Tiago Rodrigues, 19/12/2013. Uncategorized
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Faixas
Vou festejar Jorge Aragão, Dida, Neoci
Visual Neném, Pintado
Ó Isaura Rubens da Mangueira
Marcando bobeira João quadrado, Beto sem braço, Dão
Meu caminho Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito
Goiabada cascão Nelson Cavaquinho, Wilson Moreira
Você, eu e orgia Candeia, Martinho da Vila
Lenço Monarco, Francisco Santana
Passarinho Chatim
Linda borboleta Paulo da Portela, Monarco
Que sejam bem-vindos Cartola
Agoniza mas não morre Nelson Sargento
Ficha técnica
RCA, 1978
Produção Rildo Hora
Arranjos de base Ivan Paulo
Arranjos de cordas Orlando Silveira
Diretor criativo Durval Ferreira
Capa Ney Tavora
Fotografia Ivan Klingen

Entrevista com Beth Carvalho

Beth, fiz uma playlist com várias faixas do seu disco e acho que elas poderão nortear nossa conversa. Do disco Andança tem umas coisas muito boas. A própria faixa “Andança”, a faixa “Sentinela”, “Samba do perdão”, “Estrela do mar”, umas coisas muito legais que eu estava ouvindo.

Esse foi o meu primeiro LP, em 1969.

Vamos dar um salto para a fase da Tapecar, a gravadora que é daquele espanhol.

Do Manolo.

Isso mesmo. Na primeira estrofe, você já sabe que essa música é um sucesso. Já no disco Nos botequins da vida temos “Carro de boi”, “Saco de feijão”, e eu, ouvindo essas gravações, pensei: “caramba, parece que eles fizeram essas gravações hoje, porque isso aqui não tem tanto reverb, coisa que já não se usa mais”. Esses discos, de certa forma, deram um start em um som novo, então eu acho que você poderia botar os pingos nos is, esclarecer umas coisas pra gente porque tem muita confusão nisso: pagode de São Paulo, pagode brega etc. A gente não fala mal de ninguém no programa, por princípio, mas tem coisa que a gente precisa esclarecer.

Com certeza!

Beth, você poderia fazer uma comparação entre a sonoridade do samba do morro, dos anos 1960, que até acabou sendo abraçado pela geração da Bossa Nova, você testemunhou isso, e o samba que você ouviu nas rodas do Cacique de Ramos, nos anos 1970. Por favor, faz uma comparação entre essas duas vertentes do samba carioca.

Bom, na verdade, até o momento do Cacique do Ramos se gravava samba com instrumentos como surdo, pandeiro, tamborim, cavaco, violão. O que fez a diferença muito grande foi a instrumentação diferente que esse pessoal do Cacique de Ramos utilizava, que era o tantã, na forma que era tocado acabou criando um novo som naquele instrumento. Ele até existia, mas ali foi tocado de forma diferente. Também tinha o repique de mão, que o Ubirany criou. Ele era um repique de baqueta normal, mas ele tirou a pele debaixo, botou uma madeira dentro e surgiu um novo instrumento. E ele toca como ninguém! O Ubirany é um gênio no instrumento. Aí tinha o banjo, que é um instrumento africano. Muita gente pensa que é americano, mas não é. Mas esse banjo é um pouco diferente, com afinação de cavaquinho e com o braço pequeno, diferente daquele grande, americano. Foi o Almir Guineto que inventou essa história. Então eu cheguei no Cacique e ouvi um novo som de samba, instrumentalmente falando e com composição nova também. Eles eram diferentes nesse quesito, porque tinham o samba tradicional misturado com um pouco de bossa nova e com a turma da antiga. Era um som deles. Por exemplo, Arlindo Cruz tem uma característica de composição. Sombrinha, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, eles tem uma personalidade na forma de compor. Concorda? E eu fiquei encantada com aquelas pessoas porque eram gênios! E eles estavam ali, porque como todo artista, eles precisavam mostrar a sua arte. Pra quem? Não sei, mas precisavam mostrar. Eles não tinham espaço em lugar nenhum, já que naquele momento as escolas de samba que deveriam faziam esse papel deixaram de fazer. As escolas de samba eram um lugar aonde os compositores iam pra mostrar os seus sambas. Eu peguei esse tempo, mas isso acabou. A partir dali, a escola de samba só tocava samba enredo, como é até hoje. O samba de quadra, como a gente chama, acabou. E o compositor ficou assim: onde vou mostrar meus sambas? Então, o Cacique de Ramos foi esse lugar. Eles não fizeram de propósito, não foi um movimento, não foi nada. Uma coisa extremamente espontânea. Eles deram a sorte de eu chegar lá e eu tive a sorte de conhecê-los. A sorte porque eu era uma cantora profissional, famosa, já tinha o caminho na mão, mas eles não tinham nada, eram amadores, cantando um pro outro. E, assim mesmo, eu ainda demorei um ano pra gravá-los. Não caiu minha ficha. Eu fiquei tão encantada com aquilo, com as composições, a forma de tocar, que eu ia toda quarta-feira lá, procurei até casa para morar em Ramos (risos) de tão apaixonada que eu fiquei! Até que um dia eu falei: espera aí, vou gravar esses caras! Eu vou gravar esse som, é um som novo! E é novo até hoje, até hoje não surgiu outro.

Então, eu fiz o disco Pé no chão, que é um divisor de águas na minha carreira por ter trazido esse novo som de samba. No ano seguinte eu fiz Beth Carvalho no pagode. E aí chegamos ao problema: a palavra pagode. Essa palavra deliciosa, muito antiga, desde quando Tia Ciata veio para o Rio de Janeiro, que tinha pagode, vários sambas da antiga falam essa palavra, mas ela estava esquecida, não sei. Quando eu trouxe Beth Carvalho no pagode houve um boom por conta da força natural da palavra e aí tudo virou pagode. Tudo o que não era samba de verdade virou pagode. Entrou na moda, assim como aconteceu com a bossa nova. Teve uma época em que a geladeira era bossa nova, máquina de lavar era bossa nova…

Presidente Bossa Nova! (risos)

…pois é, e isso aconteceu com a palavra pagode, sendo que pagode, pra explicar pra vocês, ela tem três significados: um é o pagode chinês, aquela casa chinesa que se chama pagode; o outro é festa, reunião de pessoas, normalmente pessoas que cantam samba, mas não necessariamente, já que no nordeste, por exemplo, existe o pagode com forró; e ainda pode significar a forma íntima de chamar o samba. E ainda tem uma particularidade. Dentro do pagode, qual é o tipo de samba que é mais cantado? O samba de partido alto, que é aquele em que você versa um com o outro. Por ser uma reunião, em uma mesa, onde todos estão juntos, eles têm uma necessidade de um ficar versando com o outro. Por isso que, em uma roda de samba, ele é o tipo mais cantado. É um pagodinho. Zeca Pagodinho, por exemplo. Zeca é o rei do partido alto. Sabe versar muito bem, Arlindo também, Almir Guineto também, então, eis o pagodinho. É isso! Entendeu? (risos).

Agora, porque você se identificou com esse novo som que estava rolando no Cacique de Ramos? O que aconteceu com você nesse período?

Bom, eu me identifiquei com o samba desde criança. Eu tinha uma coisa que ninguém tinha com sete anos de idade: não podia ouvir um surdo ou um pandeiro na avenida que eu já seguia. Minha mãe gostava muito de carnaval, graças a Deus, então me levava pra ver escola de samba desde criança. Escolhi a Mangueira criança ainda, talvez pela exuberância ou pelas cores da bandeira, não sei. O samba sempre me acompanhou. Eu fui uma menina classe média, morava na zona sul, então eu conheço os valores todos da zona sul. Quando a Bossa Nova chegou, eu abracei de corpo e alma, sei tudo da Bossa Nova, comecei a tocar violão, comecei a tocar aquelas aranhas todas. Quando o Milton Nascimento chegou fiquei deslumbrada, virei amiga dele, gravei “Sentinela”, no meu primeiro LP, com a companhia dele. Eu sempre estive ligada aos compositores durante toda a minha vida. Como eu toco instrumentos eu me aproximo mais facilmente do músico, do compositor, eu tenho um diálogo com eles, é muito mais fácil. Alguns cantores não tocam nenhum instrumento e por isso tem uma distância maior. Eu toco, sei um pouco de harmonia, enfim.

E você toca mesmo, é uma cantora musicista.

Assim, não sou aquela musicista (risos), mas eu resolvo o problema. Isso tudo faz com que eu tenha uma visão mais ampla da música. Ainda tenho o ouvido harmônico, o que é uma benção que nasce com a gente. Você não adquire isso. E eu me encantei com a Bossa Nova, que foi um evento fantástico musicalmente falando, politicamente falando eu discuto um pouco, mas aí é uma outra conversa. O samba me preenche muito mais. Eu acho que a Bossa Nova teve que existir, foi um movimento lindíssimo na zona sul, um lugar lindo que eu conheço muito bem, Arpoador, Ipanema, Leblon, Copacabana e que merece ser cantado. Mas eu achava que ficava muito só nisso, não entrava na coisa política, coisa que eu tenho na alma e não nego e que o samba tem também. O samba fala dos problemas sociais, tem esse lado mais revolucionário. Então eu me encantei mais pelo samba, desde sempre. A Bossa Nova vem do samba, um tipo de samba, mas emagreceu muito, ficou só com o tamborim. Tirou a negritude! (risos). E aí vem o Baden e trouxe a negritude de volta. E eu me apaixonei por ele! Veio e trouxe o swing outra vez, os orixás.

