Emílio Santiago | AQUARELA BRASILEIRA | Som Livre, 1988

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Emílio Santiago, nascido no Rio em 1946, estudava Direito quando foi inscrito, pelos colegas, em um concurso de música, em 1972. A essa primeira vitória se seguiriam as de 1982 no MPB Shell (primeiro lugar, com “Pelo amor de Deus” e a de 1985, no Festival dos Festivais (melhor intérprete, com “Elis, Elis”). No meio tempo, foi crooner na banda de Ed Lincoln, gravou o primeiro compacto (com “Saravá nega”) em 1973 e o primeiro LP (Emílio Santiago, CID) em 1975.
Embora tivesse o reconhecimento dos músicos e do público, o grande sucesso começou com Aquarela Brasileira, projeto de Roberto Menescal enfileirando clássicos da canção brasileira. Depois de 7 edições e de muitos discos de platina e ouro, Emílio desenvolveu projetos bem sucedidos cantando Bossa Nova, Samba, o repertório de Dick Farney e parcerias com João Donato. A carreira brilhante foi abreviada por um AVC em março de 2013, pouco antes de sua participação no Som do Vinil ir ao ar.

 

tiraemilio

FAIXAS

KIZOMBA, A FESTA DA RAÇA
100 ANOS DE LIBERDADE, REALIDADE OU ILUSÃO?
LENDA CARIOCA, OS SONHOS DO VICE-REI
Rodolpho, Jonas, Luiz Carlos da Vila
Hélio Turco, Jurandir, Alvinho
Neném, Mauro Silva, Isaac, Luizinho, Carlinhos Madureira
VOCÊ É LINDA
COISAS DO CORAÇÃO
Caetano Veloso
Eduardo Lage, Paulo Sérgio Valle
ANOS DOURADOS
EU SEI QUE VOU TE AMAR
Tom Jobim
Tom Jobim e Vinícius de Moraes
AQUARELA DO BRASIL
BYE BYE, BRASIL
Ary Barroso
Chico Buarque e Roberto Menescal
MINHA RAINHA
RETALHOS DE CEIM
SUFOCO
ALVORECER
Lourenço, Rita Ribeiro
Benito Di Paula
Chico da Silva, Antônio José
Délcio Carvalho, Ivone Lara
NADA POR MIM
FULLGÁS
Paula Toller e Herbert Vianna
Marina e Antônio Cícero
EU E BRISA
PRA VOCÊ
Johnny Alf
Silvio Cesar
RONDA
SAMPA
Paulo Vanzolini
Caetano Veloso

FICHA TÉCNICA

Violão
ROBERTO MENESCAL
Arrajos
LUIZ AVELLAR, ROBERTO MENESCAL
Baixo
JACARE
Bateria
RUBINHO
Teclados
LUIZ AVELLAR
Percussão
BARNEY
Produção
ROBERTO MENESCAL
Gravação
MARCIO MENESCAL

Emílio Santiago

Faz muito tempo que a gente se conhece e você goza de um prestígio enorme. Não somente ao seu público, mas também em toda a classe artística. E falo assim, com toda a segurança que entre nós músicos, produtores, todo mundo, você é considerado um dos maiores cantores da sua geração. A pergunta é: Como e quando apareceu essa história de cantar?

Isso é uma responsa, né, chegar a ser um dos maiores cantores da minha geração é um caso sério. Assim, eu comecei a cantar cara, eu acho que já em criança, na minha adolescência, na minha juventude eu já tinha um gosto assim, pela música. Quer dizer, eu cantava, ouvia muito rádio, porque naquela época era rádio… aí a gente escutava música pra caramba, as músicas todas e isso já ia assim, de Nelson Gonçalves, de Orlando Dias, de Cauby Peixoto, Vicente Celestino, Silvio Caldas, Dalva de Oliveira, Ângela Maria. Quer dizer, essa era a música que a gente ouvia. Eu cresci ouvindo, exatamente esses cantores e essa música que eles faziam. E aí não sei, eu acho que todo mundo pode cantar, acho que todo mundo canta. Mas em algumas pessoas se transforma num dom. Então eu acho que tenho esse dom. Minha mãe falava que eu sempre cantarolava  muito em casa, cantarolava muito no banheiro, nos banhos. Enfim, acompanhava as músicas do rádio sempre, direto. Eu cresci me ligando cada vez mais em música nos rádios, enfim. Eu tenho uma formação musical, um conhecimento musical muito grande. Eu acho que quem sabe muito mais de música brasileira do que eu, pode ser duas pessoas só. Caetano Veloso e Joyce.

E Joyce?

Joyce. Conhece música pra caramba. Ela é uma enciclopédia. Quando eu tenho alguma dúvida. Qualquer dúvida que você tiver de música, corre pra ela e pergunta. E Caetano, também, Caetano sabe música pra caramba! Outra enciclopédia. Eu acho que na minha frente só tem esses dois de bom.

Mas voltando um pouquinho lá pra trás ainda. Além dessas pessoas que você citou, que você ouvia no rádio. Tem alguma referência específica, assim, alguém que você pense que foi uma referência. Um cantor ou uma cantora que você tomou como referencial principal?

Olha, tinha uma ala, assim, que era mais interessante. Tinha uma ala tipo Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf, que eram pessoas, cantores que já faziam uma música mais avançada e que vinham já das noites cariocas fazendo esse movimento musical até João Gilberto. João Gilberto chegou pra completar exatamente aquele movimento que tinha começado um pouco antes. Principalmente com Johnny Alf que eu acho que é o grande músico que deu aqueles acordes dissonantes, aquelas harmonias complicadas. E que todos iam pra lá, pra boate Plaza ouvi-lo cantar e fazer. Então eu acho que eu consegui assimilar, exatamente, todas essas transformações musicais. Acredito que eu trago um pouco de todas essas gerações, desses movimentos musicais, que eu consigo ter um pouco disso. Eu acho até que seja por isso que o João Gilberto gosta de mim, porque ele entende exatamente a maneira como eu canto. Ele sabe que eu trago no meu canto essa série de informações.

