Eliana Pittman| NEW SOUND BRAZIL BOSSA NOVA

Faixas
Borboleta Alceu Valença
Punhal de prata Alceu Valença
Dia branco Alceu Valença
Dia branco Alceu Valença
Cabelos longos Alceu Valença
Chutando pedras Alceu Valença
Molhado de suor Alceu Valença
Mensageira dos anjos Alceu Valença
Papagaio do futuro Alceu Valença
Dente de Ocidente Alceu Valença
Pedras de sal Alceu Valença
Ficha técnica
Som Livre, 1974
Produção Eustáquio Sena
Arranjos Alceu Valença, Geraldo Azevedo, João Cortez
Arranjos de cordas Waltel Branco
Mixagem Célio
Músicos Cássio (viola e baixo elétrico)
Geraldo Azevedo (viola e craviola)
Piri (bandolim e craviola)
Lula Côrtes (tricórdio)
João Cortez (bateria)
Hermes Contesini (percussão)
Ronaldo (flauta)

Entrevista com Roberto Menescal

Só que dessa vez a gente vai falar sobre esse disco o New Sound Brazil Bossa Nova, de 1963, do Booker e Eliana Pittman. E aí a gente tem uma série de perguntas. Eu já vou perguntando e o que você quiser complementar, por favor, fique à vontade. Cinco composições suas foram gravadas nesse disco. Como essas composições chegaram até a Eliana Pittman?

Eu comecei a compor em 1959, por aí. Em 1960 eu comecei a gravar as minhas primeiras coisas, alguns artistas. E eu tive essa sorte da coisa andar muito rápida, e em 1962 eu tirei um prêmio, que era o prêmio mais ambicioso da época, prêmio Jornal do Brasil, e Rádio Jornal do Brasil. Eu ganhei o prêmio de melhor música, e em 1963, logo em seguida, ganhei o prêmio de melhor conjunto de música. Então tudo quanto era artista passou a gravar coisa minha, com esses dois prêmios assim logo de começo. E ficou um negócio, porque eu não tinha música para todo mundo, e comecei a fazer, fazer música, trabalhar. Porque todo mundo falava: “pô, você tem música para tal pessoa e não tem para mim.” E muita gente regravou as mesmas músicas. A Eliana me procurou na época, que era um disco que ela fazia, se não me engano, com Maestro Gaya. Que o Maestro Gaya era um grande arranjador e que tinha gravado com Silvinha Teles, que era outra cantora muito boa. E ele fazia arranjos para todos os artistas e ele mesmo falava: “tem um cara aí que faz umas músicas legais e tal.” E a Eliana me conhecia, mas não sabia de todas as músicas e um dia marcou comigo e com o Ronaldo, ver se eu levava uma música para ela. E de uma ela falou: “mas tem mais alguma?”; “tem essa daqui. E tem essa, e tem essa, tem essa”. Acabou ela escolhendo na verdade quatro e depois eu fiz uma música, escrevi uma música para o pai dela, porque ela falou: “meu pai vai gravar o disco também e vai fazer alguns solos.” Eu falei: “Ah Booker você quer que tipo de música?”; “Yeah!” ele só falava: “yeah!” ele era americano, e “tudo bem”. Aí disse “então eu vou fazer uma música para você”. E fiz uma música chamada “Mr. Bossa Nova”, que é um instrumental, não tem letra até hoje. E foi assim, e aí entraram nesse disco cinco músicas minhas.

Por que o Chico Feitosa, com quatro músicas escolhidas, não teve um reconhecimento maior dentro da Bossa Nova?

É um pouco o seu comportamento. O Chico era um cara muito reservado, sabe? Sempre. O apelido dele é Chico fim de noite, porque ele só chegava no final da noite, entende. “Ah, Chico vem aí.” Aí chegava, Chico fim de noite. Você vê já pelo apelido já mostra que era um cara mais recluso um pouco, e eu sempre fui mais saliente. Eu estava já no começo das coisas, já estava.

Que conceito o Booker e a Eliana Pittman tinham no meio musical da época?

O Booker e a Eliana faziam a música muito mais americana do que brasileira, porque primeiro ele era um musico de jazz, falava muito pouco o português ou na verdade nunca vi falando, vi sempre exclamando. E a Eliana então foi ensinada pelo Booker, pelo pai, e ele mostrou sempre aquelas cantoras de jazz, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan. E ela aprendeu, a escola dela foi essa. Então ela fez essa carreira do jazz e tal. E como o Beco das Garrafas estava começando, que foi a pátria da música instrumental. Ali começou a música instrumental bossa nova, que era um outro desenho da música brasileira de bossa nova, que começou ali. Bossa nova sempre cantada, letras e tal, mas ali tinha o negócio do músico que ia para lá e improvisava em cima das músicas que a gente compunha. E de vez em quando se misturava a coisa do jazz, da música americana, que é proximidade da bossa com o jazz. Muita gente acha que não, ou melhor, a gente diz que não, mas tinha muito. E a Eliana então baixava lá muito, chegou a fazer show no Beco. Então fez essa coisa, mas muito mais ligada a esse movimento da música de jazz com a bossa nova, do que a bossa nova propriamente dita. A primeira manifestação grande dela junto a Bossa Nova foi esse disco.

E o Booker, ele era reconhecido como jazzista, como um bom jazzista?

É. O Booker, porque ele abandonou a coisa lá nos Estados Unidos e veio para cá. E de vez em quando vinham aqueles cantores com os artistas e com os músicos acompanhando, de repente: “Booker o que que você está fazendo aqui?”; “Yeah! Brasil, yeah”. Aí os caras gostavam muito dele, só que acharam que o coitado do cara sumiu, fugiu, pensaram até que ele estivesse morto uma época, que ele foi morar no Paraná. E então quando vários músicos bons chegaram aqui e redescobriram o Booker, falaram: “esse cara é muito bom”. Mas já era muito bom e foi ficando por aqui e casou e ficou morando em Copacabana em um apartamentinho até, mas era muito bom músico. Bom improvisador.

Esse trio devia ser uma figura né? Os três, Ofélia, Booker e Eliana.

Imagina! Era um trio, né? Ofélia, Booker e Eliana era um trio.

Você participou da gravação do disco de alguma forma?

Olha, eu tenho uma música que fala assim “só me lembro muito vagamente”. E é um pouco isso. É porque, imagina, nessa época, eu ganhei esses prêmios, eu estava em tudo, sabe? Eu estava em tudo! Era arroz de festa. Eu estava em tudo quanto é lugar.

Então eu gravei com todo mundo. Agora eu não vou te garantir que eu estava ali, mas muito possivelmente eu estava ali de violão. Muito possivelmente! Sabe? Gravava em tudo quanto era lugar. Graças a Deus!

Falaram-me que essas músicas todo mundo queria gravar e tinha várias pessoas gravando as mesmas músicas, “O barquinho” e outras. O que você acha dos arranjos e do desempenho da dupla?

Bom, o Gaya, que é o arranjador, é um craque! Esse cara foi um craque assim, foi um mestre da gente no começo da Bossa Nova e aquela coisa de um grande músico, um grande cara formado e a gente garoto chegando, quer dizer, com muitos erros ainda. E o Gaya falava assim: “tudo bem, vocês tem muita coisa errada, mas a intenção que vocês estão trazendo é muito boa!” Então ele teve essa cabeça. Porque normalmente fala: “quem são esses garotos aí?” Ele não. Ele deu todo o apoio. Inclusive uma coisa que o Gaya fez comigo, que eu não entendi muito no princípio, ele falou assim: “Eu vou fazer os arranjos da Silvinha Teles nesse disco tal.” Não me lembro qual foi o disco dela. “Eu vou na casa dela para tirar os tons, para começar a ver as músicas. Você poderia ir?”. Digo: “vou, mas eu vou fazer o quê?”; “nada! Vai por mim, depois até arranjo um cachêzinho para você”. Eu digo: “eu vou. Só em estar com vocês, né? Mas eu não estou entendendo para quê.” Aí ele ficava e tal, tirava e fazia assim: “Como é que você faria essa coisa aqui?”; “Eu faria assim!” ele falava: “Legal!” Sabe? Então ele estava querendo as novas influências. Então nos deu muita força! E nesse disco você sente a força do arranjador, quer dizer, essa abertura do cara para o jazz, era um cara de música brasileira séria, mas de repente a abertura dele pro jazz, para a bossa nova e etc. E o Booker ficava ali. Aí eu falava: “Booker, ok!” Aí destruía no instrumento, mas era uma coisa. Ele era muito tímido, aquele no cantinho dele. E a Eliana era um foguetinho. Eu não sei que idade a Eliana tinha dezessete, dezoito, dezenove? Por aí. Era um foguetinho, porque cantava bem, era bonita, e fazia muito show, quer dizer, ela era o contrário totalmente do Booker. E a mãe era o foguetório total. A mãe era o réveillon na praia de Copacabana; ela que organizava tudo, botava Booker, sentava ele aqui ele ficava, botava ele para comer, e comandava a Eliana, falando: “O arranjo não é esse não!” Eu vi uma vez ela pegou o baterista tocando, ela foi lá e falou: “Me dá aqui! Não é assim não. É assim!”. Era danada, era fogueteira mesmo, total!

Que engraçado! Você já me contou algumas assim, mas você lembra de mais alguma história da época em torno dessa dupla aí?

Olha, eu só posso te falar o seguinte, apesar do Booker ser muito na dele, eles apareciam em tudo quanto é lugar. Porque você imagina, hoje você não tem musical na televisão, você até tem uns programas de calouros, mas musical assim de um programa só de música não tem, e nós tínhamos muito. Toda a televisão tinha vários programas do cara. Então eles estavam em todas as televisões. Você não tinha contratado só de uma televisão, então noite de gala, não sei o que e aí eles apareciam muito. Eram muito conhecidos e até tem o Dori Caymmi. O Dori é muito engraçado, não há uma pessoa que não tenha um apelido do Dori Caymmi. Então ele fica, é o hobby dele, “This is impossible!”, por exemplo, e a Eliana botou “Ele ama pizza!”

Como?

“Ele ama pizza!”, é o apelido dela.

A capa do disco que a gente viu ali ainda agora, o layout, a capa, o título, você acha meio com layout turístico, você acha que prejudicou na aceitação?