Trouxe a África nas costas

Isso! Tão genial quanto João Gilberto. O violão do Baden e o violão do João são dois violões espetaculares, mas o samba é o pai de todos. Não existiria nada disso se não houvesse samba. E essa rapaziada de Ramos tinha tudo isso aí misturado, um pouco de Baden, um pouco de João Gilberto, tinha um pouco da velha guarda. Essa sensibilidade que eu tenho por ser musicista que me fez ver essas coisas, o talento do Zeca Pagodinho, por exemplo. “Meu Deus do céu, será que ninguém vê? Eu estou vendo!” Entendeu? Eu estou vendo Almir Guineto, Arlindo Cruz, o Sombrinha. Eles são geniais, sabe. Fantásticos! E muitos deles não tiveram grandes estudos, como sempre, o samba tem esse “problema”. Mas vou te contar uma coisa, não faz falta nenhuma! São fantásticos, eu sou apaixonada por eles, sou madrinha mesmo. Se as gravadoras fossem sérias e cumprissem o papel delas de descobrir talentos, assim como as editoras, eles não precisariam de madrinha, porque elas é que deveriam descobrir essas pessoas e não eu, mas como não fazem eu acabei fazendo esse papel. Muitas editoras ficavam só esperando meu disco sair, pra ver quem eram os caras, pra chamá-los. Aí davam um dinheirinho e eu dizia, gente, não edita, pelo amor de Deus, porque vocês vão ficar escravos o resto da vida, vão arrumar um parceiro de trinta e cinco por cento, de vinte e tantos por cento, mas era tentador. Pra quem nunca tinha visto um dinheiro maior era tentador, eu entendo. Mas eu falava, eu tentava politizá-los nesse sentido, entendeu. Até que alguns fizessem sua própria editora.

Tem uma coisa aqui que eu não queria perder, queria aproveitar o seu ouvido de musicista, e gostaria de saber sobre essa sonoridade que você passou a gostar. Se a gente pega hoje uma gravação do Zé Keti ou até do Nelson Cavaquinho, do Cartola também, que te forneceram várias canções, e analisando-as percebemos que são bem diferentes do samba que essa turma do Cacique fazia. Vamos falar dessa diferença? Você já falou dos diferentes instrumentos. A primeira pergunta é: de quem partiu essa ideia de pegar o banjo, trocar o surdo pelo tantã? De onde partiram essas mudanças?

Na verdade, foi tudo praticidade. O surdo é um instrumento grande, o tantã é menor, mais fácil de carregar. O banjo foi por uma questão de acústica, ele é mais alto, mais potente, então numa roda de samba ele tinha mais força do que o cavaquinho. Na verdade foi pela necessidade. Incrível, não é? E aí acabou surgindo um novo som a partir disso, por conta da necessidade.

Agora, me corrija se eu estiver errado, falando ainda dessas gravações que eu citei como o Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, quando a gente ouve o samba deles tem uma cadência…

Que é linda!

…tem um ritmo, tem acentos, uma linguagem própria. Quando comparamos com o samba do Cacique de Ramos ele parece mais afro, mais coisa de terreiro. É isso mesmo?

É isso mesmo! Os instrumentos eram mais tocados com baqueta, mas o pessoal do Cacique voltou a tocar com a mão. Isso é mais tribal, concorda? Antes os instrumentos já eram tocados com a mão, isso já existia, como o pandeiro por exemplo, mas o repique agora era repique de mão. O original era tocado com baqueta. O tantã com a mão também. O banjo é mais percussivo. O cavaquinho também é, mas no banjo é mais evidente. E eles usaram uma divisão no swing, na verdade usaram mais, já que Nelson também tinha e acho que são perfeitas também. Era o som que eu fazia, então me agrada muito. Mas quando surgiu a divisão bem marcada pelo repique de mão do Ubirany eu enlouqueci. Eu adoro swing. Então, acho que o swing é maior, mais marcado, é mais tribal e eles são menos comportados. O samba foi ficando muito comportado e, como eu sempre digo, o samba não deve ser comportado. Ele tem um comportamento rock, entende. Ele é pra quebrar tabus, é revolucionário. E essa rapaziada do Cacique revolucionou o som. Inclusive, depois você pode pegar o depoimento do Luis Carlos Reis, que é um técnico da Cia. dos Técnicos, e quando eu trouxe esse som era um som novo para os técnicos de gravação, tanto que hoje o melhor lugar pra se gravar samba é a Cia. dos Técnicos, porque eles se tornaram os professores daquilo. Por exemplo, tirar som do tantã, qual o melhor microfone para isso? O Luis me disse que demorou quatro anos pra se descobrir isso. Ele é seco, duro, não pode ter nenhuma reverberação. Por isso o disco Pé no chão acabou virando uma pesquisa técnica de como gravar o samba.

Foi difícil, tecnicamente, de fazer esse disco?

Assim, ele ficou ótimo, mas foi difícil sim e, a partir dali, eles foram só aprimorando, tanto que essas pessoas gravam samba até hoje: o Teres, o Mário Macarrão, a turma que grava o samba, porque pegaram esses detalhes técnicos.

Por que você acha que esse som, que você ajudou tanto a se consolidar como vertente do samba carioca, acabou virando um gênero? Porque algumas pessoas acham que o pagode é diferente do samba, está alheio, paralelo ao samba e é hoje um dos gêneros mais famosos da nossa música. O que você acha disso?

Tudo que vem do samba é muito forte, mesmo o que sai do caminho, que vira outro tipo de música. Esse pagode para mim, por exemplo, não é samba, é uma vertente do samba, mas que se misturou com jovem guarda, que até possui os mesmos instrumentos, mas não tem a linguagem do samba, o tipo de poesia. Cada música tem seu tipo de poesia, um tipo de melodia e eu acho que esse chamado pagode é outra música, não é um samba, mesmo que utilize os mesmos instrumentos. Esses instrumentos são extremamente comunicativos, portanto comerciais. Toco uma batucada ali você já vai! Brasileiro, estrangeiro, você fica louco! E como a palavra pagode significa samba, a forma íntima de se chamar o samba, gera uma confusão. Mas não é. Na verdade, o que vem sendo chamado de samba de raiz, que na minha opinião não é um termo muito bom, mas serve pra diferenciar, é uma coisa e o pagode é outra coisa. Infelizmente, porque na verdade tudo era pagode, tudo o que eu gravei era pagode, tanto que eu me orgulho de ser pagodeira. Frequento pagode, mas esse pagode que surgiu aí não me agrada e não tem nada a ver com o samba verdadeiro, de um Zeca Pagodinho, por exemplo.

Vamos mudar de assunto? Até aqui está incrível! O que você falou já tá perfeito, sem precisar editar, porque o discurso todo é fantástico. Essa explicação toda é muito boa. O Zeca também deu a explicação dele. Ele é mais intuitivo e com você temos uma visão mais pragmática.

Beth, quando você era criança um pessoal bacana passava pela sua casa como Elizete Cardoso, Silvio Caldas, você se lembra disso?

Do Silvio Caldas sim, mas a Elizete não chegou a ir à minha casa. Ela era amiga do meu pai, ele falava muito dela, mas de ir à minha casa eu lembro mesmo do Silvio. Quando eu tinha cinco anos de idade ele deixou de ir para um show para ir ao meu aniversário, porque eu e meu pai fazíamos aniversário na mesma data, dia cinco de maio. E eu me lembro de que ele era tão nacionalista que no momento de cantar parabéns ele disse: “não, não, essa canção de parabéns não, porque isso aí é uma versão. Vamos cantar assim: Parabéns pra você, parabéns! Muitas felicidades, muitos anos de vida também e sempre a nossa amizade”. (risos) Eu nunca me esqueci disso!

E qual foi a importância desse convívio na sua formação?

Ah, foi muito importante! Meu pai me influenciou muito e me trouxe informações preciosas. Silvio Caldas é uma delas, assim como Elizete, Araci de Almeida, aquele disco do Noel que possui a capa do Di Cavalcanti, com 78 rotações, Luiz Gonzaga, meu pai era nordestino. Dorival Caymmi, que não era querido, era até discriminado na época, só depois passou a ser uma unanimidade, mas quando ele surgiu não era muito entendido, mas meu pai já amava. Ele me apresentou João Gilberto, com o disco de 78 rotações e disse: “minha filha, escuta esse violão”. Então meu pai era muito moderno.

Seu pai era músico?

Não! Mas meu pai era musical. Gostava de cantar.

Seu pai era um cara bacana. Apresentou tudo isso a você!

