Elba Ramalho | AVE DE PRATA | Epic, 1979

Elbaavedeprata
Capa CÉU | Foto PAULO KLEIN
Elba Ramalho nasceu em Conceição do Vale do Piancó, sertão paraibano na divisa com o Ceará e mudou-se criança para Campina Grande, onde logo se envolveu com teatro e música. Aos 16 anos, em Campina, encenou Morte e vida severina, mesma peça onde mais tarde se destacaria, 14 anos mais tarde, em especial para a TV, sempre combinando atuação e música. Ainda adolescente, foi baterista do grupo de rock As Brasas. 
Foi o teatro que deu impulso sua carreira de cantora, quando se mudou para o Rio e tornou-se atriz da Ópera do malandro, de Chico Buarque, e teve sua gravação de “O meu amor” (em dueto com Marieta Severo) incluída no disco de Chico (de 1978) e na Trilha da Ópera. O passo seguinte foi “Ave de prata”, onde gravou outra de Chico (“Não sonho mais”, da trilha do filme República dos assassinos, onde fez uma ponta), “Kukukaya” de Cátia de França, com guitarra do estreante Lulu Santos, “Canta coração” coautoria do amigo e produtor Geraldo Azevedo e a faixa-título do seu primo, Zé Ramalho. O disco foi seguido de Capim do vale (1980) e Elba (1981), enfileirando sucessos e fazendo da “cantatriz” uma das vozes mais populares do Brasil. 
tiraelba

FAIXAS

CANTA CORAÇÃO
Geraldo Azevedo e Carlos Fernando
NÃO SONHO MAIS
Chico Buarque
VEIO D’ÁGUA
Luis Ramalho
RAZÃO DE PAZ
Novelli e Márcio Borges
BAILE DE MÁSCARAS
Pedro Osmar
AVE DE PRATA
Zé Ramalho
KUKUKAYA (JOGO DA ASA DA BRUXA)
Cátia de França
CARTÃO POSTAL
David Tygel e Cacaso
O DIA DO CRIADOR
Walter Franco
BODOCONGÓ
Humberto Teixeira e Cícero Nunes
FILHO DAS ÍNDIAS
Vinicius Cantuária

FICHA TÉCNICA

Direção artística
JAIRO PIRES
Direção de produção
CARLOS ALBERTO SION e GERALDO AZEVEDO
Direção musical
GERALDO AZEVEDO
Regências
PAULO MACHADO e FRANCIS HIME
Técnicos de gravação
JARDEL LEÃO, ANDY MILLS e EUGÊNIO CARVALHO
Mixagem
ANDY MILLS
Montagem
ALENCAR

Elba Ramalho

Você sempre foi ligada a poesia, livros, teatro. Por quê, Elba?

Porque quando eu tinha quatorze anos eu era uma menina muito rebelde. Detestava a escola e detestava português. Eu entrei na sala de aula e tinha uma mulher muito rígida, que é um fenômeno da literatura paraibana que se chama Elizabeth Marinheiro dando uma aula de português que eu me recusava a assistir, mas aí ela estava com um poema no quadro chamado “Evocação do Recife”, de Manoel Bandeira. E a sala estava toda dividida em cadeiras e estava se criando ali um jogral. Eu achei aquilo tão interessante, eu aprendi a gostar de português e de literatura a partir daquele instante. Eu virei a solista do jogral declamando Bandeira, em seguida poemas de Cecília Meirelles, Tiago de Melo, Ascenso Ferreira, Oswald de Andrade, Maiakovski, Brecht. Então, dos quatorze, o tempo que eu morei na Paraíba eu só andava com rapazes, escritores. Hoje um cineasta, outro é escritor, o outro é professor de literatura. Eu era a única atriz, que na época eu fazia um teatrozinho amador e eu aprendi a gostar de livros e eu não fui uma menina de boates, nem de roupas de grife. Eu andava toda maluca, o oposto da minha irmã, que era loura dos olhos verdes e usava vestidos. Eu não, gostava de chinelão, calça rasgada. Quer dizer, eu tive outra formação, assim, no sentido da arte, de entender a arte e de entender o compromisso com o que é bom, com as coisas boas. Com um bom papo, com uma boa leitura.

Isso te levou a se tornar atriz. Antes de cantora você participou de Morte e vida severina.

Quando eu tinha dezesseis anos encenei Morte e Vida para João Cabral, que é uma das coisas mais incríveis do meu currículo, e a gente produziu uma semana de cultura. Porque entre quatorze e vinte e um anos, a época que eu fiquei na Paraíba, toda a efervescência cultural de Campina Grande estava praticamente sob o nosso comando. Éramos jovens. Braulio Tavares era um jovem intelectual, pretendendo ser cineasta. O mais culto de todos, o cara que nos ensinava. Ele falava e a gente “cala a boca, o Braulio está falando”, a gente aprendia muito com o Braulio. E Morte e Vida Severina caiu nas minhas mãos. João Cabral foi pra lá pra participar da semana de cultura e a gente apresentou pra ele. Depois, por coincidência a Globo fez um especial, em cima do poema que eu amo até hoje. Ganhou prêmio e tudo. É isso aí. Então eu tive essa base boa, tanto quando eu fui gravar o meu primeiro disco e até hoje eu me preocupo muito com as letras.

Você está dando voz ao texto, vida aliás, não voz.

É. Eu não sou uma cantora, eu sou uma cantriz. Eu sou uma pessoa que coloco o teatro a frente. Quem entra no teatro sempre é a atriz. O olhar primeiro, o desejo de conquistar, de pegar a cena toda. Eu fui baterista, também, de banda de rock. Só que é o seguinte, junto de você eu jamais ousaria dizer que sou uma baterista. Mas eu digo só pra tirar onda.

Mas você toca ainda?

Toco, um pouquinho, mas toco.

Nos seus shows você toca?

O que eu tocava era rock e assim, hoje eu ouso um samba, um sambinha assim. Não, eu fiz um show uns anos que eu toquei, uma vez no Jô Soares, ele me fez sentar numa bateria e tocar. Morrendo de vergonha!

Você tinha um grupo chamado, As Brasas. Como é que era esse grupo? Era só de garotas?

Só de meninas. Então, eu entrei no auditório um dia e vi uma com o sax, uma com uma guitarra, uma com um baixo e um teclado. E eu fiquei olhando assim, falei: vocês estão fazendo o quê? “A gente quer fazer uma banda.” E uma bateria assim, eu disse: e quem vai tocar aquilo ali? “Ninguém, a gente não tem ainda, não.” Eu falei: pois me dê um tempinho que eu vou tocar.

Foi assim, simples?

