Dori Caymmi | BRASILIAN SERENATA | Qwest, 1991

brasilianserenata
Capa JOEL NAKAMURA
Dori Caymmi começou aos 16 anos, tocando piano para sua irmã Nana Caymmi. Depois de passar pelo conservatório e pelo exército, formou um trio com Marcos Valle e Edu Lobo aos 18 anos, e assumiu a produção musical da Phillips, lançando discos de Nara Leão,  Eumir Deodato e o primeiro de Gal Costa e Caetano Veloso. Dirigiu musicalmente ainda as peças-manifesto “Opinião” e “Arena conta Zumbi”. Suas parceria com Nelson Motta, “Saveiros” e “O cantador” ganharam o  Festival da Canção em 1966 e 1967. Lançou 3 discos pela EMI-Odeon entre 1972 e 1980, enquanto trabalhava com trilhas para a TV e cinema.
Em 1989 fixou-se em Los Angeles, assinando com a gravadora Qwest, de Quincy Jones. Brasilian serenata, produção de 1991, dividiu o Prêmio Grammy de World Music com seu contemporâneo Milton Nascimento. No disco de elenco estelar, entre novos temas, uma conversa musical com seu pai, Dorival Caymmi, na gravação de “Você já foi à Bahia” e “Pescaria” entremeada pela dedicada “To My Father”.
TIRAGENERICA (1)

FAIXAS

AMAZON RIVER
TRÊS CURUMINS (THREE YOUNG INDIANS)
THE COLORS OF JOY
MERCADOR DE SIRI (THE CRAB PEDDLER)
NINHO DE VESPA (BEEHIVE)
TOUCAN’S DANCE
FLOWER OF BAHIA
VOCÊ JÁ FOI A BAHIA? (HAVE YOU BEEN IN BAHIA?)
Dorival Caymmi
TO MY FATHER/
PESCARIA
Dorival Caymmi
HISTÓRIA ANTIGA (BRASILIAN SERENATA)
THE DESERT/
THE WRAITH

FICHA TÉCNICA

Sax Alto
TOM SCOTT
Baixo
ABRAHAM LABORIEL, ARNI EGILSSON, DAVID STONE, JERRY WATTS, JAMES JOHNSON
Fagote
RAY PIZZI
Violoncelo
DAN SMITH, ERNIE ERHARDT, LARRY CORBETT, SUSIE KATAYAMA
Bateria
CLAUDIO SLON, MICHAEL SHAPIRO
Flauta
TOM SCOTT
Violão
DORI CAYMMI
Teclados
DON GRUSIN, FREDDIE RAVEL
Percussão
PAULINHO DA COSTA
Piano
DON GRUSIN
Trombone
BILL WATROUS
Viola
DAVID CAMPBELL, HERSCHEL WISE, JIMBO ROSS, ROBERT BECKER
Violino
ARMEN GARABEDIAN, BERJ GARABEDIAN, CLAYTON HASLOP, DIMITRIE LEIVICI, DON PALMER, EZRA KLIGER, GINA KRONSTADT, JOEL DEROUIN, MEG ZIVAHL-FOX, PETER KENT, RALPH MORRISON

Dori Caymmi

Eu trouxe isso aqui só pra te explicar como é que funciona esse programa… Não sei se você chegou a ver…

Eu já vi várias vezes, várias vezes.

Ele é um mini documentário de um disco importante para a música brasileira.

Mas aí não tem nenhum…

Você que pensa. E quando a gente estava conversando com o Canal Brasil, a gente estava discutindo as nossas listas; tem esse primeiro seu pela Odeon. Inclusive tem um som extraordinário, essa gravação é muito boa… Daí a gente propôs. O pessoal falou: eu gosto desse, mas eu prefiro o Brasilian Serenata. Então vamos fazer Brasilian Serenata. Que também foi atrás de ouvir. Ontem eu ouvi ele a noite toda, sem parar; ouvi, ouvi, ouvi… E depois… eu gosto de ficar com os discos por perto, porque se você quiser fazer uma citação tá aqui na mão, entendeu?

Tá certo, pode falar, eu não tenho problema nenhum, não…

Tá aqui na mão…

doricaymmi1972

Agora, você vê que esse disco aqui [Dori Caymmi, Odeon, 1972], esse disco é tão antigo, o meu filho não era nascido, aqui meu filho. Olha aqui o tamanho dele. Esse cabeçudo aqui é meu filho. Pô, ele já tem… sei lá, ele já tinha quatro anos, cinco anos. Tem tempo, ele já está com 36, 37, sei lá.

Esses aqui ainda estão inédito. Eu nunca vi isso em CD…

Eu que quis botar essa fotografia por causa do “Desafio”.

O que que é aqui? [Dori Caymmi, EMI-Odeon, 1982]

doricaymmi1982

Isso aqui é aquela história do Sagarana aquela coisa. Eu fiz uma música com o Paulinho [César Pinheiro] chamada “Desafio”. “Éramos eu e um cavalo no seu galope macio”, não sei o quê… Aí eu estava vendo no departamento de arte e achei essa fotografia. Eu falei: que tal você inserir esse troço na minha cabeça? E aí eu gostei muito dessa capa. E é um negócio que essa música “Desafio” que está aí, até foi abertura de uma novela da Globo. Não que isso tenha muita importância, mas…

Qual delas?

Novela das seis chamada Terras do Sem Fim, do Jorge Amado. É sobre a época do cacau, aquela mortandade lá, aqueles assassinatos todos por tocaias, né? E aí essa Desafio foi pra essa…

Esse aqui é o último pra EMI, né? Você gravou três, não é?

Aliás eu gravei mais um que foi lançado por eles chamado “Tome conta do meu filho que eu também já fui do mar”. Que é só canção praieira do meu pai, só de violão. Isso é produzido por…

Também é raro…

É raríssimo. Isso é raríssimo até pra mim. Eu acho que eu tenho um em casa, se tiver. Em casa que eu falo é pertinho daqui em Los Angeles.

Que lugar em Los Angeles você mora?

Eu moro no Valley, no San Fernando Valley numa cidade chamado Woodland Hills. Que lá não tem bairro, né, são cidadezinhas. E o meu chama Woodland Hills. Faz frio no inverno e um calor insuportável no verão, porque é perto do deserto. Perto do Mojave ali, então o negócio é feio, quarenta e cinco… quando faz calor, faz calor.

Faz calor pra caramba.

Lá eu tenho ar condicionado central, então graças a Deus, eu posso sobreviver.

Lá é calor mesmo. A gente pode fazer assim, vê o que você acha. A gente queria aproveitar que está com você aqui, que você está aqui no Brasil e que a gente também não tem dinheiro pra ir lá onde você mora. Mas isso é uma produção independente, senão a gente já teria ido te buscar lá. Tem que aproveitar quando você vem. Porque esse disco do teu pai, a gente tá querendo fazer um episódio com o teu pai há muito tempo. Então um pouquinho da entrevista que a gente se dedicar a isso, a gente tem um episódio do seu pai também. A gente bota seu irmão, bota sua irmã, e aí a gente já faz um episódio com o seu pai, entendeu?

Claro…

Que sem vocês, também, não faria sentido a gente falar do Dorival sem falar com vocês, né? Inclusive essa capa é incrível, né?

São umas coisas assim, do tempo… Esse disco… deixa eu ver se ele é… Esse é original.

Esse é originalzaço. César Vilela na capa, que você deve conhecer. E eu trouxe em CD.

O diretor artístico ainda era o Aloysio de Oliveira nessa época, não sei se está escrito aqui.

Mas acho que é da época dele…

É ele mesmo, tá aqui, Aloysio de Oliveira. Alias, eu ouvi ele outro dia cantando. Ontem passaram o especial do Walt Disney. Eu não sei se foi no Globonews ou se foi o Canal Brasil. E aí estava passando um especial e quem canta “Aquarela do Brasil” era o Aloysio de Oliveira. Eu falei, não precisava… quase que eu ligo e falei assim: Não precisava!

Ele morou perto de você no final da vida?

Não, não, o Aloysio… nós tínhamos um problema sério com o Aloysio, eu pessoalmente. Tem umas histórias engraçadas a respeito. Porque ele era tão amigo do velho que ele receava ao meu estrelato. Ele, Rubem Braga, os amigos, assim, de privada do velho. Eles olhavam pra mim; o único sujeito que me olhava… os dois únicos sujeitos que me olhavam, assim, observando que eu tinha talento, essa coisa toda, era o Tom e Luizinho Eça. É, eu fui copista do Luizinho Eça um tempão e tal, pra ganhar uma grana bela de violão. E depois o Tom Jobim que me botou debaixo do braço e eu aprendi muita coisa.

Te apadrinhou.

É. Agora os outros tinham muita raiva. O Aloysio era assim, não era raiva, ele tinha prevenção. Mas era uma coisa normal, porque era aquele grupo novo chegando e o filho do amigo. Dava aquele branco. E aí…. tem até uma cena engraçada; minha mãe perguntou pra ele assim: “O Aloysio, o Dori transou com alguma mulher sua? Tem algum outro problema?” (risos) Mamãe era meio direta, deu-lhe uma pedrada.

Deu logo uma…

É. Mas ele, essa fase do velho, que eles têm mania de orquestra, não sei o que, não é bom, não. Quer dizer, eu gosto muito Canções Praieiras, eu acho que é um grande disco! Que é o disco que…

Aquele dez polegadas?

É. É a cara dele, que ele cantava as músicas do mar e ele tocava um violão e tal. Esse é o Encantamento…

Você acha que esse é o trabalho…

Esse aí do meu pai, sem dúvida alguma, não tem nada melhor do que Canções Praieiras. Ele deve estar aí nessa coleção…

Da sua irmã… Eu tenho esse dez polegadas.

Porque esse é o que impressiona. Toda a magia vem desse disco aí. A minha formação. Engraçado que lá em casa é o que mostra durante essa coisa toda, é que a Nana gosta muito do samba canção, o Danilo gosta muito do Samba, eu gosto da Canção Praieira. A Canção praieira tem uma magia, tem uma coisa que…

Define isso pra gente, Dori, pra quem não é da praia, quem não é da Bahia, inclusive.