Interessante, porque ouvindo a tua resposta, são cantores com uma potência vocal enorme. Que é o seu caso. 

Cauby Peixoto pra mim é uma glória.

E do outro lado os cantores modernos, que cantam suingue, baixinho, às vezes quase sussurra. São os dois extremos, né? E exatamente, eu acho que uma das coisas pelas quais as pessoas gostam tanto de ver você cantar é que você vai de um extremo ou outro de um gênero ao outro fácil…

É verdade. Eu outro dia estava conversando com o Menescal sobre isso, aí o Menescal me falou assim: “Emílio, você sabe por que que os cantores da Bossa Nova cantavam tudo baixinho? Porque a gente se reunia no apartamento de madrugada. Aí os vizinhos começavam a reclamar que a gente estava fazendo muito barulho e um som muito alto.” Isso foi uma das explicações que o Menescal me deu. Evidentemente que eu não consigo, assim, cantar tão baixinho. Mas acho que eu adquiri uma maneira de interpretar. Eu acho que o cantor, o intérprete, ele tem por obrigação, saber entender a letra, entender de que maneira ele pode passar aquela mensagem que a letra diz. Então eu acho que esse é um exercício do dia a dia, de cada vez que você sobe no palco, porque cada dia que você sobe no palco, você encontra uma plateia diferente. E como eu cantei a noite muitos anos, então eu sinto essa energia. Eu cantei na noite muito tempo, as pessoas assim, em volta da gente. Sugando a gente naquelas canções românticas. Porque era tudo muito romântico. Então isso pra mim foi uma escola, cara. Quando você sobe no palco, você já sente, você já olha pras pessoas, você já sabe qual é, entendeu? Então isso pra interpretação é deslumbrante. Isso pra mim como cantor, é fantástico.

É como se você fosse um ator também.

Eu acho que o cantor é meio isso. Você vê Bethania, é uma atriz cantando.

Mais lá atrás enquanto a sua carreira não tinha dado o start ainda, você até chegou a estudar direito, foi isso? 

Fiz direito. Você sabe que eu comecei a cantar profissionalmente por acaso. Eu em 1970 fiz um vestibular pra Faculdade Nacional do Direito aqui no Rio de Janeiro. E os anos setenta eram recheados de festivais de música estudantil. Toda faculdade tinha o seu festival. Rolava festival estudantil de música em tudo quanto era canto. E lá na faculdade, o CACO fazia o seu festival anual. Como o CACO era, politicamente, um centro acadêmico muito forte, com uma representação muito forte, então ele conseguia levar pro seu corpo de jurados quando fazia o seu festival, grandes nomes da música brasileira. E eu fui inscrito sem eu saber nesse festival. Porque alguns colegas meus me viram cantando no cursinho pré-vestibular, nos intervalos a gente mandava ver, cantavam, pegavam o violão. E essa turma não esqueceu disso. Então quando passamos pra faculdade, que eles souberam que tinha um festival, eles foram lá, escondidos e me inscreveram lá pra cantar. E aí um cara foi me buscar na sala. – “Emílio Santiago?” – “Sou eu”. – “Comparecer ao centro acadêmico”. Eu falei: “pô, centro acadêmico? Será que eu fiz alguma coisa?” Eu cheguei lá: “não, porque você está inscrito aqui no festival de música e nós queremos saber que música você vai cantar.” Eu falei: “mas eu não sei nem se eu estava inscrito. Quem foi que falou isso, que eu estou inscrito? Eu não me inscrevi em nada”. Aí apareceram os caras que me inscreveram. Aí perguntaram, cadê a música? Não tem música e aí? Como é que pode inscrever um cara que não tem música pra cantar! Aí foram lá, eu sei que fizeram umas duas músicas. Sei lá fizeram umas músicas que eu nem lembro. Eu fico tão triste com isso, porque eu não tenho nenhuma gravação dessas…E o corpo de jurados era assim: eu me lembro que tinha Taiguara, tinha Marlene, tinha Beth Carvalho, tinha José Messias, tinha Marcos e Paulo Sérgio Valle. Aí subi, foi legal, as pessoas me viram lá. E aí quando eu desci, aí eles já correram… “- Pô, você tem que cantar, tem que continuar a carreira, não sei o quê”. Eu queria ir pro Itamarati, queria ser diplomata. Aí começaram a buzinar. “- Não, porque você tem que cantar mais, tem que fazer programa, não pode desperdiçar isso, não sei o que” Aí começaram a me pressionar demais. E aí, então, eu fui fazer um programa que tinha na antiga TV Rio. O José Messias tinha um programa lá, todo dia, três, quatro horas da tarde e ele estava no corpo de jurados, então ele falou assim: “não, eu quero você no programa pra você cantar uma música. Você é bom pra caramba, você vai ter que cantar lá.” Aí eu fui cantar. Aí dali nego começou a me ver ali e já me convidar pra outros programas, enfim. Mas tudo de uma maneira muito amadora, porque eu trabalhava de dia.

Trabalhava no quê?

Eu era de um departamento pessoal de uma revendedora de automóveis. E eu trabalhava de dia e estudava de noite na faculdade. E aí começou aquele rolo na minha cabeça, as pessoas me pressionando muito pra cantar. Aí tinha um pianista, Anselmo Mazzoni, que me ajudava muito. Anselmo me ajudou bastante. “- Não você tem que ter experiência. Vou levar você pra cantar aí nos buracos, nos inferninhos!” Aí lá fui eu. Até que um dia eu soube que o Flávio Cavalcanti estava fazendo um concurso de cantores novos. E o programa dele é aos domingos em rede nacional pela TV Tupi, no Rio de Janeiro. Os testes eram feitos lá na Urca. Ele tinha um escritório e era feito na garagem dele. E aí eu fui lá fazer esse teste e fui aprovado na hora. Eu me lembro que quem fez esse teste foi, exatamente, o Anselmo Mazzoni e a Carminha Mascarenhas. E eles fizeram esse teste e já me classificaram pra cantar no próximo domingo. Então, aí, assim, Charles, eu acho que a minha carreira, ela começa nacionalmente a partir desse dia em que fui cantar no programa do Flávio Cavalcanti, que o Brasil inteiro viu.