Ele era sim e me formou politicamente também. De esquerda, foi caçado na época da ditadura, no golpe de 1964, e essa formação foi muito importante pra mim. É importante você ter uma formação política. Ele sempre foi uma pessoa de esquerda.

Ele era do PCdoB?

Não, nem existia PCdoB naquela época, era PC apenas. Meu pai gostava do Prestes, do Brizola, do Getúlio Vargas. Sempre teve ideias de esquerda, trabalhava na alfândega e, no golpe, deduraram meu pai pelas ideias somente. Tentaram prendê-lo e ele se refugiou na casa de um reacionário (risos) que era nosso parente, totalmente de direita, então achamos que ali ninguém o procuraria. E deu certo, pois ele se livrou dessa iminente e absurda prisão. Mas mesmo assim foi proibido de trabalhar e foi um período meio difícil da nossa vida. Ele era bacharel em direito, mas não podia advogar e por isso passou a exercer a fisioterapia, mas foi um baque financeiro e moral. Com o tempo eu comecei a fazer sucesso, minha irmã era publicitária e ganhava bem e aí a gente segurou a onda.

Antes de começarmos a gravação do programa, você me disse que o projeto Conjunto 3D, encabeçado pelo Antônio Adolfo foi um projeto importante em sua carreira. Vamos falar um pouco sobre ele, por favor, Beth.

Ele me fez, de certa maneira, voltar a ser profissional da música, porque esse projeto é de 1967, acredito, e em 1965 eu havia gravado o meu primeiro compacto, mas eu ainda não levava muito a sério a carreira de cantora. Estava fazendo pré-vestibular em psicologia. Eu só gostava de cantar, mas não estava imbuída da profissão. O Antônio Adolfo, que já me conhecia por causa das rodas de violão e do colégio, falou de um projeto baseado no Sérgio Mendes e me convidou para ser a cantora. Sérgio Mendes estava fazendo um sucesso enorme naquele momento.

Ele foi importante pra música brasileira?

Eu acho que foi. Ele divulgou a música brasileira, principalmente o samba, no mundo inteiro. Um samba diferente do samba tradicional, mas era samba e conseguiu fazer um som próprio, um novo som. Eu gosto muito. Ele foi muito aceito no mundo todo, todo mundo gostava. Então, Antonio Adolfo queria fazer no Brasil um Sérgio Mendes (risos), me chamou e perguntou se eu conhecia algum cantor que pudesse fazer dupla comigo. Eu disse que tinha um aluno de violão, que era o Eduardo Condes. Ele canta bem, tem uma voz bonita. Fizeram um teste com ele e pronto. Adoraram e nós fizemos o projeto juntos. Eu mudei bastante o repertório porque tinha muita música americana. Não tenho nada contra esse tipo de música, mas eu sou mais brasileira e essa era a proposta. Aí coloquei Chico Buarque, músicas do Menescal e do Bôscoli, acho que do Marcos Valle também e o Antônio Adolfo aceitou. Fizemos então vários programas de televisão. – “Sonho de lugar”, “Canto ou Fugo” do Menescal e Bôscoli. Tem também “Roda” do Gilberto Gil, “Noite dos mascarados” do Chico Buarque. Foram essas que eu coloquei.

Muito legal! E esse projeto só teve uma gravação em Copacabana. E o projeto deu certo? Vocês se deram bem, fizeram shows?

Sim, foi muito bacana. Foi ele que me fez voltar para o meio artístico com mais intensidade. Fizemos televisão e começamos a tocar em clubes. Logo em seguida, em 1968, veio o festival Internacional da Canção, na Rede Globo, e eu cantei “Andança” e aí foi um estouro no Brasil todo.

Daí veio o convite pra gravar o primeiro LP pela Odeon, certo?

Isso mesmo! Que também se chama Andança.

Vamos dar uma ouvida nessa gravação?

Vamos. Eu cantei aí com os Golden Boys, né!(risos)

(risos) Sim, que eram da jovem guarda.

Eu os considerava o melhor conjunto vocal do Brasil. (risos) Isso é barulheira boa! Arranjo do Gaé. Isso é toada moderna!

Pois é, eu ia te perguntar sobre isso. Vamos falar um pouquinho sobre toada moderna. Esse termo está um pouco extinto hoje. O que era exatamente isso naquele momento, Beth?

Olha, eu sempre fiz parte de turmas. Várias ao mesmo tempo. Tinha a rapaziada do samba, da Mangueira. Já a música do momento, como Antônio Adolfo, Tibério Gaspar, Arthur Verocai, Arnoldo Medeiros, Edmundo Soto, Paulinho Tapajós, essa era a minha geração. Podemos chamar de filhos da Bossa Nova. E estávamos criando sons. Um deles foi o forró soul, o outro foi o toada moderna, onde o Andança se encaixa. Ele é a toada nordestina, ou sertaneja, com um toque mais moderno.

Uns arranjos quase tropicalistas né, um sabor de Lindolfo Gaya. Não se usava muito esses arranjos, como posso dizer…

Festivalescos?!

Isso. Era bastante comum nesse período você pegar a gravação e levar para o maestro arranjar e aí coloca orquestra e outros recursos que ele dispõe e, às vezes, isso vem com uma carga de música erudita, ou de música pop etc.

Sim e eu até hoje utilizo os maestros, como Ivan Paulo, Rildo Hora. O arranjador, como o próprio nome diz, ele só arranja, já o maestro conhece todos os instrumentos, todas as tessituras dos instrumentos e sabe utilizá-los da melhor maneira possível. Agora não precisa ser necessariamente uma orquestra do tamanho que se usava naquela época. Hoje não é mais bem assim até por questões econômicas, mas que era bonita era! Pomposo! Era demais gravar com as orquestras, era lindo!

Beth, tem mais uma gravação desse período, da fase da Odeon que eu queria que você comentasse que é “Rio grande do sul na festa do preto forro”. Sei que a gravadora não entendeu direito o projeto, o que aconteceu?

Ali já era a minha proposta de ser sambista. E sabe como eu gravei essa faixa? Naquela época a gravadora entrava de férias e os maestros eram da gravadora, os músicos, todos funcionários, então não tinha ninguém praticamente da música brasileira popular da época pra tocar na gravação. Então eu fiz com os The Fevers essa gravação, acredita? Então eu peguei o Dario Marciano que era o compositor da música e tocava um violão interessante, canhoto inclusive, e coloquei-o junto com os Fevers! (risos) e ainda coloquei o Juquinha no surdo, que era baterista do João Gilberto. Se não me engano foi ele. A música era um antigo samba enredo da antiga Unidas de São Carlos e eu queria gravar porque eu achava lindo. Ganhou inclusive o standard de ouro do ano de melhor samba enredo. Quando eu quis fazer o meu disco de samba mesmo, já decidida, a Odeon não quis porque eles estavam com um projeto com a Clara.

E você seria uma concorrente na própria gravadora.

Exatamente! Não ia dar certo. Eles estavam querendo fazer com ela esse trabalho. Por isso eu pedi a rescisão de contrato com eles. Aí fui pra Tapecar, na Av. Brasil, uma caixa de fósforos (risos), muito pequena, mas o Manolo queria muito que eu fosse pra lá, o dono da gravadora. Por isso, eu virei a rainha naquele lugar, fazia o que eu queria. Dona do pedaço. Depois que estourei então com o disco Canto para um novo dia foi uma beleza! Ele tinha um contexto, uma mensagem política. Toquei “Lei seca”, com Nelson Cavaquinho tocando. Depois lancei “Pra seu governo”, também com um recado político, e aí estourei outra vez com “Milheiro de santas colinas”. E essa é a história!

Ouvindo o seu primeiro LP hoje, Andança, vemos um tipo de samba tocado de forma diferente e você está acompanhada pelo grande Som trate, César Camargo Mariano, Sabá e Toninho na bateria. Então, vamos falar um pouquinho dessa sonoridade muito específica de uma turma.

Pois é, eu vi esse trio e me apaixonei. Eu os conheci em São Paulo e pensei: “esses caras são muito bons”, e fiquei com isso na cabeça. Quando fui gravar o meu primeiro LP quis fazer com eles. Eles tinham uma ligação com a Odeon, não me lembro o porquê.

Eles fizeram alguns discos depois lá.

Pois é, e falei com o César Camargo. Ele me diz hoje que não sabia ler nada de partitura, mas nós tínhamos arranjos escritos por maestros e ele só no ouvido (risos). Agora, o que teve de swing no meu disco não estava no gibi, né! Nessa época ele era casado com a Marisa Gata Mansa, ainda nem existia Elis. E esse som, que depois a Elis utilizou, já estava no meu disco em 1969.

Vamos destacar mais uma faixa desse disco raro: “Sentinela”, do Milton Nascimento. Vamos ouvir um pouquinho.

Era uma sonzeira, muito bem gravada.

Ah, a Odeon tinha um super estúdio e o Nivaldo Duarte que era o cara para isso.

O Caçulinha fala até hoje que ninguém tinha uma mão esquerda, de pianista, igual a do César Camargo.

