então esse disco Copacabana é pra falar de urbanismo, pra falar de sexo, de erotismo e de comunicação né? Tá ali, tá tudo ali. Tudo isso que eu falei tá nesse disco, ele já tá escancarado né?

Vamos fazer um ping-pong. Eu acho que no seu trabalho nós temos os seguintes elementos. Alguns são bem óbvios, mas eu tenho que falar aqui. Cultura pop.

Sim, claro. É uma das bases. Três territórios que você tem que quem trabalhe com cultura vai é esse dos livros, uma cultura humanista, a do que chama de folclórica, que é oral, a desplugada ou a não literária. E essa gigantesca que chamam de pop, que é urbana, publicitária, jornalística, eletrolisada, eletrificada e que contêm as outras. Agora ainda mais com kindles e com livros digitais, nem a humanista vai escapar. O Sérgio fez uma colagem para o disco seguinte que foi um Império dos Sentidos que é o maior filme pornô de todos os tempos. Ele pegou e tirou as pessoas, então é só cu, buceta e piroca

Não tem pessoa? 

Não tem pessoa. E na verdade quando você vê um filme pornográfico você quer ver aquilo ali né? Pra te excitar etc. Então o cara: “não, vamos ao óbvio tira gente dali”. (risos) Entendeu? Não tem aquela piada né? Se não tivesse a buceta não ia passar nem perto. Ai a mulher dizendo: “não, senão tivesse piroca nem falava com vocês”. (risos)

Ele tem esse vídeo ainda? 

Eu acho que ele tem. Acho que ele tem porque usou isso no “Império dos Sentidos” e depois na “Santa Clara Poltergeist”. É sensacional, isso não tem gente pra atrapalhar, é só o básico ali. As genitálias se encontrando, a reprodução e tal. É, exatamente, no nível pornográfico, tão pornográfico que vai no cientifico. (risos) Então não tem como entrar na cabeça das pessoas o tempo todo né? É a pressão da reprodução pervertida pelo ser humano. Foi isso. Então, então pornografia ta certo. Dois a zero.

Erotismo.

É um preâmbulo pra pornografia, no final das contas. Não é uma coisa vulgar. O padroeiro de todas as páginas centrais das revistas masculinas é o Gustave Courbet. Então guardem esse nome, procurem no Google, chama-se Gustave Courbet 1860, 62, sei lá o que. Ele pintou a origem do mundo, que era um close, usando a linguagem de hoje, numa chavasca de uma francesa do século XIX. E é um quadro famoso. Claro que tem outros pintores que registraram poses e mulheres e etc., mas esse camarada tem lá a origem do mundo e quem é que vai negar isso? De lá viemos né? E no nosso caso de homens, pra lá voltamos.

Queremos ir [risos].

Queremos. Apesar de que para reprodução com célula tronca agora ferrou. Aquele negócio de costela de Adão, Dionísio saindo da coxa do Zeus… Erotismo é onipresente. Vou dar um exemplo, já que eu tava falando de coisas cinematográficas e de pintores, então vamos pro Vermeer, um filme que, enfim, teve uma certa popularidade, chama-se “Moça de Brinco de Pérola”. Com a Scarlet Johansson. Tem um momento em que o cara chega e pede pra ela molhar os lábios, e ela molha os lábios. Não tem nada ali de pornográfico, mas aquilo ali é de uma voltagem erótica que não tem pose, não tem “ah vou fazer uma coisa erótica”. Não, molhou os lábios e a desgraçada molha os lábios carnudos. Entendeu? Então é um exemplo de erotismo e é raríssimo na verdade. Assim como a pornografia faz com que até o nível abstrato dos nossos instintos mais baixos se apresentem, você tem do erotismo uma coisa meio sublime, como se você gozasse pra dentro e, pra gozar, você tivesse que ter um injeção. Mas erotismo é isso.

Seres Abissais.

Seres Abissais, os caras adoram monstros né? Então era o Godzilla da série. E tinham os subterrâneos e eram, os seres abissais. Era maravilhoso.

Tecnologia. Você é um cara atento a isso né? E usa isso nas suas letras. 

Isso, isso. Primeiro que tecnologia não é só digital, não é apenas a eletrônica, ela pode ter uma abordagem mais ampla. Então a menina que ta lá, fazendo um tipo de mel não sei onde com certo tipo de instrumento, isso é tecnologia. Como eu falei, aqueles três territórios da cultura, o pop, o humanista e o oral. Reza a lenda, segundo os especialistas, que o mundo já foi Teocêntrico, então religião mandando em todos os aspectos da vida; já foi antropocêntrico, quer dizer, humanista, então nós somos donos dos nossos destinos. Nós podemos modificar nossas vidas e isso era uma fantasia também de uma religião da humanidade como uma religião e ele fala que estamos vivendo um terceiro, os outros dois mais um terceiro aspecto, que é tecno centro. E isso modificou, deu uma atropelada em ideologias em países e religiões.