Papai é uma peça rara. O Vinícius dizia, o Caymmi não tem nada antes, nada depois. E um homem solitário na música do Brasil. Porque até o jeito do samba dele, tudo. Agora a canção do mar me fascinava, porque ele tinha uma coisa com a sereia, com o pescador, com essa coisa toda. Com a aquela vida perigosíssima, que a gente não acredita que seja, mas o cara sai com aquela jangada com água no joelho, vai a dez milhas da costa pra pescar, pra sobreviver. E a puxada de rede e juntando isso ao Carybé e ao Jorge Amado, essa é a Bahia que eu conheci. Pra mim essa é a grande impressão, a grande primeira impressão. Tanto que eu escrevi um verso quando ele tem “Canoeiro”. “O canoeiro bota a rede, bota a rede no mar…” [canta] Eu escrevi um verso que eu cantei, eu fiz uma música, uma canção pra abrir esse troço. “No quadro, na branca parede, na minha lembrança, um mar de três cores se chega pra areia querendo abraçar… E na beira, rainha sereia, senhora das águas sorri pro meu pai…” Isso tem uma força. Aí o Danilo ouviu e chorou. O Danilo é meu termômetro. Quando ele ouve essas coisas assim, aí volta essa coisa do mar. “O mar quando quebra na praia, é bonito, é bonito…” Ou então, “A jangada saiu com Chico, Ferreira e Bento… A jangada voltou só…” E toda essa coisa, eu ficava criança olhando com a cara espantada e tinha um programa no rádio e eu não conseguia dormir enquanto não ouvisse o programa. Então não havia jeito, nem com a tapa da mamãe que doía pra diabo, mas eu queria ouvir. Era “Lã Sames” — era uma lã que tinha na época — “apresenta Dorival Caymmi”. Era um programa do Antonio Maria. E ele abria tocando violão e cantando: “É doce morrer no mar…” Eu ficava doido com aquilo. Então eu fiquei ligado ao mar e fiz esse disco que integra uma raridade que é Tome conta do meu filho que eu também já fui do mar, que é o nome de uma das músicas dele, que é parte de uma das músicas… [cantarola] Então essa coisa ficou dividida nos filhos bem clara.

É? Teu passou isso pra vocês?

Não, não. Eu não acho nem que ele queria que a gente fosse músico.

Ah, não?

Não, por causa dos problemas que isso acarreta, porque ele tinha receios de competição, possivelmente das pessoas cobrarem você ser “A”, “B” e “C”, filho de, né? O Tom teve esse problema com o Paulinho [Jobim] e muitos outros vão ter com seus filhos e tal. E ele ficava receoso. Então ele não passou, ele não incentivou ninguém a fazer nada, não, pelo contrário.

É?

A minha mãe queria que eu fosse militar, fosse capitão, major, tenente-coronel, a carreira militar. Eu falei: “hum… querias!” E o velho não se metia, não dava nenhuma opinião a respeito. E a gente nunca pode participar da composição, assim, da ideia dessa coisa; não eu vi ele fazer. Não, ninguém via, ela não deixava nem…Ninguém se manifestava em casa. Era um silêncio danado. Depois que estava pronto, então ele mostrava pra ela. Primeira audição era a mamãe sempre. Mas ele nunca disse assim: “faça”. E me deu estudo de piano. Eu acho que foi mamãe que tomou a providência. E me botou no Observatório Lourenço Fernando na época. Foi a minha velha, sempre. Estudei piano com a dona Lúcia Branco: “tira esse menino daqui que ele não sabe nada. O negocio dele, ele vai ser arranjador e tal, mas não vai ser música popular, não vai ser clássico de jeito nenhum.” E ela era professora do Moreira Lima, do Jacques Klein, de Tom Jobim mesmo, né? E eu fui pra assistente dela, toquei um pouco de piano. Dona Nise Albino, foi professora do Nelson Freire. Ele aprendeu tudo e eu nada. Mas, aprendi, mas não a ser pianista clássico. E aí a gente tinha tanto problema com essa coisa da importância do velho, que eu só peguei no violão sozinho aos 15 anos, que eu comecei a aprender sozinho comigo mesmo. Eu e eu e a observar o João [Gilberto] e o Baden [Powell] principalmente. Às vezes ia tocar o [Luís] Bonfá, eu via na televisão olhava pra mão, assim, pra ver que acorde ele estava fazendo. Depois eu pegava o braço do violão examinava, ia tocando os acordes eles se repetiam em outras tonalidades ai mais tarde Menescal me deu o nome, aquele a sétima com não sei o que foi Roberto Menescal que me ensinou. Eu já sabia música, mas não sabia aquela cifra, aquele troço. Agora daí, pronto a família cada um foi pra um lado, a Nana foi pra Venezuela, eu comecei a fazer arranjo e tal. Aí comecei, eu fui o último da minha geração a fazer disco, também. Esse disco que você tem aí o preto e branco [Dori Caymmi, Odeon, 1972]. Esse foi de 1971, eu acho.

Vamos ver.

Dá uma olhada, eu acho. Esse foi o primeiro. Não sei nem se eles têm data, porque nessa época…

Alguns não têm.

Não e não tinha crédito pra nada, né?

1972. 

72. Esse disco foi lançado na mesma época que o Milton Nascimento já estava no terceiro ou no quarto disco e ele estava lançando aquele Clube de Esquina que foi um estourão no Brasil. O Milton apareceu ali com Beto Guedes, Lô Borges. Com todos esses compositores de Minas, Clube da Esquina.

Clube da Esquina.

Esse disco aí e eu tinha um cabelo preto nessa época.

Mas antes dele você já tinha feito muita coisa importante, né?

Eu tinha trabalhado, eu comecei muito cedo. Eu comecei a fazer o grande teatro do Fernando Torres, Fernanda Montenegro. Era muita gente, Mário Lago, Italo Rossi, Sérgio Brito. Era muito bom. Me deu uma cultura nova, cultura do teatro, aquela coisa do ator, do script, de ler, de começar a me interessar por literatura mais séria. Evidentemente eu já tinha lido Jorge Amado de cabo a rabo, porque eu adorava os livros do Jorge. Mas aí fiz esse troço, aí tocava com a Nana [Caymmi] na televisão, comecei a acompanhar cantores. Depois eu comecei a ser produtor da Phillips primeiro.

Você fez vários discos na Phillips, né?

É. Eu não era nem o produtor do disco, era uma espécie de supervisor que haviam compartimentos Armando Pittigliani, Osmar Navarro, João Melo. Sabe assim, vários que eu me lembro. Eu e tinha um de São Paulo que eu acho que é o Barenbein, Manoel Barenbein. E a gente supervisionava. Então eu fiz algumas coisas com o Eumir e o Durval Ferreira, Os Gatos. O Luizinho Eça com o Tamba Trio, Luiz Eça e Cordas.

Você está nessa produção.

É, eu estou numa espécie de supervisão. Porque eu não acredito muito nessa de produtor sem ele agir como participante direto, né? Eu, por exemplo, nos discos que as pessoas fala que produziram que eu fiz os arranjos eu fui muito mais produtor, do que o produtor. Porque eu participo e tal. E eu acho que isso é mais importante até do que essa coisa. Agora, existe aquela coisa do produtor, o cara que organiza. Mas eu já chegava organizado. Então eu tive o primeiro do Caetano com a Gal, Domingo.

É seu violão nesse disco, né?

Eu toquei violão e fiz o arranjo de algumas músicas ali. O Menescal fez alguns arranjos, acho que o Francis Hime fez alguns arranjos. E eu fiz “Candeias” com Gal Costa, “Coração Vagabundo” pro Caetano Veloso e mais uma que eu não me lembro. Ai fiz o primeiro do Gil, que foi o maestro Carlos Monteiro de Souza…

Louvação?

É, esse é o primeiro do Gil, né? E eu me lembro que Carlos Monteiro de Souza fez a primeira parte toda do disco e eu fiz três arranjos, também. Eu fiz… o que eu mais gosto é “Meu divino São José…” “Procissão”: “olha lá vai passando a procissão…” E eu tinha muita admiração e tenho muita admiração pelo Caetano, pelo Gil. De vez em quando pinta um “Punk da Periferia”, eu fico meio brabo, mas…

Faz parte!

É, faz parte, quer dizer, tem o lado legal do entretenimento que a mim me chateia um pouco. Eu tenho um lado meio cheinho, também. E há cinquenta anos eu falo a mesma coisa, porque eu acho que isso desgasta muito a memória do Brasil. Quando muitos compositores aderem a essa sobrevivência musical, que se apegam a dar continuidade ao seu trabalho pra novas gerações, eles concedem. Aí incomoda o velho Dori. Exatamente pelo fato, não de eu censurar os caras pra eles serem péssimos, mas exatamente porque me incomoda ver um cara de tanto talento desperdiçar.

Fazendo concessão. 

Fazendo concessão. Isso ainda me incomoda muito. Por causa da minha formação, porque eu conheci as pessoas importantes do Brasil tão cedo, pessoalmente e tudo, né? Mas não é nada de pessoal contra ninguém. Eu não tenho nada, assim, absolutamente, nada contra as coisas. Agora me incomoda. Eu me lembro Caetano dizia pra mim: “Não, Dori, isso não era o show pra você ver, era o outro que era o bom pra você ouvir”. Porque já tem essa coisa e eu já fiquei famoso por essa exigência toda, né? Mas não é uma coisa pessoal, eu reconheço o talento deles, tanto que quando eu fui a Bahia e conheci lá o Gil e Caetano, eu fiz muita força na Phillips ali… Não, o Gil fez muito sucesso, o Caetano era muito mais contida a música, né, muito menos. O Gil era mais alegria, mais punk, né? Aí eu queria fazer o Caetano de qualquer maneira e eles acabaram encontrando um jeito de fazer Caetano e Gal. E foi ótimo, porque aí Gracinha [Gal Costa] apareceu também, foi ótimo, foi bacana pra burro. Aí depois apareceu a tal da Tropicália, que aí que me incomoda mesmo. Mas também nada de pessoal, não existe nada de pessoal. Existe uma coisa que eu falei pra você. Incomoda um pouco a minha… essa coisa do… pra mim é um desperdício danado. Então eu canto o que eu canto e faço o que eu faço e não sei a quem eu vou agradecer por ter sobrevivido esses anos todos fazendo o que eu gosto de fazer. Esse programa vai dar problema. [ri]

Não vai, não. Tá ótimo!

Eles adoram quando eu esculhambo.

Esse canal aqui é seu. Funciona assim. 

Não, é, mas a verdade é essa mesmo.

O canal é seu!

E esse sou eu, a minha personalidade é muito… As pessoas dizem às vezes xiita, conservador, essa coisa toda, mas nós não estamos falando de Ary, Caymmi, Noel, Pixinguinha, nós estamos falando de umas pessoas que se a gente não ficar forçando um pouco, as pessoas vão esquecer. É verdade, vão esquecer, porque tem uma Lady Gaga de dez em dez minutos. E quando eu falo uma Lady Gaga ou Beyoncé, ou não sei o que e a rapidez com que essas pessoas aparecem, e a quantidade de informações  e a quantidade de gente que elas pegam. Quer dizer, se você pega e me conta que o Milton Nascimento vai cantar com a Lady Gaga, isso pra mim seria o fim da picada! Porque eu não consigo entender o processo. Eu vi a criação deles todos meninos fazendo música e tudo. Seguindo essa mesma trilha e de repente você vê uma… Você diz assim: “eu adoro o João Gilberto, mas eu gosto também do Chubby Checker”, não sei o que. Isso pra mim dá um barato na cabeça.