Não, não foi tão simples. Você é baterista e sabe que não se aprende bateria do dia pra noite. Mas eu tive uma facilidade pra coisa! Peguei os garfos e facas em casa e fiquei enlouquecendo a família! E tinha uma banda chamada Banda de Rosil Cavalcanti na Paraíba e eu meio era apaixonadinha pelo baterista e ele começou a me dar umas dicas e rapidinho eu aprendi o necessário. Peguei, entrei na banda. Minha família entrou em pânico, porque realmente eu não tinha afeição pelo estudo. A afeição veio pelo teatro quando começou na sala de aula. E o meu negócio era desde criança, voltando ainda pro Sertão, minha família chegava tinha um pano montado no quintal de casa, um bando de menina fazendo texto que eu inventava. Quer dizer, eu gostava da coisa desde os sete anos, seis anos de idade. Aí eu virei baterista de uma banda. Meu pai e meus irmãos não queriam de jeito nenhum, porque achava que eu dispersava nos estudos, me levaram pra João Pessoa. Me tiraram literalmente da história do teatro em Campina Grande. Em João Pessoa eu fiz outra banda chamada, The Golden Girls. Foi quando eu conheci Zé Ramalho.

É seu primo.

Meu primo, mas a gente não tinha intimidade. Eu sabia que eu tinha um primo que era guitarrista de rock, que era um cara que tinha uma cabeça louca. E as meninas da minha banda, The Golden Girls, eram as irmãs dos músicos, dos Quatro Loucos, que é a primeira banda de rock do Zé. Então Zé veio fazer a direção musical dessa banda. Essa banda era muito melhor que as meninas. Eram bem melhores! Mas meu pai foi de novo lá e me tirou de novo. Querendo me tirar do palco e me trouxe pra Campina Grande. Aí não teve jeito, eu engrenei no teatro.

Seu pai não queria que você fosse musicista?

Ele era músico. O meu pai está com 93 anos, foi músico de orquestra, foi parceiro de Zé Dantas, que é parceiro de Gonzaga. Agora, meus irmãos mais velhos eram mais rigorosos do que meu pai. Meu pai morava no Sertão. Ele era atualizado pelos meus irmãos. “Ela não está indo a escola. Ela agora só quer saber de uma banda… ela vive em cima de uma bateria. Vamos dar um jeito nessa menina. É uma ovelha negra. É uma menina problema da família. Ela se veste diferente, ela tem o cabelo assim… ela não quer saber…” Sabe, era tudo diferente. Todo mundo queria dormir cedo, eu pulava a janela de casa e ia pro bar com meus amigos; eu era totalmente marginal nesse sentido. Falavam tudo de mim.

Contra cultura, basicamente, né?

Basicamente. Vinha pela contramão. Eu fiquei famosa na Paraíba como a Bibi Ferreira da cidade. Esse foi meu histórico entre bateria e teatro, eu virei atriz. Mas também conheci João Cabral de Melo Neto, conheci Jorge Amado promovendo semana de cultura, fiquei à frente dessa coisa cultural da cidade. Campina é uma cidade cultural, mais do que João Pessoa. Ela até hoje mantém uma grande tradição nessa história.

Essa foi uma base muito boa pra você, mas não foi só isso. O que que você ouvia lá em Conceição do Piancó? Que tipo de música você ouvia? Luiz Gonzaga, obviamente Jackson, mas o que mais?

Ah, se ouvia de tudo. Meu pai tocava saxofone e violão. A gente ouvia Dalva de Oliveira, ouvia os repentistas cinco horas da manhã. Nas festas que a gente chamava de samba, a gente ouvi muito forró, mas também, a gente ouvia Pixinguinha, Ismael Silva, Ataulfo Alves, Vicente Celestino, Augusto Calheiros. Sei tudo desses artistas, por causa do meu pai, meu irmão. E outra coisa, meu pai tinha uma orquestra da cidade que ele tocava. Então quando eu aprendi a tocar bateria, que chegava no carnaval, às vezes eu pegava, mandava o baterista sair e eu entrava. Ele me ensinou a dançar, ele me mostrou a música. E chegou o momento que ele viu, quando eu disse que vinha embora pro Rio, que eu tinha quase vinte e um anos. O Quinteto tinha me conhecido e o Quinteto precisava de uma atriz que cantasse. E eu vim mesmo.

Como referência, né?

Como referência. Então a gente ouvia Capiba, imagina os frevos pernambucanos clássicos! Mas eu me lembro muito de Isaurinha Garcia, Dalva de Oliveira tocando na Difusora, a rádio. Agora o primeiro disco que eu comprei, ainda no Sertão, foi de Caetano Veloso. Primeiro disco dele, o que tem “Tropicália”. A gente estava no camarim da Sandra de Sá, que fomos fazer o DVD dela e eu disse: “Caetano, o primeiro disco que eu comprei na vida foi o seu.” Ele me segurou assim, afetuosamente, mas quando apareceu a Tropicália eu fiquei louca.

Por quê?

Por eles, por tudo. Pela postura, pela estética, pela revolução nas capas de disco e pela música. Foi muito forte pra minha geração. Gonzaga, eu não podia nem dizer que Gonzaga não era referência. Gonzaga é o ícone, o rei, mas ele pra mim era lugar comum, porque eu estava com ele todo dia. Eu queria o diferencial, eu queria o João Gilberto no violão. E a Tropicália foi muito forte, mas quando eu fui me firmando como artista eu vi que era Gonzaga mesmo quem me dava régua e compasso.

E como é que apareceu convite pra você participar da Ópera do Malandro aqui no Rio de Janeiro? 

Foi uma história, também. Essa é uma passagem na minha vida que eu acho muito forte. A força que eu tenho no meu interior é o que me mantém viva e bem até hoje, porque eu vim com o Quinteto, fizemos um mês de espetáculo, não foi tanto sucesso, malharam bastante na crítica, mas ficamos um mês no Teatro Casa Grande. E depois eles voltaram. O mesmo ônibus que eles vieram, eles voltaram. Eu falei: não, eu vou ficar. Porque eu já trouxe uns discos na mala com a intenção de ficar. Quando eles foram embora, eu fiquei sozinha no Rio, olhando pra um lado e pro outro, não conhecia ninguém, nada, tinha pouco dinheiro. Então começou a minha luta. Me integrei com o grupo de Luis Mendonça, conheci Alceu Valença no baixo Leblon, Carlos Fernando, fui conhecendo Geraldo Azevedo através desse grupo de teatro. E depois de quatro anos nesse grupo de teatro com Mendonça, apareci bastante. Eu me lembro até que fui capa do Pasquim, porque eles achavam que eu e Tânia Alves éramos, assim, um fenômeno no palco. Então eu estava na praia de Ipanema caminhando, quando Sérgio Brito me viu e disse: “ei, você não é aquela atriz do Mendonça?” Eu disse: “sou.” Ele disse: “eu sou Sérgio Brito, prazer, eu estou produzindo uma peça do Chico Buarque, chamado A Ópera do Malandro e a gente procurou muito você pra fazer um teste, pra um personagem.” Eu disse: “mas rapaz, cadê o negócio? Aonde é?” Ele disse: “o telefone do diretor é esse.” Era o Luis Antônio Martinez Correia, irmão do Zé Celso. Eu já larguei, enrolei meu paninho, fui pro orelhão, né, na rua e liguei pra ele, falei: “eu sou aquela atriz do Mendonça, deixa eu ir aí por favor fazer o teste. Deixa eu ir, deixa eu ir”. Fui, convenci o cara. Só saí da casa dele depois que eu cantei, depois que eu peguei o violão e toquei “Assum Preto”. Não tinha nada a ver com Ópera do Malandro, mas ele me ligou dias depois e disse: “olha, o personagem é seu.” E aí foi um ano com a Marieta, foi o meu encontro com Chico Buarque. A gracinha que é Chico, o anjo que é Chico. E acabei estreando minha carreira cantando no disco dele. “O Meu Amor” com a Marieta.