Passou por cima né?

Passou por cima. Então eles gostam de dizer que estamos vivendo um neurolítico. Estamos pra alguns de uma forma mais incisiva, estamos vivendo  o capitalismo, ainda mais com essas crises financeiras, “ah vai acabar, vai bater”, não. Então eles “não, agora vamos viver o endocapitalismo”, os caras não vão mais, não tão mais preocupados com territórios ou ocupação, eles querem ocupar as pessoas, o interior das pessoas com nanotecnologia, o negócio vai ser outro, de outra categoria. Então nós estamos vivendo esse neurolítico.  A tecnologia é o centro avante desse negócio, esse tipo tecnologia digital.

Acabou o ping pong, tinha mais umas palavras, mas acho que foi suficiente, tinha umas coisas meio obvias demais, não vou entrar nessa aqui. Então, Fausto, logo após você encontrar com Sergio Mekler que hoje faz parte do grupo Chelpa Ferro, depois você acabou encontrando Laufer e na sequência você começou como Laufer a se apresentar aqui na noite carioca, o que foram essas apresentações, o que vocês tocavam, era o inicio do trabalho né, dos Robôs Efêmeros é isso?

Vamos colocar só duas coisinhas rápidas. Na verdade eu já tinha esse nome, Robôs Efêmeros, e já usava ele na PUC. De onde eu tirei, talvez seja uma curiosidade boa aí de dizer. Vamos andando, aí tinha uma livraria ali no centro de Copacabana, chamada Entre Livros, aí enfim, aquele ratinho de livraria sempre, aí tinha uma revista cientifica e tinha uma matéria sobre o professor de design, para arquiteto, engenheiros enfim, e ele pediu pros alunos dele um trabalho para passar de ano sei lá, robôs, “mas eu não quero aqueles robôs, aquelas maquinazonas assim, quero que vocês me apresentem robôs diferentes”, e aí, enfim, tinha um cara que fez um robô que era uma luva de boxe, o outro que fez um inseto e aí ele perguntou: “por que você fez esse inseto?”, aí ele falou “não, é porque os insetos duram pouco e eu queria desenhar esse inseto, queria fazer robôs efêmeros”, então dessa reportagem que eu achei o nome, a expressão do garoto bacana, aí tirei desse nome dessa reportagem. Então como você vê, aquele processo que eu falei de pegar e de fazer, é uma imensa reportagem, gigantesca, aqueles autores todos que eu falei, mas eu esqueci de falar dos caras que são ligados ao rock como Richard Meldser, Hunter Thompson etc. e todos os Jack Ruax. Mas então, o Mekler e o Laufer eu encontrei num curso dado pelo Astrubo, trouxe o trombone que é legal sempre falar deles, porque rock’n roll no Brasil, a partir do Circo Voador etc., eles que foram um grupo de teatro rock’n roll mesmo, uma espécie de Rolling Stones do teatro brasileiro, então teve esse curso, eu encontrei os dois ali, e aí começamos, isso em 81, começamos a fazer a partir de 82, 83, 84, mas principalmente o período de 85, a gente se reunia, eu ia para casa do Laufer e levava as revistas e uns textos e uns rascunhos e ele começava o que se chama de looping, ele fazia um looping ao vivo, ele com uma paciência incrível, mas era bom porque ele também foi aperfeiçoando a dinâmica dele etc. e eu ali, o processo era esse, o Sergio anotando também algumas coisas, ficavam os três ali e eu ia escrevendo e falando porque na verdade, até os livros, as ideias que eu tenho, eu tenho andando e, meus livros não são nada, digamos, conservados, todos tem uma anotação, às vezes arranco a pagina, depois compro outro, não tem problema. Então ele ficava ali tocando, esse looping e eu falando, então a gente fazia esses encontros. No meio de 1986, no Mistura Fina em Ipanema, uma casa que não existe mais, rolou uma espécie de Super Sarau lá com poetas e músicos etc. fazendo apresentações, e a gente foi lá e gostaram do que a gente apresentou, e a gente foi convidado para fazer uma temporada lá. Em junho de 1986 e daí a gente foi, foi frequentado e sendo chamado para aparecer em várias boates e clubes noturnos e casas que ofereciam espaço para gente apresentar, mas era isso, eu, o Laufer e o Sergio, principalmente eu e Laufer na questão musical, ele no looping e eu escrevendo.

