Arnaldo Antunes | NOME | BMG, 1993

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Capa Arnaldo Antunes, Zaba Moreau, Celia Catunda e Kiko Mistrorigo

“Multimídia” antes de existir o termo, Arnaldo Antunes  começou a se apresentar, em 1980, com a Banda Performática de José Roberto Aguiar, enquanto escrevia poemas e experimentava com as artes gráficas. Dois anos depois aconteceu a primeira apresentação dos Titãs do Iê-iê-Iê, que perderem o predicado ao assinar com a WEA para o primeiro disco, e os primeiros sucessos, como “Sonífera ilha”. O grupo foi um dos motores do boom do rock brasileiro nos anos 1980 mas logo extravasou o pop dominante com discos de intensos em som e experimentação, como Cabeça Dinossauro (1986) e Õ Blésq Blom (1989).

Os Titãs estavam para completar dez anos quando, durante as gravações de Titanomaquia, Arnaldo preferiu sair  ( “Na banda, tudo era muito discutido, eram oito cabeças. A disputa era saudável, mas grande parte do que eu produzia já não cabia naquele consenso.”) e se concentrar no seu projeto paralelo, que aglutinava linguagens de música, poesia, artes plásticas e video e que resultaria em Nome (1993). A obra era composta de vinil, CD, livro, VHS e DVD e, talvez por isso, foi recebida com certo estranhamento pelo público, embora trouxesse futuros clássicos, como “Alta noite”. 

 

stripnome

FAIXAS

Fênis
Diferente
Nome
Tato
Cultura
Se não se
O macaco
Carnaval
Campo
Entre
Luz
Direitinho
Não tem que
Dentro
Alta noite
Pouco
Nome não
Soneto
Imagem
Armazém
Acordo
E só
Agora

Todas as músicas de Arnaldo Antunes

FICHA TÉCNICA

PRODUÇÃO
Arnaldo Antunes, Paulo Tatit e Rodolfo Stroeter
PRODUÇÃO EXECUTIVA
Kiki Felipe
ENGENHARIA DE GRAVAÇÃO E MIXAGEM
J.R. Cotô
MIXAGEM
Arnaldo Antunes, Peter Price e J.R. Cotô
ENGENHARIA DE MASTERIZAÇÃO
Carlos Freitas, Cia. de Áudio, São Paulo
ASSISTENTE DE MASTERIZAÇÃO
Érico Gnochi
ASSISTENTES DE ESTÚDIO
Octávio Paixão e Ivan Knopfer
PRÉ-PRODUÇÃO
Paulo Tatit, Estúdio Salamandra
PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS
MARISA MONTE | voz (“Cultura”, “Carnaval”, “Direitinho” e “Alta noite”)
PÉRICLES CAVALCANTI | voz e violão (“Entre” e “Imagem”)
EDGARD SCANDURRA | guitarra (“Nome” e “Se não se”)
ARTO LINDSAY | guitarra e voz (“O macaco”, “Não tem que”, “Armazém” e “Dentro”)
JOÃO DONATO | piano (“Alta noite”)

Arnaldo Antunes

Qual a importância do colégio Equipe em sua formação artística?
O Equipe era um colégio que incentivava muito as criações artísticas em todas as áreas e nós tínhamos aula de redação, escrevíamos. Na adolescência, eu comecei a ter aulas de violão, aprender os primeiros acordes, entrei em contato com a música e, na mesma época, comecei também a fazer os primeiros poemas, me interessar pelas revistas de poesia.

Escrevi poemas e contos, acabei editando uma espécie de novela, que eu imprimi na gráfica do colégio – pedi autorização da direção para usar a gráfica e fiz um lançamento no Equipe. Era um jeito de descolar uma grana também, eu vendia em porta de bar, de teatro, enfim, no circuito cultural.

Mas no Equipe, como você falou, eu conheci a maior parte dos futuros integrantes dos Titãs. O Paulo Miklos foi o primeiro parceiro com quem eu comecei a compor, a gente estudava na mesma classe. Depois começamos a compor com os outros companheiros, Marcelo, Nando, mas o primeiro foi o Paulo.