Olha, a capa reflete bem o momento da época. As capas em geral eram muito ruins. Muito! E não tinha um artista que definisse o que é uma boa foto. Você fazia uma boa foto e pronto, o cara jogava uma coisa em cima e normalmente jogava até o título que o artista nem sabia. Eu me lembro de capas muito ruins, cinza sabe… E essa capa da Eliana e Booker é daquele momento a foto. Um assim, outro assim, quer dizer, coisa que você nem faz, nem cantando, nem tocando assim. Mas é isso. Isso fica aí com o sax assim, você faz uma coisa como se estivesse cantando. Então você não pode dizer. Eram capas ruins, mas se você olhar em volta eram milhões de capas assim. Não é nem boa, nem ruim. Hoje é ruim, mas na época não era nem boa, nem ruim.

Você acha que o LP dela entrou para a discografia da Bossa Nova?

Eu acho que sim, porque, apesar que a concorrência foi muito grande, quando você conhece o Beco e começa o João Gilberto em 1959, lança o primeiro disco dele, daí em diante tudo era Bossa Nova, tudo, tudo! Inclusive produtos. “Compre essa máquina de filmar bossa nova!” Sabe? Presidente bossa nova, o Juscelino, né? O cachorro que está latindo bossa nova. Então tudo era Bossa Nova e todas as gravadoras lançavam os discos, dez, doze por ano. Então você tinha no final, quarenta, cinquenta, sessenta discos de bossa nova no ano. Então todos eles entraram para coisa, mas você tinha aqueles destaques que era João Gilberto, Silvinha Teles, tinha aqueles dez ali, que eram os mais cotados. Ela não cantava só bossa nova, né. Assim como vários, Agostinho dos Santos que era um grande cantor da época, aí fez um disco de bossa nova. Agora, Nelson Gonçalves pouco antes de morrer fez um disco de bossa nova, que eu nunca vi, mas deve ser muito engraçado. Tim Maia fez um disco de bossa nova também, entendeu? Então é uma coisa assim, “eu vou fazer um disco de jazz”. Sabe? É uma coisa. E o da Eliana brigou com esse, quer dizer, brigou no bom sentindo, com oitenta, cem discos.

O que que você acha desse disco hoje?

Primeiro eu tenho uma coisa, que é um pouco uma característica minha, eu juntava os meus discos, eu tinha tudo, tudo, as fotos. Aí começou, chegou um ponto que eu digo: “Esse troço está pesando tanto.” Dei tudo, né. As fotos eu dei para os escritores que fizeram livros, os discos eu dei para as rádios e não fiquei com nada. Acabei com o passado assim, né? Eu não tenho muita saudade do passado, não, eu tenho do futuro. Então eu não tenho nem referência, né. Tanto que outro dia um compositor amigo meu, meu parceiro também em outras coisas, me encomendou um arranjo para uma música, eu fiz e ele falou assim: “Roberto, eu precisava falar uma coisinha com você.” Eu digo: “O que que é?” “Sobre o arranjo da música.” Eu digo: “Você não gostou não?” “Não, está muito bom, mas não está exatamente aquilo que você fazia na Bossa Nova nos anos 1960.” Eu digo: “mas eu nem tenho mais aquele fusquinha também que eu tinha, que quase não andava, né. As coisas ficaram, as coisas foram embora. Eu hoje faço um negócio, não sei se é melhor ou pior. Mas eu faço outra coisa!” Então não tem nem essa referência para te falar do disco e das coisas todas. Eu tenho de vez em quando música que me mostram que eu nem me lembro que são minhas mais. Outro dia um cara me provou que uma música era minha e eu gravei agora, eu nem me lembrava mais da música. Então, eu não sei te dizer, mas gostaria muito de reouvir esse disco hoje. Gostaria muito! Se você me conseguir uma copiazinha.

Eu faço para você.

Oh, ela prometeu, hein. Está aqui hein. Está gravado.

Nem Eliana tinha esse disco! O Charles que deu uma cópia para ela.

Não tinha, né? O Charles está fazendo um trabalho muito legal, porque ele não pertenceu a essa geração, mas ele se interessou para saber o que houve. Então ele tem uma visão que é diferente da nossa que viveu. Ele tem uma visão de hoje, olhando aquelas coisas e falando o que aquelas coisas influenciaram no que a gente faz hoje, e o que elas vão ser de hoje para diante? Acho muito bacana! Esse levantamento das capas que ele fez é muito engraçado! Eu vi capas maravilhosas e capas gozadíssimas. Tem a capa do Nelson Ned, o Nelson Ned era muito baixinho, desse tamanho assim. Então sabe aquele metro de fazenda, que era o metro de casa de fazenda de vender tecido, era o metro de madeira assim, né? Então tem assim o metro encostado na parede e ele também encostado e fala assim: “Noventa centímetros de talento.” Imagina cara, fazer uma capa com noventa centímetros de talento, né? Então o Charles levantou tudo isso, é uma história incrível do que se fez nesse Brasil.

Muito legal esse teu comentário mesmo. A gente escreveu aqui o nome das cinco faixas só para gente constar. “Nós e o mar”.

É, ela gravou algumas das minhas músicas mais gravadas. Quer dizer, “Nós e o mar” foi uma música que eu fiz em Cabo Frio, e que refletia bem também o momento da gente; pesca de mergulho, e foi uma música muito regravada por muita gente, mas ela foi uma das primeiras, porque essa música eu fiz em 1962, ela gravou em 1963. E “O barquinho”, também, que foi da mesma safra da outra, eu fiz em 1962 também e ela logo em seguida regravou. Depois ela gravou uma música chamada “Balansamba” que foi uma das letras piores que a gente fez, porque é uma letra muito datada. Falava do Garrincha, que não sei o que, falava do cara que tinha ido a lua. Mas foi uma música que foi interessante, que ela foi muito inovadora como música, sem eu saber que era inovadora. Para mim era muito natural a coisa, mas ela foi muito inovadora e a Eliana topou, muito pouca gente topou gravar essa música, por causa disso, era toda quebra assim, de propósito, né. Ela gravou que mais? Que mais que ela gravou?

Ela gravou “Vagamente”.

Bom, “Vagamente” é uma coisa interessante que eu fui saber só agora, eu achava que o Wanda Sá tinha lançado o Vagamente em 1964, e num disco chamado Wanda Vagamente, aí vou saber que a Eliana Pittman tinha gravado, quer dizer, fui me lembrar disso, mas ninguém sabe, vou até falar com a Wanda também. Que a Wanda sempre fala: “eu gravei primeiro!”, eu vou falar: “Não! Eliana gravou”. Qual é a outra?

“Mr. Bossa Nova”.

Bom, “Mr. Bossa Nova” foi uma música que eu fiz para o Booker, é uma música instrumental, que eu até estou com vontade hoje de botar uma letra na música. De repente até eu faça uma referência à ele. Uma versão de “Yeah! Yeah!”

Entrevista com Eliana Pittman

Uma primeira pergunta pra gente esquentar, antes da gente entrar e falar da sua carreira, do seu pai, do disco. É uma frase que eu retirei do seu site que eu achei muito boa e eu acho que é um bom start pra nós aqui. A frase é o seguinte: “ser mulher, artista, negra e brasileira não é fácil”.

E não é mesmo, não! Está certo, é por aí.

Comente.

Não vou comentar, não tem comentário a fazer. Agora está ficando um pouquinho melhor, mas houve uma época, que realmente você tinha que lutar muito pra se impor. Apesar de que eu não tenho nada a reclamar por ter sido introduzida no mundo artístico pelo Booker Pittman, que é um grande artista. Inclusive hoje ouvindo a minha voz, como eu cantava, como eu era ruim, era muito ruim. O Booker Pittman teve muita coragem de me introduzir como cantora, porque realmente eu não cantava nada. E ele disse: “não, você sabe cantar”. Chegou a um ponto em que eu comecei a acreditar que, realmente, eu sabia cantar. Essa primeira música que eu cantei “Mama don’t allow”, eu cantei porque ia ter um evento na embaixada americana e o papai tinha uma cantora que cantava com ele, pra fazer o set com ele. A cantora era muito levada. Não posso dizer o nome dela, não. Ela era muito levada. Aí o papai a última festa que ela fez, ela namorou com o dono da festa. Aí a mulher pegou o marido com ela. E foi um rolo! Aí o papai falou: “não, nós vamos fazer na embaixada americana, então, eu vou ensaiar a Eliana pra cantar uma música, que é “Mama don’t allow”. Em 1961 as embaixadas eram todas no Rio de Janeiro. Então a banda de fuzileiros navais veio ao Rio pra poder fazer este evento. Só que o avião com todos os fuzileiros navais que estavam chegando caiu na Baía de Guanabara e morreu todo mundo. Não teve festa! Aí eu já estava treinada, aí papai falou: “você vai cantar na TV Rio no meu programa”. Aí eu fui. A secretária do César de Alencar me viu cantando na televisão e achou que tinha que cantar no programa. Aí eu fui, nunca mais parei de cantar. Isso foi em abril de 1961.

Você tinha?

Ah, faz as contas aí, pô, eu não vou fazer as contas, não. Faz, Charles, faz as contas. Eu nasci em 1945.

Você é de 1945, então você tinha exatamente dezesseis anos.

Pra você ver como é que é o negócio.

A gente deu uma boa aquecida, já. Mas a gente precisa voltar um pouquinho, pra que os assinantes, os telespectadores e espectadoras do Som do Vinil saibam exatamente de onde vem a Eliana Pittman. Ou seja, você nasceu e se criou onde Eliana?

Eu nasci no Rio de Janeiro. Eu fui feita na Marquês de São Vicente, nasci na Santa Casa de Misericórdia que tem ali no Pasmado, aqui ao lado do Botafogo. Eu fui feita na Gávea e nasci em Botafogo. Eu fui criada em São Paulo, no conjunto dos Bancários da Santa Cruz, na Vila Mariana. E voltei ao Rio de Janeiro quando a minha mãe conheceu o Booker Pittman e o Abelardo Figueiredo convidou o Booker pra vir ao Rio de Janeiro inaugurar a boate Plaza, ali na Prado Júnior, era um final de ano. Aí voltei pro Rio de Janeiro e nunca mais saí daqui.

Mas como que foi esse encontro do Booker Pittman com a sua mãe Ofélia?