Você é locutor, acho que até por uma questão de adequação, você optou pela forma falada, e não cantada exatamente né?

Sim, porque eu não sou um cantor, digamos em termos crassos, você ter alcance de voz, você ter aquela coisa, então voltamos ao radio e voltamos ao teatro…

Fica difícil ver o que você escreve cantado né, eu não consigo enxergar, por exemplo, não é para ser cantado…

É exatamente, isso não é, mas ao mesmo tempo você tem e isso é uma coisa interessante, porque além daquela dinâmica musical com a fala, eu e o Laufer colocamos uma cena de fala e de refrões e de ataques de palavras, que é o básico, o ritmo ali é a base total, realmente é ritming input, então isso é uma coisa mal gamada dos dois ali juntos que criamos uma bolha de ritmo e de falação que é legal, o canto vai num detalhe ou outro de acordo com o alcance que eu tenho, mas é engraçado porque, por exemplo, a Fernanda Abreu que trabalhou com a gente, ela pegou esse ritmo de fala, que realmente é difícil, é uma coisa completamente especifica, ela conseguiu e isso passou obviamente pros discos dela. Isso foi uma coisa que eu achei legal, dá para ter um diálogo desse tipo especifico, é um rap que eu gosto de dizer de Sweep Stake, de amarração de coisa de cavalo, coisa radiofônica e voltando a isso, não eram os negros, o gênero americano, mas rádio e também é coisa de sacerdotes falando, padre, essa falação né, o Brian Eno e o David Benton, disco And Bush of Posts se não me engano, ele tem essas gravações de pastores etc., isso eu adoro.

Do som que ele produz…

Não me interessa realmente o que eles falam porque chega uma hora que você fica dando gargalhada, mas eu gosto da coisa cênica bicho, são até engraçados, são loucos nas suas falações, mas então essa onda. Relaxa.

Acho que você já pode colocar um termo que você mesmo inventou que era: PUC comprado Junior, o que quer dizer isso Fausto, tradução?

Bom, como tem o Fausto com o Fawcett que eu falei brincando com os significados das palavras, em relação à obra do Goethe, do homem que me deu uma água, ou seja, um cânone, uma referencia literária, e o Fawcett que vai de uma cultura pop, a mesma coisa em relação a isso, quer dizer, na verdade, a Prado Junior, a rua das boates, da boemia pesada, isso tem um grande peso na literatura mundial, digamos, esse tipo de ambiente. Então você tem ali lugares de desregramento noturno etc., então na Prado Junior com a base ali no cervante, na chicholina, uma tradição alias, de Copacabana. Tinha falado de outras coisas, mas isso é uma tradição, a tradição boêmica erótica de Copacabana e a PUC obviamente representando estudo, quer dizer, são duas paixões vamos colocar dessa forma, o querer, a curiosidade, o conhecimento, o campus, que você dá uma espécie de Oasis para você ter conhecimento, para você ter conversações intelectualizadas, para paquerar as meninas, então era bacana essa parte daquelas meninas ricas, bacanas, e as outras garotas tão sensacionais quanto das boates. Então esses dois universos e que vão convergir na literatura, são dois universos de informações vastas e importantes, que tem, são duas tradições gigantescas que me interessam. Só que aí você pode botar ainda o Latino ali, junto e misturado, então digamos que tenha isso, o pôquer comprado junto tem esse pique.

Esses pockets todos, então você já tava apresentando “Juliette”, “Santa Clara Poltergeist”, que até acabaria revelando a “Regininha”. Foi aí que começou a coisa a se formatar não foi Fausto?

Primeiro foi “Juliette”, “Kátia Flavia”, “Chinesa Videomaker” que são três musicas pequenas…

Pequenas historias né?

Pequenas historias, então de 15 minutos, apresentava meia-hora, duas num lugar, duas no outro, “Kátia Flavia” acabou virando um hit e a “Santa Clara Poltergeist” e aí tem uma curiosidade, quem viveu na verdade a primeira “Santa Clara Poltergeist” que não aparecia penas de freira, é a irmã da Marisa Monte, a Letícia Monte…

Ela que foi a primeira?

Ela que foi a primeira, mas não tinha nada, inclusive morena, então, mas aí tinha a roupa de freira, era linda…

Como que você descreve para gente, como que vocês montavam?