O que que você cantou?

Olha, se eu me lembro bem era uma música de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. Eu comecei exatamente com essa música nesse concurso. E aí já era MPB, já começa por aí, né?

Já começou bem.

Já comecei por aí, cara. Aí nego já ficou atento, já começou a se ligar em mim, querendo saber qual era, por onde eu andava. Aí começaram a surgir os convites enquanto o concurso do Flávio rolava. Aí eu fui pro final do concurso no Teatro Municipal. Mas nesse intervalo eu fazia bailes com a orquestra do maestro Formiga, que é um músico do Teatro Municipal. E também fiz muitos bailes com Ed Lincoln…

Tocar na noite com Ed Lincoln, na noite áurea do Rio de Janeiro. Clubes incríveis pra você tocar com público bacana e músicos de primeiro time. Você teve uma escola boa, né?

O Ed Lincoln teve uma fase interessante, porque o Durval [Ferreira] me viu cantar lá no programa do Flávio e ele ligou imediatamente para o programa do Flávio e disse assim: “Olha, esse cantor aí, ganhando ou perdendo eu quero ele pra minha gravadora.” E a gravadora era a CID. Aonde eu fui fazer o meu primeiro disco, o tal do Bananeira.

Mas quando, Emílio, Durval Ferreira te nota ali no programa do Flávio Cavalcanti. Vou trabalhar com esse cara. Você vai pra CID, pra gravar seu primeiro LP. E muita gente, antes da gente pesquisar a fundo tua carreira, achava que esse aqui era o seu primeiro LP. E ele é, mas a capa não é essa, você já falou. Essa segunda capa é uma reedição. Porém, antes dele tem curiosidades que você trouxe aqui, sua primeira gravação de fato, mesmo, nos estúdios. Você trouxe, é do seu acervo. 

Esse é um compacto simples. O Durval me levou pra CID logo após o Flávio Cavalcanti, mas ele achava que eu não tinha experiência, não tinha estrada ainda, não tinha por que gravar ainda um disco. E rolava nos anos setenta, uma coisa que era os cantores brasileiros mudavam de nome e cantavam músicas estrangeiras, porque o que dominava o mercado brasileiro na época eram as músicas estrangeiras. Então, quer dizer, toda gravadora tinha um cantor que cantava um repertório internacional. Porque talvez não tivessem conseguido autorizações pra lançar os originais, então buscavam os cantores que soubessem cantar em inglês pra gravar esse repertório de sucesso daquele momento. E o Durval, então, me fez gravar esse compacto simples com o nome de Ted.

(rindo) Você estreou como Ted.

Ted. E eu cantei “Summer Holiday”, clássico da época. E do outro lado tinha, “To beautiful to Last”, que era um mela cueca, de um cantor canadense muito tocado na época. Então esse, na verdade, é minha primeira gravação.

Essa preciosidade aqui inédita, não sabia até agora. Aqui tua primeira gravação. Aconteceu alguma coisa aqui com esse compacto? Tocou, não tocou, fez sucesso?

Tocou pra caramba, vendeu muito, porque era uma música de sucesso do momento. E era uma voz diferente que eles pensaram que era americano, realmente. E eu em casa, assim, gente o que que eu faço? Não posso falar nada, mas eu não podia falar o que era, entendeu? Mas era muito engraçado, uma experiência muito interessante.

Como é que você veio daqui pra cá? O que que aconteceu aqui é uma gravadora CID, aqui é Polydor…

Aí eu fui trabalhar com o Ed Lincoln e o Durval era diretor musical. E a Polydor tinha um selo mais popular. Então me convidaram pra fazer um disco. Aí gravei esse compacto. Nesse disco aqui foi interessante, porque as rádios tipo JB, Tamoio, que eram as rádios mais voltadas pra esse segmento musical, elas aderiram na hora. “Saravá nega” tocava 500 vezes na JB. Enfim, e eu ficava feliz da vida com esse compacto. Esse compacto é maravilhoso. Então esse é um compacto, assim, pra mim que eu tenho o maior carinho. É o único que eu tenho, eu vou pegar ele e vou mandar botar num quadro.

Esse disco é incrível, porque a gente, quem conhece bem assim, por exemplo, o que os Djs gostam de tocar na noite e tem o segmento da música brasileira, que vai muito bem, hoje, na noite das grandes capitais. Enfim, tem várias faixas aqui nesse disco que circula pela mão desses DJs. Fala um pouco desse trabalho.

É verdade. Esse trabalho é um trabalho que eu tenho a maior saudade, foi o meu primeiro disco. Acho que estava começando tudo aí pra mim, assim, como cantor mesmo. Foi com esse disco que, realmente, eu consegui receber o aval. O aval principalmente da classe de músicos. Você vê aí a galera que tá tocando aqui, alguns nem estão mais por aqui, mas era um time de músicos excelentes, é um disco maravilhoso. Eu até hoje quando eu escuto, eu penso que eu acabei de gravá-lo assim, três dias antes. Tal a sonoridade, tal o suingue. Tem João Donato, tem Marcos Valle, tem Ivan Lins tocando. Todo mundo tocando aí, uma série de músicos maravilhosos.

Tem “Bananeira”?