Você e a Marieta, cantam isso, não é?

Foi a minha estreia. É o meu divisor de águas literalmente. Primeira gravação da minha vida! Um ano depois a produção pede pra eu ir até o camarim. Eu já fui me tremendo, achando que eu estava com uma coisa errada, que eu tinha feito alguma coisa errada, de comportamento e não era. Era que Chico queria convidar a mim e Marieta pra gente cantar no disco dele que foi aquele da samambaia [Chico Buarque, 1978]. O Chico foi bacanérrimo comigo, realmente. Aí veio o Ave de Prata depois.

Mas antes desse convite da CBS, você chegou, assim como seu primo Zé Ramalho, a dormir na praia, dormir em casa de amigo. Passou por esse momento de dificuldade aqui no Rio de Janeiro?

Muito, muito…Os primeiros anos então, depois do Quinteto…. Primeiro eu fui morar na casa de um casal. Porque quando o quinteto foi embora, eu fiquei na Rua Aires Saldanha, que eu sabia que era a rua em que morava Carlos Drummond de Andrade. Eu era fã de Drummond e tinha declamado Drummond nas minhas produções paraibanas. E eu com a mala, assim, olhando de um lado pro outro, eu digo: “mas rapaz, eu fiquei nessa cidade. O que é que eu vou fazer, pra onde é que eu vou? Eu não conheço nada.” E aparece um casal pra se despedir do Quinteto. Quinteto estava saindo, assim, do ônibus. “Ei, você é aquela menina que fez o show, a feira?” Eu falei: “é, sou.” “A gente veio dar um abraço, a gente é fã do Quinteto.” Eu falei: “estão indo embora”. Ainda conseguiram falar tchau. Aí ele olhou “e você não vai, não?” Eu disse: “não, eu fiquei aqui, vou tentar minha carreira de atriz”. Aí: “você conhece alguma coisa?” eu disse: “não, não conheço ninguém, não. estou conhecendo vocês agora. Vocês podiam me dizer o que é que eu faço?” Cara, eles ficaram assim, houve um constrangimento. Um olhou pro outro e disse: “olha, a gente acabou de casar, a gente não tem muito dinheiro, mas a gente mora em Santa Teresa. E se você quiser ir pra nossa casa…” eu fui, fui pro apartamento deles. Eu falei, “eu vou ocupar o menos possível a casa de vocês, porque eu quero conhecer gente, eu quero me virar na cidade”. E aí eu comecei a me virar. Mas passei muita fome, muita fome! E foi uma época que tinha dia que passava três dias sem comer nada, só um pão com ovo. Eu achava muito dinheiro na rua. Achei muito dinheiro! Eu ia pro baixo Leblon, aí perdia o bondinho de Santa Teresa, que tinha uma certa hora que ele parava. Então não tinha onde dormir. Aí eu ficava no posto nove, a gente levava uma cervejinha, juntava uma turma. Vamos ver o nascer do sol? Vamos. O nascer do sol era pra ver, e agora o café da manhã vai ser aonde? Muitas vezes eu tentava subir Santa Teresa e dormia. E o bondinho subia e descia, eu dormindo. E ficava esperando dentro do bondinho. Mas passei muito perrengue, sim, passei muito perrengue. Porque eu engrenei numa história de teatro, que era um teatro mambembe. Às vezes a gente ia encenar Vivo Cordel Encarnado ali no Brigite Blair em Copacabana e não tinha ninguém. A gente parava, ia pra esquina chamar o cara do boteco, o porteiro, mas a gente não deixava de fazer o espetáculo. Então, eu aprendi isso e até hoje eu sou assim. Graças a Deus eu tenho um grande público, mas se não tiver ninguém no meu show, eu vou subir com a mesma serenidade, felicidade. Se eu tiver cem pessoas, dez pessoas eu vou fazer com mais vontade ainda, porque são aquelas dez pessoas ou cem, sei lá duzentas que vieram me assistir. Essa é a minha escola.

O que você aprendeu desse momento do teatro mambembe? Porque é o que você já falou, não tem muito dinheiro, né?

Aprendi a ser artista.

Como?

Assim, não tenho luxos, nem vaidades, nem egos. Eu deixo ego bem debaixo do tapete, porque eu venho de uma história que eu construí “step by step”, mesmo. Não vi, não apareci logo nas capas de revistas, nem virei estrela do dia pra noite. Ao contrário, eu fui massacrada pela crítica, fui pisoteada de todas as maneiras. Pelo preconceito, pelo distanciamento que existe entre a cultura nordestina e os muros inúmeros que separavam essas culturas, separavam o país literalmente. Graças a Deus com o passar do tempo isso caiu.

Mas tinham muitos na época…

Tinha e o desconhecimento total do que é baião, coco, maracatu, caboclinho, xote, vassourinha… Mas eu fui uma pessoa que causei um impacto na época, uma revolução, assim, tipo; tem uma menina nordestina, que ela não se sabe se ela é roqueira. Ela canta forró, mas ela se comporta como se ela fosse a Janis Joplin. Então eu apareci assim. Me chamavam de Tina Turner, eu não sabia nem quem era a Tina Turner. Então eu aprendi a ser artista assim, porque hoje, se eu for fazer um show no Canecão ou em qualquer lugar e o palco tiver sujo, eu vou limpar o palco. As pessoas ficam: como? Eu pego a vassoura e venho varrendo pra tirar aquela sujeira. “Elba tem imprensa aí, você tá louca!” Eu digo: “Bicho, eu aprendi a construir o cenário”. Então eu sei o que é. Eu sei que o artista verdadeiro é aquele que não vive do glamour da arte, ele vive da essência da arte. Ele faz aquilo porque ele gosta de fazer, tenha ele dinheiro ou não. Tenha ele reconhecimento ou não. Então as pessoas às vezes acham até: “Nossa, você nunca mais foi no Faustão, você não está mais na mídia”. Estou, faço vinte shows por mês, tenho o meu público. A gente aprendeu a sobreviver a essas coisas que acabam se tornando secundárias pra quem é verdadeiramente da arte. A gente é, a gente faz o que a gente tem que fazer, no tempo que a gente tem que fazer por amor àquilo que a gente faz. Eu aprendi isso.