Não, porque era assim, a gente fez isso num lugar chamado vídeo alguma coisa, agora eu esqueci, ali em Botafogo e tinha um telão, isso na época era uma coisa, dentro de um lugarzinho, um telãozão tomando conta do ambiente, ele já enchia e eu colocava ali imagens da Leilane Neubarth…

Que tem uma legião de fãs né?

Claro e estava ali na Globo News etc. Então tinha aquele telão passando essa ilustração que tem que ter sempre e aí a primeira vez que a gente fez eu chamei a Letícia, que ela já tinha feito algumas coisas com a gente, inclusive naquela época do Mistura Fina né, eu diria na verdade que ela que foi a primeira garota a participar assim com a gente nessa época, teve Patrícia Pillar, teve outras, mas ela foi nessa época especifica, aí ela fez, então eu simplesmente narrava, o Nelson Meireles e o Laufer tocando, o Mekler com as imagens e ela entrava, na verdade falava alguma coisa, era bem pacato, porque era só aquela roupa de freira e tal, mas já tinha um impacto, já era um negócio, digamos esquisito, então essa foi à primeiríssima audição e apresentação do “Santa Clara Poltergeist”.

Você ta mexendo com algo sagrado, que bota uma freira no palco né?

Ah, mas o nosso querido arcebispo conselheiro já disse que a sociedade é pedófila, então já encarou, não tem mais, os caras já estão alucinados, não tem o menor problema, ta tudo ali, deu no jornal essa coisa de sagrado já, agora você fica inventando os sagrados e etc. e tal, religião tá mais como patologia, elogiando as pessoas, mas então o começo de “Santa Clara” foi ali, tinha essa “Juliette”, “Kátia Flavia”, “Chinesa Videomaker”, mas na verdade foi isso, o “Santa Clara” mesmo foi depois do livro, eu escrevi o livro em 1990, em 1992 num shopping aqui, era o shopping dos antiquários, com uma turma maravilhosa, Mario Stockler, Jorge Barrão, Bizerbine, Sergio, os Robôs Efêmeros, o grupo ali era o Marcelo de Alexandre que trabalhava comigo, o Dado Villa Lobos estreando, e o Laufer, a musica “Tetê Tillet”, a “Regininha” aí estreando, aí já naquela quinta marcha, já foi, mas isso foi em 1992, em 1986 foi a Letícia Monte.

Essa visibilidade trouxe para vocês convite para gravar um disco, mas também o Cacá Diegues acabou levando vocês para participar do filme: Um Trem para as Estrelas, fala sobre isso.

Isso, exatamente, na verdade devemos isso, o começo e tudo ao Cacá, porque ele foi ver justamente essa temporadazinha que a gente fez no Mistura Fina em junho de 1986, se não me engano era junho e falou com André Midani que era o Presidente da Warner e que falou com o Liminha, o nosso grande Liminha, e o Liminha estava preparando uma trilha sonora de uma novela que se passava em Copacabana chamada “O Outro”, e aí pegamos a “Kátia Flavia”, fizemos uma versão, diminuiu a letra e ficamos ali, ralando para ver como é que é, porque hoje parece que foi de prima aquilo ali né, mas não, eu, Fernando e Laufer, tentando acertar o vocal dali e aos 47 minutos eu fui lá e enfim, prazos etc., botei daquele jeito que ta na musica e enfim, aí depois foi à trilha sonora, Chacrinha etc. etc. e aconteceu e foram, digamos, seis meses daquele estouro fonográfico, aquela grande performance fonográfica e foi assim que ele chamou a gente para fazer o LP e fazer “Um Trem para as Estrelas” que foi gravado a nossa parte nesse lugar onde nós fizemos o “Santa Clara” etc. e fomos fazer o LP, ele produziu a “Kátia Flavia” primeiro e depois com a banda ele ia direto, som direto o resto do disco.

Como é que foi essa participação no filme, o que vocês faziam exatamente no filme, só entravam tocando?

É, era isso, porque o personagem principal lá do filme, o Ezequiel Neves chamava ele para fazer uma participação, uma performance, e ele era o saxofonista e fazia uma participação na performance da gente. Ele entrava e dava uns ataques ali de saxofone, então era essa a função da gente no filme, tinha o Cazuza também, então foi isso, era uma parte, foi bom, era “Chinesa Videomaker” e ele tocava sax ali, foi dessa forma que a gente participou.

Vamos falar do disco então. Primeira faixa, “Kátia Flavia”, uma pergunta que eu quero fazer para você faz tempo, tem uma citação nessa musica, de uma musica dos Stones né? De quem foi essa ideia?