Eu lancei “Bananeira”. “Bananeira” estava no estúdio, e aí o Durval falou assim: “Emílio, tu não vai pedir nenhuma música pro Durval e pro João Donato?” Eu falei: “mas eu pedir? Pô, como é que eu vou pedir a esse cara, no meu primeiro disco, vou pedir alguma coisa pro João Donato?” Aí ele falou assim: “Donato, o Emílio quer te pedir um negócio.” Aí ele: “pedir, tá legal”. “Donato tu não tem alguma música pra mim?” Ele disse: “eu não sei, eu tenho que ver, porque eu deixei uma porção de músicas com o Gilberto Gil. E aí eu tô até pra ir pra casa dele hoje à noite e se tiver alguma coisa eu trago amanhã pra você ouvir”. Aí ele trouxe no dia seguinte, trouxe a música. Ele trouxe “Bananeira”. E ele mostrou e eu fiquei olhando pra cara do Durval e falei assim: “Não to entendendo nada, cara”. Aí o Durval falou assim: “se eu fosse você eu gravava, porque isso vai ser a música marcante na sua vida”. Isso é um momento histórico. É a primeira composição da dupla Gilberto Gil e Donato, então, você grava. “Mas e a letra, o que que é a letra?” “A letra é uma brincadeira, Emílio, a letra é uma diversão. O que importa é o seu suingue e a composição dos dois. Grave que daqui a alguns anos você vai ver o que vai acontecer”. E foi exatamente assim que eu gravei “Bananeira”.

E ele estava certo.

Exatamente, certíssimo. E ela se transformou assim, uma coisa mundial, né?

É um cult de vários mercados, não só aqui no Brasil, mas Japão…

O Ed Motta, uma época ele falou pra mim: “pô, estava em Londres quando falam do seu disco, nego disputa ele a tapa. Cara, no câmbio negro custa não sei quantas libras…” Eu fiquei encantado com isso e alguns DJs que vieram ao Brasil quiseram me conhecer também, por causa disso, mas eu acho muito legal. Eu fico muito agradecido, inclusive a Joyce. Porque a Joyce foi uma das primeiras cantoras a participar de movimento em Londres dessa coisa cult de música brasileira. Logo no início, ela se juntou com alguns djs ingleses…

Ela entendeu rápido.

Entendeu rápido. E trouxe alguns pra cá, pra tocar com ela nos shows dela, inclusive. E vários deles quando vinham abriam todo o off set deles com “Bananeira”. Eu acho isso excelente. E esse disco pra mim é marcante, é importantíssimo pra minha vida toda. Eu acho que todos os discos que vieram depois, eu tenho que agradecer muito a esse primeiro.

Gravado esse primoroso primeiro LP, músicas incríveis que estão nas playlists até hoje, aí você é convidado pra fazer parte do cast de uma gravadora muito importante pra música brasileira, principalmente se a gente está pensando nos anos setenta, que é Phillips.

É verdade. Eu ouvi dizer assim: “olha, você fica de olho que Menescal vai te buscar pra você fazer parte do cast da Phillips”. Realmente aconteceu no ano seguinte. Um ano depois do disco lançado o Menescal me chamou e me contratou pra fazer parte do cast da Phillips, que tinha os maiores nomes da música brasileira, e eu fiquei muito contente. E é legal, porque você começa, então, uma história de vida, de vida profissional, de vida discográfica. Só na Phillips foram onze discos que eu fiz.

Várias coletâneas.

E eram Lps. Só se falavam em Lps naquela época. Ali foi uma coisa interessante pra mim, porque eu via em determinados momentos que eles não exigiam de mim que eu vendesse quinhentos, oitocentos milhões de discos. Quer dizer, isso nos primeiros momentos. Mas aí eu comecei a me consolidar, quer dizer, a minha carreira começou ficar mais forte, mais firme. Eu comecei a ser um cantor brasileiro mais aceito, mais conceituado. Então, a minha carreira eu pude ir levando e fazendo um repertório de música popular brasileira maravilhoso. Esses onze discos da Phillips são perfeitos. Eu acho que eles mereciam ser revisitados, relançados, reeditados, enfim, porque é uma história, viu?

Desse período da Phillips que a gente está falando agora. Vamos tentar alguns momentos importantes desses discos. Sucessos que você alcançou, momentos que te marcaram, assim, artísticos, também. 

Existe um fato muito interessante na minha entrada na Phillips. Logo de entrada eu gravei três discos seguidos. Gravei Brasileiríssimas, que vinte anos depois eu fiz um outro trabalho com o Menescal, baseado mais ou menos um pouco nisso. E fiz esse disco lindíssimo, que se chama Feito para Ouvir. Brasileiríssima, Feito para Ouvir e o Comigo é Assim foram os meus três primeiros discos na Phillips. E eu acho que a Phillips é assim, ela é importantíssima na minha discografia. Às vezes eu digo que eu posso contar minha história discográfica antes e depois das Aquarelas. Mas antes das Aquarelas eu tenho que lembrar do meu período na Phillips.

Essa fase era um tempo que você teve pra desenvolver o que você queria fazer.

É verdade.Tive produtores maravilhosos. Eu agradeço muito ao Sérgio Carvalho, que foi um produtor que ficou comigo praticamente quase todos os onze Lps que eu fiz lá. E o Sérgio, ele tinha uma afinidade musical comigo muito grande. A melhor coisa que você tem pra trabalhar com produtor musical é quando você tem afinidade, quando você sabe que o cara tem o mesmo gosto musical que você. Isso acontece agora  com o Zé Milton que é o meu produtor dos meus mais recentes trabalhos. Mas é fundamental que você tenha essa afinidade com o produtor musical. Nesses anos que eu fiquei na Phillips, na Polygram, o Sérgio Carvalho foi legal comigo pra caramba, porque a gente corria atrás de músicas, assim, de Edu Lobo, Chico Buarque. E a gente corria atrás mesmo. A gente tinha que correr atrás.

Ia lá. Pedir material.

Exatamente, pedir material. Os caras mandavam correr atrás, telefonavam. Esperava os caras duas, três horas, quatro horas com gravador na mão, uma coisa assim. E a gente ia fazendo nosso repertório. Era muito legal. É uma coisa meio artesanal, porque você tinha que correr atrás. Pô, será que fulano mandou minha música? Cara, que pena, quero tanto gravar uma música dele! Isso tá tudo documentado aí. Cada música que eu vejo aí, eu me lembro de várias histórias maravilhosas. Esse Feito para Ouvir, ele tem uns arranjos tocados por Laércio de Freitas, que é um músico, maestro que trabalhou comigo na boate Flag nos anos setenta. Excepcional, maravilhoso. Então ele fez comigo esse disco, Feito para Ouvir, que tem como produtor o Roberto Santana, que também foi um dos meu empresários e tudo. Quer dizer, todos têm um pouco de história.