Eu vou ler uma declaração aqui sua de 1979 na época que o Ave de Prata foi lançado. Essa entrevista foi concedida ao Jornal O Globo. “Do ponto de vista estético e cultural o meu trabalho é político, porque é novo com formas novas. É um grito com muita força um trinado de pastorinha nordestina, mas tem características universais, é progressista. Tudo isso leva meu canto a princípio, a assustar as pessoas, porque não é preparado tecnicamente para consumo.” Queria que você comentasse.

Eu estou ratificando, estou assinando embaixo disso aí. Eu concordo! Olha, no panorama brasileiro onde existem as maiores cantoras do mundo, certamente também estão aqui nomes como Elis Regina, como Gal Costa, como Maria Bethânia, Elizeth Cardoso, Isaurinha Garcia, Linda Batista, Dalva de Oliveira, um monte de gente incrível, aparece uma menina fazendo um disco desse, quebrando totalmente o protocolo, o tabu. Cantando de um jeito totalmente diferente, que era o que eu sabia fazer, o que eu podia fazer naquela época. Ao mesmo tempo que existia o Nordeste ali gritante em mim, existia uma postura totalmente rock in roll, botava o óculos, declamando Braulio Tavares, falando de Maiakovisk, falando de Morte e vida severina. Era atriz misturado com cantora. Eu achava que ninguém ia me entender mesmo, de fato e que iam me jogar mesmo no matadouro. Mas eu só tomei consciência disso depois, literalmente.

Tá dando pra entender por que que você causou essa estranheza. Porque você tinha vários componentes que as outras cantoras de sua geração não tiveram, não é?

Não, e eu só fui lapidando. E o barato é que depois do terceiro disco, quando eu lancei meu quarto disc,o Alegria, que eu ganhei o meu primeiro disco de ouro, primeiro disco de platina e o teatro Casa Grande começou a fazer fila. Eu fiquei praticamente dois meses em cartaz. Nessa época a gente ficava em cartaz. E o crítico de uma das grandes revistas que eu não sei se foi Veja ou Istoé disse assim: “Elba põe veludo na garganta e arrebata o Rio de Janeiro”. Quer dizer, mais ou menos as palavras dele. Realmente ali eu já estava com mais firmeza no canto, porque eu não vim de escola nenhuma de nada, eu não sabia nem se eu sabia cantar. Eu entrei e cantei ousadamente Walter Franco, Vinícius Cantuária, Novelli, Geraldo Azevedo, cantei Zé Ramalho, cantei Chico Buarque. Eu vinha e declamava textos incríveis no palco!

Nos shows, entre as músicas?

Completamente. E esse espetáculo do Casa Grande eu me vestia de pastorinha. E descia, e ficava vinte minutos fazendo pastoril com a plateia, como se faz lá no Nordeste. Quer dizer, aí depois veio outro show, outro show e outro show e depois veio capa de Veja, Canecão por três meses. Recorde de público do Canecão até hoje. Casa lotada, as pessoas nem sabiam nem o que é que elas iam ver, mas sabiam que tinha uma menina, que tinha um cenário que era mais hollywoodiano do que qualquer que se faça hoje, vamos dizer assim, era ousada. Eu tinha a coisa do teatro comigo, então eu não queria fazer show, queria fazer espetáculo. A cada show eu vinha com uma proposta nova, com uma ideia nova e fui amadurecendo o canto. Hoje quem me ver cantar fala: puta, é outra cantora. Mas foi bom, porque eu aprendi junto do público, errei junto do público.

Vamos voltar um pouquinho pra gente entender. Você, na época, estava trabalhando como vocalista na banda do Zé Ramalho.

Foi. Eu fiz os vocais do disco. Eu, Amelinha e Terezinha de Jesus, nós fizemos os vocais todos daquele disco. Primeiro disco do Zé. O primeiro todo o vocal, inclusive eu ouço minha voz nos vocais inteiros, que ela tinha muito “punch”, ela tinha muita pegada e já se destacava. Quando o Zé foi montar a banda, aquela coisa; “Pô, Elbinha, vai fazer o vocal?” Eu digo: “vou”. Então alguém da CBS assistindo o show do Zé olhou pra mim e disse: “quem é aquela moça ali?” Aí Carlinhos Sion falou: “puxa, é prima do Zé, ela é uma ótima atriz, não sei o quê.” Aí o cara disse: “vamos fazer um disco com ela”. Caí de gaiata literalmente no navio. Eu gravei o Ave de Prata, assim, sem saber direito o que eu queria fazer. Te digo isso, mas tinha uma preocupação danada que ficasse bacana, que tivesse uma coisa política, sei lá, se tem. Eu disse isso achando que tinha.

Conceito desse disco é pastorinha nordestina, você disse isso. E a empresa também chamava você também de uma garota do agreste nordestino…

Me conceituavam de tudo. Eu fui chamada de Janis Joplin da Caatinga, de Rita Lee do Sertão, de Edith Piaf.

Mas isso era bom!

Era bom, porque só me comparavam com Yma Sumac, eu não sabia nem quem era Yma Sumac. Lá vou eu comprar disco de Yma Sumac pra ver onde é que eles me identificavam com aquela mulher. Era isso aí.

Por outro lado tem tudo isso, tem uma coisa agreste nordestina, mas tem uma pegada pop que você mesma está confirmando, né? Você já estava antenada com muita coisa que acontecia aqui.

Tem Lulu Santos nesse disco, que era guitarrista do Vímana. Eu ia ver tudo que acontecia, sabia tudo que estava acontecendo no teatro e na música. Era antenadíssima. E fui ver o Vímana, fiquei louca por Lulu. Eu falei: “ei, cara, eu sou nordestina, estou gravando um disco. Você não quer ir tocar uma guitarra lá, não? Você é demais!” Ele disse: “eu vou”. E foi e a guitarra do “Cucucaia” é dele, eu vinha com aquele negócio do rock, também, que tenho até hoje.

Que tem? Desde o primeiro disco?

Desde o primeiro disco. Pegada… e a postura em si. Então eu me lembro do primeiro show que as pessoas iam ver e ficavam isso “o que é isso? quem é?”. Eu conquistei muita gente, muita gente me segue desse disco até hoje. E hoje o barato é que você vai lapidando, você vai firmando. Então eu me misturei muito nessas coisas todas e até hoje eu tenho essa consciência de que a arte não é separatista, tudo converge. Cada um na sua história. Mas uma vez eu dei uma entrevista dizendo que eu era fã dos Titãs e era fã de Bob Dylan. Aí o repórter começou a rir, ele meio negligenciou. Essa coisa separatista da consciência da mídia sobre nós artistas, ela se transformou ao longo dos anos porque o Nordeste era uma coisa menor e hoje não é mais. As praias do Nordeste não serviam aos ricos. Hoje, todo mundo sai, deixa de ir pras Bahamas pra ir pra Trancoso, pra ir pra Porto de Galinhas, pra ir pras praias do Ceará. Então, é o que eu te digo: os muros caíram, os preconceitos acabaram. Aí vieram outros movimentos bacanas no Nordeste, como Mangue beat, Chico Science, Lenine. E só foram ratificando. E o Luiz Gonzaga, hoje é moderno pra caramba!