Pois é, danado né. Mas tem uma coisa: você sabe que quem criou esse swing, a levada dessa música foi Marcos Valle, rei do swing (risos). E eu tocava “Fechei a porta” em um show com Milton Nascimento, Marcos Vale e Danilo Caymmi.

Nossa! Sensacional!

(Risos) E o Marcos me acompanhava nesse swing. Quando eu fui fazer o disco, falei: “eu quero isso aqui, César” (cantando o swing). Eu já tinha todo o resto da melodia na cabeça, mas esse swing é dele.

Bom, vamos dar um salto aqui e ouvir uma faixa do disco Pra seu governo, de 1974, que arrebentou. Vamos ouvi-la. Você até já citou.

Bom, na bateria temos Wilson das Neves e no violão-tenor o José Menezes, grande músico. E essa bateria deu um molho (risos).

E essa faixa te deu uma projeção nacional, certo? As coisas mudaram pra você não é mesmo, Beth?

Ah, mudaram sim. A partir daí eu fiquei popular mesmo, de sucesso. E a cada disco tinha mais sucesso. E foi uma coisa boa porque eu queria tanto fazer esse trabalho, e consegui fazer isso com uma gravadora pequena. A coisa aconteceu e então fui convidada pra ir à RCA.

Você ficou muito grande para a Tapecar você acha?

Talvez. Para o esquema da época, talvez. Hoje não tem mais nada, mas naquela época eram pôsteres, um maior que o outro, diferente de hoje. A Tapecar fez um papel bom, me projetou direito, mas aí veio um convite irrecusável da RCA, com luvas, coisa que existia naquela época. Eu dei um salto financeiro que nunca imaginei. Aí eu gravei o terceiro disco Pandeiro e viola ainda com a Tapecar, mas já tinha contrato com a RCA.

E em 1977 ainda temos uma gravação aqui que não podemos deixar de comentar o disco Mundo melhor.

Já é pela RCA!

Então com as suas luvas pagas, com melhor qualidade de vida, você gravou aqui uma faixa que se tornaria um dos maiores clássicos da música brasileira que é “As rosas não falam”.

Sim! Recebi direto do Cartola.

Você já vai contar essa história então. (ouvindo a música)

Vamos contar a história dessa música, Beth. O cartola tinha feito a música, mas aí passou pra você. Como foi isso?

É o seguinte, o Cartola aconteceu nos anos de Dalva de Oliveira, de Francisco Alves. Depois sumiu, mas retornou com toda a força na época da Nara Leão, quando ela fez o show “Opinião” e gravou “O sol nascerá etc. Depois veio o movimento da Bossa Nova, o samba teve uma queda muito grande e o Cartola sumiu outra vez. Muita gente pensava que ele tinha morrido. Como eu tava no samba, sabia que não, mas muita gente pensava isso. Em 1974 eu fui na casa dele junto com o Rildo Hora, meu produtor. E eu perguntei pro Cartola se ele tinha a música. Ele disse: “tenho, minha filha!”. E aí cantou as “Rosas não falam”, “O mundo é um moinho”, “Acontece”, “Corra e olhe o céu”. Só sucesso, só obra-prima (risos) eu fiquei encantada. Mas aí escolhi “As rosas não falam”.

Ela é solene, né.

É linda. Todas são, “O mundo é um moinho” também, tanto que gravei no ano seguinte. E dei uma sorte imensa com “As rosas não falam” porque a música foi um estouro. Virou abertura de novelas das oito, coisa que ajuda muito e você sabe disso (risos). Ela foi gravada com o Dinho no violão de sete cordas, o Luiz Maia faz o baixo na segunda parte da música, com arranjo do Orlando Silveira, o Abel Ferreira no clarinete, e a música, graças a Deus, estourou. Então saiu o disco do Cartola. No ano seguinte eu gravei o “Mundo é um moinho”, também foi um sucesso, e passei então a gravar o Cartola sempre. Até mesmo depois da morte dele. Lancei até um disco só com músicas dele.

Agora vamos falar do disco Os botequins da vida. Eu acho o som desse disco espetacular. Vamos falar um pouquinho dele.

Olha, o aprimoramento da minha gravação foi aí.

O aprimoramento técnico, certo? Agora a gente já sabe que não é fácil gravar samba e esse disco está tão bem gravado, tão bem feito que eu queria ouvir um pouco.

Sim, e não podemos esquecer o mérito também dos técnicos de som da Cia. dos Técnicos e do Rildo Hora.

Ele sempre esteve com você nos seus trabalhos?

A partir da RCA, sim. Do disco Um mundo melhor.

Ele fez todos a partir daí?

Não, fez sete. E nesse ano vai fazer outra vez.

Legal. Vamos escutar agora uma faixa que fez muito sucesso nesse disco de 1977, “Saco de feijão”. Essa também arrebentou nas rádios brasileiras. (Ouvindo a música)

Chico Santana. Primeira música dele gravada. Já tinha 70 anos!

Acelerou o andamento né, Beth! Essa turma do Cacique que acelerou o andamento do samba?

Na verdade nesse disco ainda não tinha o pessoal do Cacique, mas dei uma acelerada sim, já está mais rápido do que o samba de antes.

Uma faixa sensacional falando inclusive de um dos problemas da época, a inflação. Você que é uma grande pesquisadora, estudiosa, como é que você chegou nessa composição, Beth?

Se não me engano foi o Monarco que mostrou esse samba. Ele é um cara generosíssimo, maravilhoso, não é egoísta. Sempre mostra os sambas dele e de outros compositores e esse foi ele quem me mostrou. Chico Santana, que nunca havia sido gravado já com uns 70 anos. Ele era da velha guarda da Portela. Eu sou a cantora que mais gravou velha guarda da Portela, você acredita? Apesar de ser mangueirense, gravei mais de 80 sambas. Ele me mostrou e eu achei sensacional. Gravamos e foi realmente um grande sucesso, em um momento de inflação no Brasil muito forte e a alegria que eu dei pra esse compositor foi sensacional. Imagina você viver 70 anos sem nunca ter nada gravado. Isso aconteceu muito comigo. Quando eu gravei “A chuva cai” aconteceu a mesma coisa. (cantando trecho da música) Foi um sucesso grande e também saiu da velha guarda da Portela, Argemiro e Casquinha. Argemiro nunca havido sido gravado. Com mais de 60 anos, ele concertava geladeiras. (risos)

Isso acontece muito no universo do samba?

Muito. Eles têm outra profissão normalmente. São pessoas do povo e eles tem que sobreviver. É muito difícil viver de música. A turma da classe média, da classe média alta conseguiu um pouco mais viver da música, mas para a turma do povão é mais difícil. Por isso acontecia muito isso. Almir Guineto era assim. Só depois que ele entrou para os Originais do samba pôde viver de música. Tanto como compositor quanto cantor, mas as histórias deles são sempre muito duras. É difícil.

Bom, vamos ouvir mais uma música desse disco ainda, Os botequins da vida, “Carro de boi”. Beth, é muito boa essa letra! Eu escolhi essa faixa aqui, antes de irmos para o De pé no chão, porque ela tem uma imagem quase rural, com carro de boi, lama, se reportando a um tempo anterior ao da época da canção.

É, o sambista tem essa coisa de falar sobre esses períodos como tema. Por exemplo, os sambistas são muito ecológicos! (risos)

Eu até arriscaria dizer que, em alguns casos o sambista fala de assuntos políticos ou sociais, mas não se dá conta. Agora, nesse caso, eu até me lembrei do período da escravidão de alguma forma, pelo menos foi a leitura que eu fiz de alguns trechos. Isso poderia ter sido cantado por um escravo, por exemplo.

Sim, o samba tem dessas coisas. E a canção também é um partido alto.

Como você define o partido alto, Beth?

Olha, o partido alto é o repente nordestino. Você tem um tema e os versos de improviso. Você tem que versar de acordo com o tema. Hoje em dia está uma bagunça, versam qualquer coisa, mas não é assim. Você tem que pegar o mote, o tema. Os campeões disso são Almir Guineto, Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz. Eles têm uma facilidade impressionante pra fazer versos. E eu cansei de ver os caras fazendo ali, na hora, coisas que depois eu gravei. Por exemplo, “eu não quero saber mais dela/fui embora da Portela/dizendo que o samba lá em Mangueira que é bom/ ah, meu Deus do céu,/ minha doce companheira/ se mandou de Madureira, seja o que Deus quiser/ foi morar no chalé/ Ah, meu Deus do céu,/ minha doce companheira/ se mandou de Madureira, seja o que Deus quiser. Foi embora por que quis como atitude leviana/, mudou da água pro vinho/ pensando em conquistar a fama” – aí o outro – “mas fique certa que jamais terá perdão/ quando a cabeça não pensa/ quem paga caro é o coração/ eu não quero saber”. Isso eles fazem na hora, imagina? (risos)

Eu vou pegar esse gancho, desses três grandes artistas: você tem uma relação estreita com o Zeca há muito tempo, já que você praticamente o lançou como compositor. Pode resumir essa história pra gente?