Time bom, né?

Time bom. Repertório maravilhoso, músicos fantásticos. E era assim, meus discos eram feitos dessa forma.

Interessante você estar falando isso, porque você falou que você tocou com Laerte de Freitas na noite, o que que você aprende na noite que te ajuda aqui na hora de gravar um disco, de selecionar repertório. A noite é uma das melhores escolas pra nós músicos, né? Mas o que que isso te ajuda quando você tem que fazer um disco?

O Laércio de Freitas, por exemplo, foi um músico, um maestro que nós trabalhamos juntos durante um ou dois anos na boate Flag. E eu estava começando como cantor. E aí você vai, crente que está abafando e você não sabe de nada. Laércio foi um professor fantástico! Ele me exercitava mesmo, ele fazia acordes dissonantes. Ele modulava dois, três tons, voltava pro primeiro e virava pro segundo e fazia eu entrar nas músicas. Então, eu devo ao Laércio exatamente toda essa certeza que eu tenho. Eu não tenho medo absolutamente de nenhum arranjo, porque eu aprendi tudo com o Laércio de Freitas. Eu não tenho medo de orquestra sinfônica, eu não tenho medo de nada. Eu aprendi a cantar em arranjos com Laércio de Freitas. Ele fazia comigo coisas incríveis nas músicas no Flag. E foi com ele que eu aprendi, exatamente essa coisa de descobrir as notas antes da nota chegar a você. Ele fazia coisas terríveis comigo! Tinha música que eu acaba exausto!

Terrivelmente boas!

Exatamente. E realmente, foi ele com quem eu aprendi exatamente todo esse comportamento. Esse comportamento cênico, essa coisa de entender o que que a pessoa tá olhando pra você, o que que ela tá sentindo, o que que ela tá querendo que você cante. Só no olhar eu já sabia o que que as pessoas queriam que eu cantasse, entendeu? E essa coisa de chegar e encontrar uma orquestra sinfônica com quinhentos músicos atrás. Isso eu tiro de letra!

Você encara?

Eu encaro numa boa, maravilhoso. Eu aprendi tudo com Laércio. Porque o Laércio é um maestro e o piano dele era uma orquestra sinfônica.

Eu acho que isso tem tudo a ver, porque quando a gente pega esses discos e tem mais um que eu queria que você pegasse ali pra gente botar. É aquele que a gente falou lá atrás, que você faz um passeio pela soul music. Porque ele é muito cult e eu acho que vale a pena a gente mostrar todos aqui

Na verdade eu comecei a namorar com o soul nesse disco. Menescal me chamou um dia na sala dele e falou assim: “Emílio, eu quero que você participe do Festival MPB Shell”, uma coisa assim. “E eu queria que você cantasse um samba”. Eu falei: “samba, Menescal?” Aí ele disse: “é, eu quero que você cante um samba”. Aí me mostrou o samba. Mas eu fui muito sincero com ele: “olha, eu não to sentindo aí uma maneira de levar isso pro Maracanazinho pra cantar. Eu naõ sei, eu não tô sentindo nada assim, que eu possa fazer”. Aí eu me lembrei de uma coisa. No momento existia muito uma coisa de se fazer samba-funk. Aí eu falei: “eu posso, se você me permitisse, eu poderia levar esse samba pro Lincoln Olivetti?” Aí ele: “Lincoln Olivetti?” Porque o samba tinha sido me apresentado com cavaquinho, com pandeiro. Eu falei assim: “olha, eu digo pra você sinceramente, eu não to vendo eu como uma maneira de cantar esse samba dessa forma. Agora, se você me permitir, eu vou pedir o Lincoln Olivetti pra fazer um arranjo pra mim”. E aí o Lincoln Olivetti fez aquele arranjo deslumbrante, que eu ia algumas noites pro estúdio dele lá em Jacarepaguá. Ele só trabalhava de madrugada. Então eu ia lá pro estúdio. Não só eu, não, ficava uma fila de cantores, também, que trabalhavam com ele esperando a sua hora de entrar pra ver os arranjos. A gente ia lá pra esse estúdio do Lincoln, lá em Jacarepaguá, a gente ficava lá até seis horas da manhã, seis, sete horas. E um dia ele falou assim pra mim: “Olha, eu vou fazer esse arranjo pra você, que esse arranjo é eterno. Você vai cantar essa música o resto da sua vida.”  E fez o “Pelo Amor de Deus” e eu fui pro Maracanazinho e ganhei o festival com essa música. E aí começou a minha ligação com a coisa do funk, do samba-funk, porque o João Augusto foi o produtor desse, João Augusto hoje o dono da Deckdisc, foi o produtor desse disco. Sabe quando você sente necessidade de você abrir um pouco mais o seu leque musical, as suas coisas, o seu repertório. E aí eu gostei muito do disco. Esse disco aqui é perfeito, é maravilhoso, é lindo. Tem uma sonoridade incrível, um repertório maravilhoso, uns arranjos maravilhosos e já dentro dessa modernidade que eu estava precisando. Sabe, de enxergar mais um pouco essa coisa do que rolava na época, nos anos oitenta. E aí eu fui namorar o funk. E ele foi um disco que ficou um disco maravilhoso. E aí logo depois, vem esse disco que você gosta.

Esse aqui é bem raro.

Esse é raríssimo. Mas que o momento, que é todo no soul. Esse é todo no soul music com Lincoln Olivetti, Robson Jorge, aquela galera toda…

Time de primeira.

É um disco lindo, cara! É um disco maravilhoso, só no soul music. Esse foi meu namoro, né, assim com a música black, aquelas coisas todas.

Mas tinha a ver com você, tinha a ver com sua formação eclética de busca.

É verdade. É lindo o disco, todo mundo fica de olho nele.

Mas esse é seu. E é raro. Normalmente as pessoas não tem… tem os que gravam, né? Você é uma exceção.

