BLITZ | AS AVENTURAS DA BLITZ | EMI-Odeon, 1983

Blitz | As aventuras da Blitz
Capa LUIZ STEIN e GRINGO CARDIA

O som carioca, da praia e do Circo Voador, descontraído e teatral, tomou conta do Brasil todo a reboque de “Você não soube me amar”. O sucesso fulminante do compacto apressou o primeiro LP da banda de Evandro Mesquita, Fernanda Abreu, Márcia Bulcão, Ricardo Barreto, Antonio Pedro Fortuna, William “Billy” Forghieri,  e Lobão (substituído depois por Juba). 

Mesmo com duas músicas censuradas (o que levou a gravadora a arranhar o LP),  hits de sonoridades e temáticas inovadoras, como “Mais uma de amor (Geme geme)”, abriram o caminho para a onda avassaladora do rock e do pop nos anos 1980. 

lpblitz

FAIXAS

BLITZ CABELUDA
Antônio Pedro Fortuna, Evandro Mesquita e Ricardo Barreto
VAI, VAI, LOVE
Evandro Mesquita e Ricardo Barreto
DE MANHÃ (AVENTURAS SUBMARINAS)
Evandro Mesquita
O ROMANCE DA UNIVERSITÁRIA OTÁRIA
Evandro Mesquita
O BEIJO DA MULHER ARANHA
Evandro Mesquita  e Ricardo Barreto
TOTALMENTE EM PRANTOS
Evandro Mesquita/Ricardo Barreto
EU SÓ ANDO A MIL
Antônio Pedro Fortuna e Evandro Mesquita
MAIS UMA DE AMOR (GEME GEME)
Antônio Pedro Fortuna/Bernardo Vilhena/Ricardo Barreto
VOLTA AO MUNDO
Evandro Mesquita, Patrícia Travassos e Chacal
VOCÊ NÃO SOUBE ME AMAR
Evandro Mesquita, Ricardo Barreto, Guto e Zeca Mendigo
ELA QUER MORAR COMIGO NA LUA
Evandro Mesquita
CRUEL CRUEL ESQUIZOFRENÉTICO BLUES
Evandro Mesquita e Ricardo Barreto

FICHA TÉCNICA

Produção
MARIOZINHO ROCHA
Arranjos
BLITZ
Vocais e violão
EVANDRO MESQUITA
Vocais
FERNANDA ABREU
Vocais
MARCIA BULCÃO
Baixo e vocais
ANTÔNIO PEDRO FORTUNA
Bateria
LOBÃO
Guitarra e vocais
RICARDO BARRETO
Teclados, vocais
WILLIAM FORGHIERI

Formação

Blitz_Evandro[Evandro Mesquita] A Blitz nasceu de uma brincadeira de praia, daquela época de som de beira de fogueira, de festinha pra conquistar a garota. O tipo de música que a gente fazia não tinha nenhuma referência de rádios, de conjuntos tocando na época… Então, gravar um disco era um sonho quase impossível. Mas eu estava no “Asdrúbal Trouxe o Trombone” e a gente estava com uma peça chamada “Trate-me Leão” e a Marina fazia um show à meia-noite, depois da peça. Os músicos chegavam antes para ver a peça e a gente ficava um pouco depois. Eles estavam montando o som, e rolava um microfone, aí tinha uma violinha, eu cantava… Aí de repente o Lobão sentou na bateria, o pessoal da banda começou a tocar junto as músicas. E as musiquinhas que nasciam na viola ganharam um peso com a banda. Era sax do Zé Luis, Lobão na bateria, o Junior no contrabaixo, o Barreto também na viola e o Guto Barros na guitarra. Era a banda da Marina. Eu fazia o teatro antes, com o pessoal do Asdrúbal. E aquilo era de brincadeira… Eu namorava uma menina, Cristina Magalhães, que era promoter em uma casa em São Conrado chamada Caribe, do pessoal da Company, e ela chegou: “Estou inaugurando um espaço para banda nesse bar… Você não tem uma banda?” Eu falei “Tenho, eu tenho uma banda” e fui direto paro Lobão: “Lobão, tem um lugar pra tocar, topa?” E ele: “Vamos, vamos ensaiar lá em casa”. Aí a gente começou a ensaiar na casa do Lobão, que era em São Conrado, da namorada dele também. A gente passava pelo Joá e sempre era parado numa blitz que tinha ali… Pessoal “cabelão”, não sei o que… “Como é que é o nome da banda?” Aí o Lobão: “Bota Blitz!”: a gente sempre chegava com uma história emocionante… “Pô, fomos parados e tal…” E o Police estava vindo pro Brasil pela primeira vez, então Blitz, Police, rolou um Blitz de brincadeira. Falei que o pessoal ia se assustar, o pessoal da praia, acostumado com violãozinho, uma grande banda e tal… Então nasceu o primeiro show da Blitz ali no Caribe, e com essa banda, sem as meninas… E já tinha uma coisa teatral, que a gente chegava pela plateia, com lanternas quando apagava a luz, neguinho de capa, tinham umas brincadeiras assim. E ali nasceu a banda… Pela metade, mas foi onde rolou o primeiro. No dia seguinte neguinho na praia “pô, do cacete”, “onde é que vai ter de novo?”, “não toca na rádio”, “mas não tem disco”… Aí essas possibilidades começaram a crescer e a gente começou a fazer show nesses circuitos aí de bar e os músicos tocavam… Billy [William Forghieri] tocava com a Marina, com a Gang 90, o Lobão também. E uma vez a gente estava ensaiando na casa do Lobão e o Billy estava lá pra tocar com a Gang. Aí, vendo o ensaio, com aquele teclado… Falei: “meu irmão, mete a mão aí, vamos fazer um som”. E o Billy amarradão. E era muito difícil também porque a Marina pagava, Gang 90 pagava, a gente era aquele refrigerante, o chopp…

[Ricardo Barreto] A Blitz surgiu nos ensaios do Asdrúbal. Eu fazia o som da peça, aquela coisa toda deles. E comecei a fazer umas músicas com o Evandro. Era uma época que tinha muito lançamento de livro de poesia alternativa, Nuvem Cigana, aí frequentemente a gente ia, participava desses lançamentos. Eu e Evandro, de dupla. A gente tocava nossas músicas que tinham letras do Chacal, do Bernardo Vilhena, e tinha a ver com esse movimento, então chamavam a gente pra dar uma animada, para fazer um som, fazer um barulho, e a coisa foi engrenando assim, dessa forma… Era uma coisa meio de som depois do churrasco no domingo, entendeu? Um pega um violão, outro pega o violão e começa a tocar… E as músicas foram surgindo assim. Uma brincadeira, totalmente. […] A gente encontrou o Lobão. Eu e Evandro fomos na casa do Lobão e passamos uma tarde tocando com ele. Ele meio que deu um ritmo. A gente tocava sem percussão, sem baixo, eram dois violões. Aí ele deu uma levada para as músicas e nessa mesma tarde ele falou “Vamos fazer uma banda, vamos chamar de Blitz”. Acho que ele já tinha esse nome na cabeça e a gente topou na hora, aí ficou. Aí teve um show num barzinho chamado Caribe ali em São Conrado, que foi bem impressionante. A gente ouviu a gravação depois e ficou impressionado, a gente não sabia que a gente era tão bom assim [ri]… Era uma banda que o Lobão já tinha e entrei eu e o Evandro. Era o Zé Luis no sax, o Guto Barros, que depois fez os monólogos com o Lobão, na guitarra, eu na guitarra, não tinha teclado, Lobão na bateria.

O baixista da banda do Lobão era o Junior, ele foi morar nos Estados Unidos e a gente chamou… Primeiro foi o Arnaldo Brandão, tocou um tempo, depois o Antonio Pedro. Aí um dia o Billy [William Forghieri] surgiu num ensaio lá na casa do Lobão, ele ia tocar no show da Gang 90, tinha vindo para o Rio para tocar na Gang 90. E estava de bobeira lá no ensaio… A gente falou “pô, toca aí, né?” Aí ele começou a tocar, aí o outro guitarrista que tinha, o Guto, deu um certo “piti” e falou “banda que tem teclado eu não toco”. Foi embora, saiu assim… “Eu já sei onde isso vai chegar, vai acabar virando um som empastelado que não gosto, não estou a fim” e saiu. E ele saiu justamente nesse show do Arpoador, do Circo do Arpoador, que foi o cara lá da EMI assistir e que chamou a gente. Quer dizer, o Billy é um cara sortudo… Ele não passou na ralação, entrou na hora que o negócio começou a andar.

[William Forghieri] Eu tocava com a Gang 90 em São Paulo e nós viemos fazer um show nas Noites Cariocas, com Nelsinho Motta, no Morro da Urca. O nosso baterista perdeu o voo e não veio com a gente. A gente chegou aqui sem baterista. E o Lobão estava no Morro essa noite. Aí o Julio Barroso falou pra ele: “Lobão, tu não quer tocar com a gente? O nosso baterista acho que não vai vir…” E não veio mesmo. Mas o Lobão nunca tinha ensaiado, não sabia que música era, não sabia nada. Ele topou, tocou e foi ótimo o show, não errou nada, foi sempre na batida… O baixista passava o tempo fazia “tunti tati tunti tá” e vamos nessa… Aí o Lobão fez o show todo… Ele gostou do jeito que eu tocava e me chamou pra fazer o LP Cena de Cinema com ele. Aí eu vim morar no Rio, me mudei pra casa do Lobão, fiquei três meses lá morando com ele e nesse tempo a Blitz foi ensaiar na casa do Lobão. E eu estava lá com equipamento, tudo montado, tirando as músicas do Lobão. E todo mundo me chamou: “você não quer tocar com a gente?” e falei “quero, toco!”. Aí comecei a cifrar as músicas todas, fazer uma colinha das músicas. Porque na Blitz parece que é tudo é meio fácil, você escutando. Parece que é super simples, facinho de tocar. Mas não é não, é cheio de truques ali, cheio de tempos malucos e é um negócio bem alegre. Aí começou tudo, no Arpoador, a gente fazia show, não ganhava dinheiro, mas se divertia a pampa e o povo cantava as músicas, já tinha refrão nas músicas.

[Ricardo Barreto] Eu estava fazendo uma peça de teatro chamada Atrás da Trouxa, da Louise Cardoso, e a Marcia [Bulcão] era atriz, eu fazia a música. Um dia eu mostrei as músicas para ela, ela começou a cantar junto, eu senti dava uma completada na coisa… Que sempre teve uma coisa de diálogo coloquial nas letras. Ficou muito legal. E quem seria a outra menina pra fazer uma dupla, pra não ficar uma coisa solo, para caracterizar que é um coro? Aí a gente chamou a Katia Bronstein, que ensaiou e tudo. Chegou no dia, não apareceu no show, não sei se ela ficou doente, acho que era aniversário da avó dela, sei lá, e ela não foi. Aí fez só a Marcia. Aí a gente começou a procurar outra pessoa. A Marcia era amiga da Fernanda, era vizinha da Fernanda Abreu lá no Jardim Botânico. Ela falou “ah, conheço uma menina que está cantando aqui num bar na rua Voluntários da Pátria, chamava “Emoções Baratas”. A gente chegou lá e ela estava fazendo backing em uma banda do Leo Jaime. E dançando, uma presença de palco que ela tem, né… Aí eu falei: “ah, vamos chamar a Fernanda”. Aí ficou. Logo em seguida veio o Circo Voador no Arpoador e começou tudo. Muito rápido mesmo.

[Marcia Bulcão] A Blitz era uma banda só de homens. Aí eu conheci o Ricardo Barreto, no Teatro Tablado. Eu fazia teatro, ele fazia as músicas da peça que eu trabalhava. Ele falou um dia “você não quer ir à minha casa, cantar umas músicas, fazer um vocal…?” Aí foi me apresentando as músicas assim. Um dia chamou para eu ir cantar junto e eu entrei na banda assim. Ele [Ricardo Barreto] já sabia que eu sabia cantar e dançar. E antes da Fernanda tinha a Katia Broinstein, aí um dia ela não foi e eu falei assim “vou chamar a Fernanda”, que ela era irmã do Felipe Abreu, que eu já conhecia… Eles moravam na minha rua, mas eu não os conheci na rua, por incrível que pareça. Eu conheci o Felipe na casa de uns outros amigos e fiquei muito amiga dele… No dia que a Fernanda fez 18 anos eu fui na casa dela. Eu fui no aniversário dela de 18 anos. E depois que a Kátia saiu, o Felipe acho que me falou que a Fernanda estava cantando no “Nota Vermelha”, e era o Leo Jaime cantando e a Fernanda fazia o backing vocal com a Virgínia, se eu não me engano. Aí eu fui com o Ricardo ver esse show. Aí ele falou “ah eu gostei da Fernanda, chama ela”. Aí a gente chamou a Fernanda.

Blitz_Fernanda

[Fernanda Abreu] Nessa época [em que entrou na banda] foi em 1981. Eu conheci o Leo Jaime em um festival de dança, ele também era bailarino. Quando chegou no Rio, a gente falou “vamos fazer uma banda”… A banda era eu, Leo Jaime, Fabio Fonseca… Não lembro todo mundo. E aí a Márcia, que cantava comigo na Blitz, era minha vizinha no Horto e namorava o meu irmão. E aí ela falou “olha, eu estou namorando um cara, um guitarrista chamado Ricardo Barreto, ele tem uma banda”. Então a Blitz já existia, era uma banda de homens que era o Evandro, o Barreto, o Lobão na bateria… Baixistas tocaram Arnaldo Brandão, Liminha, Antonio Pedro depois entrou… Sei que a Blitz teve durante um ano uma formação de homens e que eles tocavam naqueles lugares do Rio de Janeiro que a gente já conhece. Foi quando o Evandro achou que era bacana ter a participação de meninas e a Marcia já entrou como namorada do Barreto e aí falou “não, tem que ter mais uma, duas meninas…” Aquelas coisas que não sei exatamente como aconteceu, mas eu sei que eles foram parar no show do Leo Jaime pra ver a minha performance e a Marcia falou “pô, vamos chamar ela e tal” e aí me chamaram depois do show. Evandro adorou, Marcia adorou… E a gente foi para o ensaio. Primeiro ensaio na casa da Marcia, no Horto… E eu lembro que as músicas foram um pouco modificadas por a gente estar entrando na banda… Então “Você não soube me amar” era uma música que não tinha aquele diálogo todo do começo, “ô amor, pede uma porção de batata frita”. “Universitária otária” o Evandro foi meio modificando junto com o Barreto para que coubessem os nossos vocais e a gente tivesse uma participação de mais diálogo nas letras.

[Evandro Mesquita] A gente começava a ensaiar 24 horas por dia, tocando e compondo e o Barreto namorava a Marcia, que participava dos ensaios, botava um vocalzinho… E eu tinha um grupo também, eu dirigia um grupo chamado Banduendes, que era um braço do Asdrúbal, que a gente começou a dar curso… E eu e a Patricya Travassos tínhamos esse grupo. E era uma coisa bem musical também dentro daquela linha de teatro, música… E “Você não soube me amar” e “Egotrip” tinham umas cenas que era um cara discutindo com cinco meninas, como se fossem uma menina… Quando está ruim é tão ruim que parecem cinco meninas e quando está bom também parecem cinco… Então tinha essa coisa do diálogo do “Você não soube me amar”. E aí a gente começou: “na banda a gente podia ter isso também, hein…” E a Marcia estava cantando e falou “ah, eu tenho uma amiga que canta, que gosta de cantar, a Fernanda” e apresentou a gente à Fernanda, aí já de cara assim… “É ela, claro, legal”, aí a gente começou a ensaiar juntos. A Fernanda tinha feito uma participação com o Leo e o Miquinhos, então curtia também essa onda, e encaixou como uma luva… A coisa dos diálogos e das músicas teatralizadas… Foi bem natural, foi bem intuitivo [a escolha da entrada das meninas na Blitz]. E tinham coisas que a gente curtia… Bob Marley na época a gente estava descobrindo, e tinha aquelas cantoras, aqueles vocais, meio de hitman blues… E Kid Creole e coconuts também tinham uma coisa assim… A própria Gang 90… Foi uma coisa pensada para a teatralidade ficar mais legal, você ter essa coisa do diálogo de homem e mulher, que era interessante… Mas foi orgânico, não foi uma coisa arquitetada: “agora vamos botar duas gostosas”. Sorte que elas eram bonitinhas e deu uma leveza também bacana… Mas rolou muito Blitz só de homem antes, no circuito underground.