Lindo, foi muito lindo! Muito bonito…

Como é que foi essa história?

A minha mãe era costureira, cabeleireira. E ela era assim, líder das mulheres negras de São Paulo. Ela era líder, ela mandava em todo mundo, a dona Ofélia. Aí a Ofélia todos os grandes eventos de artistas ela me levava pra assistir. Eu assisti a Josefine Baker. Agora, depois você registra aqui a festa de inauguração da novela que eu estou participando, que é Tempos Modernos foi no Cine Marrocos, foi onde eu vi a Dorothy Dendrich. A Dorothy Hendrich veio ao Brasil apresentar o filme da Carmem  e a minha mãe também me levou pra ver. Então, a minha mãe sempre me levou pra ver coisas bonitas. E o Louis Armstrong veio tocar no teatro Paramount onde hoje é esse teatro grande na Brigadeiro Luís Antônio. Aquele teatro grandão, chama-se teatro Brigadeiro Luís Antônio. Aí, a minha mãe tinha lido uma reportagem na revista O Cruzeiro falando que o Booker Pittman tinha sobrevivido, tinha sido dado como morto no Paraná e tinha voltado pra São Paulo. E ela tinha visto aquela reportagem em O Cruzeiro. E nós fomos assistir com todos os negros eminentes de São Paulo a apresentação de Louis Armstrong. Nesse meio do show quem é que adentra ao palco? Booker Pittman. E a minha mãe conectou a imagem com a reportagem que ela tinha visto. No final do show, que foi um sucesso, Booker Pittman arrebentou, né? Ela ficou preocupada que ela falou assim: “Meu Deus, esse homem estava perdido lá no meio do mato no Paraná. Será que ele vai tocar?”  Booker tocou legal, porque o Booker era um grande músico, grande artista! Aí no final, foi todo mundo foi lá bater cabeça pro Louis Armstrong, a Ofélia foi ó, buzuzar o Booker Pittman e ela estava se separando do meu pai, Orlando Francisco da Silva, aposentado Banco do Brasil. Ela falava comigo assim, ó: “fala comigo em português, porque eu sei que você fala português!” Ele falava com sotaque… Eu não sei como, acontece que a Ofélia conseguiu se encontrar com o Booker. Eles namoraram durante seis meses. Lá atrás da igreja da Consolação, Ofélia era boa de papo;Ofélia conseguiu convencer o Booker que ele tinha que ter uma família. E o Booker falava: “não! Eu não querer responsabilidade… eu ter minha malinha, meus sacos, não quero saber nada” .Aí ela convenceu o Booker que era bom e nós fomos morar lá na Avenida Bosque da Saúde.

Você lembra o nome da rua?

Era na Avenida Bosque da Saúde, mesmo! Onde tem o Cine Estrela.

Porque minha família é de lá.

Então, na Bosque da Saúde. Lembra onde tinha o depósito da Antárctica, de cerveja? Morava em frente, edifício de três andares. E fomos morar lá. E aí eu estudando direitinho. Nunca tinha pensado em ser artista nem nada. E o Booker parece que gostou de ter família. A minha mãe virou empresária do Booker.

Mas vocês estavam em São Paulo ainda?

Sim, nós estávamos em São Paulo. Só depois que minha mãe conheceu o Booker é que o Abelardo convidou, é que nós voltamos pro Rio de Janeiro. E foi incrível, porque a minha mãe nunca tinha entrado numa boate. Aí quando ela entrou na boate, na boate que tinha o Jordão, que era o dono da boate. Ele ficou olhando assim, ela falou assim: “ah, Booker não tem nem uma luzinha iluminando você? Tinha que ter. Você toca tão bonito, tinha que ter uma luzinha pra te iluminar”. Aí ela foi lá conversar com o Jordão: “ô, seu Jordão, por favor, põe uma luzinha pra iluminar o Booker, porque o Booker está tocando no escuro!” Aí o Jordão não gostou muito, não, porque logo depois ela foi lá e pediu aumento, pediu dinheiro… (risada). Porque agora o Booker tinha família pra criar.

Ela estava certa, né?

E tem um lance incrível. A gente foi morar junto, e eu estudava, tudo direitinho. E teve um dia que o Booker chega. Ele acordou, porque todo dia ele treinava o sax. E ai ele foi tocar, pegou o sax, mas não saía som. “Ofélia o que você fez com o meu sax?”. “Ah, Booker, lavei o sax. Taquei na banheira, bastante sabão em pó, sapólio! Olha, uma água preta que saiu!”. “É, Ofélia, querida, puxa vida! Mas não faz mais isso, não, porque olha, você estragou todo o sax! A sapatilha é coladinha com uma napa fininha pra poder sair o som”. Aí ficamos quase que duas semanas sem o Booker ter o sax pra poder tocar. Então, foi um pacto que se fez, que nunca mais Ofélia iria limpar o sax de Booker Pittman. E aí continuando a história. Teve um dia que ela chegou assim: “Booker você não sabe! Que ele morava na casa de uma família, que era do Todd, que tocava guitarra com ele na boate, “Booker, você não sabe, a família do Todd, ele deve ter colocado uma macumba no teu chinelo”. Sabe aqueles chinelos antigamente que eram de couro na frente, bonitinho. Ela foi lá e tinha umas baganas de maconha. Ela nunca tinha visto aquilo, ela achou que era macumba. Aí ele falou: “não, Ofélia, presta atenção, Ofélia, isso não é macumba, não, Ofélia, isso não é macumba”. Aí ele, também, aos poucos ele foi se adaptando, entendeu, que ele tinha uma família.

E a sua mãe a ele, né?

Com certeza!

Jogou fora as baganas…

Aí só fumava cigarro normal. É do jeito dele. Aí, viemos pro Rio de Janeiro, né? Começou a ficar muito famoso. Em 1961 teve esse evento na embaixada americana, eu comecei a cantar e a nossa vida continuou em frente. Foi uma coisa muito louca.

 

É verdade que o seu pai colocava os LPs da Ella Fitzgerald e da Sarah Vaughan pra você ouvir?

Com certeza e eu cantava, só que a voz não era assim… (afina a voz). A voz era essa que você ouviu… olha que loucura! Aliás aí atrás tem minha foto com Ella Fitzgerald. Depois eu conheci Ella Fitzgerald, conheci a Sarah Vaughan, tudo por causa do Booker Pittman. E elas foram minhas professoras de canto.

Muito bem. Eu trouxe uns discos aqui da Ella e da Sarah pra gente tentar repetir essa experiência que você fazia com seu pai. Será que gente consegue?

Acabei de fazer!

Acabou de fazer, mas…

Quer fazer junto? Porque é vinil, né?

É, porque eu acho isso é muito importante aqui para o pessoal do programa isso que você fez, aprender a cantar ou a tocar em cima de discos, isso é uma escolha muito poderosa!

Ouvindo… é muito mesmo! Pouca gente sabe como funciona!

Com certeza! E eu não queria perder essa oportunidade de mostrar isso pras pessoas! Eu trouxe um monte de discos aqui e você vai escolher uma faixa, a gente vai mostrar e você vai em cima…

Vamos ver se eu me lembro, né? Tem que ver qual que eu vou me lembrar!

Vê se tem algum aqui da Ella que te apetece!

Acho que não, não enxergo nada! Gente! Puxa vida, não é possível que você não trouxe o que eu posso cantar, que eu sei cantar! A letrinha é muito pequena…

Bom, mas pode ser da Sarah Vaughan.

Não, da Sarah Vaughan tem que ser aquele… “Look at me”… (continua em inglês) Puxa, “How hide the Moon”, não é possível que vocês não tenham aqui, pelo amor de Deus!

Quer que a gente procure?

Por favor! Dá uma procurada aí, por favor!

Sarah Vaughan, ó, achei aqui, “September song”, “My funny Valentine”…

(canta em inglês)

Mas o bom era Ella Fitzgerald que eu arrebento.

Posso tentar…

Amiga, dá uma olhadinha e vê você vê “How High the Moon”.

Eu estou procurando aqui e não estou encontrando.

É um dos primeiros da Ella.

Pô, mas ela gravou milhões de discos!

Nossa! Não e você não sabe! Eu tenho um amigo meu chamado Estevan Hermman, que você tem que conhecer. Você tem que conhecer! O Estevan Hermman vai um dia pra casa dele. Charles ele tem esse apartamento inteiro só de vinil e DVDs. Ele tem um DVD da Ella, que ela ensaiou o show e não fez, na Alemanha, que é de chorar, gente. Você tem que fazer reportagem com Estevan Hermman. Você vai fazer um mês com ele. Ele tem tudo de bom lá.

Eu faço.

Porque não é dessa fase.

A gente pode tocar. Vamos ver. Quem sabe você se lembra de alguma coisa…. (coloca música) Você gosta de suingue, né?

Eu gosto, eu aprendi com suingue. (canta em inglês)

Tinha que ter gravado isso… (toca música Ella)

Olha que voz, é demais, né, nossa! É incrível! Olha, tu vai fazer com o Estevan Hermman, por favor. Você vai se gamar, tu vai ter um choque quando vir as coisas que o Estevan tem lá. Não, tem que ser “How High the Moon”…

Se a gente não conseguir, não tem problema… (coloca outra música)

Faz o seguinte: Helena! Eu devo ter esse cd.

Eliana conta pra nós como era o relacionamento com seu pai, com Booker Pittman?