Você nunca fez isso…

Não, não, inclusive, na época dos Beatles eu fui muito criticado, porque eu não ouvia. Eu aliás, ouvi um disco que eu não sei se o nome é Sargeant Pepper, eu não sei se é esse. Que tem umas orquestrações de cordas muito bem feitas.

Tem.

Que ele fala, tem uma frase… [cantarola] Agora a ideia, eu não prestei nunca muito a atenção às músicas, não. Se bem que as melodias deles são muito menos rock and roll brabo do que, né, eles têm melodias realmente, né? E tem músicas interessantes, essa coisa toda, mas eu estava numa fase de Villa Lobos, Tom Jobim, essa fase João Gilberto. É muito difícil você conseguir se libertar disso, parar pra ouvir. E o jazz, né, quer dizer, Bill Evans, Miles Davis… É uma época muito rica de informação.

Você não precisa, talvez, desse tipo, desses gêneros todos…

Não, eu sou muito conhecido por criticar esse troço. Eu não critico, eu critico a mistura, essa coisa do cara ter uma direção e de repente mudar de direção por um motivo qualquer. Eu não gosto da… pra mim é que nem o cara torcer pelo Flamengo e de repente aparecer com a camisa do Vasco, sabe qual é? Eu não sei o que que é, é um defeito que eu tenho, que não vai corrigir. Agora, então velho! Não vai ter jeito de corrigir. Mas eu tenho muita admiração pelos caras todos. Eu tenho, Edu [Lobo], Milton… Edu, por exemplo. Edu é um cara que segue a linha a vida inteira, é um compositor maravilhoso e não fez essa concessão. Entendeu, então esse meu xiitismo, ele vai perdurar, eu acho que eu vou deixar gravado no meu túmulo, também. você chega lá aperta um botãozinho e está lá gravado. Eu vou dizer as coisas todas que eu digo há cinquenta anos. [risos]

Dori tem dois trabalhos seus que eu queria comentar, ainda antes da gente prosseguir nosso papo aqui. Você foi diretor musical do show Opinião. Esse projeto é muito importante na música brasileira. Vamos falar um pouco dele.

É, eu acho que eu devia ter 21 anos, mais ou menos. E eu tinha uma admiração enorme pelo Oduvaldo Vianna Filho. E o Vianinha, a gente já se encontrava na Tupi e ele fazia uma produção também pra lá, de vez em quando com o Paulo Pontes. A gente se encontrava no tempo do preto e branco, não tinha videoteipe, essa coisa toda. E eu não sei quem foi que me chamou pra fazer o Opinião. Eu já tinha feito disco com a Nara [Leão], já tinha tocado com ela, eu acho. Também não tenho esse cronograma na minha cabeça já não funciona mais. Eu sei que eu fui produtor da Nara em dois discos e toquei violão e tudo. E a experiência do Opinião, nós chegamos ali na rua Siqueira Campos tinha um espaço com uma porção de madeira queimada, resto de obra, essa coisa toda. Então foi feito uma espécie de mutirão mesmo. E você estava, uma época que além dos artistas que participavam, nós tínhamos intelectuais assim, que eu era fanzoca e tal, gente importante pra burro. Armando Costa, Oduvaldo Vianna, Ferreira Gullar, Tereza Aragão era um time realmente brabo, né? E eu tinha muita admiração pelo trabalho deles. Começamos então a montagem disso. O Augusto Boal foi chamado pra dirigir e aí Nara, Zé Ketti e João do Vale. E foi um trabalho interessante, porque a Nara tinha uma coisa completamente diferente do Zé Keti, que tinha uma coisa completamente diferente do João do Vale. E eu tinha dois músicos amadores comigo na época que eram o Alberto Hekel Tavares tocando flauta e o João Jorge Vargas tocando bateria e eu tocava violão. E então qualquer nervoso por parte deles eu estava ali e tal. E uma coisa que acontecia sempre era a entrada de tom do João do Valle era um problema. Porque eu passava o tom pra ele e começava a cantar: “… ouricuri madurou, ouricuri madurou…” Aí ele fazia: [repete num tom maior e agudo] Ele saía noutra. E você tinha que ir atrás, os reflexos eram muito bons nessa época. [riso] Hoje eu não sei se eu faria isso, não. Se eu tinha essa capacidade de correr rapidamente e tal. Foi uma experiência muito boa, até pelo fato que a gente teve que trabalhar junto o tempo inteiro até ver a construção do teatro e aquilo tudo foi acontecendo ao mesmo tempo. E os ensaios, e a personalidade do João, do Zé Keti, da Nara.

Fala um pouquinho deles, porque você trabalhou com eles, né?

Trabalhei muito. O João, deles todos, é o inocente, assim, era aquele cara que o negócio dele era tomar uma cachaça, depois ele cantava como se fosse uma coisa normal. Assim, não se incomodava muito com a coisa. O Zé Keti era um cara mais refinado nesse gênero, assim, ele já cantava pensando na coisa e tal. E ele tinha os sambas. Por exemplo, eles usaram o “podem me prender, podem me bater, podem até deixar a gente sem comer” [“Opinião”], que não tem essa intenção direta de ser hino de partido ou nada, entendeu? Era no negócio de favela, o Zé tinha muito essa preocupação. E é um cara formidável, a música dele, era um cara mais organizado, um cara mais… Nessa época ele fazia as coisas super organizadas e tal. Foi muito bom de trabalhar com ele. E com a Nara eu já trabalhava há muito tempo. Dos três, eu considero a mais difícil de trabalhar.

É?

É, porque era mais opinionada, mais crítica do troço. A Nara era mais, tinha sempre uma coisa, assim, já tinha uma coisa de musa, sabe como é? As pessoas ficam chamando os outros de musa, isso fica um problema depois. Mas, se todo mundo falasse: “pô genial”! Assim, o que que eu vou dizer do Johann Sebastian Bach, né, porque se todo mundo é gênio, o que que vai acontecer com Debussy e Ravel, Proust, Fauré, Baudelaire… mas, enfim… Aí foi um trabalho de um menino assim e com sede de fazer. Foi muito bom! E daí vieram outras peças, que eu acabei fazendo, pra mim o melhor musical de todos que era o Arena canta Zumbi, do Edu [Lobo] e [Gianfrancesco] Guarnieri ou do Guarnieri e do Edu, como você quiser. Que espetacular! E eu conheci as… era a Vera Gertel. Aí as minhas queridas Isabel Ribeiro e Dina Sfat, duas amigas ótimas! E aí tinha Francisco Milani, outro ator que eu gostava muito, Paulo José, amigão e Milton Gonçalves, também meu amigo do peito. Aí fizemos o Zumbi, depois eu acho que eu no meio do caminho passei pro Macalé, tocar violão. Na época eu tive que fazer outras coisas e tal, e botei o Macalé na banda. Também não era nada rico, não tinha muito… Teatro nessa época era uma aventura, né, porque não tinha dinheiro e tinha muito militar querendo cortar o pescoço da gente, né? Era meio problemático, porque o Vianinha estava sendo muito visado. Ele o Armando Costa, essa turma toda era muito visada. Então às vezes a gente tinha umas visitas inesperadas, umas coisas, assim, estranhas…

Apareciam, assim, de repente?

Apareciam, não avisavam, não e nem se mostravam muito, não mas estavam por ali. A gente …

Vocês sabiam que tinha gente ali fiscalizando…

É, eu muito tempo depois eu conheci um militar que me mostrou a… Nós tínhamos que procurar um primo da minha ex-mulher, o Fernando. Ele desapareceu com a namorada. É tio da Gabriela. O Fernando desapareceu e aí eu não tinha outra solução. Eu via sempre esse cara lá no prédio de uma maneira estranha e tal. E me disseram que ele era militar e eu cheguei perto pra ver. Ele saltava armado com umas pastas e tal. E eu brincava com os filhos dele lá na Lopes Quintas. Aí um dia eu fui lá e falei com ele. Falei: “olha, sumiu um primo meu, quero achar, precisava achar”… Aí ele me mostrou, mostrou dossiê e citou nome desse, nome daquele. Eles deviam parar com esse negócio e tal. Eu digo: “é, parar, mas é uma covardia, o menino sumiu e tal. Tá, quer me prender me prende, eu só faço música não vai adiantar nada você deixar meu violão pra cela, eu fico preso à vontade, não tem problema. Agora, eu quero achar o menino e tal. A mãe está preocupada, a família está querendo saber onde está…” Aí um tempo depois ele veio com a informação que ele estava no quartel da polícia do exército na Tijuca, aí achou. Então essa época era uma época muito… Ainda levou um tempo para ele sair da prisão. Eu acho que Gabriela ainda estava pensada, ainda não tinha… [ri] Estava em projetos. Mas foi uma época mais pesada…

Barra pesada…

É, pra eles principalmente, as pessoas que se expunham mais, né? Eu me lembro depois da, eu fiz o Calabar, que não passou. “Calabar” não pode passar. Eu dirigi pro Chico [Buarque] e pro Edu [Lobo] a parte musical. Depois nós tivemos, eu acho que foi Gota d’Água. No Gota d’Água a censura chegou e aí tinha uma cena que a Beth Mendes aparecia sem roupa, assim, aquela coisa e tal do lado de cá numa cena e tal. E a censura ia chegar naquela tarde pra dar uma olhada e o Roberto Bomfim que é muito doido, apareceu nu do lado esquerdo aqui. As mulheres não conseguiram tirar o olho dele e nem viram que a Beth Mendes estava nua aqui. Que elas viram o Roberto Bomfim aí ficaram surpresas e tal. Aí passou a cena da Beth Mendes sem que elas entendessem. Então o teatro tinha muita pressão. Eu trabalhei com o Flávio Rangel, com uma porção de gente…

Você fez cinema, também. É, você fez trilha pra cinema.

Cinema eu fiz pouco. Eu comecei gravando com o Tom [Jobim]. O Tom fez Crônica da casa assassinada, fez o Tempo do mar, do Pedrinho de Moraes. E fez algumas coisas assim que ele chamava a mim, o Danilo, o Paulinho e a gente ia gravar tal, mas não era uma… Depois cinema eu fiz Sagarana, Duelo… Muito sem recurso, sempre. Música é um negócio muito difícil. Principalmente você olhando assim e ver o John Willians da pesada com as trilhas fantásticas. Aquele dinheirão que se gasta com música, esse troço todo.