[Juba] isso foi uma ideia deles, natural. O Evandro, que é um cara de teatro, gostava dessa coisa do texto, tanto que o “Você não soube me amar” eu acho uma música genial, um texto totalmente novo, a musicalidade, a teatralidade da música e aqueles adereços cênicos que tinham, que a Blitz fazia parte… Embora muita gente dizia “ah, parece o B-52”, mas era uma coisa totalmente diferente, totalmente teatralizado, e isso é uma coisa que o mérito é totalmente deles, por ter vindo dessa história do teatro, que eu acho que gerou essa coisa diferente.

[Evandro Mesquita] A gente gravou o disco todo com o Lobão e eu acho sensacional a bateria dele, acho um puta baterista, os comentários que eles faz em “Você não soube me amar”… Tanto que depois que ele saiu, a batida de “Geme geme” ficou de teste para outros bateristas. Muita gente dançava, não conseguia fazer aquela batida nervosa dele. E aí, vamos assinar. E ele já estava com um trabalho com o Bernardo Vilhena, e tinha um cara da Shell que ia bancar o trabalho dele. E ele teve um arranca-rabo com o Mariozinho [Rocha]… O Mariozinho “seu trabalho não vai acontecer em nada, assina aqui”. E ele ficou meio ofendido, naturalmente, e não quis: “não, vou forçar a minha, eu quero cantar também, quero ter as minhas músicas…” E a gente falou “Lobão, tem espaço aqui, você canta, não sei o que…” “Não, mas tem o meu trabalho…” Ele quis fazer o trabalho dele e foi com tudo, maravilhosamente.

[Juba] Em São Paulo eu já tinha uma carreira bem grande. Tocando com todo mundo, cantores, e Joelho de Porco, Made in Brazil, e todo mundo que você pode imaginar. E aí eu estava tocando em São Paulo com Tutti Frutti em um lugar. A gente estava fazendo showzinho até que eu recebi o telefonema de num cara do Rio falando “O Lobão, que é baterista da Blitz, daquela banda que está fazendo um mega sucesso com aquela música “Você não soube me amar” saiu da banda e estou fazendo teste aqui no Rio amanhã. Você tem que vir amanhã, se quiser. Falei “como vou sair de São Paulo, estou aqui com Tutti Frutti” e ele falou “os caras estão pagando quatro tabelas por show”, que era uma coisa assim, três vezes acima do mercado. Aí eu toquei até três e meia da manhã nesse lugar que a gente estava tocando, botei a bateria no carro e me mandei pro Rio de Janeiro. Cheguei na rua Mena Barreto, no EMI Odeon, já estava aquela fila de baterista, a notícia já tinha se espalhado, e vim fazer o teste com eles e graças a Deus o lugar foi meu [risos].

[Ricardo Barreto] Foi difícil, porque o Lobão, realmente, é um cara muito criativo, além de tocar bateria, tem muita ideia, vibrante, e o Juba chegou assim meio “não quero atrapalhar”… A coisa já estava pronta, né… Então ficou mais peso nas nossas coisas… A gente não quis trabalhar mais os arranjos ainda na parte de ritmo, porque o Juba não tinha muito essa participação na parte de arranjo mesmo…

[Evandro Mesquita] […] Aí rolou o Circo Voador, que também nasceu de dentro do Asdrúbal, um sonho do Perfeito [Fortuna], e era uma lona sensacional que abrigaria todas as artes, a gente não precisava pagar teatro, e cursos de dança, de capoeira, teatro, de som… Eu administrava a parte musical do Circo, então colocava muito Blitz, Barão, o Brilho da Cidade, o Sangue da Cidade, Atlântico Blues… Era a rapaziada que tocava lá na época. E vários shows a gente marcava, aí não podia porque o Lobão estava, o Billy estava com a Marina, não sei o que…

[Ricardo Barreto] No começo o Circo também não era o que é hoje, não tinha público, não existia na verdade público de banda assim no Rio… Aí foi aparecendo meia dúzia de gatos pingados e foi crescendo, a gente viu que as pessoas voltavam, que a gente fez vários show lá, as pessoas voltavam e já sabiam uns pedaços da letra e cantavam junto. A gente começou a sentir firmeza.

[Juba] Desde 69, 68, eu já tocava com as bandas, montei minha própria banda… Aquelas bandas na época tocavam cópia de Yes, Genesis, Deep Purple e um monte de bandas maravilhosas, Beatles… Eu montei uma banda… E fiquei muito conhecido lá em São Paulo com uma banda que eu tinha com o Wander Tosh [Taffo], que hoje é do Rádio Táxi e, depois disso, a gente começou a acompanhar vários cantores lá em São Paulo… Fábio Junior, Wanderley Cardoso e quem apareceu… Onde tinha trabalho a gente estava atuando. Eu entrei na Blitz como músico contratado. Aí depois de um ano, a gente se dava tão bem que Evandro, Fernanda, chegaram e falaram “não tem nada a ver você ser contratado, você já é um cara da família da gente, então vamos dividir por igual e no próximo, quando a gente for fazer a renovação de contrato, a gente vai te colocar na banda” Foi uma Mega Sena, né? [ri] [Evandro Mesquita] Acho que eu sou arteiro, gosto de fazer arte. Eu comecei fazendo teatro numa peça chamada “Hoje é dia de rock”, depois fiz o “Trate-me Leão” e aquela coisa toda… E sempre foram peças que as pessoas falavam assim “pô, adorei o show de vocês”. Era uma peça, mas tinha uma energia rock’n’roll, uma energia não comportada ali, sabe? Então a música que eu comecei a fazer tinha a ver com personagens, com cenários, então era uma música teatralizada, as pessoas sempre falam isso… Então, é muito ligado. É o universo da arte que me instiga, me desafia, que me faz meter a cara.

[Fernanda Abreu] Minha formação musical foi como acho como da maior parte dos músicos brasileiros, uma formação que não foi acadêmica, eu não fiz faculdade de música, eu fiz alguns cursos de música… Curso de percepção, curso de harmonia, aquelas coisas que a gente começa a fazer quando é pequeno… Estudar violão, entrar em corais, abrir vozes e tal… Mas sempre tudo de uma maneira muito informal, porque na verdade, eu não era uma pessoa que eu tinha 5 anos de idade, queria ser artista ou queria fazer música ou queria ser cantora. Eu vivia em uma família de classe média, o meu pai era arquiteto, minha mãe trabalhava com turismo, meu irmão também na mesma faixa etária que eu, um ano só mais velho que eu, mas todos gostavam muito de música. Então meus pais tinham uma banda de samba que chamava “A Patota” e nós íamos todo o fim de semana para Teresópolis, eles formavam a banda e ficavam tocando samba… Meu pai tocava cuíca, minha mãe ganzá e cantava… E, então, o ambiente musical da minha casa era muito rico, eles adoravam todos os festivais de música, acompanhavam, faziam bolão e muitos discos, muitos vinis… Então a sala da minha casa tinha uma parte que era toda de vinil, até hoje… Muita bossa nova, MPB, samba, jazz, então sempre se ouvia muita música. Depois na escola, quando eu tinha uns 12, 13 anos, comecei a aprender violão, meu irmão, violão, a gente começou a compor pra festivais da escola, tudo muito informal e ao mesmo tempo eu ali dançando, fazendo balé clássico, que era o que eu realmente tinha na minha cabeça, que eu ia ser uma bailarina clássica, mas a música ia me levando, meu irmão, entrava no coral junto com o meu irmão, entrava não sei aonde…

Blitz_Marcia

[Marcia Bulcão] [A Blitz] foi mais ou menos uma continuação do meu trabalho como atriz e da Fernanda como bailarina porque eu já fazia Teatro de Revista, ou era musical. Já cantava, já dançava, isso não era uma coisa separada na minha vida… Já fazia parte da minha vida, Então a Blitz foi praticamente uma continuação, por acaso era num grupo de música, mas podia quase ser de teatro, podia ter textos e… Ficava assim bem perto de teatro mesmo… Os shows eram bem teatrais, então pra mim não teve nenhuma grande mudança não, foi uma continuação natural. Eu participava do grupo de teatro Disritmia, da Louise Cardoso e nós fizemos “Atrás da trouxa”, que a Catarina Abdala ganhou prêmio de atriz revelação, melhor atriz. E era uma peça muito engraçada, muito legal, sexta-feira… Já era um universo bem pop… É o que falo, bem perto da Blitz, a gente fez a sexta-feira, meia-noite, no Teatro Ipanema, a gente com uns biquínis mínimos, um ano inteiro… No inverno, um frio do cão, a gente lá de biquini… E o Ricardo Barreto já tinha feito todas as músicas, as letras, era meio, uma revista, assim, eram várias cenas, então já era esse ambiente… Tinha uma banda enorme, uma banda completa no palco. Os atores cantavam e dançavam… Era um musical.

[Evandro Mesquita] Eu falei “vamos partir para uma outra ou vamos brincar de outra coisa” e fizemos o último show da Blitz no Circo, com as namoradas fazendo camisetas, bottons, aí convidamos uma porrada de jornalistas, caras de gravadora, não deve ter ido ninguém, mas… Depois desse show, o Magrão do 14 Bis e o Vermelho estavam lá na plateia e falaram com o Mariozinho Rocha “essa banda é maneira, não sei o que, legal”e o Mariozinho me chamou para ver qual era, e eu fui com monte de jornais que o Chacal fazia do Circo, que saía no JB, em um suplementozinho com Bernardo Vilhena, tinha umas poesias, letras e tal, para mostrar que a gente tinha alguma coisa… E bottons e camisetas… Eu estava muito forte naquela coisa do underground, você nada a perder, nada a temer, né? O Mariozinho falou “está legal, eu vou pagar um dia de estúdio na Transamérica. Se o Cléber, era um diretor da Rádio Cidade, curtir, a gente contrata vocês.” “pô, jura?” Cheguei lá na banda: “aí pessoal, tem um dia de Transamérica, a gente vai gravar se o cara curtir e tal” E fomos gravar… Aí chegou lá, o tal do Cléber, que estava todo de gravata, terno, falei, “vai ser foda dobrar esse cara, mas vamos com tudo”… E o show era o show, a gravação era o show, 1, 2, 3 e vamos nós. Aí na terceira música o cara já afrouxou a gravata, pediu uma garrafa de Whisky: “essa é demais, hein, essa é legal…”, aí quando mandamos “Você não soube me amar” o cara era todo sorrisos e “demais, do cacete, desde Secos e Molhados que não via nada estimulante…” A gente, já estava abraçando o cara [ri]…

O Mariozinho [Rocha] nem quis ver antes, ele quis que o cara desse [o aval]… E depois foi hilário, porque eles foram para um restaurante aqui na Barra, chamado Tarantella, que nem existe mais, e o Mariozinho falou “a gente ficou dentro do carro (porque era fita K7 na época) ouvindo horas e do lado de fora neguinho trepando, beijando”, aquela corrida de submarino e os dois ouvindo o disco horas e entusiasmados pra caramba. Aí rolou. E o Mariozinho foi ótimo porque ele entendeu a bagunça do lance, o humor do lance, a nossa falta de experiência com estúdio, onde bota o headfone, completamente índio nessa parte.

[William Forghieri] A gente já estava meio de saco cheio de ficar tocando, tocando, tocando, tocando, e não via nada… Não conseguia gravar, não conseguia botar no rádio… Então teve uma época que a gente falou “olha, vamos fazer agora… ou vai ou racha”. Então a gente fez um show no lá Arpoador e convidamos todo mundo de rádio, de gravadora, mas ninguém vai… Ninguém conhecia a Blitz, ninguém sabia o que era… Mas o cara do 14 Bis, o Vermelho, foi e achou do c…, falou pro Mariozinho Rocha: “Mariozinho tem uma banda assim, assado, tu tem que ver os caras, tu tem que ver os caras…” Aí o Mariozinho fez essa fita junto com o cara da Cidade, chamou a gente pra ver quem que são esses caras, o que está acontecendo. Aí eles ficaram pirados. O cara da rádio falou que foi o maior número de telefonemas que a rádio já teve. Desde 82 pra trás nunca ninguém tinha ligado tanto “quem são esses caras?”, “toca de novo”… Diz que foi um alvoroço total.

[Ricardo Barreto] Isso [do ensaio na casa do Lobão a esse show no Circo Voador] deve ter sido mais ou menos uns 9 meses, tempo de gestação mesmo de uma criança [ri]… Porque foi no verão que a gente foi na casa do Lobão, e logo em seguida a gente fez esse show no Caribe, que era verão que eu lembro e o Circo Voador foi no verão seguinte, exatamente o mês, assim, não lembro.

[Fernanda Abreu] Para mim era um negócio completamente novo e para o Evandro… Ele já estava desistindo. Eu lembro que no segundo show ele falou “bom, esse é o nosso último show” [ri]. Era o meu segundo show e era o último show da Blitz… “Não, realmente não dá mais, a gente está há um ano batalhando pra caramba, a gente vai investir agora tudo no Circo Voador, fiz até um painel “Blitz, não sei o que”, vamos fazer uma roupinha bonitinha para vocês duas, uma de vermelho, uma de azul” A gente fez a nossa roupa com a mãe da Marcia, mãe do Barreto… Fez muitos figurinos pra Blitz. E aí era grande produção, que se rolasse alguma coisa, alguém fosse ver de gravadora, ou de produtora, aí sim a gente teria, se não o Evandro desistia, ia voltar para a carreira dele de ator ou fazer coisas que ele já fazia… Roteiro, escrever, o Evandro fazia mil coisas. E eu lembro que esse show foi emblemático… Foi o Mariozinho Rocha, foi o, não lembro o nome dele agora, da Rádio Cidade, foram umas pessoas, aquelas coisas mesmo, e aí eu lembro que logo depois do show, uma semana, sei lá, dois dias depois o Evandro ligou e falou “Vamos gravar, vamos gravar o single, vamos grava o compacto “Você não soube me amar””. E aí começou a discussão o que seria o outro lado, porque “Você não soube me amar” era a música, e o outro lado que tinha aquele “nada, nada, nada”, no outro lado não tinha nada, o Evandro resolveu… Ele até tinha repertório, mas eu lembro que ele resolveu fazer essa história. E aí foi, foi… E aí foi o que todo mundo já sabe, uma loucura, né?

O Circo foi um lugar fundamental para o Rio de Janeiro, acho que para a cultura brasileira naquela época, porque eu lembro que era 81, a gente estava nem ainda saindo da ditadura. A gente vivia ali naquela época dos anos 70, tinham muitas músicas diferentes acontecendo, mas tinha uma predominância eu acho nas rádios da MPB, se ouvia muito MPB. Claro que tinha o movimento Black, tinha um monte de coisa acontecendo nos anos 70, mas a música, o mainstream era a MPB. E eu me lembro que o Circo, ele simbolizou como se fosse uma tomada da juventude daquela, que estava saindo daquela geração que estava saindo da ditadura. Então, o Circo foi formado basicamente pelo pessoal do Asdrúbal, que era Regina Casé e o Perfeito… Não, Regina Casé e o Luis Fernando tinham uma turma, o Evandro e a Patricya Travassos tinham outra turma, o Hamilton Vaz Pereira tinha uma outra turma e o Perfeito Fortuna. Então assim, a turma do Perfeito tinha Bebel Gilberto, Cazuza, Leo Jaime, Katia Bronstein, que eu lembro, assim. A turma do Hamilton, “Vivo, muito vivo, bem disposto”, que era o nome da turma era Fausto Fossati, Laufer, Sergio Mekler… Mais umas pessoas. Aí tinha a turma do Evandro que era o “Banduendes por acaso estrelados”, tinha toda a Intrépida Trupe, aí você tinha Deborah Colker, você tinha o Manhas e Manias, que era Chico Dias, Deby Bloch, Andrea Beltrão… Quer dizer, você tinha ali toda a geração que hoje está fazendo cultura, está fazendo arte no Brasil. Então, o Circo naquele momento era o lugar, a Meca, da juventude, das pessoas que estavam criando e pensando uma nova forma, uma outra linguagem de entrar na mídia, de a gente conseguir entrar na grande mídia pós ditadura.

 

O disco

[Evandro Mesquita] Eu estava com o Asdrúbal, mas aí com essa notícia, que o cara da rádio tinha curtido e falou muito legal para o Mariozinho sobre a gente… Aí não era mais eu que ligava pra ele, ele me ligava muito querendo marcar gravação e contrato e tal… Aquele contrato que a gente cede tudo, até a mãe, e a gente “assino qualquer coisa, eu quero gravar, quero tocar” e, então foi assim… “vamos gravar o “você não soube me amar””, que é a música que ele vislumbrou como um cartão de visita da Blitz, lançar isso, enquanto isso a gente vai gravando as outras músicas. Então o disco, o compacto saiu, foi pras rádios, começou a tocar, e a gente tava no meio da gravação do LP. Aí tinha uma coisa assim, tinham músicas, aí de repente eu estava levando um som na sala, e o Mariozinho entrar “pô, que música é essa?” Lembro… Era “O romance da universitária otária”. Aí ele “pô, essa é do cacete” Tá, e essa nem estava, então tá, vamos… O “Geme Geme” também nasceu assim, a gente brincando, o Mariozinho entrou “essa é do cacete, vamos gravar essa, vamos gravar” Vamos gravar essa, claro [ri], e fomos gravando… E uma coisa legal também, a música já estava estourada, aí o LP saiu, e ninguém conhecia a nossa cara. A gente foi gravar um clipe no Fantástico, depois disso é que foi o acelerador total… Que as pessoas uniram as caras que não eram umas caras muito normais para o padrãozinho Globo, ou da época, dos músicos, e as meninas, e aquela banda… E depois do clipe, com o humor do clipe também, aí foi embora.