Ah, o Zeca era uma figura que frequentava os pagodes da vida. Um dia ele chegou ao Cacique, acho que em 1983, por aí. Eu cheguei ao cacique em 1977. Ele veio depois, uns seis anos depois, quando já era uma roda de samba forte ali. E chega aquela figura magra, com o cavaquinho dentro de uma sacola de supermercado, chinelo de dedo, magro mesmo! Aí chegou querendo cantar um samba, o pessoal nem queria ouvir direito e eu: “pera aí, gente, o cara é bom!”. Porque tinha uma disciplina sabe, as pessoas eram muito rigorosas no Cacique. Não era qualquer um que podia chegar e tocar, eles faziam parar mesmo. Era um negócio bravo! (risos).

Mas eu falei que o cara era bom: “vamos ouvir aqui que o cara é bom, pessoal”. Aí ele começou, “Camarão que dorme a onda leva”. O nome já é espetacular, né. Aí foi:

“Não pense que meu coração é de papel, não brinque com meu interior, camarão. Camarão que dorme a onda leva hoje é dia da caça, amanhã do caçador”.

Aí ele começou a versar com isso. E eu nunca falo isso pra compositor, mas eu falei: “eu vou gravar esse samba, e eu quero você cantando comigo!” Ele foi o único que eu elegi assim pra cantar, porque eu vi nele um negócio diferente. Todos são ótimos, geniais, mas ele tinha alguma coisa a mais, não sei o quê. Aí fomos gravar. Ele nunca tinha gravado, nunca tinha nem entrado em um estúdio e naquele ano a gravadora tinha inventado, a RCA, tinha comprado um microfone de ouro. (risos) E aí a gente ia estrear o tal do microfone. E eu falei pra ele: “Zeca, você vai cantar em um microfone de ouro!” A gente riu, mas ele não sabia nada de gravação. Botou aquele fone no ouvido e eu falei: “olha, fecha o olho, faz de conta que você tá no Cacique de Ramos e canta, meu filho!”. E assim foi. Fizemos um Fantástico, ele novinho. Aí eu queria que a RCA fizesse um disco com o Zeca, mas eles não quiseram fazer. Então a RGE fez e o Zeca vendeu um milhão de cópias! Os caras não me ouviram, mas às vezes demora pra cair a ficha das gravadoras. E o melhor: depois ele foi pra RCA!

Isso é interessante não é, Beth, porque um artista vender o que o Zeca vendeu no primeiro disco é muito difícil! Isso aconteceu poucas vezes no mercado brasileiro.

Sim, ele é um fenômeno. O cara é fantástico! E ele é visto assim por todos os sambistas. Todo mundo o reverencia. Ele tem algo a mais que eu não sei explicar. Pode ser o carisma, não sei, ele é muito, muito engraçado, tem umas sacadas boas, muito espontâneo, sabe. E quando ele gosta de você ele gosta mesmo! Mas não sei explicar, eu me sinto muito bem com o Zeca, acho que ele merece todo o sucesso que fez, e ainda faz, e tudo o que ele produz é extremamente verdadeiro.

E por que você acha que a carreira dele tem essa longevidade?

Justamente por ser verdadeiro. Ele é cultural, faz cultura, e quem faz cultura é eterno. Quem não faz cultura não tem jeito, é passageiro. Acho que é por aí!

Eu concordo, Beth.

Você só pode ser universal se você conhece o seu quintal. O samba é uma música universal. Em qualquer lugar do mundo faz sucesso. E se você não é do samba você vai ter que cantar um pra representar o Brasil. É uma força espetacular. Eu o reverencio todo dia, agradeço todos os dias, porque tudo o que eu tenho foi o samba quem me deu.

Declaração sensacional, Beth. Nem vou falar mais nada!

Bom, vamos falar então do disco De pé no chão. A gente tem aqui entre os compositores desse disco o Monarco. Como foi o processo de escolha deste, que é um dos discos mais importantes da sua carreira?

Bom, como já falei, ele representa aquele novo som do samba, com repique, banjo e tantã. E foi ali que começou, para o mundo, o som do Cacique de Ramos. O bloco Cacique de Ramos já existia e essa roda de samba surgiu também a partir do bloco, a partir de uma necessidade de mostrar a arte, o samba pros outros, mas era restrito. O Alcir Portela, que era capitão do Vasco da Gama, me levou lá.

Você é vascaína?

Não, eu sou botafoguense. Ele é conhecido como Alcir capita, me levou lá e eu conheci essa rapaziada, em 1977. Em 1978 eu fiz esse disco, o Pé no chão. E esse nome tem a ver com esse momento que eu vivia, eu fiquei mais pé no chão, mais povão, vivenciei isso com eles, indo com eles pra todo pagode que acontecia, com churrasco, futebol, piscina, era uma coisa! Era um dia inteiro de lazer e samba. E esse disco é o resulto da vivência de um ano com os caciques. No disco eu gravo um pouco eles e um pouco a turma que eu já gravava, como Monarco por exemplo. Coloquei-o com esse novo som, entende? Tem também “Vou festejar” que foi um estouro nacional que é do Neoci, Dida e Jorge Aragão. Tem “O Isaura”, tem “Goiabada cascão”, que é do Wilson Moreira e Nei Lopes. Tem “Agoniza mas não morre”, que é velha guarda da Mangueira. Então eu misturei a turma do Cacique com a turma da velha guarda que eu já gravava antes.

Essas misturas e essas experiências, naquela época, às vezes, poderiam não ser aceitas. Como foi a receptividade dessa nova concepção de samba?

Por incrível que pareça, foi totalmente favorável. Muito boa, ainda bem! O som que eles faziam era muito popular, apenas nunca tinha sido gravado. E como eu nunca deixei a gravadora se meter nas minhas gravações, eu sempre assumi os erros e acertos que tive com sons novos, então foi tudo bem. Não teve essa coisa de a gravadora apostar em uma coisa e o público querer outra. Eu cheguei pro Rildo e falei que tinha conhecido uma galera e que eu queria gravar as músicas deles. Ele me disse: “Beth, cuidado porque uma coisa é no quintal, outra coisa é gravar em estúdio”. Eu disse que ele tinha razão, mas que eu apostava o que ele quisesse que daria certo. Então fizemos um bate bola, que é uma coisa que sempre fizemos: gravávamos as músicas que eu queria primeiro, depois fazíamos uma espécie de júri escolhendo essa ou aquela. E ele disse: “Vamos fazer um bate bola com esses caras”. E eu topei e garanti que funcionaria. E aí lá foi todo mundo tocar pra fazer isso. O Ubirany estava com um repique de mão furado, teve que colocar fita crepe, (risos) e só tinha aquele, não tinha mais nenhum no mundo! Ele que inventou aquele negócio, ele construiu. Aí gravamos e o Rildo disse: “é, você tem razão. Vamos fazer com essa rapaziada que isso não é brincadeira não”. Então ele acabou apostando na minha história também e fizemos esse disco com esse novo som. Arrebentou no país! E aconteceu uma coisa maravilhosa: a música “Vou festejar” virou uma música de carnaval do Brasil inteiro e ainda por cima levantou o bloco do Cacique de Ramos, que tava bem caído. Já tinham saído umas cinco mil pessoas então ele tava bem decadente. Quando veio a música “Vou festejar” o Cacique saiu com 10 mil às ruas. O bloco voltou a ser o que era, surgiu um novo som e novos compositores, como Jorge Aragão, Dida e Neocir, por exemplo, eram desconhecidos e até hoje é uma música famosa. Eu recebi um prêmio no Botafogo há pouco tempo atrás, fiz a volta olímpica e todo mundo cantando “Vou festejar”. Porque virou música de futebol. Do Botafogo, do Atlético Mineiro, é o hino deles. E essa música eu gravei em 1978, e agora estamos em 2011!

E essa música acabou entrando para o cancioneiro carnavalesco?

Sim, tem a ver porque, afinal de contas, eles estavam ali dentro de um bloco carnavalesco, que é o Cacique de Ramos, entendeu.

Bom, durante toda essa entrevista a gente falou da sua trajetória, mas a gente sempre citou o Cacique de Ramos. Define um pouco esse bloco, porque não é só um bloco, não é?

É (risos), ele virou uma filosofia. O Cacique tem muito fundamento. Ele tem uma tamarineira, por exemplo. As árvores são um símbolo muito forte entre as escolas de samba. Mangueira, Portela tem uma jaqueira, Salgueiro, e o Cacique tem a tamarineira. A mãe do Bira e do Ubirany, que são presidente e vice do bloco, era mãe de santo. Ela abençoou aquela árvore e disse que quem tocasse ali teria sucesso na vida. E realmente é uma coisa impressionante porque todo mundo que surgiu dali fez sucesso. Todos esses que eu revelei, Jorge Aragão, Zeca, Arlindo, Luiz Carlos da Vila, Sombrinha, Sombra, Marquinho PQD, Marquinho China etc. Você pode não conhecer de nome, mas são sucesso em vários sambas. Todos vieram de lá.