Não dá pra comparar. 

E eles reclamam lá. E o som, nós tínhamos o problema das salas e o problema da gravação. Dessa época então era a nossa queixa principal. Eu participei do Dona Flor e seus dois maridos, que a trilha foi o Francis, que gerou aquela música “O que será”, do Chico, que foi um sucesso e tal. Mas eu fiz a parte do fagote, do outro marido da Dona Flor. Eu fiz um pouco o primeiro filme do Bruno Barreto. O segundo foi A estrela sobe, eu participei da trilha e o primeiro foi Tati, a garota. Eu fiz isso, também, mas não foi… E depois o último eu acho que o último que eu fiz foi pro Fabinho Barreto, que foi o Beladonna. Mas sempre com o defeito de não ter recurso pra gravar com uma orquestra bacana, com som, com tudo, né? Dá uma certa angústia isso em música.

 

Eu acredito que todas essas experiências pré, desse disco aqui, na verdade foi um grande aprendizado seu, porque aqui tem mais ou menos tudo isso que você relatou; cinema, novela, teatro, uma combinação de todas as suas experiências. E demorou, mas estreou e estreou bem pra caramba, não é?

Eu tive que fazer esse disco [1972], porque estava todo mundo gravando. Eu me senti na obrigação de fazer, não é um disco que eu… Sei lá, isso é uma salada russa. De repente não é um disco que me…

Esse aqui.

É o primeiro. Tem gente que diz assim: não, os arranjos são… Eu não acho, não, mas é muito importante ter tido a coragem…

O primeiro é sempre importante, né?

É, a coragem de fazer, numa época em que os meus contemporâneos estavam já fazendo discos e tal. Todos eles…

Praticamente já haviam feito. O que das experiências anteriores temos de tudo, produção, arranjo, composição, você já conseguiu aplicar aqui, Dori. 

Aí o arranjo, eu fui copista do Luizinho Eça por um tempo grande…

Nada mau…

É, nada mau, porque eu tinha que aprender a dinâmica da orquestra, principalmente das cordas. Que galo lindo! Adoro um galo. E aí eu fui copista dele, eu ia muito pro Leblon, ele morava lá no Canal do Leblon e eu ia pra lá e aí… e ele foi a primeira pessoa que me descobriu como compositor. Ele me dava força, me incentivava muito. Às vezes brigava com meu pai: você tem um filho que tem um talento maravilhoso! Você não sabe o que você tá perdendo! Ele peitava mesmo… E ele foi muito meu amigo e eu aprendi a ideia das cordas. Experimentei pela primeira vez na música “Candeias” com a Gal Costa e Caetano Veloso. Depois experimentei com Edu, tem o “Canto Triste” e tal. Esse disco vem, assim, depois disso tudo, de estúdio, de tudo, da influência de Johnny Mandel, do Gil Evans com Miles Davis, tem o Nordeste na minha vida, que a minha parceria primeira. A primeira parceria com o Paulo César Pinheiro, que é o “Evangelho”. Tem um arrependimento meu muito grande, porque eu tinha feito essa música pra uma peça do Oduvaldo Viana Filho. Eu tinha completamente esquecido desse troço, porque eu achava que era um exercício, qualquer coisa, não sei o que e eu mostrei pro Paulinho e ele fez uma letra e ficou, “Evangelho”. E anos depois, uns dois anos atrás veio um grupo amador de São Paulo e me mostrou a peça e aí eu fui cantar com a letra do Vianinha e é bonita pra chuchu! Aí eu fiquei, foi a minha única mancada nesses anos todos. Meu único arrependimento nessa história toda. Aí tem tudo isso aí nesse disco. Tem toda essa informação.

Que faixa você poderia destacar pra gente tocar aqui no programa? Por favor.

Nossa senhora! Eu toco “Lenda”. “Lenda” é uma coisa assim do, tem uma influência do Sertão e tem uma influência do Ravel, do Debussy… É um troço assim, estranho! Eu gosto muito dessa música, é muito esquisita. Agora, na época eu gravei com Wagner Tiso, com acho que é Novelli, Luis Alves, era um grupo que tocava muito com o Milton [Nascimento] também, eu aproveitei o embalo. Em algumas faixas gravei, outras de orquestra, por exemplo, parece um arranjo, assim de Johnny Mandel, aquela coisa da empolgação, né? Mas eu acho “Lenda” dessa safra aqui, tem esses arranjos, é capaz, se eu me lembro bem é a que eu gosto.

Pode dar uma ouvida no trecho?

Pode, claro…

Robertinho Silva! E eu acho que Novelli está no baixo. Tavito…

Tavito? É o Som Imaginário praticamente, né?

Era o Som Imaginário, praticamente… e eu tentava muito evitar esse [imita bateria] essas coisas, né? mas era quase que impossível evitar essas coisas. E foi num momento assim e tal, que eu fui meio que no embalo, no troço. Talvez até, porque o disco da época foi o … tinha um pouco esse som do Milton, assim, aquela coisa do Som Imaginário. E eu depois gravei o “Lenda” do jeito que eu queria muitos anos mais tarde. É uma história muito simples, que é um rodamoinho em um rio e tem um casal que se olha de um lado pra outro no rio sem atravessar a vida inteira. Chegavam assim, na margem se olhavam e tal, mas não aconteceu nada, não, era impossível atravessar o rio. E quando eles morreram, ele virou o rio, ela virou o moinho. Então, pronto, é essa a história da minha cabeça. E aí fiz essa música. Mais tarde eu gravei esse disco que você falou capa branca, de seis fotografias minhas pra Elektra, em princípio seria pra Windham Hill, mas eles não gostaram e me  tiraram pra corner e tal, aí conseguimos colocar nessa da Warner, não é?

É um selo muito interessante!

Dori Caymmi – É, um selo melhor que o Windham Hill pra mim naquela época, porque era aquela coisa do um fusion esquisito. Aquele, o cara… Mas enfim, e aí eu gravei nesse disco, já com um violão mais artesanal, muito mais na minha onda e menos métrico como tá aí, porque está aquele muito garotão sem experiência. [risos]

Você tem esse disco?

Eu tenho, o “2 em 1”, né? Não é só ele, só o primeiro…

Não esse aqui foi uma edição, foi um outro projeto

É, eu tenho em casa, eu tenho dois desse. Um eu comprei, o outro me deram. Eu, não foi a minha mulher que compra essas coisas. É, eu costumo ter tudo o que aconteceu comigo, que é pra … e gravar…

Tem que ter, né?

O menino que gravou o disco teve uma ideia brilhante. Essa primeira música que é o “Rio Amazonas”. Foi feita com ritmo essa coisa toda e tal. Mas a versão final, eliminando e botando… É curta, mas é a que eu mais gosto.

E tem uma outra faixa do disco que eu gosto muito, que são as duas que tem cordas. Foi um negócio muito estranho, nós gravamos na Capitol Records e aí …

Você gravou naquele estúdio histórico?

Gravei, gravei. A impressão de entrar ali é uma coisa…

Eu fico imaginando. Eu já passei em frente aquele lugar várias vezes.

Aquilo é maravilhoso! Eu gravei ali. Quer dizer, não é só entrar pra visitar,né?

Você entrou lá dentro!

É, eu gravei algumas vezes ali. Tive essa sorte e alguns outros projetos.

Interessante, porque todo mundo da sua geração que gosta disso. De estúdio, que valoriza o som do estúdio. São poucos, assim, da sua turma, né? Aquele som, né?

E uma coisa engraçada essa participação. Quando você conta com violinos, violas, violoncelos, contrabaixos. Quer dizer, uma coisa muito, algumas pessoas são suas amigas ali entre si e tal, mas é um grupo completamente estranho a você. Você chega lá e bate no troço e vamos trabalhar. E eu dei a passada, essa coisa toda e eles ficaram empolgadíssimos, que é uma coisa diferente na vida deles, assim, gravar esse tipo de música, né?

Música brasileira, no caso.

É música brasileira, mas com essa formação zangada, né? Quem gravava isso era o Tom, muito! É o Saudade do Brasil, que eu considero a melhor coisa de todos os tempos, assim, da minha vida, é Saudade do Brasil. Eu não boto muito, não, porque senão eu começo a chorar, é uma desgraça. Mas o Tom tocava isso no piano exatamente com o Claus Orgeman fez com orquestra; ele instrumentou aquilo de uma maneira brilhante. E o Tom tocava exatamente a mesma coisa, assim, no piano. Eu tinha visto isso antes no Canecão, que ele tocava num show que ele fez e tinha visto na casa dele. E quanto ouvi a distribuição do Claus, era perfeita; esse troço sempre me encantou. Agora, quando entrei na Capitol Records pra gravar o meu disco assim, com… era uma verba imensa, esse disco custou cento e tanto, uns cento e cinquenta, cento e sessenta mil dólares, sei lá, minha mulher sabe.

É um bom dinheiro pra gravar um disco, ainda hoje.

doricaymmiifever

É, e eu gastei todo o disco, o dinheiro todo! [If ever…, Qwest/Warner, 1995]

Era pra isso, né?

É. E eu gastei o dinheiro todo pra fazer uma coisa. E a entrada na Capitol, você entra assim, tem um corredor e tal, aí tem o Nelson Ridle com a Julie Garland, o Frank Sinatra, Nat King Cole passando uma responsabilidade pra você entrar ali, ne? Aí eu saí, era a minha segunda vez com experiência de orquestra no estúdio na América. A primeira tinha sido a Sarah Vaughan, com o Brazilian Romance. Aí quando eu entrei no estúdio, assim, eu não entendi nada! Eu falei: “ih, agora eu to aqui, vou reger uma orquestra americana e tem que sair direito, né?” Você pensa no erro. O copista copia normalmente o que você escreveu. Porque são dez caras fazendo um arranjo só por partes, né? Então não desconcentra. E aí, e o estúdio, aquela mágica, é um troço impressionante a Capitol Records! Ai você vem pela memória

Deve estar impregnada de uma energia, que…

E tem que…você chega do lado de fora tem um painel imenso assim na parte de estacionamento com os artistas todos que estiveram por ali: Beatles e todo o mundo. Um negócio tão… Sinatra,Beatles, Julie Garland, Nat King Cole! Todos os meus heróis juntos ali, né?

Peggy Lee…todos os cantores de jazz…

É, todos esses… a Capitol ela é tombada mesmo, aquilo é um monumento de Los Angeles, né, é uma das coisas mais.. E o fato de você poder fazer. O Cláudio Slon que era o meu batera na época, gravou comigo, muito, ele filmou com uma camerazinha; um superoito ou menos oito, não ficou fantástico, não, ficou desgastado, assim, porque é vídeo cassete, mas dá pra sentir assim, o clima do estúdio, o peso que dá o cara, que ele não se deprima, sabe como é? [ri] empurra seu ombro pra baixo. [ri] É um negócio, assim, espantoso! Foi muito bom, foi muito bom!