O Mariozinho teve a excelente ideia de lançar primeiro o “Você não soube me amar” e a gente gravou primeiro “Você não soube me amar”. Foi a primeira música. Ele falou “está instigante!”. Como você falou, foge de tudo que estava tocando, de tudo… Então vamos lançar isso para instigar, não vamos botar foto nenhuma, logotipo, compacto… Vendeu quase um milhão… E no outro lado era “Nada, nada, nada, nada” só eu falando “Nada, nada”, não tinha música nenhuma, então era um compacto de uma música só… Neguinho: “que porra é essa?” Eu tenho esse compacto.

[Marcia Bulcão] Vermelho do 14 Bis… Eles foram no show do Circo Voador e eles eram contratados da EMI Odeon. E eles falaram com o Mariozinho Rocha: “olha tem uma banda lá muito legal, vocês tem que ir lá ver…” Aí eu lembro que sei lá chegou um “vai lá no Odeon dia tal, procura um tal de Mariozinho Rocha”. Foi assim que eu fui parar lá.

Blitz_Barreto

[Ricardo Barreto] O Mariozinho Rocha que era o produtor. Na verdade há muito tempo não se gravava um disco de banda no Brasil, de banda de rock. E as pessoas não sabiam muito como lidar com isso e tinham um certo medo. Ia dar muita briga e não sei o que, que banda era confusão, que não dá certo, o que não deixa de ser verdade… Então o Mariozinho praticamente só entrava no estúdio na hora de gravar a voz e vocal… Ele participou muito nos vocais. Ele gostou muito da voz das meninas, viu ali uma possibilidade, deu uma potencializada nisso, participou do arranjos, ensaiou os vocais, a gente deu um capricho nas vozes, 1ª, 2ª, 3ª, mas o som a gente gravou em uma semana. O Franklin Garrido, que era o engenheiro de som, foi uma espécie de produtor também e o Mariozinho falava pra ele “olha, só te peço uma coisa: você consiga gravar uma coisa que seja portável, que dê pra fazer um acetato, que caiba num acetato de vinil, uma coisa assim viável…”

[Marcia Bulcão] [sobre os cuidados do Mariozinho com os vocais] Foi muito bom! Porque era tudo muito intuitivo, pouco estudo e muita emoção, então ele tocava um pouco de piano… Mas ele fazia mesmo porque ele gostava, ele adorava e também foi um pouco compositor, teve até uma música gravada pela Nara Leão, então, imagina, ele devia estar se realizando loucamente ali com a gente. Apesar dele não ter composto as músicas, só fazer os vocais ele já achava o máximo. Então era com muita alegria… Esses momentos eram bem felizes [ri].

[Fernanda Abreu] Isso que foi a grande contribuição do Mariozinho Rocha, porque essas músicas estavam prontas no show. Então não teve assim “ah vamos criar uma música” para gravar o LP. O LP era o repertório do show que a gente cantava. Mas eu acho que no show a gente cantava isso tudo em uníssono. E o Mariozinho chegou para incrementar essas aberturas de voz e, provavelmente, ali na hora de gravar, a gente deve ter dado umas sugestões, aquele“Blitz cabeluda, é”… Tem sempre uma coisa como se tivesse um espacinho que desse pra gente fazer, ou talvez algumas coisas acho que o Evandro fazia… Eu lembro do Mariozinho ter sido uma pessoa fundamental. “Geme, geme” eu acho que também tinha isso… [cantarola…] “que seja sob o sol” Não sei se tinha esse vocal no original… Umas coisas assim. Nos nossos vocais o Mariozinho foi uma pessoa fantástica.

Eu lembro muito dessa época do Circo, eu lembro que eu vi Titãs do Iê iê iê, eu me lembro principalmente que um cara que eu adorava, que era da Gang 90, o Julio Barroso, o super poeta, e a Denise… Quer dizer, foram pessoas que sempre me influenciaram pra caramba… E o William, se eu não me engano, o William tocava com a Gang 90…

A gente fez alguns shows no Circo… Eu não tenho uma memória totalmente clara, mas eu lembro que tinha esse cenário, que era uma coisa que o Evandro falava muito, que tinha feito um pano, que ele mesmo desenhou com Blitz, a gente fez essas roupas, esses figurinos com a mãe do Barreto, a gente ensaiava na casa da Marcia, no Horto, e o repertório era um repertório que a Blitz provavelmente sem as meninas já estava ali, que é o repertório desse primeiro disco, desse primeiro vinil, e a gente ensaiava direto, os vocais a gente ia abrindo, era muito uníssono. Uma das pessoas que realmente foi fundamental foi o Mariozinho Rocha quando a gente foi gravar o vinil… Ele chegou pra gente “não dá, meninas, para vocês cantarem tudo em uníssono… até porque a voz da Fernanda é muito mais grave, a voz da Marcia muito mais aguda, uma loucura” e ele começou meio a fazer os vocais e foi super bacana. E a Marcia era muito teatral, a Marcia vinha do Tablado, de teatro, atriz, e eu era bailarina… Então a gente tinha que juntar as coisas, eu meio puxando a sardinha pro lado da dança, a Marcia puxava pra interpretação, pros objetos de cena. O Evandro também é um cara completamente teatral, e eu lembro.

[Ricardo Barreto] O presidente da gravadora apostou com o Mariozinho Rocha uma caixa de vinho alemão que não ia vender 20 mil cópias. O Mariozinho acreditava que ia vender mais do que 20 mil cópias… E vendeu, sei lá, acho que… Foi disco de platina na época. Foram 250 mil discos. Mas a gente realmente não estava nem preparado psicologicamente para aquilo tud… Foi um certo baque.

[Marcia Bulcão] Tinha até uma famosa aposta. O então presidente [da EMI Odeon], eu acho que ele era um japonês. Mas japonês mesmo, não veio ali de São Paulo. Ele mal falava português, se eu não me engano. Eles falavam em inglês. Teve a famosa aposta de caixa de whisky, se neu não me engano, que o Mariozinho falou assim “eu acho que vai vender 30 mil discos, se vender você vai me dar uma caixa de whisky”, falou pro japonês. E o japonês deu [ri]. O compacto vendeu 750 mil, né. O longplay 250 mil.

[Evandro Mesquita] Ele [Mariozinho] teve essa ideia ótima de lançar esse aperitivo e começou a tocar, começou a tocar, e lembro da primeira vez que eu ouvi, estava no fusca da minha tia ouvindo a Rádio Cidade, quase bati, até parei para ouvir “tá tocando” e começou a tocar muito e rolavam umas apostas na Odeon… Tinha um japonês que era diretor “ah, isso aí não vai dar 3 mil cópias, não sei o que”, apostavam caixas de vinho alemão e a gente tomava comemorando, “não passa de 10 mil”, e ia e ia e ia…

[William Forghieri] A gente estava gravando o disco, aí estava o nosso produtor artístico, que era o Mariozinho Rocha, e um japonês, que era da grana mesmo, contábil. Aí eles fizeram uma aposta. O japonês falou pro Mariozinho que dava uma caixa de vinho alemão pra ele que a Blitz não ia vender mais que 30 mil. Para você ver a cabeça desses caras como eles não sabem de nada, né, bicho… A Bliz vendeu 800 mil. Não foi mais que 30 mil, foi 800 mil [ri]. Era muito diferente, na época o pessoal não sabia o que era, ninguém entendia nada, eles metiam o pau, falavam que o Evandro não cantava nada, que as meninas não cantavam nada, que ninguém tocava nada e a gente vendendo 1 milhão de discos… Então foi uma loucura mesmo.

Como eu entrei [na gravação do primeiro disco]… Já tava tudo pronto, né? As músicas já estavam prontas, mas não tinha nada de teclado. Era só guitarra. Então eu fiz mais um arranjo para me adaptar para o que já estava pronto. Porque já tinha tudo. Os vocais ainda não tinham muito não, aí o Mariozinho Rocha que começou a dar um trato… As meninas começaram a participar mais, né… E teve música que a gente fazia também no estúdio… Às vezes o Evandro chegava com violãozinho, tocava uma vez, a gente já estava tão entrosado que já saía tocando com arranjo. Eu com a minha parte, o Pedro com a parte dele, o Barreto com dele… As meninas já botavam os vocaizinhos também… Mas no começo, o primeiro disco eu estava até em São Paulo. Antes da gente gravar, o dono da Radio Cidade, que na época era number one, chamou a Blitz para gravar no estúdio Transamérica. Aí eu estava em São Paulo, como era uma fita demo, o pessoal não falou nada comigo, né… Estava lá em São Paulo com a Gang ainda… Porque eu ficava com a Gang, eu tocava com a Marina também… Ficava tocando com um monte de gente. E aí um belo dia o Evandro liga lá pra minha casa em Guarulhos, a casa da minha mãe: “Billy, vem cá, nós vamos assinar contrato com a gravadora dos Beatles, vem pro Rio já!” Eu falei “puta que pariu!” [ri] Que loucura que foi! Eu desliguei o telefone, meu pai me levou pra rodoviária, entrei no ônibus com instrumento e desci no Rio… Rapidinho assinamos o contrato, entramos no estúdio e começamos… Gravamos acho que em uma semana, duas semanas, isso… Porque já tava tudo… Gravamos e foi maravilhoso assinar contrato com uma multinacional, EMI, e tudo, e eu que era paulista ficava no hotel aqui na maior mordomia… Foi lindo mesmo…

[Marcia Bulcão] Como faz muito tempo eu não lembro mais desses detalhes, infelizmente eu não escrevi um diário, nem agenda, nada dessas coisas, mas eu lembro que foi [feita a gravação do disco]… Acredito que, talvez, em três semanas. Eu lembro de ter sido muito rápido porque esse show, esse disco na verdade, era praticamente o registro de um show, que já existia há mais de um ano. Que vinha acontecendo e se repetindo, então foi entrar no estúdio e gravar exatamente aquelas músicas que todo mundo já cantava e já conhecia, então não teve muito problema nem deu muito trabalho, foi o disco mais fácil. Na verdade, esse foi o disco mais fácil.

[Evandro Mesquita] Aí teve o lance também da censura, na época, que era foda, a tal da Dona Solange, que censurou duas músicas nossas… E o Mariozinho também teve essa ótima ideia de pegar o master e riscar. Então para a gente devolver essa agressão que a gente estava sofrendo na nossa obra de arte, para o público, neguinho ficava “que porra é essa?”, já comprou o disco já riscado, quebrou muita agulha, as pessoas falavam “botava moeda para ouvir o que era…” “Tem um discurso a mais aí que eles não tão deixando a gente falar.” Tanto que no segundo disco, a minha mãe era decana na UFRJ, professora de Letras, e eu e ela escrevemos uma carta para Dona Solange, falando da importância de liberar as músicas como elas eram, com os palavrões, com o papo de rua, porque era um documento histórico de linguagem de uma época… Aí ela censurou o “Betty Frígida” e depois dessa carta, liberou… Inacreditavelmente, liberou. Tanto que tem um parecer do Ricardo Cravo Albin, que era conselheiro da censura também, falando “não vejo nada demais nisso, tem uma coisa de humor…”

[Fernanda Abreu] Isso aqui eram duas músicas que a gente gravou, uma chamava “Ela quer morar comigo na lua” e a outra era “Cruel, cruel, esquizofrenético blues”. E como a gente sabe, a gente estava ali em 82, ainda estava aquele resquício de ditadura e censura, e censuraram essas duas músicas. O “Cruel” eu lembro porque censuraram, porque ele falava “peru de natal”, “puta que pariu”, falava umas coisas assim, que eram um diálogo… Agora “ela quer morar comigo na lua” eu não sei, eu não lembro. Inclusive não lembro da letra [ri]. Essa música não lembro muito qual foi o motivo. Aí foi uma discussão, o que a gente vai fazer, a música estava gravada, o vinil já estava cortado, e já tinham as faixas, já estava tudo ok, o que a gente ia fazer ? “Ah, não tem problema”, a gravadora falou… “vamos fazer de novo sem as duas faixas, até melhor para o sulco, fica com mais grave…” Aí o Evandro, que se eu não me engano, falou “não, não, vamos arranhar, vamos mostrar que foram arranhadas, foram censuradas, foram proibidas, como é que pode em 82, não é possível, não sei o que lá” E aí foi uma coisa que também foi muito falada na época do disco. Que acho que foi bacana, mostrar de certa maneira esse rito de passagem dos anos 70 pros anos 80. Mas foi simbólico, foi importante. Deu trabalho… Inclusive, pensando bem, era uma coisa que pro consumidor era até complicado, porque aí a agulha chega aqui e vai estragar a agulha da pessoa, o Procon, a pessoa, se fosse hoje, aqueles consumidores reclamando… [risos] [Ricardo Barreto] A gente ficou chateado, principalmente por uma música que realmente a gente gostava muito, que era o “Cruel, cruel esquizofrenético blues”. E ela tinha uns palavrões que acho que hoje não seria censurado. E a outra música não tinha motivo nenhum, mas eu acho que se a gravadora tivesse forçado assim uma barra, ido lá discutir na censura e tal, talvez até tivessem liberado a música, e meio que acharam que o fato de ter música censurada, riscada, que isso ia dar um plus de chique no disco e a gente vindo da coisa da ditadura, que o chique era ser censurado. A gente era uma banda de rock que tinha música censurada. Achava isso meio bacana. Rolou uma certa jogada de marketing…

[Marcia Bulcão] Porque isso era 1982, o finalzinho da ditadura… Era um peru de natal que falava e acho que um puta que pariu… Uma bobajada total… Ah, sei lá, ficamos chateados, mas não ficamos pra morrer não. Mas o Mariozinho ele ficou mais chateado que a gente, eu acho. Ele achou aquilo um absurdo, ele tinha realmente mó carinho com o trabalho, o disco, o artista. Aí ele teve essa ideia “ah é? Eu vou botar lá e vou riscar, vou mostrar que eu não gostei desse negócio, que isso é ridículo, que isso não tem nada a ver” e aí o disco saiu com as duas riscadas, assim…

[Juba] Na medida em que eles fizeram, censuraram a música, nós tivemos como forma de resposta à censura riscar nosso primeiro disco, isso repercutiu de maneira positiva porque aguçou a curiosidade das pessoas: “ué, o que tinha de tão ruim nessa letra a ponto da censura não permitir?” E as pessoas ficaram curiosas para saber, isso ajudou muito na divulgação desse primeiro disco.

[Ricardo Barreto] O Big Boy eu ouvia, ele tinha um programa dos Beatles… Nos anos 60 tinha um programa, ele só tocava Beatles… Eu gostava muito daquele programa. Quando surgiu a Tropicália, com uma coisa mais rock eu achei super legal também, finalmente, né… Mas logo eles foram para Londres e se voltaram mais para a música brasileira outra vez, meio que deixaram o rock pra trás. E o Milton Nascimento também, tinha feito Clube de Esquina, que era um disco assim bem pop, maneiríssimo, mas depois caiu mais pro jazz e tal. Aí eu lembro que os primeiros encontros que eu tinha com o Evandro, ele era ator do Asdrúbal. Falei pra ele “vamos fazer uma banda de rock que está na hora, porque realmente tem muita gente querendo ouvir rock, rock em português. Eu acho que tem um espaço…” E a gente fazia lá aqueles nossos rockinhos… Aí ele falou “ah, duvido, isso aí não…” Depois ele acabou se convencendo, né.