Então o Cacique, como bloco, surgiu estourando. Fará 50 anos em 2011. E fez sucesso porque também veio diferente de todo mundo. Existia o Bafo de onça que era maravilhoso, sucesso absoluto. Veio o Cacique com uma roupa de napa, bolada genialmente. Sabe roupa de boneca, quando a gente corta e cabe em todo mundo? A roupa do Cacique cabia em qualquer pessoa, porque é de napa, um padrão. Se você é gordo, coloca um barbante enorme e serve. Do tamanho que for, todo mundo veste a mesma roupa. E o desenho é do Bira. É um desenho tão bonito que o Carlos Vergara, artista plástico, fez uma exposição no museu de arte moderna sobre as fantasias do Cacique de Ramos. Eles têm uma influência indígena. Os nomes deles são Ubirajara, Ubirany, Ubiraci, Ubiratan, os quatro irmãos. Tem também a influência do candomblé, do samba. Eles são instrumentais na essência. O Bira toda pandeiro e o Ubirany o repique de mão. Então eles criaram esse bloco que passou a ser o principal rival do bloco Bafo da onça e até o superou, depois, com vários sucessos que eles tiveram na avenida com sambas de carnaval. “Nesse carnaval não quero mais saber de brigar com você. Vamos brincar juntinhos, água na boca pra quem ficar sozinho”. E o desfile deles também é diferente, tem uns índios vestidos de Ráfia, sabe. É diferente. Até, então, encontrar essa roda de samba que é completamente diferente de tudo o que eu já tinha visto.

Agora, não deixa de ser curioso o fato de você ter ido até o Cacique de Ramos, em um período seu economicamente difícil, e você resgata esses compositores e tudo o que eles precisavam para surgir e pra você recuperar seu período de graça vem nesse disco. Então ele é energeticamente interessante, a maneira como as coisas se arrumaram, como você foi importante nesse processo. Você já pensou nisso? Eu sei que isso parece muito esotérico da minha parte, mas não dá pra não acreditar que algumas coisas estão além daquilo que a gente enxerga.

Assim, a gente, no momento em que está fazendo uma coisa, não para pra olhar a história toda. Às vezes, a gente tem que se distanciar da coisa pra ver bem. Hoje eu vejo melhor isso tudo que aconteceu, porque foi uma coisa muito forte. A nossa amizade, por exemplo, é indestrutível. Ninguém vai conseguir destruir a minha amizade com eles. É muito forte. Eu me doei e eles também de uma maneira que viramos uma família. E temos muito respeito entre nós então é uma relação que além de muito forte foi muito boa pro Brasil, porque em cada esquina desse país, logo após esse disco eu via um repique de mão e um tantã na rua.

Também tem o fato de ser uma formação fácil de você organizar, não é? Não custa muito. Qualquer músico, grupo de músicos, consegue montar essa formação.

Sim, em cada esquina você via uma criança, qualquer pessoa tocando isso. No Brasil todo e até hoje é meio assim. E eu falei pro Ubirany patentear o instrumento, mas ele não fez isso!

Vamos ouvir mais um pouco aqui. A “Goiabada cascão” que também é muito boa. Essa gravação tem uma citação sensacional sobre o Sérgio Cabral.

Sim, é boa mesmo. E essa música, por exemplo, é um partido alto. Isso foi muito reforçado no som do pessoal do Cacique. É um acento sensacional, que dá muito swing (reproduzindo o acento com as mãos, com palmadas). Eu adoro percussão. Eu sou uma pessoa da harmonia, mas meu disco é muito percussivo. Eu adoro. E adoro o carnaval também. Sou carnavalesca mesmo, sabe. Quando tinha mais de 40 bailes de carnaval, na época, eu ia a todos. Mudei pra Tijuca onde tinha mais baile do que na zona sul. Completamente louca por carnaval. Decorava umas setenta músicas de carnaval por ano, disputava com a minha irmã quem sabia mais, até quando eu fiz um pot-pourri de marchinhas de carnaval eu percebi que a partir de 1964 acabou o carnaval, isto é, a partir do golpe. E até hoje eu canto essas marchinhas, que são geniais. Aí eu percebi que a partir de 1964 só tem porcaria, só coisa ruim. Em 1968 Caetano fez “Chuva, suor e cerveja”, que deu um buchicho. É muito boa. E eu termino o meu pot-pourri com essa música. Depois só venho “Vou festejar”, em 1978, ou seja, só dez anos depois! Então virou moda gravar isso. A Gal gravou “O balancê”, que não era nova, era uma regravação. Mas os artistas começaram a gravar samba outra vez, a resgatar. E, no ano seguinte, eu gravei “Coisinha do pai”. Eu continuei na luta de ter música de carnaval nos discos, que é uma coisa importante. Aí gravei “Caciquiano”, “Suor no rosto”, “Toque de malícia”, todas músicas de carnaval.

Beth, eu queria que você destacasse uma das duas músicas do Monarco que você gravou e eu queria que você destacasse uma delas e também que falasse um pouco sobre essa figura sensacional que é o Monarco.

Ah, ele é minha paixão! As músicas são “Lenço” e “Linda borboleta”. Ai, difícil escolher! Olha, o “Lenço” é mais popular. Agora “Linda borboleta” é uma letra lindíssima do Paulo da Portela que o Monarco musicou depois da morte do Paulo. Ele não teve o prazer de ouvir. Mas vamos falar da “Lenço” que é bem popular, a faixa oito. (ouvindo a música)

Ah, tem uma coisa que dá pra ver nessa música que é quando os instrumentos entram separados. Nós criamos isso. A gente começou a valorizar isso, na verdade. Criar acho que é uma pretensão, mas a gente valorizou muito isso. A entrada dos instrumentos. Começa com o violão, depois entra o cavaco, o tantã e, por último o surdo. Isso dá uma dinâmica interessante.

Agora, o Monarco é um excelente compositor, tem um excelente caráter, como eu já falei. Não é egoísta, mostra os sambas de todo mundo, tem uma memória sensacional de samba, sabe de tudo. O Nelson Sargento é assim também. Eles se lembram de tudo. É um cara que atua, mesmo com uma idade avançada, teve uns problemas sérios de saúde, se recuperou e está aí na ativa. Um verdadeiro guerreiro e eu o amo. Ele é uma pessoa educada, que luta pelo samba. É um nobre.

E ele transmite essa nobreza na música que eles faz, não é? Tem uma postura, uma cerimônia quando ele se apresenta. E quando ele canta é quase uma figura da realeza se apresentando.

É, ele é mesmo. Mas vários outros sambistas tem isso também, porque o samba é nobre, essa é que é a verdade. Os negros que vieram para o Brasil, muitos deles, eram nobres, mas as pessoas se esquecem disso. O samba é minha nobreza.

(ouvindo a música “Visual”)

Alto o tom né, lá em cima, muito bom!

Beth, essa letra é muito atual. “Visual” fala de assuntos sociais atuais. Aliás, o desfile carnavalesco tem feito isso, apesar de ter mudado muito durante o tempo.

Sim, mas isso tem coisas boas e coisas ruins. Por exemplo, eu não sou contra a tecnologia, mas hoje, por exemplo, não é possível um samba atravessar na avenida porque o som hoje da avenida é muito superior ao do passado. E atravessar que eu digo é atravessar o ritmo. Antigamente todas as escolas atravessavam. Hoje não há essa possibilidade. Isso já é uma grande mudança. A outra é a parte tecnológica de fazer a movimentação dos carros de uma maneira diferente, como por exemplo, o pessoal lá de Manaus que faz isso muito bem.

Os carros hi-tech, né?

Sim, sim, mas isso é uma coisa boa. Agora a aceleração do samba, por exemplo, eu já acho péssimo, porque você não consegue mais sambar. O andamento está muito rápido. Eles aumentaram o número de componentes, mas não aumentaram proporcionalmente o tempo. Então, acaba virando marchinha. Também tem alguns valores, como por exemplo, algumas pessoas que não tem nada a ver com a escola, com a comunidade, têm mais destaque na escola do que pessoas que estão lá o ano todo. Então essas inversões de valores incomodam um pouco, mas não dá pra mudar.

Mudando um pouco de assunto, tenho uma pergunta quase de fã aqui pra você. Esse seu timbre de voz, a gente até agora falou sobre o conceito do samba, o som do samba, mas ainda não falamos da cantora Beth Carvalho. Esse timbre que você tem até agora e teve sempre, você trabalhou isso, venho com você, desceu algum tom, alguma oitava durante o tempo? Esse som um pouco rouco, um tanto grave, quando a gente ouve já sabe que é a Beth cantando! Você gosta da sua voz?

Nasceu comigo, claro, mas eu desci sim um pouco, em algumas músicas. E eu gosto sim da minha voz. Gosto de voz rouca. Gosto de outros cantores assim, por exemplo, adoro a Nana, a Bethânia. Acho que não é nem rouca, mas grave. Gosto de voz grave. Eu não tenho essa coisa de dizer: “ah, eu não escuto meus próprios discos”. Eu escuto a beça! Principalmente quando são lançamento. Eu participo muito do disco, do arranjo etc. Eu estou dentro da coisa, desde a base, não vou lá simplesmente botar voz. Eu estou lá o tempo todo. E quando vamos mixar eu também estou lá. Eu não entendo disso não, na verdade, mas gosto de ficar vendo. Agora da base eu faço tudo. Então meus discos são meus filhos mesmo, acho que é por isso que eu escuto depois com prazer. Eu sei o que vai acontecer, os arranjos, as convenções, porque participei intensamente.