Foi minha. Nessas reuniões que eu tinha com o Laufer, quando rolou a primeira vez, o começo da musica era assim, do jeito dele, Laufer na reação dele, aí dava uma cortada assim, quando começava falando: “No Taj Mahal, Kátia no Taj Mahal, Flavia no Taj Mahal”, porque o Taj Mahal era o que dava a história, ela morava com um contraventor no Taj Mahal roxo, meio que uma réplica do Taj Mahal, coisa da extravagância suburbana maravilhosa, então essas citações elas aparecem no “Chinesa Videomaker”, tem outra do primeiro disco do Mick Jagger, então digamos que o fundamentalismo Stoniano está presente ali, então é, foi assim.

Você consegue resumir como pintou essa ideia de falar dessa personagem que você criou e como que você conseguiu se interessar e colocar tantos elementos em tão pouco tempo Fausto… quando a gente ouviu “Kátia Flavia”, o primeiro comentário que surgiu é a quantidade de informação e de imagens que você colocou num tempo tão curto, como que você fabricou tudo isso, como que você montou? Se é que dar para explicar.

É, eu gosto na verdade de fazer uma reportagem que é exagerada, extravagante, então o que acontece, foi uma noticia do jornal O Dia que naquela época era um jornal daquele que você espreme e sai sangue, tem a gíria para dizer que tem uma predominância de assuntos policiais etc., então o que acontece? Era noticia de uma loura, chamada Kátia Flavia que numa boate chamada Kiss Me no Irajá, ali perto da Avenida Brasil, foi parar na Delegacia. Eu só não me lembro se ela estava ferida, se ela apanhou, estava morta já, enfim, porque deu em cima dos namorados das outras piranhas lá etc. e o que acontece? Eu gostei do nome dela, gostei da historia e peguei aquilo e aumentei, então coloquei. Você me perguntando como é que dá a mistura, é bom porque aí a gente faz o link com tudo que eu falei, do Leblon pequeno, lendo historia em quadrinho etc. Então eu tinha visto no Tesouro da Juventude uma rainha que desafiou o rei, numa certa época no período medieval, dizendo, “olha aqui, você aumentou demais os impostos e vou fazer um desafio para você, você tem que baixar esses impostos aí porque o pessoal não ta aguentando, o povo não ta aguentando”, aí o cara, “ah não vou baixar nada”, “então eu vou”, “o que você propõe”, “então é o seguinte: eu vou desfilar nua num cavalo e ninguém vai me ver, todo povo vai me respeitar, se acontecer isso você vai baixar os impostos”, e dito e feito, ela foi lá, nua, desfilou por toda cidade e ninguém, ou pelo menos a maioria absoluta, não olhou para ela e o cara teve que abaixar os impostos.

Então vem daí?

Vem daí, então essa imagem dessa história do otário mundial ficou na minha cabeça, eu falei “vou botar aqui”. Então são várias coisas, na maioria sinistras né, pode ser um desabamento, pode ser um acidente… tá dentro daquela velha historia de que um cachorro mordendo uma pessoa não é noticia, mas uma pessoa mordendo um cachorro é noticia. E é só isso, aquela coisa do outro elemento, as coisas são muito niveladas dentro dessas coisas. Tanto faz uma atriz famosa, um míssil, um tipo de armamento, ele fica famoso, AK47 fica tão famoso quanto sei lá, Maitê Proença, então são coisas que são niveladas e viram acontecimentos pop né, tanto faz gente ou coisa, são todos objeto…

Vira mais celebridade, falando na linguagem atual?

O cara que tem uma coisa intelectual e fala e vira um acontecimento, ele vira uma cerebridade, celebridade com cérebro. Então você tem esse nivelamento. O Exocet era um superstar ali na Guerra das Malvinas, era Exocet, Exocet, Exocet, puta, aí vai não apenas por ele ser um superstar, mas a sonoridade do Exocet, então aí entra aquela digamos, poesia explicita, que é o que faz um cara ser chamado de poeta. Porque ele pega ideias dispares e de forma insólita, inusitada, fora do cotidiano do uso normal e aquilo te dá um barato, te dá uma alegria ou faz você ficar pensando. Essa é a função neurológica mesmo, você vê o cara juntou alhos com bugais, ele esbugalhou o malho e eu fiquei assim, então o Exocet, a Godiva, Copacabana…

E calcinha. A palavra calcinha.

Calcinha porque na verdade na historia ela usava calcinhas com armamentos bordados, como ta bem explicito.

E agora a pergunta que fica depois dessa explicação brilhante: o que passa na mente de um poeta quando junta palavras que absolutamente são impossíveis de se associarem, o que passou na mente, é possível dizer isso, como que você foi?