[Evandro Mesquita] A gente veio meio na contramão, na época era uma coisa meio dark, preto, aquele negócio, e a gente veio… Pô, eu cresci na praia, eu vivo na praia, eu me alimento da praia… Então o reggae, a descoberta do reggae foi uma coisa assim… Foi um rock’n’roll tropical, parece xote, parece forró, parece vento no coqueiro… Eu queria que tivesse isso… Eu queria que a gente falasse de coisas sérias na época, de profissão ou sexo, drogas e rock’n’roll, mas de uma forma bem humorada, eu não queria que fosse uma coisa panfletária, nem de tática, “ó, eu sei o caminho, a verdade…” Eu queria que a gente falasse dessas coisas com humor. E então isso, por um lado, causou uma estranheza, e ao mesmo tempo irritou muita gente, muita gente de São Paulo ficou irritada, eu lembro que tinham dois jornalistas que eram terríveis lá, o Pepe e o Miguel… O Pepe Escobar fez uma crítica maravilhosa desse disco e depois ele se juntou ao Miguel pra arrasar um show que a gente fez no Anhembi, fizeram duas críticas acho que na Folha, metendo o pau falando “ah, a banda de uma música só, porque só estava tocando “Você não soube me amar”, é só de um verão” E a gente começou a ter essa carga em São Paulo… Sempre foi o berço do rock, né? O Rio sempre foi sintonizado com o samba, aí chega uma galera lá furando esse bloqueio, vendendo muito, tocando muito, isso incomodou muita gente que tinha trabalho legal, mas que às vezes não saía… O próprio Arrigo [Barnabé] e o Itamar [Assumpção], que na época eram as referências, não saíam de São Paulo, assim, né… E tocavam para aquele público universitário que tinha cabeça parecida com a deles… Eu não, eu estava cansado disso, com Asdrúbal eu fiz isso a vida inteira… Eu queria ir pro Acre, eu queria ir pro Chacrinha, minha luta com o Asdrúbal era essa: “vamos fazer uma esquete no Chacrinha para a gente chegar no Acre e neguinho saber quem é a gente…” Eu queria ir para Vasquinho de Morro Agudo, eu queria ir para o subúrbio, não queria mais ficar no underground tocando para a galera que tem a mesma informação que a minha, eu queria entradas e bandeiras, né… Então isso por um lado ajudou, mas era a nossa verdade… Eu não ia botar preto para agradar não sei quem…

[Ricardo Barreto] A minha influência que eu posso falar… Eu ouvia rock na verdade, eu ouvia rock nos anos 60, sou velho, né… Nos anos 70 eu não ouvia rock. Eu não gostava de rock nos anos 70, eu gostava do Jacob do Bandolim, umas coisas assim. Mas nos anos 60 eu ouvia Jimi Hendrix, Janis Joplin, o rock inglês, Eric Clapton, Cream, esses… Cream talvez tenha sido a banda que eu mais ouvi. Quando o Hendrix morreu, foi em 69, eu fiquei achando que nada ia substituir ele… Nos anos 70 eu ainda ouvi um pouco Trafic, que era uma banda que eu gostava muito.

Agora antes disso, antes de ouvir rock nos anos 60 eu ouvia Bossa Nova, peguei a bossa nova também no início, eu ouvia direto João Gilberto, Roberto Menescal, Nara Leão, os trios de bossa jazz também… Eu adorava, Zimbo Trio. Tanto que a gente está com uma banda atualmente que se chama Djmbo Trio em homenagem, puxando sardinha um pouco agora… [ri]

Eu e o Evandro, que a gente fazia as músicas, a gente só conhecia Bob Dylan, a gente só ouvia Bob Dylan, Rolling Stones… Beatles, claro… Era [uma formação] meio country. Tinha essa coisa meio country. A gente ouviu falar que tinha um movimento assim na Europa, New Wave, que o rock estava voltando com força e foi um estímulo, mas a gente não chegou a ouvir os discos.

Eu acho que [as influências da Blitz eram] mais essa coisa do rock inglês que teve, do Eric Clapton, bastante, e eu acho, que era mais o Bob Dylan, o Eric Clapton. Bob Dylan na coisa de ter coisas longas, discursivas… E a gente foi por esse caminho. Os Stones, tocavam em festa, a própria Rita Lee também, músicas que tocavam em festa nos anos 70… Era Rita Lee, Rolling Stones, e o Tropicália, realmente o Tropicália…

[Marcia Bulcão] Essa palavra rock tem várias interpretações, digamos assim. A palavra rock. Se você imaginar a palavra rock hoje em dia, não sei, talvez uma menina pense na Pitty, rock, Pitty, digamos. Ou digamos rock, Los Hermanos, digamos. Dois exemplos. Então, Blitz, rock. Aí não sei, porque eu acho que a palavra pop se encaixa mais. Inclusive, por exemplo, a música número 1 da Blitz, que por incrível que pareça é o “Dois passos do paraíso”, eu considero aquela música uma balada romântica [ri]. Então é bem pouco rock, digamos. Ou então é um rock romântico… Eu não sei, é difícil definir essa questão, mas eu vejo a banda mais como pop, do que rock. E mesmo até se você pensar em São Paulo, blues, ou aquelas bandas, metaleiros, punk… Não sinto a Blitz muito como rock, eu sinto mais como uma banda pop.

[Fernanda Abreu] Eu lembro que, isso era o que, 81, a gente tava saindo ali, começando a batalhar pela anistia… Eu lembro que eu tava cursando Sociologia na PUC, ainda era muito presente aquele momento da abertura política, né… Eu acho que o que a gente ouvia nas rádios, como eu te falei, eu acho que era basicamente MPB, né, dos grandes nomes da MPB. Eu ouvia muito, eu me lembro, era Maria Betânia, Chico Buarque, Gilberto Gil, e mesmo algumas pessoas de samba, Alcione… As pessoas que eram pessoas maravilhosas que tinham, naquela geração era super forte. Mas, ao mesmo tempo, essa geração, a nossa geração, que nos anos 70 tinha ali, tava fazendo 16, 17, 15 anos… Eu lembro que teve o boom da Disco Music, mais ou menos 76, e toda a Black Music veio junto, porque aí é o funk old school meio Disco, que já virando, né.. O Funk virando uma coisa mais pop, virando Disco. E eu me lembro que assim, eu adorava! Adorava Disco e eu sempre quando eu lia as matérias era uma coisa, tinha um tom de que a Disco era uma coisa alienada, e era uma coisa, era o lixo cultural, e que aquilo não significava absolutamente nada, que não servia pra nada… E eu achava aquilo tudo muito estranho, porque eu achava que era super bacana… A dança, o corpo… E aí vinha aquela discussão da própria esquerda, a cabeça, o intelecto, o discurso… E o corpo não, o corpo era uma coisa que não podia se tocar naquela época, naquele momento, né. Era uma coisa quase subversiva. E eu acho que a Blitz, quando veio, a Blitz veio exatamente junto com todo mundo que veio com a gente, quer dizer, ao mesmo tempo que a gente estava na casa da Marcia ensaiando aquelas músicas, o Titãs estava na casa de alguém ensaiando, e o Paralamas estava na casa da Vó Ondina ensaiando, e o Renato estava com o Legião… As pessoas estavam naquele mesmo momento super contemporâneos criando, sentindo que precisavam se expressar, porque aquela linguagem que a gente ouvia dos anos 70, ok, mas não era exatamente o que a gente queria falar, nem da maneira que a gente queria falar.

[Ricardo Barreto] Acho maravilhosa a relação com o Moreira da Silva, que isso é embutido nisso aí… É, realmente tinha muita coisa falada, quase até um rap, se fosse hoje eles diriam que era um rock, um rap rock… Mas a gente sempre gostou de samba, eu sempre gostei do Moreira, choro e tal.

[Marcia Bulcão] Acho que não [foi inspirada no B-52 e na Gang 90], porque já existia… Porque também todo mundo tinha mais ou menos a mesma idade, na mesma época, o mesmo mundo, o mesmo planeta, né… Então as coisas estão acontecendo, quer dizer, guitarra, rock, bateria, isso tudo existia igual para todo mundo, então claro que tem… Um não estava tocando crave, violino e guitarra. Era todo mundo baixo, guitarra, bateria, então tinha uma sonoridade que você pode dizer da época. Você pode dizer “aquele som de teclado dos anos 80”, aquele som muito característico. “Aquela guitarra dos anos 70 do Jimi Hendrix.” Existem sons característicos das décadas. A Orquestra de Glenn Miller e todas as outras orquestras… Então existem as sonoridades das determinadas décadas, então isso é uma coisa… Não que imite, eu quero fazer igualzinho… Não, nunca teve essa preocupação.

[Ricardo Barreto] A coisa foi crescendo, estourou… Show no Canecão, a gente tinha que preencher aquele palco enorme, a gente estava acostumado com coisa menor, aí foi acrescentando adereços, a Patricya Travassos participava bastante assim, dava muita ideia…

Blitz_William

[William Forghieri] Eu gostava da Blitz mas eu não sabia ainda porque que eu gostava. Porque musicalmente eu achava meio fraco. Porque eu me formei em piano, estudava pra caramba… Mas tinha uma coisa ali que eu falava “bicho, tem alguma coisa…” Não sabia o que era… Mas depois, com o passar do tempo, eu descobri… Que são as músicas em tom maior, tudo alegre, aquele jeitão carioca de falar, reclamar curtindo das coisas, sabe… Aí não deu outra, me apaixonei. E teve uma vez que meu teclado quebrou… Quebrou não, a energia estava fraca e como aquele sintetizador, que ele trabalha com energia, qualquer acorde que eu fizesse ele fazia “nhonhonhonho”, tanto faz, no grave, no agudo… Era tudo “nhonhonhonho” eu falei “não vou ficar aqui fazendo “nhonhonho”, né… Aí eu desliguei o teclado e fui assistir ao show da Blitz. Nossa, foi uma loucura, achei muito bom mesmo… Showzão… A Fernanda, o Evandro e todo mundo… Nossa, era uma loucura. Aí que eu fiquei mais amarradão mesmo, falei “essa banda é muito maneira mesmo!” [ri] Quando eu tive a oportunidade de ver um show deles, mesmo. Bem legal… Nos ensaios a gente tinha um amplificadorzinho que a gente chamava de perereca, um Giannini pequenininho, com três entradas. Então ligava o baixo e a guitarra… No mesmo amplificador, num falantezinho só. O Lobão montava a bateria dele… E a gente ensaiava na casa do Lobão, na casa do Barreto… Nós só fomos ensaiar em estúdio depois que a gente gravou o disco, mesmo… Se não era na casa de um, na casa de outro, pedia aparelhagem emprestada para Cor do Som… Aí a gente alugava kombi, ia buscar amplificador… Ninguém tinha muito nada… E todo mundo ajudava pra caramba um o outro com o maior prazer. Não tinha aquele “ah, não vou emprestar pro cara não”. Não tinha nada disso, era tudo, todo mundo na mesma trip.

[Juba] O que me chamou muito a atenção na banda era que havia um espírito que o importante não era o dinheiro, e sim fazer uma produção muito bem feita. Para você ter uma ideia, na época, a gente para fazer um show Norte, Nordeste, não tinha equipamentos na época à altura de você fazer em locais que nem a Blitz começou a fazer que eram inimagináveis na época… Fazer ginásio, estádio de futebol, na época só Rita Lee fazia ginásio. Bandas nem pensavam, faziam em locais, espaços pequenos, tal.. E a gente tinha essa preocupação com a sonoridade, com a parte de montar cenário. Pra você ter uma ideia, a gente viajava com quatro pessoas só para montagem de cenário. O som e luz saíam do Rio de Janeiro, isso era um custo que praticamente consumia 50% do nosso cachê. E a gente era artista número 1 do país, para você ter uma ideia. Mas a gente começou a fazer em espaços enormes, fizemos Rei Pelé, em Maceió, começamos a fazer o Médici em Brasília, e Fortaleza, começamos a fazer em estádio de futebol. E pra isso se fazia necessário levar o equipamento de som e luz à altura. Então o que me chamou atenção é que o dinheiro não era o mais importante, o importante era fazer um show bem produzido, com cenário, com uma luz boa, com som bom e depois, o que viesse de resultado era consequência.

[William Forghieri] As decisões eram tomadas de forma democrática… A democracia às vezes é um saco, até todo mundo entrar num acordo às vezes você perdia negócios por causa disso. Porque demorava muito pra chegar num acordo. O que um não queria às vezes, seis se ferravam por causa de um. Mas é assim, né… Fazer o que… [ri] [Marcia Bulcão] Era mais coletivo, digamos assim. Tinha um rapaz, Emanuel, que fazia uns adereços muito legais. Aí era uma coisa mais coletiva, mais conversada. A Patricya, talvez na época, ela é mais velha que a gente, do que eu e a Fernanda, e também era do Asdrúbal, então ela coordenava, mas todo mundo participava. Era mais coletivo, mesmo. Não era “dê dois passos pra lá, dois pra cá, levante o braço, ria,ajoelhe, levante”, não era assim, rígido. Era uma coisa coletiva.

[Evandro Mesquita] Uma vez a gente teve uma reunião, logo depois desse show no Caribe, e o Lobão tocava com essa banda e eles faziam um som instrumental, meio um Weather Report, uma coisa que eu não gostava… Então teve uma reunião que os caras, o Zé Luis, falaram “olha, Evandro, a gente quer parar com esse som, porque a gente está fazendo um outro tipo de som, e não sei o que, e não é legal…” Eu fiquei, quase pedi desculpas… “pô, desculpa pela minha musiquinha Sol, Dó, Ré, não sei o que” e aí, o Lobão foi genial, falou “pô, nós estamos ensaiando aqui há um mês, não temos quase música, e os caras chegaram com 10 músicas, com letras, e já uma proposta bacana…” E virou o jogo. Aí a gente trouxe o Lobão e o Guto Barros, e o Arnaldo Brandão…

[Fernanda Abreu] Eu lembro de uma frase do Evandro quando começava meio uma discussão, tudo era votação. “Vamos fazer não sei o que? Vamos.” “Vamos fazer aquele show que a rádio pediu pra gente fazer de graça? Não, de jeito nenhum” O outro falava “não, não custa nada a gente já faz isso mesmo…” “não, não vou” Então tinham umas votações e o Evandro ele arrumava um jeito que ele tinha um discurso que ele conseguia, eu acho, juntar as pessoas, unir essa história toda. Evandro dizia o seguinte: “Gente, calma. A Blitz não é pra vida toda. A Blitz é beijo na boca, não é bodas de ouro. Ninguém tá aqui pra daqui a 50 anos, vamos botar nossa aliança de bodas de ouro… Então não vamos nem se estressar que a gente vai ter que se entender pra sempre…” E com esse discurso a gente ia indo, a gente ia levando, ia muito na maré, na onda…

[Juba] Havia uma democracia geral dentro da Blitz. O Evandro era um catalisador, ele e a Fernanda, por serem as pessoas de frente, no palco, além de serem pessoas bonitas e carismáticas… O público se identificava demais com Fernanda e com Evandro… E lançavam moda, a Fernanda… Então havia essa identificação toda, mas na hora de decisão conjunta eles, humildemente, acatavam decisões que às vezes eram contrárias a que eles tinham, que eles gostariam que fosse determinadas, assim, pra banda. A gente vivia em função do que era bom para a banda, então não havia egoísmo, nem por parte financeira… A gente jogava, estamos no time jogando pra ganhar.

[Fernanda Abreu] Eu lembro dos shows do Circo e o Lobão passar mal e o Nacho sentar na bateria para tocar o show porque estava lotado o Circo Voador. E eu falava “mas, Evandro, a primeira música que começa é “Blitz Cabeluda”, que era uma convenção enorme [cantarola a introdução da música]… “Impossível, o cara não vai saber nunca” e, realmente, foi uma coisa louca. [ri] Aquelas coisas daquela época, da gente com 20 anos de idade. Mas foi um show alucinante, cara. Uma coisa… Outros shows que a gente fez que caiu tempestades, chega na hora o som não sai, o cabo e não sei o que, e o som some, aquelas coisas mesmo que a gente meio desbravou, eu acho, essa coisa… A nossa geração mesmo. Claro que teve Jovem Guarda, teve toda a parte de rock de Mutantes, Zé Bolha e tal, isso tudo a gente está aqui pra valorizar e ter como referência também, mas essa inauguração do pop, pop rock, essa coisa de sair pelo Brasil fazendo show… Hoje em dia eu acho muito mais fácil, qualquer cidade que você vai tem um bom equipamento de som, um bom equipamento de luz, você não precisa levar nada… A gente andava com uma carreta, um caminhão, Blitz atrás do nosso ônibus… Nem era pra ser legal, é porque tinha que ir mesmo, né? [ri].