Mas esse interesse por poesia vem de onde?
Era tudo junto, na época, eu curtia a canção popular brasileira, é claro que eu ouvia também rock, funk, reggae, mas gostava muito do Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Luiz Melodia, Jards Macalé, Tom Zé, Os Mutantes, aí fui descobrindo as produções mais antigas, Dorival Caymmi, Noel Rosa, Luiz Gonzaga, Lupiscínio Rodrigues – temos uma tradição de canção que é muito sofisticada e que chegou para mim com muita força, ao mesmo tempo em que os livros de poesia, que me seduziram na adolescência: Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond, Oswald de Andrade, enfim, só para ficar nos de língua portuguesa, e algumas coisas da época, como poesia concreta. Depois eu fui descobrir algumas conexões entre esses dois universos, como o “O Balanço da Bossa e outras Bossas”, livro do Augusto de Campos, um poeta que eu já admirava porque conhecia a “Caixa Preta”, os “Poemóbiles”, e que falava de música popular, João Gilberto, Gil, Caetano.

Na “Caixa Preta” tinha um disco do Caetano musicando poemas do Augusto, dois poemas num compacto simples, que era acoplado dentro do livro. Alguns poetas que também eram ligados ao universo da canção, como Torquato Neto, Waly Salomão, Leminski, também estavam presentes nas revistas de poesia alternativa da época, como Navilouca, Artéria, Código, Muda, enfim, então tudo isso para mim tinha uma conexão e eu me via dentro desse universo. O que eu fazia também era um pouco o trânsito entre essas duas realidades de linguagem.

Você até acabou se tornando amigo do Augusto de Campos…
Sim, primeiro eu era fã da poesia dele, que foi um choque. No colegial, no Equipe, eu tinha um professor de literatura que adorava, o Agnaldo, meu amigo até hoje. Um dia, ele levou a “Caixa Preta”, do Augusto e do Plaza, para a classe e como é uma caixa, com os trabalhos soltos, ficou circulando, todo mundo manuseou e eu fiquei encantado com aquilo.

Depois, claro, fui atrás de outras coisas do Augusto. Nessa mesma época, eu já fazia parcerias com o Paulo Miklos e ele conheceu o Cid, que é músico e filho do Augusto. O Paulo começou a fazer algumas coisas com ele e assim eu o conheci, tive contato, fui na casa dele e um dia conheci o Augusto, que para mim já era um mito. Conforme tivemos mais convívio, tive coragem de mostrar meus poemas para o Augusto, que comentou com muita generosidade, foi bem bacana. Depois passamos a nos encontrar, fizemos alguns trabalhos juntos…

Ele frequentou as nossas turnês?
Não, foi o Haroldo de Campos…

Décio Pignatari também ia…
Décio foi num show no Rio. Augusto não sei se chegou a ver show dos Titãs, talvez…

Outro trabalho bastante importante, paralelo ao dos Titãs, foi a banda performática do [José Roberto] Aguilar, que você e o Paulo, entre outras pessoas, fizeram parte.
Isso foi antes dos Titãs. Em 1979, morei um ano no Rio de Janeiro e voltei de lá casado com a Go, com quem eu fazia também esses livrinhos, um trabalho de caligrafia (que a gente expos em 1981, acho) e também de performance. Em 1980, fomos morar na casa do Aguilar, começamos a fazer performances com ele e ele fundou essa banda performática, que também juntava várias linguagens.

Ele era o grande líder, mas eu, por exemplo, entrava no palco com uma mala cheia de objetos, nos quais tocava percussão, como um livro, uma panela, uma escova, e fazia cenas inusitadas, como pentear um disco de vinil com um pente ou pegar uma pilha de livros e cortar com tesoura, enfim, cenas assim nonsense, além de cantar, fazer os coros. No repertório da banda já entraram algumas canções que eu fiz, aliás, o disco da Banda Performática que eu participei, de 1980, 1981, foi produzido pelo Belchior e o Belchior acabou também gravando duas músicas minhas que estão ali. Ele foi o primeiro intérprete a gravar música minha.

Uma coisa que causou estranheza na época era o fato do band leader ser um artista plástico, não um cantor. Como era isso?
Pois é, era incrível, porque o Aguilar na verdade não cantava, ele dizia, quer dizer, cantava também, mas daquele jeito dele, totalmente antimusical. Mas era uma banda, chegamos a fazer parte do comecinho da cena de rock dos anos 1980 em São Paulo, tocamos em algumas casas que estavam abrindo, a Paulicéia Desvairada, por exemplo, eu lembro do começo da Gang 90, do Júlio Barroso, nós dividimos alguns shows, até que começou Os Titãs e não dava para ficar nas duas bandas, então eu deixei a Performática.