Maravilhoso, porque aí depois de tudo o que o Booker Pittman passou, que inclusive tem um curta do Booker, tem dois curtas que você tem ver, que realmente tá muito lindo. Os dois curtas que até ganhou o festival Kikito lá em Gramado, festival de cinema. Porque é o seguinte, o Booker teve toda a vida dele de aventura de perda. E então ele conheceu a minha mãe em 1957, 1958, aí eu comecei a cantar com ele em 1961. Em 1967 ele ficou doente, em 1969 ele morreu. Então ele teve um final de vida muito auspicioso. E eu participei desse final de vida dele, porque ele me deu tudo o que eu sabia fazer e deu toda a confiança pra me tornar uma artista. E quando ele ficou doente, foi incrível, porque nós íamos tocar na TV Rio. Naqueles programas de TV Rio, musical, aquelas coisas todas. Ele foi pro médico, que estava com umas dores na garganta e eu fui ensaiar o nosso número. Aí, quando ele chegou, eu estava toda pronta, porque íamos tocar. Ele disse: “olha, vamos lá conversar com o médico, porque eu vou tirar as minhas partes que eu toco, eu vou tirar fora, você vai cantar sozinha”. E depois nós conversamos. Aí quando terminou a apresentação na TV Rio, ele disse: “olha Eliana, o negócio é o seguinte, acabei de chegar do médico, não vou mentir pra você, eu não posso tocar mais, tinha que ter parado de tocar há muito tempo, porque eu não to legal, eu to com câncer na laringe”. Aí eu falei: “então eu vou parar de cantar”. Porque eu acho que a gente era tipo dupla sertaneja, né? Imagina dupla sertaneja se separando? Nem quando morre. Aí eu falei assim: “eu não sei cantar”. “Não, você sabe, sim”. E esse tempo de 1961 a 1967 que nós ficamos juntos, que nós fomos pra Europa, em 1964 nós estávamos nos Estados Unidos. E uma coisa incrível que eu consegui descobrir com esse negócio do curta metragem do papai. E o Estevan Hermman fez uma homenagem de quarenta anos de morte do Booker Pittman. Eu descobri que quando eu comecei a cantar com o Booker, o Buca, ele fez uma, eu não diria via crucis, porque nós passamos por todos os lugares que ele tinha estado de uma maneira de sucesso. Impressionante! Começamos no Rio, fomos pra Argentina onde ele era estrondosamente sucesso. Fomos fazer o teatro Maipu e pra fazer quinze dias, ficamos quase seis meses. Quase que a gente não volta mais pra cá. Porque já tinha estado na Argentina, também. Aí em 1964 fomos pros Estados Unidos na NBC, programa do Jack Parr. Fomos também pra fazer uma apresentação, ficamos dois anos. Aí passamos pela Europa e em 1967 ele ficou doente. Ele teve, foram os três anos que ele ainda me deu de vida dele pra eu realmente me conscientizar que eu podia cantar, que eu sabia cantar, que eu tinha que cantar, por um problema de subsistência. Porque foi o que ele falou: “olha, se você parar de cantar agora, quem vai sustentar a casa?”. Aí eu tive que me colocar, né? E trabalhei muito nesses três aninhos que o Booker ficou doente. Tudo, sabe, fiz viagens e tudo o que ele falava, que ele queria, precisava a gente conseguiu providenciar pra que ele tivesse um final de vida muito digno, né? Por tudo que ele já tinha passado, então isso tudo quando a gente está fazendo a gente não se dá conta, mas agora quarenta anos depois com o advento da palestra que o Estevan fez é que eu me dei conta de que isso aconteceu com meu pai. Realmente uma coisa muito louca.

Que tipo de show vocês faziam juntos? Qual era o repertório?

Música americana. Inclusive tem uns CDs aí que eu posso te passar isso, que você não tem. Eu vou dar de presente. O show no Porão 63. O Porão 63 que a gente gravou. Foi em 1966, porque 1964, 1965 ele estava na América. E um pouquinho antes dele ficar doente, logo depois ele ficou doente. Então tem ele tocando bonito a beça e ele cantava muita música americana.

Muitos standards do jazz?

Só standards. “Summertime” e vai por aí afora.  Agora, as músicas dele, eu nunca ousei cantar. “Saint Louis blues”, o repertório dele eu nunca cantei. Ele cantava as músicas dele e eu cantava as músicas que eu achava que podia cantar. Ele me indicava, inclusive. Mas as músicas dele nunca ousei cantar, nem vou nunca querer cantar.

Nós vamos ouvir agora. Antes da gente ouvir uma faixa…

Aí não tem, não. “How High the Moon”. Faixa 2, vê se não está aí. (canta junto) Agora to dando o tom diferente, né? (cantarola) mas eu cantava no tom da Ella Fitzgerald, hein, brincadeira!

Foi assim que você aprendeu a cantar. Foi assim?

Foi.

Agora, tem uma coisa interessante aqui, que eu acho que a gente não pode deixar passar, que é aprender a cantar, a aprender a tocar dessa forma, você desenvolve rapidamente o ouvido, porque é como você decodifica a informação, é como que você devolver ou cantando, ou tocando. Ou seja, você já sair cantando em cima da Ella Fitzgerald, isso que eu quero… é um bom começo pra uma pessoa que não achava nem que cantava!

Não…

Achava que não cantava e começou a cantar Ella Fitzgerald no tom dela. Foi assim, simplesmente teu pai incentivava isso, simplesmente… vai lá?

Não sei se ele incentivava, ele colocava a gente pra tocar e eu cantava junto. Eu nunca pensei em ser cantora, pensei em ser diplomata, bailarina… Nada a ver com…

Não pensava nisso…

Não, lógico que não. Só cantava, porque ele estava lá tocando, eu queria cantar junto.

Então agora acho que a gente pode ouvir o disco que você gravou com o seu pai pra gravadora Mocambo.

Uau!

A gente podia dar uma olhada nesse disco. Vamos lá.

Porque, inclusive, quem tem, tem, porque quem não tem, não vai ter mais, não! Este é meu, hein, gente! Pode até copiar pra ele, porque o chefão do vinil não tem!

Só uma coisinha pra gente partir pra audição desse disco. Esse show com o Louis Armstrong que você assistiu e teve a participação do Booker Pittman, isso foi em São Paulo em 1957.

Deve ter sido isso aí.

Como foi esse show, você se lembra?

Lembro, lógico que eu me lembro perfeitamente.

Marcou a sua vida?

Totalmente, absolutamente, impressionante!

Mas como que o Louis Armstrong sabia que seu pai estava aqui no Brasil? 

Porque quando teve aquele falso alarme que o Booker tinha morrido, fizeram um obituário do Booker Pittman.

Ele foi dado como morto, né?

Exatamente, o mundo inteiro ficou sabendo. Porque ele era um grande músico, muito respeitado. E ele na juventude, antes dele sair da América do Norte, ele, o Count Basie, todo mundo era amigo junto, entendeu? Eles eram todos contemporâneos em Chicago, tudo direitinho. Inclusive no livro da mamãe, que a mamãe escreveu sobre ele. Faço questão que você leia, que o livro é muito lindo. E tem a parte que o Booker escreveu ele mesmo, entendeu. Aí nós só traduzimos pra colocar o que ele tinha escrito. Ficou muito legal. Ele fala de tudo isso daí.

Quem eram os contemporâneos do Booker, quando ele estava nos Estados Unidos?

Louis Armstrong.

Count Basie…

É Louis Armstrong.

Ben Webster…

Ben Webster, companheiraço dele.

Grande saxofonista. Eu também peguei um outro nome na nossa pauta aqui, que eu preciso ler, que é o Earl Hines.

Também.

Pai do piano moderno.

Exatamente. Todo esse povo, eles todos começaram na mesma fase, só que o Booker resolveu que ele queria ir pra outros lugares e foi pra Europa. E foi super respeitado na Europa.

Muito bem, lindo. Vamos ouvi então o disco que a Eliana fez com o Booker Pittman, pelo selo Mocambo lá em Recife, em 1962.

Tá vendo só que coisa incrível? Gente vocês tem que ver o som da voz. Como é que pode. Ele era corajoso mesmo. (toca o disco e Eliana canta) Como é que pode, gente! Dezesseis anos.

Essa música é “The Birds of de Blues”.

Também. Olha o papai cantando, põe só do papai. (toca o disco) Bem afrevaiado. Frevo, né? Um excesso de frevo tocando jazz!

Uma coisa me ocorre aqui. Você pegou a sonoridade da língua inglesa muito rápido, você não pegou?

Eu estudava em colégio americano, Nelson School. Inclusive foi incrível, porque aconteceu um episódio com o meu pai lá em São Paulo, que não fica bem falar agora. Aí o Booker me colocou num colégio americano que é o Nelson Scholl aqui em Ipanema, na Prudente de Morais. E foi incrível, porque é o seguinte, ele não tinha dinheiro pra poder pagar esse colégio que era muito caro. Mas ele escreveu um bilhete pra dona do colégio dizendo o seguinte, que ele era neto do Booker T. Washington e queria que desse uma bolsa pra neta do Booker T. Washington. É o seguinte, o avô do Booker, o Booker T. Washington, se você for na internet, você vai ver que ele foi o negro mais importante pra cultura negra americana. Foi o negro que fundou a primeira universidade negra, que é Tuskegee no Alabama, que até hoje está lá. E esse foi o avô do meu pai. Mas com tudo isso, de ter avô famoso, avó famosa, ele queria tocar jazz. Ele foi atrás do sonho dele. Foi por isso que ele saiu da América, foi pra Europa, da Europa veio pra cá, foi pra Argentina e ele tinha um sonho que ele sempre quis tocar o sax dele e mais nada.

Então agora acho que a gente poderia ouvir o Booker. Uma composição que é dele, que você diz que não canta. Vamos ouvir aqui.

Por favor.

Que acho que é “St Louis blues”.

Olha essa voz, gente!

Tá aqui, a gente vai achar. (troca o disco)

Isso é um samba. É ele.

Ele tocava outro instrumento além de saxofone?

Não.

Essa voz rouca.

Era dele.

De época, né?

Som, hein? Você conseguiu os discos do Booker da musidisc? Vou te dar.

Na Internet.

Vou te dar.

Eu tenho da RCA.

Essa também é raridade. Tudo bem que ele está de um lado, ele tá num suingue, brincadeira!

Como é que veio esse convite pra gravar pela Mocambo? Você lembra?

Porque a Vilna, que era lá do César de Alencar tinha um namorado que tinha um lance com a gravadora Mocambo. Aí ela conseguiu esse contato e nós fomos gravar lá em Recife. Aquelas coisas, né? Ainda continua a mesma coisa. Conhece aqui pra conhecer lá e fizemos…

Agora, depois disso seu pai frequentava o circuito do Beco das Garrafas. A gente está em Copacabana agora. É aqui pertinho.

É, na Duvivier.

É, Duvivier. Seu pai frequentava?

Ele trabalhava no Little Club, entendeu? O Little Club, o show no Beco, no Little Club, ele que fazia. Numa boa.

Como foi o convívio do seu pai com os músicos que estavam já estabelecidos no Beco das Garrafas, no princípio dos anos 1960.