É. Essa é a minha história e eu tenho que ter. Alguns eu acho que eu não tenho, mas eu vou conseguir. Faltam uns dois ou três, uma coisa assim. Mas são discos que realmente fazem parte da minha história.

Pra quem não queria gravar samba, até se saiu muito bem!

Pois é. Não, porque eu adoro samba, eu acabei de fazer um disco, Só danço Samba, que eu ganhei o Grammy, cantando samba. A minha vida inteira querendo ganhar um Grammy e ganhei um Grammy cantando samba! Só Danço Samba, que eu fiz em homenagem ao Ed Lincoln. Quer dizer, é porque o samba não era aquele.

Modificou.

É o que eu falei pro Lincoln: “o Menescal quer que eu cante esse samba no festival, mas eu não tô vendo nada pra mim aí, assim, de uma maneira legal. Você consegue fazer uma coisa meio funkeada nesse samba? Dar uma ajeitada”. Aí fez. Fez, sim, um arranjo perfeito, maravilhoso, lindo! Lindíssimo.

 

Para gente poder falar do disco do programa, o nosso assunto, que é o Aquarela Brasileira, a gente tem que olhar pra esse trabalho aqui.

É verdade, o Brasileiríssimas foi o primeiro trabalho meu na Phillips, eu fiz com o Menescal esse trabalho, mas ele já queria que tivesse mais um volume dois, três, quatro e não sei o quê.

Por quê?

Porque iria limitar demais a minha carreira dentro da própria gravadora, então eu fiz esse Brasileiríssimas. Foi o meu primeiro disco na Phillips/Polygram, vendeu horrores por sinal, por isso que eles queriam mais dez volumes.

Companhia de disco quer vender disco, já dizia Eumir Deodato, né?

E aí mais dez volumes e eu relutei muito, falei assim “não isso vai me limitar demais, eu vou ficar, me transformar como um cantor de pout-pourri, de coleçãozinha, essas coisas todas. Se eu vim para cá é porque você me considera um cantor então eu tenho que fazer um bom trabalho aqui, Menescal”. Aí ele entendeu e aí nós fomos fazer nossos discos anuais. E fomos fazendo, aí os anos foram passando. Evidentemente que cada presidente brasileiro da companhia que chegava, existia sempre um balanço, pra ver quem era quem, quem vendia mais, quem não vendia, quem ficava no meio termo e quem devia sair, quem devia ficar. E eu achava interessante, porque eu estava sempre no meio termo, mas sempre me mantiveram no cast, durante onze anos provavelmente. E, até que depois de um festival que eu participei, eu fui convidado a me retirar, quer dizer fui dispensado da gravadora, e fui dispensando com um disco maravilhoso. Eu tenho assim uma paixão pelo meu último disco na Phillips, foi um disco feito por Durval Ferreira, mas eu acho ele tão assim, de uma simplicidade, de uma entrega de um cantor. Se eu não me engano foi José Roberto Bertrame que fez esse disco comigo. Algumas pessoas do Azimuth também fizeram esse disco, esse disco aqui e ele é profundamente carismático, pra mim porque foi o meu derradeiro disco na Phillips. Mas eu canto aqui de uma maneira muito, sei lá, eu acho que eu sabia que era o último disco, então eu fiz isso com sentimento, com uma coisa muito legal, me despedindo exatamente de uma gravadora aonde eu fiquei onze anos. Fui dispensando porque eu não vendia discos, e eu fiquei, então, algum tempo sem gravar, porque também não estava muito interessado nisso. Eu confesso a você, eu sempre gostei de fazer bons trabalhos, bons discos, mas eu acho que essa coisa do vender discos não era uma função minha entendeu?

É consequência do seu trabalho, da equipe.

É uma função do trabalho, da equipe, de uma série de coisas. A minha função era exatamente cantar bem e fazer um bom disco, essa era minha função. Mas nem por isso eu deixava de acordar cinco horas da manhã para ir dar bom dia na rádio globo, Haroldo de Andrade e essas coisas que eu fiz muita divulgação em rádio. Eu e Alcione a gente acordava cinco horas da manhã, se cruzava nas emissoras de rádio fazendo divulgação de rádio.

Ela era sua companheira de gravadora, né?

Minha querida amiga, maravilhosa, grande cantora, fantástica! E aí quer dizer, a gente tem esse histórico também, dessa parte da divulgação. Mas aí achavam que eu não vendia disco e me dispensaram. Mas eu levei isso numa boa, eu achei que eu precisava realmente treinar um bom tempo, em termo de discos, aí eu comecei a perceber que eu tinha um público muito grande nos meus shows. Eu senti que meu público gosta muito de me ver, de me ver e de me ouvir cantar. Então, quer dizer, isso acontece nos dias de hoje, a gente não escuta mais Emílio Santiago nas rádios. Mas os meus espetáculos, nos teatros, nas casas de diversões aonde eu vou cantar, está sempre lotado. E eu comecei a observar isso, que o povo gostava muito mais de me ver e de ouvir cantar. E relutei muito a aceitar um convite do Menescal. Menescal a essa altura do acontecimento já tinha saído da Phillips e montou a sua própria gravadora, e tinha assim milhões de projetos, milhões de coisas e ele começou a me procurar. E eu não queria contato com ele, até que um dia eu falei assim “não, eu vou ver o que o Menescal quer comigo”. Aí fui na gravadora dele, em frente a Phillips, de onde ele saiu, e ele me disse assim “Emílio eu tenho um projeto pra te mostrar”. Aí eu falei “ah, Menescal, projeto? É gravar, né?” “É gravação”. Eu falei “porra, Menescal, queria ficar um tempo sem gravar, não aguento, eu não entendo esse negócio de gravadora. Qual é, não sei o quê”. Ele disse “ não mas eu queria que você prestasse atenção, porque o projeto, na verdade, Emílio, é uma espécie de um resgate que a gente quer fazer, porque o momento é de muita música internacional, muita execução de música internacional nas rádios. A música brasileira está um pouco em baixa, não se vende mais música brasileira”

A gente ta falando da década de 1980. Década do Rock?