Antes de entrar para Os Titãs, em 1985, lembro que você me chamou para uma festa na sua casa – eu era do Ira! e fui com o Nasi. Na época, você morava ali no final da avenida Paulista, esquina com a Consolação, em cima do Cine Belas-Artes, e o que me chamou atenção foi um fato com o qual eu me identifiquei muito: você e todos os Titãs ouviam desde Noel Rosa e Lupcínio Rodrigues, a MPB clássica, até hardcore, Dead Kennedys, Ratos de Porão, Sex Pistols. Eu achava que era assim que deveria ser. Percebi isso na sua casa, pegando os LPs de sua discoteca. Sempre foi assim dentro dos Titãs e isso ajudou na música que faríamos depois.
Tinha isso mesmo, éramos muito diversificados como ouvintes e, naturalmente, isso aparecia também como compositores. Esse foi ao mesmo tempo um trunfo e um problema dos Titãs, porque até encontrar uma identidade sonora… Teve até um show no Circo Voador em que fomos vaiados, porque cantávamos uma balada de amor como “Demais”, mas éramos incompreendidos por essa multiplicidade de caminhos. Achamos uma identidade no Cabeça Dinossauro, nos dois primeiros discos, a diversidade aponta um pouco mais, o que é legal. Depois, até retomamos em discos como Õ Blésq Blom. É uma questão com qual sempre lidamos, seguir um caminho mais coeso ou apostar na diversidade.

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Já que você falou no Cabeça Dinossauro, que tem “O quê”, um traço muito forte que viria a se confirmar na sua carreira solo. Ali já tem muito do que é o Arnaldo hoje. Quando você trouxe para o ensaio esse poema, eu fui um dos caras que demorou um pouco para entender essa onda, a gente achava até que era um poema circular, porque ficava em looping, mas acabamos gravando, virou um funk eletrônico. Utilizar música eletrônica era outra característica sua e dos Titãs também, aliás, tem um remix genial, feito em Miami. Vamos comentar um pouco.
É, foi engraçado, porque a música acabou fazendo sucesso, foi trabalhada na rádio, todo mundo conhece e tal, mas era uma letra lúdica, construtivista. Foi incrível essa equação virar algo dançante, que as pessoas curtiam num baile, na pista. Era uma novidade dentro do universo da canção e muito relacionada com o que eu tinha anseio de fazer, algo pop, com apelo de massa e tal, mas com algumas estranhezas na forma. É um mesmo módulo de frase que dá em diferentes frases, a partir do modo que você repete, fazendo pausas em diferentes pontos. Na verdade, ele é vazio de sentido, as pessoas devem preencher, porque é um módulo quase lógico, filosófico: o que não é, o que não poder ser, o que é…

Tanto que, depois, eu fiz aquela versão gráfica, circular, em que dá para cantar a música inteira, publicada também como poema no meu livro Psia, de 1986, um ano depois do disco. E foi uma descoberta aquilo também poder ser um poema visual, porque antes era uma canção. Todo esse trânsito entre as coisas acaba acontecendo, às vezes, eu publico um poema que é musicado anos depois e vira uma canção. Esses dois caminhos existem.

Acho que “O Quê” é um primeiro passo muito significativo nessa direção. Até demoramos para achar essa solução musical.
Nos Titãs conseguimos avançar um pouco, alargar as fronteiras do universo da canção, sem deixar de conquistar muito sucesso popular com isso, o que foi um grande barato.

Você já citou “Todo mundo quer amor”, dentre outras gravações que a gente tem em nosso repertório dos Titãs, que tem a ver com o que você faria em Nome. Vamos tentar lembrar de algumas faixas já apontam para essa direção?
“O Pulso” tem a ver, Tudo ao mesmo tempo agora  já tinha vozes simultâneas, que eu também uso no Nome, as letras muito sintéticas, o aspecto lúdico da linguagem.