É trabalho árduo, tem essa coisa patológica do trabalho árduo, que você não para na verdade. Como eu falei, entrei na livraria estava acompanhado por todos, estavam todos ali, então tem uma discussão de você estar ligado com essas coisas dispares, porque tem isso, “não, só da para fazer poesia com isso aqui”, em termos de inspiração sei lá, ou de atenção né, e para mim não é. Como eu falei tem essa promiscuidade que é a proliferação das informações vai gerar uma promiscuidade que vai gerar uma chance de você inventar uma conjunção dessa, então esse diálogo já é o diálogo da minha cabeça, do Exocet, do armamento, com Copacabana, com a Godiva e com Irajá, também é outra informação, é o subúrbio, que dentro da musica popular não tava muito bem, digamos, não aparecia muito, subúrbio era um negocio meio assim, e as mulheres também etc.

Se lembra de alguma coisa no teatro nos anos 70, uma pergunta ou algum gancho publicitário que foi pro Irajá, como que era isso, alguém lembra disso?

Ah sim, “Greta Garbo, Quem Diria, acabou no Irajá”. Essa historia era no teatro, era Greta Garbo, mas então tem isso, você tá exposto, você mesmo já ter essa ebulição na cabeça, tá exposto num lugar como Copacabana, um bairro desse que fomenta, numa cidade, exatamente, de estímulos e você ser ligado gostar de prestar atenção no que a mídia tá te mandando.

Copacabana, um acelerador de partículas né?

Exatamente, exatamente.

Agora a musica arrebentou no rádio, fez um sucesso absurdo, foi ou não foi?

Foi, foi, foi.

Como se explica isso, é uma letra extremamente verborrágica, em certos momentos até sofisticada, a pessoa tem que tá muito ligada, é muito rápido o que você vai falando, e ela foi um sucesso estrondoso, a novela impulsionou, mas o que você atribui ela ter sido top 20?

Isso é uma pergunta muito boa, por que é o seguinte: a gente ouve um negócio que me irrita bastante, é quando ele vira um argumento ideológico, capcioso, de que, não, tem que se fazer coisas populares para as pessoas entenderem, como se fosse assim, um pouco de demagogia e um pouco de “vocês são idiotas completos, não vão entender”, então tem duas coisas, primeiro: eu não posso ficar pensando, eu tenho gostar do que eu to fazendo, se eu tenho a firmeza no que eu to fazendo, se eu gosto e tenho certeza daquilo, impossível que alguém não vá ser atingido por essa conexão, e segundo: você colocando essas palavras sem ter que esmiuçar e falar, porque eu não sei exatamente qual é a linguagem da multidão, do povo, ninguém sabe se quando o cara faz uma coisa que eles dizem que é simples, é porque ele ta fazendo o que ele sabe fazer mesmo e aquilo vai comunicar legal, eu acho que isso tem que ser comunicado, essa complexidade dentro do mundo, essas coisas, esse choque de informações que gera uma beleza, eu acho que eu tinha que falar dessa forma. Eu adorava ver as pessoas sem saber o que era Exocet ou a Godiva, estavam curtindo entendeu, então isso me vem o Brian Eno, enfim, o produtor e inglês etc., ele falando: “pô, eu gostava de ver uns quadros, de um certo pintor, e não tinha porque perguntar assim, qual é o significado disso? Eu gostava de olhar e não entendia, não tava preocupado em entender, aquilo já vinha direto para mim”. Então quando aconteceu esse estouro e neguinho gostando do Exocet ou como no “Rio 40 graus”, purgatório, o que é um purgatório? Você com cultura católica tá careca de saber, mas neguinho não sabia o que era purgatório, muita gente, mas gostava de falar o purgatório entendeu, então sem saber gostava de falar Exocet, gostava de falar da Godiva, sem saber da história, como que você conta a história, conta qual é do Exocet, tudo bem, aí acrescenta um plano, então na verdade é o contrario, o que seria uma coisa exotérica e difícil foi direto, porque era tão, “ó, to falando aqui, pau, não to intermediando nada, to falando para vocês isso, derramando dessa forma”, então a forma, um ritmo, como moda, como eu falava, aquilo chegou, comunicou e comunicar às vezes não é sinônimo de explicar e nem esmiuçar, porque na verdade, quando uma pessoa diz assim: “ah, eu preciso ter uma razão para morrer, uma razão para viver, tem que ter uma razão” e aí o Senhor Ancar, escritor desses que eu citei aqui, ele falou: “ah, mas por que tem que ter razão para viver, ficar preocupado com a razão para morrer, porque a gente vive na verdade, com paixões, compulsões, com sentimentos, o que menos leva a gente a viver, é a razão”.