Agora tem uma coisa, que o Caetano falava muito: a voz que você escuta não é a mesma que a gente escuta. Quando você canta, escuta de um jeito, depois a gravação, que é a sua voz de volta, é diferente. Tem gente que não gosta. O que você acha?

Olha, eu acho que é a minha voz mesmo! Acho que fica mais bonita gravada (risos). Está amplificada, cuidada com a tecnologia, com o microfone. Eu adoro microfone, ele é uma maravilha! Mas é minha voz mesmo, não penso em outra. É a minha própria, única!

E você seguiu a voz de alguém pra ter a sua?

Não segui ninguém, não, mas ouvi várias! Acho que eu sou uma mistura de várias cantoras que eu ouvia. Silvinha Teles, misturada com Araci de Almeida, com Elizete Cardoso, com Nora Ney, até Dóris Monteiro. Uma misturada danada. Dalva de Oliveira, Ângela Maria. Eu escutei muito elas, escutei muito rádio nacional. Eu me considero uma cantora de auditório, entendeu. Eu tenho o auditório na minha alma, porque eu gosto de cantar para o público, eu já chego dando amor para o público. Por isso que dificilmente eu vou receber uma vaia. O público sente esse amor que eu estou transmitindo. E era isso que me encantava, que me identificava com essas cantoras aí. Minha mãe me levava pra rádio Mayrink Veiga pra ver Heber de Boscoli, Lamartine Babo e Araçá, eles tinham um programa e eu ia pra lá assistir aquelas cantoras todas e cantores também. Silvio Caldas. Eu sou uma misturada assim. Aí tem João Gilberto também. E sempre gostei dos cantores que tinham mais swing: Jorge Veiga, Blackout, Jackson do Pandeiro. Essa coisa suingada sempre me fascinou. E o Silvio era o mais suingado entre eles. Olha a cor, né!

Pra encerrar agora essa entrevista fantástica que você deu pro Som do Vinil, como você vê o disco Pé no chão na sua carreira?

Continuo achando que foi um divisor de águas importantíssimo, onde eu fiquei mais popular e trouxe um novo som pro samba. Acho que esse é o histórico desse disco. E ainda trouxe uma música de carnaval de volta aos salões.

Muito obrigado, Beth!

Entrevista com Mauro Diniz

Como e quando você conheceu a Beth Carvalho?

Por volta de 1976, em Oswaldo Cruz, onde estavam os grandes sacerdotes do samba: Manacéia, Chico Santana, Alberto Lonato, Alvaiade, Aniceto, Mijinha, Monarco, tanta gente que tenho medo de esquecer. A Beth começou a ir onde eles se reuniam para poder pegar músicas para gravar – ela sempre foi na fonte, tanto que fez sucesso com sambas lá do pessoal da Portela. Às vezes, aos domingos, a Velha Guarda se reunia no fundo da casa da Tia Doca para ensaiar – dali que surgiu o pagode da Tia Doca. Eu tocava violão e como eles falavam que todo contingente tinha que ter um mascote, eu e o Cabelinho éramos os mascotes da Velha Guarda. A Beth aparecia lá e foi aí que nos conhecemos. Graças a Beth, comecei a ser conhecido como cavaquinista. A Velha Guarda foi gravar uma faixa no disco dela, mas quem tocava cavaquinho era o Osmar. Eu fazia parte do grupo e tocava tamborim, fui lá para ganhar um dinheirinho, um cachê, e acabei tocando cavaquinho.

Em que época ela começou a frequentar as rodas do Cacique?

Foi mais ou menos na mesma época, se não me engano, em 1978 ou 1979. A Beth chegava lá no Cacique e eu ainda era meio acanhado, ficava escondidinho com o meu cavaquinho. Acho que a Beth frequentava o pagode um pouco antes, porque foi ela quem descobriu o pessoal do Fundo de Quintal.

Fala um pouco sobre o Cacique de Ramos.

O Cacique de Ramos foi uma escola para muitos compositores, era o “quartel general” da rapaziada, aonde aconteceu o grande boom do pagode, porque todo mundo ia para lá, só se falava no grupo Fundo de Quintal e todas as músicas criadas ali, com aquela levada, foram um estouro. O Cacique tem uma responsabilidade muito grande na carreira de grandes aristas, principalmente na da Beth, que pegou músicas como “Coisinha do pai” e gravou. A Beth tem um olho clínico para detectar quando se está diante de um bom músico, um diamante que ainda precisa ser lapidado. Ela pinça essas pessoas e foi assim que fez com a rapaziada do Cacique de Ramos.

Fala um pouco sobre a formação do Cacique de Ramos com o tantan, banjo e repique.

Na época não se usavam muitos esses instrumentos e os músicos do Cacique de Ramos foram os pioneiros dentro desse esquema: o Sereno, com o tantan, o falecido Delci, que tinha uma levada também diferente, o Ubirany, que foi o inventor do repique de mão, o Almir Guineto, que fez parte do Fundo de Quintal, assim como o Jorge Aragão, e colocou o banjo no samba, e o Bira, com uma levada diferente no pandeiro.

Basta pegar um disco um pouco mais antigo e um com a participação desses músicos para notar a diferença. Antigamente, o samba era uma coisa mais amaxixada, que foi mudando aos pouco. Eles conseguiram colocar mais suingue no samba, mudar sem agredir o gênero, dando continuidade, com bastante autoridade, a um movimento que estava acontecendo nos pagodes.

A Beth se encantou pelo pagode do Cacique e mudou o seu estilo?

Quando a Beth chegou e viu aquilo, percebeu que tinha que levar para o disco e colocou todo mundo no estúdio para gravar. Eu, por exemplo, me considerava um músico que tocava só nos pagodes, mas as pessoas falavam que eu tinha uma levada diferente no cavaquinho e acredito que ela deve ter percebido isso. Fui gravar simplesmente uma música e acabei fazendo o disco dela quase todo. Depois, ela me convidou para fazer parte da banda e trabalhei com ela mais ou menos sete anos. Ela levava para a banda outros músicos também, que observava nas rodas de pagode. Devemos muito à Beth Carvalho pela modificação da linguagem do samba.

Além do olho clínico, como você vê a Beth como cantora e cavaquinista?

Ela toca violão, cavaquinho, banjo e gosto muito do timbre de voz dela, é diferente, as vezes, meio rouco. Ela é uma pessoa interessadíssima em aprender as coisas, tanto que toca tudo no show dela. Foi bailarina também, então é uma artista completa.

O disco De pé no chão foi importante para a divulgação e a difusão do pagode, mesmo tendo só “Vou festejar” do Cacique de Ramos?

Sim. Na gravação, ela pegou o pessoal do Cacique, com os tamancos no pé, e fez um esquema das pessoas batendo com aquelas duas madeirinhas, como se o Cacique estivesse entrando na avenida Rio Branco. Essa música que foi um estrondo e é até hoje, foi pinçada ali. O conteúdo da melodia foi feito, mais ou menos, dentro dessa ideia do Cacique desfilando na Rio Branco.

Como foi a sua participação na cozinha de De pé no chão?

Eu toquei como convidado, por conta dessa minha levada diferente de cavaquinho – eu não sei nem explicar bem o que é isso, acho que é um negócio que parece que vai, mas não vai. Fiquei supersatisfeito quando a Beth me chamou e isso deu um impulso muito grande na minha carreira, devo muita coisa a ela – não só eu, o mundo do samba inteiro.

Como foi a gravação do disco, vocês eram músicos registrados e receberam por isso?

Eu era registrado porque comecei muito cedo, com quinze anos tinha um grupo chamado Quarteto Vitória, inspirado no Trio Irakitan, e cantávamos na Rádio Nacional, no programa do Manoel Barcelos, então era obrigado a ter a carteirinha da ordem dos músicos.  Mas aí eu estava indo mal na escola e o papai ficou chateado, me tirou do conjunto, porque não queria que eu passasse o sufoco que ele estava passando – naquela época era mais difícil, você gravava só uma faixa de cada lado no 78 rotações. Eu fiquei um pouco afastado da música, triste com a situação, porque a minha veia era ser músico, e não paguei mais a ordem. Fui para a Marinha, mas lá acabei indo tocar no conjunto da Marinha e começaram a aparecer algumas oportunidades de viajar e fazer show em que eu ganhava mais do que com a Marinha, aí eu dei baixa, o papai não gostou. Depois fui fazer faculdade de Educação Física, até que tranquei e fui estudar música, porque o meu negócio era esse mesmo, e estou aí até hoje com o meu velho cavaco. Já gravei tantos discos, mas lembro de alguns detalhes. Chegávamos ao estúdio, às vezes a Beth fazia um bate-bola, separava 20, 30 músicas, e peneirava para tirar o repertório, que sempre foi bom. A Beth é perfeccionista, então passávamos várias vezes o som, ela conversava com o Rildo, que tem uma liderança nata, além do conhecimento de música – é um produtor muito sensível. Todos os discos da Beth tem essa peculiaridade de apurar os pequenos detalhes. É um disco marcante na carreira dela, “Vou festejar” ficou até hoje e é obrigatória nos pagodes: quando a coisa está querendo começar perder a força, você mete “Coisinha do pai” e “Vou festejar”, levanta o pagode e o coro come novamente. “Linda borboleta” é uma parceria póstuma com Paulo da Portela, um samba lindo (estou falando que a Beth é esperta para escolher repertório!). Tem “Lenço” também, um samba do papai em parceria com Chico Santana, que o Paulinho também gravou, e que foi muito cantado no terreiro e nos shows da Velha Guarda. A Beth fez alguns shows com a Velha Guarda e ia assisti-los na sala Funarte, creio que já conhecia a gravação do Paulinho e foi se encantando pelo samba. É um samba que está aí até hoje, papai gravou agora no DVD, com a participação da Beth Carvalho. Para mim é um disco antológico, que marcou muito na época. Todo mundo que gosta e fala de samba tem que ouvir esse disco da Beth.