Primeira coisa, por que que ele é seu disco predileto? 

Olha, eu tinha saído daqui, eu vinha trabalhando pra coproduzir praticamente com o Sérgio Mendes alguns discos lá fora, inclusive o meu primeiro, o Brazilian Romance da Sara Vaughan e uns dois ou três discos dele, ou dois, pelo menos. E alguns shows. Tem um show bonito no Hollywood Bowl. Eu não gosto dos lugares grandes, mas era com orquestra sinfônica e houve uma certa má vontade da orquestra, porque como tinha muito teclado, você juntar orquestra de cordas e tal, e aquele negócio todo com teclado. Eles ficavam, então o spalla, pra protestar, botou plug no ouvido, sabe? mas no meio eu tive a oportunidade de mostrar um trabalho meu desse disco, que é o … eu não sei o nome aqui, é o penúltimo, eu acho.

É o Deserto. “The Desert”, não sei o quê… Faixa? ela começa com uma ideia do Padre Cícero, que eu tinha feito pra televisão. E no meio desse troço eu começo a entrar com as cordas, assim. Eles ficaram arrepiados, porque normalmente a reação é muito de bater com o lápis na partitura, assim [imita o som] pra te aplaudir, né? E eles fizeram questão de dizer pra mim que tava bom demais! E pra mim foi um alento, foi uma coisa legal, foi um impulso muito grande. Que eu tenho admiração pela perfeição do som, pela orquestra. Essa coisa toda.

Você gosta disso!

Gosto. Então você gravar com grandes técnicos de gravação, esses caras que são, o cara que trabalha com esse tido de música é brilhante.

Você estava explicando, Dori, pra gente por que que Brasilian Serenata é o seu disco predileto, que você mais gosta. 

É, esse disco, eu saí daqui pra ir pra lá. Eu trabalhei, como eu falei com o Sérgio [Mendes] e tudo, depois nós tivemos um split, por razões comerciais mesmo. Aquilo que eu disse pra você, eu sou um cara muito mais conservador nesse ponto. Quer dizer, a música que eu faço sou eu. Então, não importa quem goste, quem deixa de gostar, é porque é o filho que eu tenho. Você não escolhe a cara do filho. E quando você escolhe, você está fazendo uma concessão. Então essa é minha cabeça e eu discordei de várias coisas e tal, e acabei tendo problema e saí; e fiz o último show num barzinho que tinha lá, o Le Café, era do meu manager na época… Aí apareceu uma moça, fantástica, uma amiga que eu já tinha conhecido aqui, que era Louise Velasquez. E ela era da direção da Quest. E eu tinha tido uma proposta pra gravar na GVC. Então eu estava me preparando pra gravar um disco pra GVC sem pensar em morar nos Estados Unidos. Aí nós fomos fazer esse show, quando terminou o show a Louise Velasquez falou assim: por que que você vai fazer um pra GVC, vamos gravar pro Quincy Jones. Aí eu falei: claro que eu vou gravar pro Quincy Jones, né? Quincy estava no topo do topo. E ele tinha uma gravadora chamada Qwest e aí eu comecei a fazer esse disco. E me veio uma coisa do Brasil, uma visão… tem até essa primeira faixa, algumas pessoas diziam assim: mas ele copiou a música do Tom. Porque era uma homenagem ao Vila-Lobos, a introdução, a primeira parte da canção que entra, o ritmo é uma homenagem ao “Boto”, Tom Jobim, aquela coisa…que era o meu mestre. O Vila que é a minha formação. E logo depois, então, eu entro com uma coisa que eu escrevi pro Jimmy Johnson no primeiro disco, porque ele não gostava de solar. Então eu descobri um triângulo, um negócio que vai e volta pro mesmo tom o tempo inteiro, que eu até cantei aqui no show quando você estava. Vai e volta sempre no mesmo tom. E eu usei essas três coisas pra fazer o “Amazon River”, que é uma homenagem ao rio, na realidade aos meus mestres e ao Rio Amazonas, antes que eles acabem com ele, né? E eu tenho essa preocupação muito grande. Agora eu estava ouvindo uma notícia que o… um especial, acho que Globo Repórter, meu amigo Chapelin e tá lá, tricolor. Ele estava dizendo que eles vão fazer represas e mais represas no Rio Tapajós e no Teles Pires. E vão inundar uma área muito grande. O nosso ex-presidente já mandou desviar o curso do São Francisco. E essas preocupações que a gente não tem, mas vai ter que ter no futuro. Eles estão mexendo na fauna, na flora, no bolso da gente. A gente tem muito negócio de engolir sapo, brasileiro. É a personalidade, assim, essa mistura, é muito de engolir sapo, né? E eu não me conformo com esse troço. E eu, o Tapajós, o Teles Pires e o São Francisco, rapaz eles são tão lindos! Eu já tive em beira de rio, assim, vendo as coisa, ouvindo os bichos e tal. É tão bonito isso, tão natural.

Tá na sua música, não está?

Tá, o Amazonas.

A minha música, quer dizer, a minha vida é muito amor pelo Brasil, né? Um país lindo cheio de destruidores, cheio de cupim…

Infelizmente.

É, infelizmente. Mas é um país tão bonito, né? E aí tem essas preocupações. Esse disco, ele começa com essa visão, já, do Brasil de longe e tudo o mais. Nós fomos decidindo, eu fui decidindo com a Helena. Ih tá bom aqui, porque a gente tá trabalhando, as pessoas estão querendo que a gente trabalhe, estão querendo… Aí eu comecei a fazer um pouco mais de participação em discos das pessoas e fui ficando mais conhecido no meio musical de Los Angeles.

Você foi construindo uma carreira lá. 

É, e foi, e ao mesmo tempo eu vinha pra cá e fazia meu trabalho no Brasil, que é o meu público, né? A impressão que me dá é que são sempre as mesmas pessoas e um pouco mais velhas.

Mas é tão bonito, sempre. É aqui no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, nos lugares que eu fiz, fiquei impressionado com o respeito que ainda existe por esse tipo de trabalho.

Você é muito querido aqui, sem dúvida nenhuma e a gente reclama. Você não vem muito ao Brasil.

É, eu não sou americano, não, nem me naturalizei, nem nada. Eu, depois que eu cantei o Hino Nacional na escola pública em mil novecentos e idos. Eu estou com 68 anos, que eu cantei. O prefeito era o João Carlos Vidal, Getúlio ainda era o presidente da república. Eu me apaixonei por esse, por essa coisa… Aquela redação, porque meu fã é meu país, tinha essas coisas assim. Eu tinha uma verdadeira paixão em desenhar o mapa do Brasil, por conhecer o Brasil, a natureza. Esse disco aí veio tudo. O peso, a distância dos meus pais, dos meus irmãos. De estar morando longe, a minha mãe reclamando o tempo inteiro: “odeio os Estados Unidos! Tirou o meu filho!” Mas eu tinha que fazer isso, porque aqui estava muito difícil.

O que estava difícil aqui?

O que estava difícil aqui, as pessoas estavam partindo pra um caminho, que eu não queria que elas partissem. E aí começou a coisa de não poder. Está mais difícil gravar. Começou a fase disco independente. Eu me lembro do Boca Livre, por exemplo, ter lançado um disco ótimo que vendeu pra, sei lá, 60, 70 mil cópias. E foi legal, foi bacana isso aí. Mas eu não estava a fim de fazer um disco independente, eu não estava nem a fim de fazer disco. Porque eu acho que disco é um projeto, assim na sua cabeça. Um projeto basicamente sentimental. Assim, você tem que ter uma ideia muito boa. Não é pegar músicas separadas e fazer uma série de coisas. Esse Brasilian Serenata tem essa coisa de bom!

Tem tem um roteiro, né?

É. Eu vou fazer os índios, aí os curumins…

Tem os três curumins aqui…

Que é uma coisa que me incomodava muito, a coisa de invadir a terra do índio. Me incomoda até hoje essa coisa do posseiro, de plantar na Amazônia, de derrubar floresta. Graças a Deus o povo do Pará, não sei se foi a Deus, mas graças a lucidez do povo de Belém não se conseguiu separar o Pará, né, como se fez com o Mato Grosso, como se fez com Goiás e tal. E aí essa lucidez me dá um alento, me dá uma força. Mas ao mesmo tempo você vai construir represa, você vai … Esse disco aí… eu vi o canal São Simão desaparecer. A gente tem o poder, hoje, de terminar com as Sete Quedas, a cachoeira pode ficar um fio d’água, se eles quiserem. Só fechar as compotas. Quando o homem começa a controlar a natureza, eu aí me desaponto com a raça humana.

Mas você, estava ficando difícil aqui no Brasil trabalhar. Mas estava… você não planejou morar nos Estados Unidos.

Não.

Foi naturalmente.

Foi naturalmente. A gente foi decidindo e foi tão legal! Porque eu tinha o visto de trabalho de três anos. E aí era um H1, não sei o que. E na minha divergência com o Sérgio, ele aí mandou cortar o troço, que eu era dependente dele. Então ele mandou me desligar. Ele já havia feito isso com o Paulinho da Costa, com Cláudio Slon, com outras pessoas. E eu já estava preparado pra voltar pro Brasil, mas sem muita convicção. Não havia muita coisa pra eu fazer assim, né, que me entusiasmasse eu não tinha um projeto cabeça, não. E aí Aloysio me salvou em cima do laço pra eu gravar com o Quincy Jones, mas ficou esse coisa do peso da natureza. Do homem destruindo. Esse nossa tendência de cupim, de corroer, de poluir, de acabar com as coisas, né? O Tom Jobim dizia um troço interessante que eles fizeram aquela adutora oceânica, eu não sei como é que chama isso aí em Ipanema. Onde tinha o Pier, antigamente, que mulher tinha perna cabeluda e o homem tinha a perna raspada. Aquelas coisas de louco. Então tem um negócio que joga o…

Emissário.

O emissário. O Tom dizia assim: você joga um cocô lá fora, mas o cocô tem saudade, ele volta pra… [ri] Isso é o que o homem faz. Em nome de sei lá de que… então esse disco é muito esse reflexo aí.

Você poderia explicar a beleza dessas faixas? Você já falou de “Amazon River”.