Na sequência veio o disco e você teve alguns problemas com a censura, “Drops de Istambul” e “Chinesa Videomaker” foram censurados, é isso?

É, porque aquele óbvio, sexo e drogas. O cara chupava um drops, no caso o drops de Istambul e tinha visões etc. e a “Chinesa Videomaker” tinha uma coisa de Laranja Mecânica, colocava o cara ali, chupava ele enquanto ele era exposto a uma avalanche de imagens etc., a chupada no drops e a chupada no cara foram censuradas, essas duas coisas, então normal.

O que você teve que fazer, você mudou a letra em função disso?

Não, não, as musicas eram censuradas, mas para não tocar no radio, mas em relação à presença…

Foi proibida a execução?

Foi proibida a execução, mas elas não foram limadas, não foram excluídas do disco…

Da gravação?

Isso.

Faz um resuminho de “Chinesa Videomaker” e um resuminho de “Drops de Istambul”, por favor.

“Drops de Istambul” é uma musica que fazia parte de um show que eu fiz com a Fernanda, na verdade foram dois shows, mais ou menos com a mesma temática, que é uma temática alemã, a história se passava em Berlim, claro que é uma Berlim totalmente Copacabana e é assim, ela chamava-se Natasha Bert Muller, e tinha um trecho da história que tinha uns camelos, um camelo turco, porque turco, tem dois milhões de turcos na Alemanha etc. então ele vendia esses drops né, e com esses drops você tinha visões do Império Otomano…

Eram alucinógenos?

Eram alucinógenos, eram alcalóides, então tem esse refrão, essa frase que eu gosto muito, ela é: “fico num beco qualquer, numa esquina qualquer, come-te vagando, enfim, sentindo meu ego dissolvido na matéria em movimento” que era o refrão, era para falar disso, na verdade toda a história, toda situação, essa coisa a gente dissolveu as personalidades no ambiente, que é outra coisa que me interessa e a “Chinesa Videomaker”, bom, ta aí datado o titulo, videomaker porque na década de 80 era o up to date, era o último grito, tipo, era vídeo, clipes etc.

Isso, fulano ou a fulana eram videomakers né?

Agora são youtubers né, mas é mais ou menos assim, então você tem essa onda, era para falar justamente dessa gana por registro, quantas vezes o mundo é registrado, catalogado, isso só aumentou com Internet etc., então era para falar disso e de uma, de um lado de violência, porque ela foi assassinada, naquela época já chamavam de Neo Madonna, jogam ela do Oton Palace e ela vai caindo, tem pupilas de vinil e tal, mas o assunto era esse, essa avalanche de imagens e que, enfim, essa chinesa era uma voraz por registro de imagem.

Tem também aqui no disco, alem de “Kátia Flavia”, tem “Tânia Miriam”.

“Tânia Miriam”, era uma grafiteira e que incendiava Thundercats né, é isso, tem de novo, o protótipo na veia direto, tinha um isqueiro em formato de sereia incendiando Thundercats, mas era isso, era uma grafiteira e que ficava aprontando pelas noites do bairro, é isso.

Tem a “Gueixa Vadia”, tem esse promo que eu trouxe para lembrar, que a gravadora fazia na época e mandavam para rádio, às vezes mandavam, mas às vezes mandavam esses promos. Uma musica de cada lado, no caso desse da Warner que economizava dinheiro, ela fazia o seguinte, a musica do Fausto “Gueixa Vadia” que abre o disco de um lado e do outro você tinha “Inocentes e Gueto”, era para economizar grana.

É isso aí, exatamente. Era um combo, como se diz hoje…

Vamos falar então da “Gueixa Vadia”, é o tema que abre o disco.