Exatamente, e não só do rock, daquelas músicas mesmo, daquelas canções, daquelas baladinhas americanas, aquelas coisas que existiam. E a música brasileira não tocava, ninguém cantava, ninguém dançava e não se vendia música brasileira. Aí ele me mostrou, ele me conhecia, conviveu comigo onze anos, ele sabia das sonoridades todas, já sabia qual meu gosto musical, já sabia de tudo e ele já tinha preparado praticamente quase todo o disco. “eu queria que você ouvisse” ai eu comecei a ouvir e falei assim “o que que é isso?” “ah, isso é uma faixa, que tem Honda que tem não sei o quê, e bláblá” Aí: “Você não quer? Por que que você não entra lá? Por que você não vai lá no estúdio e dá uma cantada para ver se você se sente confortável” Aí eu comecei a cantar, comecei a cantar, cantei uma faixa, mas eu estou pensando que ele apenas está fazendo um teste, uma experiência, mas ele praticamente gravou todas as faixas.

Dessa forma?

Sim, quase todas as faixas. E aí nasceu a primeira Aquarela Brasileira. Eu demorei praticamente meia hora para gravar.

Isso é incrível porque a gente ouvindo esse disco hoje em dia, e realmente me espantou, porque a música que ta aqui dentro, ela é popular, ela tem apelo comercial, mas ela é muito boa, muito bem feito tudo, muito encaixado. Repertório de primeira, ou seja, Menescal também soube como te pegar, não soube? 

É, e aí tem uma coisa interessante, porque ele não tinha me falado que isso era uma coisa da cabeça dele, ou que um guru dele falou. Aí diz que um desses mestres dele, um desses gurus disse “olha, acho que você tem que reinventar algumas coisas” Mas reinventar como? Ele disse “ Você tem que reinventar, tem que pegar uma pessoa que possa fazer esse negócio de reinventar com você. E você tem uma pessoa, você tem que prestar bastante atenção que você tem uma pessoa que pode fazer isso com você” que era exatamente eu. Mas, e aí eu fui lá, gravei as músicas todas e fui embora. Só que eu não sabia que ele tinha gravado, e ele mostrou então pro Heleno Oliveira que era diretor comercial da Som Livre, que também não acreditou muito, mas como era Menescal e já tinham trabalhado juntos na Phillips falou assim “eu vou lançar o disco” aí foi oitocentos mil cópias, no primeiro disco.

Mas ele foi rápido, não foi? A ascensão desse disco aqui.

O Menescal falou assim: “Emílio, é o seguinte, eu gravei todas as faixas que você cantou. O disco já está pronto, eu queria que você viesse ouvir, para você me dar autorização pra gente fazer alguma coisa não sei o quê”. E eu fui lá ouvir e realmente o disco estava pronto, ele tinha feito todas, gravou todas as faixas naquela hora que eu cantei lá, meia hora, uma hora, não sei quanto foi. Ele fez só que não tinha para quem mostrar. E aí me ligou e falou assim “ olha você se prepara, porque você vai ser o maior vendedor de disco do momento”. E realmente foi, e aí depois não deu como parar…

Foi o início de uma série. 

Aí começamos a fazer o segundo, o terceiro e foi vendendo cada vez mais, foi vendendo, foi vendendo, fizemos sete. (risos) Ai meu Deus. Foram sete aquarelas, tá?

Vamos tratar com carinho isso aqui…

Esse número dois tem uma foto que era bastante interessante. Eu tava muito triste quando eu fui gravar, fazer essa foto porque foi exatamente no dia em que a Nara tinha morrido. E Nara é uma pessoa muito querida minha. E aí tiveram que dar um trato assim, fazer uma maquiagem, fazer uma coisa porque eu estava completamente caídaço na hora dessa foto. Esse é Aquarela 2. E aqui Aquarela 3 e aí começou uma coisa interessante nas aquarelas, como eram muitos pout-pourris eu falei “Menescal, eu continuo fazendo desde que você me permita que eu lance algumas músicas inéditas, até para dar sentido a minha carreira, porque eu só relançando pout-pourris, pout-pourris, fica estranho, né? Então eu queria que você me deixasse, me desse de presente umas três, quatro faixas, pra gente fazer, colocar algumas músicas inéditas”. E aí no Aquarela 2 tem “Saigon”, que virou a minha Conceição.

Saigon? A faixa do lado dois?

É, a partir daí começou, eu tendo a oportunidade de colocar algumas músicas inéditas dentro das aquarelas, que foram muitos sucessos. A gente continua aqui, esse é o 3, aí vai 4, e cada disco uma cara, né, um novo layout. O cabelo vai mudando, vai mudando tudo. E a 7, eu acho que talvez seja um número cabalístico, talvez não sei o que foi, que eu percebi que era o momento de parar, para não ficar aquela coisa, Aquarela Brasileira numero três mil, quatro mil, cinco mil. Eu achei que já tinha cumprido a aquarela nesse número sete, já tinha cumprido a função. E aí o João Araújo quando soube que eu não queria mais fazer aquarelas, ele me chamou e falou assim “você não quer mais fazer aquarelas, por quê?”  “ Porque eu acho, João, que já deu, já cumpriu a missão. As aquarelas já cumpriram a sua missão e eu, como cantor, tenho sentido necessidade de fazer outras coisas, entendeu?” Ai ele me disse “o que você quer fazer agora?” Isso pra um dono de uma gravadora chegar para você e perguntar, olha o prestígio, o que você quer fazer agora? Aí eu falei assim, “eu não sei, eu queria fazer um disco com uma coisa diferente”. Aí fui para casa, fui para Araras e peguei assim vários discos do Dick Farney e outros, de outros cantores, de outras coisas assim e levei. E comecei a ouvir um fim de semana só Dick Farney, Dick Farney, aí quando eu voltei eu falei assim “olha eu quero fazer um disco de Dick Farney”. Que foi o primeiro disco depois das aquarelas. Se chama Perdido de amor e eu fiz com o César Camargo Mariano e o produtor foi o Mazzola. E aí nós fizemos esse disco, que é belíssimo, é um disco que teve assim críticas internacionais lindas, falaram muito desse “Perdido de Amor”, que é uma obra prima. E aí começou também a outra fase do Emilio Santiago. Mas eu posso, sem dúvida nenhuma dizer que a minha carreira assim, eu como cantor mesmo, eu existo antes e depois das aquarelas, é impossível eu não falar sobre elas na minha vida.