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Sua faceta multimídia sempre foi muito bem recebida e exercitada dentro da banda. Quando estávamos discutindo como seria a capa do Õ Blésq Blom você apareceu com uma colagem, que automaticamente foi eleita como capa por todos nós. Era um disco em capa dupla, o André Midani chapou logo de cara com o título e a capa. Vamos falar um pouco dessa outra característica do seu trabalho?
Eu sempre fui apaixonado pelo aspecto gráfico, o universo de gráfica, mesmo antes dos Titãs. Em 1988, editei uma revista gráfica, O Atlas, que a Warner entrou como co-patrocinadora e eu nem era da gravadora – como lembrava que a gravadora era uma das patrocinadoras da Navilouca, apresentei uma proposta ao André Midani, que contribuiu generosamente.

O meu primeiro livro, “Ou E”, era todo caligráfico, então todos os meus livros têm um pouco essa brincadeira entre o verbal e o visual, assim como a palavra na canção tem essa relação entre o verbal, a melodia e o ritmo.

A criação visual, a colagem, a caligrafia, a brincadeira com os tipos gráficos também faziam parte dos meus interesses, que depois vieram a dar em Nome, como um trabalho de animação.

Na época do Õ Blésq Blom, havia essa expressão do Mauro e da Quitéria, aquela dupla sensacional de pernambucanos que participam do disco. Nós havíamos decidido que esse seria o nome e eu apresentei a colagem para Os Titãs, todo mundo curtiu, mas isso vinha um pouco da minha paixão gráfica, que me acompanha desde o começo, desde os primeiros trabalhos, paralelamente à música, e que vem em alguns momentos se entrecruzando com ela, como no Nome.

titanomaquia

Os Titãs estavam com um som superpesado – o Titanomaquia foi feito pelo Jack Endino, um grande amigo nosso até hoje – e você saiu da banda para fazer o Nome com dois caras muito legais e próximos de nós todos da cena musical paulistana, o Paulo Tatit e o Rodolfo Stoeter, além de participações do João Donato, da Marisa Monte, do Péricles Cavalcanti.

O projeto do Nome já estava sendo desenvolvido há uns dois anos, paralelamente ao trabalho dos Titãs, e aquilo dividia o meu tempo. Eu fui muito seduzido por ele, fiquei encantando com a possibilidade de inserir movimento na palavra escrita, o que me permitia juntar todas as brincadeiras gráficas que fazia: o uso de diferentes tipos e cores, misturar imagens com texto, a caligrafia e os vários recursos gráficos. Na época, isso ainda estava começando, os programas de animação eram muito precários e trabalhosos, muito mais complicados do que hoje em dia.

Comecei a fazer algumas experiências com computador, com a Celia Catunda e o Kiko Mistorigo, que dominavam mais a técnica, e a Zaba Moreau, com quem eu era casado na época. É claro que uma animação inclui o áudio também e eu migrei para esse projeto, com todas as coisas que eu vinha compondo e que não cabiam no repertório dos Titãs. Na banda, tudo era muito discutido, eram oito compositores, oito cabeças, tudo muito votado e disputado. Por um lado, eu sempre achei isso muito interessante, porque um acaba sendo parâmetro crítico do outro e era preciso dar o máximo de si para corresponder ao gosto dos oito e emplacar uma música no repertório. A disputa era saudável e legal, mas ao mesmo tempo, grande parte do que eu produzia já não cabia naquele consenso.

Para o Nome, eu precisava me dedicar e esse tempo foi ficando cada vez mais escasso. Quando começamos a fazer os primeiros ensaios do Titanomaquia, passei a viver um conflito, porque estava no auge de empolgação com o outro projeto. O Paulo Tatit tinha um estúdio na João Moura, que eu até dividi com ele por um tempo, e estávamos gravando a trilha das animações. Então chegou uma hora em que ficou impossível fazer as duas coisas, eu percebi que precisava escolher, estava um pouco cansado e, ao mesmo tempo, sentindo falta de espaço para mostrar o que eu vinha fazendo, as coisas que eu curtia, e não cabiam ali, pelo menos não no repertório daquele disco, que era direcionado para o rock mais pesado – eu estava fazendo músicas como “Alta Noite”. Havia também um conflito estético e foi ficando impossível fazer tudo, então eu escolhi por um espaço de liberdade, por mostrar outro lado da minha produção.