[Ricardo Barreto] Zeca Mendigo. O sobrenome dele é Proença. O nome dele eu não estou lembrando agora. Acho que é Ricardo Proença. Na verdade eu estive pouco com ele. Ele era um cara da praia, amigo do Evandro de praia. E ele simplesmente fez o refrão da música “você não soube me amar”. Ele fez o refrão. O Evandro contou que viu ele cantando, aí a gente fez o arranjo, harmonizou aquele refrão e foi montando a música. Fizemos a parte B da música que tem no meio do refrão e no final aquela levada com aquele rap, com aquele texto, mas ele, o Zeca Mendigo está aí até hoje, pode procurar no Youtube que tem… Zeca Mendigo, ele tem uma banda, é legal o som dele…

[Evandro Mesquita] Eu lembro que uma vez o Tutti Frutti foi tocar no Morro da Urca e a Blitz ia abrir. Ainda naquela fase sem as meninas, com o Arnaldo Brandão. E eu estava com uma viola de 12 sem afinador [ri]. E completamente desesperado “tóin, tóin, tóin” e pô, não conhecia o [Luis Sérgio] Carlini, ele chegou “deixa eu te ajudar” Ele tinha um afinador todo… 2001… Achei ele um samurai, um cara de uma generosidade ferrada… Não conhecia um outro músico assim, Rio-São Paulo. Sempre que encontro com ele eu falo isso…

[Ricardo Barreto] Às vezes tinha uma melodia. Eu tinha uma melodia, o Evandro botava uma letra. Às vezes eu tinha um começo de letra e o Evandro inventava uma melodia e às vezes eu tinha uma primeira parte e ele fazia a segunda, às vezes eu começava a tocar no violão, ele começava a cantar. Essa música “Cruel, cruel esquizofrenético blues” foi feita assim, instantânea. Comecei a tocar e ele começou a cantar, e saiu a música inteira.

[Juba] A Blitz foi a primeira banda a fazer um show sozinho na Praça da Apoteose. Para 45 mil pessoas. Estava um dia chuvoso, a gente estava muito nervoso porque a gente fazia alguns ginásios pra 12 mil, fazia estádio Rei Pelé que cabia 15, 18 mil pessoas, mas a gente nunca tinha feito em um espaço tão grande. E esse show, particularmente, era para um especial da TV Globo. Então se houvesse pouca gente, 10 mil pessoas na Praça da Apoteose não é ninguém. É praticamente vazio [ri], então a gente ficou com uma expectativa grande meio temeroso, “será que vai dar gente, será que vai dar público?” e inacreditavelmente nós tivemos 45 mil pagantes na Praça da Apoteose, a Globo filmou o show todo, qualquer um pode constatar a loucura que foi aquele show e eu computo esse show como o show mais importante junto com a apresentação no Rock in Rio, que foi um fenômeno… Na época das bandas nacionais que se apresentaram, foi feita uma pesquisa aqui no Rio de Janeiro com o Globo da “apresentação que você mais gostou” e botaram a Blitz em primeiro lugar, que foi eleição feita pelo público do Segundo Caderno do Globo, que deixou a gente muito feliz, foi até comentado pelo Roberto Medina, porque o Medina quando nos contratou para fazer o Rock in Rio ele disse: “olha, eu sabia que a Blitz ia fazer o Rock in Rio, as outras bandas eu não sei quais eram, mas eu tinha certeza de que para atrair público eu tinha que levar a Blitz pro Rock in Rio 1. Foi no dia do James Taylor e do Yes, tinham 200 mil pessoas. Foi sensacional. Sacudiu! Foi um soul doubt, Roberto Medina falou que foi recorde de público esse dia. Foi Blitz, James Taylor e Yes, foi o último dia.

[A excursão à Rússia] foi sensacional porque tudo era uma novidade, curiosidade… Era na época que a Rússia tava ainda com o comunismo muito forte e para a gente foi uma curiosidade, foi incrível a viagem, porque a gente foi em lugares sensacionais, espaços lindos… A gente estava com certo receio de como o público ia receber a gente, mas recebeu maravilhosamente, tocamos até em praça pública, lá perto da Praça Vermelha, tocamos em ginásio, foi fantástico… Principalmente porque junto com a Blitz foi uma delegação inteira de pessoas aqui do Brasil. Foi desde Aécio Neves à Débora Bloch e foi maravilhoso. Fagner… [Eles não entendiam o que a Blitz cantava], mas gostavam da musicalidade, acharam a teatralidade bacana, a música bacana, e eles aplaudiam de forma compassada, eu lembro, era muito engraçado [ri]. Até que a polícia mandava parar de bater palma [ri de novo]. Era tudo muito disciplinado.

[Evandro Mesquita] Eu era apaixonado, sou apaixonado pelo Moreira da Silva. E eu tive uns contatos com ele, eu queria muito fazer uma música com ele… Isso antes de tudo… Aí escrevi uma letra chamada “Minhas férias com um fantasma”, que ele leu “pô, genial”, mas não fez porra nenhuma [ri] e o Moraes Moreira acabou musicando e eu adoro essa música. Mas uma vez encontrei com ele na cidade, ele estava em um orelhão, aí eu “Moreira, estou com uma banda e a gente está fazendo uma coisa meio um rock de breque, contando uma história, não sei o que… Ele falou “genial, muito bom!” e saiu andando, não deu a menor bola [ri], mas era elegância maravilhosa…

[Fernanda Abreu] Eu acho que a gente prezava essa coisa da qualidade, dos show da Blitz que entrava um carro, aí entrava um dublê, entrava uma moto… O Evandro adorava todos os objetos de cena, e cada música tinha uma representação, ele levava aquele troço… E os contratantes reclamando, e a gente levando aquelas coisas… Era meio por aí, acho que a gente foi meio levado, sabe… Quando cê pergunta “ aí, o que que aconteceu?”, se você me perguntar com muito detalhe eu não vou nem consegui me lembrar… [ri]

Blitz_JUBA

[Juba] Luiz Stein e o Gringo Cardia, foram eles que eram responsáveis pelo cenário, pela concepção das capas da Blitz, e por tudo que você vir… A Bllitz era uma coisa assim, além da música ser uma coisa extremamente interessante, a parte cênica, a parte do visual era incrível, todo mundo falava, os letreiros que a gente fazia, que se balançavam na porta do Canecão, e a gente montou a capa do segundo disco, uma mini cidade que colocamos na porta do show, que foi concepção do Luiz e do Gringo, eram coisas fantásticas… Acho que no Brasil eu nunca tive notícia de ter tido assim uma coisa tão completa em termos de audiovisual. O figurino, Fernanda e Márcia colocavam uma blusa, Evandro colocava uma blusa, no dia seguinte a loja que vestia a gente, Yes Brasil, na época, era uma loucura, esgotava em uma semana.

[Marcia Bulcão] As histórias em quadrinho eram uma identidade verdadeira da banda, todo mundo gostava de quadrinho, todo mundo desenhou um dia na vida, um personagem… Enfim, era uma linguagem da Bela Arte também, que era o Luiz e o Gringo. Então, caminhava junto, era esse visual.

[Ricardo Barreto] Isso foi o Luiz Stein e o Gringo Cardia meio que trouxeram, eles que fizeram essa capa do disco que é bem quadrinho, é… E isso encaixou muito com a nossa música, com as letras, e a gente gostou disso. Depois saiu até no segundo disco um gibi e um álbum de figurinhas.

[Fernanda Abreu] Eu concordo que a Blitz fazia espetáculos mesmo. Eu acho que tem a ver com toda a bagagem do Evandro, principalmente da Patricya Travassos também, que era diretora do espetáculo, e aí a gente tinha o Luiz Stein e o Gringo Cardia que eram sócios da Bela Arte, que faziam a cenografia, as capas de disco… Patricya fazia muito com a gente o figurino, mas toda a concepção tinha a concepção de espetáculo teatral, eu acho, de formar uma equipe de criação, iluminador, o cenógrafo, figurinista, o coreógrafo…

[William Forghieri] A letra do Bernardo Vilhena, do Evandro, do Barreto, as letras cariocas, carioquice de falar, de falar coisas que todo mundo sente, mas não sabe falar. Tipo, “você não soube me amar”, “perdi meu amor no paraíso”, sabe? “Estou a dois passos do paraíso…” A Betty Frígida… Universitária Otária… Era tema super que estava tudo no ar, e eu sempre acho que o artista é uma parabólica ambulante, ele pega tudo que está, as energias, e tenta passar para fora, aquilo. E a Blitz tinha gente muito boa, tinha a Patricya Travassos também, o Chacal, era um timaço mesmo, era uma seleção brasileira ali. [ri] Não era mole.

[Evandro Mesquita] Por ser o cantor e o compositor, então era o que estava na frente, sem medo de cair em uma ilusão do sucesso, “ah, agora eu sou artista, tenho asa, tenho dois paus”… Não caía nessa ilusão, assim… Porque era uma armadilha fácil você cair nessa… E a Blitz teve um vendaval disso… De repente as meninas com 18, 19 anos, são ídalas nacionais, e viajando… A gente viajava com dois caminhões, com aparelhagem, cenários, lá para o Nordeste que não tinha… Só Rio e São Paulo que tinham as aparelhagens, os PA’s… E, enfim, então eu consegui segurar essa onda dentro da banda, e tentando administrar isso. Mas foi difícil [ri]. Eu tinha já um trabalho, essa coisa do teatro, que fiz sucesso também dentro do teatro, fiquei um ano em cartaz no Teatro Ipanema com Rubens Correa, Ivan de Albuquerque… A fina flor do teatro, com um puta sucesso. Depois descobri a minha turma que era o pessoal do Asdrúbal também, um puta sucesso. Viajando, comprando Kombi, duas kombis, vamos para o Rio Grande do Sul, com tudo dentro… Fomos presos em Santa Maria, aventuras rock’n’roll, mas com o teatro… Isso me deu uma, sei lá, ou então mamãe, papai, não sei… Eu conseguia segurar uma onda e tentar manter a banda junta.

É difícil administrar as cabeças, das ideias, dos conceitos, mas eu achava que com o sucesso do primeiro disco a gente tinha botado esse ovo em pé, a gente “o caminho é esse, vamos fechar nessa energia…”. Botamos o ovo em pé, mas o ovo é frágil, cai [ri]. E quebra depois, né… Com a formação do primeiro disco a gente fez três discos bacanas. Mas a relação entre a gente foi se deteriorando a cada disco. Drogas, rock’n’roll… Tudo muito fácil, tudo muito… Chega uma hora que aí… Na banda, quando de repente você fala “não”, é uma forma de contribuir que não leva a nada, mas o cara se sente forte com aquela posição… E era muito difícil…

Mas a gente, como vocês, como um monte de gente, conseguiu colocar uns clássicos aí, históricos, e eu tenho mó prazer, mó honra de estar num show e cantar “Você não soube me amar” ou “Dois Passos” ou “Weekend”, assim, e eu canto como se tivesse sido composto no mês passado, porque ela ainda é viva, ainda bate nas pessoas… Você vê os Stones aqui, tocam música de 30 anos. O Bob Dylan, músicas de 500 anos maravilhosas… Ou U2, ou não sei o que, tem essa trajetória histórica. Aqui tem esse preconceito… “Você vai tocar o seu sucesso?” “Vou tocar, cara! E quero mostrar músicas novas também…” Mas tem uma trajetória que é maravilhosa, que é importante ver a história de um artista… Não essa coisa antropofágica da imprensa ou do Brasil, de sugar tudo e cuspir o bagaço, “qual a próxima novidade?” Tudo bem, tem uma próxima novidade, mas tem uns dinossauros que ainda não estão em extinção, ou estão, mas que é importante estarem vivos. E as pessoas se reciclam, né? Agora com essa coisa da internet você deve viver isso também, nosso público tem uma geração que acompanhou aquilo e tem uma garotada que está redescobrindo isso, que o pai, a mãe ou o irmão mais velho tem o disco… Cantam as músicas, são fãs, fazem tatuagem, estão no blog… Isso é lindo, cara. E como a Dercy Gonçalves falou: “acho lindo quem consegue passar a vida cantando e vivendo disso…” [ri]. A Dercy é minha ídala [ri].

[Fernanda Abreu] Foi uma loucura… Eu acho que o Evandro era a pessoa que estava mais centrada, né, com a ideia de que ele realmente estava investindo para que aquilo acontecesse. E o Barreto também, que era o grande compositor junto com o Evandro. O Antonio Pedro, o baixista, acho que já estava há um tempo, o William estava chegando ali agora, o Lobão estava saindo, o Lobão gravou o disco e saiu, entrou o Juba. E eu e Marcia ali também com 19 anos, cara. Eu pessoalmente me vi tendo que administrar sair da faculdade, quase que meio largar a dança, que seria o meu futuro. Foi muito louco… Agora, eu acho o seguinte, eu acho que quem segurou a onda mesmo foi o Evandro. Que é um cara que eu acho uma pessoa totalmente iluminada porque era uma pessoa que segurava com rédea curta a Blitz, aquele sonho, aquela ideia dele… E, ao mesmo tempo, a impressão que a gente tinha na banda é que era uma liberdade total, que era uma coisa muito descompromissada… Quer dizer, não tinha uma pessoa exigindo… Hoje é totalmente diferente, hoje eu imagino que uma banda nova a pessoa já entre com compromisso, e aí ela vai… Ela já tem na cabeça dela que ela pode, ela já tem uma série de parâmetros, o mercado de rock é esse, o mercado de pop é aquele, esse rife funciona, vários produtores, várias gravadoras, vários produtores empresários, quer dizer, hoje tem muito mais informação sobre isso. Como você falou, a gente meio caiu naquele negócio, o Evandro foi uma pessoa que mostrou ter todo o jogo de cintura… Eu lembro era um Chacrinha, atrás de outro Chacrinha, atrás de outro Chacrinha… “Mas a gente vai continuar fazendo esses chacrinhas?” Essa coisa de administrar a banda era diferente… Você ia fazendo aquelas coisas. Aí você fazia muitos shows, fazia muitos chacrinhas, você trabalhava pra caramba, você nem ganhava tanta grana, era muita gente na banda, era um mercado ainda muito no começo, mercado de show, ninguém sabia nada sobre direito autoral, e editora, gravadora, e fonograma, e… Você não sabia nada daquilo, ficava lá tocando. E a gente tocava naquele Circo Voador, depois tinha que tocar em algum lugar e tocamos e vamos viajando e vamos tocando.

[Ricardo Barreto] Olha, a gente estava meio deslumbrado. Meio maluco também, porque uma coisa dessas mexe com você, né… A gente tomava uns drinks, entrava no palco e tocava. Mexeu… Mexeu, né… Principalmente com o Evandro que era mais front man… Era tratado como líder, que na verdade ele não era líder, a coisa era bem democrática… Isso acho que agradava ele e incomodava a gente, então o desgaste foi meio que por aí… O Evandro começou a achar que a Blitz era uma banda que acompanhava ele, entendeu… Ele não era o cara da Blitz…A Blitz era a banda do cara… Foi isso…

Na verdade, o primeiro disco era um disco de banda, era um disco realmente de banda. No segundo disco, a banda já começou… O Lobão saiu, entrou outro baterista, entrou um produtor poderoso, então ficou… E a gente ficou meses no estúdio gravando, então era um disco de produtor, do Liminha. E o terceiro disco a gente quis voltar a fazer um disco de banda, mas como a gente já estava meio cansado demais, não teve a mesma força que teve o primeiro, mas na verdade o terceiro disco é bem mais simples, se você vê, ele ate tem músicas com uma levada mais country… A gente tentou voltar assim pro Bob Dylan, praquela coisa mais balada, mas não…

[William Forghieri] Olha, sinceramente [o sucesso], pra mim, não afetou muito porque eu sempre quis ser músico, desde os 14 anos. Assim que eu descobri, que eu até conversava com todo mundo, perguntava “o que tu quer ser?”, a maioria das pessoas não sabia o que queria ser da vida. E eu, graças a Deus, já soube com 14… Minha mãe me botou o nome de William, queria que eu fosse médico, estudar medicina. Aí eu viro Billy, músico… [ri] Hoje em dia ela me chama de Billy também porque entrou, não deu outra… Então eu sempre soube, graças a Deus, eu sabia que eu queria tocar em banda, não queria ser músico artista, o meu negócio é tocar em banda mesmo, para dar, para deixar a cozinha ali… Para dar um forro pro artista se sentir à vontade e mandar ver. Então, eu continuo a mesma coisa, bicho, de 80… Tu fica um pouco mais chato, né… Às vezes tu fica um pouco esnobe, sem paciência, manda logo todo mundo… Mas essa é a parte meio chata, assim… De que às vezes… Mas passa, pra mim passou rápido.