Pra gente entender que o sucesso inicial da série, que começou com o primeiro disco de 1988, geram mais sete na sequência, um marco na época todo mundo conhece esse projeto Aquarela Brasileira, mas para que os outros aconteçam o primeiro tem que emplacar, e esse emplacou. O primeiro dele. Porque que isso aconteceu, o que ele tem de tão especial?

Eu acho que foi de encontro exatamente aquelas necessidades que a música Brasileira passava, aquela coisa de um cantor, cantando MPB, de um repertório que não se ouvia muitos anos, das rádios não tocarem música brasileira bastante. De música que você levava para casa pra escutar deitado, ouvindo, namorando. Músicas brasileiras que você podia dançar, e música Brasileira que você podia comprar, então foi exatamente, o que o projeto dispunha era exatamente isso. E nesse repertório, todo mundo encontrou isso.

Vamos falar desse repertório que é muito bom, muito bem escolhido

Esse repertório, ele é interessante, que é super eclético. Eu me lembro que tinha uma faixa com os sambas enredos daquele ano, os sambas enredos vitoriosos. Aí Menescal mandou ver nos clássicos. Eu me lembro aqui, tinha coisa de Caetano, “Você é Linda”, “Coisas do coração” de Roberto. “Anos dourados”, “Eu sei que vou te amar”, “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso com “Bye, Bye Brasil”. Quer dizer era fantástico, aí tinha uns sambas bem populares, “Minha rainha”, “Retalhos de cetim”, “Sufoco”, de Alcione. Quer dizer era um disco maravilhoso! Aí vinha de Marina, “Nada por mim”, “Fullgás”, Johnny Alf com “Eu e a brisa” e “Pra você” de Sílvio César. E acabava o disco com “Ronda” e “Sampa”. Você queria coisa melhor? Isso é um prato cheio pro povo, o povo adorava a gente.

Quando o disco faz um sucesso, como esse fez, lançou mão de um repertório super popular, apelou, mas não é o caso aqui. Eu não vejo apelação nenhuma, inclusive o Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Caetano Veloso, Hebert Viana, é, enfim…

Eles relutaram um pouco em entender a proposta das aquarelas, mas depois eu acho que eles relaxaram e gozaram, porque essa coleção de aquarelas, para você ter uma ideia, eu me tornei um cantor internacional com elas, porque era uma febre assim. Os estrangeiros chegavam no Brasil, “que música que a gente vai levar pra lembrar um pouco do Brasil? Compra Aquarela Brasileira do Emilio Santiago.” Então quer dizer, eu conheço praticamente quase o mundo inteiro…

Isso te levou para fora? Para fazer shows internacionais?

Exatamente, por causa dessas aquarelas. Eu to conhecido para caramba, porque essas aquarelas, todo gringo que vinha no Brasil levava um disco do Emilio Santiago. Então mandavam, nêgo pedia, “manda a aquarela dez do Emilio?” “não tem mais gente”. “Mas nós queremos”. Então quer dizer, pra você ver a força de um projeto, que atravessou fronteiras, isso é muito legal, muito interessante. Eu fico muito feliz de ter feito esse projeto, as Aquarelas Brasileiras, inclusive até hoje eu sou cobrado, dez anos depois eu fiz  um projeto melhor das aquarelas, relembrando exatamente esse período, e foi um projeto maravilhoso, muito bem feito, é um marco, não sei se para música Brasileira, mas para minha carreira é um marco.

Quando você me conta que entrou em estúdio, ouviu a gravação pela primeira vez, vai lá de forma muito despojada, despretensiosa, canta, ninguém sabia o que ia acontecer  e depois, o disco foi um sucesso avassalador. Tem uma jogada muito interessante, muito inteligente da produção, que você soube com muita habilidade, maestria, cantar músicas diferentes nesse formato aqui que uns chamam de medley, outros de pout-pourri é a mesma coisa, pedaços de música juntos que formam uma faixa e que deu muito certo, na Aquarela Brasileira e tem a ver até com o nome, com o título. É muito bem bolado do conceito, como é que você faz para cantar músicas tão diferentes entre si, tão no teu tom, confortável, mas você faz como que vire uma música só?

Mas aí ta exatamente, aquela minha fase inicial de cantor, quer dizer as noites nas boates em que eu cantei, os bailes que fiz…Tudo isso ta aqui. O repertório que eu conhecia, eu conhecia todo esse repertório e já vinha cantando como crooner, como cantor de conjunto de baile. Enfim aquelas minhas experiências todas, eu pude utilizar exatamente aí nessas minhas aquarelas.

Eu acho genial porque a gente tem aqui exatamente, samba enredo, tem rock Brasileiro, Hebert, Paula Toller, tem Marina, tem Johnny Alf, tem MPB, que é Caetano, tem Vanzolini que é samba de São Paulo, enfim, aquarelas Brasileiras…

É verdade. Eu achava perfeito, eu me diverti muito, porque eu acho que o cantor, ele tem que cantar com prazer. Até hoje, quarenta anos depois, toda vez que eu canto, eu canto com muito prazer, porque sem prazer não dá.

Não rola, né?

Não rola, não dá, e não fica legal, fica falso, fica uma coisa que não é e eu sou um cantor que eu me entrego muito. Quer dizer eu sou um cantor que eu canto mesmo, eu não economizo. Eu abro a boca e canto mesmo, eu sinto, eu entrego, eu não tenho parâmetros, eu não tenho preconceitos, eu não tenho absolutamente nada. E o povo adora isso, porque não pode existir mentira. Não, eu abro a boca mesmo e canto, interpreto, se tiver que chorar, eu choro, se tiver que rir, eu “rio” junto. Enfim, Emilio Santiago é isso.