Eles vieram pra Boate Plaza, aí quando teve o Beco das Garrafas foi um upgrade, foi pra trazer o Little Club. No Bootles era o pessoal da Bossa Nova e no Little Club que é o nosso Alberico, né? Grande Alberico, grande empresário da Bossa Nova. Ele deixou espaço pro Booker poder brilhar. E foi por muito tempo que o Booker tocou no Little Club e o pessoal da Bossa Nova era lá do lado. Tudo Beco das Garrafas. Beco das Garrafas tinha Leny de Andrade também, estava lá, Leni Dale estava lá, mas o papai sempre no Little Club, que era o espaço dele. E no Bootles Bar tinha o pessoal da Bossa Nova. O Beco das Garrafas é um espaço de música. O Rio era muito bom, o Rio era muito rico.

E o seu pai te levava? Você ia com ele?

Aí em 1961 já estava tocando lá faz tempo. Eu ia escondida, eu ia, eu cantava escondida, fugia se não a polícia me prendia.

Você não tinha idade pra cantar, nem você nem a Leny.

Não, não tinha (risada).

A Leny também disse que tinha que ir com o pai.

Aí a gente cantava. Podia cantar, não podia ficar lá, entendeu? A gente ia, cantava e saía fora. Porque ele sempre foi assim, ele nunca foi crooner na minha vida. Ele parava o baile, me apresentava com o cantora e ninguém podia dançar enquanto eu cantava. Acho que ele achava que eu era estrela, só podia ser isso, né? Só pode ser… coisa de pai.

E o que que você cantou no Little Club, você lembra?

“Mama don’t Allow” no music… (risada)

A música que você cantava sempre. Podia ser outra.

Não, só tinha essa…

Só tinha essa na manga.

O repertório era isso daí, entendeu? Depois é que veio “Summertime” e outras coisas bonitas. Eu cantava “High the Moon”… Depois eu consegui cantar, “High the Moon”, mas a primeira o carro chefe era “Mama don’t allow”.

Tem uma pergunta aqui que eu não sei se é relevante, mas…

Vamos lá.

É sobre o clube de jazz e bossa nova do Jorginho Guinle, você frequentou esse clube?

Nossa, o Jorginho Guinle era fã de Booker Pittman. Inclusive, a nossa ida pros Estados Unidos em 1964, nós devemos ao Jorginho Guinle, que fez uma reunião com os músicos brasileiros no apartamento dele na Praia do Flamengo, que lá era o mundo do jazz, só se vivia jazz. O Jorginho era um fanático de jazz. Aí o Jacks Parr estava lá, que era o dono do programa nos Estados Unidos. Nós fizemos uma audition, o Jack Parr gostou do papai, porque tem esse background do Booker T. Washington, essa filha brasileira que cantava bonitinho e nós fomos pros Estados Unidos por causa disso. Jorginho Guinle que conseguiu.

Isso foi incrível. Por um outro lado, agora vamos dar uma volta nessa história. Tem toda essa informação jazz do seu pai, todo o background jazzístico que ele trouxe. Mas por outro lado você é brasileira daqui do Rio de Janeiro, com samba na veia.

Não, você não tem noção, eu fui criada em São Paulo. Eu nunca tinha ouvido uma escola de samba. E foi assim, em 1961 eu comecei a cantar aqui no Rio, em 1961 eu já estava na Argentina, em 1962 eu já estava pra Recife, voltei. Fui pra Europa. Em 1964 eu fui pros Estados Unidos, 1965 Estados Unidos. Aí meu pai falou assim: “Eliana, você tem que saber quem você é”. Comecei a cantar e a minha referência era ele e a Ella Fitizgerald. E aí, tanto que nos Estados Unidos a William Morris que nos contratou, que era a maior agência de artistas do mundo. Ainda continua sendo. E eles queriam mudar pra Eliana Brasil. “Não, não, quero ser Eliana Pittman”, queria trazer a brasilidade pra mim, mas não era isso. Aí falou assim: “vamos fazer o seguinte a gente vai ao Rio de Janeiro e você vai ver a escola de samba”. Que eu nunca tinha visto uma escola de samba na minha vida! Aí eu cheguei na Presidente Vargas, Mangueira, Mundo encantado de Monteiro Lobato. O que que eu fiz? Eu gravei. Eu sou a primeira pessoa que gravou o primeiro samba-enredo Mundo encantando de Monteiro Lobato, fui eu! Porque até aquele dia, até aquele ano, o samba-enredo chegava na avenida com uns papeizinhos desse tamanho, distribuía na avenida inteira. O samba era tão bom, tão bom que começava na Candelária, terminava na Central do Brasil, todo mundo cantava o samba. Letra e música. (canta o samba) !”… quando uma luz divinal iluminava a imaginação….” Não conseguiu esse disco, não? Tem que estar aí, isso é histórico! Doutor vinil, cadê o Mundo encantado de Monteiro Lobato? Cadê?

Nós vamos achar.

Não, falando sério. Inclusive foi no pequeno, tá? Mundo encantado de Monteiro Lobato… (canta) “… tudo era maravilha, tudo era sedução / quanta alegria e fascinação…” Aí quando eu disse que queria gravar… Não, mas não pode, não pode. Samba-enredo não se grava, não. Samba-enredo não era coisa que se gravasse.

Você gravou.

Primeiro samba-enredo a ser gravado. Quem gravou foi Eliana Pittman, uma pessoa que nunca tinha visto escola de samba na vida dela. Aí com o advento que nós voltamos pro Brasil, aí conheci Martinho da Vila. As escolas de samba, eu amo todas. Eu acho que o advento das escolas de samba é um negócio tão incrível que não tem ensaio geral. E eu não sei como é que eles conseguem sempre terminar nos oitenta e dois minutos e um segundo. É um negócio impressionante, quatro mil pessoas entrando naquele curral e dança-se por oitenta e três minutos, não é isso, que é o tempo que eles têm? E não tem ensaio geral. Eu não sei como que eles conseguem colocar um carro alegórico atrás do outro, ala atrás de ala, tudo na cabeça do carnavalesco! É um negócio… a escola de samba é o maior espetáculo da terra, sem ensaio. Todos os outros ensaiam, escola de samba não ensaia. Por que como é que você vai colocar quatro mil pessoas pra ensaiar todo final de semana na quadra?

É complicado…

Não, é impossível, é impossível. E aí acontece essa belezura, essa coisa mágica. Eu amo carnaval, amo. Desfilei em todas as escola de samba. Quando me dão a fantasia, é lógico

A gente tem que conseguir o original. Mas é difícil mesmo. Quanto anos tem esse disco daí?

Esse aqui eu tenho ele há uns dez anos. Não mais.

Mas quando ele foi feito?

1963.

O que atrapalhou esse LP aí foi o nome dele, New Sound Brazil Bossa Nova.

Porque não podia ter sido em inglês, não podia ser! Tinha que ser outra coisa, entendeu? Mas New Sound Brazil eu achei que cortou o barato da beleza que é o LP.

Por que teve esse nome?

Coisa lá do João Araújo. O João Araújo que produziu isso daí.

Ele estava pensando em mandar vocês para fora e mandar o disco junto para vender para fora.

Só pode ser, né?!

Você acha que isso atrapalhou?

Eu acho.

Mas como pintou a ideia de fazer esse disco nessa onda meio bossa nova?

Por causa do Beco das Garrafas, entendeu? Estava tudo ali. Era o momento de fazer isso, porque isso é que estava rolando no momento. Nós estávamos no âmago, no meio desse negócio. Tinha que fazer!

Era o som que a moçada ouvia naquela época, naquele momento, não é?

Sim! Como hoje em dia se escuta música sertaneja. Só que eu acho que eu não iria gravar música sertaneja.

A gente podia dar uma ouvida nesse LP aqui, que tal? A gente vai dar uma ouvida e comentar algumas faixas.

Por favor.

Então agora a gente vem para cá.

(Ouvindo New Sound Brazil Bossa Nova)

Está entrando um fresquinho, ó. Com Os Cariocas hein!

São Os Cariocas. A gente pode aproveitar e refazer a ficha técnica desse disco agora com a Eliana.

(Ouvindo New Sound Brazil Bossa Nova)

A gente está ouvindo “Nós e o Mar” de Menescal e Bôscoli.

De quem é?

Menescal e Bôscoli.

(Ouvindo New Sound Brazil Bossa Nova)

Aí a voz já estava. Ah! Tem outro episódio. Quando eu comecei a cantar, você viu a voz que eu tinha, né? Aí papai falava assim: “Eliana você vai ter que aprender a cantar.” Então me colocou nas mãos do professor Nino Crine que era professor de canto do Theatro Municipal. Para poder respirar, esse negócio todo. Aí teve um dia depois de um tempo tomando aula ele falou assim: “Eliana! Parar com o professor.” Porque eu estava assim, eu ouvia o jazz, ouvia bossa nova e ouvia a aula de canto que eu tinha com o Nino Crine. Eu comecei a misturar tudo. Agora grande professor de canto que eu tive foi nos Estados Unidos, que foi professor de canto da Barbra Streisand. Que na América existe o professor de canto para belting songs, que são músicas de musical, não é ópera. Foi aí que eu comecei a discernir o que era cantar bossa nova, o que era cantar jazz, porque chegou um certo ponto que a minha cabeça misturou, falta de informação, como é que vou dizer, era muita informação, pelo contrário, era muita informação, eu misturava todas as estações e o Booker como era bom observador, e quando fui para América ele me colocou com esse professor e que realmente me colocou a voz para poder cantar as músicas americanas direito e colocar a música americana no lugar que tinha colocado dentro de mim e na massa de cantar e a bossa nova que era totalmente ao contrário, porque era muita loucura. Mas até eu conseguir chegar a esse ponto de ter de separar as coisas levou bastante tempo.

Mas ele não foi o único dos seus mestres nos Estados Unidos. Você teve outros.

Ah, não me lembro. A essa altura do campeonato não me lembro de mais nada.

Que te ensinou muita coisa, provavelmente Sammy Davis Junior te ensinou alguma coisa.

O Sammy Davis Junior me contratou. Sammy Davis Junior me levou para cantar com ele em Las Vegas. Aí eu participei do Teletom com o Jerry Lewis e só coisas boas aconteceram, né?

Ensinou alguma coisa? A gente estava falando na verdade de cantar, né? De performance.