Como é essa história de madrinha?

Ela é a madrinha de quase todo mundo, porque lançou todas essas pessoas. Aonde tinha pagode, ela ia, até para conhecer. Fiz um pagode lá na Beira do Rio, em Oswaldo Cruz, num lugar difícil de as pessoas chegarem, mas mesmo assim ela ia para observar sambas novos. Uma vez, fiz um pagode em Marechal, onde tinha um botequim, e a Beth foi. Então ela ia a todos os lugares que pudesse observar e pegar os sambas e você vê que o repertório dela é magnífico. Além disso, os outros compositores, que não eram do subúrbio, mandavam as fitas para ela ouvir. Ela sempre teve um cuidado muito grande na escolha do repertório e por isso sempre escolheu bem, consequentemente, alcançando o sucesso.

Entrevista com Ubirany

Como você conheceu a Beth Carvalho? 

A Beth Carvalho sempre curtiu demais a noite e nessas idas e vindas ela foi apresentada ao Fundo de Quintal pelo Alcir Capita, jogador do Vasco, na época, e seu amigo antigo. Ele a levou no Cacique de Ramos para participar de uma reunião nossa de samba e depois daquele momento ela passou a ser uma figura constante, curtindo tudo o que acontecia por lá. A Beth atentou para o que estava acontecendo ali, que nós não tínhamos percebido, porque fazíamos tudo com a maior tranquilidade, sem pensar no que poderia significar: reuníamos todo mundo e jogávamos uma pelada, comíamos e tomávamos cerveja, armávamos um pagode. Mas era algo histórico, um movimento de inovação, estávamos fazendo samba de um jeito legal, com novos instrumentos, respeitando o partido-alto.

Você já era fã dela? 

Já era fã. Qual sambista não era fã da Beth Carvalho? Eu era simplesmente mais um deles. Fiquei muito marcado a partir do instante que passamos a conviver mais.

Ela ganhou logo intimidade com o pessoal? Com quem ela se entrosou mais? 

A Beth tem uma facilidade muito grande de entender, pesquisar e descobrir coisas novas no samba. Ela nunca esperou o samba chegar até ela, sempre o buscou no lugar em que ele estava e assim foi quando chegou ao Cacique, sabendo que estava acontecendo algo diferente por lá. Então ela cativou a todos, fez grandes amizades, passamos a conviver no dia a dia, a frequentar a casa dela, foi um momento lindo para nós. Ela gostou tanto do que estava acontecendo no Cacique que levou o Rildo Hora, na época, seu produtor. Ele também curtiu demais e teve a mesma opinião de que se tratava de algo novo no samba e assim surgiu o primeiro convite para participarmos do disco De pé no chão, em 1978. Lá fomos nós com nossos instrumentos, a música “Vou festejar”, que foi o sucesso do disco, e também participamos do coro. Enfim, nós entramos na vida dela e se tornou a nossa grande madrinha Beth Carvalho.

Como foi ir para o estúdio pela primeira vez? 

Foi muito gozado, porque não tínhamos essa experiência. Mais tarde, o Rildo nos contou que uma das surpresas mais agradáveis da vida dele foi no dia em que fomos fazer o bate-bola das músicas que deveriam entrar no disco (aquela fase em que tem 20 músicas e precisa sobrar 12). Ele aproveitou para ver a sonoridade dos instrumentos, equalizar, e enquanto passava cada instrumento, percebeu que cada um tocava de uma maneira. Ele pensou que fosse dar uma confusão federal, mas todo mundo entrou numa harmonia tremenda. Acho que só o Sereno tinha carteira da ordem dos músicos, então para receber o cachê foi um problema, o falecido Marçal nos ajudou, tivemos que receber em nome dos outros, até tirar a carteira.

Como foi a escolha das músicas do Cacique que entraram no disco. Vocês participaram? 

A Beth foi pinçando as músicas lá no Cacique, nas rodas de samba às quartas-feiras, tanto que tem compositores dos mais diversos, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Dida, Neoci, e o repertório é um dos mais lindos.

Acredito que toquei em todas as faixas, porque o disco era só de samba e onde tinha samba estava o repique de mão – ainda mais do jeito que a Beth adorou o repique. Ele passou a ser um instrumento marcante em todas as formações de músicos que ela teve. Trabalhei como músico um bom tempo com a Beth até que, em 1980, fizemos o nosso primeiro disco, Samba é no Fundo de Quintal, e ficou difícil conciliar a agenda, porque a Beth tinha os shows e o Fundo de Quintal já estava acontecendo.

Como foi a relação com os músicos profissionais, no estúdio? 

Naquela época, o famoso trio Luna, Marçal e Eliseu, estava em todos os trabalhos de percussão, com todo mérito, pois eram músicos fora de série. Com a chegada do grupo Fundo de Quintal, apresentado pela Beth Carvalho, sentimos que o círculo era fechado, seria difícil entrar, mas nós soubemos chegar talvez, bem devagar, e nos aceitaram, aprenderam a respeitar o nosso trabalho, como respeitávamos o deles.

Eu nunca esqueci quando o Marçal nos parabenizou, no bar Fundo de Quintal, que o Bira tinha montado com o João e a Anita, os pais do Dudu Nobre, em Vista Alegre, que a nossa levada era impressionante e que cada um tocava de um jeito, mas o encaixe da percussão era único. É claro que diante de todo esse respeito, você só tem que levar cada vez mais a sério o que faz.

Por que na ficha técnica vocês entraram como “pessoal da cozinha”? 

É o apelido que se dá ao pessoal da percussão, que eram todos do Fundo de Quintal. A grande cozinha da Beth Carvalho era essa percussão do repique de mão, instrumento que eu criei, do tantan, instrumento criado pelo Sereno, do banjo, introduzido no samba pelo Almir Guineto (que fez parte da primeira formação do Fundo de Quintal) e é aquele pandeiro do Bira, que tem um jeito muito peculiar, muito próprio de tocar.

Como você criou o repique de mão? 

A Betinha, irmã do Sereno, fazia muitas festas e numa dessas ocasiões o Dircinho, que é baterista, pegou um tom-tom velho de uma bateria e botou na minha mão. Eu sempre gostei da relação mais íntima com o instrumento, sem baqueta, sem intermediário, a mão na pele e vamos embora! Aí peguei aquilo e comecei a tocar, a tirar um som gostoso e surgiu um casamento feliz da minha percussão com a do Sereno, tocando tantan. O Dircinho me deu o tom-tom e onde tinha pagode eu levava, até que um dia, num pagode na rua Araguari, lá em Ramos, estava sem o instrumento e me deram um repinique, de bateria de escola de samba. Eu senti que o som era gostoso, mas abafado, e a partir daí foi surgindo o repique de mão: primeiro tirei a pele do outro lado para liberar o som, depois mandei fazer um aro rebaixado, porque o aro que contornava o repique era alto e machucava a mão. Mesmo assim o som estava agressivo – quando microfonava, o negócio ficava com sobras mil – e tive que colocar abafadores de madeira por dentro. Esses foram os principais detalhes para a criação do repique de mão, esse instrumento que fez escola e que chegou a ser fabricado até no Japão. O grande problema é que eu não patenteei, mas vale o prazer de saber que o instrumento está aí e é tocado por todos. Inclusive, o cara que fez o primeiro, até hoje me cobra quando fabrica um para mim. [risos]

Você ainda escuta De pé no chão, o que acha dele hoje?

Não tem como deixar de escutar, foi o nosso início, o tiro de meta para o Fundo de Quintal, o momento em que nos sentimos prestigiados pela nossa madrinha Beth Carvalho e despontamos para o cenário da música, para o universo do samba. Para nós é um disco antológico mesmo.

Quais faixas que você mais gosta? 

A Beth ria muito de mim, porque eu gostava da “Linda borboleta” e falava que era a melhor música do disco.

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Tiago RodriguesView all posts by Tiago Rodrigues

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