[Marcia Bulcão] Como tudo na vida, tem o lado bom e o outro não tão bom [ri]. Claro que sucesso e fama e dinheiro, todas essas… Sempre tem o lado bom, viajar bastante, trabalhar bastante, ganhar dinheiro… Mas também tem o lado negativo, que é trabalhar excessivamente, a gente não dizia não pra nada, isso era um problema, era um desgaste muito grande… A gente trabalhava praticamente de domingo a domingo. Era muito desgastee. Físico, emocional, saúde debilitada, e você tinha que passar… Você vira um ícone. A Blitz, alegria, felicidade… Você vira um ícone, então você não pode chorar, não pode ficar doente, não pode ficar triste… Que tem um peso muito grande…

[Juba] A mim, vamos dizer, [o sucesso] afetou de maneira positiva, porque eu já era um cara experiente quando entrei na Blitz, já tinha uma longa estrada com várias bandas, com vários artistas, e eu pude saborear de uma forma incrível, o que era você ser um artista número 1 no país. Você que é um músico de muitos anos como eu sou, você começar a ser um artista número 1 do país com todas as regalias, ganhando muito bem, indo a todos os lugares, a ponto de você vai num posto de gasolina, sem o talão de cheque e o cara fala “não, você passa aí depois, que eu sei que você é o Juba”. É uma coisa, uma loucura uma coisa dessas. Então, eu como músico experiente, que já tinha passado muito perrengue, na hora que eu comecei a carreira, eu saboreei esse momento maravilhoso de sucesso. Saboreio até hoje o que é estar em uma banda famosa, conhecida, e que o público adora.

[Evandro Mesquita] Isso [sucesso da gravação do primeiro LP da Blitz] provocou uma verdadeira corrida de ouro das gravadoras de querer ter uma banda assim, “isso dá dinheiro também”, e possibilitou várias bandas de outras cidades, cada uma com o seu sotaque, personalizado, mostrar o trabalho, muitas entraram, outras não… Eu lembro que o Billy chegava para o Mariozinho “porra, conheço “Titãs do Iê iê iê”, uma banda do cacete” Mariozinho “nove pessoas… não… isso com esse nome…” e o cacete… assim já é demais…” [ri] Assim também já é demais [ri]… Rolou essa, você sabe disso… [ri] [Juba] A gente era tratado [pelas outras bandas de rock brasileiro] com muito carinho porque quando a gente já era um mega sucesso, Paralamas ensaiava no estúdio A, estava ensaiando para gravar o disco, o Legião Urbana estava ensaiando para começar a gravar no dia que eu cheguei na EMI Odeon, primeiro disco deles com “Será” e eles tinham noção clara de que a gente tinha dado pontapé inicial numa coisa maravilhosa. Porque a partir da Blitz toda grande gravadora queria descobrir uma Blitz… E, felizmente, porque você vê, apareceu bandas maravilhosas como Paralamas, Titãs, Legião Urbana, Barão Vermelho. A Blitz foi que proporcionou a entrada dessas bandas maravilhosas no mercado. E a rivalidade não tinha quase nenhuma porque a gente tinha uma relação muito amistosa com todas as bandas, um frequentava o show do outro, porque havia uma noção muito clara de que a gente tinha conquistado um espaço muito importante com as bandas… A gente via o show de todo mundo lotado, era o Titãs, era o Paralamas, era o Legião, era a Blitz, a gente comentava no camarim “puxa, que loucura, que isso não existia antes de 82, né?” Até então só Rita Lee fazia grandes shows, as bandas faziam em locais pequenos, levavam 1.000, 800… E você via todo mundo lotando estádios, ginásios, era uma maravilha, né.

[Evandro Mesquita] Com essa coisa do sucesso da Blitz, possibilitou uma porta aberta que era fechada, que os caras estavam na paranoia com o pessoal dos Novos Baianos, por exemplo, que era genial, maravilhoso, mas tinha aquela coisa de loucura, então “esses caras são loucos, não sei o que”. Tinha uma porta fechada para esse tipo de música, para a gente e tal. E isso, os caras não sabiam que porra era aquela. “Por que você não bota um violino aqui” Não tinha isso… Eu entrava com copo de bolha de sabão, com canudo pra fazer… Uma música “As aventuras submarinas”, a gente fazia uns “abs” com apitinho de [assovia]. Quer dizer, coisas que os caras “caramba, isso pode?” Então, não sabiam e estava dando certo…

[Fernanda Abreu] Eu acho que a Blitz veio de uma maneira muito forte primeiro. Eu acho que a poesia, a coisa do diálogo, principalmente a linguagem poética, direta… E despretensiosa, eu acho… No caso da Blitz com muito humor, algumas outras bandas menos, e começaram várias diferenças mesmo, de estilo e de conceito, mas eu acho que a Blitz também veio com a coisa da roupa, da moda, da linguagem, da dinâmica, da gíria, do comportamento, do jeito de falar, das entrevistas que você dá, do cabelo… Eu acho que isso tudo, eu acho que ultrapassou essa coisa basicamente musical e eu acho que trouxe uma ideia comportamental de que a juventude estava aí. A galera jovem estava fazendo música, e eu acho que as gravadoras perceberam isso… Quando a gente lançou o single em junho de 82, o “O você não soube me amar”, três meses depois vendeu um milhão de singles. Aí que a gente foi fazer o LP. Não tinha LP para fazer. A princípio os caras iam fazer um single e se não desse em nada, acabou, ia continuar contratando quem os caras estavam contratando. Mas, vendeu um milhão… E aí a gente gravou esse disco aí, que vendeu muito bem também. E as bandas outras… E as rádios abriram…”Você não soube me amar” tocou muito no rádio. O que mostrou pros caras de rádio que era possível ter ibope, ter ouvintes, com esse som. Eu acho também que já tinha um certo cansaço… O ouvido já estava ali educado praquele outro som que estava rolando muito… Ótimo, maravilhoso, sensacional, mas a novidade também é uma coisa que pega as pessoas de jeito. E eu acho que a Blitz pegou de jeito, e as outras bandas também… É… Foi uma enxurrada de talento, foi uma enxurrada de gente talentosa e criativa.

[Evandro Mesquita] Fomos os primeiros a tocar naquele território [de rádio, de TV], a chegar nesse território… Até então, precisava ser um medalhão tocar no rádio, medalhão pra frequentar televisão, tinha um peso… Eu acho que tinham umas feras maravilhosas… Gil, Caetano, Mutantes, que já tinham acabado e tal… E rolava uma poesia na música popular brasileira… Meio universitária, inteligentosa, que não batia, que não era a verdade da gente da rua, do pessoal, da garotada, do underground, não era isso que chegava na gente… Aquela coisa de pesquisar. Então eu sentia que, principalmente no eixo Rio-São Paulo, eu conhecia mais. O Asdrúbal tinha um programa na TV Bandeirantes chamado Mocidade Independente e lá eu conheci, por exemplo, o Verminose, que era a banda do Kid Vinil, que já rolava, a Gang [90] já rolava…

[Ricardo Barreto] Os críticos de São Paulo implicaram muito com a gente. Implicavam muito, assim. Eles não se conformavam pelo fato do rock ser uma coisa muito mais paulista e a banda que aconteceu primeiro foi uma banda do Rio, eles não perdoavam a gente por isso… E a gente foi logo no início fazer um playback, foi um dos primeiros shows da gente… Não, não era um playback, era num lugar que sempre tinha playback, lá no ginásio do Corinthians em São Paulo, só que a gente tocou ao vivo. Aí a gente tocou “você não soube me amar”, todo mundo “aahh!”, em seguida, a gente tocou “cruel, cruel, esquizofrenético blues”, que é um blues bem arrastado, naquele bailão popular, assim, do Corinthians e a gente foi vaiado, na hora, jogaram lata no palco e o caramba. Mas fora isso, só os críticos que implicavam, porque o público e as bandas de rock também… Aquele cara do Ultraje a Rigor também gostava de pegar no pé da gente.

[Juba] Eu acho que a importância [para o rock brasileiro] foi muito grande porque a gente nota, quando a gente tem feito esses shows agora, recente, a gente vai desde as pessoas… Do pai que está levando a filha, e a filha já está com uma criança de 7, 8 anos, e é uma geração inteira curtindo a Blitz nos nossos shows. E aí que a gente sente a importância que a gente teve pra essas pessoas. A gente ouve falar “ah, no “Dois Passos” eu conheci meu marido, eu casei com “Dois Passos”, “ah, quando eu ouvi “Você não soube me amar” eu conheci minha primeira mulher”, “ah, quando eu saí do país eu tava ouvindo “Weekend””, então são pessoas que têm na memória… No inconsciente coletivo do povo brasileiro a Blitz está marcada e prova é a quantidade de gente que tem ido nos nossos shows, né?

[Evandro Mesquita]Vou na Bahia, aí os caras, aquele Durval, fala “me inspirei em vocês”, os caras do Tchan “me inspirei em vocês”… Aí eu “como? aonde?” “não, as gatas, e não sei o que” Ma o Arrigo, antes do Arrigo, se eu tivesse que mamar em alguém eu tinha mamado no Frank Zappa, no Kid Criole, no Bob Marley, era muito mais a minha praia… O som do Arrigo era muito mais musical, sei lá…

[Juba] Matinê era uma loucura! Teve um episódio que a gente achou incrível. Que eu tenha notícias foi um único grupo que teve uma chamada do Cid Moreira no Jornal Nacional: “Próximo bloco: show da Blitz no Canecão”. Foi um bloco só sobre a matinê que a Blitz estava fazendo no Canecão, porque era uma loucura, a fila saía do Canecão e ia parar na porta do shopping Rio Sul, que é quase 1 km de distância. E a ponto de ser matéria, de ser pauta em um jornal desse porte. Então para mim aquilo ali ficou marcado na minha memória.

[Fernanda Abreu] Olha pra gente foi uma surpresa [o sucesso com o público infantil]! Eu lembro de falar “o que está acontecendo?” porque o Evandro adorava esses duplos sentidos, “tem que aturar” é meio “pica dura”… Tinha “hum, você tá linda”, tipo “hum boceta linda” [ri]. Ele adorava esses duplos sentidos. Ele falava “e agora? está cheio de criança… o que a gente vai fazer?” [ri] Aí começou uma pressão para a gente fazer matinê. O Evandro falava “Pô, matinê?” Fazia muita matinê no Anhembi, Canecão, e aí a gente fazia aquelas matinês, aquelas crianças, a gente não entendia muito bem, entendeu, mas, né… Como o Evandro falava “estão querendo ver a gente, vamos lá, né?” [ri] Mas eu lembro a Marcia… A Marcia não tinha o menor saco pra esse negócio de criança, e aí acabava o show, né… Aí no final cheio de criança, criança, criança… Camarim, tirar foto e dar autógrafo. Aí começava… Metade ia embora, William, arrumava um jeito, ia embora… Aí ficava Evandro, que tinha uma paciência maravilhosa, eu também era paciente… A Marcia era mais ou menos paciente até um determinado momento. Quando passava uma hora, assim, ela falava… Aí eu lembro, uma vez tinha uma criancinha, sinceramente, tinha uns dois anos, veio com um papel assim pra Marcia e uma caneta. Aí a Marcia falou “Você quer um autógrafo?” e a garotinha, coitada, nem falava direito. “não, você não quer um autógrafo. Quem quer um autógrafo é a sua mãe, que está escondida atrás de você, e que está com vergonha de pedir um autógrafo. Dê esse papel e essa caneta para a sua mãe me pedir um autógrafo e pare de usar essa criança” “Marcia, não precisa isso tudo e dá logo esse autógrafo, cacete” [ri]. Mas a Marcia era maravilhosa, cara, era sensacional. Mas a gente ficava meio assim na dúvida, por exemplo, porque você imagina… Olha a introdução dessa música… Aí uma coisa totalmente quadrinho e lalala… Não cansa? Aí a pessoa ouviu o disco e tem que ouvir toda hora aquela introdução…

 

 

As faixas

Você não soube me amar

[Evandro Mesquita] “Você não soube me amar” tinha uma teatralidade natural, não precisava a gente plantar bananeira nem nada, tinha o diálogo e o humor… Estava ali na cara… Então isso que desconstruiu a cerimônia que existia naquela coisa.

Essa música nasceu desse grupo Banduendes que eu te falei, que eu dirigia com a Patricya. Era uma esquete, uma cena, aquele diálogo, estava ali. O refrão dela nasceu em Saquarema, beira de fogueira [cantarola:] “Você não soube me amar” e a gente foi lapidando com o Guto, foi lapidando os diálogos, é, melhorando os vocais, nasceu assim. Aí eu escrevi a letra, a letrona, e o Guto conseguiu aquele rife de início, para o diálogo, depois botou aquelas partes cantadas, a gente foi colando aquele monstro…

Eu acho que ela é uma música singular e, na época, muito por não ter referências, nada parecido, e ter um cara falando com as meninas respondendo, um papo louco, como você falou, tinha uma poesia ali, e ao mesmo tempo, tinha um humor, era diferente de tudo…

[Fernanda Abreu] Eu acho que a música tinha muitas coisas interessantes. Ela começava com uma espécie de um rap: “sabe essas noites que você sai caminhando…” Essa coisa também da pessoa falar com o ouvinte, eu acho, que o cara está ali no carro, de repente “sabe essas noites que você sai caminhando, assim, de madrugada, com a mão no bolso…” Eu acho que isso é uma coisa que você já é pego, sabe essas coisas, “eu, eu? Sabe essas noites que eu saio caminhando?” Primeiro de tudo eu acho que tinha uma atitude despretensiosa, porque ao mesmo tempo que tinha esse diálogo, tinha o diálogo também na música do Paulinho da Viola “olá, como vai? Eu vou indo e você tudo bem?” que é super… Também o mesmo approach do diálogo, de você estar de uma certa maneira chamando a pessoa pra te ouvir, mas a Blitz acho que parecia uma coisa muito despretensiosa, com humor, e eu acho que a coisa do diálogo, que aí a gente pode remeter à história em quadrinho, à fotonovela, que eu acho que o brasileiro se identifica. Eu acho que essa coisa do diálogo, das meninas, não é à toa que talvez o Evandro tenha tido esse insight de botar essas meninas na banda e não ter continuado mais anos tentando aquela banda de homens… E ter criado esse diálogo… Não sei, de alguma maneira o cara teve esse insight… Falou “não”, ouviu em algum lugar, quem sabe “B-52” da vida, era bem aquela época do New Wave, eu nem sei quem vem primeiro, no caso, mas eu acho que o diálogo das meninas com o cara, eu acho que o assunto, que era um assunto de amor, mas tratado de uma outra maneira… Era o cara dizendo pra menina “Você não soube me amar”. Eu acho que o jeito que o Evandro dizia, que era muito direto, muito carioca… Acho que aquilo que foi arrebatador… Fora eu acho que tinha aquele rife, que era um pouco que a gente vai pegar um pouco em tudo, assim, vai pegar em Rolling Stones [cantarola], isso já era uma coisa, num show quando começava o acorde, neguinho “aaahhh”, então eu acho que tinham alguns elementos. Não tinha exatamente uma fórmula porque era a primeira música tocando, ninguém podia adivinhar que aquilo fosse dar certo… Mas tinham uns elementos, você pensando agora, depois, tentando analisar, eu acho até difícil você saber exatamente porque aquilo deu tão certo. Eu acho que é aquela coisa também de ver uma coisa no momento certo, na hora certa. Eu acho que tem a ver com todo aquele panorama do Brasil, acinzentado, e de repente chega uma banda colorida, falando dessa maneira, para os jovens, sendo jovens, com os jovens, daquela maneira, com humor, de amor… E desencontros, na verdade, o cara tava ali praticamente, né, “Você não soube me amar” o cara estava saindo fora, e ela também, então na verdade era um grande desencontro, mas falava… É dito de uma maneira mais… eu acho solar, né… Eu acho que talvez isso tudo, mas eu lembro de muitas músicas na época… Perdidos na Selva foi também uma coisa que me impressionou muito, assim, era uma música muito bacana…

[Marcia Bulcão] A gente queria que desse certo, mas quando aconteceu foi muito inesperado. Porque tocava muito, muitas vezes por dia, né… Era realmente maciço, e espontâneo, porque eu lembro de viver cenas, de eu estar num ônibus, completamente anônima, porque estava realmente bem no início. E via meninas da minha idade cantando… Eu olhava e não entendia nada… Eu falava “será que ela está cantando pra mim, será que ela me conhece?” Não, estava cantando uma música que ela ouviu no rádio e gostou e estava cantarolando com as amigas…

Então esse disco vendeu muito, 750 mil unidades, que foi muito legal. E tinha isso no contrato. Que quando a Odeon contratou a gente, o Ricardo já tinha um contrato com o grupo “Asdrúbal trouxe o trombone” e que ia passar um mês em Recife, montando uma peça. Eu não me lembro mais qual… Eram aquelas do Asdrúbal. Então eles assinaram, a gente gravou logo essa primeira faixa “você não soube me amar” e lançou o compacto. E, na volta deles, terminaria o disco, pra depois lançar o longplay. Então começou a tocar, e naquela época só tinha telefone, nem e-mail, celular, então eu ficava ligando “hoje eu ouvi, sei lá três vezes, hoje eu ouvi cinco, hoje eu ouvi sete, dez” Claro que eu passava o dia inteiro ouvindo rádio, então eu fui contando, “olha o negócio aqui está acontecendo, está tocando, a minha prima ouviu, a vizinha, ouvi umas garotas cantando no ônibus”, o negócio foi incrível… Isso foi muito legal. E ele de longe, porque eu acho que em Recife ainda não tocava, né? Esse detalhe…

[Ricardo Barreto] Na verdade do primeiro disco teve o “Você não soube me amar”, que eu estava fazendo o som da peça do Asdrúbal lá em Recife e a gente gravou o disco e foi para Recife. Aí cheguei lá, a gente foi ficar um mês em Recife. Aí a Marcia ligou “Cara, a música não para de tocar no rádio” e a gente só tinha gravado essa música. Tem que voltar rápido para gravar o LP porque a gente só tinha gravado essa… Aí as outras músicas já estavam prontas, a gente fazia nessas vernissage, nesses lançamentos de livro de poesia, e só uma música que foi “mais uma de amor” ou “geme geme” que a gente fez no estúdio quando a gente estava gravando o disco com a letra do Bernardo, minha e do Bernardo… E do Antonio Pedro também. E foi a música que segurou o pepino de ser a segunda música, porque sempre tinha aquela ameaça de ser mais uma banda de uma música só. Aí essa música veio e manteve a chama acesa, foi legal.