Rapaz, é a paixão mesmo. Eu tenho super paixão pelo mato, pelo… E tem tanta coisa aí, os curumins, essa coisa do índio, a Amazônia, o deserto mesmo. E tem a participação dos caras todos que gravaram comigo. O Paulinho da Costa. O Paulinho da Costa é um homem formidável! É muito difícil você descobrir…Eu descobri a percussão como percussão quando eu gravei com o Paulinho da Costa. Eu tenho uma coisa tão importante da alegria com que esse cara transmite o trabalho dele, sem frescura! Ele chega assim, com sete ou oito containers desse aí cheio de instrumentos. Ele usa com aquela delicadeza, com a simpatia. É contagiante. E quando eu gravei com ele, fiquei super entusiasmado com o trabalho, com a beleza, com a estética desse rapaz. Não tem, eu acho que não tem ninguém que eu conheça, que consiga me transmitir essa beleza. Ele é muito parte desse disco! E tem os outros meninos, Shapiro, Slon, quer dizer, todo mundo que trabalhou comigo.

É, [Mike] Shapiro já tocou aqui.

É. A turma que gravou comigo é a turma que toca comigo ao vivo, também, então eu nunca chamei outro cara. E eu via muito isso, por exemplo, na banda do Sérgio [Mendes]. Ele gravava com uma turma e tocava com uma outra turma. E eu jamais fiz isso. Eu achava que era muito melhor pra mim essa coisa. E aí os Estados Unidos se apresentou, ficou legal. Eu nunca vendi discos nem nada. Depois eu fiz mais dois com o Quincy, mas esse é a paixão, esse tem coisas… eu nem me lembro das faixas todas, porque eu estou sem o óculos.

Queria conversar sobre sua formação. Como você começou?

Comecei, porque eu não quis fazer e eu não vi a menor necessidade de dirigir, pra fazer universidade desse troço todo, sabe? Eu parei com 18 anos pra servir ao Exército ali no Forte Copacabana. Que era uma mamata, né? E passou a ser uma mamata, porque papai conhecia aqueles generais todos da… generais de esquerda, que foram todos presos no Golpe Militar. E eles eram os caras ali da região e tal. E bebiam com papai, iam pra boate ver papai cantar e tal. E quando ele entrou pra me botar uma divisa de cabo. Cabo Caymmi, aí pronto: os generais viram ele, eu virei o dono do quartel! Fiquei dono do quartel! E o cara queria transferência pedia pra mim. – Vê se arranja transferência pra mim… [ri.]

Cabo Caymmi. Muito bom. 

Mas a gente estava lembrando da minha mãe, mandava levar pizza pro quartel quando eu dava guarda… e eu dividia com a guarda toda! Com o sargento, o sargento ia comer pizza…

Você estava no Forte Copacabana…

É, eu servi ali.

Não foi também, mau, não, né?

Não, não foi, não. O Jango baixava de helicóptero à noite. Pegava o carro preto dele, que ele vinha pra Copacabana passava um tempo.

Esse Brasil devia ser espetacular, né? 

Ah, era bem melhor do que esse Brasil de hoje, com certeza.

Não era?

Com certeza. Exatamente porque a velocidade da comunicação trouxe uma outra informação pra juventude, né? Com a velocidade impressionante. Então hoje em dia você anda pra qualquer lugar. A pessoa está com aquele negócio na mão, com aquele telefone. Aquela agonia do saber, de saber quem é que ligou pra mim, aquela ânsia…

É uma angústia.

É, angústia e vício, né? Porque vicia mais do que cigarro. As pessoas ficam com aquilo na mão. Eu tenho horror de celular! Mas não é pouca coisa, não, mas é aversão total. Eu não consigo nem botar aquilo no meu ouvido, me incomoda.

Tem gente dependente no Facebook, eu tenho amigos dependentes do Facebook.

Eu não, a minha mulher opera o tal do computador, o laptop, essa coisa toda. Eu não consigo imaginar. Eu sei usar o Skype, falar no telefone. Esse ela aprendeu aí eu falo com o Danilo.

Esse é bom!

Esse é bom, eu falo com o Guto. Esse é legal. Não, mas é legal, porque você vê a pessoa que você gosta. Eu falei até com a minha madrinha, que é irmã do meu pai, está com 93 anos. Tia Dinair. É o último dos moicanos, noventa e três anos. É minha madrinha e tudo. Consigo falar com ela e vê-la. Meu primo Durval, tudo né muito bom!

Vamos lá, eu vou falar das faixas e você faz o comentário, tá? Já falou de “Amazon River”, já falou de “Três Curumins”, tem aqui “The Colors of Joy”.

Colors of Joy” foi uma coisa que eu fiquei impressionado com a figura do Desmond Tutu. Fiquei muito impressionado, mais do que com o Mandela. Eu sempre desconfio do político. É uma coisa que não gosto nem da palavra.

Tem motivos!

É. E aí o Desmond Tutu estava falando na televisão assim, eu fiquei empolgado com a simplicidade dele. Ele parece um baiano, assim, super relax. Estava falando as coisas, dizendo as verdades tão claramente sem vaselina… e eu aí comecei esse ritmo [cantarola]. Aquilo foi me empolgando e tal. Aí eu pensei muito nele e aí a minha amiga que morou no Brasil, a Tracy Mann, fez a letra chamada “Colors of Joy, Many colors”. Aí o antirracismo total. Tanto que eu fui a Dallas uma vez tocar e aí uma senhora que veio no palco: “pelo amor de Deus, já que você está aqui toca o Colors of Joy!” Que é aqui que fica preta a coisa.

Em Dallas. “Ninho de vespa”.

Ninho de Vespa” é o frevo, outra manifestação extremamente brasileira que me encanta. Essa coisa… [cantarola] Ai eu fiz um frevinho e tal, assim, sem muita pretensão e chamava-se “Beehive”, que não tem letra, esse foi um nome que a gente deu lá e ficou “Ninho de Vespa”, Paulinho César Pinheiro fez a letra, mas eu canto só o finalzinho com letra. Mas é essa forma brasileira de música que me encanta, também. O frevo que eu acho lindo, eu acho ótimo!

“Toucan’s Dance”.

Ah, essa aí é um samba em três. Tem uma garotada que faz música instrumental que gosta muito dessa música [canta]. Parece um choro e é um samba em três…

Samba em três?

É em três, é. [cantarola e completa o ritmo com palmas e estalar de dedos] É a introdução, né? Aí faz [cantarola]. E você pode dançar o samba que não tem perigo [ri]. É muito legal. É uma descoberta minha, assim, eu gostei muito dessa… E aí tem um cara, um trombonista zangado lá de Los Angeles, Bill Watrous, que ele toca comigo essa faixa. Tem uma porção de gente, que normalmente, não tem figurão nesse disco, não, tem a Morgan Ames com o grupo dela, tem um fagotista meio de araque, assim, mas que ele gostava de tocar fagote e tal, e eu chamei pro meu disco. Então é uma coisa assim, mais de emoção mesmo, do que de perfeição. E saiu legal pra burro, sabe? O Inner Voice, desse rapaz, que eu não me lembro o nome, que a minha memória é um fracasso. Mas foi e todas elas tem uma história diferente. O Bill Watrous e vai indo aí pra gente ver o que mais aí tem nesse disco…

Tem aqui, Dori, a canção que abre o lado dois, “Flower of Bahia”.

Essa já era daqui. Eu já tinha feito com o …

Paulo César. 

Dori Caymmi – É. Essa até tem o Mervi Griffin veio fazer um programa aqui, um cantor que acabou sendo dono daquele Wheel of Fortune, Jeopardy, não sei o quê…Ficou um bilionário. Ele veio com o avião dele particular, era um desses de linha Rio-São Paulo só pra eles e ele trazia os amigos. Ele veio gravar com o Tom, os caras da bossa nova e nova geração de músicos do Brasil e aí eles queriam que eu cantasse “Like a lover”. É sempre a “Like a Lover”, “O cantador”, que é a minha mais gravada nos Estados Unidos desde os anos 1960. Mas aí eu cantei o “Flower of Bahia” só pra contrariar. [risos] Aí a Tracy também fez a letra em inglês e o Paulinho já tinha feito a letra em português.

Legal. Você regravou duas composições muito importantes do seu pai. “Você já foi a Bahia” e “Pescaria”. 

É. É o “Você já foi a Bahia” é um arranjo, aliás, minha mãe odiava esse arranjo, sei que eu deturpei a… E realmente, foi uma coisa mais jazzística mesmo, uma coisa mais em homenagem ao músico que estava tocando comigo. É o Don Grussing fazendo solo de piano, que é um grande amigo. Não é uma versão que respeite muito. De uma certa forma eu não me encanto muito com a ideia de meu pai ter ouvido isso, não, porque…

Ele ouviu, né?

Ouviu. Deturpa um pouco a ideia do… Mas é uma coisa legal no show, essa coisa toda, porque você mostra um lado diferente do samba, jazz e tal, não sei o quê, que é um pedaço desse disco. A outra, não, a outra é o “Pescaria”, que é o “…canoeiro bota a rede no mar…” e tal. Eu falei pra você, eu fiz até a introdução da canção. Lembrando, ele tinha uns quadros de sereia. Eu olhava pra aquilo encantado com aquele cara de cabelo branco assim, que saía de noite pra trabalhar com o violão na mão. A nossa vida era mais com a mamãe. Dona Stella [Maris Tostes Caymmi] é que… e o velho era aquela figura rara, que de repente no domingo, no sábado, no domingo assim, de preferência domingo de manhã eles escutavam música juntos. Então a gente participava desse evento. Tinha um programa de rádio que tocava [cantarola] bem antigo, aí cantava Gastão Formenti e ia até Silvio Caldas. E esse troço todo a gente ouvia. Depois a gente tinha uma vitrola, Zenith. Aquela Zenith, né? Aí tocava-se Jacó do Bandolim, tocava-se Frank Sinatra, Nat King Cole. Depois a Nana começou a comprar disco da Metro Goldwyin Mayer, por causa dos filmes, Gene Kelly, Fred Astaire…. Então, que vida, né? Aí vem tudo no “Pescaria”, né? Aí eu escrevi essa abertura, ousei e falei pra você “Danilo, é meu teste”. Danilo ficou: “pô, eu chorei!” E é, pra mim é pra chorar. Foi feita para chorar!

E tem aqui a música que a gente está conversando em off, antes da gente gravar essa entrevista, que é “The Desert”. 

É, “O deserto”, eu fiz uma minissérie pra Globo, o “Padre Cícero” e aí nós fizemos abertura, eu e Paulinho Pinheiro. “Terra Vermelha”, “Dedo do Cão”, “…quando o som cai, cada centelha queima o chão, Virgem Maria reza o cristão, olhai por mim, ó meu padrinho Ciço Romão…” E esse negócio começa e depois aí eu entro por uma divagação musical na caatinga brasileira e no meio desse troço, então, eu começo a criar uma coisa meio clássica, assim. Aí vem e levanta uma coisa pro céu. Orquestra, as cordas explodem e fazem um momento junto com a minha voz e é a música que eu mais gosto de ouvir. Quando eu ouço esse disco, eu ouço pouco. Eu me ouço pouco, pra não desgastar.