De cantar. Esse a gente aprendeu observando. E com o professor eu aprendi tomando aulas. A Maria Callas tomava aula de canto todos os dias, porque dizia o seguinte, que a corda vocal é um musculo, você tem que exercitar. Então uma vez por ano eu faço um curso intensivo de aula de canto, hoje em dia o meu professor é o José Spinto, que é um grande professor, que eu gosto muito dele. Está na hora de tomar aula de canto com ele de novo. Para segurar a voz direitinho, porque você falando e na televisão é uma outra entoação, é uma outra coisa que você tem que trabalhar e para cantar é outra coisa. Então você tem que também colocar, dividir, colocar tudo nos seus devidos departamentos.

Fala um pouquinho do trabalho com Fred Steal. Porque ele te ensinou exercícios inclusive de respiração, de impostação de voz, fala um pouquinho desse episódio.

Foi o que me colocou no caminho certo. Como eu te falei de discernir sobre o belting americano, que é uma colocação de voz, e cantar a bossa nova que eu estava nos dois mundos. Eu tinha que cantar bossa nova e eu tinha que cantar música americana. Aí graças a Deus eu consegui.

Vamos em frente. Essa gravação eu acho especialíssima e queria que você comentasse.

(Ouvindo New Sound Brazil Bossa Nova)

“It Don’t Mean a Thing”.

É o Tamba Trio, né?

É. Aí você veja, Charles, que eu vim de uma fase, que eu tinha essa voz e ao mesmo tempo no Bottles Club tinha uma Elis Regina cantando com aquela voz. A Elis Regina já veio com a voz feita. E a minha voz eu tive que procurar, catar, estudar e trazê-la. A Elis já nasceu com ela feita, o Cauby nasceu com ela feita, alguns cantores brasileiros nasceram com a voz feita. Eu tive que fazer a minha voz.

Sei. Naturalmente já chegaram prontos, né?

Impressionante! Acho bonito isso.

Mas aqui, como a gente, na gíria entre os músicos, aqui a gente, essa faixa com o Tamba Trio aqui, você e Booker, tremenda sonzeira, né?

Não é?

Que a primeira faixa que é “Nós e o Mar” está no espírito bossa nova, mas aqui já está…

Papai já estava influenciando.

Como gosta de dizer a Leny Andrade: ‘O coro está comendo!’, né?

É.

Uma coisa quase samba jazz, mas, talvez, mais para jazz do que para samba, aqui nesse caso especificamente. A pergunta é, o Tamba Trio apareceu no seu disco aqui por conta, de novo, dos encontros nos Becos da Garrafas?

E por causa da produção também, que a produção era da Polydor, então convinha. Exatamente. Então, João Araújo que mandava em todo mundo mesmo, ele determinou e fez. Entendeu? Nesse sentindo eu só fazia o que mandavam, porque quem comandava era Ofélia e Booker. Tinha inclusive um dito que o Booker que inventou que era assim: “Eliana, microfone. Booker, saxofone. Ofélia, telefone.”

Agora sua mãe foi sua empresária…

Dele também. A vida inteira. A vida inteira, a vida inteira.

Ela era boa empresária a sua mãe?

Oxê! Eu acho que sim, né? Porque deu no que deu. Ela tinha o dom, ela chegava assim: “Pô, Charles, para aqueles negócios que nós vamos fazer, se você conseguir lá uns vinte mil, trinta mil, está tudo certo.” Você chegava e dava assim, sorrindo. O mesmo evento, uma outra pessoa chegou, o que aconteceu, inclusive, não vou dizer quem foi, a pessoa: “Não vou dar não! Vou dar pra Eliana, por causa da Ofélia,” e não deu para pessoa. Quando a pessoa soube que a Ofélia tinha feito um tremendo de um contrato, deu uma confusão! Mas ela fechava os contratos todos. Fechava, numa boa!

Então a gente vai para mais uma faixa. A gente vai ouvir outra composição do Menescal, que eu acho que tem uma interpretação sua muito boa. Que é “O Barquinho”.

Uau! Muito obrigada!

Interpretação fantástica!

Muito obrigada!

(Ouvindo New Sound Brazil Bossa Nova)

Mas a voz era muito infantil, né Charles?

Mas é muito bonita! O público também te encaixava, você está em um contexto.

Você acha?

Acho que está em um contexto. Absurdo. É menos técnica, mas é absurdo.

Eu não conseguia dividir muito bem, não. Eu acho que eu não.

Isso é o que a gente vai ver na faixa sete.

Acho que os arranjos. Porque isso tem um arranjo! Isso tem um arranjo. Eu acho que, não sei. Eu não vou culpar o arranjo, não, eu acho que eu é que não me engajava dentro do arranjo, entendeu? Por causa do negócio daquela confusão, que eu só vim esclarecer a confusão, música na minha cabeça quando…tem que atender lá. Quando eu fui para a América do Norte e o professor colocou ordem na minha cabeça. Porque nessa fase eu tomava aula de canto lírico.

Nesse período, que é o que você falou, como é que vai cantar “Garota de Ipanema”.

Você entendeu? Presta atenção. Eu tinha preocupação em dividir a letra, em dizer a letra bem. Eu não sei, eu tinha um defeito. Tinha! Hoje eu não tenho mais não, mas naquela época tinha.

Agora, aqui você trabalhou com um dos grandes arranjadores da época. É uma aposta.

Sim, sim senhor!

Na sua carreira, né? Que é um Lindolfo Gaya.

Exatamente. Dom Gaya!

Dom Gaya?

Maravilhoso! Ele era paciente, ele tinha paciência, era compreensivo, era coisa fina.

Uma figura fundamental para a bossa nova sem dúvida nenhuma, Lindolfo Gaya. Então você estava no meio de muitas feras.

Super novinha, entendeu o que quero dizer? Eu comecei a cantar em 1961, esse disco foi feito em 1963, gente! Covardia.

Você estava com Lindolfo Gaya, estava com Tamba Trio, estava com seu pai.

Menescal!

É, Roberto Menescal, cantando um repertório muito bem escolhido. Waltel Branco.

Isso! Com certeza!

O cara ficando ali com você estava no meio das feras.

Eu não tinha consciência, estava lá de filha de Booker Pittman.

Está tudo certo, né?

Ele era americano, um músico famoso, estava de filha dele lá. E ele me impondo, né? Porque “lá vem o Booker com essa garota querendo cantar de novo! Ai meu Deus do céu! Deixa ela cantar, pô, senão ele não toca”.

Agora tem uma coisa interessante aqui que eu queria falar, eu também tenho uma filha pequena ainda, mas é quase um conto isso, né? Um pai cantando,

tocando com a sua filha.

Tem pai que é cego, né?

Não é uma coisa tão lúdica isso?

Não, o pessoal adorava! Nossa o público adorava! O público, nossa! O papai tinha o maior apoio do público todinho.

As pessoas não se emocionavam?

Não, adorava, adorava! No dia do Jack Parr lá nos Estados Unidos no NBC, foi maravilhoso, você não tem noção. Foi maravilhoso!

Por quê?

Porque foi maravilhoso. Aliás eu tenho que chamar Estevan Hermman para ele me devolver o disco do papai. Com a apresentação que ele disse que ia fazer, aí meu Deus do céu, agora fui longe. Porque eu tenho em vinil, ih esse vinil você ia gamar. Eu tenho em vinil a gravação do programa de televisão.

Tem em vinil isso?

Tenho. Tenho em vinil.

Então vamos ouvir essa faixa. Você acha que não divide bem, mas essa era faixa uma faixa dificílima de dividir.

Vamos ver! E afinal de contas, você vai cantar com a sua filha ou não vai?

Eu espero que, sim.

(Ouvindo New Sound Brazil Bossa Nova)

Essa é “Balansamba” de Menescal e Bôscoli, também.

Booker Pittman! Oh, o suingue!

Aí é seu pai. Tem uma outra gravação que eu achei muito boa também, que a gente tem que ouvir. Que é de um compositor que não era dessa turma, que é o Normando dos Santos.

Voltou ao Brasil! Normando estava morando na França, voltou para o Brasil e está morando com a Camélia Alves.

Então vamos ouvir dele “Amor no Samba”, também com Tamba Trio.

(Ouvindo New Sound Brazil Bossa Nova)

Engraçado quando entra o Tamba Trio o som já muda também, é um outro som.

Não é?

É! O som já fica mais pesado, mais mordido, não é?

Oh! Swing do meu pai.

Incrível, né?

É! Você sabe que a gente não tem a chance assim de poder ficar lembrando das coisas que você fez há tantos anos atrás e não deixa de ter seu valor, né? É bem legal. É que eu não gosto de ficar vivendo, eu não vivo de passado, não. Eu não vivo. Eu quero saber do futuro. O futuro é agora, Tempos Modernos que tem na novela das sete e eu estou curtindo muito fazer esse trabalho na novela. Eu quero ir para frente, eu quero saber para frente. E as coisas boas que eu fiz, que eu espero que você está me dando o maior upgrade, chique, chiquérrimo. Foi bom porque veio lembrar as coisas boas que a gente fez. Muito obrigada!

A gente já está quase terminando.

É Copacabana. Exatamente.

Vou deixar aqui uma faixa de fundo que eu achei muito bacana, também.

“O Passarinho”.

Puxa vida!

Eu não sei, mas o meu papel nesse programa é trazer boas coisas do passado para as pessoas conhecerem ou recordarem.

E agora recordar é viver, realmente!

Isso é verdade!

Está viajando. Estou viajando para aquele tempo lá, oh! Quarenta anos atrás.

É! Qual o papel desse disco na sua carreira, Eliana?

Eu não sei, porque logo depois eu fui para os Estados Unidos.

Então foi ele que te proporcionou isso ou já estava acertado?

Não! Não foi.

Já estava acertado?

Não, não, não. A ida para os Estados Unidos foi na casa do Jorginho Guinle.

Não teve participação nenhuma não.

Não. Aliás a gente nunca teve muito sucesso, muita sorte com discos na nossa vida, não. Os discos nunca aconteciam, eram coisas boas que talvez tivessem que acontecer, mas nunca aconteceu. Eu gravei em inglês. Eu tenho um vinil também americano. Se você conseguir esse daí te dou um prêmio. Esse não deve ter mesmo! Eu gravei em inglês para a Decca Music.