Vamos falar um pouco do repertório? Várias dessas canções que você gravou devem permanecer no seu setlist até hoje, né?

É. Deixa eu ver aqui. “Canta coração” e “Não sonho mais”, eu regravei agora lindamente, há uns 6 anos com Chico. É uma gravação belíssima, ele cantando comigo. Ele fez pra um filme e o personagem era um travesti e ele queria que fosse minha voz. Então tá lá. Essa é uma música também que todo mundo ainda pede bastante. “Veio d’água”, parei de cantar, mas deveria resgatar, porque é linda, poética. Luiz Ramalho é um compositor incrível, foi parceiro de Gonzaga em muitas músicas. “Razão de paz” eu não tenho a menor noção do que seja, não me lembro de uma vírgula. “Filho das índias” não me lembro. É uma música do Vinícius Cantuária. “Ave de prata”, do Zé. “Cucucaia”, que tem a participação de Lulu Santos. Fantástico na guitarra! “Cartão postal”, David Tygel e Cacaso, cara! David Tygel era vocalista daquele grupo Boca Livre. “O Dia do criador”, do Walter Franco que tem os tambores. E tem “Vem Bodocongó”, de Humberto Teixeira e… Ainda canto, Bodocongó. As pessoas pedem muito pra eu cantar “Ave de prata”! O público pede.

Quando pedem, o que que você faz? 

Eu canto. Às vezes eu cantarolo, assim, uns pedacinhos. Mas é muito incrível. Hoje quando eu pego o microfone e canto dois tons abaixo, no tom da Elizete Cardoso, vamos dizer, “Doce de coco”, e vejo o que eu desenvolvi como cantora sem ter feito aula de canto, eu fico orgulhosa de mim. Assim, de ter tido a disciplina que eu tive pra poder me manter. Viver no país que eu vivo e ter o meu espaço. Eu acho que isso já é uma benção. E te digo uma coisa assim, interessante, sobre a minha carreira. Fiz muitos shows fora do Brasil e sempre fui muito ovacionada pela crítica lá fora. Nunca tive uma crítica ruim fora do Brasil. Aqui eu tive muita dificuldade de me firmar…

Por que você acha?

Eu acho que porque tem uma coisa de preconceito com nordestino. Não consigo entender. Eu fui conquistando a crítica ao longo dos anos. Eu vi vários jornalistas me pedirem perdão dez anos depois. Depois de escreverem coisas terríveis sobre a artista Elba Ramalho, cinco anos depois, ou seis anos depois eles escreviam crônicas; Elba me perdoe. Então, não se desespere, a crítica, ela é importante pra que você possa refletir sobre seus equívocos. Às vezes ela é cruel demais. E tudo isso eu passava rezando. Chegava em casa eu chorava, rezava. Me ajoelhava, rezava por aquela pessoa, por aquele crítico que estava falando mal e assim eu consegui sobreviver. Então todas as pedras que eventualmente eu tenha recebido, eu construí castelos lindos com elas. Minha vida é uma grande história e um grande aprendizado. Então, hoje eu não tenho problema nenhum, eu circulo por todos os meios.

É interessante o que você está falando, porque é até um termo que a imprensa usou muito, segundo a leva da música nordestina. Ou seja, segundo o bando de gente que chegou do Nordeste com uma proposta, com um monte de influências e questões artísticas assim.

Elementos novos, não é?

Fala um pouco dessa geração que você pertence, Elba, porque vocês tinham uma cabeça, como você já está dizendo aqui várias vezes, tinha a cabeça muito aberta pra tradição, quanto pra modernidade. E fundia tudo, todos vocês fizeram isso, todos esses que eu citei. Fala um pouco dessa geração.

Então, eu acho que a gente veio de uma formação universitária. Porque nessa época a visão que as pessoas tinham do Nordeste era um lugar onde só tinha cangaceiro, eu acho, e cobra pelas ruas. Não, eu venho do Sertão, mas eu passei pela cidade grande, eu passei por duas universidades e passei por um convívio cultural, assim, que me deu uma base, um respaldo intelectual que me fez pensar, me fez agir. Me fez saber, conhecer outras coisas. E nossa geração chegou cada um trazendo não só o que Gonzaga tinha trazido. Gonzaga tinha trazido a verdadeira essência, o verdadeiro povo do Nordeste estava na obra de Gonzaga. A dor e a alegria do nordestino está na obra de Gonzaga. O canto dos pássaros está na obra de Gonzaga. A seca, a chuva, a vegetação, o apoio do vaqueiro, tudo, tudo, tudo que é dolente, que é feliz, que tem na nossa alma, no nosso povo Gonzaga já tinha trazido. Jackson do Pandeiro trouxe a sua escola de improvisação.

O Jackson tem uma coisa que eu acho que todos vocês têm. Tem muito suingue e tem uma eletricidade. Todos vocês, cada um do seu jeito.

Jackson é uma escola. Todos eles são escola. Eu destacaria Jackson e Gonzaga, lógico.

Você ouviu ele muito?

Muito. Inclusive, meus primeiros discos deve ter ele aí na ficha técnica. Não sei se esse primeiro, mas segundo, terceiro, quarto, Jackson estava. Uma das últimas músicas que ele compôs, ele deixou comigo que era o “Som da sanfona”. E me dava muita dica de como dividir. Sempre me dizendo que eu primeiro cantasse dentro da base, porque ele improvisava muito. Ele tem uma coisa de quebrar, que hoje a gente faz. Assim, não como ele. Que ainda digo que como ele ninguém. Um mestre. Eu escuto Jackson do Pandeiro hoje e fico impactada, surpreendida com a sua capacidade de improvisação, a sua capacidade rítmica.

Essa geração é muito importante. E acho que, na minha opinião – na opinião de muita gente – é responsável, você principalmente, por quebrar esse preconceito que havia do Sul em relação, não só ao Nordeste, mas outras regiões brasileiras. Da cultura, da musica, da maneira como as pessoas se vestiam e falavam, entendeu?

Eu cheguei na Zona Sul carioca. Gonzaga tinha chegado até então em São Cristóvão pelo preconceito, pras pessoas não entenderem muito o que era o Nordeste. Quando começaram a entender e viram que o Nordeste também podia usar sapato alto, roupa bacana e ter um ar meio, assim, underground, vamos dizer assim, eles começaram a abrir as portas. Na verdade o Canecão era cheio quando eu fiz popular brasileira, fui capa de Veja e era fila! Meu Deus, eu fazia dois shows na noite, se deixasse. Era pra ver um artista que eles não tinham visto, ainda, na música. Eles tinham grandes cantoras muito melhores que eu, mas eles não tinham aquilo do palco; que subia, que descia, que dizia um texto e daqui a pouco vinha vestida assim, depois dançava e jogava a perna, e tocava bateria, e pegava o violão. E o povo ficava assim: “Nossa, é uma coisa essa menina! Não sei nem o que é que ela tá cantando direito, mas esse maracatu dela é bom!” Mas aí foi bom assim, e cada um foi dando a diretriz a sua carreira que quis. Eu, fui persistente, gosto do Rio, a cidade me adotou, eu adotei a cidade. E eu tive a proeza de gravar em trinta anos, trinta discos, e fazer praticamente um show por ano.