É comum, né, você gravar e não ouvir mais.

Eu tenho ouvido muito pouca música, porque a música de uma maneira geral tem me incomodado. Então eu tenho uma estação clássica em Los Angeles, que de vez em quando eu ligo, na hora que eu to dirigindo e tal, porque não tem mais nada. O resto todo é uma música que eu sei o que vai acontecer. É previsível demais pra eu ficar escutando, sabe como é? Então, é claro que estar se comunicando com novas gerações e eu já to na terceira idade. Então eu tenho uma visão completamente diferente. Eu não entendo tatuagem, piercing, eu não entendo nada disso, celular! Isso é uma coisa que na minha cabeça não tem a menor importância. Então a música clássica tem sido o que eu ouço no rádio. E por necessidade, aí quando eu tenho que ouvir em casa. Eu ganhei muito disco de jovens e tal. Então eu levo pra casa e quero escutar pra saber.

Dori como é que você consegue ser ao mesmo tempo tão regional e tão universal? Que a sua música fala do Brasil o tempo todo e você consegue juntar duas coisas que não são fáceis de serem unidas num trabalho, né? 

É, se eu consigo isso é realmente através das minhas influências. Porque uma pessoa sem influências não vai a lugar nenhum. O dono da verdade só quando vira o presidente da república.

E quem são suas principais influências?

Olha, de infância a primeira grande surpresa foi o meu pai. A segunda grande surpresa foi o “Clair de Lune” do Debussy! Eu não podia imaginar que aquilo fosse… era uma cachaça, assim, eu tinha que ouvir, o vizinho tinha esse disco. Eu enchi tanto o saco que aí começou a ter lá em casa, o disco. Papai conseguiu comprar e tal, o “Clair de Lune”. Depois daí eu comecei a escutar os cantores, os americanos Sinatra e Nat King Cole. Isso me encantava. E as cantoras a Ella Fitzgerald e a Sara Von eram as principais assim, as que me… E eu não sou muito do tempo da Billie Holiday, ela vem depois, mas essas duas cantoras são as primeiras, os dois cantores: Sinatra e Nat King Cole, Sara Von, Ella Fitzgerald isso era o tempo inteiro. E era o gosto muito do meu pai, também.

Seu pai também ouvia?

Muito. Muito, ele gostava mais do Nat King Cole do que do Frank Sinatra. Então ele tinha mania de chegar no piano, sentar e ficar cantando o “Too Young” do Nat King [cantarola] E ele adorava isso. Então a gente ouvia muito esse tipo de música. De repente eu ouvi o Dick Farney cantando [Luís] Bonfá, cantando uma música brasileira “… foi nesse bar pequenininho que eu conheci o meu amor…” Aí eu achei fantástica aquela voz linda em português. Pela primeira vez eu me encantei com um cantor brasileiro. Aí fiquei encantado e eu era uma espécie de cantor da família. Na festa quando o papai ia visitar os amigos, ele pegava o violão e me acompanhava, eu cantava algumas coisas do Mirabeau e cantava muito o repertório do Dick Farney.

Quantos anos você tinha? 

Doze.

Já cantava Dick Farney?

É, porque…

Incrível!

Era maravilhoso, aquela surpresa, né? Agora, engraçado, ele tinha uma gravação dele que era do “Marina”, eu não era muito fã da gravação dele, do “Marina”. Também não era muito fã da gravação do papai, “Marina” com o Jacob do Bandolim original. Eu gostava dele assim, ao vivo. Tem coisas que eu prefiro ao vivo. A Elis [Regina], por exemplo, eu achava ela ao vivo muito superior ao disco. Mas essas coisas assim, que acontecem com o artista que você vê, projeta a facilidade. Agora mesmo o Guto me deu de presente um programa do Fernando Faro em que ela está falando não sei o quê e depois ela canta, em preto e branco, a facilidade com que a pessoa transmite. Papai tinha luz própria, Elis tinha luz própria no palco, né? E o Dick, não, mas o Dick tinha, era aquele cara charmoso no piano, galã e tal. Mas a voz dele, rapaz, fez uma diferença pra mim brutal. Aquele cantar em português. Eu aí disse: cantar em português é bom. Dick Farney. Isso aí são as primeiras influências. Aí depois, meu amigo, Tom Jobim, João Gilberto, Baden Powell. O que eu corujei o violão do Baden, do João! Eu ia aqui para a rua Carlos Goes, no Leblon, onde morava o João solteiro ainda. O João ainda estava solteiro, era noivo da Astrud [Gilberto]. Se é que João podia ser noivo de alguém nessa época. E eu ia pra lá e era o oitavo andar do edifício, era o último andar e ele ficava cantando e tocando violão. E eu ia pra lá aporrinhar silenciosamente. Fiz isso com o Baden Powell, ele também tinha uma noiva perto da minha casa. Eu sempre fui ver essas pessoas de perto. Mas sem show, sem nada, no show eu não fui. O único que eu fui foi o Tom e o Vinícius, João, os Cariocas.

Você estava?

É, eu fui ver esse show várias vezes. Meu pai me levou, eu era menor de idade nessa época.

No Bon Gourmet.

Bon Gourmet. Era o Flávio Ramos, era o cara. E é um show muito importante. E a gente tinha admiração por aqueles caras todos, né? Você tem Tom, Vinícius, João Gilberto no palco de uma vez só e os Cariocas.

Milton Banana.

É, Banana, acho que Otávio no contrabaixo. Era muito bom! E esse troço cria uma coisa linda, eu começo a querer tocar violão mesmo quando o João e o Baden Powell apareceram. Meu violão não tem nada a ver com o Baden. Também não tem muita coisa a ver com ninguém, porque eu tenho a cabeça violonística estranha e eu sempre tive uma mania de harmonia, de acordes e coisas, eu não me preocupo com a coceira, que é como diz o João Donato, aquela rapidez [imita bateria]. É bonito, mas não me incomoda, não. O que me fascina são os caminhos que você pode achar dentro de uma mesma canção. E eu nunca faço da minha maneira, porque tem sempre um outro caminho, tem sempre uma… Ta ficando menos, né, porque a gente vai ficando esquecido, aí tem que botar a partitura na frente. Antigamente você fazia, do nada você tocava. Então essas influências todas trabalham de tal maneira que a minha vida passar a ser… Esse primeiro disco que você mostrou, que é o de 1972, eu não tenho ainda uma opinião ao meu respeito suficiente pra … Quando eu começo a minha parceria com o Nelson Mota, eu estava muito imaturo e muito na frente assim, muito velho pescador, umas músicas estranhas. Eu tinha feito coisas assim, meio intocadas, Amando, é uma valsa incantável que o Luiz Eça gravou. Eu estava meio sem uma, como diz, quando eu fiz “O Cantador”, aí eu me lembro que vários letristas queriam fazer música pra mim, eu falei: bom, eu acho que eu to no caminho certo, né? Mas quando ela foi levada ao festival, que a letra é do Nelsinho, ela já foi deturpada. O arranjo já não é a ideia que eu tinha d’ “O Cantador”. Eles modificaram, aí pulavam pra cá, muda de tom e não o quê, um troço tão baile! A única coisa boa é que a Elis ganhou o prêmio de melhor intérprete. E aí o Nelsinho conta uma história, que não é nada verdade, né, porque no livro dele ele fala que ele entendeu os Baianos na hora. Ele ficou danado, ficou mais bravo do que eu quando ele perdeu “O Cantador” pros Baianos. E eu não posso publicar os termos que ele usou, mas no livro enfeita, né, fica mais bonito. Mas o que ele disse não é muito publicável, não. Porque ele ficou chocado. Eu também fiquei. Fiquei chocado de saber que o Johnny e Alf tinha “Eu e a brisa”, que é uma música linda, por exemplo, né? E tinha umas coisas lá, que não tinha a menor justificativa de estar. Eu vi outro dia o Aquiles, do MPB 4, que ele me desculpe, dizendo que o Maranhão [Francisco Fuzzeti, autor de “Gabriela”] tinha que ganhar o festival. Brincadeira! Imagina se eu tenho o “Ponteio”, do Edu Lobo, por exemplo! Nesse festival você tem o “Eu e a brisa”, tem uma porção de coisas importantes, né? E o cara tem: “… apareceu o mar….” E uma claque da universidade de arquitetura. E eu acho que o Aquiles bebeu nesse dia e falou uma besteira! [risos]

Eu fiquei impressionado com essa coisa, com essa afirmação categórica, que é pobre e não é bem do…. Mas é uma afirmação, até porque o Maranhão não fez mais nada na vida! Eu não sei nem como arquiteto se ele fez alguma coisa!

Gil tem uma coisa muito… muito bem feita, foi muito bem cantada por [Gilberto] Gil “Domingo no parque”. Gil tem um palco, né? O Gil é o baiano comunicador, mesmo, que ele tem… esse aí tem esse palco! Tem a facilidade. E a música muito interessante, né? O negócio da capoeira [cantarola]

Todo regional…

É, bem regional… então, aí tá certo, Edu e ele que eu fico com os dois. Agora, o Maranhão, não, vai me desculpar!

Isso foi em off, isso não valeu!

Mas pode valer, ele ficar zangado comigo é mais pra entrar na fila! Isso não tem problema!

A gente podia dar uma amarrada aqui, né, primeiro eu vou te perguntar, porque com “S”, esse Brasilian é com “S”.

Deixa eu ver… eu nunca vi…

Tá com “S”! O Brazilian deles é com “Z”, esse é com “S”.

Essa capa é de um japonês simpático lá de Los Angeles… e aí a coisa do “Brazilian”…

Com “S” aqui, “Brasilian” com “S”!

Porque a gente, eu fiquei na dúvida de ficar “BraZilian”, aquela coisa “BraZilian”. Aí ela disse: “então vamos escrever com ‘S’”!

Dá uma cortada nisso aí!

É, eu não sei o que é que ela quis dizer, pra mim não tem a menor importância! Mas ficou “Brasilian Serenata”, eles queriam “Serenade”, uma coisa assim… Eu falei, não, eu gosto da palavra “Serenata”. E é uma coisa que eu estava praticamente querendo colocar o Brasil no colo assim, e mostrar que tinha… Aí ele causou um impacto no meio musical no Brasil, principalmente, as pessoas que escutaram…

É comovente, eu ouvi essa gravação pra essa entrevista muitas vezes e acho que é uma declaração de amor… 

Ah, mas isso aí minha paixão pelo Brasil!