Ah é?

É! Hoje em dia eu sei gravar disco, naquela época eu não sabia não. Esquece!

É? Você acha?

Ah, não sabia mesmo, não! Não deu certo. A única coisa que deu certo foi o Carimbó. O Carimbó deu certo. O Carimbó foi bom. Mas eu já tinha ido para a América, já tinha rodado uma porção de coisa. Aí o pessoal falava assim: “Ah, ela boa para fazer show. Não sabe vender disco.” Entendeu? Mas eu vendi cem mil daqueles do Carimbó, eu vendi! Essa honra eu tive.

Você de certa forma viveu mais do trabalho ao vivo, do trabalho ao palco.

Show.

… do que do dinheiro que os discos te proporcionaram?

Com certeza! Absoluta! Com certeza!

É? Bem vinda ao clube, né! Eu sou um deles!

É incrível, né?

Sempre fiz muito mais apresentação.

Graças a Deus! Ainda bem que nós temos esse talento, porque hoje em dia inverteu, né? Hoje em dia tem um monte de gente que faz o disco e não sabe se apresentar. Então nós estamos nos times dos bons.

Certo. Mas me diga uma coisa de certa forma ele foi um episódio na sua vida e tem uma coisa muito interessante, que a gente tem que comentar aqui no Som do Vinil. É um disco extremamente raro e cultuado.

É verdade.

Pelos amantes da bossa nova.

É verdade.

O mundo todo. O que você acha disso hein?

Eu estou achando ótimo! Depois de quarenta anos, como eu te disse, em um país que é tão difícil você ter que todo dia tem que estar provando o que você é. Aí, sabe, eu acho que é muito lindo. Todo reconhecimento, por menor que ele seja, em qualquer momento da minha vida, eu acho que é muito bem vindo e eu recebo com muito amor, com muito carinho e com muito respeito, sabe? É muito importante. Fiquei feliz quando vocês se lembraram de mim.

Muito bem. Eu também não quero deixar o programa dramático demais, mas ouvindo o seu pai tocando 1963, o que te bate assim, tem alguma coisa que você gostaria de dizer, de lembrar, de declarar.

Que eu achei que o Booker gravava muito pouco. O Booker gravou muito pouco. Está registrado na palestra que o Estevan Hermann fez no Modern Sound. No dia três de outubro de 1909 o Booker nasceu, no dia treze de outubro de 1969 o Booker morreu. Então em outubro fez quarenta anos que o Booker faleceu e a festa, esse evento, essa palestra show foi feita na Morden Sound com Estevan Hermann em novembro. E realmente está constatado que o Booker gravou muito pouco. E como o Booker não tinha muito respeito com negócio de gravadora, ele passou um pouco dessa falta de respeito para mim, também. Eu nunca fui de ligar para ter que gravar disco, hoje em dia eu tenho consciência que eu tenho que correr atrás do tempo perdido e gravar muita coisa. Eu tenho uma dívida comigo que eu tenho que gravar muita coisa. O Booker gravou muito pouco, muito pouco com o som que ele tinha, o talento que ele tinha, tinha que ter gravado mais! Só a única coisa que eu acho. Numa boa. Porque quando eu escuto, são tão poucas coisas que ele fez, então eu escuto com muito prazer, porque só tem aquilo, não tem mais nada! Estou errada?

Não. Eu acho que está certa.

É duro, né?

Então é isso. Muito obrigado. Está ótimo!

Valeu muito obrigada querido! Obrigada mesmo!

Entrevista com Rodrigo Faour

Vou começar falando da Eliana Pittman de 1963, um disco de jazz?

Não, de jazz não, de bossa nova!

De bossa nova! Quer dizer, o Booker era um cara do jazz, né? E já foi considerado um dos quatro saxofonistas do mundo. O que você acha, qual a importância do Booker no panorama do jazz?

Olha, realmente os mais fanáticos por jazz é que sabem a importância dele, porque ele era um cara conhecido mais pelos aficcionados assim, e tanto é que Louis Armstrong veio ao Brasil na década de cinquenta, ele quis saber onde estava esse cara, porque ele estava completamente esquecido, já tinha até largado a carreira. E aí quis resgatar esse cara, porque ele era um daqueles pioneiros que começaram com aquela onda inicial assim, daquele comecinho do jazz junto com o próprio Louis Armstrong. Mas ele não era um nome de projeção como foi o próprio Louis Armstrong e depois outros grandes divos e divas do jazz, mas era aquele cara que o pessoal do meio sabia quem era, que era importante. E essa história realmente foi uma coisa de novela mesmo, a forma como ele chegou ao Brasil, quer dizer, especialmente como ele foi redescoberto e quando ele voltou a ter uma carreira mais constante e fora do país dele, em um outro país diferente é impressionante!

Você acha que o fato dele ter mudado para o Brasil explica esse sumiço dele no jazz ou não?

Com certeza! Eu acho que ele foi se afastando, se distanciando, ficou desgostoso da vida e eu acho também que bebia muito, tinha problemas nesse sentido. E acabou realmente off, né. Tanto que ele era dado como morto.

Que corrente que o Booker pertenceu e a quem ele podia ser comparado?

Olha, não conheço com tanta profundidade jazz para poder comparar, mas pelo que eu sei, pelo que me contam, ele era dessa turma mesmo do começo do jazz junto com Louis Armstrong. Era desse seguimento! Daquela turma que veio com o bebop, aquelas coisas todas. Ele era um daqueles, da mesma geração.

E a Eliana Pittman, a enteada dele, você a conhece, como é que você veio conhecer o trabalho dela?

Eu tenho uma coisa muito engraçada com a Eliana Pittman, porque a primeira música que eu me lembro de ter gostado na minha infância foi a “Mistura de carimbó número dois”. Era um carimbó paraense que ela resgatou um pout pourri na década de setenta, que ela fez muito sucesso, inclusive ela vendeu cento e cinquenta mil compactos, ganhou um disco de ouro por causa disso. E era a música assim: ‘Dona Maria que dança é essa que a gente dança só. Dona Maria que dança é essa, é carimbó, é carimbo.’ Eu adorava esse disco! E do outro lado tinha uma música chamada Carapeba, uma música do Capiba de Recife, também uma coisa meio marcha assim. Muito bonita também! Eu adorava esse disquinho, sabe? Então eu tenho essa coisa de infância assim, essa memória afetiva da Eliana da minha infância, né. Depois ela parou de gravar já no final da década de setenta e ficou afastada. E eu também perdi um pouco esse contato com a obra dela. Fui resgatá-la anos depois, inclusive o primeiro CD que existe da Eliana assim, de sucesso, fui eu que produzi, da séria Maxximum. Fui eu que fiz a seleção.

Então você conheceu a Eliana Pittman primeiro, antes de, claro, do Booker.

Ah, sem dúvida!

E falando da Eliana ainda, o que você acha, qual a relevância dela no universo das cantoras da música popular brasileira?

A Eliana Pittiman foi a primeira show woman brasileira, né? É uma coisa que com certeza foi influência do próprio padrasto dela, do Booker e da convivência dela com as cantoras americanas, de ter visto in loco, inclusive, isso lá fora e tudo e das coisas que o próprio pai dela trazia para ela ouvir e tudo. Ela quando começou a fazer a carreira solo, ela foi mais do que uma cantora, né? Ela foi mais do que uma cantora, ela começou a se comunicar, a interagir com a plateia como os grandes showman e showwoman sempre fizeram. Então, ela era uma coisa bem Broadway, bem apoteótica assim, o estilo dela. Era assim. E depois começou a fazer shows também com bailarinos, shows com grandes produções e ela me disse, inclusive, que ela aprendeu a colocar a voz com uma professora americana que foi a mesma professora da Barbra Streisand, entende? Então, ela tem essa técnica mesmo americanizada, adaptada ao molho brasileiro, logicamente, mas assim, ao meu ver, a importância da Eliana no panorama das divas é esse, porque ela foi a primeira showwoman brasileira.

E ela, assim, ela canta sucessos desde samba nacionalista até carimbó, são músicas bem raízes, né?

É. Isso foi o seguinte, ela fez sucesso com esse samba, que foi a primeira música do João Nogueira, “Das 200 para lá”: ‘Esse mar é meu. Deixa esse barco pra lá desse mar.’ E aquelas babaquices da ditadura… Coitado, o João Nogueira fez um samba brincando com os limites do mar, né, que tinham colocado, até duzentas milhas é Brasil e depois é para lá, aí os idiotas de esquerda começaram a falar que isso era uma música que falava, não sei o que, sabe? Tudo tinha que ser engajado naquela época. Enfim, ela estava acima disso e não tinha nada a ver e essa música foi um sucesso, comecinho da década de setenta. Isso eu acho que atraiu a atenção da RCA. que a contratou. Então ela teve um período na década de 1970 na RCA, que na época a direção artística era do Sérgio Cabral e o Sérgio Cabral direcionou ela muito para o samba. Então eram, basicamente, discos de samba de raiz, até com o teor bem melancólico, assim, que ela gravou na década de 1970. A única exceção que ela exigiu, que ela quis, porque quis gravar foi o carimbó. Que ela fez uma viagem para o norte do país e viu que esse ritmo estava efervescente lá, então ela fincou pé “Não, eu quero gravar!” E foi justamente com isso que ela estourou na década de 1970.

Ela disse que foi a primeira mulher a gravar um samba enredo.

É, capaz; “O Mundo Encantado”, né?

É.

Monteiro Lobato. É a Elza Soares também foi na mesma época também gravou essa música. Mas o repertório dela mudou muito. O repertório da Eliana começou com bossa nova, depois passou para músicas que todo mundo fazia naquele final dos anos 1960, aquele tipo de música daquela turma dos festivais. Que era um tipo de música assim, bem eclética, mas assim, tendendo para arranjos mais conceituais, muita bateria, aquela coisa toda e bem eclético. A marca dela foi eclética. E já cantava também músicas internacionais, o hit parade internacional. Isso era uma coisa também, uma marcada dela, porque ela cantava bem em inglês, então ela também cantava esse standards internacionais junto com as coisas que faziam sucesso naquela época, as primeiras músicas do Chico, as primeiras musicas, do Gil, do Caetano, aquela turma dos festivais. E também alguma coisa do samba enredo, enfim uma cantora eclética do final dos anos 1960. Aí a partir dos anos 1970 é que ela vai mais para o samba e sempre com uma faixinha de carimbó nos discos.