[William Forghieri] “Você não soube me amar”, segundo o pessoal da Blitz, foi a música que mais rodou, que Lulu Santos tocou, o Liminha tocou, o Guto, o Barreto, eu, todo mundo, cada um que tocava, botava uma, dava uma lapidada na música… E o refrão também, a música… [cantarola.:] “Você não soube me amar” quando a gente parava de tocar no Circo do Arpoador, o povo começava a cantar o “Você não soube me amar” e no tom, sabe… Aí a gente voltava e começava e acompanhar o público também… Isso sem gravar, sem rádio, sem nada. Só deles escutarem… Parece até aquelas bandas inglesas de pub, que você vai tocando em cada pub, vai todo mundo atrás, lota… Onde a gente ia tinha aquela turminha que adorava a gente. E é uma música que fala mesmo “você não soube me amar”, é um negócio… E também foi muito da abertura, que a gente era militar, ditadura, aí de repente abriu tudo, o pessoal começou a poder falar, tivemos música censurada, mas não sei… Eu não contribui muito com “você não soube me amar” porque ela já estava mais do que boa, não precisava fazer muita coisa não, era só respeitar aquilo que está ali e pronto, já estava linda.

[Evandro Mesquita] Esse disco tem essa cara… A gente não ensaiou muito pra fazer. Era o show que a gente fazia. Esse nome quem batizou foi o Gringo e o Luiz Stein, que na época, no Circo Voador eles faziam os cartazes. Era o namorado da Fernanda, e a gente foi conhecer, e eles tinham uma linguagem, uma paixão por quadrinho também, eu sou apaixonado por quadrinhos. Então vamos fazer a capa, vamos fazer a capa assim tal… E aí foi uma surpresa “As Aventuras da Blitz”. Falei “as aventuras? achei que era só Blitz, já era legal, e tal”. Mas, pô, tinha tudo a ver porque as canções tinham essa coisa de história, as aventuras, de personagens, então encaixou super legal.

[Fernanda Abreu] Eu lembro quando a música “Você não soube me amar” foi lançado o single, as pessoas em geral amaram. Amaram, acharam uma coisa super nova, criativa… Nesse meio tempo, eu acho que saíram algumas outras músicas, de outras bandas e aí começou uma certa coisa de que a Blitz era engraçadinha e as outras bandas eram sérias, Legião era contundente, consistente, a Blitz era bobagem, era uma bobagem… Eu não lembro se exatamente nesse disco, mas eu lembro que houve esse momento de que a Blitz era muito bem humorada, muito engraçadinha, e que as outras bandas não, eram realmente bandas com uma coisa mais consistente e tal…

[Ricardo Barreto] O primeiro disco tinha “Você não soube me amar”, “Mais uma de amor”, que foram as músicas que tocaram. E aí depois a gente tinha vários blues, tinha uma música chamada “Totalmente em prantos”, que é meio um blues, meio foxtrot assim… Que eu gosto muito, tinha o “Cruel, cruel esquizofrenético blues” que depois saiu, que primeiro saiu riscado, depois saiu… “Vítima do amor” é uma música bem Rolling Stones, assim… A gente colocou o nosso Rolling Stones acho que nessa música aí… É… “Volta ao mundo”… Meio uma homenagem ao Creedance Clearwater Revival, um rock country. “Eu só ando a mil” é quase progressivo, uma música do Antonio Pedro, que tocava nos Mutantes… Trouxe essa coisa progressiva também. A Blitz era isso, essa mistura de várias coisas, estou vendo aqui, não tinha nada assim um pouco mais brasileiro, que tivesse alguma coisa de música brasileira…

[Marcia Bulcão] Ricardo contribuiu com tudo, porque todas as músicas são dele, enfim, e letra também ele faz. Ele contribuiu muitos por centos, quase 100 [ri]. Eu, quase zero [ri]. A não ser o fato de eu ter ido lá cantar, enfim, eu não fiz nenhuma música… A gente realmente não tinha uma parte de criação, a gente tinha de intérpretes, participação de intérpretes… Aí sim é importante.

[William Forghieri] Eu descrevo como um disco que realizou sonho de muita gente… Até de gente que não participou do disco conseguiu se realizar escutando, ou aquilo de abrir portas pra outras bandas… Acho que foi um disco importantíssimo mesmo pro rock’n’roll, inclusive financeiro, das gravadoras… As gravadoras deram uma crescida depois que começou a pintar Barão, Paralamas, Titãs, Ultraje, Legião… Ccomeçou a pintar banda pra caramba, aí todo mundo ganhou com isso… O público ganhou, as gravadoras ganharam, e eu me sinto orgulhoso de ter feito parte da primeira banda que conseguiu quebrar a porta de uma gravadora… Acho que é super importante, inclusive fizeram uma pesquisa aí, ele entrou como oa 10 Mais discos da década, está entre os 10 melhoras discos da década ou do século, não sei… A MTV que fez uma coisa assim, eu não me recordo. Mas está entre os 10 Mais acho que é do século [ri], é muito bom…

Eu achei que foi o disco mais importante do rock nacional porque quando a gente lançou o disco e começou a vender, as outras gravadoras começaram a contratar todo mundo que aparecia… Ultraje, Paralamas, Titãs, o Metrô na época… Que mais? Vai ter um monte aí que eu vou esquecer… Veio um monte de banda, Legião depois… Kid Abelha, nossa, um monte de banda… E tudo porque… Porque “oh, a EMI lançou uma banda, vamos descobrir uma banda também” E aí pintaram vários estilos diferentes, ninguém é parecido com a Blitz… Até hoje não tem ninguém que faz o que a Blitz faz. Por isso que acho que foi um negócio muito importante de diálogo… O cara falar, a menina responder… A parte mais marcante eu acho que é essa, sabe? A mulher também ter voz, chegar e mandar bala também, não ficar só quietinha escutando o que a gente falava…

[Fernanda Abreu] Às vezes eu acho [o disco] um pouco datado, eu não acho que as composições sejam, eu acho as músicas boas, acho as melodias boas, as letras maravilhosas, eu acho o clima todo do disco ainda hoje, se eu botar pra Sofía, minha filha de 15 anos, ouvir, ou a Alice, de 8 anos, eu acho que vai seduzir elas, eu acho que vai criar um interesse, uma curiosidade. Eu acho que tem vida, você consegue ver que é um negócio que é de verdade e tem vida e é solar. Agora é, esteticamente, eu acho que é um disco dos anos 80, sim, de música pop. É isso. Você vai, tem um pouco de reggae, tem um pouco de funk, um pouco de rock, um pouco de balada, um pouco de country, um pouco de blues, tem um pouco de tudo que acho que era essa referência do começo dos anos 80 de ser pop. Que é poder se apropriar de vários estilos e conseguir fazer seu estilo dentro dessa apropriação das outras linguagens, de gêneros musicais. Mas eu acho… Porque é diferente a gente ouvir isso hoje… Eu acho que mudou a concepção de mixagem, mudou a concepção de masterização, que hoje é tudo muito mais comprimido, de peso… Eu acho que isso que também nos remete a uma sonoridade 80, às vezes até mais do que o arranjo, talvez esse arranjo hoje, tocado gravado, como você tem hoje pluggins e tal, soaria diferente… Talvez não datado nesse sentido, né, não é velho, não sei explicar. Mas eu acho que em termos de criação de conteúdo, você pegar esse vinil e ter isso e botar e mostrar para qualquer pessoa, tem conteúdo, tem estética, tem arte, tem criatividade, tem música, tem dança, tem poesia, tem comportamento, tem Rio de Janeiro, tem Brasil, acho que isso é bacana…

[Juba] [Não é um disco datado.] A prova disso é que a gente começou [hoje em dia] a fazer os shows com repertório novo, sucessos antigos, mas as pessoas na plateia começaram a pedir muita música do primeiro e do segundo disco… Nós começamos a incorporar, tanto é que atualmente nós estamos tocando ao invés de uma ou duas do primeiro disco, estamos tocando quase cinco do disco. De tanto as pessoas pedirem.

[Marcia Bulcão] Faz tempo que eu não ouço, mas que ele é um marco disso, acho que ele é um marco de um disco pós… Não tinha acabado a ditadura, mas praticamente, né… Um sopro novo, um ar novo, uma coisa nova… Uma era nova… Eu acho que esse disco, ele é pai e mãe de muita gente que está aí, muita. Praticamente todo mundo. Você dizer que o rock nacional na década de 80, nós somos pai e mãe de todo mundo. Porque no que a gente começou a existir e dar certo, veio todo mundo. Independente do gênero, do estilo. Está mais rock, menos rock, mais agressivo, menos agressivo… Até todo mundo, até a Pitty e o Los Hermanos, entendeu… Todo mundo veio por causa disso. Se aquilo tivesse dado errado, todo mundo teria tido uma vida bem mais dura. Então, a gente, eu acho que facilitou, escancaramos a porta pra todo mundo. E isso eu acho que é um marco bem bom, bem legal, bem importante.

[Ricardo Barreto] Eu acho que ele tem boas músicas, ele teve uma importância grande de ter aberto o mercado de gravadora para bandas, que estava completamente fechado… Você chegando numa gravadora naquela época “quero gravar minha banda”, sabe… Não existia isso. E o disco foi gravado em 16 canais praticamente ao vivo e isso também acho que trouxe uma sonoridade bacana para o disco. Tem boas músicas, tem várias inovações, e essa música “você não soube me amar”, acho que é uma… eu sei que realmente marcou…

[William Forghieri] A gente faz show até hoje, é um absurdo… Música boa, não é… É aquela coisa, você estuda Bach, de 1700, toca até hoje, entendeu. Quando a coisa é boa, daqui a 200 anos satisfaz, tu toca. Tem música dos Beatles que é linda até hoje, tu chora, não tem isso, música… O Evandro sempre fala: “música boa não tem prazo de validade, bicho”. Você toca daqui a 30 anos, a energia é a mesma… Eu não enjoo de tocar, eu toco desde 81 essa música. São 27 anos tocando a mesma música, é cada vez é diferente, é uma loucura, uma energia diferente, que é uma troca de energia muito grande com o público.

 

Blitz Cabeluda

[Evandro Mesquita] “Blitz Cabeluda” foi uma música que surgiu no estúdio também, a gente queria pô, queria uma abertura, uma vinheta de abertura, até pro show, assim… Então a gente brincou com essa coisa “veja o show, leia o livro, beba Blitz”, essa coisa de estar em todas, assim, então foi o cartão de visitas. Seria a frase.

[Fernanda Abreu] Já traz essa coisa de “não temos vergonha”, de ser pop, e da gente poder comercializar o nosso trabalho. “Compre o livro, veja o filme, assista o show, escute o disco, beba Blitz”, era aquela coisa… E o Evandro um MC, né? Um mestre de cerimônias. Muito mais do que um cantor de rock, sei lá, um cara que está ali, meio de mestre de cerimônia mesmo.

 

Vai vai Love

[Evandro Mesquita] Uma música que nasceu no primeiro show do Caribe. O Baixo Leblon é um lugar que até hoje existe. Era um centro nervoso do underground do Rio de Janeiro… Um bar que foi descoberto pelos taxistas, por ter uma pizza boa, e madrugada, então a galera da noite se reunia lá, e mulheres, rock’n’roll, tudo que tem direito… “Vai Vai Love”…

 

De manhã

[Evandro Mesquita] “De Manhã” é uma música que nasceu no Asdrúbal, eu viajando com uma violinha, eu compus… É uma música que fala de praia também, da sensação boa de você chegar na praia bem cedinho, sem ninguém, o som do mar, e tal.

 

Vítima do amor

[Evandro Mesquita] “Vítima do amor” também é uma música minha. Composta no underground, antes de Blitz também, antes das parcerias com o Barreto também.

[Fernanda Abreu] E acho que essa gaita do Evandro também… Ele adorava o Bob Dylan, então acho que também… Ele queria porque queria, sempre tinham algumas músicas que tinham a tal gaita, que tinha que ter gaita! [ri] Mas o Barreto é muito bom compositor também. Eu acho as melodias são boas, as harmonias ficam bem, eu acho que as músicas são bem construídas, eu acho… Não é à toa, né, esse disco é bom, essas músicas são boas.

 

Romance da Universitária Otária

[Evandro Mesquita] “Romance da Universitária Otária” eu fiz, a gente tocou no festival da PUC uma vez, eu e Barreto só, e foi uma merda, neguinho vaiou, e não sei o que, aí eu compus essa música, “Romance da Universitária Otária”, que era um público que queria uma poesia inteligentosa e tal, então eu contei a história dessa menina que mora na natureza com um cara, que não sabia se fazia Oceanografia ou Veterinária…

[Fernanda Abreu] Tinha língua, não sei o que, não sabia beijar. Tinha um negócio assim, né. Tem sempre isso, cara [ri]. Uma malícia…

 

O beijo da mulher aranha

[Evandro Mesquita] “O beijo da mulher aranha” foi uma das primeiras músicas em parceria com o Barreto. O Barreto uma vez me mostrou uma música chamada “Velho Blues” que ele tinha feito, que me deu mó estalo, eu adorei a letra e o jeito que ele cantou. Então a gente fez essa música juntos, em Nogueira, é… A gente tinha duas namoradas que eram amigas, então a gente ficava levando som, aí as pessoas se juntavam, curtiam, as pessoas iam embora e ficávamos só nós dois, e essa música saiu ali.

[Ricardo Barreto] “O beijo da mulher aranha” é uma balada, meio Bob Dylan… E eu acho que o Lobão trouxe essa roupagem do New Wave, que eu acho que ele ouvia essas coisas… A gente não ouvia mais ele ouvia…

 

Totalmente em prantos

[Evandro Mesquita] “Totalmente em prantos” também foi uma música que eu gosto muito, foi uma parceria minha e do Barreto que fala do fusquinha, o primeiro Fusquinha 69, e de gatas, e histórias assim.

 

Eu só ando a mil

[Evandro Mesquita] “Eu só ando a mil”, uma música composta com o Antonio Pedro, veio dessa coisa de rodar o Brasil a mil e você não se focar muito numas coisas, mas tentar absorver tudo rapidamente, por aí…

[Marcia Bulcão] o Felipe Abreu [irmão da Fernanda], meu amigo de mil anos foi um dia no estúdio. A gente estava gravando “eu só ando a mil” e, enfim, essa é bem rock, bem acelerada. Aí quando parou uma hora ele falou “mas que música que vocês estão cantando?” Eu falei “eu acho que é em português, viu?” [ri] Porque eu acho que era tão rápido que não dava pra entender muita palavra do que a gente dizia. Ele falou que estava realmente difícil de entender a letra. E outra música… Essa foi bem engraçada, assim, na gravação.

 

Mais uma de amor

[Evandro Mesquita] “Mais uma de amor” é o “Geme Geme” do Barreto, Antonio Pedro e Bernardo, que eles me mostraram no estúdio, eu adorei, e a gente começou a tocar, o Mariozinho ouviu e… Vamos botar essa também no disco.

[Marcia Bulcão] Ah, essa música é muito legal também… O nome da música é “Geme Geme”, sempre foi… Acho que foi o Mariozinho, hein… Que falou que não podia ser “Geme Geme” o título e acho que foi até ele que escolheu “mais uma de amor” e até teve uma confusão porque o Lulu Santos tem uma música com esse nome… Deu tudo de ruim de título [ri]. E essa música tem uma história incrível, que é do Bernardo Vilhena e do Ricardo Barreto, e que ele escreveu pra esposa dele, Isabela, que ela tava na Amazônia, então “perdi meu amor no paraíso”, esse paraíso seria a Amazônia, a letra seria um pouco isso. Era tipo um reggae, um ska, um reggae, que eram gêneros musicais que não estavam ainda muito fortes aqui no Brasil, apesar de já ter existido Bob Marley… Mas não tinha ainda o Paralamas, que veio logo depois, que pegou a música de cirquinho e elevou às alturas, digamos.