Isso é uma marca, espetacular.

É. E conquistei meu público que se renova, graças a Deus, a cada dia. Parece uma benção do céu, eu vou fazer show tem milhares de crianças e adolescentes. Eu digo: “eu nem estou indo no Faustão, nem estou indo em lugar nenhum. Mas, por que que essas pessoas estão aqui?” Não sei se é a própria natureza da música que atrai. Mas, também, a gente era muito unido. Eu morei com Geraldo Azevedo, um grande músico. Talvez dessa safra nordestina seja um dos melhores instrumentistas e eu tive o privilégio de ficar a melhor amiga de Geraldo. Antes de cantar, gravar o meu primeiro disco, eu já morava com Geraldo, dividia apartamento com ele. Então eu aprendi as músicas dele, eu toco um pouco de violão, aprendi muito com ele. E a casa da gente era cheia desses músicos todos que eu já falei. Então, Chico Buarque.….

Te ajudou no repertório?

Muito, ajuda até hoje. Todos eles me ajudaram. A gente vivia muito junto! Na época a gente fazia nossas loucuras juntos em casa, tocando, compondo, contestando politicamente a situação do caos que o país passava; da economia equivocada. A gente era muito politizado nesse sentido. A minha grande alegria é ter conquistado amigos, ter dividido o palco com Dominguinhos, com Gonzaga, com esse povo todo. Revelei muitos compositores. Fui a primeira que gravou Carlinhos Brown, fui a primeira que gravou Chico César, fui a primeira que gravou Vinícius Cantuária. Eu tive, assim, o tino de muitas coisas bacanas.

Sempre teve, não por acaso a gente começou essa entrevista com você falando sobre o futuro. Você tem uma visão, você olha pro futuro sempre, não?

Eu olho pra tudo, graças a Deus. Por exemplo, Lenine. Lenine era meu amigo. Eu hoje olho a obra de Lenine e digo, mas como eu fui burra. Lenine trazia todas as músicas que ele compunha primeiro pra me mostrar. E eu gravei muito Lenine, falava de Lenine. Eu não entendia como Lenine não cabia na música brasileira. Até que Lenine coube e coube com competência e com direção certa. Então, também tive o privilégio de ter sido a primeiríssima a gravar Lenine, Braulio Tavares. E andar com essa turma, o privilégio de ter essa turma do meu lado. Pessoas inteligentes, competentes, que foram me guiando. Porque esse disco é um disco importante, mas ele é muito cru, é uma obra ainda muito crua. Sempre gostei de cantar os outros, porque eu sei que eu tenho uma autocrítica muito grande pra poesia e pra música. Vai eu escrever um poema diante de Carlos Drummond de Andrade, eu já rasgo o meu na mesma hora ou boto na gaveta e digo, não vou. Então, sou muito exigente com essa questão. Então me acompanhei de bons parceiros e sobrevivi. E tem uma coisa, também, que eu acho que eu conquistei o meu grande público, que foi o palco. Todo mundo vê meu show e sabe que vai ver um show, sabe que eu sei como fazer a cena e é forte, é divertido, a minha música é alegre. Pronto.

Desde o primeiro disco você falou que que você conquistou fãs que vão aos seus shows até hoje. É um disco importante na sua carreira.

É, tem fã clube, o Ave de Prata. Mesmo que eu repudie, de certa maneira, porque eu digo, não, não essa cantora! Chega, não quero mais ouvir. Como normalmente quando passa o trabalho você ouve e diz: caraca, podia ter feito melhor. Eu tenho que relevar também a importância dele, porque ele me colocou no panorama da música brasileira num momento em que mais de trinta vozes apareciam, inclusive, Sandra de Sá, Joana. Eu sou dessa geração. Uma das coisas, assim, que me fez, me motivou a seguir adiante, foi uma declaração de Elis Regina dada numa reunião de intelectuais e músicos em São Paulo. Um falava da Sandra de Sá e outro falava da Marina, outro falava não sei quem. Daqui a pouco ela disse assim: quem vai ficar na música brasileira é a nordestina, Elba Ramalho, porque ela não imita ninguém, ela tem a história dela, ela veio dizendo o que que ela quer fazer. Daqui pra frente ela vai deslanchar.

Carlos Alberto Sion

Vamos começar falando do disco Ave de Prata, de 1979.

Bom, falar sobre o disco Ave de Prata é um momento muito especial pra mim, porque eu pude produzir um disco de uma pessoa que era amiga, na época, que a gente tinha um grupo que saía socialmente, convivia nas festas no final dos anos 70 em Ipanema. Conheci a Elba nos palcos. Elba trabalhava com o grupo do Luiz Mendonça, grande diretor de teatro. E Elba era amiga da Mônica Schimidt, uma outra atriz amiga nossa em comum. E uma ocasião fui assistir o espetáculo em cartaz e entendi que a Elba tinha algumas qualidades diferentes além da atriz. Ela era cantora, ela era intérprete, ela tinha uma força diferenciada do resto do elenco. E a gente começou a conversar sobre o que eu estava fazendo, quais eram os projetos. E na ocasião eu estava terminando o segundo disco do Zé Ramalho, que era A peleja do diabo com o dono do céu. E a gente acabou coincidentemente passando o final do ano em João Pessoa na casa de um compositor amigo, que era o Luiz Ramalho, e a Elba pegou o violão e começou a cantar algumas músicas que ela gostava da infância dela. E eu naquele momento senti que a gente tinha condições de fazer um trabalho juntos, porque a companhia a qual tinha me contratado pra montar um cast estava precisando de cantoras. A gente já tinha algum número grande de cantores e de compositores, mas estava abrindo um espaço pra cantoras. A gente combinou uma reunião no Rio de Janeiro, essa reunião foi feita. Eu fiz uma proposta de um projeto pro disco, que era um projeto com compositores do Brasil inteiro, não era um projeto regional, porque havia ainda um preconceito sobre cantores que cantavam ritmos regionais ou que tinham um sotaque muito carregado. Eu achava isso uma bobagem muito grande e achei interessante mostrar a versatilidade do intérprete. Foi como foi feito. Nesse disco a Elba, ela canta desde “Ave de Prata”, música título do Zé Ramalho, como ela também tem canções do Novelli com Márcio Borges, ela tem uma música do David Tygel com Cacaso, que foi um grande poeta, escritor brasileiro, já falecido. E ela apresenta também a oportunidade de mostrar a nova safra de instrumentistas e compositores que estavam surgindo no país, e que não tinham um canal, não tinham um voz que pudessem divulgar. Então esse foi um momento especial pra nós dois e eu acho que com sucesso.