Saí dos Titãs no fim de 1992 e em 1993 já estava lançando Nome, quer dizer, o projeto já estava avançado, ele demorou muito tempo, mas eu pude me dedicar intensamente para lançá-lo no ano seguinte. Eu fiz questão de mostrar para todo público e para a mídia que eu estava saindo dos Titãs para fazer algo muito diferente, eu não sairia dos Titãs para montar outra banda de rock. Realmente, eu quis marcar essa diferença.

Nome foi um projeto de vídeo, livro e vinil. Agora vamos fazer algo que nunca foi feito aqui no O Som do Vinil, que é ressuscitar o VHS.
Originalmente, era o VHS acompanhado por um livro, que era uma espécie de versão gráfica. Na época, já existia o CD, mas se fazia o LP, então saiu nos dois formatos e em K7 também. Depois, foi relançado em DVD.

Como você realizou e produziu esse trabalho e por que chamou o Paulo Tatit e o Rodolfo Stroeter?
Acho que partiu do impulso de juntar as coisas. Enquanto eu estava no Titãs, lançava os livros de poesia como uma atividade paralela à música e vi nessa linguagem de animação e vídeo a possibilidade de unir tudo, de trazer as músicas. Você falou das diferenças com o rock pesado e eu não tinha nada contra essa vertente, muito pelo contrário, fiz com muito gosto Tudo ao mesmo tempo agora, que também é um disco muito pesado, que eu adoro, e que berrava em “Saia de mim”. Enfim, eu me sentia muito à vontade, mas toda a produção de “Alta noite”, “Cultura”, faixas que estão no Nome, não pertencia a esse universo do rock mais pesado e foi ficando ali, engasgada.

Então foi uma opção mesmo, junto ao anseio de mostrar essa ligação da poesia visual com a inserção da palavra em movimento, explorar a simultaneidade de ler uma palavra e ouvir outra, e o tipo de curto-circuito que isso dá, às vezes, em mais de uma camada – porque há faixas com vozes simultâneas, que dizem mais de uma coisa ao mesmo tempo. Além das várias possibilidades de leitura, uma palavra passando no fundo e outra, no outro plano, por exemplo.

Aquilo criava um território de pesquisa e de criação muito fértil, então foi um projeto muito realizador, no sentido de unir poesia e canção, algo que eu vinha fazendo e que, na verdade, não tinha a ver com os Titãs. É claro que eu acabei indo um pouco mais longe, porque não se trata de um projeto de canções, o disco tem canções, mas também peças experimentais, que acabam violentando o processo da canção, com ruídos, improviso de estúdio.

Comercialmente, eu não sabia muito onde situar, porque não existia livrarias que eram também lojas de disco. O comércio de cultura era muito setorizado, até pela legislação, livraria não podia vender disco, nem banca de jornal, livro tinha um incentivo de imposto que o disco não… Enfim, para poder vender o VHS numa livraria era necessário travestir aquilo de um produto, que era o livro – o VHS era como um brinde. Não havia um espaço para se comercializar, era estranho, hoje em dia seria muito mais fácil, tudo se misturou.

Por que você convidou o Rodolfo Stroeter e o Paulo Tatit para produzir o disco?
O Paulo eu já tinha convidado quando o Nome ainda era um projeto paralelo e eu ainda não sabia que sairia dos Titãs. Ele produziria a trilha do vídeo – a princípio, não seria nem um disco. Começamos a gravar no estúdio dele e ele já estava envolvido no processo do vídeo de animação, que reunia umas 20 peças – a gente chamava de peças, porque não era música, não era poema, eram clipes.

Decidi sair do Titãs, assinei o contrato com a BMG e aquilo se tornou um projeto que seria lançado realmente, com o CD e tudo mais. O Paulo continuou e eu convidei o Rodolfo, na época, que havia me chamado para fazer umas performances. Eu achei muito interessante a questão do improviso, fora o conhecimento musical dele que é bacana, toda a questão de estúdio e de produção, que nos aproximou. Ele trouxe o baixo acústico e as ideias, há faixas ali improvisadas no estúdio, tem uma que é dele e do Arto Lindsay, coisas que foram interessantes e eu incorporei.