 

Volta ao mundo

[Evandro Mesquita] “Volta ao mundo” é uma música que eu fiz em São Paulo. O Asdrúbal estava em temporada lá no Teatro das Nações e a gente alugou um apartamento. Então todo o Asdrúbal ficava nesse apartamento na Vieira Santos… O Chacal estava com a gente também… O Chacal foi atropelado lá em São Paulo, foi horrível e eu fiz essa música com a Patricya e um pedaço da poesia do Chacal.

[Ricardo Barreto] Tem vários rocks de 12 compassos, assim, rock’n’roll mesmo… Essa “Volta ao mundo” é um rock de 12 compassos que numa das voltas ele come meio compasso, só tem 11 compassos e meio… E todos os músicos que tocavam com a gente erraram nessa hora… Aí o Lobão gritava lá da bateria: “é um absurdo!” [ri] Aí você não sabia que aquela hora que tinha que comer meio compasso…

 

Ela quer morar comigo na lua [censurada]

[Evandro Mesquita] Um rockinho básico, assim, que eu fiz em Saquarema, é… E tinha uns palavrões, é, é… Mas uma besteira…

 

Cruel, cruel esquizofrenético blues

[Evandro Mesquita] Essa música nasceu ali na Barão de Jaguaribe, eu e Barreto. Barreto tocando, eu saí falando, ela saiu inteira, assim, de prima. Foi a única música que eu fiz assim. É um talking blues, então é uma história falada e a gente tocava nas apresentações da Nuvem Cigana, que eram poetas que diziam poesias, o Charles Peixoto, o Chacal, Bernardo Vilhena, o Ronaldo Santos, o Tavinho Paes… Era um acontecimento literário.

Radioatividade (1984), Blitz 3 (1985)

RADIOATIVIDADE (1984), BLITZ 3 (1985)

[Ricardo Barreto] No segundo disco tinha uma marchinha de Carnaval… [ri] Mas no primeiro não tem nada. No segundo tem uma marchinha de carnaval e uma música que é meio um rock misturado com samba, que é “Egotrip”.

[Evandro Mesquita] A gente estava ainda com muita força criativa, da estrada, de fazer canções em hotel, em ônibus, avião, mas já estava ficando difícil a relação entre a gente. É, e como nesse disco aqui eu tenho quatro músicas só minhas, no outro disco eu comecei a sentir um ciúme das pessoas, e querendo um pouco me isolar, então isso me deu uma mágoa encruada, eu não conseguia colocar nem em palavras o tipo de sentimento que eu estava sentindo ali. Eu senti que estava ficando esquisito, as composições, aí chamavam outros caras de fora, foi perdendo aquela magia do time… Somos nós, vamos com tudo, vamos virar esse jogo de novo, então eu já senti uma dificuldade e uma cobrança também da gravadora: “cadê o outro “Você não soube me amar?”” Esse papo que é foda de aturar. Então rolou isso no segundo. Apesar de ainda ter uma cosia bacana nele, eu gosto também do segundo, muito das músicas que aconteceram… Mas o terceiro também, aí ficou mais difícil ainda a relação entre as pessoas. Todo mundo já tava com mais poder, mais grana… Então “ah, eu canto melhor, eu posso tocar melhor”, tinha uma coisa assim que eu vislumbrei, que era “putz, caímos na armadilha”. A banda se suicidou. Essa que foi a verdade.

[Juba] Foi sensacional porque a gente, tinha essa responsabilidade como toda banda quando dá um mega estouro como a Blitz aconteceu com “Você não soube me amar”, tem aquelas cobranças naturais, tipo “poxa, eles não vão passar desse verão, não vão passar do segundo disco…” Eu lembro muito bem do episódio que havia um diretor de uma gravadora que morava no meu prédio na época e quando ele ouviu o segundo disco nosso gravado, ele falou “ô Juba, poxa, como é que você, um cara experiente, me deixa gravar um disco desse? Poxa, vocês gravaram música que não tem nada a ver com o espírito da banda, que história é aquela de “Dois passos do Paraíso”, “Caminhoneiro”, aquilo não vai tocar nunca na rádio…” E quatro meses depois a mesma pessoa estava pedindo ingresso para ele e para os filhos dele para ir no Canecão. [ri] Pra você ver a loucura que é… A gente arriscou total no segundo disco, de não seguir uma mesma fórmula, e seguir o que a gente, o que o coração mandava, a gente achava que a sonoridade da gente tinha que mudar e que a gente estava ali para fazer o que a gente achasse um trabalho bem feito e não copiar fórmulas que deram certo.

[Fernanda Abreu] A pressão aumentou… Tudo o que era uma brincadeira e que era uma coisa espontânea e leve virou uma coisa de pressão profissional compromissada… E o segundo disco era aquela história do “cadê o segundo ‘Você não soube me amar?””. O tempo todo, qualquer pessoa que entrava no estúdio, “mas onde está o segundo ‘Você não soube me amar?’” E era um negócio que era uma pressão grande, provavelmente, principalmente pro Evandro e pro Barreto, para compor músicas à altura do “você não soube me amar”, e aí eu acho que a gente acertou em chamar o Liminha pra produzir o segundo disco, o Radioatividade, e tem músicas fantásticas como a “Dois passos do paraíso” e “Betty Frígida” e “Weekend”… Foi um disco que eu acho que a gente podia ou ter caído rapidamente naquela história “ah, a Blitz foi uma banda de um disco só, era uma banda engraçada… uma banda de humor e tal mas só tinha conteúdo pra ali, né, pra acabar ali” e a gente conseguiu fazer o Radioatividade que foi um disco que consolidou a Blitz, de verdade… Foram os melhores shows que a gente fez, foi com Radioatividade, em termos de artes gráficas… A gente também arrebentou com aquela capa de maquete… Então eu acho que a gente deu um passo à frente, a gente conseguiu realmente mostrar que a gente podia fazer um disco melhor do que esse, eu acho. Esse é especial porque é o primeiro, porque tem o “você não soube me amar”, que é uma música muito especial. Mas o Radioatividade acho que é um disco mais consistente ainda que esse e aí a gente fez muito show, aí o negócio ficou mais profissional em todos os sentidos… No sentido bom e no sentido chato, da própria relação entre as pessoas… E aí todo mundo fica um pouco mais, eu acho que você fica, tudo fica um pouco menos… O que na verdade é a vida mesmo, quanto mais pressão você tem… É ação e reação, você devolve essa pressão de uma maneira… Aí toda a vida fica uma coisa um pouco mais complicada do que era. Isso era simples, né? Essa época desse disco era tudo mais simples, né. Para você ir ao Chacrinha era uma coisa mais simples, você gravar um Chacrinha depois do Radioatividade era mais complicado… E esperar três horas era mais complicado pra todo mundo da banda… E aí, no terceiro disco… Aí chegou o fim. O ciclo daquelas pessoas, naquele encontro, naquela história ali.

[Marcia Bulcão] Acho que esse momento [“acho que é por aqui, acho que é por aqui”] existiu desde antes de assinar o primeiro disco, porque tudo era uma brigalhada. Se decidisse fazer um show ali na esquina era uma brigalhada, uma confusão, uma brigalhada… Acertar as agendas, cada um tinha uma coisa para fazer, sempre foi brigalhada, nunca houve paz, na verdade. [ri] [Ricardo Barreto] A gente assinou um contrato que ia fazer um disco por ano e a gente queria fazer, estava cheio de gás… Quando eu estava lá em Recife, que a Marcia ligou pra dizer que a música tava tocando, naquela hora eu estava fazendo “Dois passos do paraíso”, que foi entrar no segundo disco. O segundo disco é que realmente a gente se firmou, que a gente foi fazer uma temporada de uma semana no Canecão, ficamos três meses no Canecão, lotado todo dia… Fazendo matinê sábado e domingo, duas sessões no sábado, duas no domingo, com fila, era uma loucura, foi o segundo disco. Segundo disco que o diretor artístico quando ouviu… Os diretores artísticos morreram de medo da Blitz, de não entender aquilo, de atrapalhar, aí eles ouviam quando estava pronto. Foi o Miguel, sentou pra ouvir. Aí terminou e ele falou “mas cadê o hit? Cadê o ‘Você não soube me amar’”? “cadê o ‘Geme geme’”?” A gente, pô, sei lá, deve estar aí no meio dessas daí… Aí começaram a trabalhar o Weekend… Que tocou mais ou menos, tocou legal, assim… Aí depois veio o “Dois passos” que arrebentou. Mas o que puxou o disco foi o show do Canecão, porque o disco realmente não estava o gás que se esperava. Em vista do sucesso do primeiro disco, as pessoas esperavam mais, mas o show, aí tem toda aquela coisa da teatralização, não sei o que, esse impacto visual, foi isso que meio que puxou, as rádios começaram a tocar depois. Depois que eles viram que a gente realmente era uma coisa que existia, que existia um público, existia uma banda.

[Juba] O terceiro disco [Blitz 3] já foi em uma época de mega sucesso e que a gente estava com uma pressão em cima da banda enorme para fazer tudo, absolutamente tudo. Quando a Blitz estourou, eu lembro quando eu cheguei nos estúdios de EMI Odeon, o Paralamas estavam ensaiando, e Legião Urbana também, ensaiando para gravar o primeiro disco. Então a gente tinha uma responsabilidade de praticamente o mercado todo, imprensa, mídia, tudo em cima da banda para fazer desde propaganda de café, comercial de calcinha, e tudo que você pode imaginar, e isso, no meu modo de entender, prejudicou muito aquela coisa de você ter tempo pra criar músicas, de ter um tempo pra você pensar sobre que álbum você vai fazer e, ao mesmo tempo, a gente viajando, a gente viajava já com 32 pessoas na época… Isso começou a criar uma série de divergências dentro da banda, por que caminho a gente ia seguir… Uns gostariam de descansar, outros continuar trabalhando, uns queriam um caminho, outros queriam outro, e isso começou a gerar alguns conflitos dentro da banda e que acabou gerando a cisão da banda depois do terceiro disco, em 86.

Nós já estávamos há três anos, mas muito intensamente. Muito intensamente. A gente estava dia e noite, noite e dia, era comercial de televisão, era show… Qualquer grande evento que acontecia no Brasil nesse período a Blitz tinha que estar junto, era chegada do Papai Noel, era especial da TV Globo, tudo… Altas temporadas, todo mundo queria a gente e para tudo. Era uma coisa impressionante.

Artur Dapieve

Blitz_DapieveAs Aventuras da Blitz aparece aproximadamente um ano depois da Gang 90 causar uma certa espécie… no MPB, no festival. E era um pouco a mesma linha da Gang 90, mas mais pé no chão. As letras do Julio Barroso, loucas, uns ambientes malucos… E a Blitz era o cotidiano, a maneira do Evandro cantar, ele não cantava… Evandro não canta, né… O Evandro fala, é isso que torna atraente o vocal dele, a figura dele. Como um carioca assim prototípico, aquele sotaque muito chiado… E começa a fazer letras que são muito teatrais com as meninas cantando, com bons músicos… É preciso lembrar que o Lobão participa do disco (e dá o pé da banda no meio do caminho). Com bons músicos, uma boa ideia de produção e tendo uma certa percepção da adequação àquele momento. De poder falar aquelas coisas. Três anos antes não conseguiria falar “mas o que eu queria mesmo era te ver nua”, isso a censura ia canetar, porque ia insinuar sexo, o sexo não podia. E aí tem um momento preciso disso ser lançado. Primeiro, com “Você não soube me amar”, a música, depois o disco todo, logo na rabeira dele. E era tão uma fase de transição que duas faixas desse LP da Blitz são riscadas. Na primeira prensagem do vinil são riscadas e depois lançadas no compacto. O disco já estava prensado quando a censura falou “Não. Olha, ‘Betty Frígida’ não dá. E ‘Cruel, cruel, esquizofrenético blues’ também não dá”. Riscaram, a EMI decidiu manter riscado, era uma forma de protesto ali e um pouco depois liberou. Então esse risco marca exatamente o momento em que a Blitz, com senso de oportunidade, mostra “olha, mudou, agora estamos falando de gente real que pede batata frita, que quer ver a menina nua na mesa do botequim. vamos deixar pra lá ‘Cálice’, beleza, tem o seu momento, mas agora a gente quer chopp e batata frita.” E isso deu uma lufada de ar fresco num segmento de música que já não era jovem. Quem fazia música jovem no Brasil no final da década de 70? E aí a Blitz entra nisso com mais felicidade do que o Julio, embarca… E até ele é, de alguma forma, flanqueado por isso, porque ele se apresenta no festival, causa uma impressão com “Perdidos na selva” e fica amargurado porque não deu certo e vai pra Nova York. Quando ele volta a Blitz está fazendo mais ou menos aquilo que ele fazia. Não por estar copiando, eu acho, a Gang 90, mas porque tem um espírito do tempo, tem um pouco isso. Mais ou menos na mesma época, o Arrigo Barnabé estava fazendo uma coisa que era isso intelectualizado. Eu me lembro de ter lido no Pasquim o Angeli criticando a Blitz dizendo que a Blitz copiava o Arrigo Barnabé. E o Arrigo Barnabé copiava o Frank Zappa… E tudo é muito interpenetrado, não tem muito essa não.

Eles são aquilo que, por melhor expressão, eu chamaria New Wave. E era New Wave alinhado no tempo com a New Wave americana e com a New Wave inglesa. Que era a rigor uma diluição do punk rock, uma coisa mais palatável, com tons mais pop e, tal como o punk rock, com coisas de reggae, que por falta de disco de punk rock o Don Letts tocava. Reggae na festa dos punks. E aí tinha tudo isso e tinha já também, até pela própria voz, não pelo que ela estava dizendo, mas pela voz, tinha uma dicção brasileira, já tinha uma cara ali, um tipo de rock que não existia daquela maneira no exterior. Já era original isso, como a Gang também tinha sido. Não tem um correspondente, se você pegar B-52 que era uma… Não é, não é a mesma coisa, é diferente. A dinâmica das músicas é diferente, embora tenha um pouco de teatralidade. E ao mesmo tempo em que era uma banda relativamente grande, com arranjos muito descarnados, as coisas são muito simples, são fáceis de entender. E importante também praquela época de popularização, eram fáceis de tocar. É fácil de tocar as músicas da Blitz, elas são rock’n’roll… Um osso, elas são muito simples de serem tocadas. Não tem grandes arroubos, embora aqueles caras pudessem fazer melhor. Os músicos pudessem fazer melhor. Uma coisa deliberada disso. E tinha o elemento visual também, além das letras, as duas meninas bonitinhas dançando, com malhas relativamente apertadas pra época.

[A primeira vez que ouvi “Você não soube me amar”] causou estranheza, eu tive uma impressão de que não era uma banda, que eram esquetes. Que era uma coisa realmente teatral. Eu sabia da ligação deles com o Asdrúbal… Aliás, o Asdrúbal tem um disco que é meio parecido também com isso. E aí sabia da ligação, mas me parecia mais uma esquete de um programa teatral no rádio, não parecia que tinha mais música além daquilo ali. Mas era uma coisa que da noite pro dia as pessoas já estavam usando aquelas expressões, aquelas palavras, como usam hoje em dia outras coisas. Mas essas ficaram até hoje, o “ok, você venceu”, isso a gente usa o tempo inteiro. A partir do Evandro. E ao mesmo tempo eu me senti meio ludibriado porque eu escutava rock e falava assim “não era isso que eu estava esperando”, eu estava esperando um outro negócio. Mas o rock tem essa característica, na verdade toda arte que está viva, enquanto ela está viva, a característica de driblar as expectativas, de sair, aparecer onde você não espera, como você não espera. Eu estava totalmente na onda punk daquele tempo e eu queria uma banda pesada, virulenta, politizada, e a Blitz não era nada disso, mas ao mesmo tempo ela era aquilo que o Brasil precisava ouvir naquele momento. Então eu precisei refazer os meus conceitos rapidamente [risos] [Resistiu ao tempo] Mais ou menos. Mais ou menos. Não é um disco que eu pegue para escutar hoje em dia. Eu acho que isso é um parâmetro de não resistir bem ao tempo coisas antigas. A Blitz é um pouco porque não resistiu e ao mesmo tempo também talvez porque ela tenha sido usada tão exaustivamente, tenha tocado tão exaustivamente, todas as faixas. É como se eu não precisasse ouvir, tivesse plugado no meu Ipod aqui o tempo inteiro. Mas parece chinfrim. Parece chinfrim inclusive porque a passagem pro CD não funcionou, não é uma boa passagem. Então o som diminuiu em relação ao que era pra época.