Quando você escutou essas músicas de infância que ela cantou no violão, você se lembra o que que era?

Não, na realidade nesse encontro na casa do Luiz Ramalho, que até entra com uma música chamada “Um veio d’água”, que é uma música muito bacana, Elba cantou “Bodocongó” que é musica do Gilberto Teixeira. Cantou alguns clássicos da música Popular Brasileira.  Enfim, foi um repertório ocasional, final de tarde. Uma coisa descompromissada, bem sarau mesmo. Mas aquilo marcou pra mim, porque mostrou que eu teria condições de fazer um disco com recursos que me daria a chance de apresentar um projeto maior.

Até então ela era conhecida só como atriz?

Ela tinha uma carreira de atriz. O momento desse disco foi momento que definiu, foi quando eu convidei o diretor da companhia CBS, na época, que foi um grande parceiro, que era o Jairo Pires, pra nós assistirmos juntos a Ópera do Malandro. Na Ópera do Malandro Elba cantava a música “Terezinha”. Após a peça nós saímos pra jantar e o Jairo falou: olha, Elba o convite que o Carlos Sion fez pra você tá confirmado. Vamos gravar o disco o mais rápido possível pra aproveitar que você está no Rio de Janeiro e temos disponibilidade de estúdio.

E essa safra que está batendo nas rádios de outros artistas nordestinos, Fagner, Zé Ramalho que você já tinha trabalhado. O que que você como produtor achou de especial neles?

Na realidade eu fui convidado pela CBS, através do Jairo Pires pra montar um núcleo novo na companhia com selo Epic, que era um selo da companhia já internacional que apresentava novas propostas, artistas que estavam emergentes e que estavam saindo pro mercado. Mas não necessariamente era um cast regional, porque ele tinha artistas como Fagner, ele teve o Pepeu Gomes que é da Bahia, ele teve o Walter Franco que é um artista paulista e enfim, não era centralizado só em relação a um artista do Ceará, um artista da Paraíba, um artista de Pernambuco. A ideia é que eu tivesse esses recursos pra produzir os artistas que eu sentia que tinham um espaço no mercado, nesse mercado novo que estava surgindo.

O que que esses artistas que eu citei, Elba, Zé Ramalho, Fagner tinham de comum e incomum na arte deles?

Bom, o comum ou próximo era que coincidentemente no final dos anos 70 nós frequentávamos os mesmos bares, íamos dançar na Estudantina. Tínhamos uma vida ligada tanto a show, quanto a teatro. E, também, basicamente morávamos perto. Fagner estava morando, nesse momento, em Copacabana, Geraldo Azevedo morava em Ipanema, Elba morava em Ipanema e a gente conseguia, a gente se encontrava. O Zé Ramalho também estava morando em Copacabana nesse momento. Nos bairros próximos. Nos encontrávamos no Leblon, Ipanema, nos encontrávamos na praia. Então, a gente tinha uma relação também social, o que era bacana, porque rolava um sarau, as pessoas cantavam, trocavam ideias. Isso mantinha uma dinâmica de grupo que foi super produtiva naquele momento pra que a gente pudesse alcançar o que a gente conseguiu, que foi renovar e abrir um novo espaço pra grandes intérpretes consagrados hoje na Música Popular Brasileira.

Aqui fala que houve uma crítica na época a respeito do timbre pouco incomum, assim, de pastorinha, da Elba. Houve isso? Como é que receberam isso?

É, na realidade comenta-se muito que havia uma certa estranheza. Havia até um comentário meio pejorativo que eu acredito. Começou com o Fagner e com Elba no sentido que eram vozes de taquara rachada. Na realidade isso era um desconhecimento total das linguagens da canção popular brasileira; do repente, do cordel, do pastoreio. E ao mesmo tempo, também, dos cantores da Península Ibérica, do pessoal de country music americano. Enfim, é uma forma de expressão, é uma forma do canto. E que também teve ecos coincidentemente entre o primitivo e o rock. O rock, o pop internacional, se você reparar, por exemplo, cantores como a Janis Joplin, e como o Rod Stewart, obviamente você vai ver que eles têm timbres diferentes, eles não são um cantor como o Mário Reis ou como o João Gilberto, como um cantor de bolero ou um cantor de balada formal. Eles têm uma personalidade própria, eles têm uma forma de emissão diferente e que passou por cima desse preconceito mostrando que tem o seu talento.

Como é que foi essa história de dividir a função com Geraldo Azevedo? Aconteceu isso?

Na realidade o disco Ave de Prata é uma produção minha. Eu produzi o disco, dirigi em estúdio. Geraldo fez a direção musical do disco. Eu fiz a produção musical, colaborando com os arranjos. E a direção no estúdio, dividida, compartilhada em relação a cantora. A Elba estava gravando Chico Buarque, paulista carioca, Vinícius Cantuária, cantor radicado no Rio de Janeiro, de origem amazonense. Você tinha o David Tygel, carioca, você tinha, enfim, o Márcio Borges. Então você tinha compositores diferentes, com estilos musicais diferentes de compor. Nós procuramos ter uma forma de trabalho que a gente ensaiava e ia por estúdio, que ela pudesse sair com naturalidade, não uma coisa formal, uma coisa mecânica. Então com isso eu contei muito com a presença do Geraldinho, assim, como a Elba, pra que esse trabalho no estúdio rendesse da forma como a gente preparou o projeto.

A gravadora investiu nessa contratação de instrumentistas, de muitos músicos e instrumentistas renomados. Teve um investimento e por quê?

Acontece que existia uma época, na época dos anos 70, 80, até uma parte dos anos 90 existia a indústria cultural. Então os produtores, eles eram produtores, eles não tomavam conta de estúdio, nem eram técnico acessório. Eles tinham uma proposta, um projeto… E ao mesmo tempo, quando você tinha esse projeto, você tinha um orçamento, você conversava com a empresa, você conversava com o diretor, ele dizia pra você: “olha, pra esse projeto eu posso gastar determinado valor X reais de produção. E posso prever uma verba adicional ou pra show, ou pra publicidade”. Algumas vezes era um orçamento para o disco, somente. E após o disco sair, eram anexados, eram adicionados algum orçamento alternativo para que pudesse ser cumprido essa nova etapa de shows. Não todos, alguns. Então, em certos discos, praticamente os discos que eu propus, que estavam acontecendo no mercado, eu fui prestigiado, eu apresentava resultados com Fagner, com Zé Ramalho, com Amelinha e a sequência vinha sendo feita, pelo fato de que eram projetos que obedeciam um cronograma, os custos de produção eram cumpridos. Então a gente tinha esse crédito em poder realizar os projetos sem intervenção, sem uma redução de custos no meio do projeto. Então eu pude, eu tive um orçamento específico com o Ave de Prata, eu pude contar com os melhores músicos disponíveis no Rio de Janeiro e também participações especiais, por exemplo; eu tinha o Dominguinhos e o Jackson do Pandeiro tocando na mesma gravação. Você vai vendo ao decorrer do disco, em cada faixa você têm excelentes instrumentistas tocando. Você vai se surpreender em ver que um disco, que eventualmente teve uma repercussão, na época, média, ele foi acontecendo. Hoje é um disco, um catálogo raro e é considerado um dos melhores discos da carreira da artista.