É, e aí entra na verdade uma outra fascinação, um outro material digamos assim, oriental, asiática, de olho puxado. E agora ta chegando junto, ficam falando dos filhos únicos da China, mas agora quando eles precisam exportar tudo, então arrumaram uma função agora pras meninas, que eram colocadas em segundo plano na sociedade chinesa, vão exportar chinesas, agora para ficar direitinho, então o que acontece, essa “Gueixa Vadia” é para falar também das meninas de programa etc. e de um cientista que, na historia original, ele ganha uma grana, tem um canhão né, que com essas pesquisas de mudança de engenharia molecular, eu gosto sempre de exagerar, eu gosto muito desse negocio do cara chegar e é o vidro mexendo na tabela periódica, completamente, nas propriedades dos elementos, então era chumbo virou pano. Então é uma mistura de Monteiro Lobato com O Alquimista, entra tudo ali, então gosto disso. Então o que tinha? Tinha umas calcinhas, era um canhão de calcinhas, um canhão de lingeries, que lançava as calças, essa lingerie e ela se transformava em coisas antipoluentes, tinha uma coisa dessa, então ele ganhava um bico, tinha canhões espalhados pelo terraço, canhões de lingerie, exatamente, para tirar a poluição etc. e ele encontra essa menina, era taxi girls né, entra no apartamento, dá o que hoje se chama Boa Noite Cinderela, deu uma Elza nele etc. ele ficou fascinado por aquela budista tenérea, “Gueixa Vadia” e ela enfim, deixa ele liso, rouba etc. Enfim, então fala disso, fala dessas meninas e desses cientistas, mas a ciência de uma forma banalizada, que é o que ta acontecendo hoje, tecnologia mesmo cagada enfim, Nobéis negativos, Nobéis positivos né, e as taxi girls, as meninas se juntando, então é isso.

Falar então por último de mais uma personagem ilustre de Fausto Fawcett e Robôs Efêmeros, “Juliette”, quem é Juliette?

Bom, querida Juliette, como ta na letra, ela é a filha bastarda do carrossel holandês, então outro material que eu adoro que era a seleção holandesa de 1974…

Tinha alguém especificamente do time?

Não, ninguém sabe quem era o pai dessa ninfeta Botticelli, então ela tinha roubado uma holografia de Julio Iglesias de um museu espanhol etc. estava sendo perseguida pela Polícia e começa a música com um Iate enfim, com mulatos do Sargentele que naufraga em meio a uma ressaca, então você tem uma ressaca de mulatas de, assim na praia e caindo, aquela coisa maravilhosa e ela ta nesse ambiente todo, escapa da Polícia etc. etc. acaba sendo morta, mas a morte mesmo da musica é essa, quem é o pai dessa ninfeta Botticelli, será o Suurbier, será o Van Basten, será o Van Hanegem, será o Rapy, o Croiff, ou o goleiro Joung Blood né, então tinha a filha bastarda do Carrossel Holandês, então como se vê toda essa overdose de informação o tempo todo, mas dessa forma divertida e enfim, da uma comunicação bacana.

Faltou falar uma coisa sobre seu trabalho, que é as imagens. Seu trabalho é extremamente visual, pupilas de vinil. Na faixa “O Rap D’anne Stark”, tem a expressão “olhos rútilos”, que o nosso querido Nelson Rodrigues usava quase que sempre, ou seja, ele é um dos seus mestres também?

Também, também, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, rapaziada que bota o dedo na ferida.

Ou seja, tem um componente visual muito forte, isso também foi furto de muita ralação, de desenvolvimento ou já apareceu assim? Você já escreve pensando na imagem?

Não, eu escrevo pensando na imagem, na verdade são as duas coisas. Você vai ralando, você vai experimentando aquilo, vai falando, mas bem com a imagem. Você vê que eu conversando aqui eu falei de um pintor, falei de uma cena de cinema, às vezes começa realmente com a imagem e como eu falei, você tem três elementos para uma coisa funcionar na literatura, é uma coisa de sabedoria filosófica, que vai te dar um livro, pra uma coisa do jogo das palavras, que são os trocadilhos, que são as metáforas etc., a conjugação de coisas dispares, de palavras, e as imagens, assim, o cinemão, é o verbo, a música do verbo cinematográfico, esse que é o barato, então geralmente começa com uma imagem, às vezes só a descrição daquela imagem ela já tem alguma coisa prática, então tem um surrealismo pop aí que é o mote de tudo, entendeu, então estamos aí.

Para finalizar, o que você acha do Fausto Fawcett dos Robôs Efêmeros hoje, acha que esse disco representa bem a sua obra?

Representa, representa totalmente, como eu falei isso aqui é o ponto de partida e ao mesmo tempo é um ponto de chegada, desde 1977, assim, particularmente quando eu fiz o Paulo no manifesto etc., então quando aconteceu em 1987, digamos, já tava uns 10 anos, metade sozinho e metade com Laufer, com Serginho que realmente são os grandes parceiros assim de afinidades, e também o Nelson Meireles que fez parte disso no começo, o José Tomas Brum, enfim, toda essa rapaziada, os irmãos Lobato, Pedrinho e Leão, sensacional todos eles, e acho que mostra, assim, o trabalho como ponto de chegada e ponto de partida, perfeito, tranquilo.