“… pela nossa terra!”

Não tem cura! Eu estranho muito esse Brasil. Esse novo aí, esse eu não conheço…

Esse é um Brasil diferente, né?

É, é porque o progresso é tão grande e as coisas são tão rápidas, e as informações são tão globalizadas, que já não, sabe, o mesmo Rio de Janeiro não é o mesmo Rio de Janeiro… eu não, ou o descaso, os maus governos, os maus políticos, as pessoas, por exemplo, tem paixão pelo Juscelino em tudo. Eu acho que o Juscelino cometeu um grave erro, não na construção de Brasília, porque aí é problema dele, mas no abandono ao Rio de Janeiro. E o Rio de Janeiro, eu senti na hora o Rio de Janeiro esvaziado! Esvaziado em todos os sentidos, aí entra o pilantra. Porque você esvazia uma cidade, entra o pilantra. E aí foi piorando, piorando, aí chegou até ao fanatismo de uma vez uma pessoa chegar pra mim; e eu falei que o Brizola estava enfiando os pés pelas mãos. O cara disse: “se não fosse o Brizola, você não estava aí!” Eu falei: “eu não sabia que ele tinha transado a minha mãe, não, isso pra mim é novidade!” [ri] E esses políticos todos, quer dizer, a palavra já incomoda! É uma vaselinagem no troço todo, então, a polícia não pode subir no morro, aí cria-se o tráfico na cidade, inaugurado por Leonel de Moura Brizola! Então…

É isso…

Esse é o político, né? E eu me desencantei! E me desencantando esse é o resultado, essa é uma homenagem a um Brasil que não tem mais. O índio está com a camisa do Flamengo, sandália havaiana, né, se bobear ele está de Armani, né? Está vestindo um Giorgio Armani… pelo menos a camiseta! [risos]

Essa capa é bonita, realmente, essa capa é muito bonita!

É, acho que é Joel Nakamura o nome dele, se eu não me engano. Eu quis comprar até o quadro, mas eu estava duro na época, não pude comprar. Mas aí eles deram uns pôsteres e…

Você emoldurou?

É, eu botei lá junto com as indicações de Grammy, aquelas coisas que a gente vai ganhando pela vida afora. É o reconhecimento pelo trabalho e tudo. Mas esse disco é uma paixão.

Dori, eu acho muito difícil fazer essa pergunta pra você, aqui tem uma obra extraordinária, mas é um dos seus discos mais importantes da sua carreira?

Acho que é o mais importante.

Por quê? 

Ah, é o mais importante porque é nesse momento em que eu começo a reconhecer o progresso e a decadência do meu país assim, ao mesmo tempo. Perde o Brasil que eu conheci, começa um Brasil novo. E a distância, esses anos todos a distância piora muito, muito… Eu, outro diz estava olhando a televisão e ouvindo as pessoas usando, a brincadeira é: proparoxítona, ninguém mais fala a palavra certa, né? Eu sou intermediário…não sei o que, as palavras todas são acentuadas na primeira sílaba. Eu não sei se esse troço é intencional, mas eu to com a liberdade… Sabe umas coisas assim? Então se você prestar atenção nisso na televisão… São pequenas coisas que vão incomodando, né? Aí o cara chega pra mim, assim, mas qual que é o… Eu pude, se eu dissesse isso na prova oral, eu estava reprovado, se eu escrevesse isso no papel. Uma pessoa liga pra mim e fala: Então… eu falei: você está me perguntando alguma coisa ou? Então todas essas coisas, elas denotam essa mudança de linguagem, de postura que eu envelheci e olho pra isso espantado e com uma certa tristeza, porque vai perdendo essa identidade, né, eu vi isso na Bahia, na terra do meu pai muito claramente. Com axé, com uma porção de outras coisas, com uma africanismo muito pesado. Uma, não da cobrança da coisa, eu não me vejo chamando ninguém de afrodecendente, né? Eu sou italiano, português e negro. É uma mistura explosiva.

Você estudou com o Moacir Santos, né?

Estudei. Moa!

Sabe o que eu acho que o Aquiles falou? Ele falou que o verdadeiro vencedor teria sido o Chico Maranhão se não tivesse tido aquele cinco na frente dele. Porque aquelas músicas eram hors concours…

Mas eu não acho que ele disse isso, não…[ri] Não! Então corta a do programa pra ele não ficar chateado!

Vamos lá? A gente podia dar uma…

uma ênfase a meu querido professor…

Eu acho que sim, porque ele…

É, porque eu fui indicado por ele, pelo Paulo Silva. Eu fui estudar com o professor Paulo Silva. Um professor rígido assim, uma cara… e ele usava uma gravata dessa de pintor, sabe, um negócio… E a gente ia ali pra onde é o Teatro Rival. Ele tinha um escritório ali e tal. E ele tinha “lidio, misolidio, eolio” e não sei o quê. E eu tinha pavor dessas coisas!

É?

É, tinha, que música pra mim não é nome, nomenclatura. Eu tinha, não sei por que acontece, mas eu tenho uma visão apaixonada pela música e por mim mesmo. E usando as influências, eu não tive um estudo rígido. Talvez não fosse eu, se eu tivesse feito a universidade de música, me formado como…

Se tivesse cumprido o protocolo, né?

É. Esse protocolo todo. E ele não me aguentou muito tempo, porque ele mandava fazer o estudo obedecendo aquela pequena regra e eu não conseguia. Aí eu escrevia o troço e ele falava: tá errado, tá errado, tá errado!

Mandava você escrever dos modos clássicos. 

É, eu não tinha a menor paciência pra isso, mas ele era um ótimo professor pras pessoas que … Agora muito rígido, muito dentro de um compêndio dentro de uma rigidez, dentro de uma visão musical que pra mim incomodava… ele disse assim: olha, eu vou te aconselhar ir pra um aluno meu, foi aluno dele. Parece que Moacir tinha sido aluno dele.

Moacir Santos. 

Aí Moacir Santos é a beleza total, assim, a pessoa! Primeiro que uma pessoa extremamente bondosa e conversador, e era muito bom! E o que eu aprendi com o Moacir Santos foi com a música dele, mais do que qualquer outra coisa!

É?

É, porque estudar mesmo essa coisa de, estudar música, não sei o que e tal, e ir pro, aquela coisa rígida do livro; eu nunca consegui fazer. E o Moacir abriu um outro caminho pra mim. Quer dizer, ele me deu uma outra escola quando ele fez [cantarola] Uma das “Coisas”! Aí eu fiquei fascinado com aquele professor. Eu falei assim: eu queria ouvir ele tocar, não queria nem ir a aula! Aí ele dizia: não, escreve. Não, porque aí, ele falava da metafísica, que aí não sei o que e eu ficava… e foi um momento muito importante na minha vida. Moacir Santos foi vital, que aí eu comecei a olhar pra orquestração, não tinha olhado ainda. Eu adorava os orquestradores, mas não tinha coragem. Aí com ele eu disse assim: poxa, orquestrar é bonito pra burro! Eu vi um filme dele, então adorei o jeito que ele escrevia, aí conheci o Luizinho Eça. Aí o Luizinho Eça bota na prática pra mim, porque ele, inclusive, gravou coisa minha … Mas o Moacir no final das contas foi como o Radamés [Gnatalli], eu acabei fazendo, fui pra casa dele em Pasadena e toquei violão pra ele. Aí ele disse assim… Eu levei o disco, tinha uma “Aquarela do Brasil”, que é um dos momentos, assim, de saudade do Brasil, foi “Aquarela que bateu”. E eu chamei o Robbie Henke, que aí ficou um troço escuro. A “Aquarela do Brasil” é uma aquarela escura. As pessoas ficam: “Wheres the one?” Cadê o um, porque não tem! [estala os dedos e cantarola]. Negócio assustador e o Robbie Henke é que um pianista.. E eu levei pro Moacir, Moacir ficou com água no olho e disse: Mas que lindo, não sei o quê e tal! Aí: valeu a pena ter sido o seu professor! Foi um, rapaz, aí é bom, né? E tinha acontecido, depois aconteceu com o Radamés, quando eu fiz, “Amargura”, que a Nana [Caymmi] cantou. Cantou lindo! E eu escrevi um arranjo. O arranjo não é tão bom assim, não, mas o Radamés ficou tão emocionado que ele me deu um abraço, ele passava a vida inteira dizendo: harmonia, harmonia. [com sotaque]… Vai estudar harmonia! E finalmente eu falei: tenta chorar, você mandou estudar harmonia, aí eu prestei atenção na harmonia. E aí essa coisa do herói da Sarah Vaughan ter gostado do meu trabalho, e adorado os arranjos de cordas. E o Johnny Mandel que é um herói e tal. E angariar o respeito dessas pessoas, né? Jorge Amado, quando eu fiz “Alegre menina”, que é a minha primeira parceria, foi uma das coisas mais emocionantes, porque virei parceiro dele, eu era filho do Caymmi. Era Dori, Danilo e Nana! Aquela coisa: “como vai seu pai?” Aquela coisa nordestina e tal, mas sem o reconhecimento da arte. Aí eu fiz “Alegre menina”. “ o que fizeste sultão pra…” Pra Gabriela. Aí ele ficou emocionado! Pô, parceiro e tal, me deu um abraço. Aí finalmente eu entendi que eu já estava chegando onde eu queria, né?

É.

E sempre aprendendo. O que é muito bom com os meninos. Tem sempre alguém pra ensinar. Você prestando atenção tem sempre um garoto novo aí, fazendo coisas. E eu rezo pra que tenha. Então tudo isso fez da minha música o que ela é… Esse último disco que é o meu segundo favorito, porque esse, depois que o papai morreu e mamãe, isso em 2008, eu fiquei bem baleado!

Você sentiu muito?

Ah, eu sinto muito, é uma manhã meio nebulosa porque eu to no apartamento que eles viveram os últimos minutos das vidas deles. E aí acorda tem o retrato do papai de seis meses de idade bem em frente ao banheiro, assim. E eu ainda passo e falo: bença pai! Tem o meu avô, depois o bisavô, tem a bisavó. Tem aqueles retratos na parede assim e tem a mamãe na sala naquele quadro! É horrível não tê-los! É difícil, Muito difícil! E aí em 2010 eu consegui fazer esse disco, aí, musicando as poesias do Paulinho. Então esse é o segundo disco favorito, mas o Brasilian Serenata é um começo de vida nova com a minha mulher Helena e tudo. É muito bacana…

Tudo coincidiu, né?

Tudo, tudo…

Você falou uma palavra chave, aqui. Espera aí que eu preciso te perguntar… A gente já está terminando…

Ah, não…