Como você citou, tem também várias participações especiais, como o Péricles [Cavalcanti], que eu conhecia desde os anos 1970 e com quem eu já compunha na época e quis trazer umas parcerias, a Marisa [Monte], com quem já estava trabalhando também, o Donato, porque “Alta Noite”, para mim, tinha tudo a ver com ele, o Arto… O Nome era também um projeto aglutinador e eu quis trazer algumas pessoas e coisas que eu já curtia.

Aonde que a poesia concreta se aproxima do universo pop ou até de algumas vertentes do rock, como o punk rock, que é sintético? São coincidências ou bebemos na mesma fonte?
A poesia concreta dos anos 1950 já conversava com o pop nos “Popcretos”, poemas do Augusto em parceria com o Waldemar Cordeiro, nos anos 1960. O próprio convívio do Augusto com a geração Tropicália, a participação nesse debate que envolvia Jovem Guarda, Tropicália e Bossa Nova. Todas essas atividades fizeram com que a música popular e o trabalho desenvolvido por eles tivesse uma afinidade de caminhos. Essas referências anteriores me deixaram muito à vontade para participar dos dois universos, como eu fazia ao publicar livros de poesia e trabalhar com a canção.

O anseio mais construtivista com a linguagem que a poesia concreta trouxe, de certa forma, para a poesia brasileira, foi entrando na cultura por vários lados. A música popular foi um campo que incorporou essa influência, assim como incorporou o que vinha de uma poesia mais lírica e uma atitude mais comportamental que o rock’n’roll tem, ligada à contracultura, ao undergorund.

Assim, a poesia concreta trouxe doses que foram entrando na corrente sanguínea da cultura brasileira.

Nome foi gravado há mais de 20 anos e, de alguma maneira, ele é parente de vários discos interessantes música brasileira, como Araçá Azul, do Caetano Veloso, e Ou Não, do Walter Franco.
Eu sabia que o Nome tinha esse lado experimental e essas referências anteriores, às quais ele é devedor. Ele tinha uma inspiração dos discos mais radicais, mais experimentais da música brasileira, especialmente os que você citou.

Meus discos posteriores são mais dentro do que a gente chama de canção popular, mas sempre com uma pitada qualquer de estranhamento ou algum ingrediente que tem a sua semente lançada na época do Nome.

Como a imprensa e o público receberam Nome?
Foi estranho, acho que tinha um respeito pelo trabalho, mas muita reação contra. Falavam que era experimental, não pop, e que eu estava fazendo algo que não teria sucesso. Eu achava o contrário, que poderia fazer sucesso com aquilo, pois era um desenho animado – eu tinha visto crianças assistindo e gostando, tem “Cultura”, por exemplo, que depois foi gravada pelo Palavra Cantada, mas existia um receio de ser algo difícil para as pessoas.

Para mim, era tudo pop, achava que tocaria no rádio e seria muito fácil para as pessoas entenderem, mas não rolou nada disso, rolou um estranhamento. Ao mesmo tempo, foi uma receptividade dividida, as pessoas não foram contra, há críticas elogiosas de quem entendeu, da mídia, mas eu senti uma dificuldade que eu não sabia que seria tamanha.

Você se incomodou com a estranheza que ele provocou?
Claro, na verdade, eu tinha uma expectativa de que aquilo podia atingir um público que não atingiu. Não compartilhava e nunca compartilhei com quem diz  que realiza um trabalho para poucos, eu queria que meu trabalho fizesse sucesso – qualquer pessoa que trabalha com música popular quer ser ouvido pelo maior número de pessoas possível, tocar no rádio e fazer show para uma plateia cheia. Foi decepcionante não emplacar e o fato de as pessoas estranharem para mim não tinha nada a ver.

Faz mais de 20 anos que esse projeto multimídia foi lançado. Como você o enxerga hoje?
Eu não ouço esse disco há muito anos, então teria que escutá-lo de novo. Não sei como sentiria, mas é claro que eu curto e reafirmo tudo que está ali. A única coisa que me arrependi foi a mixagem, que eu corrigi depois, pois não tinha ficado satisfeito. Foi bom, porque agora tenho plena satisfação com esse produto.

Ele corresponde a determinados anseios expressivos daquela época. Vejo como um momento de transição entre a carreira solo e a saída do Titãs, e um caminho para me diferenciar do que eu fazia com o Titãs, ao mesmo tempo em que escancarava algumas portas para que pudesse seguir fazendo as minhas coisas.