Como é que foi escolhido o repertório? Quem escolheu?

Eu tive um voto de confiança da Elba em apresentar novos compositores e ao mesmo tempo propor os arranjadores. Foi feito tudo em comum acordo.  A gente obedeceu um plano de gravação. Se pensou que era um disco de música popular brasileira, não era um disco regional. Era muito importante aquele momento pra afirmação como cantora e também pra desmitificar essa coisa de uma cantora de forró, uma cantora de baião. É uma cantora. Ela canta uma canção, ela canta uma balada, ela canta um samba, ela canta um choro-canção. E podendo, em algum momento, usar todos os recursos como cantora e intérprete nessas músicas.

Apesar de pender naturalmente para o sotaque musical nordestino da cantora, houve a intenção de universalizá-la? Você já respondeu, eu acho.

Não existia uma ideia em nenhum momento de querer mudar o estilo da cantora ou de universalizar o trabalho, nada. Existiu só uma preocupação. Ela gravou as músicas que ela gostava naquele momento, que ela sentiu que ela poderia interpretar legal. Então esse foi o único cuidado. Como eu falei a você, nós nos encontrávamos todos. Era uma época muito especial no Rio de Janeiro em que as pessoas se encontravam, tinham lugares, tinham saraus. Então isso interagia todo um processo de criação. Então, com isso você teve a oportunidade de fazer um trabalho de música popular brasileira, não era restrito a um estilo musical.

Que faixa você destaca como as melhores do disco? Quais são suas preferidas?

Uma das canções que eu mais gosto é a música “Ave de Prata”, que é tema do disco, porque ela tem uma linguagem, ela é uma composição muito boa. Ela tem um arranjo excelente, que é um arranjo que trafega entre as cordas de viola de aço e violão, e um arranjo de corda belíssimo escrito pelo Paulo Machado. Um compositor e arranjador que trabalhou em vários projetos conosco. É autor de arranjos como “Vila do Sossego”, como “Admirável Gado Novo”, “Ave de Prata”. Escreveu belos arranjos e que nessa música, particularmente ele pode mostrar a Elba como uma grande intérprete. Não só a cantora, mas agregando elementos à composição e que pode mostrar esse lado virtuoso quanto intérprete.

Você disse que o resultado do disco foi médio. Isso por causa da vendagem?

Acontece o seguinte, naquele momento da indústria, ainda não se sabia muito como é que eles iam tratar esse novo produto, esse novo nicho, porque eram apostas novas, não tinha o mercado formal e os artistas todos estavam começando a carreira. Então vários discos, eles foram acontecendo depois de uns dois ou três anos de lançados e mostram que são discos que permanecem hoje em catálogo. A maior parte deles. Discos que vendem sempre. Eles foram justamente opostos à preocupação de fazer um disco que vendia, naquele momento e depois estava descartável. Então, viraram produtos com qualidade, discos com qualidade, que ficaram eternos. Quer dizer, obviamente, no ano que foi lançado, ele não estourou imediatamente. Ele teve um tempo de assimilação, um tempo da aceitação do mercado. Embora que as críticas foram espetaculares e as primeiras duas tiragens saíram da loja imediatamente. Então, o estouro do artista, ele foi vindo gradativamente.

Você acha que foi uma boa decolagem, no ano de 1979, em que várias outras cantoras eram lançadas, como Ângela Rorô, Marina Lima, Zizi Possi, Simone e Fátima Guedes?

Nesse ano do lançamento, logo em seguida, coincidentemente, a peça Ópera do Malandro foi um sucesso. O disco foi muito bem aceito pela crítica. Imediatamente ele girou nas lojas, ou seja, permitiu uma segunda, uma terceira e uma quarta tiragem. E imediatamente a Elba foi pros palcos fazer show. E, também, esse segmento de mercado através dos migrantes pra todas diversas regiões do Brasil, dos nordestinos, eles puderam encontrar uma voz com algumas canções que estavam tocando nas rádios, com que eles se identificassem. Além, saindo um pouco dos guetos, que eram os bailes, eram os forrós, eram as feiras. Então eles tinham artistas que estavam o representando. Artistas que tinham eventualmente um sotaque e que cantavam músicas que traziam um pouco das regiões deles, aonde eles estavam baseados.

Você acha que esse disco foi um disco importante na carreira da Elba ou foi só um primeiro passo?

Esse foi, segundo a imprensa, o disco mais importante na carreira dela. O primeiro disco e foi que lançou ela no mercado. Essa afirmação não é minha, é uma afirmação da crítica, dos jornalistas. Porque permitiu mostrar que existia uma novo caminho, que era o caminho da cantriz. Eram uma atrizes que eram cantoras e que tinham recursos, além do palco como atriz, que poderiam gravar um disco e ter uma carreira também como cantora.

Você concorda com a crítica, qual sua opinião?

Na minha opinião nem todas cantrizes tiveram sucesso. Tiveram sucesso em termos de show, porque a coisa é complicada. Nós somos um país muito grande. É muito difícil você fazer uma turnê de Norte a Sul, sem que você tenha apoio da indústria fonográfica e sem que você tenha um suporte, um patrocínio, seja do Ministério da Cultura, seja da iniciativa privada, através dos patrocínios das empresas que apoiam, porque você vai se defrontar com equipamento, com as passagens aéreas, que são muito caras no Brasil; e a estrutura toda pra fazer show; hotel, transporte interno, músicos. Então o que diferenciou, que rapidamente, se o disco fez sucesso, ele gerou mais recursos que puderam ser investidos pela indústria. E ao mesmo tempo, também nesse período, você tinha projetos muito interessantes acontecendo no Brasil, de itinerância, como o Projeto Pixinguinha, como o Projeto Seis e Meia, que hoje absolutamente já não existem ou são decadentes.

Na gravação, no estúdio como é que era o clima, esse povo todo passando por ali, os instrumentistas, como é que foi isso?

A gravação foi praticamente uma comemoração do sucesso de uma relação pessoal profissional. Eu pude dividir esses encontros com todos os músicos com quem a gente convivia na cena. A gente tinha o Dino, que era um grande mestre de violão de sete cordas. Um homem que impôs uma marca ao choro, compositor. Você tinha o Jackson que se identificou, também paraibano, se identificou com uma nova voz do estado dele que gravava e que é permitir, também uma renovação dos estilos. Você teve o Chico Buarque que aprovou o projeto, foi uma pessoa importantíssima pra Elba, que convidou ela pra peça e que teve próximo quando o disco saiu dando um apoio, expressando elogio pelo trabalho dela como cantora. Porque ainda existia preconceito na época da atriz que cantava. Porque não existiam muitos musicais no Brasil.