É, eu ia te perguntar, mas você já respondeu. Se ela se inferia a uma corrente intimista ou ela é mais extrovertida…

Não, ela é extrovertida completamente! Ela sempre foi extrovertida e sempre foi entrona, sempre foi aquela de cheguei! Sempre foi, até hoje é assim. É o estilo Eliana que acho que a gente só pode comparar parecido com ela a Baby Consuelo, que é também esse estilo assim de chegar, chegando e ser uma coisa assim bem apoteótica.

A Eliana me disse uma vez que o fato dela ter ficado tanto tempo na geladeira, sem gravar, se deveu ao fato de que queriam fazer dela, no final da década de 1970, a rainha da disco music brasileira e ela se recusou, porque ela não queria cantar isso, sabe? Ela não queria cantar um modismo, ela queria continuar fazendo o que ela fazia e por isso ela foi meio que colocada na geladeira. Isso é o que ela justifica. E é capaz, porque devem ter visto uma negra, muito versátil, cantando também bem em inglês e tudo mais. Com aquela cara linda que ela sempre teve, aquele sorriso, acharam que ela realmente poderia ser uma Donna Summer daqui, ela talvez pudesse ser a Gloria Gaynor brasileira e talvez fizesse muito sucesso. Mas efêmero também, porque essas coisas, esses modismos vem e vão, né? E ela não quis ir adiante com isso.

Voltando a falar do disco um pouquinho, o que você acha desse disco New Sound Brazil? E aí fala um pouco da relevância dele para gente no movimento da Bossa Nova?

É na verdade esse disco é mais um cult, digamos assim, não foi um disco, assim, importante na época. O que acontece é o seguinte, a Eliana quando começou a se apresentar com o pai era uma menina, tinha onze, doze anos, e isso era uma coisa nova. Você vê um cara, um negão, clarinetista americano, saxofonista, um cara que tinha aquela pinta, simpático, interessante, com uma menininha bonitinha do lado cantando um numerozinho, tanto que era um número só que eles fizeram a primeira vez e deu tão certo que ele resolveu, quando ia para a TV, levá-la novamente e isso foi dando pé. E aí a gravadora contratou e eles fizeram o primeiro disco e a coisa foi. Foi meio que por acaso que aconteceu, né? Então era uma coisa simpática essa dupla. As pessoas gostavam de ver. Depois os dois também estiveram em várias televisões, né? E então marcou isso na cabeça das pessoas. Agora o disco em si é um disco como muitos outros da época, com um repertório da Bossa Nova que estava nascendo. Vocês sabem que a Bossa Nova nunca foi um estouro também, nunca foi um movimento que estourou. A Bossa Nova ficou! Mas a Bossa Nova quando começou era para meia dúzia, o que estava estourado naquela época era Ângela Maria, era Cauby Peixoto. O começo dos anos 1960 era Altemar Dutra, era Anísio Silva, era isso que o povão gostava! Então a Bossa Nova vendia pouquinho, era um coisa assim. Tom Jobim gravou o primeiro LP em 1963. Então assim, não era o que é hoje, está entendendo? Era uma coisa que estava começando. Para se ter uma ideia, o Menescal e o Bôscoli foram chamar a Maysa para ver o trabalho deles um pouquinho mais divulgado! A Maysa estava estourada. Entende? Então assim, a gente tem que ter muito cuidado quando vai falar desses discos da Bossa Nova hoje, porque eles ficaram mitificados, mas na época não fizeram tanto sucesso assim, eles tinham um pequeno público deles, que consumia e tinha o nicho deles. Coisa que as gravadoras, com o tempo, deixaram de investir em pequenos nichos. Só querem vender, só querem coisas que vendam acima de cem mil, senão não interessa. E naquele tempo o disco vendia cinco mil, dez mil, era um disco que já interessava. Entendeu? Tanto que o primeiro MPB4, o primeiro da Nara, o primeiro do Quarteto em Cy, todos esses discos foram discos de grande vendagem.

Mas ficaram, né?

Pois é. A qualidade desses discos se impuseram com o tempo. Então passando o tempo esses discos que acabaram sendo cada vez mais cultuados por isso, porque tinham sempre músicos excelentes tocando, porque o repertório era maravilhoso e tudo mais. Engraçado se você for ver o New Sound Brazil, o que tem nesse disco? Se você pega esse disco você tem “Nós e o mar”, você tem “Vagamente”, “O barquinho”, essas músicas acabaram de ser compostas, isso existe há um ano! Entendeu? As músicas estavam sendo lançadas naquela época e todo mundo gravou, porque todo mundo adorava as músicas. Sério, assim, principalmente quem entendia de música. Então você vê essas músicas em quase todos os discos. As pessoas gravavam, gravavam, então, todo trio de piano, baixo e bateria queria dar a sua versão para “O barquinho”. Então são músicas que você vai ver em um monte de discos da época, né? Esse disco foi basicamente música de Menescal e do Bôscoli, do Chico Feitosa e do Lula Freire, que são assim dos mais conhecidos que estão aí.

Para comentar repertório, eram cinco músicas do Roberto Menescal e quatro do pouco valorizado bossanovista Chico Feitosa.

É. Chico Feitosa. Na verdade ele é um daqueles que não aconteceu, digamos assim, ele tem aquele sucesso “Fim de Noite”. Tem outra música conhecida, mas não foi um cara que conseguiu fazer um nome como Menescal conseguiu, Carlos Lyra e outros. E ele era daquela patota da bossa mesmo, da primeira fase da Bossa Nova. Mas é isso. É um disco que hoje você ouvindo é aquela sonoridade típica do começo da década de 1960, bem gravado, com músicas agradáveis que viraram clássicos, muitas delas, e com a Eliana cantando uma voz bem ainda de criança assim, bem adolescente e ainda ouve o sotaque terrível que o Booker tinha cantando também, uma coisa gozadíssima. Aí você vai ouvir, de vez em quando ele tenta cantar alguma coisa em português, é gozadíssimo, quando ele vai cantar. E é isso!

Você acha que o Booker se entrosou bem com a Bossa Nova como aconteceu com outros artistas como o Stan Getz?

Não, isso foi uma coisa que não tem como comparar. Porque o fenômeno Booker foi um fenômeno muito passageiro, muito rápido porque ele ficou doente, em 1966 ele chegou a Eliana e falou: “olha, eu estou com câncer na laringe, não vou poder mais levar adiante a minha carreira. Eu quero que você leve adiante”. Ela entrou em crise, disse que não ia, que não ia conseguir, mas ele falou: “Não, você tem que conseguir! Você está pronta para isso, você vai fazer”. Até porque alguém tinha que segurar as finanças também da família. E aí ela começou. Começou e foi gravando um disco atrás do outro, e conseguiu se firmar.

O que você acha dela como cantora? Ela é uma cantora de jazz?

Ela é bem jazzística, ela é uma pessoa que cresce muito no palco. Eu acho que a Eliana, embora tenha gravado muitos discos, é uma cantora de palco, sabe? É uma cantora que no palco ela diz muito mais ao que veio, é uma cantora que tem luz própria. Porque a pessoa que já viu um show dela sabe, ela tem uma presença muito forte.

New Sound Brazil, assim como outros discos da Bossa Nova, nunca foi lançado em CD, dá a sua opinião para mim?

Eu tentei lançar esse disco em CD, em uma série na Universal, que chamaria Preciosidade. Esse e mais outros, eram trinta discos e esse era um deles, mas infelizmente essa série foi abortada, por mil e uma questões assim, a gravadora perdeu o interesse em disco de catálogo. E também porque a gente não tem quase lojas de disco hoje em dia, é uma crise realmente enorme. Para você vender mil discos hoje é um parto, de disco de catálogo, parece que não, mas é! Então se você lança trinta discos de uma série e você só vende duzentos de cada vez, os estoques ficam abarrotados e as gravadoras ficam desesperadas. O que fazer com esse estoque? É impressionante! Parece que mil discos em um país de duzentos milhões de pessoas, parece nada, mas as pessoas não compram. Quem não tem dinheiro compra no camelô e quem tem baixa da internet. As pessoas não tem mais hábito de ir a loja de disco, vai na rua não tem uma loja de disco, então não dá para vender disco. O que acontece é isso, muitas vezes você tem pérolas como esse disco e muitos outros. E, por exemplo, o Emílio Santiago, que é um cantor importante, não tem os discos dele em CD, está entendendo? Então isso é muito difícil, fica realmente uma questão difícil. Eu tentei relançar o New Sound Brazil, mas não consegui.

Você acha que o fato das pessoas não comprarem é a grande dificuldade para esses projetos de relançamento de discos importantes?

É, não só isso. As gravadoras que estão hoje em dia não tem dinheiro. Eles não vão ter dinheiro para fazer o marketing disso, então às vezes a coisa sai e ninguém sabe. Vai sair uma matéria no jornal aqui, outra…e acabou! Eles não têm dinheiro para fazer anúncio, página inteira no jornal ou de botar na televisão. Então às vezes as coisas saem e as pessoas não sabem, também! Então até quem poderia gostar não tem acesso. A estrutura é mais complexa do que uma pessoa que escreve em jornal ás vezes, um colega meu crítico para analisar, eu sei os dois lados. Eu sei o lado da ignorância deles por um lado, mas sei o lado prático também. Eu trabalho em gravadora já tem uns seis, sete anos. Então eu sei que muita coisa realmente não sai, porque realmente é muito difícil de vender, de vender rápido e assim, as gravadoras hoje não tem mais um suporte para esse tipo de venda conta gota. Sabe? Porque é um investimento alto que eles têm e sobram muitos discos nos estoques, aí fica difícil. Se não vende em um ano ou dois, eles tem que incinerar os discos para poder vagar espaço no estoque para eles botarem outras coisas. É uma coisa muito louca!

Obrigada Rodrigo!

Tem uma outra coisa também que eu ia falar do Booker. Quem levou esse disco para a Polydor foi João Araújo, que é o pai do Cazuza. Foi ele quem convidou o Booker e a Eliana para gravarem, tirou-os da Mocambo e levaram para Polydor.

Que era?

João Araújo que era diretor musical da Phillips, da Polydor naquela época. Década de 1960.